Chapter 3

*D'este centro, a meio quarto de legua a nor-noroeste, esconde-se o logar das Maçadas, com cincoenta almas, sua ermida de S. João Baptista, e sua fonte muito fresca.Para o norte, a outro meio quarto de legua, a antiga villa da Castanheira, com as suas entradas, cobertas de parreiral, vangloriosa com os seus cento e oitenta e sete moradores, e com a sua capella do Espirito Santo, mas dando-se-lhe pouquissimo com o telegrapho, que desde as ultimas guerras lhe ficou até hoje a pantomimar no alto do seu oiteiro. Pelos gestos d'aquelle activo surdo-mudo passam, de extrema a extrema do Reino, quantas noticias o revolvem, sem que a boa da villa, nem outro algum dos logares que entram na sua abençoada confederação de rustica ignorancia, as adivinhem, nem suspeitem, nem cubicem.A tres quartos de legua para nor-nordeste, dá-se com a humilde póvoa de Falgarinho, de não mais que oito visinhos.Subindo d'ali mais um quarto de legua contra o nordeste, encontra-se, n'uma quebrada da mesma crista, a Serra-de-cima, com vinte e tres pessoas.Descendo para o sul pelo seu ameno valle bordado de frutiferas arvores, e a pequena distancia, se dá de improviso com a vistosa e agradavel quinta da Serra-de-baixo, de sete almas, e sua capella de Nossa Senhora do Livramento.Nas faldas d'estas fragosas montanhas, junto ao rio de S. João do Monte, que a seus pés corre, está em amphitheatro o Avelal-de-cima, de vinte e quatro almas, a tres quartos de legua a les-nordeste da egreja.Voltando pela direita ao tortuoso rio por caminhos pouco transitaveis, a meio quarto de legua está para o nordeste o Avelal-de-baixo, logarejo de quarenta e sete almas, e uma capella de Nossa Senhora da Conceição.Deixando a margem do rio, atravessando um desfiladeiro, e subindo bojudas lombas, reverte-se ao nosso ponto fixo de observação.Para o nascente, descendo até á Cruzinha, e d'ahi toda a costa dos Ferreiros, passa-se o rio de S. João do Monte, junto ao seu confluente Alcafaz (nome arabe, que significa«o salto»)nome que para ali está, ha mais de setecentos annos, soando em bocca de christãos sem renegar a sua origem, nem se corromper.Para a esquerda do S. João do Monte, se descortina a nossa Talhada, de honrada memoria, berço de um Cardeal, de um fundador de capellas, e de um namorado de lei; tres celebridades para um ninho hoje de quatorze almas, coberto de loisas e colmo, e coroado de sarças e medronheiros; dista-nos um quarto de legua para nordeste.Vadeando segunda vez o rio, e a pouca distancia d'elle, o S. Mamede (que toma este nome na juncção dos dois afluentes) se atravessa na ponte de pau que já sabeis, e onde eu agora, 30 de Julho ao meio dia, me tomára a apanhar á fresca.Subindo um pouco espaço a costa, atravez de alcantiladas rochas, toma-se a les-nordeste, seguindo tortuosa e mal aberta senda, que em travessia da montanha, sobre a esquerda do rio, leva até ao casal do Fontão, de onze almas, sito na margem do Alcafaz, na raiz do cabeço de Santa-Cruz, a quarto e meio de legua para nós.Revertendo-se onde se largou o caminho, se continua serpeando a encosta; e no cimo se encontra a povoação de Falgozelhe, de setenta e uma almas, posta a um quarto de legua da egreja, a les-sueste, quasi na extremidade occidental de um ramo do Caramulo. O nome da sua casa de oração é o que á sua altura melhor convinha: Santa-Cruz.Tomando-se o rumo do sul, e atravessando o rio Agadão por outra ponte de pau, e serpeando ingreme ladeira, no cimo está o pequeno e vistoso logar da Falgarosa, de trinta e seis moradores, com uma sua ermida da Senhora da Boa-Morte, a tres quartos de legua ao sul; terra que se ufana com o delicioso de seus pomares de caroço e de espinho, com a annosa matta de sobreiros que a abriga pelo nascente, norte, e noroeste; e sobre tudo, com ter dado á luz o instruido e virtuoso Pastor, que hoje rege aquelle rebanho.Voltando para o rio, passa-se n'uma bateira um pouco a baixo, depois de se terem abraçado os dois afluentes Agadão e S. Mamede.Subindo-se até ao vizo, está o logar da Redonda, de cincoenta almas, com sua capella de S. Gonçalo, a quarto e meio de legua a sudoeste da egreja. Redonda se chama, por estar á borda de um leito semi-circular.*Fechemos a topographia do nosso pequeno reino, com as suas confrontações externas.Parte a freguezia de S. Mamede: pelo norte, com a do Préstimo; pelo poente, com a de Agueda; pelo sul, com as da Aguada de cima, e Balazaima; pelo nascente, com a de Agadão, filial, ou annexa, que aínda então era, á de S. Mamede, e parochia hoje sobre si; paiz ainda por ventura mais serrano e variado, mas que eu não cheguei a descobrir.XO territorio de S. Mamede é o extremo occidental de um corpulento ramo do Caramulo, ramo appellidado serra de Alcoba, que em voz de Moiros quer dizer «abobada», ou montanha boleada á feição d'ella.Do Caramulo, como tronco d'onde bracejam dispartidos este e outros ramos, alguma coisa quizera eu dizer, á conta do muito que merece. Mas, sobre que nunca o visitei, apesar de tão visinho, recearia apoucar-lhe aveneranda majestade, apertando n'um ou dois paragraphos as vagas noticias que d'elle tive.Em summa: é uma bizarra montanha rude e silvestre, dominando d'entre as nuvens meio Portugal, larga em fontes e penedias, poderosa em tempestades, em frutos magra, mas opíma em homens e mulheres de antiga tempera: activos, pacientes da penuria, do frio, da fome, e da nudez; é um paiz de selvagens christãos, para o qual as rudes terras do meu S. Mamede estão, em polidez e florescencia, como para os Lacedemonios poderia estar a antiga Attica.*Dois monumentos accrescentam veneração ao Caramulo, quanto o podem mesquinhas obras humanas ás grandiosas moles naturaes.N'um dos seus cabeços mais alterosos foi erguido, nos principios d'este seculo,uma especie de zimborio de doze palmos de altura, pouco mais ou menos, de pedra muito bem lavrada e argamassada. Para quê, não dizem; mas dizem que por um engenheiro francez; rasão por que, os povos da circumvisinhança, por occasião da guerra peninsular, commetteram demolil-o; mas só lhe poderam fazer pelo norte um pequeno estrago. Dura em pé, e só é accessivel do nascente por uma vereda estreita e tortuosa.O outro monumento não é menos enigmatico, e deve estar farto de ver passar seculos e desfazer-se gerações.N'uma arremeçada crista, a duzentos passosda egreja do Espirito Santo de Arca, se alevanta elle, com o titulo immemorial de «Pedra de Arca». Éuma desconforme loisa inteiriça, horizontalmente aguentada nos ares por esteios de pedra; quatro em numero a principio, hoje só tres, havendo sido um arrancado para as obras da visinha egreja.Tem esta lágea de comprido vinte palmos, e de largura dezasseis; de grossura, pelo nascente tres polegadas, pelo norte quatorze, pelo poente onze, e outras onze pelo sul. Os pilares contam de altura doze palmos, só da flor da terra para cima; de largura, um que fica para o poente apresenta nove palmos, tendo de grossura pelo poente palmo e meio, e pelo nascente um palmo. Um, que diz para o sul, tem de largura, por baixo quatro palmos e meio, e por cima tres, e de grossura um palmo de cada lado. O ultimo, que está para o norte, tem de largura, por baixo cinco palmos e polegada, e por cima quatro palmos e polegada.¿Com que possantes machinas, por que mãos, em que eras, e para que fim, se alevantou ali aquella, que á phantasia se figura bruta meza de gigantes silvestres? ¿Sería obra de fortificação n'um systema de guerra desconhecido? Quasi que nem possibilidades o abonam. Uso agrícola, industrial, ou civil, nem a imaginação mais inventiva lh'o rastreia. Memoria de algum varão ou feito insigne, já a poderia ser. Mas então, ¡a que rudes tempos a não havemos de referir, visto como nem data, nem letra, nem escultura tôsca, nem vestigio algum de artenem de architectura, mas só uma bruta mechanica, ali se admira!Religiosa fabrica de alguma gentilidade parece logo aquella; e mais, quando se adverte na semelhança que tem com os altares druidicos, ainda hoje conservados em varias partes do que foram Gallias e Germania.Verdade é, que por estas nossas terras não rezam as Historias, que se estendesse aquella abominavel seita de sacrificadores de humanas victimas; mas nenhuma repugnancia ha, em que, perseguidos, como o vieram a ser, pelos Imperadores romanos, alguns druidas se refugiassem para este Occidente, e aqui, em retiros montesinhos, menos accessiveis a pesquizas e perseguições, professassem e mantivessem o seu culto, do qual (se duas coisas mal conhecidas podem ser sem temeridade comparadas) não muito discreparia talvez a religião do Endovélico lusitano.Este ponto, porém, outros mais sabedores que o investiguem, se vale a pena, como cuido; que eu me torno do Caramulo para o centro dos meus affectos.XINada concita aos logares veneração, como a antiguidade.Bem quizera eu poder historiar d'estes meus sitios para além de Moiros, Normandos, e Romanos; mas, por mais que a procure, não rastejo noticia d'essas edades, com que fazer obra.Se por ahi passaram em algum tempo successos grandes, se houve memoraveis edificios, se varões insignes pisaram aquellas terras, nem ruinas o attestam, nem documentos o declaram, nem tradições o denunciam. O solo enguliu tudo; e nenhum acaso lhe fez ainda restituir uma pedra ou letra para enigmas.Só ao sudoeste de Falgozelhe, já fóra da sua lavoira, na primeira valleira que se encontra á direita do caminho indo para Agueda, se vê uma fiada de umas como torrinhas, que se estende por mil e quarenta palmos; das quaes torrinhas, só duram hoje em dia os alicerces, e algumas porções deseguaes de muros esboroados a delir-se.E descendo esta valleira duzentos e vinte e cincos palmos, se dá em uma furna chamada «a buraca da cerejeirinha», aberta a picão em rocha viva; a qual tem na bocca oito palmos e meio de altura, quatro e meio de largura, e cento e vinte e cinco de comprimento. Da furna é geral fama que fôra aberta pelos Moiros.*Em tempos de mais abusão do que estes nossos, acreditou se, dizem os netos, que morava ali Moira encantada, que, todas as madrugadas de S. João, sahia muito pontual e ritualmente, a assoalhar os seus thesoiros por cima dos penedos, entre os mattos orvalhados.N'esses seculos, entendido está que o terror lhe velava a estancia, e que ninguem se affoitou nunca a ir lá dentro.Algum Principe afortunado deveu de desencantar a Moira, que actualmente já não ha novas d'ella. As pastoras levam sem medo os rebanhos para a sua visinhança; cantam aos seus hombraes trovas muito christans; e quem quer, lhe devassa (como eu fiz) o seu palacio subterraneo.A opinião dos modernos tem, que fôra aquella mina aberta, pelos Moiros sim, mas não para tirar oiro, que é sempre a primeira conjectura, nem para serventia militar, que é sempre a segunda, se não só, e prosaicamente, á busca de agua, que em verdade de lá mana, muito fresca e saborosa, mas em pequena copia.*Sobre as fortificações engenha cada um a sua hypóthese.Ha quem as supponha posteriores á invenção da artilharia, por se lhe figurar que só a taes armas podiam ser apropriadas; e ha quem aos Moiros as attribua, fundado em que, posto não ficassem d'elles por ali outros vestigios, o arabigo de alguns e muitos nomes de logares demonstra, que elles por lá viveram. E se por lá nasceram e se crearam, não podiam deixar de fortificar-se e defender-se contra commettimentos de inimigos, que é esse um instinto natural a todos os homens, mas nos homens das montanhas mais energico.*Falgozelhe, em verdade se crê ter sido d'elles povoada, posto que o seu nome, sechristão não é (como de certo não é), tambem por arabe se não reconhece. ¿Ser-lhe-hia imposto por gente ainda mais antiga?Mas, sem nos extraviarmos para essas novas brenhas de fabulas, o em que podemos ficar por mais que verosimil é que, por toda aquella serrana região, estanciaram Moiros em seu tempo; e, se ahi deixaram menos rasto que em muitas das terras visinhas, seria porque a bruteza do monte era já então como hoje, que não dava meios nem licença para grandes obras. Pequenas póvoas, que eram o mais a que podiam chegar, muito faziam em tirar da terra pão com que se manterem; ¡quanto mais, erigirem castellos, pontes, ou mesquitas, de que se podessem admirar fragmentos depois de sete seculos!Rebanhos moiriscos pasceram portanto por aquellas encostas. Por baixo de outros tectos rusticos semelhantes a estes, e por ventura no logar d'estes, se acalentaram creanças com versos do Alcorão. Outras arvores, de que estas são remota descendencia, viram passar á sombra das suas copas esvoaçadas da ventania albornozes de lan grosseira e parda, e turbantes retintos; e bois, que sulcaram com o arado o que hoje é talvez poisio, entendiam as vozes do lavrador arabe, e ficariam confusos e immoveis se revivessem para ouvir as da nossa lingua.Eis aqui o unico perfume antigo que podemos dar a estes povoados ermos, que eu desejaria fazer tão amados de meus leitores, como de mim o são e serão sempre.*Não digo bem. O falar, e os pensamentos, e os costumes, manteem-se ainda antigos. As novidades das civilisações são como a escravidão, e os diluvios: tarde chegam a engulir as serras.A Linguagem é ali, como os ares, de uma admiravel pureza e lucidez. Se os diccionarios e livros mestres da nossa Lingua se perdessem, pela conversação corrente d'aquellas aldeias e póvoas se poderia restaurar.Troca-se mais portuguez de lei, mais riqueza de vocábulos, phraseado, e construcção, n'uma seroada de inverno, ou n'um palrar de sésta de segadores entre carvalheiras rusticas, ao estridor das cigarras amadas de Anacreonte, do que entre o ranger dos prelos e o resfolegar das balas, n'um anno inteiro da melhor typographia de Lisboa.Muitos dizeres classicos, de que por ahi chacoteiam por affonsinos, como onanjaobofé, ocanté, oquiçá, e mil outros, sôam por lá sem extranheza em boccas de mocinhos de doze annos nos seus folguedos, ou de namoradas de dezoito nos seus desabafos mutuos em vespera de romaria.Com a honesta herança da Linguagem, veio dos avós aos netos a das crenças e praticas piedosas, e com esta a de muitos seus erros e abusões. São os insectos e musgos parasitas da arvore robustissima da Fé. Abençoada a Philosophia quando acode a limpal-a sem lhe esgalhar os ramos ou cerceal-a pelo pé.O tempo vai fazendo a pouco e pouco oseu officio. Não ha curas nem reformações mais prudentes e certas do que as suas, quando á força lh'as não ajudam ou contrariam.Era por essas terras, poucos annos ha, geral e profunda a credulidade de apparições, phantasmas de almas do outro-mundo, Moiras encantadas, thesoiros escondidos e lobis-homens; e ainda hoje a mór parte dos moradores acredita nos esconjuros, feitiços, bruxarias, adivinhações, e virtudes de certas praticas e fórmulas, para curar ou empecer.Estas abusões, sem deixarem de ser males muilo innegaveis, dão comtudo sua côr poetica muito particular ao Povo, cuja simplicidade primitiva no viver e trajar harmonisam com taes simplezas da intelligencia.*Os figurins parisienses, esses idolosinhos multiformes, a cujo culto vivem adstrictas as gentes das cidades, e muitissima dos campos, são por ora totalmente incognitos na serra. A moda não exerce por lá as suas costumadas devastações de cabedaes, bons costumes, e saude. Os vestuarios e galas de ambos os sexos reproduzem-se com a mesma uniformidade, com que nas suas moitas e arvoredos cada especie vegetal renova as suas folhas e flores.Os homens vestem de burel, ou saragoça caseira, creada ás costas das suas ovelhas, tosquiada por elles, fiada e tecida por suas mães, mulheres, e filhas, apizoada e tinta (quando o é) sem sahir da freguesia. Trazemgrandes chapeos pretos desabados, grande bordão ferrado, menos para defensa, que para arrimo pelo resvaladio das ladeiras, e tamancos cravejados.As mulheres trajam, sobre camisa de linho ou estopa da terra, sáia de burel de meio pizão, côr de pinhão ou preta, collete comprido justo, sem apêrto, e mandil; isto é, obra de vara e meia de burel mais apertado no tear, e sem pizão, que lhes serve de capa, lançado ao desgarre por sobre os hombros. A cabeça, cobrem-n-a, ou com o mesmo mandil, ou com um chapeo como o dos homens. As suas tamancas são menos grosseiras. O lenço de seda ao pescoço é, como as arrecadas e o cordão de oiro, o ultimo da magnificencia, e as flores da urze ou da carqueja o mais galante enfeite dos seus sombreiros.São luxos de toucador para dias de festa, feiras, ou romagens, quando calçam, com meias brancas, tamanquinhos de pregaria doirada com sua meia palla de marroquim vermelho, vestem roupinhas de pano burel fino, ou chita, põem gorjetes de filó, ou lenços de cassa bem pregados, e capoteiras de pontas compridas debruadas de fitas. Para a egreja, as mais ricas e senhoras teem mantilhas e sapatos.XIIA educação apenas desbasta. Parca e imperfeita como a cultura do solo ingrato, só põe mira no essencial: em desenvolver os sentimentos naturaes e religiosos, o afferroá justiça e á verdade, os differentes amores de que se tece a paz das familias e a harmonia dos visinhos, o respeito á velhice e ao infortunio.As polidezes requintadas do trato são lhes desconhecidas. Esses discursos de cortezãos, mosaicos de phrases brilhantes, que ora deslumbram, ora entreteem, ainda quando nada representam, inspirar-lhes-hiam compaixão. Pensam o que dizem, e dizem-n-o como o pensam.Das artes de seduzir, não cultivam nenhuma. Aprendem para ser bons lavradores, boas pastoras e tecedeiras, e bons paes, e boas mães, depois de terem sido bons filhos e boas filhas; e n'isso limitam a sua ambição.Se ha festas, cantam e dansam como sabem; e sabem quanto basta para folgarem, mais de veras que damas e cavalheiros ao som de orchestras, em saraus esplendidos.Não falam extranhas Linguas, como nós, mas falam a nossa, que é melhor.Fora da casa de algum Ecclesiastico, não se desencantaria um só livro em toda a freguezia; mas os louvores da sua moralidade dariam com que encher mais de um livro para nos envergonhar.A egualdade quasi fraternal por ali reina, por um modo, que a todo o coração bem nascido dará gosto. Amercêe ovósde nossos maiores são tratamentos para os raros casos em que não cabe otu.Os logarejos são todos amigos, e em grande parte parentes um dos outros. O mais pobre vai sentar-se festejado ao serão ou á meza do mais rico; isto é, do que na sua tulhatem centeio ou milho para todo o anno; e o abastado interrompe a sua lavoira, para ir fazer com os seus bois a geirasinha do indigente que a não pode pagar; e lhe leva pendurado na canga do arado o sacco da semente, para que elle tenha tambem, lá para o verão, que ceifar para seus filhos; porque toda esta boa gente sabe, por instinto, que as lagrimas, no meio da alegria geral, são mais amargosas para quem as verte, e auspiciam mal o contentamento a quem as presenceia.É um povo agricola, que ainda não aprendeu a envergonhar-se do seu parentesco chegado com a terra. Entre elles se diz «lavrador», e «trabalhador», como em Londres «fabricante», ou «lord», em Roma «cardeal», ou «monsenhor», em Paris «sabio», ou «homem de Letras», e em Lisboa «deputado», ou «millionario».As Armas da sua nobreza poderiam ser a charrua e o podão, com o seu paquife de pâmpanos e espigas, e a letraUt operaretur terram, de qua sumptus.*¡Que impressão, a principio de espanto, logo de respeito, e a final de amor, me não fez o presenciar, como, ao revéz da pragmatica das cidades, o trabalho das mãos era ali ennobrecimento, e a ociosidade a maior vergonha!!Conheci, entre estes montanhezes, quem, havendo em outro tempo vertido o sangue pela Patria, e cingido uma banda, madrugava(como as andorinhas do seu beirado para o trabalho do ninho), para se ir, em pernas e mal roupido, carrear o adubío para a sua fazenda, ou levar do enxadão na roça dos mattos entre os seus operarios. A estes, ¿que os poderia admirar na vida dos Cincinatos, dos Curios, e dos Camillos, se alguem lh'a lesse, a não ser a admiração dos historiadores?*As irmans, as esposas, e as filhas de taes homens não poderiam deixar de ser mais varonís do que os homens de muitas outras terras, e de todas as deliciosas.Para a maioria d'ellas, o fuzo, a lançadeira, e a agulha, com o seu costumado cortejo de cantigas, rezas, e contos tradicionaes, que vão formando semelhante á precedente a geração seguinte, só são passatempos do serão, á luz da candeia, das pinhas bravas, ou da fogueira, que allumia e alegra os penates afumados. Madrugam como a aurora para os trabalhos fortes. Os bois conhecem a sua voz, e se deixam pacificamente jungir e guiar pelas suas mãos. Na vindima, carregam á cabeça cestos, que seriam inamoviveis (como as pyramides do Egypto) para as mãos alvas e beijadas de uma duzia de senhoritas. Nas ceifas, transportam á cabeça montanhas de espigas, tão leves e ufanas sob o pezo como uma cortesan sob o seu chapeo de flores de seda chegado de Paris, ou sob a sua grinalda de brilhantes, cada polegada da qual se poderia resolver em bemaventurança para dez familias. Nas renquesdos saxadores e dos roçadores, vel-as-heis brandindo um alvião não mais leve, deixal-os muitas vezes para traz, e envergonhal-os com seu riso de triumpho.Não ha fadiga, nem sol, nem vento, que as quebrante. O exercicio, Anjo custodio da innocencia e virtude feminil, lhes infiltra ao mesmo tempo no sangue a saude, que do sangue se côa ao leite, e do leite aos filhos. Seriam as amasonas da paz, se não tivessem ambos os peitos muito bem inteiros, e se os homens seus eguaes as não acompanhassem em todas as lidas.*Uma usança patriarchal, ou homérica, d'este paiz, que moralmente parece distar do nosso duas mil léguas, é a sujeição da mulher; facto que eu não moraliso, mas só historio.As mais graves, tanto como as mais somenos, não só á laia das Penélopes e Nausicaas, intendem no tear e na lavagem das roupas, mettidas no rio até meia-perna; não só no tráfego de porta a dentro, na cosinha para a familia e para os animaes domesticos; mas não se correm nem desdenham de ministrar de pé, como servas, á meza de seus maridos e filhos, nem em dias de festa ou bodo, quando a assistencia de hospedes mais poderia assoprar-lhes o recacho, e empavezal-as. São sempre aquillo: sempre passivas, boas, e contentes.XIIIBem estou eu pressentindo, que a muitos parecerão já minuciosas e pueris estas noticias; mas hei-de já agora continual-as, e seja com vénia sua. A outros, sei que prazem; a mim, regalam-me; e para d'aqui a alguns annos, quando o nivel da civilisação tiver tambem renteado as asperezas das serras, alguem festejará encontrar estas antigualhas, nas folhas já por ventura rôtas e descosidas d'este livro.Por antigualhas vivas poderiam ellas agradar já hoje ao commum da nossa gente; mas então hão-de ser antigualhas fosseis, e portanto com veneração duplicada venerandas.*A indole da gente é de si commedida e pacifica.De todo o genero de vicios e desconcertos se poderão entre ella achar amostras, que emfim, terra é, e não paraiso; mas nem tantas proporcionalmente, nem tão feias e monstruosas em geral, como em outras partes, e em quasi todas.Para isso conspiram diversas causas: todos conhecem a todos; todos com todos se encontram cada dia. Cada um vive, por assim dizer em publico; ninguem é tão abastado, que possa eximir-se de trabalhar contínuo, para se despender em vida de enredos, corrupção e maleficios; nem tão extremadamente destituido da fortuna, que a miseria, a inveja, o despeito, o despenhem de salto emsalto até ao fundo da depravação. É ointer utrumque, aaurea mediocritas.Conservam inteira a Fé religiosa.Não lêem, nem conhecem, nem levariam á paciencia, jornaes que desorientam, desencantam, e põem o genero humano em guerra viva comsigo mesmo.E muito menos lêem, conhecem, ou soffreriam, esta Literatura toda novella, toda sophismadora de tudo, toda florída e venenosa, que por cá nos trabalha, e de cujos herpes adoecem até as familias, que a maldizem, e a repulsam da sua porta.Por lá, não; o mal que se fizer, ha-de só provir da fragilidade, ou dos impulsos subitos da natureza; e, depois de consumado, ha-de deixar na consciencia remordimentos.Uma apologia, uma deificacão para cada crime, nem possivel a julgam; quanto mais, feita, impressa, corrente, elogiada, e seguida como aphorismo, onde e quando com algum nosso pressuposto interesse se conchava.D'estas varias causas, negativas e positivas, e talvez de outras mais, resulta que tanta vantagem nos levam elles em bondade pratica e innocencia, quanta a que lhes nós levamos em polidez, em graças exteriores, em tactica, em egoismo infernal e assolador. Nos amores ponhâmos o exemplo:*Os seus amores se limitam no que a Natureza concita, requer, e persuade: tendem á união, de que se originam as familias, e por onde a especie se mantém.Como lhes falta o ocio, pelo qual muito bem disse Ovidio ser a maior arte do amor, e o culpado nos seus peores desatinos, e além do ocio lhes fallecem tambem sobejidões de cabedaes, que estimulam e irritam as phantasias, para o casamento se namoram, e não por alardo; para goso do coração, e não da vaidade. Põem no merecer as diligencias que outros põem no conseguir; no reter, a felicidade que outros imaginam encontrar no repellir e despresar depois de saciados.Não vivem os sexos n'uma guerra perpétua de seducções, de emboscadas, enganando-se e sacrificando-se um ao outro.A mulher não lavra registo dos seus adoradores; nem o homem se ufana em desenrolar diante dos seus conhecidos, nos corredores de um theatro, ou no vão de uma janella de club, em noite de baile, um copioso canhenho, meio historico meio fabuloso, dos seus triumphos. Ali, ali é que as mulheres se podem gabar de ser amadas, pois o são sem disfarces nem encarecimentos; são-n-o pelas suas proprias graças, pois nem modistas, nem cabelleireiros, nem cosmeticos, nem perfumadores, nem mestres, nem lisonjeiros, nem romances, as transformaram. São-n-o pelo que são, e não pelo que possuem ou representam, pois nem representam nem possuem nada.Palacios, creadagem, diamantes, não lhes vão lá supprir lindezas do corpo, graças do animo, ou preciosidades do coração.Não é entre prestigios deslumbradores, n'um ambiente de calor artificial, estimuladasou vencidas do exemplo, da occasião, do medo ao ridiculo, e da audacia emprehendedora, não é ao abrigo do estrondo e confusão de um baile, que ellas recebem e fazem as suas primeiras declarações; é ao serão, com a sua roca na cinta, na presença de suas mães; ou, quando muito, na romaria, sentadas na relva com as parentas e amigas, em derredor da merenda, á sombra das carvalheiras.São amores que se não escondem, porque não teem de quê; amores que se exhalam debaixo do ceo azul; que se juram pelo Santo da illuminada capella do festejo, ao som folgasão daMirontellaroncada pela gaita de folle, rainha, alma, e feiticeira ambulante do arraial.No progresso de taes inclinações é sabedora e consentidora toda a visinhanca; e esta mesma notoriedade defende os nossos namorados, tanto de se deixarem arrastar de seus mutuos desejos, como de se desvairarem e cahirem em infieis.Ao consorcio da Egreja, antecede o dos corações, não menos obrigado a lealdade e observancia. Nenhum Lovelace de véstia commetteria galantear a conhecida poremprêgode outrem, certo em que nenhuns lucros lhe surtiria o empenho, senão só motejos e descredito.D'este modo se estende ás vezes por annos, com uma constancia verdadeiramente biblica, até ao dia da posse, o bem-querer d'estes Jacobs e d'estas Rachéis.¡Quantas Lisboetas de saráus, se quizerem ser sinceras, hão de confessar que a escolhaque n'um baile fizeram... só durou até que veio o baile seguinte! ¡Quantas, quantas, cujo numero de arrojados (concedendo que pelas duas orelhas que Deus lhes déra não ouviam dois ao mesmo tempo) se poderia contar, perguntando á sua modista franceza quantos vestidos novos lhes havia feito!Não assim lá. A que foi vista, na ceifa do anno passado, demorar-se mais a encher a malga para certo segador que para todos os outros, e pedir-lhe sempre a elle que lhe ajudasse a pôr á cabeça a gavella das espigas, essa continuará a fazer o mesmo na colheita d'este anno; continual-o-ha na dos futuros, até que, tornada sua mulher, os cuidados dos filhos e da casa a impidam de seguir, como antes, por passos contados, o seu gosto.Observação tão curiosa como verdadeira:Com toda esta liberdade, com os frequentes encontros a sós, que a variedade dos serviços rusticos tão a miudo lhes depara, rodeadas da Natureza por todas as partes, vendo livre o amor nas aves e nos rebanhos, favorecidas pela solidão selvática e pelo silencio, e pelas moitas, e pelas quebradas do solo, e por dois crepusculos em cada dia, e em cada semana de inverno por tantas tempestades improvisas, como aquella que rendeu e debellou a vidual constancia de Dido e a piedade de Enêas, quando o hymeneu deu com o relampago o signal de suas bôdas, e as nymphas pelos altos dos montes ulularam; com tudo isto, os exemplos de fragilidade como a de Dido por phenómenose apontam; e annos e annos se devolvem, sem que um só se realise.Quando porém se dá, e vem a lume filho não de benção, o peccado de amor não se carrega de crueldade. O innocente não se faz victima expiatoria dos culpados, perdendo a vida entre as mãos de quem lh'a deu; horror nefandíssimo, inteiramente desconhecido d'aquelle horizonte para dentro; nem tão pouco é enviado, como um roubo, pelas trevas da noite, á porta lá ao longe de um desconsolado asylo, aberto pela misericordia em lagrimas ás lagrimas dos filhinhos sem mãe, nascidos em signo de rigor para se crearem sem beijos nem carinhos, viverem sem nome nem parentes, e se finarem sem heranças, nem lamentos, nem memorias.Não, não. Nem pelo infanticidio physico, nem pelo infanticidio moral, mereceria qualquer das minhas serranas um falso titulo, que ainda mais a faria corar, que a tácita confissão da sua culpa. Sabe renunciar os louvores com que d'antes a coroavam; ousa desherdar de antemão o seu cadaver do palmito, symbolo pósthumo do feminil triumpho; tudo ousa; tudo... como lhe fique para consolação da sua queda o encanto ineffavel de apertar nos braços o seu filho. Se o mundo todo, se o proprio amante, a desamparasse, tudo tudo esquecêra vendo-o rir; sorrira, e sentira-se afortunada. De não ser donzella, nem esposa, harto a compensa a consciencia de preencher inteiro, a espinho e espinho, a flor e flor, o sublime encargo, o natural sacerdocio da maternidade.Estas resignadas victimas, immoladas porum amor, por outro amor ressuscitadas mais interessantes, estas victimas, em quem a virtude, produzida pelo arrependimento, excede talvez em quilates, e eguala quasi em lustre a virgindade, são poucas; são rarissimas; custar-nos-hia a encontrar uma. Quando porém a desencantasseis, lembrando vos do que sabeis d'estas nossas grandes terras, fio-vos que bastante commiseração e respeito vos infundira.*Casas de perdição para a mocidade, como nos povoados grandes se alinham em ruas e ruas, e até já por villas e aldeias vão surdindo, não se conhecem lá, nem se poderão tão cedo conhecer.Como leprosa seria evitada, e pereceria á mingua, e de vergonha, a que se proposesse esse culto venal de praseres falsos, em que as sacerdotisas, coroadas de flores e mascaradas de sorriso, são victimas das victimas que ellas sacrificam.Por isso tambem, a saude, o vigor, e a energia, se manteem, e se transmittem de paes a filhos, juntamente com a harmonia e serenidade dos casaes.XIVDos amores vinhamos falando; falemos do que em outros sitios lhes serve de sepulcro, mas não lá; falemos do casamento.*Os casamentos não são nunca determinados por considerações de haveres ou de jerarchia.O cálculo rala pouco os pensamentos d'estas gentes, acostumadas a viver com pouco, e a confiar muito na Providencia. As palavrasdoteeescriturasapenas seriam entendidas.Como um dos dois namorados chega, a poder de fortuna, ou de trabalho e economia, a ajuntar parauma cama de roupa, uma teia de estôpa, outra de linho, uma peça de burel, dois escabellos e uma banca de pinho, uma panella e dois pratos, uma candeia de folha, um bácoro, seis alqueires de milho, e outros tantos de centeio, tem agarrado as melenas da fortuna, e trata logo de a jungir com o hymeneu ao carro do Amor.O noivo dá á sua futura um presente, o qual, pelo commum, consta de um anel, meias, e sapatos; e a noiva ao seu futuro uma camisa para o dia grande.Mal que este desponta, vê já de pé os dois afortunados, garridos e bizarros com o seuaceiodos domingos: ella, sobretudo, flammante como uma Imagem, com arrecadas, cordões, e alfinetes sobre lenço de seda, mantilha lustrosa, ou chapeo de feltro novo com enfeites.As que para tanto não teem guarda-roupa, teem amigas e visinhas, que de boa-mentelhesacodem, cada uma com o seumelhorado, convencidas como estão (especialmente as solteiras) de que alguma coisa da benção matrimonial poderá vir apegada aos diches e galas que figuraram no apertar das mãos.Muitas noivas, crentes na sabedoria de suas avós, se preparam de vespera para este acto, banhando-se em agua de alecrim, quesendo florído tem mais efficácia, e mettendo antes de adormecer debaixo do travesseiro (suppondo que em tal noite se possa adormecer) uma roca e um fuzo bem liados entre si, e recobertos com alguns arméos de linho e lan; no que, vai grande condão de conformidade de animos, perfeição de ajuntamento, e dura do bem-querer; com tanto que o mesmo fuzo e roca, assim maridados, não faltem debaixo do mesmo travesseiro na primeira noite do consorcio.O pretendente, com os seus apaniguados, espera já á porta da noiva a sua sahida. Esta apparece emfim, como uma aurora da serra, incendida de pejo, e orvalhada com as lagrimas da mãe; e segue com o rancho, a pé, caminho da egreja, levando ás costas as bençãos do pae, em que ainda por lá se crê, a turbação no seio, e nos ouvidos os votos e resas de bom agoiro, recitadas com fé por alguma velha mais sabida.

*D'este centro, a meio quarto de legua a nor-noroeste, esconde-se o logar das Maçadas, com cincoenta almas, sua ermida de S. João Baptista, e sua fonte muito fresca.Para o norte, a outro meio quarto de legua, a antiga villa da Castanheira, com as suas entradas, cobertas de parreiral, vangloriosa com os seus cento e oitenta e sete moradores, e com a sua capella do Espirito Santo, mas dando-se-lhe pouquissimo com o telegrapho, que desde as ultimas guerras lhe ficou até hoje a pantomimar no alto do seu oiteiro. Pelos gestos d'aquelle activo surdo-mudo passam, de extrema a extrema do Reino, quantas noticias o revolvem, sem que a boa da villa, nem outro algum dos logares que entram na sua abençoada confederação de rustica ignorancia, as adivinhem, nem suspeitem, nem cubicem.A tres quartos de legua para nor-nordeste, dá-se com a humilde póvoa de Falgarinho, de não mais que oito visinhos.Subindo d'ali mais um quarto de legua contra o nordeste, encontra-se, n'uma quebrada da mesma crista, a Serra-de-cima, com vinte e tres pessoas.Descendo para o sul pelo seu ameno valle bordado de frutiferas arvores, e a pequena distancia, se dá de improviso com a vistosa e agradavel quinta da Serra-de-baixo, de sete almas, e sua capella de Nossa Senhora do Livramento.Nas faldas d'estas fragosas montanhas, junto ao rio de S. João do Monte, que a seus pés corre, está em amphitheatro o Avelal-de-cima, de vinte e quatro almas, a tres quartos de legua a les-nordeste da egreja.Voltando pela direita ao tortuoso rio por caminhos pouco transitaveis, a meio quarto de legua está para o nordeste o Avelal-de-baixo, logarejo de quarenta e sete almas, e uma capella de Nossa Senhora da Conceição.Deixando a margem do rio, atravessando um desfiladeiro, e subindo bojudas lombas, reverte-se ao nosso ponto fixo de observação.Para o nascente, descendo até á Cruzinha, e d'ahi toda a costa dos Ferreiros, passa-se o rio de S. João do Monte, junto ao seu confluente Alcafaz (nome arabe, que significa«o salto»)nome que para ali está, ha mais de setecentos annos, soando em bocca de christãos sem renegar a sua origem, nem se corromper.Para a esquerda do S. João do Monte, se descortina a nossa Talhada, de honrada memoria, berço de um Cardeal, de um fundador de capellas, e de um namorado de lei; tres celebridades para um ninho hoje de quatorze almas, coberto de loisas e colmo, e coroado de sarças e medronheiros; dista-nos um quarto de legua para nordeste.Vadeando segunda vez o rio, e a pouca distancia d'elle, o S. Mamede (que toma este nome na juncção dos dois afluentes) se atravessa na ponte de pau que já sabeis, e onde eu agora, 30 de Julho ao meio dia, me tomára a apanhar á fresca.Subindo um pouco espaço a costa, atravez de alcantiladas rochas, toma-se a les-nordeste, seguindo tortuosa e mal aberta senda, que em travessia da montanha, sobre a esquerda do rio, leva até ao casal do Fontão, de onze almas, sito na margem do Alcafaz, na raiz do cabeço de Santa-Cruz, a quarto e meio de legua para nós.Revertendo-se onde se largou o caminho, se continua serpeando a encosta; e no cimo se encontra a povoação de Falgozelhe, de setenta e uma almas, posta a um quarto de legua da egreja, a les-sueste, quasi na extremidade occidental de um ramo do Caramulo. O nome da sua casa de oração é o que á sua altura melhor convinha: Santa-Cruz.Tomando-se o rumo do sul, e atravessando o rio Agadão por outra ponte de pau, e serpeando ingreme ladeira, no cimo está o pequeno e vistoso logar da Falgarosa, de trinta e seis moradores, com uma sua ermida da Senhora da Boa-Morte, a tres quartos de legua ao sul; terra que se ufana com o delicioso de seus pomares de caroço e de espinho, com a annosa matta de sobreiros que a abriga pelo nascente, norte, e noroeste; e sobre tudo, com ter dado á luz o instruido e virtuoso Pastor, que hoje rege aquelle rebanho.Voltando para o rio, passa-se n'uma bateira um pouco a baixo, depois de se terem abraçado os dois afluentes Agadão e S. Mamede.Subindo-se até ao vizo, está o logar da Redonda, de cincoenta almas, com sua capella de S. Gonçalo, a quarto e meio de legua a sudoeste da egreja. Redonda se chama, por estar á borda de um leito semi-circular.*Fechemos a topographia do nosso pequeno reino, com as suas confrontações externas.Parte a freguezia de S. Mamede: pelo norte, com a do Préstimo; pelo poente, com a de Agueda; pelo sul, com as da Aguada de cima, e Balazaima; pelo nascente, com a de Agadão, filial, ou annexa, que aínda então era, á de S. Mamede, e parochia hoje sobre si; paiz ainda por ventura mais serrano e variado, mas que eu não cheguei a descobrir.XO territorio de S. Mamede é o extremo occidental de um corpulento ramo do Caramulo, ramo appellidado serra de Alcoba, que em voz de Moiros quer dizer «abobada», ou montanha boleada á feição d'ella.Do Caramulo, como tronco d'onde bracejam dispartidos este e outros ramos, alguma coisa quizera eu dizer, á conta do muito que merece. Mas, sobre que nunca o visitei, apesar de tão visinho, recearia apoucar-lhe aveneranda majestade, apertando n'um ou dois paragraphos as vagas noticias que d'elle tive.Em summa: é uma bizarra montanha rude e silvestre, dominando d'entre as nuvens meio Portugal, larga em fontes e penedias, poderosa em tempestades, em frutos magra, mas opíma em homens e mulheres de antiga tempera: activos, pacientes da penuria, do frio, da fome, e da nudez; é um paiz de selvagens christãos, para o qual as rudes terras do meu S. Mamede estão, em polidez e florescencia, como para os Lacedemonios poderia estar a antiga Attica.*Dois monumentos accrescentam veneração ao Caramulo, quanto o podem mesquinhas obras humanas ás grandiosas moles naturaes.N'um dos seus cabeços mais alterosos foi erguido, nos principios d'este seculo,uma especie de zimborio de doze palmos de altura, pouco mais ou menos, de pedra muito bem lavrada e argamassada. Para quê, não dizem; mas dizem que por um engenheiro francez; rasão por que, os povos da circumvisinhança, por occasião da guerra peninsular, commetteram demolil-o; mas só lhe poderam fazer pelo norte um pequeno estrago. Dura em pé, e só é accessivel do nascente por uma vereda estreita e tortuosa.O outro monumento não é menos enigmatico, e deve estar farto de ver passar seculos e desfazer-se gerações.N'uma arremeçada crista, a duzentos passosda egreja do Espirito Santo de Arca, se alevanta elle, com o titulo immemorial de «Pedra de Arca». Éuma desconforme loisa inteiriça, horizontalmente aguentada nos ares por esteios de pedra; quatro em numero a principio, hoje só tres, havendo sido um arrancado para as obras da visinha egreja.Tem esta lágea de comprido vinte palmos, e de largura dezasseis; de grossura, pelo nascente tres polegadas, pelo norte quatorze, pelo poente onze, e outras onze pelo sul. Os pilares contam de altura doze palmos, só da flor da terra para cima; de largura, um que fica para o poente apresenta nove palmos, tendo de grossura pelo poente palmo e meio, e pelo nascente um palmo. Um, que diz para o sul, tem de largura, por baixo quatro palmos e meio, e por cima tres, e de grossura um palmo de cada lado. O ultimo, que está para o norte, tem de largura, por baixo cinco palmos e polegada, e por cima quatro palmos e polegada.¿Com que possantes machinas, por que mãos, em que eras, e para que fim, se alevantou ali aquella, que á phantasia se figura bruta meza de gigantes silvestres? ¿Sería obra de fortificação n'um systema de guerra desconhecido? Quasi que nem possibilidades o abonam. Uso agrícola, industrial, ou civil, nem a imaginação mais inventiva lh'o rastreia. Memoria de algum varão ou feito insigne, já a poderia ser. Mas então, ¡a que rudes tempos a não havemos de referir, visto como nem data, nem letra, nem escultura tôsca, nem vestigio algum de artenem de architectura, mas só uma bruta mechanica, ali se admira!Religiosa fabrica de alguma gentilidade parece logo aquella; e mais, quando se adverte na semelhança que tem com os altares druidicos, ainda hoje conservados em varias partes do que foram Gallias e Germania.Verdade é, que por estas nossas terras não rezam as Historias, que se estendesse aquella abominavel seita de sacrificadores de humanas victimas; mas nenhuma repugnancia ha, em que, perseguidos, como o vieram a ser, pelos Imperadores romanos, alguns druidas se refugiassem para este Occidente, e aqui, em retiros montesinhos, menos accessiveis a pesquizas e perseguições, professassem e mantivessem o seu culto, do qual (se duas coisas mal conhecidas podem ser sem temeridade comparadas) não muito discreparia talvez a religião do Endovélico lusitano.Este ponto, porém, outros mais sabedores que o investiguem, se vale a pena, como cuido; que eu me torno do Caramulo para o centro dos meus affectos.XINada concita aos logares veneração, como a antiguidade.Bem quizera eu poder historiar d'estes meus sitios para além de Moiros, Normandos, e Romanos; mas, por mais que a procure, não rastejo noticia d'essas edades, com que fazer obra.Se por ahi passaram em algum tempo successos grandes, se houve memoraveis edificios, se varões insignes pisaram aquellas terras, nem ruinas o attestam, nem documentos o declaram, nem tradições o denunciam. O solo enguliu tudo; e nenhum acaso lhe fez ainda restituir uma pedra ou letra para enigmas.Só ao sudoeste de Falgozelhe, já fóra da sua lavoira, na primeira valleira que se encontra á direita do caminho indo para Agueda, se vê uma fiada de umas como torrinhas, que se estende por mil e quarenta palmos; das quaes torrinhas, só duram hoje em dia os alicerces, e algumas porções deseguaes de muros esboroados a delir-se.E descendo esta valleira duzentos e vinte e cincos palmos, se dá em uma furna chamada «a buraca da cerejeirinha», aberta a picão em rocha viva; a qual tem na bocca oito palmos e meio de altura, quatro e meio de largura, e cento e vinte e cinco de comprimento. Da furna é geral fama que fôra aberta pelos Moiros.*Em tempos de mais abusão do que estes nossos, acreditou se, dizem os netos, que morava ali Moira encantada, que, todas as madrugadas de S. João, sahia muito pontual e ritualmente, a assoalhar os seus thesoiros por cima dos penedos, entre os mattos orvalhados.N'esses seculos, entendido está que o terror lhe velava a estancia, e que ninguem se affoitou nunca a ir lá dentro.Algum Principe afortunado deveu de desencantar a Moira, que actualmente já não ha novas d'ella. As pastoras levam sem medo os rebanhos para a sua visinhança; cantam aos seus hombraes trovas muito christans; e quem quer, lhe devassa (como eu fiz) o seu palacio subterraneo.A opinião dos modernos tem, que fôra aquella mina aberta, pelos Moiros sim, mas não para tirar oiro, que é sempre a primeira conjectura, nem para serventia militar, que é sempre a segunda, se não só, e prosaicamente, á busca de agua, que em verdade de lá mana, muito fresca e saborosa, mas em pequena copia.*Sobre as fortificações engenha cada um a sua hypóthese.Ha quem as supponha posteriores á invenção da artilharia, por se lhe figurar que só a taes armas podiam ser apropriadas; e ha quem aos Moiros as attribua, fundado em que, posto não ficassem d'elles por ali outros vestigios, o arabigo de alguns e muitos nomes de logares demonstra, que elles por lá viveram. E se por lá nasceram e se crearam, não podiam deixar de fortificar-se e defender-se contra commettimentos de inimigos, que é esse um instinto natural a todos os homens, mas nos homens das montanhas mais energico.*Falgozelhe, em verdade se crê ter sido d'elles povoada, posto que o seu nome, sechristão não é (como de certo não é), tambem por arabe se não reconhece. ¿Ser-lhe-hia imposto por gente ainda mais antiga?Mas, sem nos extraviarmos para essas novas brenhas de fabulas, o em que podemos ficar por mais que verosimil é que, por toda aquella serrana região, estanciaram Moiros em seu tempo; e, se ahi deixaram menos rasto que em muitas das terras visinhas, seria porque a bruteza do monte era já então como hoje, que não dava meios nem licença para grandes obras. Pequenas póvoas, que eram o mais a que podiam chegar, muito faziam em tirar da terra pão com que se manterem; ¡quanto mais, erigirem castellos, pontes, ou mesquitas, de que se podessem admirar fragmentos depois de sete seculos!Rebanhos moiriscos pasceram portanto por aquellas encostas. Por baixo de outros tectos rusticos semelhantes a estes, e por ventura no logar d'estes, se acalentaram creanças com versos do Alcorão. Outras arvores, de que estas são remota descendencia, viram passar á sombra das suas copas esvoaçadas da ventania albornozes de lan grosseira e parda, e turbantes retintos; e bois, que sulcaram com o arado o que hoje é talvez poisio, entendiam as vozes do lavrador arabe, e ficariam confusos e immoveis se revivessem para ouvir as da nossa lingua.Eis aqui o unico perfume antigo que podemos dar a estes povoados ermos, que eu desejaria fazer tão amados de meus leitores, como de mim o são e serão sempre.*Não digo bem. O falar, e os pensamentos, e os costumes, manteem-se ainda antigos. As novidades das civilisações são como a escravidão, e os diluvios: tarde chegam a engulir as serras.A Linguagem é ali, como os ares, de uma admiravel pureza e lucidez. Se os diccionarios e livros mestres da nossa Lingua se perdessem, pela conversação corrente d'aquellas aldeias e póvoas se poderia restaurar.Troca-se mais portuguez de lei, mais riqueza de vocábulos, phraseado, e construcção, n'uma seroada de inverno, ou n'um palrar de sésta de segadores entre carvalheiras rusticas, ao estridor das cigarras amadas de Anacreonte, do que entre o ranger dos prelos e o resfolegar das balas, n'um anno inteiro da melhor typographia de Lisboa.Muitos dizeres classicos, de que por ahi chacoteiam por affonsinos, como onanjaobofé, ocanté, oquiçá, e mil outros, sôam por lá sem extranheza em boccas de mocinhos de doze annos nos seus folguedos, ou de namoradas de dezoito nos seus desabafos mutuos em vespera de romaria.Com a honesta herança da Linguagem, veio dos avós aos netos a das crenças e praticas piedosas, e com esta a de muitos seus erros e abusões. São os insectos e musgos parasitas da arvore robustissima da Fé. Abençoada a Philosophia quando acode a limpal-a sem lhe esgalhar os ramos ou cerceal-a pelo pé.O tempo vai fazendo a pouco e pouco oseu officio. Não ha curas nem reformações mais prudentes e certas do que as suas, quando á força lh'as não ajudam ou contrariam.Era por essas terras, poucos annos ha, geral e profunda a credulidade de apparições, phantasmas de almas do outro-mundo, Moiras encantadas, thesoiros escondidos e lobis-homens; e ainda hoje a mór parte dos moradores acredita nos esconjuros, feitiços, bruxarias, adivinhações, e virtudes de certas praticas e fórmulas, para curar ou empecer.Estas abusões, sem deixarem de ser males muilo innegaveis, dão comtudo sua côr poetica muito particular ao Povo, cuja simplicidade primitiva no viver e trajar harmonisam com taes simplezas da intelligencia.*Os figurins parisienses, esses idolosinhos multiformes, a cujo culto vivem adstrictas as gentes das cidades, e muitissima dos campos, são por ora totalmente incognitos na serra. A moda não exerce por lá as suas costumadas devastações de cabedaes, bons costumes, e saude. Os vestuarios e galas de ambos os sexos reproduzem-se com a mesma uniformidade, com que nas suas moitas e arvoredos cada especie vegetal renova as suas folhas e flores.Os homens vestem de burel, ou saragoça caseira, creada ás costas das suas ovelhas, tosquiada por elles, fiada e tecida por suas mães, mulheres, e filhas, apizoada e tinta (quando o é) sem sahir da freguesia. Trazemgrandes chapeos pretos desabados, grande bordão ferrado, menos para defensa, que para arrimo pelo resvaladio das ladeiras, e tamancos cravejados.As mulheres trajam, sobre camisa de linho ou estopa da terra, sáia de burel de meio pizão, côr de pinhão ou preta, collete comprido justo, sem apêrto, e mandil; isto é, obra de vara e meia de burel mais apertado no tear, e sem pizão, que lhes serve de capa, lançado ao desgarre por sobre os hombros. A cabeça, cobrem-n-a, ou com o mesmo mandil, ou com um chapeo como o dos homens. As suas tamancas são menos grosseiras. O lenço de seda ao pescoço é, como as arrecadas e o cordão de oiro, o ultimo da magnificencia, e as flores da urze ou da carqueja o mais galante enfeite dos seus sombreiros.São luxos de toucador para dias de festa, feiras, ou romagens, quando calçam, com meias brancas, tamanquinhos de pregaria doirada com sua meia palla de marroquim vermelho, vestem roupinhas de pano burel fino, ou chita, põem gorjetes de filó, ou lenços de cassa bem pregados, e capoteiras de pontas compridas debruadas de fitas. Para a egreja, as mais ricas e senhoras teem mantilhas e sapatos.XIIA educação apenas desbasta. Parca e imperfeita como a cultura do solo ingrato, só põe mira no essencial: em desenvolver os sentimentos naturaes e religiosos, o afferroá justiça e á verdade, os differentes amores de que se tece a paz das familias e a harmonia dos visinhos, o respeito á velhice e ao infortunio.As polidezes requintadas do trato são lhes desconhecidas. Esses discursos de cortezãos, mosaicos de phrases brilhantes, que ora deslumbram, ora entreteem, ainda quando nada representam, inspirar-lhes-hiam compaixão. Pensam o que dizem, e dizem-n-o como o pensam.Das artes de seduzir, não cultivam nenhuma. Aprendem para ser bons lavradores, boas pastoras e tecedeiras, e bons paes, e boas mães, depois de terem sido bons filhos e boas filhas; e n'isso limitam a sua ambição.Se ha festas, cantam e dansam como sabem; e sabem quanto basta para folgarem, mais de veras que damas e cavalheiros ao som de orchestras, em saraus esplendidos.Não falam extranhas Linguas, como nós, mas falam a nossa, que é melhor.Fora da casa de algum Ecclesiastico, não se desencantaria um só livro em toda a freguezia; mas os louvores da sua moralidade dariam com que encher mais de um livro para nos envergonhar.A egualdade quasi fraternal por ali reina, por um modo, que a todo o coração bem nascido dará gosto. Amercêe ovósde nossos maiores são tratamentos para os raros casos em que não cabe otu.Os logarejos são todos amigos, e em grande parte parentes um dos outros. O mais pobre vai sentar-se festejado ao serão ou á meza do mais rico; isto é, do que na sua tulhatem centeio ou milho para todo o anno; e o abastado interrompe a sua lavoira, para ir fazer com os seus bois a geirasinha do indigente que a não pode pagar; e lhe leva pendurado na canga do arado o sacco da semente, para que elle tenha tambem, lá para o verão, que ceifar para seus filhos; porque toda esta boa gente sabe, por instinto, que as lagrimas, no meio da alegria geral, são mais amargosas para quem as verte, e auspiciam mal o contentamento a quem as presenceia.É um povo agricola, que ainda não aprendeu a envergonhar-se do seu parentesco chegado com a terra. Entre elles se diz «lavrador», e «trabalhador», como em Londres «fabricante», ou «lord», em Roma «cardeal», ou «monsenhor», em Paris «sabio», ou «homem de Letras», e em Lisboa «deputado», ou «millionario».As Armas da sua nobreza poderiam ser a charrua e o podão, com o seu paquife de pâmpanos e espigas, e a letraUt operaretur terram, de qua sumptus.*¡Que impressão, a principio de espanto, logo de respeito, e a final de amor, me não fez o presenciar, como, ao revéz da pragmatica das cidades, o trabalho das mãos era ali ennobrecimento, e a ociosidade a maior vergonha!!Conheci, entre estes montanhezes, quem, havendo em outro tempo vertido o sangue pela Patria, e cingido uma banda, madrugava(como as andorinhas do seu beirado para o trabalho do ninho), para se ir, em pernas e mal roupido, carrear o adubío para a sua fazenda, ou levar do enxadão na roça dos mattos entre os seus operarios. A estes, ¿que os poderia admirar na vida dos Cincinatos, dos Curios, e dos Camillos, se alguem lh'a lesse, a não ser a admiração dos historiadores?*As irmans, as esposas, e as filhas de taes homens não poderiam deixar de ser mais varonís do que os homens de muitas outras terras, e de todas as deliciosas.Para a maioria d'ellas, o fuzo, a lançadeira, e a agulha, com o seu costumado cortejo de cantigas, rezas, e contos tradicionaes, que vão formando semelhante á precedente a geração seguinte, só são passatempos do serão, á luz da candeia, das pinhas bravas, ou da fogueira, que allumia e alegra os penates afumados. Madrugam como a aurora para os trabalhos fortes. Os bois conhecem a sua voz, e se deixam pacificamente jungir e guiar pelas suas mãos. Na vindima, carregam á cabeça cestos, que seriam inamoviveis (como as pyramides do Egypto) para as mãos alvas e beijadas de uma duzia de senhoritas. Nas ceifas, transportam á cabeça montanhas de espigas, tão leves e ufanas sob o pezo como uma cortesan sob o seu chapeo de flores de seda chegado de Paris, ou sob a sua grinalda de brilhantes, cada polegada da qual se poderia resolver em bemaventurança para dez familias. Nas renquesdos saxadores e dos roçadores, vel-as-heis brandindo um alvião não mais leve, deixal-os muitas vezes para traz, e envergonhal-os com seu riso de triumpho.Não ha fadiga, nem sol, nem vento, que as quebrante. O exercicio, Anjo custodio da innocencia e virtude feminil, lhes infiltra ao mesmo tempo no sangue a saude, que do sangue se côa ao leite, e do leite aos filhos. Seriam as amasonas da paz, se não tivessem ambos os peitos muito bem inteiros, e se os homens seus eguaes as não acompanhassem em todas as lidas.*Uma usança patriarchal, ou homérica, d'este paiz, que moralmente parece distar do nosso duas mil léguas, é a sujeição da mulher; facto que eu não moraliso, mas só historio.As mais graves, tanto como as mais somenos, não só á laia das Penélopes e Nausicaas, intendem no tear e na lavagem das roupas, mettidas no rio até meia-perna; não só no tráfego de porta a dentro, na cosinha para a familia e para os animaes domesticos; mas não se correm nem desdenham de ministrar de pé, como servas, á meza de seus maridos e filhos, nem em dias de festa ou bodo, quando a assistencia de hospedes mais poderia assoprar-lhes o recacho, e empavezal-as. São sempre aquillo: sempre passivas, boas, e contentes.XIIIBem estou eu pressentindo, que a muitos parecerão já minuciosas e pueris estas noticias; mas hei-de já agora continual-as, e seja com vénia sua. A outros, sei que prazem; a mim, regalam-me; e para d'aqui a alguns annos, quando o nivel da civilisação tiver tambem renteado as asperezas das serras, alguem festejará encontrar estas antigualhas, nas folhas já por ventura rôtas e descosidas d'este livro.Por antigualhas vivas poderiam ellas agradar já hoje ao commum da nossa gente; mas então hão-de ser antigualhas fosseis, e portanto com veneração duplicada venerandas.*A indole da gente é de si commedida e pacifica.De todo o genero de vicios e desconcertos se poderão entre ella achar amostras, que emfim, terra é, e não paraiso; mas nem tantas proporcionalmente, nem tão feias e monstruosas em geral, como em outras partes, e em quasi todas.Para isso conspiram diversas causas: todos conhecem a todos; todos com todos se encontram cada dia. Cada um vive, por assim dizer em publico; ninguem é tão abastado, que possa eximir-se de trabalhar contínuo, para se despender em vida de enredos, corrupção e maleficios; nem tão extremadamente destituido da fortuna, que a miseria, a inveja, o despeito, o despenhem de salto emsalto até ao fundo da depravação. É ointer utrumque, aaurea mediocritas.Conservam inteira a Fé religiosa.Não lêem, nem conhecem, nem levariam á paciencia, jornaes que desorientam, desencantam, e põem o genero humano em guerra viva comsigo mesmo.E muito menos lêem, conhecem, ou soffreriam, esta Literatura toda novella, toda sophismadora de tudo, toda florída e venenosa, que por cá nos trabalha, e de cujos herpes adoecem até as familias, que a maldizem, e a repulsam da sua porta.Por lá, não; o mal que se fizer, ha-de só provir da fragilidade, ou dos impulsos subitos da natureza; e, depois de consumado, ha-de deixar na consciencia remordimentos.Uma apologia, uma deificacão para cada crime, nem possivel a julgam; quanto mais, feita, impressa, corrente, elogiada, e seguida como aphorismo, onde e quando com algum nosso pressuposto interesse se conchava.D'estas varias causas, negativas e positivas, e talvez de outras mais, resulta que tanta vantagem nos levam elles em bondade pratica e innocencia, quanta a que lhes nós levamos em polidez, em graças exteriores, em tactica, em egoismo infernal e assolador. Nos amores ponhâmos o exemplo:*Os seus amores se limitam no que a Natureza concita, requer, e persuade: tendem á união, de que se originam as familias, e por onde a especie se mantém.Como lhes falta o ocio, pelo qual muito bem disse Ovidio ser a maior arte do amor, e o culpado nos seus peores desatinos, e além do ocio lhes fallecem tambem sobejidões de cabedaes, que estimulam e irritam as phantasias, para o casamento se namoram, e não por alardo; para goso do coração, e não da vaidade. Põem no merecer as diligencias que outros põem no conseguir; no reter, a felicidade que outros imaginam encontrar no repellir e despresar depois de saciados.Não vivem os sexos n'uma guerra perpétua de seducções, de emboscadas, enganando-se e sacrificando-se um ao outro.A mulher não lavra registo dos seus adoradores; nem o homem se ufana em desenrolar diante dos seus conhecidos, nos corredores de um theatro, ou no vão de uma janella de club, em noite de baile, um copioso canhenho, meio historico meio fabuloso, dos seus triumphos. Ali, ali é que as mulheres se podem gabar de ser amadas, pois o são sem disfarces nem encarecimentos; são-n-o pelas suas proprias graças, pois nem modistas, nem cabelleireiros, nem cosmeticos, nem perfumadores, nem mestres, nem lisonjeiros, nem romances, as transformaram. São-n-o pelo que são, e não pelo que possuem ou representam, pois nem representam nem possuem nada.Palacios, creadagem, diamantes, não lhes vão lá supprir lindezas do corpo, graças do animo, ou preciosidades do coração.Não é entre prestigios deslumbradores, n'um ambiente de calor artificial, estimuladasou vencidas do exemplo, da occasião, do medo ao ridiculo, e da audacia emprehendedora, não é ao abrigo do estrondo e confusão de um baile, que ellas recebem e fazem as suas primeiras declarações; é ao serão, com a sua roca na cinta, na presença de suas mães; ou, quando muito, na romaria, sentadas na relva com as parentas e amigas, em derredor da merenda, á sombra das carvalheiras.São amores que se não escondem, porque não teem de quê; amores que se exhalam debaixo do ceo azul; que se juram pelo Santo da illuminada capella do festejo, ao som folgasão daMirontellaroncada pela gaita de folle, rainha, alma, e feiticeira ambulante do arraial.No progresso de taes inclinações é sabedora e consentidora toda a visinhanca; e esta mesma notoriedade defende os nossos namorados, tanto de se deixarem arrastar de seus mutuos desejos, como de se desvairarem e cahirem em infieis.Ao consorcio da Egreja, antecede o dos corações, não menos obrigado a lealdade e observancia. Nenhum Lovelace de véstia commetteria galantear a conhecida poremprêgode outrem, certo em que nenhuns lucros lhe surtiria o empenho, senão só motejos e descredito.D'este modo se estende ás vezes por annos, com uma constancia verdadeiramente biblica, até ao dia da posse, o bem-querer d'estes Jacobs e d'estas Rachéis.¡Quantas Lisboetas de saráus, se quizerem ser sinceras, hão de confessar que a escolhaque n'um baile fizeram... só durou até que veio o baile seguinte! ¡Quantas, quantas, cujo numero de arrojados (concedendo que pelas duas orelhas que Deus lhes déra não ouviam dois ao mesmo tempo) se poderia contar, perguntando á sua modista franceza quantos vestidos novos lhes havia feito!Não assim lá. A que foi vista, na ceifa do anno passado, demorar-se mais a encher a malga para certo segador que para todos os outros, e pedir-lhe sempre a elle que lhe ajudasse a pôr á cabeça a gavella das espigas, essa continuará a fazer o mesmo na colheita d'este anno; continual-o-ha na dos futuros, até que, tornada sua mulher, os cuidados dos filhos e da casa a impidam de seguir, como antes, por passos contados, o seu gosto.Observação tão curiosa como verdadeira:Com toda esta liberdade, com os frequentes encontros a sós, que a variedade dos serviços rusticos tão a miudo lhes depara, rodeadas da Natureza por todas as partes, vendo livre o amor nas aves e nos rebanhos, favorecidas pela solidão selvática e pelo silencio, e pelas moitas, e pelas quebradas do solo, e por dois crepusculos em cada dia, e em cada semana de inverno por tantas tempestades improvisas, como aquella que rendeu e debellou a vidual constancia de Dido e a piedade de Enêas, quando o hymeneu deu com o relampago o signal de suas bôdas, e as nymphas pelos altos dos montes ulularam; com tudo isto, os exemplos de fragilidade como a de Dido por phenómenose apontam; e annos e annos se devolvem, sem que um só se realise.Quando porém se dá, e vem a lume filho não de benção, o peccado de amor não se carrega de crueldade. O innocente não se faz victima expiatoria dos culpados, perdendo a vida entre as mãos de quem lh'a deu; horror nefandíssimo, inteiramente desconhecido d'aquelle horizonte para dentro; nem tão pouco é enviado, como um roubo, pelas trevas da noite, á porta lá ao longe de um desconsolado asylo, aberto pela misericordia em lagrimas ás lagrimas dos filhinhos sem mãe, nascidos em signo de rigor para se crearem sem beijos nem carinhos, viverem sem nome nem parentes, e se finarem sem heranças, nem lamentos, nem memorias.Não, não. Nem pelo infanticidio physico, nem pelo infanticidio moral, mereceria qualquer das minhas serranas um falso titulo, que ainda mais a faria corar, que a tácita confissão da sua culpa. Sabe renunciar os louvores com que d'antes a coroavam; ousa desherdar de antemão o seu cadaver do palmito, symbolo pósthumo do feminil triumpho; tudo ousa; tudo... como lhe fique para consolação da sua queda o encanto ineffavel de apertar nos braços o seu filho. Se o mundo todo, se o proprio amante, a desamparasse, tudo tudo esquecêra vendo-o rir; sorrira, e sentira-se afortunada. De não ser donzella, nem esposa, harto a compensa a consciencia de preencher inteiro, a espinho e espinho, a flor e flor, o sublime encargo, o natural sacerdocio da maternidade.Estas resignadas victimas, immoladas porum amor, por outro amor ressuscitadas mais interessantes, estas victimas, em quem a virtude, produzida pelo arrependimento, excede talvez em quilates, e eguala quasi em lustre a virgindade, são poucas; são rarissimas; custar-nos-hia a encontrar uma. Quando porém a desencantasseis, lembrando vos do que sabeis d'estas nossas grandes terras, fio-vos que bastante commiseração e respeito vos infundira.*Casas de perdição para a mocidade, como nos povoados grandes se alinham em ruas e ruas, e até já por villas e aldeias vão surdindo, não se conhecem lá, nem se poderão tão cedo conhecer.Como leprosa seria evitada, e pereceria á mingua, e de vergonha, a que se proposesse esse culto venal de praseres falsos, em que as sacerdotisas, coroadas de flores e mascaradas de sorriso, são victimas das victimas que ellas sacrificam.Por isso tambem, a saude, o vigor, e a energia, se manteem, e se transmittem de paes a filhos, juntamente com a harmonia e serenidade dos casaes.XIVDos amores vinhamos falando; falemos do que em outros sitios lhes serve de sepulcro, mas não lá; falemos do casamento.*Os casamentos não são nunca determinados por considerações de haveres ou de jerarchia.O cálculo rala pouco os pensamentos d'estas gentes, acostumadas a viver com pouco, e a confiar muito na Providencia. As palavrasdoteeescriturasapenas seriam entendidas.Como um dos dois namorados chega, a poder de fortuna, ou de trabalho e economia, a ajuntar parauma cama de roupa, uma teia de estôpa, outra de linho, uma peça de burel, dois escabellos e uma banca de pinho, uma panella e dois pratos, uma candeia de folha, um bácoro, seis alqueires de milho, e outros tantos de centeio, tem agarrado as melenas da fortuna, e trata logo de a jungir com o hymeneu ao carro do Amor.O noivo dá á sua futura um presente, o qual, pelo commum, consta de um anel, meias, e sapatos; e a noiva ao seu futuro uma camisa para o dia grande.Mal que este desponta, vê já de pé os dois afortunados, garridos e bizarros com o seuaceiodos domingos: ella, sobretudo, flammante como uma Imagem, com arrecadas, cordões, e alfinetes sobre lenço de seda, mantilha lustrosa, ou chapeo de feltro novo com enfeites.As que para tanto não teem guarda-roupa, teem amigas e visinhas, que de boa-mentelhesacodem, cada uma com o seumelhorado, convencidas como estão (especialmente as solteiras) de que alguma coisa da benção matrimonial poderá vir apegada aos diches e galas que figuraram no apertar das mãos.Muitas noivas, crentes na sabedoria de suas avós, se preparam de vespera para este acto, banhando-se em agua de alecrim, quesendo florído tem mais efficácia, e mettendo antes de adormecer debaixo do travesseiro (suppondo que em tal noite se possa adormecer) uma roca e um fuzo bem liados entre si, e recobertos com alguns arméos de linho e lan; no que, vai grande condão de conformidade de animos, perfeição de ajuntamento, e dura do bem-querer; com tanto que o mesmo fuzo e roca, assim maridados, não faltem debaixo do mesmo travesseiro na primeira noite do consorcio.O pretendente, com os seus apaniguados, espera já á porta da noiva a sua sahida. Esta apparece emfim, como uma aurora da serra, incendida de pejo, e orvalhada com as lagrimas da mãe; e segue com o rancho, a pé, caminho da egreja, levando ás costas as bençãos do pae, em que ainda por lá se crê, a turbação no seio, e nos ouvidos os votos e resas de bom agoiro, recitadas com fé por alguma velha mais sabida.

*

*

*

*

*

*

*

*

*

*

*

*

*

*

*


Back to IndexNext