XIX
RaphaelGarção enfastiado de Beatriz!...—Castigo do ceu!—Dispensemos a intervenção do ceu nas baixezas que o não exaltam. Temos cá em baixo a comesinha e espalmada explicação de tudo que é feio, triste e nauseativo.
Enfastiou-se Raphael Garção por sete razões:
1.ᵃ Ninguem o estorvava de ir vêr sua prima duas horas de cada noite, regularmente.
2.ᵃ As horas do dia, passadas na sua residencia clandestina da rua dos Romulares, começaram a parecer-lhe longas, e a casa mal arejada, e os visinhos do quarto andar insupportaveis com o strupido do rapazio.
3.ᵃ Beatriz exigía-lhe que elle passasse o dia alli, receiando que outra mulher o estorvasse instantaneamente de a vêr a ella.
Observação á rasão terceira: Se Beatriz lhe dissesseque a sua assiduidade n’aquella janella punha em risco o segredo, Raphael cuidaria que o terceiro andar estava perfumado de caçoulas orientaes; e que o tropel dos meninos de cima era um soido das harmonias dos astros.
4.ᵃ razão. As substancias alimenticias chegavam sempre frias e derrancadas á rua dos Romulares, por virem do largo do Chafariz de Andaluz. Esta razão é vergonhosa!
5.ᵃ Dormia Raphael trez a quatro escassas horas em cada noite, para entrar com a aurora na casa fétida. Pesava-lhe a cabeça, a miudo; e, á decima quarta noite de visita ao hotel, se se descuida, bocejava na presença de sua prima.
6.ᵃ Era curiosissimo de touros e côrtes, e não podia ir ao curro nem ao parlamento.
7.ᵃ Queria conversar, queria gente, queria dar jantares, e fazer brindes mysteriosos a Beatriz; mas o relacionar-se era victimar a sua felicidade ás suspeitas de Nicoláo de Mesquita.
Estas razões encadearam-se no fim do primeiro mez, e estavam já na forja os élos de outras sete, quando Nicoláo de Mesquita alugou e mobilou um palacete no largo de S. Sebastião da Pedreira.
Raphael melhorou de vida. Livrou-se do terceiro andar. Dormia nove horas. Comia o seu jantar em bom estado. Além d’isto, morava perto de Beatriz, e saia de noite a beber bons ares pela estrada de Palhavã até ao Campo Grande.
De mais a mais, Beatriz, perdido o susto, e identificada ao facto assustador, em vez de ir passar as noites com suas primas Camaras ou Mesquitas, descia pela travessa dos Carros, e volitava da sege de praça a uma porta do jardim de seu primo, e ahi seespantava da velocidade instantanea das duas horas costumadas.
Isto durou um mez, a beneplacito do coração de Raphael.
Coincide com esta época o conciso dialogo, que elle teve com o seu anjo mau no final do anterior capitulo, depois de haver lido a carta de Ricardo de Almeida.
O morgado de Fayões ficava em casa, quando sua prima ia ao theatro. Não o affligiam ciumes, nem saudades, nem anceios de vel-a sobreluzir entre a constellação das estrellas de S. Carlos, as quaes—digamol-o de fugida—se não tivessem luz propria, seriam invisiveis á luz da sala.
O que elle queria era ir por si, e não por ella.
Reflexionando comsigo, dizia elle:
—O mais aperreado dos tres sou eu. O marido está com Margarida Froment, nectarisando a existencia com as delicias da segunda edição do seu amor. Beatriz está no theatro a vêr-se formosa na face das outras, e a saborear-se nas melodias de Verdi. Eu estou aqui a resolver-me do sophá para a poltrona; e, se quizer ao menos vêr o ceu estrellado, quando não ha nuvens, hei de bater os dentes de frio por essas ruas, onde não conheço viva alma!
O corollario do discurso era algum axioma, dos que elle tinha composto para uso do seu primo Ricardo.
Queixou-se uma vez delicadamente d’este sequestro do mundo á prima. Beatriz amuou, e doeu-se de não ser bastante a dar-lhe mundos encantados de extasis e fontes inexhauriveis de poesia. Desfez-se a nevoa, ao calor de um osculo, no breve aguaceirode mimosas lagrimas. Gongorisemos estas lindas coisas do coração.
A despeito, porém, de Beatriz, Raphael deu em ir a S. Carlos, quando ella ia, indagando préviamente se o primo Nicoláo passava a noite nohotel de Italia. Furtava-se ao reconhecimento de rapazes conhecidos da universidade, e sumia-se entre a mó de alguns sujeitos gordos, que faziam perder a individualidade a todo o homem magro.
Beatriz, guiada pelo coração que lhe fallou aos olhos, apanhou-o, e assustou-se; porém, como o visse a contemplal-a, perdoou-lhe.
Assim, pois, melhorou algum tanto mais a vida de Raphael Garção, e decorreram dois mezes suavemente, sem variante notavel.
Em março d’aquelle anno de 1843, disse Nicoláo á senhora que precisava de ir a Santarem com alguns correligionarios politicos preparar o terreno para uma revolução, tendo de demorar-se n’esta diligencia forçada trez dias. Beatriz ageitou o rosto a uns ares tristes, e o marido licenciou-a, como lenitivo á saudade, a ir passar algum dia a casa das primas Camaras, em Bemfica.
Contou ella, exultando, o caso ao primo.
—Bella occasião de irmos passar um dia a Cintra!—exclamou Raphael!
Ficaram pactuadas as delicias de Cintra.
Nicoláo despediu-se á tarde da esposa, e foi, senão mentiu, para Santarem.
Ao alvorecer toda risos a manhã do outro dia, Beatriz saiu fóra da barreira, que lhe ficava á porta, entrou na carruagem de Raphael; e elles ahi vão á competencia com o jubilo dos passarinhos, estrada fóra.
Chegaram a Cintra. Parou a carruagem á porta doVictor. Raphael apeiou-se, foi dentro procurar um quarto alegre e espaçoso com vistas sobre os arvoredos das quintas subjacentes.
Dizia um criado que os quartos principaes estavam tomados; e apenas dispunha de um sem janella, mas limpo como todos.
Objectou o morgado que vinha com elle uma senhora, e em tal caso iria buscar hospedagem n’outra parte.
N’isto, abriu-se uma porta de um quarto proximo, e saiu á sala de entrada Nicoláo de Mesquita.
—Por aqui, primo Garção?!—disse o de Vidago sem sombra de mal-querença.
O choque perturbou o sangue frio de Raphael por momentos. Fez-se logo, porém, a reacção dos imperterritos espiritos.
—É verdade, primo Mesquita!... Vossa excellencia aqui!... Eu julgava-o ha muito em Palmeira. Cinco mezes em Lisboa!
—Aqui estou embaraçado por coisas da politica. Afinal caí n’este lodaçal commum. E vossê d’onde vem?
—De Pariz. Cheguei hontem á tarde. Venho vêr Cintra e vou breve para a provincia.
—Veio só?... perguntou, Nicoláo, surrindo.
—Porque pergunta se vim só?—replicou Raphael atalhando.
—É porque ouvi dizer ao criado que trazia uma senhora.
—Ah!... sim... eu trago uma senhora...
—Não se atrapalhe, homem! Quem vem de Pariz não póde deixar de trazer uma mulher...—tornou Mesquita com o rosto aberto e alma lavada.
—Mas vossê não vai casar com a Angela de Santo Aleixo?! Que destino ha de dar o primo á creatura que leva?
—Hei de pensar n’isso, primo...
—Afinal—volveu o marido de Beatriz—o visionario desistiu das nupcias celestiaes!...
—Que remedio!...
—Bem lh’o disse eu, seu rapazola!... Fica por cá hoje?
—Provavelmente... Vossa excellencia vem com a prima Beatriz?
—Não: vim só...—Beatriz—continuou Nicoláo com o semblante menos ridente—vive toda entregue aos ministerios caseiros e ao amor do filho.
—Queira vossa excellencia fazer-lhe os meus cumprimentos, que eu parto ámanhã talvez, e peço me dispense de procural-os. Adeus.
—Então já?...
—Vou em busca de outra pousada.
—Olhe cá! a companheira é parisiense?
—Não primo, é de Marselha... Adeus!...
—Ah! sim? são bellas mulheres essas...
Raphael já estava no rocio ou patim do hotel, e Nicoláo acompanhava-o, dissimulando o intento de vêr a franceza.
O morgado de Fayões transpirava de afflicto, e sentia-se estupido para inventar um obstaculo á desastrosa coincidencia!
Beatriz reconhecêra a falla do marido, e tremia na mais natural e horrente perplexidade.
Estava tolhida de pavor.
Raphael parou, torcendo o bigode, e friccionando a concha da orelha esquerda. Parece que tinha uma idéa salvadora na orelha esquerda.
Chamou o cocheiro e disse-lhe:
—Desanda a carruagem, e pára á porta de outra hospedaria, que ahi está em cima á direita.
—A senhora vae?—perguntou o criado.
—Vae.
—Maganão!—disse o Mesquita, batendo-lhe no hombro—vossê não quiz que eu visse a mulher!
—Essa é boa, primo Nicoláo!... Que tem que a veja!... Eu confio bastante n’ella e no primo!...—respondeu jovialmente o morgado de Fayões.
—Póde confiar, que eu puz ponto nos desvarios—concordou o do Vidago.—Agora, a minha dama é a politica.
—Cuidado com as perfidias d’essa dama, primo! Eu antes me quero com as devassidões das outras.
—É por que vossê não tem amor patrio, e está na sua época de desperdiçar as forças do espirito.
—Diz bem, meu amigo, e, se me dá licença, vou dormir um pouco para recuperal-as. Apparece?
—Não sei se poderei: espero aqui uns politicos que vem de Lisboa.
—Pois então divirtam-se: e até á vista, primo Nicoláo.
Beatriz não quizera apeiar, sem entender a estranheza d’aquelle encontro. Sentia uns angustiosos apertões de medo, que os criados não compreendiam.
Raphael entrou na carruagem, e disse:
—Já para Lisboa!
E contou o simples caso da apparição de Nicoláo. Beatriz aquietou-se, e riu, quando o primo lhe contava o comico dialogo com o marido. Mas o susto sobreveiu, quando Raphael conjecturou queMargarida, áquella hora, poderia revelar coisas que os perdessem.
No entanto, Margarida Froment, que despertára no momento em que Nicoláo entrava no quarto, perguntou-lhe:
—D’onde vens?
—De encontrar aqui um parente, que chegou hontem de França.
—Está cá?
—Vinha procurar quarto; mas não o encontrou digno da franceza, que trazia comsigo.
—Viste-a? É galante?
—Não a vi. O rapaz tem medo que lh’a bebam os ares.
—Então elle é velho?!
—Tem vinte e quatro annos. Já te fallei n’elle. É o Raphael Garção.
—Ah, disse Margarida com um sorriso indefinivel.—Esse teu primo é aquelle que amou tua mulher?
—Justamente.
—E veiu agora de Pariz?
—Sim.
—Ha quanto tempo estava elle em França?
—Ha cinco ou seis mezes.
—Cuidei que o vira ha trez em casa do Ricardo... Que figura tem? É um rapaz magro, de melenas escuras, bigode, e uma cicatriz na face esquerda?
—Tal qual... Tu viste um homem assim?! interpellou o morgado, atrigando-se.
—Vi... ha trez mezes, poucas noites antes de sair da casa do Almeida.
—Mas é a primeira vez que me fallas d’elle!...
—Não sei para que havia de fallar-te de um homem, que me não importa!
—Mas eu disse-te que suspeitava...
—Que suspeitavas de um primo de tua mulher que estava em França. Como me não disseste o nome d’elle, nem a época em que tinha ido, eu não podia suppôr que a visita de Ricardo era o primo de quem me fallavas... Que pensativo estás, Nicoláo!...
—O que eu penso é uma horrenda coisa!... balbuciou cavamente o morgado, e saiu.
—Onde vaes?! acudiu Margarida.
—Não me sigas... espera-me, que eu tenho a cabeça perdida...
Foi á porta da hospedaria que Raphael indicára ao cocheiro. Perguntou se alli não parára uma carruagem. Informaram-n’o que estivera lá um trem com uma senhora, obra de dez minutos; e partira de grande batida, assim que chegou um sujeito, e disse ao cocheiro: «Já para Lisboa.» Pediu os signaes da senhora: Disseram-lhe que era magrinha, branca de neve e tinha uma capa de casimira escarlate.
—Maldição! rugiu o morgado com os dentes cerrados.
Voltou aoVictor, e mandou pôr os cavallos á carruagem. Foi ao quarto de Margarida, e exclamou:
—É horrivel o que acontece!...
—Que é, filho?! perguntou a franceza, mais agitada que o natural.
—Vamos para Lisboa!... Já!... Eu tenho sido atraiçoado!...
—Por mim, santo Deus? exclamou a franceza.
—Não, por minha mulher.
—Tens provas?!
—Era ella que vinha com o infame! Era ella, e eu vou arrancar-lhe o coração!... e apunhalal-o a elle!
—Reflexiona, meu anjo!—redarguiu Margarida Froment.—Tu estás desvairado! Pois tu viste-a?
—Não. Fugiram. Branca, magra, e capa escarlate!... Era ella! Está morta, juro-te que morre hoje, se não estiver escondida nos abysmos do inferno!
—Que pequena alma!—observou a franceza.—Quando assim fosse, não terias a coragem de Ernesto Froment?
Nicoláo fitou-a com spasmo de furioso, e bramiu:
—Porque me dizes tu isso?
—Porque meu marido, como sabes, não me veiu procurar onde me tu trouxeste. Sei que vive feliz, e esquecido da deshonra, e de sua mulher.
—Eu não sou Ernesto Froment! exclamou irado. Sou Nicoláo de Mesquita.
—Egual a Ernesto Froment perante a desgraça, acrescentou Margarida.
—Basta!
—Falta-me dizer umas breves palavras, tornou ella. Eu não hei de ir andar comtigo atraz de tua mulher. Vae, e deixa-me aqui ficar. Se quizeres, volta, ou manda-me buscar, depois de teres concluido essa empreza.
—Vem, que eu, á entrada de Bemfica, mando-te levar ao hotel. Vem, Margarida, se não estás apostada a tirar-me o resto da minha razão!
—Pois sim, vamos.
Que supplicio no trajecto d’aquellas cinco leguas,tão vagarosas! Que confrangimentos de alma, e revolutear de viboras assanhadas no peito!...
Parou a carruagem em Bemfica, onde moravam as primas Camaras.
Nicoláo mandou o cocheiro conduzir Margarida ao hotel, e encaminhou-se por uma azinhaga á quinta das primas.
Bateu ao portão. Houve grande demora em abrirem-lhe. Chegou uma criada a uma janella gradeada do muro, e perguntou:
—É vossa excellencia, senhor Mesquita?
—Sou: a senhora D. Beatriz está cá? disse elle offegante.
—Está sim, meu senhor.
—Está?! reperguntou com espanto.
—Já disse que está... Eu vou pedir a chave para abrir o portão.
Ia grande alvoroto nos quartos das senhoras Camaras.
Beatriz estava em convulsões; e uma das primas casada dizia-lhe:
—Que mulher esta!... Ó tola, animo, que está tudo prevenido, criadas e tudo!... Tira essa capa, e cobre-te com a minha azul, que é a irmã da tua. É uma cautella, que tu não sabes se elle te viu...
—Sacudam-lhe o pó do chapeu! disse outra senhora Camara, tambem casada.
E o marido d’esta senhora accrescentou:
—Porte-se com coragem, prima Beatriz.
O tardio abrir-se do portão deu tempo a tudo isto.
Quando Nicoláo avistou a escadaria do palacete, já sua mulher, entre as senhoras Camaras, estavamno patim, vozeando um alarido de alegre recepção ao primo Mesquita.
O reparo que elle fez logo foi na capa, que lhe saiu azul. Ainda assim a cara denotava o inferno interior.
—Não foste a Santarem?! perguntou Beatriz com jovial admiração.
—Assim, assim!—applaudiu a meia voz uma das senhoras casadas.—Falla-lhe n’esse tom.
Nicoláo subiu a escada, ainda esbofado.
—Vieste a pé?! disse Beatriz. Que canceira é essa! Tu d’onde vens? de Lisboa? como ficava o menino? Viste-o, filho?
—Muito bem! disse á puridade uma senhora Camara, a outra senhora Camara, ambas casadas com maridos espertos.
O morgado sentou-se n’um banco de ferro. Era a mais inclassificavel das phisionomias benemeritas de um estudo phisiologico.
—Que tens tu? volveu Beatriz. Querem vêr que te aconteceu com o demonio da politica alguma desgraça!
—A que horas saiste hoje de casa? perguntou abruptamente Mesquita.
—De manhã cedo, respondeu uma das senhoras Camaras, porque nos veiu pôr a pé a travêssa da prima, eram seis horas e meia.
—Essa pergunta que significa! inquiriu Beatriz, arrugando a testa.
—O primo está afflicto! A sua pergunta quer dizer alguma coisa! observou outra senhora.
Beatriz entrou de repelão na sala, encarando-o com uma sobranceria de quem esmaga a affronta sob os tacões das botinhas.
—Entre, primo Mesquita, pediu o marido de uma das senhoras. Vossa excellencia está preoccupado.
—Peço perdão! disse Nicoláo. Eu devo confessar, visto que Beatriz se retirou offendida, que uma gravissima suspeita me trouxe aqui.
—Suspeita injuriosa á pobre senhora? perguntou a prima Carolina.
—Eu suppuz que minha mulher esteve em Cintra, ha trez ou quatro horas.
—Que horror! exclamou uma; e as outras, com as mãos no rosto, conclamaram:
—Que horror! Deus de misericordia!
—Em Cintra!?
—Ha trez horas!?
—Haveria olhos infames que tal vissem!
—Quem lhe disse isso?
—Como se ataca a honra de um anjo!
Fallavam todas a um tempo. O proprio sujeito, que era marido, cruzou os braços, abanou a cabeça, e disse:
—Que hedionda calumnia!
—Venha pedir perdão á prima Beatriz! disse uma dama de cincoenta annos, que tinha ao seu lado uma filha de vinte e outra de dezoito. Vá pedir perdão á innocente menina! Em Cintra!? Pois ella chega aqui ás seis horas e meia, a pé, coitadinha, que não tinha trem, nem o achava áquella hora... e esteve em Cintra ha quatro horas!... Que mundo, que mundo!...
Nicoláo ergueu-se, e foi pelo braço do cavalheiro a um quarto, onde Beatriz se refugiara com uma das senhoras.
Estava ella com a pallida fronte apoiada na palmada mão, e os olhos no regaço, sobre a mão da sua amiga, que a confortava.
Nicoláo acercou-se d’ella, tocou-lhe na face, e disse commovido:
—Então, filha!... perdoas-me?
—Não quero saber o que hei de perdoar-lhe, respondeu Beatriz com severidade.
—Perdoa, perdoa—disse uma senhora Camara, que não averiguamos se era casada—perdoa, porque as desconfianças são a prova do amor.
Eram seis horas da tarde. Ia o jantar para a meza. Nicoláo pediu desculpa de não poder assistir. Foi para Lisboa, e ficou de mandar á noite a carruagem buscar sua mulher.
Entrou de boa cara nohotel de Italia, e disse a Margarida.
—Sou um asneirão! Beatriz estava desde as seis horas e meia da manhã em casa das primas Camaras! Pobre mulher!
—E pobres homens...—ajuntou Margarida com um sorriso perverso—pobres homens os ciosos como tu!...