XXV

De dentro do embrulho sahiu um gemido. Correu então para o casebre—quasi esbarrou com a Carlota, que se apoderou logo da criança.—Ahi está, disse elle. Mas ouça lá. Isto agora é sério. Agora é outra coisa. Olhe que o não quero morto... É para o tratar. O que se passou não vale... É para o criar! é para viver. Vossê tem a sua fortuna... Trate d'elle!...—Não tem duvida, não tem duvida, dizia a mulher apressada.—Escute... A criança não vai bem agasalhada. Ponha-lhe o meu capote.—Vai bem, senhor, vai bem.—Não vai, com mil diabos! É o meu filho! Ha de levar o capote! Não quero que morra de frio!Atirou-lh'o aos hombros com força, traçando-lh'o sobre o peito, agasalhando a criança;—e a mulher já enfastiada metteu rapidamente pela estrada.Amaro ficou alli plantado no meio do caminho, vendo o vulto perder-se na negrura. Então todos os seus nervos, depois d'aquelle choque, se relaxaramn'uma fraqueza de mulher sensivel—e rompeu a chorar.Muito tempo rondou a casa. Mas ella permanecia na mesma escuridão, n'aquelle silencio que o aterrava. Depois, triste e fatigado, veio voltando para a cidade, quando batiam as dez badaladas na Sé.A essa hora, na sala de jantar da Ricoça, o doutor Gouvêa ceava tranquillamente o frango assado que lhe preparára a Gertrudes, para depois das canceiras do dia. O abbade Ferrão, sentado junto da mesa, assistia-lhe á ceia; viera munido dos sacramentos para o caso de haver perigo. Mas o doutor estava satisfeito; durante as oito horas de dôres a rapariga mostrára-se corajosa; o parto fôra feliz, de resto, e sahira um rapagão que fazia muita honra ao papá.O bom abbade Ferrão baixava castamente os olhos áquelles detalhes, no seu pudor de sacerdote.—E agora, dizia o doutor trinchando o peito do frango, agora que eu introduzi a criança no mundo, os senhores (e quando digo os senhores, quero dizer a Igreja) apoderam-se d'elle e não o largam até á morte. Por outro lado, ainda que menos sôfregamente, o Estado não o perde de vista... E ahi começa o desgraçado a sua jornada do berço á sepultura, entre um padre e um cabo de policia!O abbade curvou-se, e tomou uma estrondosa pitada preparando-se para a controversia.—A Igreja, continuava o doutor com serenidade, começa, quando a pobre creatura ainda nem tem sequer a consciencia da vida, por lhe impôr uma religião...O abbade interrompeu, meio sério, meio rindo:—Ó doutor, ainda que não seja senão por caridade com a sua alma, devo advertil-o que o sagrado Concilio de Trento, canon decimo terceiro, commina a pena d'excommunhão contra todo o que disser que o baptismo é nullo, por ser imposto sem a aceitação da razão.—Tomo nota, abbade. Eu estou acostumado a essas amabilidades do Concilio de Trento para commigo e outros collegas...—Era uma assembléa respeitavel! acudiu o abbade já escandalisado.—Sublime, abbade. Uma assembléa sublime. O Concilio de Trento e a Convenção foram as duas mais prodigiosas assembléas d'homens que a terra tem presenciado...O abbade fez uma visagem de repugnacia áquelle cotejo irreverente entre os santos auctores da doutrina e os assassinos do bom rei Luiz XVI.Mas o doutor proseguiu:—Depois, a Igreja deixa a criança em paz algum tempo emquanto ella faz a sua dentição e tem o seu ataque de lombrigas...—Vá, vá, doutor! murmurava o abbade, escutando-o pacientemente, de olhos cerrados—como significando«anda, anda, enterra bem essa alma no abysmo de fogo e pez»!—Mas quando se manifestam no pequeno os primeiros symptomas de razão, continuava o doutor, quando se torna necessario que elle tenha, para o distinguir dos animaes, uma noção de si mesmo e do universo, então entra-lhe a Igreja em casa e explica-lhe tudo! Tudo! Tão completamente, que um gaiato de seis annos que não sabe ainda ob-a-bátem uma sciencia mais vasta, mais certa, que as reaes academias combinadas de Londres, Berlim e Paris! O velhaco não hesita um momento para dizer como se fez o universo e os seus systemas planetarios; como appareceu na terra a creação; como se succederam as raças; como passaram as revoluções geologicas do globo; como se formaram as linguas; como se inventou a escripta... Sabe tudo: possue completa e immutavel a regra para dirigir todas as acções e formar todos os juizos; tem mesmo a certeza de todos os mysterios; ainda que seja myope como uma toupeira vê o que se passa na profundidade dos céos e no interior do globo; conhece, como se não tivesse feito senão assistir a esse espectaculo, o que lhe ha de succeder depois de morrer... Não ha problema que não decida... E quando a Igreja tem feito d'este marmanjo uma tal maravilha de saber, manda-o então aprender a lêr... O que eu pergunto é: para que?A indignação tinha emmudecido o abbade.—Diga lá abbade, para que os mandam os senhores ensinar a lêr? Toda a sciencia universal, ores scibilis, está no Catecismo: é metter-lh'o na memoria, e o rapaz possue logo a sciencia e consciencia de tudo... Sabe tanto como Deus... De facto, é Deus mesmo.O abbade pulou.—Isso não é discutir, exclamou, isso não é discutir!... Isso são chalaças á Voltaire! Essas coisas devem-se tratar mais d'alto...—Como chalaças, abbade? Tome um exemplo: a formação das linguas. Como se formaram? Foi Deus, que descontente com a Torre de Babel...Mas a porta da sala abriu-se, e appareceu a Dionysia. Havia pouco o doutor tinha-lhe dado uma desanda no quarto d'Amelia; e agora a matrona fallava-lhe sempre encolhida de terror.—Senhor doutor, disse ella no silencio que se fez, a menina acordou e diz que quer o filho.—E então? A criança levaram-n'a, não?—A criança levaram-n'a... disse a Dionysia.—Bem, acabou-se...Dionysia ia fechar a porta, mas o doutor chamou-a.—Ouça lá, diga-lhe que a criança vem ámanhã... Que ámanhã sem falta que lh'a trazem. Minta. Minta como um cão; aqui o senhor abbade dá licença... Que durma, que socegue.A Dionysia retirou-se. Mas a controversia não recomeçou: diante d'aquella mãi que acordava depoisda fadiga do parto e reclamava o seu filho, o filho que lhe tinham levado para longe e para sempre, os dois velhos esqueceram a Torre de Babel e a formação das linguas. O abbade sobretudo parecia commovido. Mas o doutor não tardou, sem piedade, a lembrar-lhe que eram aquellas as consequencias da situação do padre na sociedade...O abbade baixou os olhos, occupado na sua pitada, sem responder, como ignorando que houvesse um padre n'aquella historia infeliz.O doutor então, seguindo a sua idéa, discursou contra a preparação e educação ecclesiastica.—Ahi tem o abbade uma educação dominada inteiramente pelo absurdo: resistencia ás mais justas solicitações da natureza, e resistencia aos mais elevados movimentos da razão. Preparar um padre é crear um monstro que ha de passar a sua desgraçada existencia n'uma batalha desesperada contra os dois factos irresistiveis do universo—a força da Materia e a força da Razão!—Que está o senhor a dizer? exclamou assombrado o abbade.—Estou a dizer a verdade. Era que consiste a educação d'um sacerdote?Primò: em o preparar para o celibato e para a virgindade; isto é, para a suppressão violenta dos sentimentos mais naturaes.Secundò: em evitar todo o conhecimento e toda a idéa que seja capaz d'abalar a fé catholica; isto é, a suppressão forçada do espirito d'indagação e d'exame, portanto de toda a sciencia real e humana...O abbade erguera-se, ferido d'uma piedosa indignação:—Pois o senhor nega á Igreja a sciencia?—Jesus, meu caro abbade, continuou tranquillamente o doutor, Jesus, os seus primeiros discipulos, o illustre S. Paulo representaram em parabolas, em epistolas, n'um prodigioso fluxo labial, que as producções do espirito humano eram inuteis, pueris, e sobretudo perniciosas...O abbade passeava pela sala, indo contra um e outro movel como um boi espicaçado, apertando as mãos na cabeça na desolação d'aquellas blasphemias; não se conteve, gritou:—O senhor não sabe o que diz!... Perdão, doutor, peço-lhe humildemente perdão... O senhor faz-me cahir em peccado mortal... Mas isso não é discutir... Isso é fallar com a leviandade d'um jornalista...Lançou-se então com calor n'uma dissertação sobre a sabedoria da Igreja, os seus altos estudos gregos e latinos, toda uma philosophia creada pelos santos padres...—Leia S. Basilio! exclamou. Lá verá o que elle diz dos estudos dos auctores profanos, que são a melhor preparação para os estudos sagrados! Leia aHistoria dos mosteiros na meia idade! Era lá que estava a sciencia, a philosophia...—Mas que philosophia, senhor, mas que sciencia! Por philosophia meia duzia de concepções d'um espirito mythologico, em que o mysticismo é postoem logar dos instinctos sociaes... E que sciencia! Sciencia de commentadores, sciencia de grammaticos... Mas vieram outros tempos, nasceram sciencias novas que os antigos tinham ignorado, a que o ensino ecclesiastico não offerecia nem base nem methodo, estabeleceu-se logo o antagonismo entre ellas e a doutrina catholica!... Nos primeiros tempos, a Igreja ainda tentou supprimil-as pela perseguição, a masmorra, o fogo! Escusa de se torcer, abbade... O fogo, sim, o fogo e a masmorra. Mas agora não o póde fazer e limita-se a vituperal-as em mau latim... E no emtanto continúa a dar nos seus seminarios e nas suas escólas o ensino do passado, o ensino anterior a essas sciencias, ignorando-as, e desprezando-as, refugiando-se na escolastica... Escusa d'apertar as mãos na cabeça... Estranha ao espirito moderno, hostil nos seus principios e nos seus methodos ao desenvolvimento espontaneo dos conhecimentos humanos... O senhor não é capaz de negar isto! Veja oSyllabusno seu canon terceiro excommungando a Razão... No seu canon decimo terceiro...A porta abriu-se timidamente; era ainda a Dionysia:—A pequena está a choramingar, diz que quer a criança.—Mau, mau! disse o doutor.E depois d'um momento:—Que tal aspecto tem ella? Está córada? Está inquieta?—Não senhor, está bem. Só a choramingar, afallar no pequeno... Diz que o quer hoje por força...—Converse com ella, distraia-a... Veja se ella adormece...A Dionysia retirou-se; e o abbade logo com cuidado:—Ó doutor, suppõe que lhe possa fazer mal o affligir-se?—Póde-lhe fazer mal, abbade, póde—disse o doutor que rebuscava na sua pharmacia portatil. Mas eu vou-a fazer dormir... Pois é verdade, a Igreja hoje é uma intrusa, abbade!O abbade tornou a levar as mãos á cabeça.—Escusa de ir mais longe, abbade. Veja a Igreja em Portugal. É grato observar-lhe o estado de decadencia...Pintou-lh'o a largos traços, de pé, com o seu frasco na mão. A Igreja fôra a Nação; hoje era uma minoria tolerada e protegida pelo Estado. Dominára nos tribunaes, nos conselhos da corôa, na fazenda, na armada, fazia a guerra e a paz; hoje um deputado da maioria tinha mais poder que todo o clero do reino. Fôra a sciencia no paiz; hoje tudo o que sabia era algum latim macarronico. Fôra rica, tinha possuido no campo districtos inteiros e ruas inteiras na cidade; hoje dependia para o seu triste pão diario do ministro da justiça, e pedia esmola á porta das capellas. Recrutára-se entre a nobreza, entre os melhores do reino; e hoje, para reunir um pessoal, via-se no embaraço e tinha de o ir buscar aos engeitados da Misericordia. Fôra a depositaria da tradição nacional,do ideal collectivo da patria; e hoje, sem communicação com o pensamento nacional (se é que o ha) era uma estrangeira, uma cidadã de Roma, recebendo de lá a lei e o espirito...—Pois se está assim tão prostrada, mais uma razão para a amar!—disse o abbade, erguendo-se escarlate.Mas a Dionysia tinha de novo apparecido á porta.—Que temos mais?—A menina está-se a queixar d'um peso na cabeça. Diz que sente faíscas diante dos olhos...O doutor então immediatamente, sem uma palavra, seguiu a Dionysia. O abbade, só, passeava pela sala ruminando toda uma argumentação erriçada de textos, de nomes formidaveis de theologos, que ia fazer desabar sobre o doutor Gouvêa. Mas, meia hora passou, a luz do candieiro ia esmorecendo, e o doutor não voltou.Então aquelle silencio da casa, onde só o som dos seus passos sobre o soalho da sala punha uma nota viva, começou a impressionar o velho. Abriu a porta devagarinho, escutou; mas o quarto d'Amelia era muito afastado, ao fim da casa, ao pé do terraço; não vinha de lá nem rumor nem luz. Recomeçou o seu passeio solitario na sala, n'uma tristeza indefinida que o ia invadindo. Desejaria bem ir vêr tambem a doente; mas o seu caracter, o pudorsacerdotal não lhe permittiam aproximar-se sequer d'uma mulher no leito, em trabalho de parto, a não ser que o perigo reclamasse os sacramentos. Outra hora mais longa, mais funebre, passou. Então, em pontas de pés, córando na escuridão d'aquella audacia, foi até ao meio do corredor: agora, aterrado, sentia no quarto d'Amelia um ruido confuso e surdo de pés movendo-se vivamente no soalho, como n'uma lucta. Mas nem um ai, nem um grito. Recolheu á sala, e abrindo o seu Breviario começou a rezar. Sentiu os chinelos da Gertrudes passarem rapidamente, n'uma carreira. Ouviu uma porta a distancia bater. Depois o arrastar no soalho d'uma bacia de latão. E emfim o doutor appareceu.A sua figura fez empallidecer o abbade: vinha sem gravata, com o collarinho espedaçado; os botões do collete tinham saltado; e os punhos da camisa, voltados para traz, estavam todos manchados de sangue.—Alguma coisa, doutor?O doutor não respondeu, procurando rapidamente pela sala o seu estojo, com a face animada d'um calor de batalha. Ia já sahir com o estojo, mas lembrando-lhe a pergunta anciosa do abbade:—Tem convulsões, disse.O abbade então deteve-o á porta, e muito grave, muito digno:—Doutor, se ha perigo, peço-lhe que se lembre... É uma alma christã em agonia, e eu estou aqui.—Certamente, certamente...O abbade tornou a ficar só, esperando. Tudo dormia na Ricoça, D. Josepha, os caseiros, a quinta, os campos em redor. Na sala, um relogio de parede, enorme e sinistro, que tinha no mostrador a carranca do sol e em cima sobre o caixilho a figura esculpida em pau d'uma coruja pensativa, um movel de castello antigo, bateu a meia noite, depois uma hora. O abbade a cada momento ia até ao meio do corredor: era o mesmo rumor de pés n'uma lucta; outras vezes um silencio tenebroso. Voltava então para o seu Breviario. Meditava n'aquella pobre rapariga que, além no quarto, estava talvez no momento que ia decidir da sua eternidade: não tinha ao pé nem a mãi, nem as amigas: na memoria apavorada devia passar-lhe a visão do peccado: diante dos olhos turvos apparecia-lhe a face triste do Senhor offendido: as dôres contorciam o seu corpo miseravel: e na escuridão em que ia penetrando, sentia já o halito ardente da aproximação de Satanaz. Temeroso fim do tempo e da carne!—Então rezava fervorosamente por ella.Mas depois pensava no outro que fôra uma metade do seu peccado, e que agora na cidade, estirado na cama, resonava tranquillamente. E rezava então tambem por elle.Tinha sobre o Breviario um pequenocrucifixo. E contemplava-o com amor, abysmava-se enternecido na certeza da sua força, contra a qual era bem pouca a sciencia do doutor e todas as vaidades da razão!Philosophias, idéas, glorias profanas, gerações e imperios passam: são como os suspiros ephemeros do esforço humano: só ella permanece e permanecerá, a cruz—esperança dos homens, confiança dos desesperados, amparo dos frageis, asylo dos vencidos, força maior da humanidade:crux triumphus adversus demonios, crux oppugnatorum murus...Então o doutor entrou, muito escarlate, vibrante d'aquella tremenda batalha que estava dando lá dentro á morte; vinha buscar outro frasco; mas abriu a janella, sem uma palavra, para respirar um momento uma golfada d'ar fresco.—Como vai ella? perguntou o abbade.—Mal, disse o doutor sahindo.O abbade, então, ajoelhou, balbuciou a oração de S. Fulgencio:—Senhor, dá-lhe primeiro a paciencia, dá-lhe depois a misericordia...E alli ficou, com a face nas mãos, apoiado á beira da mesa.A um rumor de passos na sala ergueu a cabeça. Era a Dionysia, que suspirava, recolhendo todos os guardanapos que encontrava nas gavetas do aparador.—Então, senhora, então? perguntou-lhe o abbade.—Ai, senhor abbade, está perdidinha... Depois das convulsões que foram d'arripiar, cahiu n'aquelle somno, que é o somno da morte...E olhando para todos os cantos como para se assegurar da solidão, disse muito excitada:—Eu não quiz dizer nada... Que o senhor doutor tem um genio!... Mas sangrar a rapariga n'aquelle estado é querer matal-a... Que ella tinha perdido pouco sangue, é verdade... Mas nunca se sangra ninguem em semelhante momento. Nunca, nunca!—O senhor doutor é homem de muita sciencia...—Póde ter a sciencia que quizer... Eu tambem não sou nenhuma tola... Tenho vinte annos d'experiencia... Nunca me morreu nenhuma nas mãos, senhor abbade... Sangrar em convulsões! Até causa horror!...Estava indignada. O senhor doutor tinha torturado a creaturinha. Até lhe quizera administrar chloroformio...Mas a voz do doutor Gouvêa berrou por ella do fundo do corredor—e a matrona abalou, com o seu mólho de guardanapos.O medonho relogio, com a sua coruja pensativa, bateu as duas horas, depois as tres... O abbade, agora, cedia a espaços a uma fadiga de velho, cerrando um momento as palpebras. Mas resistia bruscamente: ia respirar o ar pesado da noite, olhar aquella treva de toda a aldeia; e voltava a sentar-se, a murmurar, com a cabeça baixa, as mãos postas sobre o Breviario:—Senhor, volta os teus olhos misericordiosos para aquelle leito d'agonia...Foi então Gertrudes que appareceu commovida. O senhor doutor mandára-a a baixo acordar o moço para pôr a egoa aocabriolet.—Ai, senhor abbade, pobre creaturinha! Ia tão bem, e de repente isto... Que foi por lhe tirarem o filho... Eu não sei quem é o pai, mas o que sei é que n'isto tudo anda um peccado e um crime!...O abbade não respondeu, orando baixo pelo padre Amaro.O doutor então entrou com o seu estojo na mão:—Se quizer, abbade, póde ir, disse.Mas o abbade não se apressava, olhando o doutor, com uma pergunta a bailar-lhe nos labios entreabertos, e retendo-a por timidez: emfim, não se conteve, e n'um tom de medo:—Fez-se tudo, não ha remedio, doutor?—Não.—É que nós, doutor, não devemos aproximar-nos d'uma mulher em parto illegitimo senão n'um caso extremo...—Está n'um caso extremo, senhor abbade, disse o doutor, vestindo já o seu grande casacão.O abbade então recolheu o Breviario, a cruz—mas antes de sahir, julgando do seu dever de sacerdote pôr diante do medico racionalista a certeza da eternidade mystica que se desprende do momento da morte, murmurou ainda:—É n'este instante que se sente o terror de Deus, o vão do orgulho humano...O doutor não respondeu, occupado a afivelar o seu estojo.O abbade sahiu—mas, já no meio do corredor, voltou ainda, e fallando com inquietação:—O doutor desculpe... Mas tem-se visto, depois dos soccorros da religião, os moribundos voltarem a si de repente, por uma graça especial... A presença do medico então póde ser util...—Eu ainda não vou, ainda não vou, disse o doutor, sorrindo involuntariamente de vêr a presença da Medicina reclamada para auxiliar a efficacia da Graça.Desceu, a vêr se estava prompto ocabriolet.Quando voltou ao quarto d'Amelia, a Dionysia e a Gertrudes, de rojos ao lado da cama, rezavam. O leito, todo o quarto estava revolvido como um campo de batalha. As duas velas consumidas extinguiam-se. Amelia estava immovel, com os braços hirtos, as mãos crispadas d'uma côr de purpura escura—e a mesma côr mais arroxeada cobria-lhe a face rigida.E debruçado sobre ella, com o crucifixo na mão, o abbade dizia ainda, n'uma voz d'angustia:—Jesu, Jesu, Jesu!Lembra-te da graça de Deus! Tem fé na misericordia divina! Arrepende-te no seio do Senhor!Jesu, Jesu, Jesu!Por fim, sentindo-a morta, ajoelhou, murmurando oMiserere. O doutor que ficára á porta retirou-se devagarinho, atravessou em bicos de pés o corredor, e desceu á rua, onde o moço segurava a egoa atrellada.—Vamos ter agua, senhor doutor, disse o rapaz bocejando de somno.O doutor Gouvêa ergueu a gola do paletot, accommodou o seu estojo no assento—e d'ahi a um momento ocabrioletrodava surdamente pela estrada, sob a primeira pancada de chuva, cortando a escuridão da noite com o clarão vermelho das suas duas lanternas.XXVAo outro dia desde as sete da manhã, o padre Amaro esperava a Dionysia em casa, postado á janella, com os olhos cravados na esquina da rua, sem reparar na chuva miudinha que lhe fustigava a face. Mas a Dionysia não apparecia: e elle teve de partir para a Sé, amargurado e doente, a baptisar o filho do Guedes.Foi uma pesada tortura para elle vêr aquella gente alegre que punha na gravidade da Sé, mais sombria por esse escuro dia de dezembro, todo um rumor mal contido de regosijo domestico e de festa paterna; o papá Guedes resplandecente de casaca e gravata branca, o padrinho compenetrado com uma grande camelia ao peito, as senhoras de gala, e sobretudo a parteira rechonchuda, passeando compompa um montão de rendas engommadas e de laçarotes azues onde mal se percebiam duas bochechinhas trigueiras. Ao fundo da igreja, com o pensamento bem longe na Ricoça e na Barrosa, foi engorolando á pressa as ceremonias: soprando em cruz sobre a face do pequerrucho para expulsar o Demonio que já habitava aquellas carninhas tenras; impondo-lhe o sal sobre a bôca para que elle se desgostasse para sempre do sabor amargo do peccado e tomasse gosto a nutrir-se só da verdade divina; tocando-o com saliva nas orelhas e nas narinas, para que elle não escutasse jámais as solicitações da carne e jámais respirasse os perfumes da terra. E em roda, com tochas na mão, os padrinhos, os convidados, na fadiga que davam tantos latins rosnados á pressa, só se occupavam do pequeno, n'um receio que elle não respondesse com algum desacato impudente ás tremendas exhortações que lhe fazia a Igreja sua Mãi.Amaro, então, pondo de leve o dedo sobre a touquinha branca, exigiu do pequerrucho que elle, alli em plena Sé, renunciasse para sempre a Satanaz, ás suas pompas e ás suas obras. O sacristão Mathias, que dava em latim as respostas rituaes, renunciou por elle—emquanto o pobre pequerrucho abria a boquinha a procurar o bico da mama. Emfim o parocho dirigiu-se á pia baptismal seguido de toda a familia, das velhas devotas que se tinham juntado, de gaiatos que esperavam uma distribuição de patacos. Mas foi toda uma atrapalhação para fazer asunções: a parteira commovida não atinava a desapertar os laçarotes do chambre, para pôr a nú os hombrosinhos, o peito do pequeno; a madrinha quiz ajudal-a: mas deixou escorregar a tocha, alastrou de cera derretida o vestido d'uma senhora, uma visinha dos Guedes, que ficou embezerrada de raiva.—Franciscus, credis?—perguntava Amaro.O Mathias apressou-se a affirmar, em nome de Francisco:—Credo.—Franciscus, vis baptisari?O Mathias:—Volo.Então a agua lustral cahiu sobre a cabecinha redonda como um melão tenro: a criança agora perneava n'uma perrice.—Ego te baptiso, Franciscus, in nomine Patris... et Filiis... et Espiritus Sancti...Emfim, acabára! Amaro correu á sacristia a desvestir-se—emquanto a parteira grave, o papá Guedes, as senhoras enternecidas, as velhas devotas e os gaiatos sahiam ao repique dos sinos; e agachados sob os guardachuvas, chapinhando a lama, lá iam levando em triumpho Francisco, o novo christão.Amaro galgou os degraus de casa com o presentimento que ia encontrar a Dionysia.Lá estava, com effeito, sentada no quarto, esperando-o, amarrotada, enxovalhada da lucta da noite e da lama da estrada: e apenas o viu começou a choramingar.—Que é, Dionysia?Ella rompeu em soluços, sem responder.—Morta! exclamou Amaro.—Ai, fez-se-lhe tudo, filho, fez-se-lhe tudo! gritou emfim a matrona.Amaro tombou para os pés da cama como morto tambem.A Dionysia berrou pela criada. Inundaram-lhe a face d'agua, de vinagre. Elle recuperou-se um pouco, muito pallido: afastou-as com a mão, sem fallar; e atirou-se de bruços para sobre o travesseiro, n'um chôro desesperado,—emquanto as duas mulheres consternadas iam recolhendo á cozinha.—Parece que tinha muita amizade á menina, começou a Escolastica, fallando baixo como na casa d'um moribundo.—Costume d'ir por lá. Foi hospede tanto tempo... Ai, eram como irmãos...—disse a Dionysia, ainda chorosa.Fallaram então de doenças de coração—porque a Dionysia contára á Escolastica que a pobre menina tinha morrido d'um aneurisma rebentado. A Escolastica tambem soffria do coração; mas n'ella eram flatos, dos maus tratos que lhe dera o marido... Ah, tinha sido bem infeliz tambem!—Vossemecê toma uma gotinha de café, snr.aDionysia?—Olhe, a fallar a verdade, snr.aEscolastica, tomava uma gotinha de geropiga...A Escolastica correu á taberna ao fim da rua,trouxe a geropiga n'um copo de quartilho debaixo do avental: e ambas á mesa, uma molhando sopas no café, outra escorropichando o copo, concordavam, com suspiros, que n'este mundo tudo eram sustos e lagrimas.Deram onze horas: e a Escolastica pensava em levar um caldo ao senhor parocho, quando elle chamou de dentro. Estava de chapéo alto, com o casaco abotoado, os olhos vermelhos como carvões...—Escolastica, vá a correr ao Cruz que me mande um cavallo... Mas depressa.Chamou então a Dionysia: e sentado ao pé d'ella, quasi contra os joelhos da mulher, com a face rigida e livida como um marmore, escutou em silencio a historia da noite—as convulsões de repente, tão fortes que ella, a Gertrudes e o senhor doutor mal a podiam segurar! o sangue, as prostrações em que cahia! depois a anciedade da asphyxia que a fazia tão rôxa como a tunica d'uma imagem...Mas o moço do Cruz chegára com o cavallo. Amaro tirou d'uma gaveta, d'entre roupa branca, um pequeno crucifixo, deu-o á Dionysia que ia voltar á Ricoça para ajudar a amortalhar a menina.—Que lhe ponham este crucifixo no peito, tinha-m'o ella dado...Desceu, montou; e apenas na estrada da Barrosa despediu a galope. Não chovia, agora; e entre as nuvens pardas algum raio fraco do sol de dezembro fazia brilhar a relva, as pedras molhadas.Quando chegou ao pé do poço entulhado, d'ondese avistava a casa de Carlota, teve de parar, para deixar passar um longo rebanho d'ovelhas que tomava o caminho; e o pastor, com uma pelle de cabra ao hombro e a borracha a tiracollo, fez-lhe lembrar de repente Feirão, toda a vida passada, que lhe voltava por fragmentos bruscos—aquellas paizagens afogadas nos vapores pardacentos da serra; a Joanna rindo estupidamente dependurada da corda do sino; as suas ceias de cabrito assado na Gralheira, com o abbade, defronte da chaminé, onde a lenha verde estalava; os longos dias em que se desesperava na tristeza da residencia, vendo fóra sem cessar cahir a neve... E veio-lhe um desejo ancioso d'essas solidões da serra, d'essa existencia de lobo, longe dos homens e das cidades, sepultado lá com a sua paixão.A porta da Carlota estava fechada. Bateu, foi de roda chamar, atirando a voz por cima do telhado dos curraes, para o pateo, onde sentia cacarejar os gallos. Ninguem respondeu. Seguiu então pelo caminho da aldeia, levando a egoa pela arreata; parou na taberna, onde uma mulher obesa fazia meia sentada á porta. Dentro, no escuro da baiuca, dois homens com os seus quartilhos ao lado, batiam as cartas n'uma bisca renhida; e um rapazola d'uma amarellidão de sezões, com um lenço amarrado na cabeça, olhava-lhes o jogo tristemente.A mulher tinha justamente visto passar a snr.aCarlota, que até parára a comprar um quartilho de azeite. Devia estar em casa da Michaela, ao adro.Chamou para dentro; uma rapariguita vesga appareceu de traz da sombra das pipas.—Corre, vai á Michaela, dize à snr.aCarlota que está aqui um senhor da cidade.Amaro voltou para a porta da Carlota, esperou sentado n'uma pedra, com o seu cavallo pela redea. Mas aquella casa fechada e muda aterrava-o. Foi pôr o ouvido á fechadura, na esperança d'ouvir um chôro, uma rabuje de criança. Dentro pesava um silencio de caverna abandonada. Mas tranquillisava-o a idéa que a Carlota teria levado a criança comsigo, para Michaela. Devia realmente ter perguntando á mulher na taberna, se a Carlota trazia uma criança ao collo... E olhava a casa bem caiada, com a sua janella em cima que tinha uma cortininha de cassa, um luxo tão raro n'aquellas freguezias pobres; recordava a boa ordem, o escarolado da louça da cozinha... Decerto, o pequerrucho devia ter tambem um berço aceado...Ah, estava doido decerto na vespera, quando puzera alli, na mesa da cozinha, quatro libras em ouro, preço adiantado d'um anno de criação, e dissera cruelmente ao anão—«conto comsigo»! Pobre pequerruchinho!... Mas a Carlota comprehendera bem, á noite na Ricoça, que elle agora queria-o vivo, o seu filho, e creado com mimo!... Todavia não o deixaria alli, não, sob o olho raiado de sangue do anão... Leval-o-hia essa noite á Joanna Carreira dos Poyaes...Que as sinistras historias da Dionysia, atecedeira d'anjos, eram uma legenda insensata. A criança estava muito regalada em casa de Michaela, chupando aquelle bom peito de quarentona sã... E vinha-lhe então o mesmo desejo de deixar Leiria, ir enterrar-se em Feirão, levar comsigo a Escolastica, educar lá a criança como sobrinho, revivendo n'elle largamente todas as emoções d'aquelle romance de dois annos; e alli passaria n'uma paz triste, na saudade de Amelia, até ir como o seu antecessor, o abbade Gustavo que tambem creára um sobrinho em Feirão, repousar para sempre no pequeno cemiterio, de verão sob as flôres silvestres, de inverno sob a neve branca.Então a Carlota appareceu; e ficou attonita ao reconhecer Amaro, sem passar da cancella, com a testa franzida, a sua bella face muito grave.—A criança? exclamou Amaro.Depois d'um momento, ella respondeu, sem perturbação:—Nem me falle n'isso, que me tem dado um desgosto... Hontem mesmo, duas horas depois de ter chegado... O pobre anjinho começa a fazer-se rôxo, e alli me morreu debaixo dos olhos...—Mente! gritou Amaro. Quero vêr.—Entre, senhor, se quer vêr.—Mas que lhe disse eu hontem, mulher?—Que quer, senhor? Morreu. Veja...Tinha aberto a porta, muito simplesmente, semcólera nem receio. Amaro entreviu n'um relance, ao pé da chaminé, um berço coberto com um saiote escarlate.Sem uma palavra voltou as costas, atirou-se para cima do cavallo. Mas a mulher, muito loquaz subitamente, rompeu a dizer que tinha ido justamente à aldeia para encommendar um caixãosinho decente... Como vira que era filho de pessoa de bem, não o quisera enterrar embrulhado n'um trapo. Mas emfim, como o senhor alli estava, parecia-lhe razoavel que désse algum dinheiro para a despeza... Uns dois mil reis que fossem.Amaro considerou-a um momento com um desejo brutal de a esganar; por fim, metteu-lhe o dinheiro na mão. E ia trotando no carreiro, quando a sentiu ainda correndo, gritandopst! pst!A Carlota queria-lhe restituir o capote que elle emprestára na vespera: tinha feito muito bom serviço, que a criança chegára quente como um rojãosinho... Infelizmente...Amaro já a não escutava, esporeando furiosamente a ilharga da cavalgadura.Na cidade, depois de apear à porta do Cruz, não entrou em casa. Foi direito ao paço do bispo. Tinha agora uma idéa só: era deixar aquella cidade maldita, não vêr mais as faces das devotas, nem a fachada odiosa da Sé...Foi só ao subir a larga escadaria de pedra do paço, que lhe lembrou com inquietação o que o Libaninho dissera na vespera da indignação do senhorvigario geral, da denuncia obscura... Mas a affabilidade do padre Saldanha, o confidente do paço, que o introduziu logo na livraria de sua excellencia, tranquillisou-o. O senhor vigario geral foi muito amavel. Estranhou o ar pallido e perturbado do senhor parocho...—É que tenho um grande desgosto, senhor vigario geral. Minha irmã está a morrer em Lisboa. E venho pedir a vossa excellencia licença para lá ir, por uns dias...O senhor vigario geral consternou-se com bondade.—Decerto, consinto... Ah! somos todos passageiros forçados da barca de Charonte.


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