VI

VI

Acabaram-seos festejos no Vidago.

Principia a vida serena, que Nicoláo de Mesquita anhelára.

Está a casa de Palmeira sósinha, em meio da sua muralha de cedros e alamos. Rodeiam-n’a por mais longe extensos almargeaes, relvas amenissimas, montados crespos de sovereiros. A estrada passa arredada. Nenhuns rumores do mundo alli vão quebrar os scismadores silencios. Este é o éden, qual preluzira ao morgado nos entresonhos, que lhe adoçavam os aborrimentos do seu viver com a franceza nos arrabaldes do Porto.

Anciára elle então um enlace honesto, uma virgem transferida do resguardo da pureza á adoração da vida conjugal, uma companheira para todas ashoras da vida pacifica, doirada de alegrias innocentes, honrada na consciencia propria e no conceito do mundo.

Parece que a Providencia déra tudo, e mais ainda, ao homem que não esperava o minimo das suas modestas, mas tardias ambições.

Para os quarenta annos, uma menina com dezeseis.

Para o coração escalavrado, um coração em flôr apenas desabrochado ao inculpavel beijo de um primo.

Para umafortunadesfalcada por grandes desbarates, um grande patrimonio de filha unica.

Nicoláo subjugára a mais liberal das fadas, ou pactuára com o anjo das trevas a felicidade d’este mundo a troco da eterna perdição da alma? Nada d’isto. Era a natural absurdeza das coisas sub-lunares, como ellas se nos figuram quando as encaramos superficialmente e pela rama.

Em harmonia com o seu ideal de felicidade domestica, o morgado restringiu ao minimo a sua convivencia, não pagando as visitas, e faltando aos convites. Apenas Martinho Xavier ás temporadas vinha de Chaves ver a filha, ou algum velho parente, que se retirava anojado da insipida existencia dos senhores do Vidago.

Martinho Xavier encarava na filha, e perguntava-lhe, a occultas do marido:

—Tu és feliz?

E ella, com os olhos assaltados de lagrimas, respondia, n’um tom de amarga ironia de si mesma:

—Sou...

O pae contristava-se; mas dissimulava. Se a occasião lhe dava uma aberta dizia ao genro:

—Vocês vem a enfastiar-se d’este modo de viver!... Por que não vens estar com tua mulher em Chaves alguns dias, primo Nicoláo?

—Porque nos sentimos completamente felizes no nosso paraizo terreal—respondia o morgado.

—E receiaes ser desgraçados lá?

—Não, primo Xavier; porém, a nossa casa é aqui; e o entrarmos nos vãos prazeres da sociedade corre perigo de acharmos depois monótona a solidão. Deixa-nos assim estar, que Beatriz sente como eu; affeiçoou-se á quietação d’este viver, que te parece melancolico, e, se me não engano, prefere-o aos bailes da tua Chaves.

—Não sei... murmurou Martinho.

—Por que dizes que não sabes?

—Porque ella tem dezesete annos, e foi creada com as inoffensivas regalias da sociedade culta.

—Bem sei; mas uma senhora, que toma este sério e melindroso estado, renuncía ás regalias frivolas e chimericas de um baile, e de um conciliabulo de murmurações com as outras mulheres.

—Não me pareces o homem que viveu em França, na Belgica, na Inglaterra...

—É por lá ter vivido que penso assim, primo Xavier.

—Não é isso...

—Então que é?

—É o estares gasto, primo.

—Estarei para as impressões stultas e prejudiciaes, mas para amar tua filha tenho a energia d’alma dos vinte annos. Desmente-me Beatriz?

—Não: pelo contrario, diz que tu a adoras.

—Pois bem: que outro galardão querias tu como pae?

—Nenhum outro, primo Mesquita. O que eu receio, repito, é que esta serenidade desfeche em fastio...

—Não receies, meu amigo. Eu sinto-me ditoso n’este sequestro da sociedade, e encho do meu contentamento o coração de minha mulher. Temos horas de passeio, de conversação e de leitura. E depois, ajuntou Nicoláo sorrindo, possuimos bons estomagos, e dormimos muitas horas, e accordamos alegres. Esta é que é a verdadeira, a legitima, a sadia, a patriarchal existencia de nossos avós, primo Martinho Xavier.

—Está bom...—murmurou o pae de Beatriz, concluindo com erguer os hombros, fechando as palpebras.

Passaram seis mezes. Voltou Martinho Xavier, e attentou no rosto desbotado da filha.

—Tu padeces, Beatriz? perguntou o pae fagueiramente.

—Não, senhor: vivo triste. Que oito mezes tão vagarosos! Parece que estou ha oito annos a olhar para estas arvores. Passam-se dias e semanas que eu não saio de casa! Onde hei de eu ir? Ver correr a agua do Tamega? Estou farta de ver o Tamega. D’antes ia á missa aos domingos, mas o primo Nicoláo está a dormir até tarde, e nem á missa vae. Eu deito-me ao escurecer, e elle fica a jogar o voltarete com o reitor e com o administrador do concelho até ás onze. Depois vae cear, e obriga-me a cear tambem. Que vida, meu pae!... Eu sou realmente muito amiga de meu primo, mas não sei de que nos serve a riqueza aqui mettidos n’este ermo, sem ver ninguem! Tenho tantas saudades do papá, e da nossa casa, e das minhas amigas! A TherezinhaPizarro fala de mim! Que mais feliz foi a Laura Canavarro, que me escreveu de Lessa da Palmeira, onde está a banhos, e já foi a dois bailes no Porto! E a Francisquinha de Villalva casa com o primo Raphael?

—Ora, menina! o primo Raphael está cada vez mais azougado d’aquella cabeça! Chegou de Hespanha ha dois mezes, esteve em casa uns quinze dias a recompôr a saude, pediu a Francisca de Villalva, e lá foi levado para Basto porque viu nas aguas de Verim uma menina da casa de Viade, e de Basto irá atraz de outra menina de qualquer casa. É um doido desmarcado!

—Elle falou-lhe de mim?

—Falou; perguntou-me se estavas contente.

—E o pae que lhe disse?

—Que havia de eu dizer-lhe?! que estavas contentissima.

—Fez bem. Não quero que elle se vingue.

—Vingar-se de quê? Pois tu deste-lhe motivo de odio?

—Não... mas...

—Explica-te.

—O pae bem sabia que elle me fazia a côrte.

—Uma brincadeira...

—Pois sim, mas, se eu fosse constante... vinha a casar com elle.

—Deus te livre, filha! Aquelle homem hade ser o flagello da mulher com quem casar...

—Quem sabe!...

—Sei-o eu. Antes infeliz com teu primo. Este, ao menos, é um esposo leal, inseparavel de ti, bom administrador de casa, e respeitado de todos. O outro vem a dar cabo do que tem, e está-se deshonrandotodos os dias com toda a casta de extravagancia. O que lhe vale é ter pae, que vae tendo mão na manta, e a grande herança que teve de uma tia; senão a grande casa de Fayões estava espatifada. Minha filha, dá louvores a Deus por teres casado com um homem, que te livra de casares com Raphael. Quando mais não seja, só por isto fizeste um optimo casamento.

Beatriz calou-se. Vinha entrando o marido com uma enorme pêra de sete cotovellos.

—Veja que prodigiosa pêra, primo Xavier! disse elle.

—É admiravel!

—Tenho magnificas fructas! Mandei fazer enxertos de pereiras francezas. D’aqui a dois annos o pomar mais rico de Traz-os-Montes ha de ser o nosso. Tu verás, Beatriz! Em França ha, no genero pêra, duzentas e tantas variedades.

—Porque não vaes mostrar Paris a tua prima? atalhou Martinho.

—Ora essa!—acudiu Nicoláo.—Se deixavamos a nossa casa para ir ver as paredes das casas dos outros!... Beatriz está farta de ver Paris nas estampas, que eu lhe explico perfeitamente. Pois toda a terra é mais para se ver na copia que no original!

—Ao menos vae até Lisboa ver a parentella que lá temos—replicou o fidalgo flaviense.

—Peior! redarguiu o genro. Minha mulher dispensa ver oD. José, da memoria do Terreiro do Paço, e as parentas contemporaneas da memoria. Quando cheguei de Bruxellas em 1834, fui procurar os numerosos Mesquitas que por lá estão em Lisboa, e achei uma gente exquisita, que me perguntavase nós cá na provincia tomamos chá. As mulheres pareciam girafas empalhadas. Pelos modos e edade, creio que desde minha bisavó as nossas parentas de Lisboa embalsamaram-se em vida, e ficaram repimpadas nas suas poltronas, á espera da trombeta do juizo final. Querias tu que eu fôsse mostrar essa parentella gothica a minha mulher? Deus a livre, que a pobresinha havia de cuidar que a mettiam n’um salão subterraneo de Pompeia a conversar com as mumias de alguma familia, surprehendida, em oração mental aos deuses, pela onda do betume.

—Está decidido que não saes de Vidago—retorquiu Martinho.

—Isso não sei; mas por emquanto a necessidade não obriga, salvo se Beatriz o exigir.

—Eu queria, ao menos, ir estar em casa do pae algum tempo...—disse a senhora.

Nicoláo involuntariamente franziu o sobr’olho, e disse:

—Já se vê que não estás o melhor possivel com teu marido...

—Falsa interpretação, acudiu o pae. A menina não dizia isso, primo. Saudades da casa paterna implicam o bem-estar com o marido?

—É conforme...—atalhou Nicoláo.—Pois sim, iremos a Chaves.

—Não vamos, não, primo, atalhou Beatriz despeitada, simulando conformidade.

—Então vamos ou não vamos? perguntou o marido, entre risonho e contrariado.

—O que fôr da tua vontade—respondeu ella affavelmente, sopesando o despeito, como quem, apezar do melindre maguado, queria ir.

De feito, ao outro dia partiram para Chaves.

Beatriz cobrou as côres e a alegria dos olhos, assim que viu a janella do seu quarto, e os craveiros em flor, que ella cultivára. Parecia-lhe a ella que amava mais seu marido alli. Appareceram-lhe as amigas da infancia, alegres, buliçosas, esplendidas de vida, contando-lhe os seus amores, as suas esperanças, as venturas de outras amigas. E Beatriz escutava a chilreada d’estas avesinhas com os olhos aguados, e o coração cerrado. Por supremo esforço, desprendia um sorriso, e então era peior, que as lagrimas rebentavam para afogar a falsa expressão do seio angustiado.

Correu logo a noticia da vida desventurosa de Beatriz. Os tios d’ella afoitamente invectivaram Nicoláo pela reclusão e estiolamento em que tinha os dezoito annos da pobre menina; accrescentando que para escura sorte a havia creado o pae com tanto mimo.

Isto agastou grandemente o morgado. A resposta foi asperrima, e contraditada com assomos de ira e excessos de palavras. O resultado foi Nicoláo, ao fim de quatro dias, ordenar a sua mulher que se despedisse, para no dia seguinte voltar a Palmeira.

Beatriz obedeceu silenciosamente. Desde este momento, a casa dos Vahias parecia de lucto. Nicoláo deixou ir sua esposa despedir-se em companhia do pae, pretextando impedimento de saude.

Estava Beatriz em casa de suas primas Canavarros, quando Raphael Garção entrou, vindo de Basto.

Viu Beatriz, fez pé atraz, e não teve mão de si, exclamando:

—Como está mudada, prima!

Beatriz abaixou os olhos com immensa dôr.

—E eu que a considerava tão afortunada!—tornou Raphael.

—E quem te disse a ti que ella o não é?!—interveiu Martinho Xavier, de má sombra.

—Diz-m’o aquelle rosto, que era formoso e ridente como o do anjo da alegria!—respondeu impavidamente o leitor de Richardson e Byron.

—Pode-se padecer do corpo, e ser-se feliz da alma...—contrariou Martinho.

—Isso não sei—contraveio o morgado de Fayões.

—Sei eu.

—Pois muito estimo que a mudança de rosto de minha prima seja uma leve doença, tornou Raphael.

Martinho Xavier levantou-se, dando signal de saida á filha, que abraçou tristemente as primas, e estendeu a mão a Raphael, sem o fitar no rosto.

Ao outro dia, partiram para o Vidago aquellas duas almas que providencialmente se tinham unido por occultos designios, que me não edificam, nem provam o bom regimento e ordenação d’este globo. Seja perdoada esta mingua de admiração ao mal afiado acume do meu espirito. O ver successivamente a desgraça propria e as alheias dispara afinal n’uma cegueira de entendimento. É o que eu penso de mim, sem com isto me querer ingerir n’um cantinho d’este romance.

Nicoláo de Mesquita sentia-se mudado. Via-se interiormente. Ha uma visão interior, intuspecção dolorosa em que a gente vê estar-se-lhe a alma enrugando, apanhando e envelhecendo. Queria desabafal-a em caricias á mulher; mas faltava-lhe o ar expansivo, aquelle dilatar-se o coração para receberas lagrimas refrigerantes da mulher que nos ama, e perdôa as faltas, o desamor e as iniquidades.

Concentrou-se.

Póde ser que ella o divertisse da sua introversão, se o acariciasse, mas Beatriz soffria mais que o marido, e começava a detestal-o. A precisada de caricias era ella, que duas angustias apertavam: a saudade, e o terror do porvir: o passado amor, renascido com a presença de Raphael: e o supplicio adveniente com o rancor, que ella sentia empeçonhar-lhe o intimo d’alma e a consciencia de sua irremediavel desgraça.

Sem embargo d’isto, os dois esposos viam-se a todas as horas, e trocavam expressões vãs.

—Porque soffres, prima?—perguntava elle.

—Eu não soffro.

—Mas que tristeza é essa?

—Sinto-me adoentada. E tu que tens, Nicoláo?

—Nada, Beatriz.

—Mas estás tão pensativo!...

—Medito na nossa sorte, e vejo que nos enganámos. Esta vida solitaria não quadra ao teu genio. Tu querias os brinquedos de solteira; e eu casei tarde para lhes achar prazer.

O silencio de Beatriz irritava-o; mas a delicadeza continha-o.

E, por este theor, travavam curtos dialogos, que rematavam em raiva suffocada.

Um dia, Beatriz não saiu do leito para a mesa do almoço. Nicoláo mandou-lhe a bandeja ao quarto pela criada. D’ahi a pouco foi elle, e viu intacto o almoço.

—Porque não comes?—perguntou elle.

—Não posso—respondeu seccamente a senhora.

—Queres que chame um cirurgião?

—A minha doença não a curam cirurgiões: ha de curar-m’a... bem cedo a morte.

Nicoláo riu-se sarcasticamente.

Sentou-se Beatriz no leito, e escondeu entre as mãos o rosto, para abafar soluços.

O marido contemplou-a com azedume, affastou-se.

Saiu; foi emboscar-se no arvoredo da quinta; e meditou meia hora.

Quando cessou de meditar, sentia saudades de Margarida Froment!


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