A egreja está já á sua espera aberta, juncada de espadana, com o altar enflorado de fresco, e a alampada atiçada.A ceremonia tem ali o que quer que seja de tocante, de mais bom que nas cidades. Em quanto o Pastor, a quem todas suas ovelhas amam, e que a todas as sauda por seus nomes, profere as palavras rituaes do sacramento, ou improvisa apóz ellas um affectuoso discurso sobre os deveres mutuos e a felicidade dos casados, o silencio profundo do templo não é interrompido com pregões de vendedores, rodar de seges, marchas de tropa, brados de mendigos, assobiosde rapazes, martellar de artifices, zabumbas de arlequins.Nenhum d'esses disparatados sons, discorde symphonia das cidades, vai profanar a mystica poesia d'aquellas reminiscencias patriarchaes, e afugentar as evocadas memorias deLia, de Rachel, e de Rebecca.O que unicamente chega lá de fóra, é o chilrar de algum passaro sobre alguma cerejeira do adro, o amoroso carpir de alguma rôla na matta de S. Sebastião, ou a voz de algum lavrador estimulando os bois perguiçosos no trabalho do passal; tudo fragmentos e despertadores das alegrias da Natureza, ou dos innocentes e primitivos exercicios da progénie de Adão.Não sei como isto diga: mas parece-me que assim se casa com mais clara e muito mais formosa benção.*É um dia solemne da vida aquelle, em que duas almas votam a Deus não ser mais que uma, fazer de duas vidas uma vida, de dois nomes um só nome, como de duas metades distinctas se forma um todo inseparavel.É um dia, sem duvida, para quem bem o pondéra, solemnissimo, e que, por isso mesmo, se deveria por todos os modos pintar com indeléveis e suaves tintas na memoria, para que a sua imagem no meio das tentações podesse acudir como Santelmo resplandecente no meio das tempestades.Quem se recordar de que proferiu o seuvoto, e escutou com jubilo outro egual, onde tudo era pacifico e risonho, onde nenhumas congéries de obras humanas encobriam as maravilhas da Mão Divina, onde com o sol entravam sombras de arvores, e descantes de aves livres, e fragrancias naturaes com as virações, quem, repito, de tudo isto se recordar, ha-de-lhe parecer que Deus percebeu melhor as suas palavras; ha-de alguma vez devanear em si (mas que o não diga) que bem poderia ser que alguns Anjos estivessem ali, em tão donoso tabernáculo, a bafejar a prisão de seda e oiro, que para sempre unia o homem e a mulher...*Desde que saem da egreja, por baixo de um repique de sinos alvoroçados, e por entre os parabens e vivas dos assistentes, encontram, começando logo no adro, de praso a praso, por toda a extensão do caminho até á casa, arcos, engenhados á pressa, de loiro, ramos de pinheiro, oliveira, roble, canas verdes, e quantas hervas e plantas bravas menos espinhosas ou mais floridas brota o monte.Ao-pé de cada arco, sobre um tamborete coberto com a sua toalha, e ladeado de duas cadeiras para a heroina e heroe da festa, estão, postos de antemão pelos muchachinhos que formam a primeira frente do préstito triumphal, um prato de bolos, e frutos verdes ou sêccos para quem os quizer tomar; outro vazio, para a gratificação voluntaria, que ninguem deixa de lhe lançar.Entre estes arcos alguns ha, de maior pompa,e industria mais esmerada; foram esses prevenidos pelos padrinhos, ou pelas proprias familias de seus afilhados. Nos primeiros rescendem sobre urna meza dois ramalhetes naturaes, que enchem uma salva ou prato grande, e que os mesmos padrinhos offerecem, com palavras de sincero affecto o mais bem concertadas que podem, um á moça, outro ao mancebo; os quaes, logo a diante, de ordinario entre si os trocam; e junto á salva dos ramalhetes se vê um abundante refresco de bebida e comida para todo o acompanhamento, sendo o acepipe obrigado ás filhós de mel.Em cada uma d'estasestaçõeschove de todas as partes a saraivada dos confeitos; bebe-se á saúde dos «bem empregados» e «de quem d'ahi a nove mezes ha-de vir.»*O jantar d'este dia é copioso e demorado, com tantos convivas quantos admitte a sala; e as portas abertas; e os copos e as boas vontades prestes para quem se quizer apresentar.Entre a madrinha e o padrinho ficam assentados, na cabeceira da meza, e o mais proximo que se pode, o desposado e a desposada. Primeiro disse «o desposado» (contra a regra do nosso falar galanteador), porque o logar da direita se lhe dá a elle. A dignidade varonil em nenhum lance esquece entre aquellas gentes primitivas.N'um d'estes banquetes, a que assisti, comiam ambos no mesmo prato, e com umsó talher, e bebiam pelo mesmo copo; o que, não obstante fazer durar a refeição dobrado tempo, não deixava de ter graça pelo seu bonissimo sentido, que não podia ser outro senão representar a communidade e harmonia intima, em que esperavam e professavam de viver.*Á noite ha saráu rasgado, com concerto de violas, rabecas, e ferrinhos, dando se a rôdo comer e beber aos tangedores.Em quanto dançam, algumas moças donzellas se furtam subtilmente á companhia, para irem enfeitar de flores o leito nupcial, desfolhar entre os lençoes rosas de cheiro (se a estação as dá), e guarnecer a roca e fuzo symbolicos de amores perfeitos.Tudo isto vai ligeiro; e quando o gallo, unico relogio da terra, grita da quinta que é meia-noite, ha já muito que os obsequiadores bondosos teem deixado a casa em socego e liberdade. Horas de calmaria de certo suavissimas, apóz um dia todo por fora e por dentro tão festejado e tão revôlto.....XVO nascer de cada filho é uma festa.Como teem robusta fé na Providencia, crêem (e mostra a experiencia que se não enganam), crêem e repetem, que filhos ainda em casa pobre são riqueza; que por taes penhores se obriga Deus, que é o Pae commum, a lhes acudir com mais larga mão;e que a meza, por ter mais Anjinhos ao pé de si, se não ha-de fazer mais escaça, se não medrar á proporção de tão bons hóspedes.E em verdade: se a descendencia nas cidades é tantas vezes um onus, um sorvedoiro, e um terror; se tão commummente se ouvem mães e paes deploral-a como castigo e praga; lá na serra, onde ha trabalho proporcionado a cada edade, lá na serra, onde, como em enxame bem regido, todos os consumidores são productores; lá, onde só são necessidades as necessidades, e onde, em fim, os paes são os mestres, o exemplo lição, a laboriosidade e sobriedade herança; ninguem se atormenta sorteando na phantasia empregos ou futuros novos para a sua progénie. Lá os filhos são rebentões, que alegram, remoçam, e espécarão a seu tempo a velhice decadente de quem lhes deu o ser, seiba, e sombra.*Vinda a lume a creanca, entre um côro de mulheres experimentadas em taes lances, que supprem a falta de parteiras e doutores, tem-se já prompta a canastra que lhe ha-de servir de berço.Por todos os oito dias e noites que precedem ao Baptismo, é escrupulosamente velada, para que não venham bruxas malfazejas a chuchal-a. Para esse fim se mantém de sol a sol candeia bem experta; e ao clarão d'ella, com os olhos fitos no innocente, e quasi sempre em pé para que as não tome o somno, se revezam a uma e uma, fiando na roca, as amigas da casa.Algumas sabem versos muitos bons contra maleficios, que vão entoando com a sua cantilena propria, em quanto com a ponta do pé embalam brandamente o bercinho. Algumas folhas de oliveira ou palma, que figuraram no altar em Domingo de Ramos, queimadas n'esta occasião, diz-se que tambem provam muito bem, assim como seus borrifos de agua benta pelas portas e janellas.*Não sei eu, se todos acham n'estas reliquias vivas de romanas crenças a graça, a fragrancia poetica, o saudoso de innocente boa-fé, que lhes eu sinto.¡Cuidar que ainda agora as mulherinhas de uma serra nossa, e tão christan como ella é, praticam o mesmo que os legionários romanos provavelmente ensinaram a nossas avós ha mil annos, e mais, pelo terem visto fazer nas aldeias da sua terra a suas mães e mulheres! ¡Cuidar que estamos vendo, com pequena degeneração, o que o mais rico poeta da Antiguidade se deliciou em cantar das crenças da sua gente! E se não, oiçâmol-o, e julgareis:Negreja ao réz do Tibre annoso Helerno,santo bosque, onde levam sacrificiosinda agora os Pontífices romanos.Ali nasceu outr'ora, ali viviaa que nossos avós chamavam Grane,casta Nympha, de excelsos pretensorespedida vezes mil e em vão pedida.Era seu exercicio errar nos campos,as feras perseguir com dardo agudo,e as redes emboscar nos fundos valles.Inda que aljava ao lado não trouxesse,criam-n-a irman de Phebo; o parentesconão poderia, ó Phebo, envergonhar-te.Quando algum namorado a requestava,tinha prompta a resposta.—«Aqui,—dizia—ha nímia luz, e a luz dobra a vergonha...Se preferes entrar n'aquella gruta,sigo-te.»—Á gruta o crédulo voava;ella torcia o passo, ia á carreiradas moitas na espessura homisiar-se;d'ali desencantal-a era impossivel.Viu-a Jano, e de a ver ficou perdido;combateu lhe o rigor com brandos rogos,e a sólita resposta obteve em prémio:que entrasse além na gruta. Obedeceu-lhe;segue-o a principio a Nympha... eis pára... eis foge.O que lhe fica apóz vê Jano. Ó louca,no usado esconderijo em vão confias;olha como t'o observa, e t'o devassa.Não ha que resistir-lhe... eis-te em seus braços;eil-o comtigo a sós na cava penha,onde havias buscado o teu refugio.Saciados os sôffregos desejos,—«Em paga d'este goso—exclama o Nume—dos quícios a tutella eu te confio;pela honra perdida esta conserva.»Assim falando, candida varinhalhe entrega, com que os tétricos asaresdas protegidas portas afugente.Existem de brutal voracidadeumas infames aves; não já essasque de Phineu a meza espoliavam,mas da mesma relé: cabeça grande,fito olhar, bico audaz, grizalhas plumas,garra adunca; esvoaçam pela noite;onde encontram creança ao desamparo,que a ama deixou só, prestes a empólgam,arrancam-n-a do berço, e a dilaceram.Diz que as lactentes vísceras co'os róstroslhes picam, lhes devoram; teem as faucessempre repletas de sorvido sangue.Doestridorcom que as trevas alvorótam,lhes vem o nome:estrigesse nomeiam.Estas pois, quer de si nascessem aves,quer em aves, de velhas que antes foram,fatal conjuro marso as encantasse,penetraram de Proca no aposento.Com cinco soes de edade, o innocentinhoera ao bando ferino egregio pasto.Já co'as gulosas linguas ferem, sugamo tenro peito nu; sôam do infanteos consternados trémulos vagidos,com que, á falta de voz, auxilio pede.Corre a ama assustada; acha nas facesdo caro alumno seu lavado em sanguedas brutas garras os crueis vestigios.¿Que fará? vê-lhe o rosto exangue, murcho,que na côr arremeda as tardas folhasjá do rígido inverno bafejadas.Corre a Grane; o successo lhe relata.—«Cobra valor—a Nympha lhe responde;—viverá teu alumno.»Entrada ao berço,acha a mãe, acha o pae, sôltos em pranto.—«Eis-me; enxugae as lágrimas—exclama;—vou tornar-vol-o são.» Diz, e tres vezesde medronheiro com frondosa varafere da estancia as portas; outras tantasco'a mesma vara o limiar sinála;rega o ádito; as aguas com que o regaencerram salutifera mistura.Entranhas cruas de bimestre porcatoma nas mãos, e diz:—«Aves da noite,í-vos, deixae as puerís entranhas.N'esta pequena victima tenrinhao tenro pequenino aqui resgato;é coração por coração; tomae-o;por visceras são visceras; redimaesta existencia immunda outra mais nobre.»Finda a sacra oblação, corta o deventre,e esmiunçado o vai pôr aos ares livres,prohibindo do rito ás testemunhasolhal-a então ninguem; por fim collocaa vara de oxiacanta, o don de Jano,na janellinha que dá luz ao quarto.Consta que desde então não mais volveramao berço aves ruins; saude, cores,tudo refloresceu no innocentinho.[3]*O padrinho presenteia a comadre no dia do Baptisado com dois côvados de baêta encarnada ou verde, vinho, assucar, arroz, um cabrito, ou peixe, conforme o dia em que acerta. A madrinha dá um vestido, duas camisas, e uma touca. Cada um dos convidados, um pichel de vinho, segundo o seu brio.Este dia é quasi tão festivo como o do casamento, pois n'elle se cumpre a benção que no primeiro dia se recebêra, e está salvo o interessante pimpôlho para a outra e para esta vida; sendo averiguado, que as bruxas nada querem com sangue a que a agua e o sal tiraram o saibo do peccado.XVIAlém d'estas duas festas, domesticas e privadas, casamento e baptisado, cada povoação celébra a sua, pública, no dia do Orago da sua capella. Tem fogo do ar e salva de morteiros á Missa cantada; banqueteiam-se uns aos outros; e, se o anno correu próspero, e as posses o consentem, andam já desde a vespera á tarde pelo adro, viellas, e azinhagas, a gaita e o tambor, e despovôa-se a visinhança com o chamariz do fogo de vistas nomeado dearmação, ouparreira.Por esta occasião, nas casas principaes, isto é, nas menos apertadas, saltam-se até a meia-noite as danças, pela mór parte cantadas, do bom Portugal velho; danças, das quaes, para fóra d'aquelle vivente archivode antiguidades, nem já, quasi, os nomes se conservam. São ocaracol, oSenhor da serra, olundú, oulandum, oescalhabardo, aribaldeira, oFrancisco bandalho, etc.A excitação do saltar, a virtude inspiradora do vinho verde, e um poucochinho o natural desejo de brilhar diante das raparigas e dos rapazes, fazem ás vezes com que ahi appareçam, como nas romarias, como nos serões dos lagares, escamisadas de milho, e outros ajuntamentos de gosto, poetas e poetisas que trovam de repente, e á porfia, por espaço de horas, ao som da flauta de canna, ou da viola.*Por de mais seria querer dar ideia de taes improvisos.Os cantores, quer sejam homem e mulher, quer homem e homem, estão em pé, um diante do outro, no meio da roda dos ouvintes. A toada de que se ambos servem, é sempre das mais populares, e vai toda remançada, para que as ideias e rimas tenham lazer de acudir. Ás vezes, por desgarre ou desfastio, se deixa degenerar de cantoria n'uma especie de declamação accentuada.O seu verso é o de sete syllabas; o seu periodo, quatro versos, correspondendo-se o segundo e o quarto com toantes ou consoantes; isto é: usam das quadras correntes em todo o Reino.Alternam-se de quadra em quadra, ou de duas em duas quadras, conforme lhes convém.Principiam (é obrigado) por uma especiede elogio, ou vénia, ao dono da casa, se é em casa que se tem o descante, ou aos assistentes, se é em terreiro. Passam logo a tratar do objecto da festa, ou dos seus proprios amores; e d'ahi, muitas vezes sem transição, saltam para um genero entre elles muito saboroso, que se poderá chamar o «rusticofescenino»,se, de envôlta com as chufas salgadas, fossem tambem como entre os Antigos, os dizeres e entenderes licenciosos. Um ao outro se empulham e desempulham, como os dois pastores virgilianos, com surriadas de impropérios sempre ao galarim, sem que o fogo das palavras prenda nunca nos corações. Com a mesma feição com que dizem, com a mesma ouvem; e tão avindos saem da contenda, como n'ella entraram.Um primor d'este chancear consiste em tomar cada um, para urdimento da sua trova, o verso, phrase, ou palavra final, da do seu adversario, por mostrarem assim que não vinham aparelhados para o duello, e que tudo quanto esgrimem lhes acudiu, extemporaneo.*Uma coisa faz extranheza a quem assiste pela primeira vez a taes porfias, e em geral a todo o cantar aldeão; e é: que a primeira metade de cada quadra tem frequentemente um sentido diverso, e desconnexo do sentido da segunda metade.Os primeiros dois versos conteem uma sentença geral, uma verdade vulgar, umaimagem campestre, a exposição succinta de qualquer facto, mas sem relação alguma com o assumpto que se versa, o qual só nos dois versos ultimos apparece.Vão exemplos, visto não estar em academia, mas em pratica de amigos com meus leitores:O loireiro bate bate,que eu bem o sinto bater.Para comigo cantareshas-de tornar a nascer.Á couve se come a folha;come-se a raiz ao nabo.Só te espero ver casadosendo mulher o diabo.Navio d'el-Rei é grande,é grande e chega ao Brazil.Se namorares alguma,não seja á luz do candil.Sequidão cria o centeio,frescura cria os repolhos.¡Quem me estreára comtigo,menina, os lençoes de folhos!Já se vê, por estas amostras, que a improvisação não é tão difficil coisa, nem para tantos encarecimentos, como a teem feito alguns viajantes, d'estes que só viajam no seu quarto, embarcados na sua poltrona.É por cá o mesmo, que provavelmenteserá por toda a parte, sem exceptuar a Italia, com que tanta bulha se nos faz.Al porto di Livornoè giunto un bastimento.Cara, morir mi sento!mi sento, o Dio, mancar!XVIIMuito, porém, se enganára, quem inferisse que toda a poesia dos meus serranos é de egual teor; porque, sobre conservarem muita xácara de bons tempos, com as suas lacrimosas cantilenas tão singelas, tão simplices e aprasiveis como ellas (o que já não seria pequeno cabedal), cantam, e ás vezes engenham com singular felicidade, quadras repassadas de amoroso affecto e graça natural, que um poeta de nome não enjeitaria.E ¿que muito? ¿Por que não haviam de nascer estros por ali, onde ha tanta Natureza, tantos sitios inspirativos, tão bons ocios na solidão, tantos amores (¡e amores tão bem empregados!), e tão largos horizontes para a saudade!¿Por que não haviam elles de nascer, quando até pelas nossas encruzilhadas mal cheirosas e escuras, pelos nossos botequins fumosos e azoinados, pelas casas d'essas ruas feias, onde olhos e ouvidos se perdem e afogam em prosidade vil, rebentam, viçam, e não raro florejam, talentos de estimação e de valia?Mas a cada qual a sua boa dita, e o seu fadario: aos das cidades, muitas coisas lhes empecem (não falando no desamor que os esfria, e nas parvoas invejas que os matam); aos montanhezes, afóra a Natureza, que lhes abunda, tudo mais lhe mingúa. São poetas, sem adivinharem que ha poesia, como de Hesíodo se conta, a quem, sendo humilde pastor, appareceram as Musas, não invocadas, para o bemfadarem.*¡Oh! ¡Que de Hesíodos se não esperdiçam, e, por falta de um prodigio que os desencante, fenecem desconhecidos ao mundo, e a si mesmos!De uma pobre mocinha ovelheira posso eu dizer; que por tardes de verão muita vez a ouvi sem que me ella visse; eu reclinado nos degraus da capella de S. Sebastião; ella ali perto, cantando e fiando em pé á sombra de um sobreiro, no meio dos balidos do seu fato; ella e eu, como bem se pode crer, ¡enfeitiçados com a placidez de tão livres horas em logares tão fugidos, tão sobranceiros ao mundo todo!De amores eram os seus versos, e amorosa a sua fala. Brotavam-lhe todos corados, não da memoria se não do espirito; e o espirito d'ella, estava-se conhecendo que lhe residia no coração, tão bem, tão bem, tanto a seu grado, como em estufa bem quente uma planta mimosa, que um ameaço de frio mataria.Não sabia ler; raro teria visto a quem o soubesse. Nunca ouvira de obras de poesia senão as cantigas da sua terra, o murmurinho dos seus rios; de madrugada a cotovia perdida pelos altos do ceo; ao meio-dia as porfias das cigarras; ao descahir da tarde o badalar longinquo das Ave-Marias; ao cerrar da noite o regosijo da aldeia, que torna a ajuntar os seus moradores, os seus rebanhos, os seus carros, as suas creanças, os seus rafeiros, toda a sua orchestra tão bem temperada para a alma; de noite os grilos e o rouxinol; e em sonhos... a fala talvez do seu namorado.Por aqui se resumia a sua bibliotheca; e comtudo, não ha encarecer o que ella improvisava para as suas ovelhas, que a não entendiam; para mim, que me occultava com mil cuidados para não afugentar tão melodiosa ave; e para o ecco, para o ecco sobretudo, unica voz que podia levantar-se ao-pé da sua.Era a inspiração lyrica mais formosa, se não a mais remontada. Eram os objectos do seu limitado universo a mirarem-se na limpidez dos seus affectos, virginaes e namorados ao mesmo tempo. Eram as palavras destillando-se cada uma da sua ideia com a propria côr, com a propria fragrancia que lhe competia. Era o metro a correr, sem quebra nem extravasamento, a flux, sereno, sonoroso como a fonte do passal. Eram as rimas a vir poisar espontaneas, faceis, afinadas, uma de fronte da outra, como em dois arbustos diversos no mesmo valle se respondem dois passaros gorgeando. Era tudo, emfim, quantoa Arte requer, e só a Natureza pode dar aos seus mimosos¡Pobre mocinha! ¡Dezasseis primaveras!... Até já as suas ovelhas se esqueceriam d'ella. Dissipou-se como um sonho de poesia. Não deixou mais vestigios sobre a terra, do que aos eccos haviam deixado os seus poemas. Se ainda canta... já não é a terra quem a ouve. Remontou o vôo muito mais alto que o da cotovia sua mestra; engolfou-se por entre as scismadoras estrellas, que tantas coisas em segredo lhe ensinavam; e virgem entre os Anjos, irman entre seus irmãos, entretece a sua voz immortal no cantico sem limiteXVIIICom a Poesia da montanha, releva fazer tambem menção da sua Musica.É esta quasi toda antiga; antiquissima podéramos dizer de muita; e conserva puro e extréme o primitivo sabor. Condiz com a Linguagem, com o trajar, com os costumes; seria excellente oráculo para consultarem os modernos compositores de operas nacionaes. Assim se temperariam para os nossos ouvidos, os quaes, posto que affeitos de annos para cá a peregrinas melodias de muito mais altos quilates, ainda comtudo se ageitam e conchegam melhor com as toadas sentidas e singelas da nossa creação.Nas boas horas fique a musica italiana,pois que entrou, e nos cahiu, e o merece; mas, porque bizarros agazalhamos a digna hóspeda, não se diga que aposentámos nos sótãos a parenta velha, bondosa, e amiga, por trazer vasquinha e falar chão.Rossinem, Bellinem, e Donizettem quanto quizerem; façam-n-o até (se já não pode ser por menos), façam-n-o a frouxo e a granel por essas comedias e farças, em que fala gente do nosso sangue e dos nossos nomes. Mas uma vez ou outra (al de menos por cortezia, como dizem os meus serranos), deixem-nos ouvir em boccas patricias coisa que nos alembre das cantilenas de nossas amas, cantilenas que, ainda depois de apagadas da memoria, lá se ficam algures no coração, com quanto basta de vida para ressurgirem ao primeiro aceno.Ponha-nos alguem degradados em terra extranha, entre mil arvores e arbustos exóticos da mais admiravel louçania; mostre-nos lá, emboscadinho na herva, o malmequer da nossa primeira adolescencia, a papoila retinta, que nos ria d'entre o verde da seára, quando meninos; a papoila e o malmequer muito mais nos hão-de conversar com o coração um só minuto, que todas ess'outras flores mais soberbas em toda uma primavera.Se é vergonha... seja; curtil-a-hei; mas sempre digo que muita vez n'esses theatros, por ahi, me estão lembrando com saudades os descantes da serra.Uma ária opulenta, refeita de sciencia, espinhada de difficuldades, a dominar o temporal desfeito da orchestra que se lhe revolve aos pés, a sumir os seus píncaros florídose trémulos pelas nuvens, admiro-a, applaudo-a, e esqueço-a. Abalou-me tudo, a fora o coração.Porém certas cantigas que eu sei... não as applaudi, não as admirei quando as ouvi, mas senti-as repassar-me até ás fibras intimas; assimilaram-se-me com os humores; converteram-se-me para logo em substancia propria; ficaram-se-me cantando per si, sem voz, no meio do silencio.Eram faceis e pobres; seriam; mas eram do meu Portugal, dos meus ares, da minha terra. Conheciam-me, e conhecia-as eu, ainda antes de as ter encontrado.E tambem, ¡que melodiosas, que engraçadas não são algumas, até para orelhas forasteiras, quanto mais para as do seu molde!*¡Oh! ¡se a penna fôra varinha de condão! ¡Se, em vez de vos falar do que por vocábulos se não exprime, podesse apresentar-vos lá de subito, a beberdes com aquelles ares bonissimos aquellas cantorias agrestes, sem cultura, sem enxerto, luxuriantes de natureza, macias, avelludadas, rescendendo a amor e contentamento!Comigo ficáreis todos, que eram minas, as quaes, lavradas por mãos perítas, nos podiam abastar de muito oiro, que a Arte, batendo-o e cunhando-o a seu modo, poria em facil giro com geral proveito.O Musico portuguez de alma, que se fosse vagabundo por essas solidões, edificaria como Amphião novas Thebas, attrahindo econgregando com a sua lyra penedias e florestas.¿Mover-se-ha algum a tental-o? moverá a final. Mas por ora, o thermómetro do patriotismo assignala graus para baixo de zero.Para a Poesia nacional antiga e popular já alguns olhos se teem voltado; e viu-se o proveito. Na Musica ha de ser o mesmo, querendo Deus; ¿mas quando? sabe-o Elle.Dos que por ahi a professam, nenhum dá visos de querer levantar-se. Fizera-o eu, se tivera a sciencia, o engenho, o fogo, que se admiram em alguns d'elles. ¡Oh que o fizera! e com bem pequeno custo, bem farta corôa grangeára.¿Que digo «custo»? ¿Onde ha ahi delicia como é o viajar caçador de Artes, por toda a parte bem vindo, banquetear-se á farta com agradecimento dos que o regalam, e deixar saudades e fama em desconto dos thesoiros que se tomam?*Uma qualidade que eu notei muito notada no cantar frequente pelos meus espaçosos ermos, e que lhe dava uma particular feição de melancolia mui suave, era a extensão das notas, o prolongamento, sobretudo, das finaes a perder de fôlego. É donosa coisa; mórmente pela noite, e ao longe...A explicação d'esta singular maneira deve ser, segundo me parece, o costume de cantarem muitas vezes a sós por lombas descampadas e cumes de oiteiros, d'onde a voz tem de correr, e correr, primeiro que tope com ouvido em que se hospéde. Outras vezesé ao-pé de estrépito de aguas, que a afogariam a lhe faltar perseverança. Outras, em paragens de eccos, nas quaes uma fala aprasivel folga de se estar a si mesma namorando.*De cabeço para cabeço, bem arredados um do outro por estirado valle, ouvi eu muita vez estarem duas guardadoras conversando por cantoria; e, graças a este methodo de irem fiando cada syllaba... comprida... comprida... entendiam-se (podendo apenas enxergar-se), como se estiveram assentadas mão por mão, e muito manas, á soalheira no seu aido.Sustentam-se estas entoadas conversações, em prosa inteiramente desatada de rithmo, e não obstante rimada, rimada por um modo tão insólito como facil.Exemplo:¿Quer uma convidar a outra? dir-lhe-ha:—Ó ia, eu te digo ó Maria,Ó iga, que se tu és minha amiga,Ó á, botes as cabras para cá,Ó enda para me ajudares a comer a merenda,Ó eijo, que tenho aqui brôa e queijo,Ó ôas, e umas maçans muito bôas.E remata-se com um repenicado, que serve de ponto final, com que a outra interlocutora fica advertida, de que pode tomar a mão no colloquio por ter chegado a sua vez.XIXMas assaz e de sobejo nos temos demorado sobre a Poesia e Musica. Retomemos o fio que traziamos, que eram as festas.*As geraes mais notaveis (pois até agora só vimos as de cada familia e as de cada aldeia) são: o Anno-bom, o Carnaval, a Paschoa, Maio, S. João, e o Natal.*O Anno-bom não é ao presente senão um rebate para comesaina rasgada, e se deitar uma can fora.As pagans Janeiras, que ainda alguns se lembram de ter cantado, já lá vão.Consistiam (archivemos, archivemos, pois que até as serras ao cabo se desmemoríam) consistiam em sahirem, logo ao romper do primeiro sol do anno os cachopinhos de cada povoação, todos em bando, o mais bem arreados que podiam, com suas sacólas, ou alcôfas, ás costas, a cantarem de porta em porta, e, percorrido o logar, de aldeia em aldeia, até se lhes acabar o dia, umas trovas de parabens e boa estreia, atuchadas de campanudos louvores á bizarria do pae ou mãe de familias, e desfechando sempre em requerer alguma chouriça, gallinha, ou pão branco, para a ajuda dorefestêllo; contribuição com força de Lei, mas de que todos se desempenhavam á boa-mente.*O Carnaval, é como ainda nós por aqui o conhecemos nos seus dias aureos, tríduo de folia desatada, guerra porfiada e bem rida de todos contra cada um, e de cada um contra todos.São as pulhas, as peças, os esguichos, os pós, a laranja.....que derruba o chapeo,de que o bomFilinto com tanta saudade se lembrava lá em París, o rabo-leva de tripas entufadas, a mão de ferrugem da chaminé com azeite pelos fucinhos, as estôpas apegadas ás costas e incendidas, o vinho com sal, as filhós com trapos, e todos os mais adminiculos, que no ritual classico se conteem.Por qualquer parte que então se caminhe, ainda que se não veja povoa nem viva alma, duas coisas se hão-de ouvir infallivelmente: uma é rir e apupar; toda a serra parece estar florejando gargalhadas; a outra são descargas de espingardaria. Ninguem tem caçadeira velha em termos de dar fogo, que não saia com ella a salvar.N'esta occasião (não sei por quê) o rio de S. Mamede parece marcar fronteira entre duas nações inimigas; a metade cíterior, e a metade ulterior da freguesia, formam dois exercitos, que, disposto cada um na sua banda pelos altos mais patentes e convisinhos aos seus adversarios, para lá lhe atira por cima da torrente, sem folga nem misericordia, turbilhões de chascos, de apupos, de rugidosde buzinas, de buxas accezas, e fumarada. Estremece a terra sob os pés; retumbam pelo ouco dos valles, pelas refolhadas e sinuosas lapas das ribanceiras, os rolantes trovões centuplicados...O Entrudo ébrio, que vai, titubante cavalleiro em derreado asninho, visitando as povoações, com barbas brancas em faces avinhadas, e canna em punho para se abordoar, facil, prasenteiro, com séquito de rapazía a abuzinar, e de mascarados saltões, satyricos, e brutescos, bem poderá ser o próprio Sileno das bacchanaes, metamorphoseado pelo tempo, constante parodiador das suas mesmas obras, pois não é necessaria grande perspicácia para reconhecer como, n'uma boa entrudada, se conciliaram diversas reliquias herdadas do paganismo: por fundo, as saturnaes; por embutidos e matiz, as bacchanaes, as floraes, e quejandas (o numero era folgado).As pastoras, que não podem deixar por tres dias o gado nos redís e apriscos, para se estarem regalando ao banquete da familia, teem um Carnaval particular, um Carnaval nómada e silvestre, cosinhado e comido ao ar livre, e a que ellas chamam «o seu gôrdo».Ogôrdo, para o qual de tempos se andam aparelhando, é feito por varias d'ellas em commum, convidadas e admittidas outras amigas, e algumas vezes tambem alguns moços seus parentes.Sem o ser de nenhuma d'ellas, consegui eu assistir a um gôrdo; e ainda agora me está sabendo.Estava um dia Real. A sala do festim era n'uma gruta, ou amplo recesso de penedia, com uma alpendrada de arbustos silvestres, e um vestíbulo de areia parda e fina, á borda da agua.Nympharum domus.....não lhes faltando os competentes
A egreja está já á sua espera aberta, juncada de espadana, com o altar enflorado de fresco, e a alampada atiçada.A ceremonia tem ali o que quer que seja de tocante, de mais bom que nas cidades. Em quanto o Pastor, a quem todas suas ovelhas amam, e que a todas as sauda por seus nomes, profere as palavras rituaes do sacramento, ou improvisa apóz ellas um affectuoso discurso sobre os deveres mutuos e a felicidade dos casados, o silencio profundo do templo não é interrompido com pregões de vendedores, rodar de seges, marchas de tropa, brados de mendigos, assobiosde rapazes, martellar de artifices, zabumbas de arlequins.Nenhum d'esses disparatados sons, discorde symphonia das cidades, vai profanar a mystica poesia d'aquellas reminiscencias patriarchaes, e afugentar as evocadas memorias deLia, de Rachel, e de Rebecca.O que unicamente chega lá de fóra, é o chilrar de algum passaro sobre alguma cerejeira do adro, o amoroso carpir de alguma rôla na matta de S. Sebastião, ou a voz de algum lavrador estimulando os bois perguiçosos no trabalho do passal; tudo fragmentos e despertadores das alegrias da Natureza, ou dos innocentes e primitivos exercicios da progénie de Adão.Não sei como isto diga: mas parece-me que assim se casa com mais clara e muito mais formosa benção.*É um dia solemne da vida aquelle, em que duas almas votam a Deus não ser mais que uma, fazer de duas vidas uma vida, de dois nomes um só nome, como de duas metades distinctas se forma um todo inseparavel.É um dia, sem duvida, para quem bem o pondéra, solemnissimo, e que, por isso mesmo, se deveria por todos os modos pintar com indeléveis e suaves tintas na memoria, para que a sua imagem no meio das tentações podesse acudir como Santelmo resplandecente no meio das tempestades.Quem se recordar de que proferiu o seuvoto, e escutou com jubilo outro egual, onde tudo era pacifico e risonho, onde nenhumas congéries de obras humanas encobriam as maravilhas da Mão Divina, onde com o sol entravam sombras de arvores, e descantes de aves livres, e fragrancias naturaes com as virações, quem, repito, de tudo isto se recordar, ha-de-lhe parecer que Deus percebeu melhor as suas palavras; ha-de alguma vez devanear em si (mas que o não diga) que bem poderia ser que alguns Anjos estivessem ali, em tão donoso tabernáculo, a bafejar a prisão de seda e oiro, que para sempre unia o homem e a mulher...*Desde que saem da egreja, por baixo de um repique de sinos alvoroçados, e por entre os parabens e vivas dos assistentes, encontram, começando logo no adro, de praso a praso, por toda a extensão do caminho até á casa, arcos, engenhados á pressa, de loiro, ramos de pinheiro, oliveira, roble, canas verdes, e quantas hervas e plantas bravas menos espinhosas ou mais floridas brota o monte.Ao-pé de cada arco, sobre um tamborete coberto com a sua toalha, e ladeado de duas cadeiras para a heroina e heroe da festa, estão, postos de antemão pelos muchachinhos que formam a primeira frente do préstito triumphal, um prato de bolos, e frutos verdes ou sêccos para quem os quizer tomar; outro vazio, para a gratificação voluntaria, que ninguem deixa de lhe lançar.Entre estes arcos alguns ha, de maior pompa,e industria mais esmerada; foram esses prevenidos pelos padrinhos, ou pelas proprias familias de seus afilhados. Nos primeiros rescendem sobre urna meza dois ramalhetes naturaes, que enchem uma salva ou prato grande, e que os mesmos padrinhos offerecem, com palavras de sincero affecto o mais bem concertadas que podem, um á moça, outro ao mancebo; os quaes, logo a diante, de ordinario entre si os trocam; e junto á salva dos ramalhetes se vê um abundante refresco de bebida e comida para todo o acompanhamento, sendo o acepipe obrigado ás filhós de mel.Em cada uma d'estasestaçõeschove de todas as partes a saraivada dos confeitos; bebe-se á saúde dos «bem empregados» e «de quem d'ahi a nove mezes ha-de vir.»*O jantar d'este dia é copioso e demorado, com tantos convivas quantos admitte a sala; e as portas abertas; e os copos e as boas vontades prestes para quem se quizer apresentar.Entre a madrinha e o padrinho ficam assentados, na cabeceira da meza, e o mais proximo que se pode, o desposado e a desposada. Primeiro disse «o desposado» (contra a regra do nosso falar galanteador), porque o logar da direita se lhe dá a elle. A dignidade varonil em nenhum lance esquece entre aquellas gentes primitivas.N'um d'estes banquetes, a que assisti, comiam ambos no mesmo prato, e com umsó talher, e bebiam pelo mesmo copo; o que, não obstante fazer durar a refeição dobrado tempo, não deixava de ter graça pelo seu bonissimo sentido, que não podia ser outro senão representar a communidade e harmonia intima, em que esperavam e professavam de viver.*Á noite ha saráu rasgado, com concerto de violas, rabecas, e ferrinhos, dando se a rôdo comer e beber aos tangedores.Em quanto dançam, algumas moças donzellas se furtam subtilmente á companhia, para irem enfeitar de flores o leito nupcial, desfolhar entre os lençoes rosas de cheiro (se a estação as dá), e guarnecer a roca e fuzo symbolicos de amores perfeitos.Tudo isto vai ligeiro; e quando o gallo, unico relogio da terra, grita da quinta que é meia-noite, ha já muito que os obsequiadores bondosos teem deixado a casa em socego e liberdade. Horas de calmaria de certo suavissimas, apóz um dia todo por fora e por dentro tão festejado e tão revôlto.....XVO nascer de cada filho é uma festa.Como teem robusta fé na Providencia, crêem (e mostra a experiencia que se não enganam), crêem e repetem, que filhos ainda em casa pobre são riqueza; que por taes penhores se obriga Deus, que é o Pae commum, a lhes acudir com mais larga mão;e que a meza, por ter mais Anjinhos ao pé de si, se não ha-de fazer mais escaça, se não medrar á proporção de tão bons hóspedes.E em verdade: se a descendencia nas cidades é tantas vezes um onus, um sorvedoiro, e um terror; se tão commummente se ouvem mães e paes deploral-a como castigo e praga; lá na serra, onde ha trabalho proporcionado a cada edade, lá na serra, onde, como em enxame bem regido, todos os consumidores são productores; lá, onde só são necessidades as necessidades, e onde, em fim, os paes são os mestres, o exemplo lição, a laboriosidade e sobriedade herança; ninguem se atormenta sorteando na phantasia empregos ou futuros novos para a sua progénie. Lá os filhos são rebentões, que alegram, remoçam, e espécarão a seu tempo a velhice decadente de quem lhes deu o ser, seiba, e sombra.*Vinda a lume a creanca, entre um côro de mulheres experimentadas em taes lances, que supprem a falta de parteiras e doutores, tem-se já prompta a canastra que lhe ha-de servir de berço.Por todos os oito dias e noites que precedem ao Baptismo, é escrupulosamente velada, para que não venham bruxas malfazejas a chuchal-a. Para esse fim se mantém de sol a sol candeia bem experta; e ao clarão d'ella, com os olhos fitos no innocente, e quasi sempre em pé para que as não tome o somno, se revezam a uma e uma, fiando na roca, as amigas da casa.Algumas sabem versos muitos bons contra maleficios, que vão entoando com a sua cantilena propria, em quanto com a ponta do pé embalam brandamente o bercinho. Algumas folhas de oliveira ou palma, que figuraram no altar em Domingo de Ramos, queimadas n'esta occasião, diz-se que tambem provam muito bem, assim como seus borrifos de agua benta pelas portas e janellas.*Não sei eu, se todos acham n'estas reliquias vivas de romanas crenças a graça, a fragrancia poetica, o saudoso de innocente boa-fé, que lhes eu sinto.¡Cuidar que ainda agora as mulherinhas de uma serra nossa, e tão christan como ella é, praticam o mesmo que os legionários romanos provavelmente ensinaram a nossas avós ha mil annos, e mais, pelo terem visto fazer nas aldeias da sua terra a suas mães e mulheres! ¡Cuidar que estamos vendo, com pequena degeneração, o que o mais rico poeta da Antiguidade se deliciou em cantar das crenças da sua gente! E se não, oiçâmol-o, e julgareis:Negreja ao réz do Tibre annoso Helerno,santo bosque, onde levam sacrificiosinda agora os Pontífices romanos.Ali nasceu outr'ora, ali viviaa que nossos avós chamavam Grane,casta Nympha, de excelsos pretensorespedida vezes mil e em vão pedida.Era seu exercicio errar nos campos,as feras perseguir com dardo agudo,e as redes emboscar nos fundos valles.Inda que aljava ao lado não trouxesse,criam-n-a irman de Phebo; o parentesconão poderia, ó Phebo, envergonhar-te.Quando algum namorado a requestava,tinha prompta a resposta.—«Aqui,—dizia—ha nímia luz, e a luz dobra a vergonha...Se preferes entrar n'aquella gruta,sigo-te.»—Á gruta o crédulo voava;ella torcia o passo, ia á carreiradas moitas na espessura homisiar-se;d'ali desencantal-a era impossivel.Viu-a Jano, e de a ver ficou perdido;combateu lhe o rigor com brandos rogos,e a sólita resposta obteve em prémio:que entrasse além na gruta. Obedeceu-lhe;segue-o a principio a Nympha... eis pára... eis foge.O que lhe fica apóz vê Jano. Ó louca,no usado esconderijo em vão confias;olha como t'o observa, e t'o devassa.Não ha que resistir-lhe... eis-te em seus braços;eil-o comtigo a sós na cava penha,onde havias buscado o teu refugio.Saciados os sôffregos desejos,—«Em paga d'este goso—exclama o Nume—dos quícios a tutella eu te confio;pela honra perdida esta conserva.»Assim falando, candida varinhalhe entrega, com que os tétricos asaresdas protegidas portas afugente.Existem de brutal voracidadeumas infames aves; não já essasque de Phineu a meza espoliavam,mas da mesma relé: cabeça grande,fito olhar, bico audaz, grizalhas plumas,garra adunca; esvoaçam pela noite;onde encontram creança ao desamparo,que a ama deixou só, prestes a empólgam,arrancam-n-a do berço, e a dilaceram.Diz que as lactentes vísceras co'os róstroslhes picam, lhes devoram; teem as faucessempre repletas de sorvido sangue.Doestridorcom que as trevas alvorótam,lhes vem o nome:estrigesse nomeiam.Estas pois, quer de si nascessem aves,quer em aves, de velhas que antes foram,fatal conjuro marso as encantasse,penetraram de Proca no aposento.Com cinco soes de edade, o innocentinhoera ao bando ferino egregio pasto.Já co'as gulosas linguas ferem, sugamo tenro peito nu; sôam do infanteos consternados trémulos vagidos,com que, á falta de voz, auxilio pede.Corre a ama assustada; acha nas facesdo caro alumno seu lavado em sanguedas brutas garras os crueis vestigios.¿Que fará? vê-lhe o rosto exangue, murcho,que na côr arremeda as tardas folhasjá do rígido inverno bafejadas.Corre a Grane; o successo lhe relata.—«Cobra valor—a Nympha lhe responde;—viverá teu alumno.»Entrada ao berço,acha a mãe, acha o pae, sôltos em pranto.—«Eis-me; enxugae as lágrimas—exclama;—vou tornar-vol-o são.» Diz, e tres vezesde medronheiro com frondosa varafere da estancia as portas; outras tantasco'a mesma vara o limiar sinála;rega o ádito; as aguas com que o regaencerram salutifera mistura.Entranhas cruas de bimestre porcatoma nas mãos, e diz:—«Aves da noite,í-vos, deixae as puerís entranhas.N'esta pequena victima tenrinhao tenro pequenino aqui resgato;é coração por coração; tomae-o;por visceras são visceras; redimaesta existencia immunda outra mais nobre.»Finda a sacra oblação, corta o deventre,e esmiunçado o vai pôr aos ares livres,prohibindo do rito ás testemunhasolhal-a então ninguem; por fim collocaa vara de oxiacanta, o don de Jano,na janellinha que dá luz ao quarto.Consta que desde então não mais volveramao berço aves ruins; saude, cores,tudo refloresceu no innocentinho.[3]*O padrinho presenteia a comadre no dia do Baptisado com dois côvados de baêta encarnada ou verde, vinho, assucar, arroz, um cabrito, ou peixe, conforme o dia em que acerta. A madrinha dá um vestido, duas camisas, e uma touca. Cada um dos convidados, um pichel de vinho, segundo o seu brio.Este dia é quasi tão festivo como o do casamento, pois n'elle se cumpre a benção que no primeiro dia se recebêra, e está salvo o interessante pimpôlho para a outra e para esta vida; sendo averiguado, que as bruxas nada querem com sangue a que a agua e o sal tiraram o saibo do peccado.XVIAlém d'estas duas festas, domesticas e privadas, casamento e baptisado, cada povoação celébra a sua, pública, no dia do Orago da sua capella. Tem fogo do ar e salva de morteiros á Missa cantada; banqueteiam-se uns aos outros; e, se o anno correu próspero, e as posses o consentem, andam já desde a vespera á tarde pelo adro, viellas, e azinhagas, a gaita e o tambor, e despovôa-se a visinhança com o chamariz do fogo de vistas nomeado dearmação, ouparreira.Por esta occasião, nas casas principaes, isto é, nas menos apertadas, saltam-se até a meia-noite as danças, pela mór parte cantadas, do bom Portugal velho; danças, das quaes, para fóra d'aquelle vivente archivode antiguidades, nem já, quasi, os nomes se conservam. São ocaracol, oSenhor da serra, olundú, oulandum, oescalhabardo, aribaldeira, oFrancisco bandalho, etc.A excitação do saltar, a virtude inspiradora do vinho verde, e um poucochinho o natural desejo de brilhar diante das raparigas e dos rapazes, fazem ás vezes com que ahi appareçam, como nas romarias, como nos serões dos lagares, escamisadas de milho, e outros ajuntamentos de gosto, poetas e poetisas que trovam de repente, e á porfia, por espaço de horas, ao som da flauta de canna, ou da viola.*Por de mais seria querer dar ideia de taes improvisos.Os cantores, quer sejam homem e mulher, quer homem e homem, estão em pé, um diante do outro, no meio da roda dos ouvintes. A toada de que se ambos servem, é sempre das mais populares, e vai toda remançada, para que as ideias e rimas tenham lazer de acudir. Ás vezes, por desgarre ou desfastio, se deixa degenerar de cantoria n'uma especie de declamação accentuada.O seu verso é o de sete syllabas; o seu periodo, quatro versos, correspondendo-se o segundo e o quarto com toantes ou consoantes; isto é: usam das quadras correntes em todo o Reino.Alternam-se de quadra em quadra, ou de duas em duas quadras, conforme lhes convém.Principiam (é obrigado) por uma especiede elogio, ou vénia, ao dono da casa, se é em casa que se tem o descante, ou aos assistentes, se é em terreiro. Passam logo a tratar do objecto da festa, ou dos seus proprios amores; e d'ahi, muitas vezes sem transição, saltam para um genero entre elles muito saboroso, que se poderá chamar o «rusticofescenino»,se, de envôlta com as chufas salgadas, fossem tambem como entre os Antigos, os dizeres e entenderes licenciosos. Um ao outro se empulham e desempulham, como os dois pastores virgilianos, com surriadas de impropérios sempre ao galarim, sem que o fogo das palavras prenda nunca nos corações. Com a mesma feição com que dizem, com a mesma ouvem; e tão avindos saem da contenda, como n'ella entraram.Um primor d'este chancear consiste em tomar cada um, para urdimento da sua trova, o verso, phrase, ou palavra final, da do seu adversario, por mostrarem assim que não vinham aparelhados para o duello, e que tudo quanto esgrimem lhes acudiu, extemporaneo.*Uma coisa faz extranheza a quem assiste pela primeira vez a taes porfias, e em geral a todo o cantar aldeão; e é: que a primeira metade de cada quadra tem frequentemente um sentido diverso, e desconnexo do sentido da segunda metade.Os primeiros dois versos conteem uma sentença geral, uma verdade vulgar, umaimagem campestre, a exposição succinta de qualquer facto, mas sem relação alguma com o assumpto que se versa, o qual só nos dois versos ultimos apparece.Vão exemplos, visto não estar em academia, mas em pratica de amigos com meus leitores:O loireiro bate bate,que eu bem o sinto bater.Para comigo cantareshas-de tornar a nascer.Á couve se come a folha;come-se a raiz ao nabo.Só te espero ver casadosendo mulher o diabo.Navio d'el-Rei é grande,é grande e chega ao Brazil.Se namorares alguma,não seja á luz do candil.Sequidão cria o centeio,frescura cria os repolhos.¡Quem me estreára comtigo,menina, os lençoes de folhos!Já se vê, por estas amostras, que a improvisação não é tão difficil coisa, nem para tantos encarecimentos, como a teem feito alguns viajantes, d'estes que só viajam no seu quarto, embarcados na sua poltrona.É por cá o mesmo, que provavelmenteserá por toda a parte, sem exceptuar a Italia, com que tanta bulha se nos faz.Al porto di Livornoè giunto un bastimento.Cara, morir mi sento!mi sento, o Dio, mancar!XVIIMuito, porém, se enganára, quem inferisse que toda a poesia dos meus serranos é de egual teor; porque, sobre conservarem muita xácara de bons tempos, com as suas lacrimosas cantilenas tão singelas, tão simplices e aprasiveis como ellas (o que já não seria pequeno cabedal), cantam, e ás vezes engenham com singular felicidade, quadras repassadas de amoroso affecto e graça natural, que um poeta de nome não enjeitaria.E ¿que muito? ¿Por que não haviam de nascer estros por ali, onde ha tanta Natureza, tantos sitios inspirativos, tão bons ocios na solidão, tantos amores (¡e amores tão bem empregados!), e tão largos horizontes para a saudade!¿Por que não haviam elles de nascer, quando até pelas nossas encruzilhadas mal cheirosas e escuras, pelos nossos botequins fumosos e azoinados, pelas casas d'essas ruas feias, onde olhos e ouvidos se perdem e afogam em prosidade vil, rebentam, viçam, e não raro florejam, talentos de estimação e de valia?Mas a cada qual a sua boa dita, e o seu fadario: aos das cidades, muitas coisas lhes empecem (não falando no desamor que os esfria, e nas parvoas invejas que os matam); aos montanhezes, afóra a Natureza, que lhes abunda, tudo mais lhe mingúa. São poetas, sem adivinharem que ha poesia, como de Hesíodo se conta, a quem, sendo humilde pastor, appareceram as Musas, não invocadas, para o bemfadarem.*¡Oh! ¡Que de Hesíodos se não esperdiçam, e, por falta de um prodigio que os desencante, fenecem desconhecidos ao mundo, e a si mesmos!De uma pobre mocinha ovelheira posso eu dizer; que por tardes de verão muita vez a ouvi sem que me ella visse; eu reclinado nos degraus da capella de S. Sebastião; ella ali perto, cantando e fiando em pé á sombra de um sobreiro, no meio dos balidos do seu fato; ella e eu, como bem se pode crer, ¡enfeitiçados com a placidez de tão livres horas em logares tão fugidos, tão sobranceiros ao mundo todo!De amores eram os seus versos, e amorosa a sua fala. Brotavam-lhe todos corados, não da memoria se não do espirito; e o espirito d'ella, estava-se conhecendo que lhe residia no coração, tão bem, tão bem, tanto a seu grado, como em estufa bem quente uma planta mimosa, que um ameaço de frio mataria.Não sabia ler; raro teria visto a quem o soubesse. Nunca ouvira de obras de poesia senão as cantigas da sua terra, o murmurinho dos seus rios; de madrugada a cotovia perdida pelos altos do ceo; ao meio-dia as porfias das cigarras; ao descahir da tarde o badalar longinquo das Ave-Marias; ao cerrar da noite o regosijo da aldeia, que torna a ajuntar os seus moradores, os seus rebanhos, os seus carros, as suas creanças, os seus rafeiros, toda a sua orchestra tão bem temperada para a alma; de noite os grilos e o rouxinol; e em sonhos... a fala talvez do seu namorado.Por aqui se resumia a sua bibliotheca; e comtudo, não ha encarecer o que ella improvisava para as suas ovelhas, que a não entendiam; para mim, que me occultava com mil cuidados para não afugentar tão melodiosa ave; e para o ecco, para o ecco sobretudo, unica voz que podia levantar-se ao-pé da sua.Era a inspiração lyrica mais formosa, se não a mais remontada. Eram os objectos do seu limitado universo a mirarem-se na limpidez dos seus affectos, virginaes e namorados ao mesmo tempo. Eram as palavras destillando-se cada uma da sua ideia com a propria côr, com a propria fragrancia que lhe competia. Era o metro a correr, sem quebra nem extravasamento, a flux, sereno, sonoroso como a fonte do passal. Eram as rimas a vir poisar espontaneas, faceis, afinadas, uma de fronte da outra, como em dois arbustos diversos no mesmo valle se respondem dois passaros gorgeando. Era tudo, emfim, quantoa Arte requer, e só a Natureza pode dar aos seus mimosos¡Pobre mocinha! ¡Dezasseis primaveras!... Até já as suas ovelhas se esqueceriam d'ella. Dissipou-se como um sonho de poesia. Não deixou mais vestigios sobre a terra, do que aos eccos haviam deixado os seus poemas. Se ainda canta... já não é a terra quem a ouve. Remontou o vôo muito mais alto que o da cotovia sua mestra; engolfou-se por entre as scismadoras estrellas, que tantas coisas em segredo lhe ensinavam; e virgem entre os Anjos, irman entre seus irmãos, entretece a sua voz immortal no cantico sem limiteXVIIICom a Poesia da montanha, releva fazer tambem menção da sua Musica.É esta quasi toda antiga; antiquissima podéramos dizer de muita; e conserva puro e extréme o primitivo sabor. Condiz com a Linguagem, com o trajar, com os costumes; seria excellente oráculo para consultarem os modernos compositores de operas nacionaes. Assim se temperariam para os nossos ouvidos, os quaes, posto que affeitos de annos para cá a peregrinas melodias de muito mais altos quilates, ainda comtudo se ageitam e conchegam melhor com as toadas sentidas e singelas da nossa creação.Nas boas horas fique a musica italiana,pois que entrou, e nos cahiu, e o merece; mas, porque bizarros agazalhamos a digna hóspeda, não se diga que aposentámos nos sótãos a parenta velha, bondosa, e amiga, por trazer vasquinha e falar chão.Rossinem, Bellinem, e Donizettem quanto quizerem; façam-n-o até (se já não pode ser por menos), façam-n-o a frouxo e a granel por essas comedias e farças, em que fala gente do nosso sangue e dos nossos nomes. Mas uma vez ou outra (al de menos por cortezia, como dizem os meus serranos), deixem-nos ouvir em boccas patricias coisa que nos alembre das cantilenas de nossas amas, cantilenas que, ainda depois de apagadas da memoria, lá se ficam algures no coração, com quanto basta de vida para ressurgirem ao primeiro aceno.Ponha-nos alguem degradados em terra extranha, entre mil arvores e arbustos exóticos da mais admiravel louçania; mostre-nos lá, emboscadinho na herva, o malmequer da nossa primeira adolescencia, a papoila retinta, que nos ria d'entre o verde da seára, quando meninos; a papoila e o malmequer muito mais nos hão-de conversar com o coração um só minuto, que todas ess'outras flores mais soberbas em toda uma primavera.Se é vergonha... seja; curtil-a-hei; mas sempre digo que muita vez n'esses theatros, por ahi, me estão lembrando com saudades os descantes da serra.Uma ária opulenta, refeita de sciencia, espinhada de difficuldades, a dominar o temporal desfeito da orchestra que se lhe revolve aos pés, a sumir os seus píncaros florídose trémulos pelas nuvens, admiro-a, applaudo-a, e esqueço-a. Abalou-me tudo, a fora o coração.Porém certas cantigas que eu sei... não as applaudi, não as admirei quando as ouvi, mas senti-as repassar-me até ás fibras intimas; assimilaram-se-me com os humores; converteram-se-me para logo em substancia propria; ficaram-se-me cantando per si, sem voz, no meio do silencio.Eram faceis e pobres; seriam; mas eram do meu Portugal, dos meus ares, da minha terra. Conheciam-me, e conhecia-as eu, ainda antes de as ter encontrado.E tambem, ¡que melodiosas, que engraçadas não são algumas, até para orelhas forasteiras, quanto mais para as do seu molde!*¡Oh! ¡se a penna fôra varinha de condão! ¡Se, em vez de vos falar do que por vocábulos se não exprime, podesse apresentar-vos lá de subito, a beberdes com aquelles ares bonissimos aquellas cantorias agrestes, sem cultura, sem enxerto, luxuriantes de natureza, macias, avelludadas, rescendendo a amor e contentamento!Comigo ficáreis todos, que eram minas, as quaes, lavradas por mãos perítas, nos podiam abastar de muito oiro, que a Arte, batendo-o e cunhando-o a seu modo, poria em facil giro com geral proveito.O Musico portuguez de alma, que se fosse vagabundo por essas solidões, edificaria como Amphião novas Thebas, attrahindo econgregando com a sua lyra penedias e florestas.¿Mover-se-ha algum a tental-o? moverá a final. Mas por ora, o thermómetro do patriotismo assignala graus para baixo de zero.Para a Poesia nacional antiga e popular já alguns olhos se teem voltado; e viu-se o proveito. Na Musica ha de ser o mesmo, querendo Deus; ¿mas quando? sabe-o Elle.Dos que por ahi a professam, nenhum dá visos de querer levantar-se. Fizera-o eu, se tivera a sciencia, o engenho, o fogo, que se admiram em alguns d'elles. ¡Oh que o fizera! e com bem pequeno custo, bem farta corôa grangeára.¿Que digo «custo»? ¿Onde ha ahi delicia como é o viajar caçador de Artes, por toda a parte bem vindo, banquetear-se á farta com agradecimento dos que o regalam, e deixar saudades e fama em desconto dos thesoiros que se tomam?*Uma qualidade que eu notei muito notada no cantar frequente pelos meus espaçosos ermos, e que lhe dava uma particular feição de melancolia mui suave, era a extensão das notas, o prolongamento, sobretudo, das finaes a perder de fôlego. É donosa coisa; mórmente pela noite, e ao longe...A explicação d'esta singular maneira deve ser, segundo me parece, o costume de cantarem muitas vezes a sós por lombas descampadas e cumes de oiteiros, d'onde a voz tem de correr, e correr, primeiro que tope com ouvido em que se hospéde. Outras vezesé ao-pé de estrépito de aguas, que a afogariam a lhe faltar perseverança. Outras, em paragens de eccos, nas quaes uma fala aprasivel folga de se estar a si mesma namorando.*De cabeço para cabeço, bem arredados um do outro por estirado valle, ouvi eu muita vez estarem duas guardadoras conversando por cantoria; e, graças a este methodo de irem fiando cada syllaba... comprida... comprida... entendiam-se (podendo apenas enxergar-se), como se estiveram assentadas mão por mão, e muito manas, á soalheira no seu aido.Sustentam-se estas entoadas conversações, em prosa inteiramente desatada de rithmo, e não obstante rimada, rimada por um modo tão insólito como facil.Exemplo:¿Quer uma convidar a outra? dir-lhe-ha:—Ó ia, eu te digo ó Maria,Ó iga, que se tu és minha amiga,Ó á, botes as cabras para cá,Ó enda para me ajudares a comer a merenda,Ó eijo, que tenho aqui brôa e queijo,Ó ôas, e umas maçans muito bôas.E remata-se com um repenicado, que serve de ponto final, com que a outra interlocutora fica advertida, de que pode tomar a mão no colloquio por ter chegado a sua vez.XIXMas assaz e de sobejo nos temos demorado sobre a Poesia e Musica. Retomemos o fio que traziamos, que eram as festas.*As geraes mais notaveis (pois até agora só vimos as de cada familia e as de cada aldeia) são: o Anno-bom, o Carnaval, a Paschoa, Maio, S. João, e o Natal.*O Anno-bom não é ao presente senão um rebate para comesaina rasgada, e se deitar uma can fora.As pagans Janeiras, que ainda alguns se lembram de ter cantado, já lá vão.Consistiam (archivemos, archivemos, pois que até as serras ao cabo se desmemoríam) consistiam em sahirem, logo ao romper do primeiro sol do anno os cachopinhos de cada povoação, todos em bando, o mais bem arreados que podiam, com suas sacólas, ou alcôfas, ás costas, a cantarem de porta em porta, e, percorrido o logar, de aldeia em aldeia, até se lhes acabar o dia, umas trovas de parabens e boa estreia, atuchadas de campanudos louvores á bizarria do pae ou mãe de familias, e desfechando sempre em requerer alguma chouriça, gallinha, ou pão branco, para a ajuda dorefestêllo; contribuição com força de Lei, mas de que todos se desempenhavam á boa-mente.*O Carnaval, é como ainda nós por aqui o conhecemos nos seus dias aureos, tríduo de folia desatada, guerra porfiada e bem rida de todos contra cada um, e de cada um contra todos.São as pulhas, as peças, os esguichos, os pós, a laranja.....que derruba o chapeo,de que o bomFilinto com tanta saudade se lembrava lá em París, o rabo-leva de tripas entufadas, a mão de ferrugem da chaminé com azeite pelos fucinhos, as estôpas apegadas ás costas e incendidas, o vinho com sal, as filhós com trapos, e todos os mais adminiculos, que no ritual classico se conteem.Por qualquer parte que então se caminhe, ainda que se não veja povoa nem viva alma, duas coisas se hão-de ouvir infallivelmente: uma é rir e apupar; toda a serra parece estar florejando gargalhadas; a outra são descargas de espingardaria. Ninguem tem caçadeira velha em termos de dar fogo, que não saia com ella a salvar.N'esta occasião (não sei por quê) o rio de S. Mamede parece marcar fronteira entre duas nações inimigas; a metade cíterior, e a metade ulterior da freguesia, formam dois exercitos, que, disposto cada um na sua banda pelos altos mais patentes e convisinhos aos seus adversarios, para lá lhe atira por cima da torrente, sem folga nem misericordia, turbilhões de chascos, de apupos, de rugidosde buzinas, de buxas accezas, e fumarada. Estremece a terra sob os pés; retumbam pelo ouco dos valles, pelas refolhadas e sinuosas lapas das ribanceiras, os rolantes trovões centuplicados...O Entrudo ébrio, que vai, titubante cavalleiro em derreado asninho, visitando as povoações, com barbas brancas em faces avinhadas, e canna em punho para se abordoar, facil, prasenteiro, com séquito de rapazía a abuzinar, e de mascarados saltões, satyricos, e brutescos, bem poderá ser o próprio Sileno das bacchanaes, metamorphoseado pelo tempo, constante parodiador das suas mesmas obras, pois não é necessaria grande perspicácia para reconhecer como, n'uma boa entrudada, se conciliaram diversas reliquias herdadas do paganismo: por fundo, as saturnaes; por embutidos e matiz, as bacchanaes, as floraes, e quejandas (o numero era folgado).As pastoras, que não podem deixar por tres dias o gado nos redís e apriscos, para se estarem regalando ao banquete da familia, teem um Carnaval particular, um Carnaval nómada e silvestre, cosinhado e comido ao ar livre, e a que ellas chamam «o seu gôrdo».Ogôrdo, para o qual de tempos se andam aparelhando, é feito por varias d'ellas em commum, convidadas e admittidas outras amigas, e algumas vezes tambem alguns moços seus parentes.Sem o ser de nenhuma d'ellas, consegui eu assistir a um gôrdo; e ainda agora me está sabendo.Estava um dia Real. A sala do festim era n'uma gruta, ou amplo recesso de penedia, com uma alpendrada de arbustos silvestres, e um vestíbulo de areia parda e fina, á borda da agua.Nympharum domus.....não lhes faltando os competentes
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Negreja ao réz do Tibre annoso Helerno,
santo bosque, onde levam sacrificiosinda agora os Pontífices romanos.
Ali nasceu outr'ora, ali vivia
a que nossos avós chamavam Grane,casta Nympha, de excelsos pretensores
pedida vezes mil e em vão pedida.Era seu exercicio errar nos campos,as feras perseguir com dardo agudo,e as redes emboscar nos fundos valles.Inda que aljava ao lado não trouxesse,criam-n-a irman de Phebo; o parentesconão poderia, ó Phebo, envergonhar-te.
Quando algum namorado a requestava,
tinha prompta a resposta.—«Aqui,—dizia—ha nímia luz, e a luz dobra a vergonha...Se preferes entrar n'aquella gruta,sigo-te.»—Á gruta o crédulo voava;ella torcia o passo, ia á carreiradas moitas na espessura homisiar-se;d'ali desencantal-a era impossivel.
Viu-a Jano, e de a ver ficou perdido;
combateu lhe o rigor com brandos rogos,e a sólita resposta obteve em prémio:que entrasse além na gruta. Obedeceu-lhe;segue-o a principio a Nympha... eis pára... eis foge.O que lhe fica apóz vê Jano. Ó louca,no usado esconderijo em vão confias;olha como t'o observa, e t'o devassa.Não ha que resistir-lhe... eis-te em seus braços;eil-o comtigo a sós na cava penha,onde havias buscado o teu refugio.
Saciados os sôffregos desejos,
—«Em paga d'este goso—exclama o Nume—dos quícios a tutella eu te confio;pela honra perdida esta conserva.»Assim falando, candida varinhalhe entrega, com que os tétricos asaresdas protegidas portas afugente.
Existem de brutal voracidade
umas infames aves; não já essasque de Phineu a meza espoliavam,mas da mesma relé: cabeça grande,fito olhar, bico audaz, grizalhas plumas,garra adunca; esvoaçam pela noite;onde encontram creança ao desamparo,que a ama deixou só, prestes a empólgam,arrancam-n-a do berço, e a dilaceram.Diz que as lactentes vísceras co'os róstroslhes picam, lhes devoram; teem as faucessempre repletas de sorvido sangue.Doestridorcom que as trevas alvorótam,lhes vem o nome:estrigesse nomeiam.
Estas pois, quer de si nascessem aves,
quer em aves, de velhas que antes foram,fatal conjuro marso as encantasse,penetraram de Proca no aposento.
Com cinco soes de edade, o innocentinho
era ao bando ferino egregio pasto.Já co'as gulosas linguas ferem, sugamo tenro peito nu; sôam do infanteos consternados trémulos vagidos,com que, á falta de voz, auxilio pede.
Corre a ama assustada; acha nas faces
do caro alumno seu lavado em sanguedas brutas garras os crueis vestigios.¿Que fará? vê-lhe o rosto exangue, murcho,que na côr arremeda as tardas folhasjá do rígido inverno bafejadas.
Corre a Grane; o successo lhe relata.
—«Cobra valor—a Nympha lhe responde;—viverá teu alumno.»
Entrada ao berço,
acha a mãe, acha o pae, sôltos em pranto.
—«Eis-me; enxugae as lágrimas—exclama;—
vou tornar-vol-o são.» Diz, e tres vezesde medronheiro com frondosa varafere da estancia as portas; outras tantasco'a mesma vara o limiar sinála;rega o ádito; as aguas com que o regaencerram salutifera mistura.Entranhas cruas de bimestre porcatoma nas mãos, e diz:
—«Aves da noite,
í-vos, deixae as puerís entranhas.N'esta pequena victima tenrinhao tenro pequenino aqui resgato;é coração por coração; tomae-o;por visceras são visceras; redimaesta existencia immunda outra mais nobre.»
Finda a sacra oblação, corta o deventre,
e esmiunçado o vai pôr aos ares livres,prohibindo do rito ás testemunhasolhal-a então ninguem; por fim collocaa vara de oxiacanta, o don de Jano,na janellinha que dá luz ao quarto.
Consta que desde então não mais volveram
ao berço aves ruins; saude, cores,tudo refloresceu no innocentinho.[3]
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O loireiro bate bate,que eu bem o sinto bater.Para comigo cantareshas-de tornar a nascer.Á couve se come a folha;come-se a raiz ao nabo.Só te espero ver casadosendo mulher o diabo.Navio d'el-Rei é grande,é grande e chega ao Brazil.Se namorares alguma,não seja á luz do candil.Sequidão cria o centeio,frescura cria os repolhos.¡Quem me estreára comtigo,menina, os lençoes de folhos!
Al porto di Livornoè giunto un bastimento.Cara, morir mi sento!mi sento, o Dio, mancar!
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—Ó ia, eu te digo ó Maria,Ó iga, que se tu és minha amiga,Ó á, botes as cabras para cá,Ó enda para me ajudares a comer a merenda,Ó eijo, que tenho aqui brôa e queijo,Ó ôas, e umas maçans muito bôas.
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.....que derruba o chapeo,
Nympharum domus.....