O Presbyterioda Montanha

Nota de editor:Devido à existência de erros tipográficos neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.Rita Farinha (Fev. 2009)O Presbyterio da Montanha:Volume IVolume IIObras completas de A. F. de CastilhoXIXO Presbyterioda MontanhaVOLUME ILISBOAEMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL95, Rua Augusta, 951905OBRAS COMPLETASDEANTONIO FELICIANO DE CASTILHOVOLUME 19.ºVOLUMES PUBLICADOS:I—Amor e melancolia.II—A chave do enigma.III—Cartas de Ecco e Narciso.IV—Felicidade pela agricultura(1.º v.)V—Felicidade pela agricultura(2.º v.)VI—A primavera(1.º vol.)VII—A primavera(2.º vol.)VIII—Vivos e mortos—Apreciações moraes, litterarias, e artisticas.IX—Vivos e mortos(2.º vol.)X—Vivos e mortos(3.º vol.)XI—Vivos e mortos(4.º vol.)XII—Vivos e mortos(5.º vol.)XIII—Vivos e mortos(6.º vol.)XIV—Vivos e mortos(7.º vol.)XV—Vivos e mortos(8.º vol.)XVI—Excavações poeticas(1.º vol.)XVII—Excavações poeticas(2.º vol.)XVIII—Excavações poeticas(3.º vol.)XIX—O Presbyterio da montanha(1.º v.)NO PRÈLO:XX—O Presbyterio da montanha(2.º v.)OBRAS COMPLETAS DE A. F. DE CASTILHORevistas, annotadas, e prefaciadas por um de seus filhosXIXO PresbyteriodaMontanhaVOLUME ILISBOAEmpreza da Historia de PortugalSociedade EditoraLIVRARIA MODERNATYPOGRAPHIARua Augusta, 9545, Rua Ivens, 471905Advertencia dos EditoresEm 1846 principiou Castilho a colligir, entre os seus manuscritos antigos, alguns dos que lhe tinham nascido na estudiosa solidão de mais de sete annos de homisio na serra do Caramulo. A esses manuscritos, que ia publicar com o titulo deO Presbyterio da montanha, escreveu um prologo extenso, descriptivo, altamente pittoresco, onde, a dôze annos de distancia, desafogou as lembranças d'aquelles logares, e as saudades de um irmão, o melhor dos irmãos, o já então fallecido Abbade de S. Mamede da Castanheira do Vouga, no Bispado de Aveiro. O prologo concluiu-se, imprimiu-se na sua maxima parte, mas não chegou a publicar-se.O natural desleixo do Poeta a respeito do que era seu, as vicissitudes da sua atormentada vida, a sahida para S. Miguel, e outras causas, fizeram com que as folhas impressas se sumissem, nem sabemos dizer como; e os pouquissimos exemplares que existem, e se apontam a dedo, são hoje considerados espe O natural desleixo do Poeta a respeito do que era seu, as vicissitudes da sua atormentada vida, a sahida para S. Miguel, e outras causas, fizeram com que as folhas impressas se sumissem, nem sabemos dizer como; e os pouquissimos exemplares que existem, e se apontam a dedo, são hoje considerados especies bibliographicas de primeira raridade.Castilho possuia um, que vimos, e desappareceu; a Bibliotheca Nacional de Lisboa possue outro; o distinto colleccionador, bibliógrapho, e escritor, o snr. Annibal Fernandes-Thomaz, outro; a fallecida snr.aD. Maria Peregrina de Sousa, poetisa portuense, possuia outro, que parece ter levado caminho; Innocencio no Tomo I do Supplemento do seu immortalDiccionario, não declara se era dono de algum; menciona a obra, apenas.Quanto á parte poetica do livro projectado, essa, não impressa, desappareceu em parte. Só algumas poucas peças encontrámos, umas inteiras outras incompletas; materiaes truncados da collecção. Salvando esses versos, cumprimos um dever moral, e outro literario.O prologo de Castilho é pois o brilhante pórtico de um edificio ainda em construcção, e já em ruinas; é inquestionavelmente uma das obras mais curiosas e instructivas que elle deixou. A chorographia, a fauna, a historia, a lenda, os costumes, a paizagem, as antigualhas, ofolk-lore, d'aquella região alpestre, tão portugueza, mas tão desconhecida, tudo isso é tratado com amor, com o cuidadoso amor de um archeologo-poeta.Appareceu tambem umaIntroducçãoem verso sôlto a certo poema intituladoO Sepulcro, historia de uma noite de S. João, projectado pelo nosso autor; poema original, muito vivido, muito phantastico, infelizmente por concluir. Entendemos não menos intercalar essa curiosa Introducção, no seu logar chronologico, por varios motivos: dá-nosCastilho sob uma feição poetica diversa da sua habitual, e pinta-nos o estado da sua alma aos trinta annos, quando absorvia soffregamente o ar, a vida, os usos populares da montanha. OSepulcroé pois optimo contribuinte d'este truncado banquete literario, e fôra imperdoavel, apesar de incompleto, despresal-o aqui. Do borrão original, que possuimos pela letra do amoravel secretario Augusto Frederico, para esta licção actual, ha leves divergencias, que foram pelo proprio autor ditadas em 1864.Além doSepulcro, outras peças, portuguezas e latinas, já impressas nasExcavações, teriam logar aqui, pelo seu nascimento, pela sua data, pela sua indole; mas o autor preferiu collocal-as n'aquelle seu volume. Facil é ao leitor intelligente o procural-as.Á MEMORIADOEXEMPLAR DE IRMÃOSAUGUSTO FREDERICO DE CASTILHOPRIOR DES. Mamede da Castanheira do VougaEm testemunho publico e perenneDEAFFECTO E GRATIDÃOOffereceAntonio Feliciano de CastilhoPREAMBULOIO livro que apresento, havia de ser difficil de classificar, se o classifical-o podesse por alguma via valer a pena.Não é historico, nem ficticio; não é didactico, philosophico, nem descriptivo; não é prosa, nem poema, nem ainda poemas; e, sem ser nada de tudo isso, de tudo isso participa.Nem sequer é um livro; é uma congérie de pequenas coisas, todas mais ou menos obscuras, e quasi todas desconnexas, e de pensamentos não procurados, se não tomados como elles quizeram vir, sem nenhum bem determinado fim moral, social, ou literario; em summa: um d'aquelles banquetes de aldeão, engenhados á pressa do que ha em casa,...dapibus mensas oneramus inemptis,para hospedar a cortesãos que lhe passaram pela porta. Não procura enganal os: com mãos limpas e coração lavado lhes põe diante o que só para si tinha tratado na sua horta, ceifado no seu chão, cevado no seu pateo, ou colhido do seu pomar. Porcelanas e pratarias, não as tem; algumas flores, já pode ser que as apresentará em vasos de barro; mas como vos assoalha com bom rosto quanto possue, não se vos alardeia de abastado, nem se compara com os visinhos de casas altas e balcões envidraçados. Como quer que vós d'elle o fiqueis, não ficará elle descontente de si mesmo á despedida.*Foi o geral d'esta collecção, parte escrito de carreira, parte apenas esboçado ou apontado, ha hoje doze, treze, quatorze, quinze, e dezasseis annos, sem pensar no Publico; para mero desenfadamento de horas abhorrecidas; para ajudar a correr mais depressa, em sitios tristes e ermos, uns tempos muito ermos, muito tristes, e para mim, que nunca bem atinei com o futuro, muito desconfortados de esperanças.Como todo o meu fim em fazer versos não era outro senão o fazel-os, de todo o modo me nasciam bem. Não tinham de apparecer entre gente; não os educava; não os corrigia; não lhes punha galas e arrebiques. Assim sahiram, assim ficaram, e assim os esqueci.Revi-os depois de tornado ao mundo, aonde já cuidei que não tornasse; achei-osos mesmos que os tinha deixado: sinceros, mas incultos e semi-silvestres, como nados e creados que eram por entre troncos e penedos, longe de olhos e de ouvidos, que fazem por fora o mesmo que por dentro faz a consciencia.Vieram-me tentações de os enjeitar; mas... eram filhos; contavam já annos: recordavam-me tempo de saudades; eram me saudades elles proprios; reconheci-os; dei-lhes o meu nome; com elle os apresento.IITodos os autores, ainda os que mais intimos se nos figuram, cuido eu quese compõempara o Publico; e, bem hajam elles!: não levam á praça senão o que teem averiguado que por lá se deseja e se procura; põem de parte, quanto podem, a sua pessoa, para servirem ao interesse ou gosto alheio.Nada d'isso tenho eu n'estas paginas.Não sou eu que vou para os leitores; são os leitores que teem de vir para mim, se as quizerem ler. Hão-de deixar a sua cidade, pelo meu ermo; as suas occupações, pelo meu ocio; a sua polidez, pela minha rudeza; os seus, pelos meus costumes; a historia ou o romance da sua vida, pelo recantinho domestico onde a minha correu, como uma fonte desconhecida e pura, que mana gotta a gotta n'uma cova, só vista de cima pelo ramo de tojo que a sombreia, ou pela nuvem, ou pela andorinha cujo ventre brancoella retrata no seu vôo. Pelo que, bem entendido deve ficar desde aqui (a fim de que não venham depois obrigar-me por divida que eu não contraio), que a unica deleitação que esta leitura pode dar, se pode dar alguma, será a que naturalmente se tem, penetrando no interior da casa alheia, e nos segredos do visinho.É o que faz com que, por mais futeis que pareçam as memorias, que alguns escrevem de suas vidas, e as correspondencias epistolares, quando por acaso vão dar ao prelo sem terem sido ordenadas para elle, commummente são lidas com interesse.É o que faz, tambem, ser muitas vezes mais aprasivel que as achadas de antigos monumentos publicos, o desenterro fortuito de uma antiga vivenda particular ou casa rustica, onde os vasos e utensís do viver quotidiano veem logo suscitar na phantasia os costumes, o trato, e o ser intimo, da gente que ali houve.Os monumentos só dizem do povo; mas a pedra da lareira, ou o ladrilho do forno, o gancho da candeia, ou a aza da amphora vinaria dos banquetes, dizem da familia. Em de redor de cada coisa d'estas ressurgem tambem uns eccos de vozes enterradas ha muitos seculos; confusos, mas a todos intelligiveis e suaves, de donas, de donzellas, de velhos e meninos, dos animaes caseiros, dos passarinhos e virações do ceo, do sussurro das plantas, dos sons, em summa, de tudo que n'esses tempos apartados foi, e feneceu, deixando de si menos v Os monumentos só dizem do povo; mas a pedra da lareira, ou o ladrilho do forno, o gancho da candeia, ou a aza da amphora vinaria dos banquetes, dizem da familia. Em de redor de cada coisa d'estas ressurgem tambem uns eccos de vozes enterradas ha muitos seculos; confusos, mas a todos intelligiveis e suaves, de donas, de donzellas, de velhos e meninos, dos animaes caseiros, dos passarinhos e virações do ceo, do sussurro das plantas, dos sons, em summa, de tudo que n'esses tempos apartados foi, e feneceu, deixando de si menos vestigio, que a humilde talha do vinho, e a lampada que allumioucalada os prazeres ou os somnos de seus senhores.Os monumentos são artificiaes, e artificiosos; são estudados, e emphaticos; a historia que elles resam é fria. Mas cá, o romance que engenhamos, ageitado ás memorias e saudades do nosso mesmo passado, é todo perfumado de Natureza; a mentir nos diz verdades.*Asimpressões de viagensestão sendo ao presente um genero de Literatura mixta mui usado e mui querido.Não admira: para os autores é facil; para os leitores, recreativo quando menos. Satisfaz-se o humor cosmopolita, que todos temos muito ou pouco; sem cançasso nem más poisadas por terra; sem enjôo nem temporaes por aguas do mar; sem desabrimento de estações; sem saudades do que lá fica para traz; ou, havendo-as, com bom remedio para desandar, que é repetir algumas paginas; e emfim, sem o aborrimento, que a pessoa a viajar em corpo e alma tantas vezes deve de sentir em chegando aonde ninguem a espera, nem festeja, nem conhece, e onde não ouve pelas ruas palavra nem som da sua creação.A viagem escrita, sem custo de nenhuma especie se faz por uns caminhos atmosphericos tão suaves, que a todas as partes nos levam, com a nossa casa e familia, sem até nos demovermos do nosso quarto nem da nossa cama, se como Ovidio somos, que punha entre os regalos da vida o de ler deitado.*Ora digo eu: se o attractivo commum de taes viagens é o gosto de conhecer sitios, gentes, e costumes, que nos são extranhos, e não medir as distancias que nol os apartam, que esse, pelo contrario, é o maior desconto do peregrinar, ¿por que se apeteceriam mais as viagens á França, á Inglaterra, á Suissa, á Italia, ás margens do Rheno, á Russia, ao Egypto, á China, ou ainda á Lua, do que a um qualquer monte da nossa terra, só conhecido de seus moradores e visinhos?¿Que sabeis vós mais da serra do Caramulo, em cujas faldas está assentado S. Mamede da Castanheira do Vouga, como um neto no regaço de sua avó triste e taciturna, que do monte Ararat, em cujo cume parou e se abriu a arca depois do diluvio? Nem mais, nem por ventura tanto.Viréis pois ás raizes do Caramulo conversar montanhezes, agrestes porém bons; e tão bons, que, d'entre os seus oiteiros mal sombreados e mal productivos, nos seus paupérrimos tugurios cobertos de loisa ou colmo, e pendurados á laia de ninhos pela escarpa dos precipicios, entalados nos córregos, ou inclinados a scismar tristezas sobre algum rio fundo e triste, nunca se lembraram de vos invejar a vós outros as vossas cidades opulentas e festivas.Estes, com falarem portuguez, são para vós estrangeiros, ou quasi. Como taes, não vos despraza conhecel-os, despendendo algumas poucas horas com quem por entre elles demorou annos, e de boa-mente lá iriaagora enterrar os restos cançados da vida ao-pé do sepulcro de um Pae, que lhe lá ficou em quieto desterro para todo sempre.[1]IIIA 23 de Outubro de 1826, entrava por aquella serrana região o novo Prior, meu sempre e em tudo irmão, e agora saudade minha continuada e sem remedio, Augusto Frederico de Castilho, com a sua pequena familia, de que era eu parte inseparavel.Coimbra, d'onde iamos, fôra a terra dos nossos annos mais florídos; Lisboa, a do nosso berço e da nossa infancia. Uma e outra me chamariam pelos affectos em qualquer parte do mundo em que eu estivesse; e não houvera eu valído a resistir-lhes. Mas para aquelle ermo, que então cuidavamos nos durasse a vida toda, entranhavamo-nos elle e eu, por nos sentirmos um como o outro tão encantados com o nosso futuro, já palpado e colhido ás mãos, que alegres, sobre resignados, esqueciamos todos os outros sitios por aquelle, renunciavamos quaesquer outras delicias, mais amenas ou mais vívidas,por aquellas gentilezas incultas e mais poeticas de uma natureza quasi primitiva.*Passámos n'uma bateirinha remada por uma velha moleira da margem, o viçoso rio de Bolfiar, a que deu nome, hoje corrupto, segundo a tradição, obom fiarde certa moça mui santa, que junto d'elle vivia n'uma choupaninha pobre, e esmolando a todos os pobres com o trabalho da sua roca; se não quizerdes antes que dos Moiros lhe viesse o appellido, significandopepinal, ourio das terras dos pepinos; pacifico rio, que então ia grosso e desmandado por entre as suas duas ribas altas e verdejantes, em cujos cimos nenhum passageiro deixou nunca de se deter enlevado na amenidade de tal painel.Começam a estender-se-nos diante, profusas e desmedidas para um e outro cabo, arripiadas gândaras de carqueja e urzes, só de longe a longe interruptas de um sovereiro torcido e mal posto, ou de um rebanho; terreno boleado e ondeado como um lago, que em meio de tempestades se houvesse petrificado por encanto. São já fronteiras do Caramulo.IVA freguezia de S. Mamede não se vê em parte alguma; é dispersa, e emboscada. A magreza da terra não dá para grandes espessuras de povoação.O aspecto do paiz, para quem só o atravessaé de inhospedeiro. Mas que se detenham, e o tratem; acharão a hospitalidade espontanea e desinteressada, em todas as falas, em todas as mãos, e em todos os corações. É porque a solidão é de si mais affectuosa, e a pobreza mais liberal e larga, que o rico povoado.Esta differença e vantagem que os moradores levam á sua terra, experimentámol-as nós ainda antes de chegarmos á egreja e residencia, sahindo a receber o seu Pastor novo não só os maioraes, se não quasi todo o Povo com os seus trajos de festa, e repicando por cima das cerejeiras e nogueiras do adro os tres sinos do campanario, d'onde áquelle som se dispartiu pelos ares uma nuvem de pombas brancas.A egreja, alva, com o seu largo portão vermelho aberto para o seu adro muito verde, apresenta-se solitaria. Das povoações em que a freguezia se divide, nenhuma lhe é contigua nem visinha. O presbyterio, ou residencia parochial, é o unico edificio que a acompanha, mas por de traz, como serva humilde e boa, e não descobrindo mais, por entre os plátanos, que o portal do seu pateo toucado e semi-velado das mais espêssas, crespas, e lustrosas heras, onde jámais se esconderam e cantaram melros.Ambos os edificios ficam no meio dopassal, antiga quinta «das Limeiras», dos Condes da Feira, como o passal fica no meio do sinuoso deserto, por onde se disseminam as aldeias, povoas, e casaes, que ali teem o seu foco espiritual.Um grande silencio rodeia largamente acasa da oração. O presbyterio não lh'o quebra.Baixo, de um só andar, e retirado para o fundo do seu pateo rustico mas espaçoso, a olhar pelas quatro janellinhas da sua frontaria principal unicamente para o ceo, e para umas formosas e corpolentas laranjeiras, que dentro do mesmo recinto vegetam, como elle clausuradas, o modesto domicilio, proporcionado pelo que sempre deverá ser o pastor de tal rebanho, não se retrahiu para mais longe, por traz da sombra do santuario, porque não poude: porque lh'o embargou a longa e cada vez mais precipitosa descida, que desde os seus calcanhares começa paraaléma esconcear, descer, e afundir-se, até á borda do estreito, rumoroso, e espumifero rio de S. Mamede.Uma ponte de madeira, arremessada e trémula nos ares a grande altura, por cima das aguas escuras e raro alcançadas do sol, communica esta com a ribanceira ulterior, não menos carrancuda, fragosa, arripiada, e a pique.Da residencia, corôa de um dos dois alcantis, até ao moirisco logar de Falgozelhe, seu visinho na fronteira crista da penedia d'alem-rio, entremeia apenas distancia, que, pela calada das noites, deixa ouvir de parte a parte os ladridos dos cães de gado, as cantigas do serão, e os alertas dos gallos a deshoras. E comtudo, aquellequasi-nadapara os ouvidos e olhos, é para os pés caminho dilatado, fadigoso, e não sem perigos.As duas veredas, que levam ás duas extremidades da ponte, giram enleadas e perplexas,torcendo-se e refugindo, ora para a direita ora para a esquerda, como espavoridas do abysmo lá em baixo; descendo, tornando a subir, e redescendendo de novo por entre brutescos de penedia negra.Pouco matto ressequido, e alguns medronheiros silvestres, são os unicos entes vivos, que por ali se affoitam a tomar pé. Os seus frutos vermelhos, quando o vento lh'os despega maduros, vão sumir-se entre as espumas arrebatadas.Aquella ponte, vacillante sobre tal pégo e entre taes escarpas, com poucas braças de ceo por cima, e por baixo de si o rugir de tantas aguas, dá as sensações de um bello horror.Muita vez me deleitei de as colher, debruçado horas esquecidas para aquelle inferno liquido; e este pensamento algumas vezes ahi me veio por tardes de Junho, em quanto, calado e estendido sobre as táboas, gastadas e rôtas da humidade, me gosava da viração transpirada pela corrente. ¿Foi a simples providencia do acaso, ou uma inspiração de religiosa poesia no fundador, a que fez reunir n'um ermo, e em tão pequeno espaço, como tres cantos de um poema, esta corrente, esta casa, e esta egreja? ¡Esta corrente, emblema da vida terrestre, tão escura, tão angustiada, tão clamorosa, e com tão pouco de azul por cima das suas ribanceiras inaccessiveis, d'onde insperado vem, cada dia, algum novo penedo ferir-lhe o seio! Aquella egreja, tão serenamente alegre, tão aberta, o dia inteiro, ao generoso sol dos campos, tão gorgeada a ambas suas portasde passarinhos, tão garrida de espadanas sobre as campas do pavimento, e nos seus cinco altares tão ridente de flores silvestres, symbolo da alma refugida das tormentas do mundo para o ineffavel asylo da Fé e das Esperanças! E entre o santuario e o rio, como intermedio e transição dos dois extremos, a casinha do Pastor, alva como a confiança, verdejante e florida como as promessas, recatada como a esmola, inexhaurivel no seu celleiro como a Providencia, tácita como a meditação, com as suas portadas bem abertas como a paz, com as costas para a torrente, o rosto para a arca santa, os olhos atravez das arvores de Deus para o firmamento.....O mesmo nome de S. Mamede, com que se appellidam o santuario, a torrente, e o albergue, é uma nova harmonia. Mamede, ou Mamante, foi um humilde e obscuro pastor de gado na Capadócia, e do qual toda a Egreja do Oriente pregôa virtudes e milagres. Sendo ainda mancebinho, acabou martyr, por volta do anno 274 da nossa era.O logar santo, para o Santo; o medonho e vertiginoso, para o Martyr; o vigilante e benéfico, para o Pastor; o tudo, e os silvestres e pacificos arredores, para o Menino, já moço na valentia, ou para o moço, ainda menino na innocencia.Não poude ser o acaso, quem tantos acêrtos concertou.VEra a residencia, quando a ella chegámos, decrépita e caduca: apparencia de choça fabricada de pedra ensôssa, escura e descommoda no interior; por fora negra, com alpendres a aluir-se para o pateo apoquentado de inuteis e desgraciosos compartimentos. A velhice do derradeiro possuidor a havia em parte feito, em parte deixado, chegar áquelle estado.A transformação foi rapida e completa. Os alpendres desappareceram. Na casa remoçada entrou por vidraças abundancia de luz. O pateo desafrontado foi revestido, como a frontaria do edificio, primeiro de cal bem candida, logo de roseiras e limeiras bem viçosas. Um cedro n'elle plantado começou de levantar-se animoso e gentil; e sei que n'esta hora, em quanto de seus dois plantadores um já não existe na terra, o outro declina para o occaso, elle, medrando ainda, é já, como lh'o eu augurára nos meus versos, brasão do presbyterio; tem no seu tronco cinco palmos de circumferencia, e perto de quarenta de altura.[2]O novo Prior, o Rev.dosnr. Padre Antonio José Rodrigues de Campos, a quem Deus dilate a vida para felicidade do rebanho, varão de virtude, e espirito cultivadopor Letras, filho d'aquellas boas terras, e amigo nosso que sempre foi, como ainda hoje o é do nosso nome, conserva e zéla tudo aquillo com amor.É para mim delicia o considerar, que á sombra grande d'aquelle cedro, que eu regava todos os dias, quando um menino de tres annos o poderia ainda arrancar sem custo, lerá talvez, depois do seu Breviario, este livrinho das minhas memorias, em que deposíto o seu nome mollemente reclinado entre tantas outras saudades minhas.VIJá os leitores conhecem, como quer que seja, o asylo que me escondeu sete annos, desde Outubro de 1826 até Fevereiro de 1834, o ninho em que nasceram, sem pensarem em abrir o vôo que hoje abrem para o mundo, estas poesias montesinhas.Mas, como todo o seu assumpto se não limita ao que deixo esboçado, peço-lhes ainda um pouco de indulgencia, para lhes dar a conhecer, por alto, os arredores.*O passal rodeia por todos os lados a egreja e a residencia, correndo por traz d'ellas até onde lh'o consente o pendor do terreno, a escoar-se cada vez mais rapido para o rio de S. Mamede.Por essas lombas inclinadas, fronteiras á encosta alta e erma de Falgozelhe, se boleiammelancolica mas graciosamente as suas hortas, os seus pomares, a sua fonte, as suas parreiras, e as fraldas das seáras, que até ali chegam descendo pela direita e pela esquerda, depois de povoarem toda, com o seu oiro sussurrante, a larga esplanada horizontal, por onde, ao sahir da egreja, folga a vista de se espraiar, até ir bater, lá ao longe, na capellinha e matta de S. Sebastião, que lhe servem de limite.Seáras eram os atrios, que os Romanos pelas suas aldeias folgavam de avisinhar aos templos de Ceres, e mais divindades protectoras da Agricultura. ¿Que mais proprio, para um povo agricola como este, do que achar a casa doCreador, e a do seu dispenseiro, no centro da abundancia das messes, e saudal a com a invocação de um Pastorinho santo?O caminho publico atravessa desde o sobreiral de S. Sebastião, por entre duas grinaldas de oliveiras e vinha, o meu passal até ao adro; costeia a egreja e a casa pela direita, e, em demanda da serra alta, lá se vai mergulhando para a ponte, deixando n'uma de suas orlas a frescura sombria da fonte sobre as hortas, na outra os remanescentes da egreja antiga, um altar de pedra n'uma capella, meia de pedra meia de silvas, assoberbada com um S. Jorge de marmore, a cavallo, a brandir ainda um troço de lança enferrujado de musgo.VIIDetenhâmo-nos poucos minutos, se vos apraz, ao-pé d'este altar, onde já ninguem ajoelha, sobre sepulturas que hoje são tremoços, e recordemos a obscura historia d'este sitio.¿Por que razão só as grandes ruinas se hão-de haver por merecedoras de attenção? Todo o passado é poetico; todo o evocar imagens humanas de sob a terra que pisamos, é proveitoso para alguma coisa. Nas solidões, mormente como esta, consola o saber que nem sempre a brenha foi brenha, e que onde hoje, por entre o rugir das folhas, só algum pipilar de ninho quebra a mudez da Natureza, houve outr'ora actividade, affectos bons, e até festas.Cabe pois saber, que, em tempos mui afastados, viveu na povoasinha da Talhada, logar emboscado, de pouco sol, pouca terra, e achegado pela margem de cá ás aguas do S. João do Monte, que logo a diante troca o nome no de S. Mamede, um moço por nome Jorge, humilde de geração como tudo quanto por ali nasce e se cria, mas de coração alto e espiritos levantados.Namorára-se Jorge (me contou n'um serão do Natal uma velha, que o ouvira em pequenina a seus paes, que o tinham recebido não sabia de quem)... mas emfim, namorára-se, que o sabia ella, de certa moça de alem-rio, guardadora de cabras, mas filha de um Capitão, e sobrinha em primeiro grau de um snr. Vigario. Lá de baixo, perto dasua vivenda entre penedos, levava, os dias com os olhos sempre içados aos cabeços de Falgozelhe, na outra banda, á caça da sua saia de serguilha, ou do seu sombreiro preto; e ainda não de todo malcontente, quando, por entre os penedos pardos e as urzes côr de fogo, a enxergava, pendurada á borda do precipicio, e pascendo descançadamente uma das cabrinhas que obedeciam á sua voz melodiosa.A voz da serrana era em verdade um dos seus dotes. Quando a esperdiçava cantando n'aquellas solidões, parecia-lhe a elle, que lá de baixo lh'a estava captando com ambas as mãos, escutar um Anjo de amor escondido entre as nuvens; e quereria mal até ao rouxinol que lh'a interrompesse, porque não sabia de coisa mais de molde para o seu coração.Vel-a á sua vontade, não a via se não aos domingos na egreja; e nem então, que para esses dias tinha ella umas roupinhas muito sécias, meias muito alvas, e tamancos de galão de oiro, que o aterravam, mostrando-lhe que maiores obstaculos ainda haviam posto entre os seus affectos a fortuna e o nascimento, do que entre as suas vivendas a corrente das aguas. Fazem-se pontes para os rios; não se fazem que prestem para communicar dois estados tão diversos.*Amor verdadeiro pode ser platonico algum tempo; mas é poesia; e poesia não é vida. Ousou, e declarou-se a medo á sua formosa; não foi repellido. Affoitou-se a mais:ao impossivel. Abriu-se com o tio Vigario em confissão. O que entre elles se passou, não se sabe; taboas de confessionario não são carvalhos dodónios que chocalhem tudo. O que se sabe, é que a moça não tornou a apascentar para aquella banda, e que elle, pouco depois, deixou a terra, onde tinha mãe e irmãos pequenos, sem dizer nada a ninguem, e não levando senão o fatinho que tinha no corpo, o seu cajado, o seu espirito, que segundo dizem, era grande, e o seu amor, que não era pequeno.Constou, ao cabo de annos, que se tinha ido embarcar em um navio d'el Rei, e que se abalára por esses mares de Christo, sabe Deus para onde, e para quê.....No meio de uma furiosa tormenta, correndo grande perigo de perdimento, assim a fazenda que andára moirejando, como a propria vida, apegou-se com o Santo do seu nome, e lhe prometteu que, se o levasse com tudo seu a terra de salvamento, lhe mandaria fundar, e lhe dotaria, uma capella da sua invocação com duas Missas por semana, defronte de Falgozelhe, onde vivia a noiva do seu coração, por cima da Talhada, onde tinha os irmãos e a mãe, e pegada com a egreja onde o baptisaram a elle, e onde a avistava todos os domingos.....Mas de crer é que n'essa imagem se não demoraria muito em semelhante lance, em que as ondas formavam, por instantes montanhas tão altas e escarpadas, porém mais temerosas e feias que ess'outras, entre cujas quebradas, e por cujos visos, elle variára a sua infancia.Acudiu-lhe o Santo; e Jorge cumpriu o promettido.Tornou á Talhada, erigiu a capella, comprou fazendas em Angeja, que em boa e devida forma lhe adscreveu para o seu culto, e nunca mais tornou a aventurar-se sobre aguas do mar.Reliquias são pois da sua obra a Imagem e as pedras que ainda ali se divisam. O de mais, já desgastado do tempo, foi demolido, para ir servir como materiaes na edificação de parte da residencia, e da egreja nova, que já sabeis lhe estão visinhas.*—¿Mas o fim de seus amores?—me perguntareis vós.Memoria é essa que eu tambem procurei, porém não consegui desencantal-a.O que só pude desenterrar da tradição, foi: que este mesmo Jorge viera a casar-se na freguezia; que tivera um filho nascido na póvoa da Talhada; que este se ordenára de Clérigo, fôra a Roma, e arribára a Cardeal; em memoria do que, ainda na actual egreja se conserva, herdada da antiga, e mandada por elle de Roma para aquellas suas brenhas muito amadas, uma Cruz de quatro palmos de altura e um de largura, com braços em baixo e em cima, oleada de verde, doirada nas pontas, e n'ella pintados tres cravos, duas chagas, e uma corôa de espinhos.Vê se, venera-se, e commenta-se, como o acabamos de dizer, pendente na parede doarco cruzeiro da banda direita; e affirma-se, que na capella de S. Jorge permanecêra com egual honra em quanto ella durou.Agora, se este em Roma purpurado, filho da rustica humildade de uma póvoa, em que o maior personagem que descobri foi um fuzeiro velho, e onde o que só fazia bulha no meu tempo era um pequeno moinho, rôto por todos os lados aos ventos e chuvas, foi, ou não, nascido do consorcio a que o Padre Vigario e seu irmão se tinham opposto, eis ahi o que eu não alcancei; e não quero invental-o. Provavel me parece que sim, quando me lembro do que a minha velha me contava d'aquelles amores, e o combino com a ideia que formei da constancia no bem querer dos moradores da minha serra.A moça deveu de conservar-se donzella, e fiel. Quanto a Jorge, qualquer apostaria que o foi sempre. A fortuna entulhára com riqueza o abysmo que os separava; e S. Jorge, que não é Santo para meias victorias, havia forçosamente de pagar com bizarria o obsequio do seu devoto.Piamente podemos portanto acreditar, em que, diante d'aquella Imagem de pedra, muitas vezes o marinheiro e a sua formosa de esquecido nome ouviriam juntos a Missa; e talvez diante d'aquelle mesmo altar os recebesse o proprio Padre Vigario, indo depois jantar com elles, e beber á saúde da futura geração algumas malgas de vinho verde na sua casa da Talhada, ao rouco murmurinho das aguas de S. João do Monte.VIIIA egreja velha, de que foi parte esta capellinha, fôra o antigo oratorio dos Condes da Feira; e a residencia, já depois duas vezes transformada, albergue do feitor que elles ahi tinham para lhes receber os fóros, e lhes tratar d'aquella sua quinta, chamada, como já tocámos, «das Limeiras».Cederam tudo elles mesmos, concitados de sua piedade; por quanto, havendo sido a primeira freguesia d'estes povos no Guardão, do Bispado de Viseu, por de traz da serra da Alcoba, e a tres leguas de distancia da que ao presente é, d'ali a haviam achegado para Alcafaz, pertencente agora á freguezia de Agadão, sitio ainda desfavoravel pelo estirado e descommodo dos caminhos; o que moveu os ditos fidalgos a darem ermida, casa, e quinta, com largas rendas e fóros para a sustentação de Parochia sobre si.N'esta sua quinta, pois, senhorilmente cercada de cedros, de que poucos hoje permanecem para memoria, costumavam elles vir passar com seus amigos algum tempo do anno na montaria dos javalís, que a espessura das moitas então creava, segundo parece, como ainda hoje cria lobos. Folga a phantasia comparando e contrapondo aquelles tempos a estes, e reanimando o actual silencio com um reflexo e ecco da vida estrepitosa de outra edade.IXExplorámos as convisinhanças do templo e residencia. Estendâmos agora os olhos até ás fronteiras da terra por onde se dilata o seu pacifico senhorio.

Nota de editor:Devido à existência de erros tipográficos neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.Rita Farinha (Fev. 2009)O Presbyterio da Montanha:Volume IVolume IIObras completas de A. F. de CastilhoXIXO Presbyterioda MontanhaVOLUME ILISBOAEMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL95, Rua Augusta, 951905OBRAS COMPLETASDEANTONIO FELICIANO DE CASTILHOVOLUME 19.ºVOLUMES PUBLICADOS:I—Amor e melancolia.II—A chave do enigma.III—Cartas de Ecco e Narciso.IV—Felicidade pela agricultura(1.º v.)V—Felicidade pela agricultura(2.º v.)VI—A primavera(1.º vol.)VII—A primavera(2.º vol.)VIII—Vivos e mortos—Apreciações moraes, litterarias, e artisticas.IX—Vivos e mortos(2.º vol.)X—Vivos e mortos(3.º vol.)XI—Vivos e mortos(4.º vol.)XII—Vivos e mortos(5.º vol.)XIII—Vivos e mortos(6.º vol.)XIV—Vivos e mortos(7.º vol.)XV—Vivos e mortos(8.º vol.)XVI—Excavações poeticas(1.º vol.)XVII—Excavações poeticas(2.º vol.)XVIII—Excavações poeticas(3.º vol.)XIX—O Presbyterio da montanha(1.º v.)NO PRÈLO:XX—O Presbyterio da montanha(2.º v.)OBRAS COMPLETAS DE A. F. DE CASTILHORevistas, annotadas, e prefaciadas por um de seus filhosXIXO PresbyteriodaMontanhaVOLUME ILISBOAEmpreza da Historia de PortugalSociedade EditoraLIVRARIA MODERNATYPOGRAPHIARua Augusta, 9545, Rua Ivens, 471905Advertencia dos EditoresEm 1846 principiou Castilho a colligir, entre os seus manuscritos antigos, alguns dos que lhe tinham nascido na estudiosa solidão de mais de sete annos de homisio na serra do Caramulo. A esses manuscritos, que ia publicar com o titulo deO Presbyterio da montanha, escreveu um prologo extenso, descriptivo, altamente pittoresco, onde, a dôze annos de distancia, desafogou as lembranças d'aquelles logares, e as saudades de um irmão, o melhor dos irmãos, o já então fallecido Abbade de S. Mamede da Castanheira do Vouga, no Bispado de Aveiro. O prologo concluiu-se, imprimiu-se na sua maxima parte, mas não chegou a publicar-se.O natural desleixo do Poeta a respeito do que era seu, as vicissitudes da sua atormentada vida, a sahida para S. Miguel, e outras causas, fizeram com que as folhas impressas se sumissem, nem sabemos dizer como; e os pouquissimos exemplares que existem, e se apontam a dedo, são hoje considerados espe O natural desleixo do Poeta a respeito do que era seu, as vicissitudes da sua atormentada vida, a sahida para S. Miguel, e outras causas, fizeram com que as folhas impressas se sumissem, nem sabemos dizer como; e os pouquissimos exemplares que existem, e se apontam a dedo, são hoje considerados especies bibliographicas de primeira raridade.Castilho possuia um, que vimos, e desappareceu; a Bibliotheca Nacional de Lisboa possue outro; o distinto colleccionador, bibliógrapho, e escritor, o snr. Annibal Fernandes-Thomaz, outro; a fallecida snr.aD. Maria Peregrina de Sousa, poetisa portuense, possuia outro, que parece ter levado caminho; Innocencio no Tomo I do Supplemento do seu immortalDiccionario, não declara se era dono de algum; menciona a obra, apenas.Quanto á parte poetica do livro projectado, essa, não impressa, desappareceu em parte. Só algumas poucas peças encontrámos, umas inteiras outras incompletas; materiaes truncados da collecção. Salvando esses versos, cumprimos um dever moral, e outro literario.O prologo de Castilho é pois o brilhante pórtico de um edificio ainda em construcção, e já em ruinas; é inquestionavelmente uma das obras mais curiosas e instructivas que elle deixou. A chorographia, a fauna, a historia, a lenda, os costumes, a paizagem, as antigualhas, ofolk-lore, d'aquella região alpestre, tão portugueza, mas tão desconhecida, tudo isso é tratado com amor, com o cuidadoso amor de um archeologo-poeta.Appareceu tambem umaIntroducçãoem verso sôlto a certo poema intituladoO Sepulcro, historia de uma noite de S. João, projectado pelo nosso autor; poema original, muito vivido, muito phantastico, infelizmente por concluir. Entendemos não menos intercalar essa curiosa Introducção, no seu logar chronologico, por varios motivos: dá-nosCastilho sob uma feição poetica diversa da sua habitual, e pinta-nos o estado da sua alma aos trinta annos, quando absorvia soffregamente o ar, a vida, os usos populares da montanha. OSepulcroé pois optimo contribuinte d'este truncado banquete literario, e fôra imperdoavel, apesar de incompleto, despresal-o aqui. Do borrão original, que possuimos pela letra do amoravel secretario Augusto Frederico, para esta licção actual, ha leves divergencias, que foram pelo proprio autor ditadas em 1864.Além doSepulcro, outras peças, portuguezas e latinas, já impressas nasExcavações, teriam logar aqui, pelo seu nascimento, pela sua data, pela sua indole; mas o autor preferiu collocal-as n'aquelle seu volume. Facil é ao leitor intelligente o procural-as.Á MEMORIADOEXEMPLAR DE IRMÃOSAUGUSTO FREDERICO DE CASTILHOPRIOR DES. Mamede da Castanheira do VougaEm testemunho publico e perenneDEAFFECTO E GRATIDÃOOffereceAntonio Feliciano de CastilhoPREAMBULOIO livro que apresento, havia de ser difficil de classificar, se o classifical-o podesse por alguma via valer a pena.Não é historico, nem ficticio; não é didactico, philosophico, nem descriptivo; não é prosa, nem poema, nem ainda poemas; e, sem ser nada de tudo isso, de tudo isso participa.Nem sequer é um livro; é uma congérie de pequenas coisas, todas mais ou menos obscuras, e quasi todas desconnexas, e de pensamentos não procurados, se não tomados como elles quizeram vir, sem nenhum bem determinado fim moral, social, ou literario; em summa: um d'aquelles banquetes de aldeão, engenhados á pressa do que ha em casa,...dapibus mensas oneramus inemptis,para hospedar a cortesãos que lhe passaram pela porta. Não procura enganal os: com mãos limpas e coração lavado lhes põe diante o que só para si tinha tratado na sua horta, ceifado no seu chão, cevado no seu pateo, ou colhido do seu pomar. Porcelanas e pratarias, não as tem; algumas flores, já pode ser que as apresentará em vasos de barro; mas como vos assoalha com bom rosto quanto possue, não se vos alardeia de abastado, nem se compara com os visinhos de casas altas e balcões envidraçados. Como quer que vós d'elle o fiqueis, não ficará elle descontente de si mesmo á despedida.*Foi o geral d'esta collecção, parte escrito de carreira, parte apenas esboçado ou apontado, ha hoje doze, treze, quatorze, quinze, e dezasseis annos, sem pensar no Publico; para mero desenfadamento de horas abhorrecidas; para ajudar a correr mais depressa, em sitios tristes e ermos, uns tempos muito ermos, muito tristes, e para mim, que nunca bem atinei com o futuro, muito desconfortados de esperanças.Como todo o meu fim em fazer versos não era outro senão o fazel-os, de todo o modo me nasciam bem. Não tinham de apparecer entre gente; não os educava; não os corrigia; não lhes punha galas e arrebiques. Assim sahiram, assim ficaram, e assim os esqueci.Revi-os depois de tornado ao mundo, aonde já cuidei que não tornasse; achei-osos mesmos que os tinha deixado: sinceros, mas incultos e semi-silvestres, como nados e creados que eram por entre troncos e penedos, longe de olhos e de ouvidos, que fazem por fora o mesmo que por dentro faz a consciencia.Vieram-me tentações de os enjeitar; mas... eram filhos; contavam já annos: recordavam-me tempo de saudades; eram me saudades elles proprios; reconheci-os; dei-lhes o meu nome; com elle os apresento.IITodos os autores, ainda os que mais intimos se nos figuram, cuido eu quese compõempara o Publico; e, bem hajam elles!: não levam á praça senão o que teem averiguado que por lá se deseja e se procura; põem de parte, quanto podem, a sua pessoa, para servirem ao interesse ou gosto alheio.Nada d'isso tenho eu n'estas paginas.Não sou eu que vou para os leitores; são os leitores que teem de vir para mim, se as quizerem ler. Hão-de deixar a sua cidade, pelo meu ermo; as suas occupações, pelo meu ocio; a sua polidez, pela minha rudeza; os seus, pelos meus costumes; a historia ou o romance da sua vida, pelo recantinho domestico onde a minha correu, como uma fonte desconhecida e pura, que mana gotta a gotta n'uma cova, só vista de cima pelo ramo de tojo que a sombreia, ou pela nuvem, ou pela andorinha cujo ventre brancoella retrata no seu vôo. Pelo que, bem entendido deve ficar desde aqui (a fim de que não venham depois obrigar-me por divida que eu não contraio), que a unica deleitação que esta leitura pode dar, se pode dar alguma, será a que naturalmente se tem, penetrando no interior da casa alheia, e nos segredos do visinho.É o que faz com que, por mais futeis que pareçam as memorias, que alguns escrevem de suas vidas, e as correspondencias epistolares, quando por acaso vão dar ao prelo sem terem sido ordenadas para elle, commummente são lidas com interesse.É o que faz, tambem, ser muitas vezes mais aprasivel que as achadas de antigos monumentos publicos, o desenterro fortuito de uma antiga vivenda particular ou casa rustica, onde os vasos e utensís do viver quotidiano veem logo suscitar na phantasia os costumes, o trato, e o ser intimo, da gente que ali houve.Os monumentos só dizem do povo; mas a pedra da lareira, ou o ladrilho do forno, o gancho da candeia, ou a aza da amphora vinaria dos banquetes, dizem da familia. Em de redor de cada coisa d'estas ressurgem tambem uns eccos de vozes enterradas ha muitos seculos; confusos, mas a todos intelligiveis e suaves, de donas, de donzellas, de velhos e meninos, dos animaes caseiros, dos passarinhos e virações do ceo, do sussurro das plantas, dos sons, em summa, de tudo que n'esses tempos apartados foi, e feneceu, deixando de si menos v Os monumentos só dizem do povo; mas a pedra da lareira, ou o ladrilho do forno, o gancho da candeia, ou a aza da amphora vinaria dos banquetes, dizem da familia. Em de redor de cada coisa d'estas ressurgem tambem uns eccos de vozes enterradas ha muitos seculos; confusos, mas a todos intelligiveis e suaves, de donas, de donzellas, de velhos e meninos, dos animaes caseiros, dos passarinhos e virações do ceo, do sussurro das plantas, dos sons, em summa, de tudo que n'esses tempos apartados foi, e feneceu, deixando de si menos vestigio, que a humilde talha do vinho, e a lampada que allumioucalada os prazeres ou os somnos de seus senhores.Os monumentos são artificiaes, e artificiosos; são estudados, e emphaticos; a historia que elles resam é fria. Mas cá, o romance que engenhamos, ageitado ás memorias e saudades do nosso mesmo passado, é todo perfumado de Natureza; a mentir nos diz verdades.*Asimpressões de viagensestão sendo ao presente um genero de Literatura mixta mui usado e mui querido.Não admira: para os autores é facil; para os leitores, recreativo quando menos. Satisfaz-se o humor cosmopolita, que todos temos muito ou pouco; sem cançasso nem más poisadas por terra; sem enjôo nem temporaes por aguas do mar; sem desabrimento de estações; sem saudades do que lá fica para traz; ou, havendo-as, com bom remedio para desandar, que é repetir algumas paginas; e emfim, sem o aborrimento, que a pessoa a viajar em corpo e alma tantas vezes deve de sentir em chegando aonde ninguem a espera, nem festeja, nem conhece, e onde não ouve pelas ruas palavra nem som da sua creação.A viagem escrita, sem custo de nenhuma especie se faz por uns caminhos atmosphericos tão suaves, que a todas as partes nos levam, com a nossa casa e familia, sem até nos demovermos do nosso quarto nem da nossa cama, se como Ovidio somos, que punha entre os regalos da vida o de ler deitado.*Ora digo eu: se o attractivo commum de taes viagens é o gosto de conhecer sitios, gentes, e costumes, que nos são extranhos, e não medir as distancias que nol os apartam, que esse, pelo contrario, é o maior desconto do peregrinar, ¿por que se apeteceriam mais as viagens á França, á Inglaterra, á Suissa, á Italia, ás margens do Rheno, á Russia, ao Egypto, á China, ou ainda á Lua, do que a um qualquer monte da nossa terra, só conhecido de seus moradores e visinhos?¿Que sabeis vós mais da serra do Caramulo, em cujas faldas está assentado S. Mamede da Castanheira do Vouga, como um neto no regaço de sua avó triste e taciturna, que do monte Ararat, em cujo cume parou e se abriu a arca depois do diluvio? Nem mais, nem por ventura tanto.Viréis pois ás raizes do Caramulo conversar montanhezes, agrestes porém bons; e tão bons, que, d'entre os seus oiteiros mal sombreados e mal productivos, nos seus paupérrimos tugurios cobertos de loisa ou colmo, e pendurados á laia de ninhos pela escarpa dos precipicios, entalados nos córregos, ou inclinados a scismar tristezas sobre algum rio fundo e triste, nunca se lembraram de vos invejar a vós outros as vossas cidades opulentas e festivas.Estes, com falarem portuguez, são para vós estrangeiros, ou quasi. Como taes, não vos despraza conhecel-os, despendendo algumas poucas horas com quem por entre elles demorou annos, e de boa-mente lá iriaagora enterrar os restos cançados da vida ao-pé do sepulcro de um Pae, que lhe lá ficou em quieto desterro para todo sempre.[1]IIIA 23 de Outubro de 1826, entrava por aquella serrana região o novo Prior, meu sempre e em tudo irmão, e agora saudade minha continuada e sem remedio, Augusto Frederico de Castilho, com a sua pequena familia, de que era eu parte inseparavel.Coimbra, d'onde iamos, fôra a terra dos nossos annos mais florídos; Lisboa, a do nosso berço e da nossa infancia. Uma e outra me chamariam pelos affectos em qualquer parte do mundo em que eu estivesse; e não houvera eu valído a resistir-lhes. Mas para aquelle ermo, que então cuidavamos nos durasse a vida toda, entranhavamo-nos elle e eu, por nos sentirmos um como o outro tão encantados com o nosso futuro, já palpado e colhido ás mãos, que alegres, sobre resignados, esqueciamos todos os outros sitios por aquelle, renunciavamos quaesquer outras delicias, mais amenas ou mais vívidas,por aquellas gentilezas incultas e mais poeticas de uma natureza quasi primitiva.*Passámos n'uma bateirinha remada por uma velha moleira da margem, o viçoso rio de Bolfiar, a que deu nome, hoje corrupto, segundo a tradição, obom fiarde certa moça mui santa, que junto d'elle vivia n'uma choupaninha pobre, e esmolando a todos os pobres com o trabalho da sua roca; se não quizerdes antes que dos Moiros lhe viesse o appellido, significandopepinal, ourio das terras dos pepinos; pacifico rio, que então ia grosso e desmandado por entre as suas duas ribas altas e verdejantes, em cujos cimos nenhum passageiro deixou nunca de se deter enlevado na amenidade de tal painel.Começam a estender-se-nos diante, profusas e desmedidas para um e outro cabo, arripiadas gândaras de carqueja e urzes, só de longe a longe interruptas de um sovereiro torcido e mal posto, ou de um rebanho; terreno boleado e ondeado como um lago, que em meio de tempestades se houvesse petrificado por encanto. São já fronteiras do Caramulo.IVA freguezia de S. Mamede não se vê em parte alguma; é dispersa, e emboscada. A magreza da terra não dá para grandes espessuras de povoação.O aspecto do paiz, para quem só o atravessaé de inhospedeiro. Mas que se detenham, e o tratem; acharão a hospitalidade espontanea e desinteressada, em todas as falas, em todas as mãos, e em todos os corações. É porque a solidão é de si mais affectuosa, e a pobreza mais liberal e larga, que o rico povoado.Esta differença e vantagem que os moradores levam á sua terra, experimentámol-as nós ainda antes de chegarmos á egreja e residencia, sahindo a receber o seu Pastor novo não só os maioraes, se não quasi todo o Povo com os seus trajos de festa, e repicando por cima das cerejeiras e nogueiras do adro os tres sinos do campanario, d'onde áquelle som se dispartiu pelos ares uma nuvem de pombas brancas.A egreja, alva, com o seu largo portão vermelho aberto para o seu adro muito verde, apresenta-se solitaria. Das povoações em que a freguezia se divide, nenhuma lhe é contigua nem visinha. O presbyterio, ou residencia parochial, é o unico edificio que a acompanha, mas por de traz, como serva humilde e boa, e não descobrindo mais, por entre os plátanos, que o portal do seu pateo toucado e semi-velado das mais espêssas, crespas, e lustrosas heras, onde jámais se esconderam e cantaram melros.Ambos os edificios ficam no meio dopassal, antiga quinta «das Limeiras», dos Condes da Feira, como o passal fica no meio do sinuoso deserto, por onde se disseminam as aldeias, povoas, e casaes, que ali teem o seu foco espiritual.Um grande silencio rodeia largamente acasa da oração. O presbyterio não lh'o quebra.Baixo, de um só andar, e retirado para o fundo do seu pateo rustico mas espaçoso, a olhar pelas quatro janellinhas da sua frontaria principal unicamente para o ceo, e para umas formosas e corpolentas laranjeiras, que dentro do mesmo recinto vegetam, como elle clausuradas, o modesto domicilio, proporcionado pelo que sempre deverá ser o pastor de tal rebanho, não se retrahiu para mais longe, por traz da sombra do santuario, porque não poude: porque lh'o embargou a longa e cada vez mais precipitosa descida, que desde os seus calcanhares começa paraaléma esconcear, descer, e afundir-se, até á borda do estreito, rumoroso, e espumifero rio de S. Mamede.Uma ponte de madeira, arremessada e trémula nos ares a grande altura, por cima das aguas escuras e raro alcançadas do sol, communica esta com a ribanceira ulterior, não menos carrancuda, fragosa, arripiada, e a pique.Da residencia, corôa de um dos dois alcantis, até ao moirisco logar de Falgozelhe, seu visinho na fronteira crista da penedia d'alem-rio, entremeia apenas distancia, que, pela calada das noites, deixa ouvir de parte a parte os ladridos dos cães de gado, as cantigas do serão, e os alertas dos gallos a deshoras. E comtudo, aquellequasi-nadapara os ouvidos e olhos, é para os pés caminho dilatado, fadigoso, e não sem perigos.As duas veredas, que levam ás duas extremidades da ponte, giram enleadas e perplexas,torcendo-se e refugindo, ora para a direita ora para a esquerda, como espavoridas do abysmo lá em baixo; descendo, tornando a subir, e redescendendo de novo por entre brutescos de penedia negra.Pouco matto ressequido, e alguns medronheiros silvestres, são os unicos entes vivos, que por ali se affoitam a tomar pé. Os seus frutos vermelhos, quando o vento lh'os despega maduros, vão sumir-se entre as espumas arrebatadas.Aquella ponte, vacillante sobre tal pégo e entre taes escarpas, com poucas braças de ceo por cima, e por baixo de si o rugir de tantas aguas, dá as sensações de um bello horror.Muita vez me deleitei de as colher, debruçado horas esquecidas para aquelle inferno liquido; e este pensamento algumas vezes ahi me veio por tardes de Junho, em quanto, calado e estendido sobre as táboas, gastadas e rôtas da humidade, me gosava da viração transpirada pela corrente. ¿Foi a simples providencia do acaso, ou uma inspiração de religiosa poesia no fundador, a que fez reunir n'um ermo, e em tão pequeno espaço, como tres cantos de um poema, esta corrente, esta casa, e esta egreja? ¡Esta corrente, emblema da vida terrestre, tão escura, tão angustiada, tão clamorosa, e com tão pouco de azul por cima das suas ribanceiras inaccessiveis, d'onde insperado vem, cada dia, algum novo penedo ferir-lhe o seio! Aquella egreja, tão serenamente alegre, tão aberta, o dia inteiro, ao generoso sol dos campos, tão gorgeada a ambas suas portasde passarinhos, tão garrida de espadanas sobre as campas do pavimento, e nos seus cinco altares tão ridente de flores silvestres, symbolo da alma refugida das tormentas do mundo para o ineffavel asylo da Fé e das Esperanças! E entre o santuario e o rio, como intermedio e transição dos dois extremos, a casinha do Pastor, alva como a confiança, verdejante e florida como as promessas, recatada como a esmola, inexhaurivel no seu celleiro como a Providencia, tácita como a meditação, com as suas portadas bem abertas como a paz, com as costas para a torrente, o rosto para a arca santa, os olhos atravez das arvores de Deus para o firmamento.....O mesmo nome de S. Mamede, com que se appellidam o santuario, a torrente, e o albergue, é uma nova harmonia. Mamede, ou Mamante, foi um humilde e obscuro pastor de gado na Capadócia, e do qual toda a Egreja do Oriente pregôa virtudes e milagres. Sendo ainda mancebinho, acabou martyr, por volta do anno 274 da nossa era.O logar santo, para o Santo; o medonho e vertiginoso, para o Martyr; o vigilante e benéfico, para o Pastor; o tudo, e os silvestres e pacificos arredores, para o Menino, já moço na valentia, ou para o moço, ainda menino na innocencia.Não poude ser o acaso, quem tantos acêrtos concertou.VEra a residencia, quando a ella chegámos, decrépita e caduca: apparencia de choça fabricada de pedra ensôssa, escura e descommoda no interior; por fora negra, com alpendres a aluir-se para o pateo apoquentado de inuteis e desgraciosos compartimentos. A velhice do derradeiro possuidor a havia em parte feito, em parte deixado, chegar áquelle estado.A transformação foi rapida e completa. Os alpendres desappareceram. Na casa remoçada entrou por vidraças abundancia de luz. O pateo desafrontado foi revestido, como a frontaria do edificio, primeiro de cal bem candida, logo de roseiras e limeiras bem viçosas. Um cedro n'elle plantado começou de levantar-se animoso e gentil; e sei que n'esta hora, em quanto de seus dois plantadores um já não existe na terra, o outro declina para o occaso, elle, medrando ainda, é já, como lh'o eu augurára nos meus versos, brasão do presbyterio; tem no seu tronco cinco palmos de circumferencia, e perto de quarenta de altura.[2]O novo Prior, o Rev.dosnr. Padre Antonio José Rodrigues de Campos, a quem Deus dilate a vida para felicidade do rebanho, varão de virtude, e espirito cultivadopor Letras, filho d'aquellas boas terras, e amigo nosso que sempre foi, como ainda hoje o é do nosso nome, conserva e zéla tudo aquillo com amor.É para mim delicia o considerar, que á sombra grande d'aquelle cedro, que eu regava todos os dias, quando um menino de tres annos o poderia ainda arrancar sem custo, lerá talvez, depois do seu Breviario, este livrinho das minhas memorias, em que deposíto o seu nome mollemente reclinado entre tantas outras saudades minhas.VIJá os leitores conhecem, como quer que seja, o asylo que me escondeu sete annos, desde Outubro de 1826 até Fevereiro de 1834, o ninho em que nasceram, sem pensarem em abrir o vôo que hoje abrem para o mundo, estas poesias montesinhas.Mas, como todo o seu assumpto se não limita ao que deixo esboçado, peço-lhes ainda um pouco de indulgencia, para lhes dar a conhecer, por alto, os arredores.*O passal rodeia por todos os lados a egreja e a residencia, correndo por traz d'ellas até onde lh'o consente o pendor do terreno, a escoar-se cada vez mais rapido para o rio de S. Mamede.Por essas lombas inclinadas, fronteiras á encosta alta e erma de Falgozelhe, se boleiammelancolica mas graciosamente as suas hortas, os seus pomares, a sua fonte, as suas parreiras, e as fraldas das seáras, que até ali chegam descendo pela direita e pela esquerda, depois de povoarem toda, com o seu oiro sussurrante, a larga esplanada horizontal, por onde, ao sahir da egreja, folga a vista de se espraiar, até ir bater, lá ao longe, na capellinha e matta de S. Sebastião, que lhe servem de limite.Seáras eram os atrios, que os Romanos pelas suas aldeias folgavam de avisinhar aos templos de Ceres, e mais divindades protectoras da Agricultura. ¿Que mais proprio, para um povo agricola como este, do que achar a casa doCreador, e a do seu dispenseiro, no centro da abundancia das messes, e saudal a com a invocação de um Pastorinho santo?O caminho publico atravessa desde o sobreiral de S. Sebastião, por entre duas grinaldas de oliveiras e vinha, o meu passal até ao adro; costeia a egreja e a casa pela direita, e, em demanda da serra alta, lá se vai mergulhando para a ponte, deixando n'uma de suas orlas a frescura sombria da fonte sobre as hortas, na outra os remanescentes da egreja antiga, um altar de pedra n'uma capella, meia de pedra meia de silvas, assoberbada com um S. Jorge de marmore, a cavallo, a brandir ainda um troço de lança enferrujado de musgo.VIIDetenhâmo-nos poucos minutos, se vos apraz, ao-pé d'este altar, onde já ninguem ajoelha, sobre sepulturas que hoje são tremoços, e recordemos a obscura historia d'este sitio.¿Por que razão só as grandes ruinas se hão-de haver por merecedoras de attenção? Todo o passado é poetico; todo o evocar imagens humanas de sob a terra que pisamos, é proveitoso para alguma coisa. Nas solidões, mormente como esta, consola o saber que nem sempre a brenha foi brenha, e que onde hoje, por entre o rugir das folhas, só algum pipilar de ninho quebra a mudez da Natureza, houve outr'ora actividade, affectos bons, e até festas.Cabe pois saber, que, em tempos mui afastados, viveu na povoasinha da Talhada, logar emboscado, de pouco sol, pouca terra, e achegado pela margem de cá ás aguas do S. João do Monte, que logo a diante troca o nome no de S. Mamede, um moço por nome Jorge, humilde de geração como tudo quanto por ali nasce e se cria, mas de coração alto e espiritos levantados.Namorára-se Jorge (me contou n'um serão do Natal uma velha, que o ouvira em pequenina a seus paes, que o tinham recebido não sabia de quem)... mas emfim, namorára-se, que o sabia ella, de certa moça de alem-rio, guardadora de cabras, mas filha de um Capitão, e sobrinha em primeiro grau de um snr. Vigario. Lá de baixo, perto dasua vivenda entre penedos, levava, os dias com os olhos sempre içados aos cabeços de Falgozelhe, na outra banda, á caça da sua saia de serguilha, ou do seu sombreiro preto; e ainda não de todo malcontente, quando, por entre os penedos pardos e as urzes côr de fogo, a enxergava, pendurada á borda do precipicio, e pascendo descançadamente uma das cabrinhas que obedeciam á sua voz melodiosa.A voz da serrana era em verdade um dos seus dotes. Quando a esperdiçava cantando n'aquellas solidões, parecia-lhe a elle, que lá de baixo lh'a estava captando com ambas as mãos, escutar um Anjo de amor escondido entre as nuvens; e quereria mal até ao rouxinol que lh'a interrompesse, porque não sabia de coisa mais de molde para o seu coração.Vel-a á sua vontade, não a via se não aos domingos na egreja; e nem então, que para esses dias tinha ella umas roupinhas muito sécias, meias muito alvas, e tamancos de galão de oiro, que o aterravam, mostrando-lhe que maiores obstaculos ainda haviam posto entre os seus affectos a fortuna e o nascimento, do que entre as suas vivendas a corrente das aguas. Fazem-se pontes para os rios; não se fazem que prestem para communicar dois estados tão diversos.*Amor verdadeiro pode ser platonico algum tempo; mas é poesia; e poesia não é vida. Ousou, e declarou-se a medo á sua formosa; não foi repellido. Affoitou-se a mais:ao impossivel. Abriu-se com o tio Vigario em confissão. O que entre elles se passou, não se sabe; taboas de confessionario não são carvalhos dodónios que chocalhem tudo. O que se sabe, é que a moça não tornou a apascentar para aquella banda, e que elle, pouco depois, deixou a terra, onde tinha mãe e irmãos pequenos, sem dizer nada a ninguem, e não levando senão o fatinho que tinha no corpo, o seu cajado, o seu espirito, que segundo dizem, era grande, e o seu amor, que não era pequeno.Constou, ao cabo de annos, que se tinha ido embarcar em um navio d'el Rei, e que se abalára por esses mares de Christo, sabe Deus para onde, e para quê.....No meio de uma furiosa tormenta, correndo grande perigo de perdimento, assim a fazenda que andára moirejando, como a propria vida, apegou-se com o Santo do seu nome, e lhe prometteu que, se o levasse com tudo seu a terra de salvamento, lhe mandaria fundar, e lhe dotaria, uma capella da sua invocação com duas Missas por semana, defronte de Falgozelhe, onde vivia a noiva do seu coração, por cima da Talhada, onde tinha os irmãos e a mãe, e pegada com a egreja onde o baptisaram a elle, e onde a avistava todos os domingos.....Mas de crer é que n'essa imagem se não demoraria muito em semelhante lance, em que as ondas formavam, por instantes montanhas tão altas e escarpadas, porém mais temerosas e feias que ess'outras, entre cujas quebradas, e por cujos visos, elle variára a sua infancia.Acudiu-lhe o Santo; e Jorge cumpriu o promettido.Tornou á Talhada, erigiu a capella, comprou fazendas em Angeja, que em boa e devida forma lhe adscreveu para o seu culto, e nunca mais tornou a aventurar-se sobre aguas do mar.Reliquias são pois da sua obra a Imagem e as pedras que ainda ali se divisam. O de mais, já desgastado do tempo, foi demolido, para ir servir como materiaes na edificação de parte da residencia, e da egreja nova, que já sabeis lhe estão visinhas.*—¿Mas o fim de seus amores?—me perguntareis vós.Memoria é essa que eu tambem procurei, porém não consegui desencantal-a.O que só pude desenterrar da tradição, foi: que este mesmo Jorge viera a casar-se na freguezia; que tivera um filho nascido na póvoa da Talhada; que este se ordenára de Clérigo, fôra a Roma, e arribára a Cardeal; em memoria do que, ainda na actual egreja se conserva, herdada da antiga, e mandada por elle de Roma para aquellas suas brenhas muito amadas, uma Cruz de quatro palmos de altura e um de largura, com braços em baixo e em cima, oleada de verde, doirada nas pontas, e n'ella pintados tres cravos, duas chagas, e uma corôa de espinhos.Vê se, venera-se, e commenta-se, como o acabamos de dizer, pendente na parede doarco cruzeiro da banda direita; e affirma-se, que na capella de S. Jorge permanecêra com egual honra em quanto ella durou.Agora, se este em Roma purpurado, filho da rustica humildade de uma póvoa, em que o maior personagem que descobri foi um fuzeiro velho, e onde o que só fazia bulha no meu tempo era um pequeno moinho, rôto por todos os lados aos ventos e chuvas, foi, ou não, nascido do consorcio a que o Padre Vigario e seu irmão se tinham opposto, eis ahi o que eu não alcancei; e não quero invental-o. Provavel me parece que sim, quando me lembro do que a minha velha me contava d'aquelles amores, e o combino com a ideia que formei da constancia no bem querer dos moradores da minha serra.A moça deveu de conservar-se donzella, e fiel. Quanto a Jorge, qualquer apostaria que o foi sempre. A fortuna entulhára com riqueza o abysmo que os separava; e S. Jorge, que não é Santo para meias victorias, havia forçosamente de pagar com bizarria o obsequio do seu devoto.Piamente podemos portanto acreditar, em que, diante d'aquella Imagem de pedra, muitas vezes o marinheiro e a sua formosa de esquecido nome ouviriam juntos a Missa; e talvez diante d'aquelle mesmo altar os recebesse o proprio Padre Vigario, indo depois jantar com elles, e beber á saúde da futura geração algumas malgas de vinho verde na sua casa da Talhada, ao rouco murmurinho das aguas de S. João do Monte.VIIIA egreja velha, de que foi parte esta capellinha, fôra o antigo oratorio dos Condes da Feira; e a residencia, já depois duas vezes transformada, albergue do feitor que elles ahi tinham para lhes receber os fóros, e lhes tratar d'aquella sua quinta, chamada, como já tocámos, «das Limeiras».Cederam tudo elles mesmos, concitados de sua piedade; por quanto, havendo sido a primeira freguesia d'estes povos no Guardão, do Bispado de Viseu, por de traz da serra da Alcoba, e a tres leguas de distancia da que ao presente é, d'ali a haviam achegado para Alcafaz, pertencente agora á freguezia de Agadão, sitio ainda desfavoravel pelo estirado e descommodo dos caminhos; o que moveu os ditos fidalgos a darem ermida, casa, e quinta, com largas rendas e fóros para a sustentação de Parochia sobre si.N'esta sua quinta, pois, senhorilmente cercada de cedros, de que poucos hoje permanecem para memoria, costumavam elles vir passar com seus amigos algum tempo do anno na montaria dos javalís, que a espessura das moitas então creava, segundo parece, como ainda hoje cria lobos. Folga a phantasia comparando e contrapondo aquelles tempos a estes, e reanimando o actual silencio com um reflexo e ecco da vida estrepitosa de outra edade.IXExplorámos as convisinhanças do templo e residencia. Estendâmos agora os olhos até ás fronteiras da terra por onde se dilata o seu pacifico senhorio.

Nota de editor:Devido à existência de erros tipográficos neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.Rita Farinha (Fev. 2009)

Rita Farinha (Fev. 2009)

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