XII

XII

Esteenorme escandalo estrondeou tres semanas, e caiu á voragem silenciosa dos factos consummados. Corridos tres mezes, a fugidiça estava em Lisboa com a mãe; e Raphael Garção, de volta de Hespanha, entrára ás escondidas em Fayões, e lia romances no seu gabinete. O coronel, corrido do vexame, pedira transferencia para o Alemtejo.

Raphael tinha pae e mãe, que incessantemente offereciam ao Eterno o calix de suas dôres em desconto do peccado da má educação, que haviam dado ao filho. A mãe, temerosa do juramento que o general fizera de matar Garção com a espada do Bussaco, alternava, com o marido, sentinella ao filho para elle não sair de casa. O velhaco, assim que as atalaias, por noite velha descuravam a sobre-roldae ressonavam, saltava da janella ás espaduas do criado confidente, e ia refrigerar a cabeça, exercitar a força musculosa, e beber a sorvos os perfumes da manhã.

Assim devia presumir-se até de madrugada de um dia em que elle voltou com as costas crivadas de chumbo e uma orelha farpada. Extrairam-lhe as balinhas, e cicatrisaram-lhe as orelhas. Passados dias entrou n’um recolhimento de Villa Real uma filha de um boticario de Fayões, e então se aventou que Raphael Garção topára no pharmaceutico a fôrma do seu pé, como lá dizem.

Martinho Xavier foi a Palmeira contar este escandalo supplementar. Nicoláo riu-se e disse:

—Ha doidos que se fazem perdoar e estimar! As tolices de Raphael têem graça.

—É preciso ouvir-t’o, para se crer que fallas de Raphael com tão absurda sympathia!—censurou Martinho.—E jámais, ajuntou a meia voz, na presença de tua mulher: Isso desauthorisa a gravidade de teus annos e estado, primo Mesquita!

—Valha-te Deus, Martinho! redarguiu o morgado. Tu vens a ser muito rabujento, homem! Pareces um ancião com o barbaçudo aprumo de um patriarcha! És inexoravel com os moços e principalmente com teu sobrinho!... Quantas capas deixaste tu ficar por mãos impudicas, ha vinte annos, quando te eu conheci o primeiro casquilho de Chaves e seu termo?

—Não pratiquei desafôros! Atalhou Martinho.

—Graças á tua boa indole, e ao captiveiro do coração em que te teve seis annos a minha bella prima com quem casaste. É preciso perdoar aos rapazes, que não podem reconstruir o seu temperamento,nem remediar aos vinte e tres annos os vicios da educação. Raphael não é despresivel, quanto se te figura; é digno de dó. Vem pagar o que eu não sei bem se é culpa d’elle. Os doidos da bitóla de Raphael teem sempre o mau sestro de encontrarem doidos da mesma natureza. Cumpre ponderar esta notavel attenuante, primo Xavier. O mundo não faz d’isto cabedal, nem desconta. Se Raphael attentasse em mulheres morigeradas, não descobria a esposa do coronel, nem a filha do boticario.

—Foram seduzidas! bradou Martinho.

—Pois isso é claro! Toda a mulher precisa que a seduzam; e se a não seduzem, trata ella de seduzir-se a si mesma.

—Regra geral, portanto!

—Regra geral para as mulheres desviadas do caminho da honra.

—E entendes que Raphael tão somente pode perder as desviadas?

—Cuido que sim.

—E as honradas são invulneraveis?

—Como o calcanhar do heroe de Homero.

—Estás gracejando... Chega-me aqui o ouvido.

Nicoláo inclinou-lhe a orelha, e Martinho segredou:

—A Margarida Froment estava desviada do caminho da honra quando a perdeste?

Nicoláo retraiu de salto a cabeça, e não respondeu.

Beatriz descórou, suspeitando loucamente uma revelação horrivel.

Cessou a polemica.

Estavam no mez de junho.

Beatriz lembrou um passeio á feira annual de Santo Antonio a Villa Real. Martinho Xavier acompanhou-os.

Nicoláo e a mulher compravam objectos de oiro n’uma barraca. Raphael Garção passava e viu-os, e parou. Casualmente voltou a face Beatriz, e expediu um grito. Vira-o, e tremêra no braço do marido. O morgado olhou em roda de si, e perguntára:

—Que foi?

—Pisaram-me...—disse Beatriz.

—Canalha! bradou rancorosamente o morgado no rosto das pessoas mais chegadas ao balcão do ourives.

Passaram a outras barracas.

—Espera! disse com alvoroço Nicoláo.—Queres tu vêr o primo Raphel?!

—Onde? perguntou ella serenamente.

—Além! aquelle sujeito de jaqueta de alamares, e botas á Frederico.

—Parece-me que é.

—Vamos ter com elle.

—E se o pai está por ahi?

—Que importa?

—Bem sabes que nos faz um sermão.

—Ouviremos o sermão com devota paciencia. Vamos ouvir este sublime doido... Elle olha para nós... reconhece-nos...

E chamou-o com um aceno.

Raphael avisinhou-se: faltava-lhe ar, como se o coração, dilatado pelos arquejos, lhe tomasse todo o peito.

—Venha cá, D. João, venha cá!—disse com alegre sombra Nicoláo—que é feito de si, homem perdido?

Raphael cortejou grave e cerimoniosamente a prima; abraçou o morgado, e respondeu solemne:

—Homem perdido... é o nome que justamente me frisa. Perdido como todos os homens que atiraram o coração ás sarças de desesperança.

—Que estylo!—atalhou Nicoláo, e que merencorio gesto você está fazendo! Tire lá essa mascara dos quarenta annos, e seja rapaz emquanto seu tio Martinho não apparece por ahi.

—Está cá meu tio?

—Está... respondeu Beatriz, levantando do chão os olhos em que Raphael viu um vidrado de lagrimas.

—O primo Raphael que faz aqui? perguntou o morgado.

—Nem eu sei, sinceramente lh’o digo.

—Sei eu, e bom será... que o boticario de Fayões o não saiba...

O moço não abriu leve sorriso; abaixou os olhos e murmurou:

—Seja generoso, primo Nicoláo. Eu não espero da sua mão a esponja do fel. Creia que tenho sido muito desgraçado, e perdoe-me não ter podido ser feliz.

Apertou a mão da prima, abraçou ligeiramente o morgado, e afastou-se velozmente.

Nicoláo quedou-se immovel e silencioso.

D’ahi a segundos disse a Beatriz:

—Creio que teu primo é sinceramente desgraçado!...

—Parece... Como está magro e pallido!

—E talvez não tenha um amigo!... um amigo sincero que o defenda de novos pricipicios... Quem me dera poder vellar o destino d’este rapaz!

—Pobre moço!... murmurou Beatriz, embebendo as lagrimas no lenço.

—Não te afflijas assim, menina. Se eu lhe não fallar, hei de escrever-lhe. Está em excellente idade para rehaver os creditos perdidos, e depois, é rico; a riqueza é meia rehabilitação, quando não é rehabilitação inteira e mais metade.

Caminhando, encontraram Martinho Xavier, que crescia para elles com a vista derramada, e amarello.

—Que tens? perguntou Nicoláo.

—Nada... respondeu Xavier, ferindo a filha com repetidos olhares penetrativos.

—Que tens, homem? viste o monstro?

—Que monstro?

—O Raphael, o tigre, a basilisco?—perguntou o morgado, sorrindo.

—Vi... e tu tambem?

—Esteve ainda agora comnosco. Eu queria que tu o ouvisses...

—Para que?

—Está revirado. Falla como um S. João, que vem do deserto ao povoado prégar oagite penitentiam! Confessou os desvarios que o infelicitaram, e fugiu de nós sem nos dar tempo a consolal-o.

—Faltava-lhe a hypocrisia! atalhou Martinho.—Cerrou a mêda agora, não tem duvida. O fecho da abobada é a hypocrisia!

—Que inexoravel e cru homem tu és, primo!

—Sou, sou flagello inquebrantavel de infames—bradou Martinho com espanto dos transeuntes.

—Está bom... disse brandamente Beatriz. Não questionem... Meu pae, perdoe a quem é infeliz,e despreze-o. Vamos embora d’aqui... As minhas compras estão feitas. Vamos para Palmeira, Nicoláo.

—Pois não has de ir á noite ao theatro, filha?

—Não... se me amas, partamos já.

Emquanto Beatriz se vestia de amazona para cavalgar, Nicoláo disse ao sogro:

—Sinto, meu primo e amigo, sinto amargamente a necessidade de te dizer que me fazes soffrer mais do que pode a minha paciencia por causa de teu sobrinho. Para mim e para tua filha é extrema a satisfação e honra que nos dás com a tua convivencia; mas tambem é certo que nos amarguras com a excessiva intervenção de tua vontade em nossas acções e amisades. Eu comprehendo bem que aborreças teu sobrinho; porém, confesso-me insufficiente para avaliar o direito com que tens embaraçado que eu o receba em minha casa, e lhe prove que o estimo por gratidão e parentesco. Peço-te encarecidamente que absolvas estas reflexões, e por tua parte modifiques esse irreflectido zelo de minha casa, onde eu não receio que entrem homens de costumes soltos, porque sei eu castigal-os, quando elles se esquecerem do que devem á sua dignidade e á minha.

Martinho Xavier lançara-se sobre uma cadeira, e escondera o rosto entre as mãos, soltando estas gementes palavras:

—Meu Deus, meu Deus!

—Que tens tu? perguntou Nicoláo commovido.

Beatriz entrou na sala, e viu o pae enxugando as lagrimas, e o marido inclinado á face d’elle.

—Que é?! disse ella agitada.

—Não sei...

—Vão, e adeus!—murmurou Martinho, erguendo-se com energia.

—Ficas em Villa Real?

—Fico: tenho ahi uns cavallos em ajuste. Só poderei ir ámanhã ou depois.

—Queres que esperemos, Beatriz? perguntou Nicoláo.

—Esperemos...—respondeu ella desopprimida da abafação do susto.

—Não, que eu vou direito a Chaves—contrariou Martinho Xavier.

—E quando voltas a Palmeira?

—Quando poder.

Saiu adeante d’elles, apertando convulsivamente a mão da filha, quando se ella inclinou a beijar a d’elle.

—É mysterioso teu pae!...—ponderou Nicoláo.

—Pois que te disse?

—Ouviu-me umas observações duras de se ouvirem, e chorou, como viste... E não póde deixar de ser o que eu já suppuz... Teu pae é ludibrio de alguma intriga a teu respeito.

—Intriga?

—Sim... Levaram-n’o a uma terrivel suspeita... de ti e de Raphael. Faz mal em se não declarar. A injuria reflecte-se em mim... Eu queria mostrar-lhe a elle, ainda mais que ao mundo, a tua innocencia.

—Pois alguem me considera culpada?!—atalhou extremamente resentida Beatriz.

—Não digo tanto; mas com capacidade para culpada.

—Quem?... Eu mereço isto!... Pois tu podes presumir?...

—Se eu podesse presumir, não t’o diria, minha querida prima. Esperava... Facilitava-te as occasiões; e, quando t’o dissesse, a tua bocca não poderia defender-se. Comprehendeste-me bem?

—O ar com que me estás fallando, Nicoláo...

—É a primeira vez que reparas n’este ar. Deus permittirá que seja a ultima.

—Desconfias da minha lealdade, Nicoláo?

—Já respondi, Beatriz. Não desconfio. A tua agonia de morte começaria desde a desconfiança.

Repostos na bonançosa vida de Palmeira, ataram o fio quebrado das serenas alegrias, que irradiavam á volta do berço da creancinha. Bonançosa vida, escrevi eu, porque os exteriores condiziam com a palavra; todavia, no recondito d’alma de Beatriz, estava o aspide roedor, que lhe torvava os sonhos de infernaes alegrias, ou horridas visualidades. Abria os olhos molhados de culposas lagrimas, e seccava-as ao bafejo do filhinho. Seguiam-se no dia as intermittencias da noite. Uma hora, relampagueava-lhe a esperança uma luz vividissima, ao clarão da qual divisava a imagem de Raphael. Outra hora sentia atravez do seio uma vibração glacial, como se a larga lamina de ferro lhe abrisse bulhões de sangue: n’esta visão infanda era a imagem do marido que lhe avultava descomposta pela vertigem do odio. Refugiava-se ainda sob a egide do anjo, a creancinha, que inclinava o rosto á face d’ella, e balbuciava a primeira syllaba das suas reminiscencias do ceu.

Martinho Xavier lá estava em Chaves. Decorreram dois mezes, e elle não voltou á Palmeira. Foram visital-o e levar-lhe o neto e afilhado. Acharam-n’o quebrantado com o pezo de mais dez annos.Encaneceram-lhe os cabellos, arrugaram-se-lhe as faces, amortiçou-se a luz dos olhos, arados pela bafagem ardente, que não tinha respiradouro. Para elle a perdição da filha era um anathema indeclinavel. Entrou-se do convencimento de ser ella o instrumento providencial do castigo de Nicoláo de Mesquita. A deshonra de Ernesto Froment havia de ser vingada. A sua amada Beatriz, a innocente das perversidades do marido, obedecia ao sobre-humano impulso da indefectivel justiça. Minguava-lhe illustração para combater o prejuizo. Accusava de injusta a Providencia quando lhe genuflectia, e subpunha a cabeça de sua filha a uma absurda fulminação.

Á força de apprehender n’isto, desordenou-se-lhe a intelligencia por uns paradoxos de fatalismo, que implicavam á religiosidade do seu caracter.

Encarava de fito na filha e chorava. Affagava o neto, e perguntava-lhe:

—Entendes tu a minha dôr, anjo do ceu?

Descaía um severo olhar sobre Nicoláo, e dizia-lhe:

—Não devias casar nunca, sem saldar contas com a Providencia.

O marido de Beatriz suspeitou da inteireza intellectual do sogro. Era para isso. Quiz arrancal-o da solidão do seu quarto, e trazel-o para Palmeira. Foi invencivel a resistencia muda do precoce velho, que apenas contava quarenta e oito annos. Quiz Beatriz ficar em Chaves, e o pae rejeitou o alvitre, como desnecessario á sua morte.

Voltaram a Palmeira.

Parece que lhes soavam n’alma de ambos as medonhas alvoradas de um dia de infinita calamidade.O ceu era o mesmo, a creancinha brincava entre elles com as flôres inverniças; ao passo que os paes, sem se revelarem, olhavam sobre o menino com os olhos lagrimosos.

—Porque choramos nós?—perguntava Nicoláo.


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