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Erajusta e plausivel a admiração que infundia no espirito dos portuenses, nada espantadiços de mulheres formosas, uma franceza que, poucas vezes, se via no Porto, ahi pelos annos 1834 até 1839. Sabia-se que esta dama vivia n’uma quinta dos arrabaldes da cidade, e para ali viera com um fidalgo portuguez, regressado da emigração em 1835, sujeito pacifico, estranho ás victorias da liberdade, e tambem estranho aos reposteiros das secretarias. Era Nicoláo de Mesquita.

Da procedencia da franceza é que ninguem sabia. Geralmente duvidava-se da honestidade de tal contubernio; isto, porém, não implicava ao quasi respeito com que os galãs mais audaciosos da cidade eterna encaravam a gentil amazona, ao lado do cavalheiro grave, sombrio, e sympathico. Outras vezes, a estrangeira entrava no Porto sósinha, comum lacaio; apeiava no hotel do Pêxe,[1]saía a provêr-se de objectos de luxo nas lojas de modas, seguida do criado, e voltava ás suas flôres e bosques, que deviam de alegrar-se, vendo chegar a sua bella e solitaria rainha.

O cavalheiro conhecia poucas pessoas no Porto, e tão friamente as praticava, que ninguem ousava perguntar-lhe miudezas de sua vida particular.

Em 1838, saía a franceza do estabelecimento de uma modista, e estremeceu fitando em rosto um homem, que empallidecera ao encaral-a surprehendido. Era este homem o chanceller do consulado francez.

Ella estugou o passo a evitar a aproximação do seu patricio: era superfluo o susto. O chanceller ficára empedernido, e extatico.

Passava um amigo, e disse-lhe, sorrindo:

—A sua patricia tem causado muitos d’esses spasmos aos portuguezes...

—Não é possivel...—disse o francez abstrahido.

—Não é possivel?!—replicou o outro.

—A impressão que me fez aquella mulher não creio que a possa receber quem a não conhece.

—E conhece-a o senhor?

—Pois não! É a mulher de um dos meus melhores amigos. Eu já sabia que ella fugira de Bruxellas com um portuguez; mas não esperava encontral-a. Onde vive ella?

—Na Cruz da Regateira, a meia legua do Porto,com um fidalgo transmontano, chamado Nicoláo de Mesquita.

O chanceller escreveu na sua carteira, e disse:

—A mulher do meu amigo Ernesto Froment, um dos primeiros fabricantes de Lyão, rico e gentil, moço e honrado, pundonoroso e amigo d’esta infame, como não sei que haja outro! O homem com quem ella fugiu foi hospede de seu marido. Sinto que em Portugal se produzam villões d’este calibre!... Froment cuida que ella está na America. Não lhe direi eu que a vi sem vingal-o, se ha vingança honrosa a tirar de similhante affronta!

O francez retirou-se apressado.

Dias depois, Nicoláo de Mesquita era procurado na serena solidão dos seus arvoredos por dois cavalheiros desconhecidos: um era o consul francez, o outro pessoa importante da sociedade portuense.

O chanceller desafiava Nicoláo, em nome de um marido infamado.

O portuguez tergiversou na resposta. Obrigado a responder explicitamente se nomeava testemunhas, disse:

—Eu não embaraço que madame Froment vá para seu marido, se lhe apraz. Bater-me com um cavalheiro, em quem não reconheço direitos a pedir-me contas, não o faço, sem alienar o juizo que tenho.

O consul redarguiu com azedume. Nicoláo de Mesquita sorriu-se, e replicou:

—Respondi. Os cavalheiros excedem as suas funcções, e collocam-me n’uma posição desagradavel. Estas disceptações costumam resolver-se melhor nas estradas.

O portuguez da provocação ficou-se; mas o consul mordeu os beiços até sangrarem.

A senhora Froment, assim que os estranhos visitantes sairam, correu assustada a indagar a causa.

Nicoláo respondeu glacialmente:

—Depois de seis annos, um amigo de teu marido manda-me desafiar. Não me bato.

—Quem te desafia? É o chanceller? Não acceites, que elle é temivel!—acudiu ella.

O orgulhoso abespinhou-se, e disse severamente:

—Não ha homens temiveis para mim. Não acceito, porque é preciso muito coração para que um homem se bata por amor de qualquer mulher.

Pungente grosseria!

A franceza emudeceu transida. Bem o presentia ella; mas ainda lh’o não tinha ouvido. Emboscou-se entre as arvores a chorar. O orgulho!...

É certo que Nicoláo de Mesquita estava enfastiado, arrependido, e devorado de ancias de liberdade para retemperar o coração em amores novos. Pensava nas delicias de uma vida honesta; falsa virtude, que vem sempre com o enojo da mulher, que a sociedade honesta repelle. Seis annos era muito para ter sempre em florescencia affectos, que sairam de um tremedal. As idealidades do vicio são ephemeras; o orgulho póde fingil-as; mas, d’alma a dentro, não ha imperio que senhoreie o atroz pungimento do tedio. O sorriso é um tregeito vaidoso, que intenta escarnecer a censura do mundo, ou rebater a commiseração.

Nicoláo de Mesquita amára a mulher do amigo, que lhe aligeirára os annos do exilio. Infamia irritante em animo até d’aquelles que propriamente se sentem mordidos do remorso de um delicto similhante! Amára até ao absoluto despreso de si mesmo.Seguira-a de Lyão á Belgica. E d’aqui se fugira com ella para Portugal, em quanto o marido fôra a Paris pressurosamente a cuidar em negocios urgentes de sua industria.

Depois, ainda um anno se não tinha passado, e já Nicoláo media a profundeza de sua ignominia, e espedaçava-se ás garras do opprobrio de si proprio. Tardia honra, que nunca pode chamar-se rehabilitação: penitencia, que no conceito do mundo terá remido os arrependidos; mas que no juizo da Providencia deve de ser apenas começo de expiação, começo de expiação muito longa.

Chegado a Portugal, Nicoláo ainda tinha mãe. Repugnou-lhe entrar em sua casa com uma mulher, mais perdida aos olhos d’elle que aos da sociedade, se a conhecesse. Já lhe parecia que o apresental-a como sua esposa era injuriar as virtudes de sua mãe, e injuriar-se a si. Não mais se levantará deante do homem, que a estimou, a mulher assim desprezada.

Alugou a quinta nos arrabaldes do Porto, e ahi ficou.

A franceza era a mulher coherente com o seu crime. A mudança da physionomia do amante, a nudeza da phrase baixa e sêca, a nenhuma poesia do gesto e da palavra, os longos silencios interpollados de suspiros, os vincos da fronte, os sorrisos contrafeitos, as abstracções e respostas incongruentes, que mais carecia ella para cahir em joelhos aos pés do algoz da sua felicidade, e pedir-lhe a morte?

Não se lembrou d’isso. Era mulher, e franceza. Ao pungimento da deshonra botaram-se os fios no habito de a praticar. Caíra de tão alto, que já não media com a vista a altura da queda. As mulheresque chegam até aqui, tocam a extrema do pudor.

D’ahi em diante, se choram, não é remorso, é a aspide do orgulho que as morde.

Margarida Froment acceitava a liberdade do amante, em proveito do amor decadente. Cuidava ella que as pompas no trajar remoçariam o affecto envelhecido. Vestia-se e galleava a primor. Achava-se linda. Aos vinte e oito annos não invejava o frescor das suas quinze primaveras. Offerecia-se assim aos olhos de Nicoláo, e muitas vezes cuidou que triumphava quando queria. Esta vaidade era-lhe um esteio. Em quanto um demonio amigo lhe desse tal escudo, contava ella com a victoria sobre o fastio do amante.

Quando a tristeza a alquebrava mais, era se, no lavor de enfeitar-se, lhe vinha á lembrança que seu marido a tinha amado muito, ainda desenfeitada.

Tristeza de vaidade dorida, e mais coisa nenhuma que possamos chamarcastigo.

Os castigos, ao chegarem, rasgam por outras fibras mais sensiveis.

O fidalgo, que pendia aos quarenta annos, pensava em sacudir o jugo; mas as correias apertavam-n’o tanto e em tantas voltas, que era impossivel desdal-as sem despedaçar os restantes liames da sua dignidade.

Abandonal-a era coroar a infamia.

Dar-lhe recursos e bons conselhos, muitas vezes lhe quiz propôr este accordo; mas receiava a recusa, e a desordem inevitavel d’essa hora em deante.

Os obstaculos saturavam-lhe de fel novo o amargôr do enfado.

Até que, no termo de seis annos, appareceu ochanceller, não sei se tolo, se sublime, a desaggravar o amigo, do mesmo modo que um inimigo o faria, se quizesse ajuntar á desgraça a irrisão. Os francezes usam uns processos especiaes de honrar os amigos.

Nicoláo de Mesquita era valoroso; porém, reflexionador. Dissera elle:é preciso muito coração para que um homem se bata por amor de qualquer mulher. Essa sua maxima arrefecia as fervuras da coragem; do pundonor não havemos de dizer, que esse tinha claudicado, e ficara tolhido para todos os effeitos da dignidade, logo que elle seduziu a mulher do homem, incapaz de reputal-o infame.

Não se quiz bater com testemunhas: era natural que evitasse bater-se sem ellas.

Absteve-se de ir ao Porto, e reflectiu ponderosamente no escape de taes aperturas. Achou que era tempo de espesinhar considerações de menor alcance. Propoz á franceza uma separação temporaria, e urgente á quietação de ambos. Margarida ouviu-o de boa fé. Acceitou alguns mil cruzados; residencia no Porto, se lhe desprazia viver na quinta; e a segurança de se reunirem na provincia, assim que a entrevada mãe de Nicoláo passasse a melhor vida. Annuiu a franceza, dizendo em tom lastimoso que de bom grado, e com o coração cheio de lagrimas, se immolava á tranquilidade do amante.

Nicoláo foi para Traz-os-Montes, e Margarida Froment para uma casa ricamente alfaiada na Torre da Marca.

O chanceller, perdida a esperança de tirar os olhos do scelerado á ponta de florete, escreveu ao amigo, contando-lhe o seu intento, e o encontro inesperado.

Ernesto Froment accusou a carta recebida, e não falou da mulher. Parece que tinha lá tres, todas mais fieis, e póde ser que mais formosas.

Por este lado, o acaso—não ouso dizer a Providencia—se amerceara do esposo trahido. Quem dos dois soffria mais, ou presentia o emborrascarem-se as porvindouras tormentas, era Margarida.

NOTAS DE RODAPÉ:[1]Foi no palacio dos viscondes de Balsemão. Este palacio, onde se hospedou Carlos Alberto, é hoje do visconde da Trindade.Habent sua fata... os palacios!

[1]Foi no palacio dos viscondes de Balsemão. Este palacio, onde se hospedou Carlos Alberto, é hoje do visconde da Trindade.Habent sua fata... os palacios!

[1]Foi no palacio dos viscondes de Balsemão. Este palacio, onde se hospedou Carlos Alberto, é hoje do visconde da Trindade.Habent sua fata... os palacios!


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