V
Nicoláorespondeu ás tias Almeidas que as suas occupações o estorvavam de ir moralisar o primo Ricardo. Consolava-as, porém, com a certeza de que o sobrinho prodigo voltaria cedo curado da sua hydropisia amorosa, depois de algumas sangrias copiosas nas algibeiras. O egresso, lendo este paragrapho, exclamou:
—Isto que elle diz é assim, fidalgas. O senhor Nicoláo bem se vê que andou muito mundo!
As velhas sentiram-se alliviadas, e accenderam velas de arratel a Santo Antonio, e outros bem aventurados que privam na côrte celestial.
Este acontecimento estupendo, passada a rija impressão do choque, deu largas ao espirito do morgado. Mulher que tão facil e estupidamente passára ao dominio d’outro homem, estava definida.Espinho de remorso de havel-a abandonado seria baixesa e indignidade consentil-o na alma. Arrependido estava elle de a não ter abandonado ha muito, por umas verduras de pundonor, em que elle victimára seis escuros e dissaboridos annos de sua vida. Tudo pelo melhor! Azavam-se-lhes as coisas para um viver tranquillo e desapertado de responsabilidades e reminiscencias perturbadoras.
Cuidaram logo em tirar dispensa de parentesco para o casamento. Nicoláo andava alegremente na faina de renovar as alfaias da casa de Palmeira, e lustrar as velhas, que provavam as antigas pompas do solar dos Mesquitas. N’este lidar, em que o coração tomava a melhoria do seu cargo, o morgado remoçava, puerilisava-se, tinha tolices perdoaveis, que Beatriz era digna de enlouquecer qualquer homem amado. As mulheres lindas confessavam que ella era formosa: as mulheres são evangelhos, quando tal dizem d’outra. E, alem de formosa, rica. Fidalga, está dito tudo, se o timbre das armas de Fayões e de Palmeira, e das Olarias, é o mesmo timbre dos Sousas Vahias cuja representante é Beatriz. Em quanto a puresa, não ousariam os serafins esquadrinhar-lh’a. É o elo interposto á flor e á estrella em materia de innocencia. Tivera escassamente uma sombra de cortejo de seu primo Raphael Garção Cogominho, decimo quarto senhor de Fayões. A bonina da serra não fica mais pura, quando um cordeirinho a bafeja, do que ficou Beatriz com uns beijos que lhe havia dado o primo nas faces purpurejadas. Afóra isto, que é nada, o maná dos israelitas não choveu mais candido e impolluto das amphoras do ceu. Assim se desculpa a exultação de Nicoláo nos preparativos para os esposoriosmais fallados e invejados d’aquella redondeza.
As pessoas que tinham visto os requebros de Beatriz por seu primo Raphael maravilharam-se da transferencia, e mais ainda da conformidade do moço de Fayões.
Era este mancebo filho unico de paes opulentos, e o mais galhardo e galan rapaz d’aquellas terras. Tinha peccados grandes, que os invejosos das suas proezas desejariam esconder, se podessem. A humanidade, sua conhecida, dividira-se em dois bandos: os homens contra, as mulheres por elle. Raphael não se queixava; punha peito aos adversarios, excepto o coração que esse andava repartido e desfibrado pelas defensoras. Era coisa de prodigio a paz em que tantas odiando-se reciprocamente, viviam com elle, e saiam a enristar, não lanças, mas linguas—as mais perfurantes e contundentes armas conhecidas—em honra de Raphael Garção Cogominho, quando algum barbaro desdenhoso lhe desluzia no garbo com que esporeava o ginete a galões e trancos, ou na adamada denguice com que requestava toda a mulher indistinctamente.
E muitas o amavam, áquem e além Tamega, por essa Gallisa dentro. No entender dos sisudos censores de seus maus costumes, faltava-lhe a fibra susceptivel do coração que se doe das inconstancias d’uma mulher. Em confirmação d’este juizo, depunha o ter ido Raphael para Hespanha em seguimento de uma andaluza, que apparecêra na feira de Santo Antonio em Villa Real, tocando pandeiro e castanhetas. Alguem conjecturou que Beatriz accedêra a casar com o tio por despique do primo; varias senhoras, no proposito de desdoural-a, affirmavamque ella optára pelo mais rico, sem levar em conta a differença das edades, e os dissabores futuros. Tudo isto eram vozes do mundo, que se banqueteava em casa de Martinho Xavier e se enfrascava nos melhores vinhos a brindar o prospero enlace do extremado cavalleiro de Palmeira com a encantadora Beatriz. A verdade, porém, das rompidas intelligencias da menina e de Raphael já está dita: fôra um brincar da borboleta com uma flôr de madre-silva; mais lyrismo não tem anachreontica nenhuma, se a anachreontica fôr das mais honestas.
O morgadinho de Fayões nunca pensára em casar-se. Tinha então vinte e quatro annos; muito dinheiro, muita saude, leitura deClarisse Harlowe, daNova Heloisa, doD. João, e outros modelos de algozes de corações. É o que elle tinha lido em dois annos que estivera em Coimbra.
Não obstante, a pureza da filha de Martinho Xavier enfreou-lhe a indole; póde ser tambem que a desconfiança do pae lhe contraminasse algum intento menos honroso. Disputal-a a Nicoláo de Mesquita, sem o proposito de desposal-a, era um desaire; soffrer era uma semsaboria indigna dos Tenorios e Lovelaces e Saint-Preux das suas leituras. Felizmente que a andaluza lhe barateou um sorriso, e encareceu um beijo na feira de Villa Real. Este duro osso do officio irritou-lhe a vaidade. A hespanhola pareceu-lhe uma Esmeralda, como Victor Hugo a encontrára inventada por um escriptor castelhano. Alli por Villa Real andavam uns Claudios Froulos a quererem seduzir-lh’a. Esporearam-lhe o ciume. Não havia que vêr. Seis mulheres bonitas de Chaves, dezenas d’ellas do alto da provincia, duzias degalanteios incipientes e decadentes, todas foram sacrificadas á funambula do pandeiro e das castanhetas.
Varias pessoas lamentaram a sorte d’este mancebo no banquete nupcial de Beatriz e Nicoláo. Os mais penetrativos convivas olhavam de esconso a noiva, e o marido tambem; todavia a menina escutava as lastimas como se as não comprehendesse. O anjo estava como estrangeiro entre aquelle gentio, que fallava a linguagem barbaresca das paixões deshonestas.
No dia seguinte, os esposados foram para o Vidago, com grande comitiva. No trajecto de tres leguas estoiraram constantemente bombardas e foguetes. As festas continuaram na casa de Palmeira tres dias e tres noites. A grandeza de quinze leguas ao sul, e tres ao norte, a entestar com a Galliza, confluiu com suas librés a honrar a mais cheia lua de ambrosia, que ainda tiveram noivos desde que as luas se ingerem ridiculamente nos noivados.
As senhoras do Castello d’Aguiar, tias de Ricardo, saiam da liteira a visitarem o seu parente de Vidago, e a senhora D. Beatriz que ainda era parente d’ellas, em razão de haver casado Mem de Sousa, em 1410, com D. Briolanja de Almeida. Além da etiqueta, moveu-as ao sacrificio poderem fallar do sobrinho Ricardo, e pedirem consolações ao homem experiente.
D. Sancha, assim que o ensejo se lhe ageitou, rompeu em pranto desfeito n’estes termos:
—A felicidade que estaes gosando, sobrinhos, perdemos a esperança de que o nosso Ricardo a venha gosar!
—Que noticias tem vossa excellencia de Ricardo?—atalhou Nicoláo.
—Não nos escreve o ingrato! Ha tres mezes que foi, e não voltou.
—Pois não sabem onde elle foi parar com essa mulher?
—Sabemos, sabemos... Estão no Porto. Ricardo tem escripto aos feitores das quintas, a mandar ir dinheiro. Não fazeis uma idéa, sobrinho, do dinheiro que tem ido!... Se assim vae, Deus nos feche os olhos antes de o vermos empenhar os vinculos. Agora soubemos que elle mandou vender os foros de Barroso por quatro mil cruzados, e a melhor quinta da Terra quente! Haverá um mez que o senhor padre Ambrosio, nosso capellão, foi de nosso mando ao Porto a ver se o convertia. Quereis vós saber, meus sobrinhos, o que elle viu? Elle aqui está que o conte. Diga lá, senhor padre Ambrosio.
O egresso sibilou uma pitada, assoou-se, dobrou o lenço de quadradinhos, embolçou-o na algibeira da batina, compoz o rosto, ageitou as mãos sobre a proeminencia do estomago, e tirou estas palavras do peito:
—Assim que cheguei ao Porto, fui a casa das senhoras Noronhas, primas de suas excellencias, para o fim de me ellas mandarem ensinar as ruas, e a morada do fidalgo. Saíu comigo o capelão a indagações, e soubemos que elle estava a banhos de mar na Foz, com a maldita estrangeira. Aluguei um jumento, com o devido respeito, e puz-me a caminho para a Foz. Eis que, á saída do Porto, vejo vir o senhor Ricardo n’uma carroça descoberta, com a franceza á sua direita, e dois lacaios, um adeante e outro atraz, sentados na dita carroça. Fiquei passado. Quiz chamal-o, grudou-se-me a linguaao ceu da bocca! Elle passou sem dar tino de mim; e eu fiquei perplexo, verdadeiramente perplexo! Que hei de eu fazer? Deixei ir o jumento, com o devido respeito: fui á Foz, resolvido a esperar que elle voltasse. Teria eu andado obra d’um quarto de legua, eis que ahi torna a carroça n’uma galopada, que parecia um esquadrão de cavallaria. Parei. O senhor Ricardo viu-me, a carroça pára, e elle diz: «Por aqui, padre Ambrosio? Isso que é?»—«Venho em cata de vossa excellencia»—disse eu.—N’isto, saltou elle á estrada, e apropinquou-se de mim, ajudando-me a desmontar, e perguntou-me: «Ha novidade em casa? Morreu alguma das tias?»
—Vejam que perverso aquelle!—interrompeu D. Sancha.
—A perguntar se morremos!—accrescentou D. Simôa, com uma visagem de quem promette viver muito.
—Se vossas excellencias permittem, disse o padre Ambrosio, continuarei a minha exposição.
—Póde continuar, disseram unanimemente as velhas.
—Não, excellentissimo senhor, não morreu, graças a Deus, nenhuma de suas tias. Teem padecido muito, mas vivem para honra da familia dos Almeidas. Temos que fallar largamente, senhor Ricardo.
«Pois bem, padre Ambrosio», disse elle, entre na minha carruagem.—«Muito obrigado, muito obrigado», disse eu. «Ha de entrar»—teimou o fidalgo; e, pegando-me d’este braço, fez-me subir, e sentar mesmo ao lado da franceza hombro com hombro. O senhoras e senhores! eu suava por todos os orificios!
Beatriz soltou uma convulsão de riso indomavel, Nicoláo de Mesquita cravou os dentes nas borlas do chambre. As senhoras Almeidas pasmaram do descôco de Beatriz. O narrador abriu a bocca, e ficou-se espantado. Esse silencio, e estas visagens eram cócegas a nova casquinada de Beatriz. A senhora ergueu-se de salto, e fugiu sala fóra com as mãos nas ilhargas.
—Ella de que se riu, sobrinho?! perguntou D. Sancha.
—É flato, respondeu Nicoláo.
—Ah! coitadinha! disse D. Simôa. Mandae-lhe fazer um chá de ortelã e tilia.
—Aquillo passa-lhe, tornou o morgado. Queira continuar, senhor padre Ambrosio.
—Vinha eu dizendo que...
—Entrou no carro...—lembrou Nicoláo.
—Justamente, e alli vamos nós por aquella estrada além, que eu não sei para onde me levavam, nem dava tino de mim. Ia afflicto! Aquella mensageira de Satanaz ao pé de mim! Nunca volvi o rosto para a ver! Que diria o mundo, vendo um homem com estas vestes sacerdotaes, sentado á beira d’aquella mulher! Eu levava o meu capote de camellão, puxei-o para deante afim de esconder a batina, mas a cara havia de denunciar a minha vergonha: eu ia como um pimento em toda a extensão da palavra! O fidalgo perguntou se eu gostava de andar em carruagem. Respondi-lhe que não e o demonio da franceza disse não sei que, lá na sua amaldiçoada linguagem, e o senhor Ricardo riu-se. Eis que chegamos ao portão da casa do senhor Ricardo. A mulher do peccado deu um salto para fóra, que parecia um passaro a saltar, deixandover os laços dos sapatos, e umas fitas pretas encruzadas nos artelhos! Assim a vestira o inferno para perdição das almas. Assim apparecia o demonio entrajado aos santos da Thebaida! Porque a verdade ha de dizel-a minha bocca indignada: Satanaz nunca fez mulher mais guapa para recrutar almas n’este mundo! Eu tinha-a visto de passagem na casa do Pontido, quando ella pernoitou lá, e achei que era bem composta de feições; mas agora d’esta vez pareceu-me muito mais galharda. Nunca vi outra nem espero que os meus olhos tornem a ver mulher assim!... Santa Maria Egypcia, e Santa Margarida de Cortona, que eu já vi pintadas, quando eram peccadoras, dou-lhes a minha palavra que não tinham tantos adornos infernaes!... Vamos adeante. O senhor Ricardo levou-me a uma sala espaçosa, e toda adornada de cadeiras de almofada, e ricos escabellos de seda. Fez-me sentar n’um, em que cuidei que ia por elle dentro, e o fidalgo riu-se, e explicou-me o caso, dizendo que o assento era de molas.—«Tudo delicias do peccado!»—exclamei eu, erguendo-me; e elle, o perdido, exclamou tambem: «delicias da civilisação, padre Ambrosio!» Então, comecei eu o meu discurso, que levava meditado, e que não repito, para não enfadar vossas excellencias. O meu discurso foi attinente ao proposito de o accordar do seu lethargo. Citei-lhe o divino e o humano. Invoquei as sombras illustres dos Almeidas, dos Mesquitas, dos Coelhos, dos Pizarros, todos ascendentes d’esta nobilissima familia. Ouviu-me em silencio. E quando eu esperava que dos olhos lhe rebentasse o pranto da contricção, ouviu-se uma campainha, e elle, cortando-me o final do discurso, disse: «padreAmbrosio, vamos jantar, que está na mesa.» Escandalisei-me d’esta especie de mangação; e disse: «—Na casa do impio não comerás nem beberás!»—São palavras da biblia santa. Peguei na bengala e no chapéu para saír. Eis que elle me enrosca o braço no pescoço, e diz: «Ha de jantar, que tenho que lhe dizer.» A resistencia era impossivel, que o senhor Ricardo, desde menino, foi sempre despota. E de mais a mais, eu estava a cair de debilidade, porque não tinha comido ao almoço. Deixei-me levar. Eis que vejo a estrangeira sentada á mesa! Vieram-me outra vez os suores. Fiquei sentado defronte d’ella. Foi ella que me fez o prato, e me perguntou se eu queria mais. Comi iguarias que nunca vi na minha vida! A sôpa não a pude levar. Tinha uns pedacitos de animalculos, que lá chamam camarões. A maldita comia uns bichos crus com sumo de limão!
—Credo! exclamou D. Sancha.
—Creio que se chamam ôstras!—continuou o padre, e teve logo de se interromper, porque D. Simôa, engulhada com a descripção infanda dos bichos crus, estava a luctar com o vomito.
Passado o incidente enjoativo da senhora, mediante um copinho de licor de amendoa, padre Ambrosio continuou:
—Omitto a descripção dos outros horrores, que presenciei n’aquelle jantar de canibaes. Eu apenas comi d’uma peça de carne assada, e de um pato, ou coisa que o parecia. No fim do jantar, o senhor Ricardo levou-me para o seu quarto, e perguntou-me por vossa excellencia.
—Por mim! disse Nicoláo.
—Sim, senhor. Quiz que eu lhe dissesse se vossaexcellencia tinha casado, ou estava para casar. Respondi-lhe que vossa excellencia andava n’esses preparativos. Ora agora, o que eu não sei é porque elle deu uma grande risada, quando lhe eu disse que as fidalgas tinham mandado pedir ao senhor morgado que empregasse todos os meios para salvarem o sobrinho das garras da franceza! Isso foi um rir, que não tinha fim. Depois, quiz saber o que vossa excellencia tinha feito. Eu contei-lhe a resposta que o senhor morgado dera ás excellentissimas senhoras suas tias, e elle então disse umas palavras, que eu não me atrevo a repetir.
N’este momento entrou Beatriz á sala, e Nicoláo ergueu-se ao encontro da senhora. Visivelmente queria elle rematar alli a exposição do padre; mas o narrador repetiu ainda:
—Palavras, que eu não me atrevo a repetir.
—Vinde cá, sobrinho, ouvide isto...—disse D. Sancha.
—Dispenso saber o que Ricardo disse, atalhou precipitadamente Nicoláo. Em summa, o que eu infiro da narrativa do senhor padre Ambrosio é que meu primo Ricardo resistiu á sua eloquencia.
—Mas que rasão, tornou o clerigo, teria elle para dizer que vossa senhoria é um... não ouso dizer.
—Pois digo eu, ajuntou D. Simôa. O que elle disse foi que o nosso sobrinho Nicoláo era um infame... Vêde vós!
—E que havia de pagar dente por dente, e olho por olho...—ajuntou o capellão.
—Basta! interrompeu o morgado com desabrimento. Eu despreso o que esse miseravel disse!
—Mas que mal lhe fizeste tu a elle, primo? perguntou Beatriz.
—Nenhum, minha querida. Que mal poderia eu fazer-lhe?! Agastaram-n’o contra mim as expressões que escrevi a minhas tias com referencia ao desatino d’elle. Bem! prohibo que em minha casa se deprima ou se louve o homem que me insulta. Préso muito vossas excellencias, minhas senhoras, mas não sei que lhes faça, nem ha que fazer contra os desvarios de seu sobrinho. Quando elle voltar, eu irei pedir-lhe explicações do epitheto com que me brindou. No entanto, peço que me não perturbem a felicidade que devo a este anjo.
E, dizendo, aconchegou do seio Beatriz, e ella, encostando o ouvido ao seio esquerdo, disse admirada:
—Com que força o teu coração palpita, primo!