A TODOS OS QUE LEREMÉ uma historia que faz arripiar os cabellos.Ha aqui bacamartes e pistolas, lagrimas e sangue, gemidos e berros, anjos e demonios.É um arsenal, uma sarrabulhada, e um dia de juizo!Isto sim que é romance!Não é romance; é um soalheiro, mas tragico, mas horrivel, soalheiro em que o sol esconde a cara.Como da seva mesa de ThyestesQuando os filhos por mão de Atreu comia.Escreve-se esta chronica em quanto as imagens dos algozes e victimas me cruzam por diante da phantasia, como bando de aves agoureiras, que espirram de pardieiro esboroado, se as acossa o archote de um phantasma.Tenebroso e medonho! É uma dança macabra! um tripudio infernal! cousa só semelhante a uma novella{6}pavorosa das que aterram um editor, e se perpetuam nas estantes, como espectros immoveis.Ha ahi almas de pedra, corações de zinco, olhos de vidro, peitos de asphalto?Que venham para cá.Aqui ha cebola para todos os olhos;Broca para todas as almas;Cadinhos de fundição metallurgica para todos os peitos.Não se resiste a isto. Ha-de chorar toda a gente, ou eu vou contar aos peixes, como o padre Vieira, este miserando conto.Os dias actuaes são melancolicos; a humanidade quer rir-se; muita gente, séria e sisuda, se compra um romance, é para dar treguas ás despoetisadas e pêcas realidades da vida.Sei-o de mais. Eu tambem compro os livros dos meus amigos, para espairecer de meditações serumbaticas em que me anda trabalhado o espirito.Sei quantos devo, e que favores impagaveis me deveria, leitor bilioso, se eu lhe encurtasse as horas com paginas galhofeiras, picarescas, salitrosas, travando bem á malagueta, nos beiços de toda a gente, afóra os seus.Tenha paciencia: ha de chorar ainda que lhe custe.Se respeita a sua sensibilidade, fique por aqui; não leia o resto, que está ahi adiante uma, ou duas são ellas, as scenas das que se não levam ao cabo, sem destillar em lagrimas todos os liquidos da economia animal.{7}Este romance foi escripto n'um subterraneo, ao bruxolear sinistro de uma lampada.Alfredo de Vigny não diz que escreveu um drama, ás escuras, em vinte dias? E Frederico Soulié não se rodeava de esqueletos e esquifes?E outros não se espertaram com todos os estimulos imaginaveis de terror? Menos o do subterraneo... este é meu, se me dão licença.Pois foi lá que eu desentranhei do seio estes lobregos lamentos.No fim de cada capitulo, vinha ao ar puro sorver alguns átomos de oxigenio, e todos me perguntavam se eu tinha pacto com o diabo.Almas plebeias! não sabem o que é a fidalguia do talento, que tem alcaçar nos astros, e nos antros lobregos da terra; não entendem este fadario do «genio», que elles chamam «excentricidade», como se não houvesse um nome portuguez que dar a isto.O leitor sabe o que isto é? Já sentiu na alma o apertar de um caustico? Excruciaram-no, alguma vez, os flagellos da inspiração corrosiva, como duas onças desublimado?Se não sabe o que isto é, estude pharmacia, abra um expositor de chimica mineral, e verá.Não cuidem que podem ler um romance, logo que soletram. Precisam-se mais conhecimentos para o ler que para o escrever. Ao auctor basta-lhe a inspiração, que é uma cousa que dispensa tudo, até o siso e a grammatica. O leitor, esse precisa mais alguma cousa: intelligencia;—e,{8}se não bastar esta, valha-se da resignação.Ora, está dito tudo.Leiam isto, que é verdadeiro como o «Agiologio» de Ribadaneira, como as «Peregrinações» de Fernão Mendes, como todos os livros legados de geração a geração com o sinete da crença universal.{9}A ALGUNS DOS QUE LEREMNão será uma acção meritoria amoldurar em fórmas verosimeis a virtude, que os pessimistas acoimam de impraticavel n'este mundo? Hão de só crer nas façanhas do crime, nas hyperboles da maldade humana, e negar as perfeições do espirito, descrêr o que ultrapassa as balisas de uma certa virtude convencional, que não custa dores a quem a usa?Se os espanta as excellencias da mulher que vou debuxar, antes de m'as impugnarem, afiram-se pela natureza, interroguem-se, concentrem-se no arcano immaculado da sua consciencia. Se me rejeitam a verdade de Ludovina, se me dizem que a este inferno do mundo não podia baixar tal anjo, sabem o que é esse descrer? é apoucamento de alma para idear o bello; é o regelo do coração que rebate as imagens ainda aquecidas do halito puro da divindade.Se a mulher assim fosse impossivel, o romancista que a inventou, seria mais que Deus.{10}{11}CAPITULO AVULSOPARA SER COLLOCADO ONDE O LEITOR QUIZERFrancisco Nunes...Que nome tão peco e charro!Francisco Nunes!Pois se o homem chamava-se assim!?Deus sabe que tristezas eram as d'elle por causa desteNunes. O rapaz tinha talento de mais para escrever folhetins lyricos, e outras cousas. Pois nunca escreveu por que não queria assignar-seNunes.Ha appellidos que parecem os epitaphios dos talentos.Um escriptorNunesmorre ao nascer.Bem o sabia elle.Houve em Portugal um escriptor chamadoAntonio José. Se a inquisição o não queima, ninguem se lembrava hoje d'elle.Francisco Nunes só poderia viver na memoria da posteridade, se S. Domingos fizesse o milagre de reaccender as fogueiras nos subterraneos do theatro de D. Maria.{12}Outros lá soffrem tractos agora, mas é em cima, no palco... Se, ao menos, Francisco Nunes escrevesse uma comedia...Não escrevia nada; mas falava muito, e, quasi sempre, sósinho, em casa, e na rua. Não incommodava ninguem; era um anjo; tinha só a perversidade de chamar-seFrancisco Nunes.Elle ahi vae, faz agora tres annos, por uma rua do Porto, vizinha da de Cedofeita, falando só, e falando, ao que parece, enraivecido. Ninguem o escuta, se não eu, porque lhe vou na alheta, com subtis sapatos de borracha.Esta rua, por um lado, tem raros edificios; pelo outro é marginada por um comprido muro de quintaes que pertencem ás casas da rua parallela.Nunes, de tempo a tempo, sustem o monologo para puxar com sorvos sibilantes o vapor de um charuto. Depois, faz um tregeito iracundo, com o pé com sanha, e prorompe na imprecação interrompida, do seguinte theor:«Arado pelo fogo do inferno seja o torrão maldito onde nasceu a folha d'este charuto!«A chuva candente de Sodoma e Gomorrha tisne a folha do tojo e do carrasco que nascer no terreno que te produziu!«Frieiras, gotta, paralysia, e morte tolham os dedos que te colheram!«O sol, que te seccou, morra nos olhos de quem te trouxe aqui!«As mãos que te enrolaram, charuto infame, sequem-se{13}e mirrem-se como as das mumias de Memphis.«E para vós, contractadores, caixas, comarqueiros, e estanqueiros do contracto do tabaco, para vós o inferno illimitado, a região tenebrosa dos condemnados, onde ha o ranger dos dentes, e o sempiterno horror!«Para vós, Borgias, para vós, raça de Locusta, e de Brinvilliers, para vós, envenenadores impunes, o patibulo n'este mundo, d'onde fugiu espavorida a vergonha e a justiça; e as caudaes de sulphur em combustão eterna nas furnas tartareas, onde é de fé que dá urros medonhos um condemnado chamadoNicot, que trouxe para a Europa o tabaco, e teve a impudencia de o trazer a Portugal em 1560, onde viera com embaixada de França.[1]«Porque os vossos charutos, propinadores de venenos, ennegrecem as substancias organicas, como o acido sulphurico.«São amargos e causticos como o acido nitrico.«Calcinam os beiços como o acido hydrochlorico.«Queimam a laringe como o acido phosphorico.«Laceram o esophago como o acetato de chumbo.«Fulminam e despedaçam como o acido hydrocianico.»Em quanto elle repuxava o vapor do incombustivel rôlo de erva-santa (que blasfemia!santa!) façamos tremendas reflexões:{14}Um «manual de chimica para uso dos leitores de romances» é instantemente reclamado. Sente-se na litteratura este vazio desde que a novella é um extendal da sciencia humana; e esta póde, sem immodestia, graduar-se assim.Quando se escreviam bacamartes para as gerações soffredoras, que os lêram, o sabio repunha ahi em azedo vomito as indigestas massas, que ainda agora resistem ao dente roaz da carcoma e da ratazana, nos lotes esboroados das bibliothecas.O in-folio era uma crença, uma religião, uma faculdade d'aquellas gordas almas, que resumavam pingue chorume por tres mil paginas em typo-breviario.Não vos faz melancolia vêr a lombada d'esses enormes volumes aprumados n'uma estante? Não ha n'aquelle aspeito triste alguma cousa que vos faz crer que o in-folio chora pelo frade?Agora não se escreve d'aquillo, posto que o saber humano seja mais vasto, e opulentado com as vigilias de dois seculos laboriosos. Reina o romancista, que é o successor do frade, na ordem das intelligencias productivas.Ora, o romancista ha-de, por força de sua natureza scientifica, despejar no romance a sciencia que lhe traz intumecido o estomago intellectual; e o romance, assim, deixará de ser lido, se o conselho superior de instrucção publica não organisar os estudos de modo que as sciencias transcendentes, em consorcio com as da natureza physica, desbravem o espirito-charneca de{15}muito leitor sandio, que não póde entender a iracundia chimica de Francisco Nunes.O qual continuou assim:«Ha cinco seculos que a raça proscripta de Israel soffreu em Pariz uma perseguição sanguinolenta. Morreram milhares de judeus entre labaredas, porque a calumnia, infamando a religião do Messias, disse que o povo judaico tentára envenenar as fontes e poços de França.«E vós, judeus christianisados, caixas do tabaco, derramaes o veneno á luz do meio dia, abris as vossas tendas, vendeis pelo preço de vossas carroagens a droga homicida; mataes a mocidade de uma nação, que asfixia ás mãos dos velhos: a vós, que alimentaes o vicio alheio com o crime proprio, quem vos obriga a fumar um charuto de vintem?«Portugal, tu queimavas os judeus industriosos, a quem deveste os melhores livros de sciencia, as obras primas da arte, os dinheiros extorquidos á pobre raça, que tão caros pagou os trinta dinheiros que Judas não comeu! Queimavas o povo inoffensivo, nação de cafres, e dás refrescos, e condecorações, e honrarias, e montes de ouro aos envenenadores publicos, aos sicarios de charuto, que te desentranham a alma n'um rôlo de fumo negro.«Que é dos vestígios da civilisação christã? Que é da egide que protege o fraco dos affrontamentos do forte? Em que lapide está escripta a lei que assegura a vida do homem?{16}«A Roma pagã era o sanctuario da justiça. Ahi os propinadores de venenos eram clandestinos. A mão cruenta do verdugo ia arranca'-los ao segredo das suas fornalhas, e mandava-os de presente ao diabo. «Lucius Cornelius Sylla, a tua lei de supplicio para os empeçonhadores vale só de per si uma legislatura d'esta horda de togados rotos, que nos espremem da algibeira 1$960 réis diarios, por cabeça.«Aqui, ha o morrer sem recurso de revista, o expirar em vomitos negros, o tossir rispido da bronchyte, as asthmas offegantes, o ronco profundo da pieira laringea, os deliquios da cabeça atordoada, a podridão dos dentes, as fendas carboniformes dos beiços, os abcessos pulmonares, as hemorrhagias de sangue apostemado:—ha tudo isto, debaixo d'este céo impassivel, na presença do codigo criminal, n'um paiz, onde trabalha a electricidade por arames, onde se comemomelettes sucréesesoufflées, e d'onde se mandam rapazes para o extrangeiro estudarBENEFICENCIA«Mentira! Mentira e escarneo!«Se quereis beneficiar este paiz, não mandeis lá fóra, oh parvos governadores da Barataria, não mandeis lá fóra estudar o processo do bem-fazer.«Vêde-me este moço, que apenas tem vinte e dois annos, e já precoces sulcos da doença lhe enrugam a fronte. A cutis macilenta, onde deviam vicejar as rosas da adolescencia, adhere aos ossos desmedulados e cariados; uma tosse violenta lhe reteza os musculos do pescoço, expedindo das glandulas salivares um pus{17}granuloso, pardo, e alcalino. As faculdades intellectuaes estão entorpecidas n'esse mancebo. Estimulando-se com cognac e absynto, esta especie de cretino, bestificado por uma enfermidade incuravel, apenas consegue dizer tres tolices ácerca de Donizetti, sentado n'um mocho de botiquim, encostando o corpo enervado á banca dos licores incitantes.«Sabeis quem reduziu esse vegetal a tão quebrantado estiolamento?«Foi o charuto!«O contracto do tabaco empeçonhára a seiva d'esse moço, que os fados, menos poderosos que os caixas, talvez tivessem destinado para exercer o magisterio do folhetim, maximo esforço de intelligencia, n'uma época, e n'um paiz, cujo amor ás letras não vale a correspondencia de uma local bem poetica como a do baile do sr. fulano.«Voltae para esse corpo achacadiço e apodrentado o vosso animo beneficente, Sanchos-Panças lerdos, pantalões administrativos!«Chamae a juizo os vampiros que sugaram o soro d'esse sangue aguado que o faz tolhiço para tudo.«Fazei a autopsia de um charuto como este—proseguia Francisco Nunes, parando e contemplando as nervuras negras do rôlo de folha, que semelhava uma rolha de cortiça queimada—e vereis que ha aqui dentro um talo de couve lombarda, uma carocha secca, uma folha de leituga, uma casca de bolota, e tres grãositos excrementicios de rato ou coelho.{18}«Horrivel, e sujamente infernal!«Senhores deputados! não se mata assim impunemente um povo![2]«As nações tyrannisadas, quando a oppressão requinta, erguem-se como um só homem, e fogem para o Aventino.«Os envenenadores congregaram-se em conciliabulo de abutres, e crearam o charuto de vintem, a pitada do meio grosso, e o cigarro onde cresce o musgo como em parede velha. Cadafalso para os envenenadores!«O conselho de saude, bandeado n'este tripudio de canibaes, forma o cortejo scientifico das parcas que nos arrebanham para a região dos suicidas. Morte ao conselho!«Não ha typhos, nem cholera, nem febre amarella, senhores deputados! Ha charutos, ha o meio-grosso, e o cigarro. A epidemia não está nos canos, senhores; está n'estes canudos, por onde os contractadores cospem affronta e morte na face do povo!«Que elles sejam malditos setenta vezes sete vezes, como se dizia no Oriente!{19}«Na hora do trespasse, a alma d'elles, tisnada pelo remorso, será negra como este charuto, d'onde eu sorvi um pus que me requeima os bofes... Vae-te, infame!»E, assim rugindo, n'uma como inprecação do moribundo atormentado, arremessou o charuto por cima do muro para o quintal.{20}{21}I—Ludovina, já pensaste a resposta que has-de dar a teu pae?Pergunta que faz a sua filha uma senhora de nobre presença, quarenta annos, ainda frescal, chamada Angelica, e casada com o sr. Melchior Pimenta, empregado na alfandega do Porto.Ludovina respondeu:«Como hei-de eu responder, se ainda não vi o homem?—É um homem como os outros;—replicou D. Angelica—são todos o mesmo, menina. Teu pae sabe o que faz. Um homem é quem melhor conhece outro homem. Se elle te disse que achou um bom marido, não póde enganar-se.«Ora essa, mãe! E se eu antipathisar com elle?—Deves casar, como se sympathisasses.«Bravo!... e depois?—E depois, virá a sympathia. Imaginas lá com que repugnancia eu casei? Casaram-me, deixei-me levar porque{22}era uma creança, vivia na aldeia, e sonhava com os vestidos e os bailes, e os theatros do Porto. Depois, teu pae... teu pae adorava-me, dava-me mais do que eu ambicionava, e sem saber como, nem porque, contentei-me tanto com a minha sorte, que não invejava a de ninguem. Tinha vaidade em ser bonita, vestir com gosto, e chegar onde as mais ricas não podiam chegar. Via homens elegantes, reconhecia a differença que os fazia superiores a teu pae, e, comtudo, nunca me passou pela cabeça a loucura, a ingratidão, o crime da infidelidade.[3]Posso dizer que principiei a amar meu marido, quando as outras mulheres se enfastiam. Aqui tens o que nunca te disse. Não ha homem nenhum que seja indigno da estima de uma mulher.«Mas a mãe sabe que eu... amo outro homem.—Eu não sei se amas outro homem... Sei que namoras outro homem, e entre namorar e amar está o reflectir, menina. Esse rapaz que te manda romances e cartas entre as paginas... (não te inquietes, que sei tudo, e tudo pouco vale...) esse rapaz quem é? Um filho-familia, sem posição, sem modo de vida, que te ama, que será teu marido, se tu quizeres; que viverá das tuas sopas, se as tiveres para ti, que se envergonhará da sua dependencia, quando o amor obedecer á razão; que se enfastiará dos teus carinhos, se quizeres prende'-lo com elles a ti, ou ao berço de teu filho. Se quizesses exemplos,{23}dava'-tos. Tens ouvido censurar duas ou tres amigas, que tens, casadas com homens ricos de cabellos brancos?«Ainda hontem li um folhetim contra as mulheres que se deixam seduzir pela «fortuna» de estupidas creaturas...—Lêste? De quem era o folhetim? Se o auctor fôr rico, e tiver quarenta annos, o auctor é insuspeito, e, n'esse caso, digo-te que sujeites o teu destino á determinação do folhetim. Escreve uma carta ao auctor, e conta-lhe que és uma menina pobre, virtuosa, com excellentes joias de espirito. Offerece-lhe o teu coração, e promette que has-de levar-lhe a felicidade com a pobreza. Se elle te vier buscar, peso-te a ouro ao santo que fizer o milagre. Ora, se o folhetinista é um talento raro, um elegante de grande bigode e luneta, mas pobre, faz-lhe o mesmo offerecimento, prevenindo-o de que és tão pobre como elle. Se o folhetinista te vier pedir, é um dia de festa n'esta casa...Aprende, creança. Os rapazes pobres, se vivem na boa sociedade, criam ahi ambições, que uma menina sem riqueza não satisfaz. Pois não os conheces tu, Ludovina? Não os vês no baile e no theatro namorando um dote como quem namora uma mulher? Não és tu a mesma que censuras a indignidade de certos homens, que recebem resignados todas as repulsas, e teimam sempre em esquadrinhar um dote, como se fizessem voto de casarem ricos, ainda á custa de vergonhas? Vê lá se entre os folhetinistas aspirantes ao casamento de especulação{24}se te depara o nome que hontem lêste... Talvez ainda não reparasses em outra injustiça que se faz ás mulheres pobres, se a fortuna lhes dá maridos ricos. Não ha por ahi rapazes com grandes patrimonios? Recebem elles, por ventura, em casamento meninas virtuosas e pobres? Não. Procuram-nas ricas, e fiscalisam menos a vida honesta da noiva, que o numero de acções do banco, ou o valor da propriedade paterna. Os moralistas de gazeta que dizem d'isto? Sacrificam, talvez, a sua indignação ao amor do sexo: não dizem nada, e rebentam por outro lado em imprecações contra a mulher, que os elegantes ricos rejeitam, e os ricos sem elegancia procuram.Olha, filha, se te não fosse penosa a experiencia, deixava-te casar por paixão, como se diz, com o primeiro moço pobre que te encantasse. Depois, quando saísses a passeio com teu marido, levarias um vestidinho de chita, por não poderes levar um deglacé. Os taes censores de folhetim ver-te-iam mal trajada, e diriam, no auge da sua pena: «pobre rapariga, fez um casamento infeliz!» Ao teu lado passaria uma das tuas amigas, ricamente vestida, pelo braço de um velho com quem a casaram as conveniencias. Os mesmos censores diriam: «Que mal empregada mulher em semelhante alarve!» Já vês que o estimulo da compaixão, que fizeste, era o teu vestido de chita; e o estimulo de inveja, que fez a tua amiga, era o vestido de seda.«Mas se eu fosse feliz com o meu vestido de chita, e o homem do meu coração?{25}—Isso é romance, menina. Nunca é feliz com um vestido de chita a mulher que tem amigas com vestidos de seda. Hoje reina a opinião publica, Ludovina, não é a consciencia de cada um. O agente principal do espirito de uma mulher é a modista. Se ha casadas que envelhecem disputando ás netas a melhor eleição de um talhe de vestido, que farão as solteiras?Basta de razões insignificantes, que devem humilhar a tua razão, Ludovina. Eu nunca embaracei esse ligeiro conhecimento que tens com o Ricardo de Sá, por saber que nunca seriam tardias as reflexões que te faço agora. Não pódes casar com esse homem sem desgostar teus paes, e grangear para ti o infortunio, e para elle o arrependimento. Se soubesses o que deve ser o arrependimento entre casados, a maior prova de amor que podias dar a esse rapaz, seria esquece'-lo. Tu sabes que vivemos do ordenado de teu pae: temos podido manter a decencia e o luxo até dos teus caprichos de formosa; porém, nada mais podemos. Se tivesses um grande dote, a primeira a diligenciar o teu casamento com Ricardo de Sá, seria eu. Assim, reprovo-o, opponho-me, e serei eu a encarregada de dizer a esse cavalheiro que a tua vontade não é livre, ou que a tua escolha foi outra.«Não diga tal, mamã. Se casar com o homem que me destinam, a escolha não é minha. Deixem-me, ao menos, este desforço... Fique a responsabilidade da acção a quem me obriga.—Pois teus paes acceitam a responsabilidade, Ludovina.{26}O dialogo rematára assim, quando se fez annunciar Ricardo de Sá.D. Ludovina, com os olhos humedecidos, e desconcertado o semblante, disse á mãe que não podia ir á sala, e recolheu-se ao seu quarto. Foi D. Angelica receber a visita.Ricardo esperava-a na sala, correndo o teclado do piano, com a sem-cerimonia de um visitante habitual. Apertou-lhe a mão, beijando-a ao estylo da França, cousa que elle vira fazer a quatro ou cinco viajantes distinctos do Porto, que tinham conhecido, em Pariz, a «mesa-redonda» dos hoteis onde estiveram. Ahi vão á pressa dois traços d'este Ricardo de Sá. É um bacharel formado em direito, filho de outro bacharel que faz requerimentos, em quanto o filho, reservado para a magistratura, destino em que se dispensa vocação, faz cartas de namoro com letra ingleza, e timbra em comprar noMoréos mais aniladosenveloppes, e o melhor papel-setim de fimbria dourada.Lê, e empresta os romances aos namoros; commenta-os na margem das paginas, e addiciona-lhes appendices manuscriptos de lavra sua, quando a catastrophe merece ser corrigida.Além d'isto, o bacharel tem tres bengalinhas, que reveza, todas muito bonitas, com os punhos de massa de marfim, formando uma o grupo das graças, outra o das musas, e a mais embrincada é uma Suzana a saír do banho, espreitada pelo olho lascivo dos arreitados juizes de Israel. Ricardo de Sá consome as manhãs, que principiam{27}para elle ás onze horas, dividindo os cabellos em delgados fasciculos, e lustrando cada um d'elles com um cylindro de cera. Aguça, quanto possivel, as guias do bigode, encerando-as, e enverniza a pera com um oleo contido no decimo nono frasco da terceira serie. Depois, o laço da gravata, e a collocação symetrica do pseudo camapheu é obra de fôlego que lhe dá tempo de assobiar dois actos doTrovador, a aria valida doRigoletto, e o acto final daLucia. De seguida, a compostura airosa das lapellas do fraque, a ultima demão de escova, e o aprumo do chapéo onde não ha um fio erriçado, tolhem muitas vezes a saída do peralta, que se encontra com a terrina da sopa do jantar.O bacharel nutre-se de ar puro, e d'alguns escropulos de carne de boi. O pae, homem roliço e respeitador das immunidades do estomago, suppõe que seu filho desbarata a pequena mezada nas casas de pasto, e não se assusta da inappetencia.Ricardo crê que o seu estomago destacou tecidos para o coração, reservando para o funccionalismo alimenticio um estomago-miniatura, oquantum satisdas compleições sylphidicas. Convicto da excrecencia espiritual, crê-se dotado de fluidos nêrveos, magnetismo, electricidade, etherisação. Julga-se em fim anestesico, espasmodico, dynamico, em fim tudo o mais que não se entende.Não ama as mulheres, pranteia-as como victimas do seu poder fascinante. Algumas vezes, tem a piedade de as não encarar para as não abysmar. Outras, exerce a crueza da experiencia, fitando-as com o olho carregado{28}de electricidade, fala-lhes com um timbre magnetico que elle sabe, e, não ha que vêr, o somnambulismo é prompto, a attracção é irresistivel como a da cobra-cascavel do Canadá apoz o tangedor da flauta.Crê tudo isto o bacharel, e ha velhacos que lh'o ouvem com a sisudeza da crença, e lhe não receitam um curativo de causticos.D. Ludovina Pimenta é uma das suas somnambulas, e a menos victima de todas. Ricardo distingue-a, impondo-se a obrigação cavalheirosa de corresponder-lhe quanto em si cabe para que a infeliz desilludida não tente contra a existencia. Vae ve-la todos os dias, conversa litteratura com a mãe, toma uma chavena de chá sem assucar, e despede-se ás onze horas, dizendo que vae esperar no seu quarto a hora da inspiração matinal para continuar a sua obra intitulada:O SECULO PERANTE A SCIENCIA.É o que podemos esquadrinhar ácerca do bacharel Ricardo de Sá.Os homens assim não se pintam; a zombaria não os enxerga na profundeza da sua toleima... são o Rubicon do folhetim, a desesperação da comedia desde Aristophanes até Molière.O original anda por ahi. Tenho-lhe assestado tres vezes a machina photographica, de rosto; sahiu-me sempre aquillo.{29}II«Ludovina fica hoje no quarto—disse D. Angelica, respondendo á pergunta admirada do bacharel.—Doente?—Sim, passageiramente doente; mas é tão debil a pequena, tão melindrosa...—É um corpo que não póde com o espirito... Eu comprehendo o que são esses desfallecimentos d'alma. A filha de v. ex.ª tem uma organisação muito semelhante á minha. As minhas enfermidades são sempre quebrantos, estherismos, lethargia, procedentes das fadigas intellectuaes, ou dos anceios do coração. Compleições infelizes, não acha, minha senhora?—Oh! infelicissimas, de certo...—Se, todavia, v. ex.ª tivesse a bondade de dizer a sua filha que fizesse um esforço para me vir contar os seus padecimentos, talvez que uma medicina toda espiritual...—A curasse?... talvez...—Sorriso de incredulidade, não é assim? V. ex.ª é{30}sobejamente espirituosa para desconhecer a influencia que exerce uma alma sobre outra, quando as correntes magneticas...—Não lhe dá treguas a sua paixão magnetica, sr. Sá!... A Ludovinasinha queixa-se de enxaqueca... Eu voto, d'esta vez, por medicamentos caseiros... Talvez que uns sinapismos...—proseguiu ella, rindo, sem ferir o orgão maniaco do bacharel—dispensem uma descarga electrica.—V. ex.ª não quiz entender-me, ou eu tenho sido confuso na exposição das minhas convicções.—É clarissimo sempre, sr. Sá; mas desconfio da inefficacia da sua vontade sobre a enxaqueca de Ludovina. E depois, convém-nos que ella esteja doente por um quarto de hora. Vamos falar a respeito d'ella.—Tenho razões para suspeitar que minha filha não é indifferente a v. s.ª.—De certo, não.—Póde dizer-me até que ponto me devo lisonjear com a affeição que Ludovina lhe merece?—Voto á sr.ª D. Ludovina um sentimento profundamente respeitoso...—Só?—Uma affeição nobre e desinteressada...—Amor?—De certo... amor... reflectido, e bem intencionado...—Uma paixão verdadeira, não é verdade?—Quanto em mim cabe, minha senhora... quanto{31}é possivel apaixonar-se um homem de vinte e oito annos, apalpado já pelas desillusões, e esterilisado tanto ou quanto pelos ventos contrarios dos revezes da alma...D. Angelica fez um geito de quem ouvia chamar; ergueu-se com a mais destra simulação, dizendo:—Minha filha tocou a campainha... As creadas não a ouvem de certo, eu volto já...Ricardo de Sá fez mentalmente o seguinte monologo:—D. Angelica vae propôr-me o casamento da filha. Eis-me entalado n'uma crise imprevista! Está explicado o enygma da carta que Ludovina me escreveu hoje. Receia que eu me esquive á proposta; e tem razão. Eu não caso. Esta mulher está abaixo dos meus calculos. Lisonjeia um amante, mas não póde satisfazer as complicadas necessidades de um marido... É horrorosa a minha posição!... Sei que faço uma victima... de certo a mato... Estudemos uma evasiva, não obstante...O monologo continuava, quando Ludovina, conduzida machinalmente por sua mãe, se collocava atraz de uma vidraça da alcova immediata á sala.D. Angelica era um assombro de esperteza. A leitora já admirou a eloquencia persuasiva com que ella abalou o coração da filha; já disse, de si para si, que, com tal mãe, não ha filha que rejeite o casamento de um brasileiro rico; já leu as paginas que ahi ficam á mãesinha para que ella saiba os argumentos com que se vence a desobediencia das filhas, em casos identicos. Pois, se gostou e admirou as palavras de D. Angelica, ha de tambem admirar-lhe as obras.{32}D. Angelica viu o mais secreto do animo do bacharel; previu o desenvolvimento da conversação, e quiz dar á filha o mais rude, mas tambem o mais proveitoso desengano.—Nada era... ou era muito... Queria saber como v. s.ª estava—disse a matreira esposa do sr. Pimenta.—E ella como está agora?—Soffre bastante... Falei-lhe no seu magnetismo, e a tolinha córou... Era talvez o clarão da descarga electrica, seria?—V. ex.ª sempre «fazendo espirito» com os axiomas da sciencia... Ha de convencer-se... A experiencia lhe apontará as evidencias...—A mim? ora essa! Terá v. s.ª a infausta idéa de me magnetisar? Adormecer-me... isso é facil; bastam os livros que tratam da sciencia, não é precisa a acção... Não «faço mais espirito» como v. s.ª diz... Vamos á nossa pratica interrompida que é muito séria:Disse o sr. Sá que minha filha lhe merecia um sentimento profundamente respeitador, uma affeição nobre e desinteressada, um amor reflectido e bem intencionado, e finalmente uma paixão, que não era bem uma paixão, por quanto desillusões, revezes,et cœtera, lhe haviam... não me recordo...—Esterilisado a alma...—Foi isso... Em toda a sua resposta só ha de desagradavel essa esterilidade de alma; todavia, eu creio que tão boa alma ha de sempre florescer e fructificar, quando a cultura fôr confiada a uma mulher de bom{33}coração, meiga, docil, maviosa, em fim, a uma que não inveje as boas qualidades de minha filha.—De certo... assim o penso, minha senhora—balbuciou o bacharel, forçado pelo silencio interrogador de D. Angelica.—Minha filha ama-o, sr. Sá. Ama-o delirantemente, perdidamente, quer ser sua ou da sepultura, não acceita admoestações nem esperanças tardias, quer unir-se ao esposo da sua alma, mas já, já, senão... diz que, mais tarde, será victima da sua paixão. Sabia v. s.ª que era tamanho o seu dominio n'aquella innocente alma?—Sabia... desgraçadamente sabia.—Desgraçadamente!... essa palavra faz tristeza! Pois nem sequer o orgulho de ser assim amado o alegra?—Sim, minha senhora—tartamudeou o bacharel, afagando as guias do bigode—tenho orgulho de ser assim amado...Desgraçadamentedisse eu, porque me doem os soffrimentos da sr.ª D. Ludovina...—Estando na sua vontade o mais facil e desejado remedio d'elles? é singular!—Ainda assim... ha situações na vida...—Sei o que quer dizer—atalhou a zombeteira senhora—ha situações em que quizeramos immediatamente felicitar as pessoas que soffrem por nossa causa. Isso é assim... Pois bem. Tratemos definitivamente da felicidade da nossa Ludovina. Minha filha, como v. s.ª sabe, não tem dote. É pobre, supposto que o fausto com que vive queira desmentir esta triste verdade. Em riquezas{34}de espirito é millionaria. Nas do coração, sabemos nós o que ella é. A «fortuna» porém, é muitas vezes a inimiga da verdadeira felicidade, não é assim?—De certo, minha senhora...—V. s.ª tem uma habilitação, tem uma vasta intelligencia, sobram-lhe expedientes para grangear o sufficiente para duas almas venturosas; agouro a ambos uma felicidade duradoura. Entrego-lhe minha filha, na certeza de que nunca me será turvado o prazer d'este instante de expansão maternal pelo arrependimento da minha leviandade. Dê-me um abraço, que já começo a consideral'-o meu filho.—Minha senhora—disse o enfiado bacharel, extendendo a mão a D. Angelica—eu estou cordealmente penhorado pela confiança que mereço a v. ex.ª. Cumpre, porém, reflectir n'um passo tão momentoso. Eu amo em extremo a sr.ª D. Ludovina, toda a minha ambição é identifica'-la ao meu destino sobre a terra, mas, minha senhora, eu não posso dispôr da parte de obediencia que devo a meu velho e respeitavel pae, sem consulta'-lo, porque dependo d'elle, em quanto não entrar na carreira da magistratura, e o cabedal dos meus estudos não me abona tanto quanto v. ex.ª imagina que póde proporcionar-me a intelligencia.—Pensa mui judiciosamente—redarguiu D. Angelica formando com a prolongação dos beiços, e o abrimento dos olhos, um tregeito de mui sisuda approvação—e qual conjectura v. s.ª que seja a resposta de seu pae?—Não sei, minha prezada senhora...{35}—Se fôr negativa?—Se fôr negativa...—Obedece?—Como filho dependente; mas os dias da minha existencia serão poucos, e attribulados...—Mas isso é horrivel, sr. Sá! Minha pobre filha succumbe... V. s.ª mata a mulher que mais o amou, a unica n'este mundo que o compreendeu, um anjo que não viu outro homem digno d'ella... Que diz a uma mãe consternada, sr. Sá?—Minha senhora... a nossa posição é desgraçadissima.«Remedeie-a, que póde. Se seu pae o não acceitar casado, tem a casa de sua mulher, onde será recebido como filho... Oh! que insensibilidade! o senhor não ama Ludovina!—Se a não amo! Isso mata-me, snr.ª D. Angelica!«V. s.ª é que mata uma santa, uma martyr...—Segui'-la-hei na morte...«Pois o melhor é viverem ambos!—disse D. Angelica, desafivelando a mascara da amargura, e abrindo o riso mais galhofeiro e fulminante que imaginardes, leitores phantasiosos—V. sr.ª tem sido logrado desapiedadamente, snr. Ricardo de Sá. Peço-lhe que viva muito tempo, porque uma pessoa como v. s.ª não deve morrer, em quanto a tristeza, que foge ao riso, andar por este mundo. Snr. Sá, é preciso dizer-lhe que minha filha ouviu esta nossa scena comica, e acredite que o magnetismo não operou a approximação. Eu comecei a falar-lhe{36}em minha filha para pedir ao seu cavalheirismo que não a inquietasse, porque vae esposar um homem que seu pae lhe escolheu. V. s.ª alumiou-me o entendimento, deu-me um alegrão inapreciavel; e voltou as minhas idéas para o lado opposto. Fui buscar minha filha, para assistir ao espectaculo do coração de v. s.ª, e dei-lhe um bello espectaculo. Snr. Sá, a sua posição é desagradavel, e faz-me pena, por não dizer tedio. Um homem como v. s.ª nunca devera erguer os olhos para uma menina honesta.D. Angelica retirou-se da sala, soberba como uma rainha na descida do throno.O auctor possivel doSECULO PERANTE A SCIENCIA, emergindo do estupor momentaneo, procurou a bengalinha de Suzana a saír do banho, e caminhava atordoado para a porta, quando entravam Melchior Pimenta, e um sujeito desconhecido ao bacharel.—Ólá, por cá, snr. Sá?«É verdade, snr. Pimenta.—Ninguem lhe falou?! estava sósinho?!«Saiu da sala, n'este instante, a snr.ª D. Angelica.—E Ludovina?«Está de cama, creio eu.—De cama!? ella ficou boa quando eu saí... Alguma dôr de cabeça...«Creio que sim... Dá-me as suas ordens, snr. Pimenta?—Saude, meu amigo, appareça á noite, que lhe quero{37}dar o conhecimento d'este meu amigo, que será provavelmente o marido de minha filha...«Sim?... estimo muito conhecer... Ás suas ordens, meus senhores.Saíu; e o snr. João José Dias (que é o tal), franzindo a testa, disse ao pae da esposa promettida:—Que diabo de cousa é isto? Cuidei que me picava o bom do homem com os galhos do bigode! Eu corto as orelhas ambas e duas, se aquillo não fôr um patarata!«É um pobre diabo que lê novellas, e não é mau rapaz—respondeu o snr. Melchior, limpando o suor da testa.—Novellas!... hum!—estehumdo snr. João José Dias é uma cousa semelhante a um grunhido roufenho; aquellehumé a these de uma dissertação que elle, em tempo opportuno, ha de fazer contra a leitura immoral dos romances—A sua filha lê novellas, snr. Melchior?—continuou elle pondo os olhos de esguelha, como molosso desconfiado.«Entretem-se com a mãe, ás vezes, n'essa leitura; mas lê sómente as que a mãe já tem lido.—Pois não faz bem. As novellas são a perdição das mulheres. Lá no Rio está aquillo mal de religião e virtude desde que pegaram a ler romances as moças. Em minha casa é sujidade que não entra. Eu já uma vez, para ver o que era aquillo, puz-me a lêr uma novella, chamada... chamada... era de um tal... d'um talKocles, ouKoques, e, meu amiguinho, era maroteira de ferver bicho.{38}A snr.ª D. Angelica interrompeu a parlenda acrimoniosa de João José contra os romances.«Aqui t'o apresento—disse Melchior.D. Angelica mirou-o de alto a baixo, e fez-lhe uma ligeira cortezia. No rosto expressivo da sympathica senhora, liam-se estas dolorosas palavras:Minha pobre filha, que impressão vaes receber!{39}IIIJoão José Dias devia orçar pelos seus quarenta e cinco annos. Era de estatura menos que mean, adiposa, sem proeminencias angulares, essencialmente pansuda, porque João José tinha uma serie descendente de panças, desde a papeira côr de rosa até ás buchas das canellas ventrudas.Nas faldas de uma testa estreita, chata, e rugosa, como um elytro da concha de um cágado, luziam os olhos pequenos e esverdinhados de João José. As palpebras tumidas e pillosas como a casca da fava, enviezavam-se para dentro, formando á raiz das pestanas um rebordo purpurino. O nariz, sem base nem ossos, nem cartilagens, devia ser a desesperação de Falopio e de Bichat: rompiam-lhe d'entre os olhos as ventas já formadas, com a ponta arregaçada e as azas convexas, dilatando-se até ás alturas dos ossos malares, entupidos nas bochechas gordurentas. Os beiços eram bicolores; nacarinos no centro, e rôxos para as extremidades quasi invisiveis sob os refegos relachados dos musculos limitrophes.{40}João José tinha quatro dentes incisivos de brilhante esmalte, entalados nos outros quatro, formando de commum accordo as saliencias irregulares de um pedaço de crystal bruto. Os dentes laniares ou caninos tinham uma crusta de carie, e algumas luras chumbadas. Os vinte malares estavam no goso das suas funcções triturantes, com quanto amarellados de saes terreos, e regorgitamentos do bolo indigesto.João José não tinha pescoço: as espaduas ladeavam-lhe os bocios da garganta, alteando-se ao nivel das orelhas escarlates, com bolbos da mesma côr, e não sei que excrescencias no lobulo, simulando pingentes de coral.Disse-se que era todo barriga o homem, já que Buffon e Cuvier asseveram que é homem, feito á imagem e semelhança de... não ousamos escrever a blasphemia. O que se não sabe é que a barriga lhe marinhava peito acima, até levar de assalto o campo onde fôra pescoço.As pernas de João José eram dois cepos, postos em peanha a uma esphera armilar. Tão curtas eram ellas, e tão desmesurados os pés, que me não seria difficultoso convencer-vos de que a natureza, em hora de travessura, fez da porção de materia, destinada para perna e pé, duas partes eguaes, juntou-as e o ponto de juncção denominou-o calcanhar.As botas de João José tinham incriveis expansões de couro: eram um oceano de bezerro cortado de ilhas. Os joanetes do pé direito formavam um archipelago. No remanescente das milhas despovoadas, o pé era raso e chão como uma lousa de mercieiro.{41}Deram-se uns longes para auxiliar a phantasia de quem não conhece o snr. João José Dias. Para os que o viram, a pintura, vae tacanha e inhabil, aqui o confesso, envergonhado do meu descredito.Vamos á biographia da pessoa, e veremos que boa alma se nichou n'este hediondo envolucro.João foi cachôpo para o Brasil, e estreou-se n'uma loja de molhados, onde grangeou renome de rapaz videiro e possante. Abraçava uma talha de azeite de tres almudes, e aguentava com ella do armazem para a loja, sem impar. Levantava do sobrado para o balcão o peso das tres arrobas com os dentes. Punha a prumo meia pipa de cachaça, e levava á bôca, sem gemer, um barril de dois almudes, com o braço testo na aza. Isto constou na rua dos Pescadores, e, ao terceiro anno, João era alliciado por varios patrões, que disputavam o lanço.Não pertencem á alma estes esclarecimentos, bem o sei; mas a alma de João José formou-se então. A probidade, a lisura, a honradez do boçal caixeiro nunca foram desmentidas pela gaveta do patrão. Os convites, feitos á sua cubiça de melhores ordenados, repelliu-os sempre, dizendo que nunca deixaria a casa onde comera o primeiro bocado de pão. O augmento de ordenado vinha sempre espontaneo dos patrões: podendo inculcar-se com as propostas dos vizinhos, nunca João José se queixou dos pequenos ganhos.Os paes de João eram uns pobres fazendeiros de Celorico de Basto, que se desfizeram do unico cevado e de uma vitella para pagarem a passagem do rapaz. João{42}não esqueceu estes sacrificios nem as lagrimas que vira no rosto da mãe, quando, em Miragaia, lhe deu um quartinho em ouro embrulhado em seis camadas de papel.Os lucros dos tres primeiros annos foram quasi todos enviados a seus paes, e, d'ahi em diante, metade do ordenado vinha repartido em pequenas mesadas para os velhos, que lh'os devolviam em roupas brancas.João José, morrendo um socio da casa, achou-se herdeiro da terça parte do negocio. Pudera então retirar-se com haveres sobejos para viver descançado na patria; mas, para obviar os desarranjos da liquidação, continuou na sociedade.Veiu a Portugal em 1835, comprou no Minho a cerca de um convento, e, deixando o uso-fructo aos paes para que vivessem regalados, voltou ao Rio de Janeiro, onde achou fallida a sua casa commercial, e compromettida a compra que fizera na terra.Tinha sido escandalosamente roubado o pobre homem.Aconselharam-no que intentasse acção judiciaria contra os socios. Rejeitou o alvitre, dizendo que Deus os julgaria. Acceitou os enormes creditos que lhe offereceram, estabeleceu-se, e dentro de doze ou treze annos pagou as dividas de seus socios, e liquidou cem contos de réis fortes, entre os quaes, diz elle, e dizem todos os que o conheceram, não havia cinco réis adquiridos deshonrosamente.Chegou a Portugal em 1848. O pae era morto e a mãe octogenaria estava entrevadinha, pedindo ao Senhor{43}que a não remisse das penas d'este mundo sem ver seu filho.João José Dias assistiu seis annos aos longos paroxismos de sua mãe, adoçados com as lagrimas da felicidade. Em 1854 finou-se a velha nos braços do filho, dizendo-lhe que fizesse feliz uma moça pobre, casando com ella já que Deus lhe déra a riqueza.Passado o luto, o capitalista veiu ao Porto, e conheceu casualmente, na alfandega, Melchior Pimenta, que lhe fez um pequeno serviço na brevidade de uns despachos.Alguns dias depois, encontrou o empregado da alfandega com uma formosa menina pelo braço, e perguntou-lhe se era sua filha. No dia immediato foi á praça, e colheu de alguns negociantes informações ácerca da filha de Melchior.Todos á uma lhe disseram que a menina gosava de excellente opinião; mas tinha só o defeito de querer hombrear em luxo com as filhas dos negociantes mais abastados. Um dos informadores accrescentou que os tafetás, as rendas, e as pelliças da filha do empregado da alfandega não pagavam direitos.Esta mordedura dos malevolos não magoou João José Dias.Fez-se encontradiço com Melchior, e falou-lhe dos seus teres, e da tenção que tinha de mudar de estado, até para cumprir uma promessa que fizera a sua mãe. Disse-lhe Melchior que era acertada a resolução, e muito facil o realisa'-la. Replicou o brazileiro pedindo que lhe{44}indicasse alguma menina honesta. Pimenta pediu tempo para pensar, e o capitalista, com a rude franqueza de uma boa alma, disse que a sua escolha estava feita. Averiguada a cousa, a escolhida era a filha do sr. Melchior Pimenta, que não cabia n'um sino.—Isto é um modo de falar...—observou João José—Sem que sua filha dê o sim, nada feito. Eu sei que estou no calçado velho, e não trajo cá á moda dos janotas, como por ahi dizem. A sua filha é muito nova, e quererá um rapaz. Fale com ella, diga-lhe a verdade, eu irei lá se o senhor quizer; se ella quiz, muito bem; se não quiz, ficamos amiguinhos como d'antes.—A minha filha é docil e ajuizada: ha-de querer o que eu quizer. Foi educada por uma mãe, que teve melhores principios que eu, e faz com que ella lhe obedeça, tractando-a como irmã. Posso dizer-lhe que minha filha será sua esposa; mas bom é que o senhor nos dê o prazer de frequentar a nossa casa, para conhecer o coração da minha Ludovina.É este o resumo do grande dialogo que precedeu a apresentação do sr. João José Dias a D. Angelica.Não querendo eu, nem por sombras, indispôr contra os meus fieis escriptos o imperio do Brazil, peço ao meu sisudo editor que faça estampar o seguinte epilogo d'este capitulo:João José Dias adquiriu com exemplar probidade os seus bens de fortuna.{45}Foi bom filho.Levou a honra commercial ao primor de embolsar credores roubados pelos socios que o roubaram a elle.Foi trabalhador, quando precisava acreditar-se pelo trabalho; e foi-o tambem, na opulencia, como o ultimo dos seus servos.Nunca teve escravos, comprados ou alugados: remiu alguns na decrepitude, e deu-lhes uma cama onde o ultimo instante da vida lhes fosse o primeiro de bem-estar.Que mais virtudes, ou maiores encomios a um bom caracter? Se pintei João José Dias feio, não é d'elle a culpa, nem minha. João José Dias era realmente muito feio.Do Brasil vem muita gente galante.Tenho na pasta um esboço de romances onde figuram quatro brasileiros bonitos.Hão-de ver com que isenção de animo se escreve n'esta provincia das lettras.Acabou-se o epilogo, e preveniu-se uma crise litteraria no Brasil.{46}{47}
É uma historia que faz arripiar os cabellos.
Ha aqui bacamartes e pistolas, lagrimas e sangue, gemidos e berros, anjos e demonios.
É um arsenal, uma sarrabulhada, e um dia de juizo!
Isto sim que é romance!
Não é romance; é um soalheiro, mas tragico, mas horrivel, soalheiro em que o sol esconde a cara.
Como da seva mesa de ThyestesQuando os filhos por mão de Atreu comia.
Escreve-se esta chronica em quanto as imagens dos algozes e victimas me cruzam por diante da phantasia, como bando de aves agoureiras, que espirram de pardieiro esboroado, se as acossa o archote de um phantasma.
Tenebroso e medonho! É uma dança macabra! um tripudio infernal! cousa só semelhante a uma novella{6}pavorosa das que aterram um editor, e se perpetuam nas estantes, como espectros immoveis.
Ha ahi almas de pedra, corações de zinco, olhos de vidro, peitos de asphalto?
Que venham para cá.
Aqui ha cebola para todos os olhos;
Broca para todas as almas;
Cadinhos de fundição metallurgica para todos os peitos.
Não se resiste a isto. Ha-de chorar toda a gente, ou eu vou contar aos peixes, como o padre Vieira, este miserando conto.
Os dias actuaes são melancolicos; a humanidade quer rir-se; muita gente, séria e sisuda, se compra um romance, é para dar treguas ás despoetisadas e pêcas realidades da vida.
Sei-o de mais. Eu tambem compro os livros dos meus amigos, para espairecer de meditações serumbaticas em que me anda trabalhado o espirito.
Sei quantos devo, e que favores impagaveis me deveria, leitor bilioso, se eu lhe encurtasse as horas com paginas galhofeiras, picarescas, salitrosas, travando bem á malagueta, nos beiços de toda a gente, afóra os seus.
Tenha paciencia: ha de chorar ainda que lhe custe.
Se respeita a sua sensibilidade, fique por aqui; não leia o resto, que está ahi adiante uma, ou duas são ellas, as scenas das que se não levam ao cabo, sem destillar em lagrimas todos os liquidos da economia animal.{7}
Este romance foi escripto n'um subterraneo, ao bruxolear sinistro de uma lampada.
Alfredo de Vigny não diz que escreveu um drama, ás escuras, em vinte dias? E Frederico Soulié não se rodeava de esqueletos e esquifes?
E outros não se espertaram com todos os estimulos imaginaveis de terror? Menos o do subterraneo... este é meu, se me dão licença.
Pois foi lá que eu desentranhei do seio estes lobregos lamentos.
No fim de cada capitulo, vinha ao ar puro sorver alguns átomos de oxigenio, e todos me perguntavam se eu tinha pacto com o diabo.
Almas plebeias! não sabem o que é a fidalguia do talento, que tem alcaçar nos astros, e nos antros lobregos da terra; não entendem este fadario do «genio», que elles chamam «excentricidade», como se não houvesse um nome portuguez que dar a isto.
O leitor sabe o que isto é? Já sentiu na alma o apertar de um caustico? Excruciaram-no, alguma vez, os flagellos da inspiração corrosiva, como duas onças desublimado?
Se não sabe o que isto é, estude pharmacia, abra um expositor de chimica mineral, e verá.
Não cuidem que podem ler um romance, logo que soletram. Precisam-se mais conhecimentos para o ler que para o escrever. Ao auctor basta-lhe a inspiração, que é uma cousa que dispensa tudo, até o siso e a grammatica. O leitor, esse precisa mais alguma cousa: intelligencia;—e,{8}se não bastar esta, valha-se da resignação.
Ora, está dito tudo.
Leiam isto, que é verdadeiro como o «Agiologio» de Ribadaneira, como as «Peregrinações» de Fernão Mendes, como todos os livros legados de geração a geração com o sinete da crença universal.{9}
Não será uma acção meritoria amoldurar em fórmas verosimeis a virtude, que os pessimistas acoimam de impraticavel n'este mundo? Hão de só crer nas façanhas do crime, nas hyperboles da maldade humana, e negar as perfeições do espirito, descrêr o que ultrapassa as balisas de uma certa virtude convencional, que não custa dores a quem a usa?
Se os espanta as excellencias da mulher que vou debuxar, antes de m'as impugnarem, afiram-se pela natureza, interroguem-se, concentrem-se no arcano immaculado da sua consciencia. Se me rejeitam a verdade de Ludovina, se me dizem que a este inferno do mundo não podia baixar tal anjo, sabem o que é esse descrer? é apoucamento de alma para idear o bello; é o regelo do coração que rebate as imagens ainda aquecidas do halito puro da divindade.
Se a mulher assim fosse impossivel, o romancista que a inventou, seria mais que Deus.{10}{11}
Francisco Nunes...
Que nome tão peco e charro!Francisco Nunes!
Pois se o homem chamava-se assim!?
Deus sabe que tristezas eram as d'elle por causa desteNunes. O rapaz tinha talento de mais para escrever folhetins lyricos, e outras cousas. Pois nunca escreveu por que não queria assignar-seNunes.
Ha appellidos que parecem os epitaphios dos talentos.
Um escriptorNunesmorre ao nascer.
Bem o sabia elle.
Houve em Portugal um escriptor chamadoAntonio José. Se a inquisição o não queima, ninguem se lembrava hoje d'elle.
Francisco Nunes só poderia viver na memoria da posteridade, se S. Domingos fizesse o milagre de reaccender as fogueiras nos subterraneos do theatro de D. Maria.{12}
Outros lá soffrem tractos agora, mas é em cima, no palco... Se, ao menos, Francisco Nunes escrevesse uma comedia...
Não escrevia nada; mas falava muito, e, quasi sempre, sósinho, em casa, e na rua. Não incommodava ninguem; era um anjo; tinha só a perversidade de chamar-seFrancisco Nunes.
Elle ahi vae, faz agora tres annos, por uma rua do Porto, vizinha da de Cedofeita, falando só, e falando, ao que parece, enraivecido. Ninguem o escuta, se não eu, porque lhe vou na alheta, com subtis sapatos de borracha.
Esta rua, por um lado, tem raros edificios; pelo outro é marginada por um comprido muro de quintaes que pertencem ás casas da rua parallela.
Nunes, de tempo a tempo, sustem o monologo para puxar com sorvos sibilantes o vapor de um charuto. Depois, faz um tregeito iracundo, com o pé com sanha, e prorompe na imprecação interrompida, do seguinte theor:
«Arado pelo fogo do inferno seja o torrão maldito onde nasceu a folha d'este charuto!
«A chuva candente de Sodoma e Gomorrha tisne a folha do tojo e do carrasco que nascer no terreno que te produziu!
«Frieiras, gotta, paralysia, e morte tolham os dedos que te colheram!
«O sol, que te seccou, morra nos olhos de quem te trouxe aqui!
«As mãos que te enrolaram, charuto infame, sequem-se{13}e mirrem-se como as das mumias de Memphis.
«E para vós, contractadores, caixas, comarqueiros, e estanqueiros do contracto do tabaco, para vós o inferno illimitado, a região tenebrosa dos condemnados, onde ha o ranger dos dentes, e o sempiterno horror!
«Para vós, Borgias, para vós, raça de Locusta, e de Brinvilliers, para vós, envenenadores impunes, o patibulo n'este mundo, d'onde fugiu espavorida a vergonha e a justiça; e as caudaes de sulphur em combustão eterna nas furnas tartareas, onde é de fé que dá urros medonhos um condemnado chamadoNicot, que trouxe para a Europa o tabaco, e teve a impudencia de o trazer a Portugal em 1560, onde viera com embaixada de França.[1]
«Porque os vossos charutos, propinadores de venenos, ennegrecem as substancias organicas, como o acido sulphurico.
«São amargos e causticos como o acido nitrico.
«Calcinam os beiços como o acido hydrochlorico.
«Queimam a laringe como o acido phosphorico.
«Laceram o esophago como o acetato de chumbo.
«Fulminam e despedaçam como o acido hydrocianico.»
Em quanto elle repuxava o vapor do incombustivel rôlo de erva-santa (que blasfemia!santa!) façamos tremendas reflexões:{14}
Um «manual de chimica para uso dos leitores de romances» é instantemente reclamado. Sente-se na litteratura este vazio desde que a novella é um extendal da sciencia humana; e esta póde, sem immodestia, graduar-se assim.
Quando se escreviam bacamartes para as gerações soffredoras, que os lêram, o sabio repunha ahi em azedo vomito as indigestas massas, que ainda agora resistem ao dente roaz da carcoma e da ratazana, nos lotes esboroados das bibliothecas.
O in-folio era uma crença, uma religião, uma faculdade d'aquellas gordas almas, que resumavam pingue chorume por tres mil paginas em typo-breviario.
Não vos faz melancolia vêr a lombada d'esses enormes volumes aprumados n'uma estante? Não ha n'aquelle aspeito triste alguma cousa que vos faz crer que o in-folio chora pelo frade?
Agora não se escreve d'aquillo, posto que o saber humano seja mais vasto, e opulentado com as vigilias de dois seculos laboriosos. Reina o romancista, que é o successor do frade, na ordem das intelligencias productivas.
Ora, o romancista ha-de, por força de sua natureza scientifica, despejar no romance a sciencia que lhe traz intumecido o estomago intellectual; e o romance, assim, deixará de ser lido, se o conselho superior de instrucção publica não organisar os estudos de modo que as sciencias transcendentes, em consorcio com as da natureza physica, desbravem o espirito-charneca de{15}muito leitor sandio, que não póde entender a iracundia chimica de Francisco Nunes.
O qual continuou assim:
«Ha cinco seculos que a raça proscripta de Israel soffreu em Pariz uma perseguição sanguinolenta. Morreram milhares de judeus entre labaredas, porque a calumnia, infamando a religião do Messias, disse que o povo judaico tentára envenenar as fontes e poços de França.
«E vós, judeus christianisados, caixas do tabaco, derramaes o veneno á luz do meio dia, abris as vossas tendas, vendeis pelo preço de vossas carroagens a droga homicida; mataes a mocidade de uma nação, que asfixia ás mãos dos velhos: a vós, que alimentaes o vicio alheio com o crime proprio, quem vos obriga a fumar um charuto de vintem?
«Portugal, tu queimavas os judeus industriosos, a quem deveste os melhores livros de sciencia, as obras primas da arte, os dinheiros extorquidos á pobre raça, que tão caros pagou os trinta dinheiros que Judas não comeu! Queimavas o povo inoffensivo, nação de cafres, e dás refrescos, e condecorações, e honrarias, e montes de ouro aos envenenadores publicos, aos sicarios de charuto, que te desentranham a alma n'um rôlo de fumo negro.
«Que é dos vestígios da civilisação christã? Que é da egide que protege o fraco dos affrontamentos do forte? Em que lapide está escripta a lei que assegura a vida do homem?{16}
«A Roma pagã era o sanctuario da justiça. Ahi os propinadores de venenos eram clandestinos. A mão cruenta do verdugo ia arranca'-los ao segredo das suas fornalhas, e mandava-os de presente ao diabo. «Lucius Cornelius Sylla, a tua lei de supplicio para os empeçonhadores vale só de per si uma legislatura d'esta horda de togados rotos, que nos espremem da algibeira 1$960 réis diarios, por cabeça.
«Aqui, ha o morrer sem recurso de revista, o expirar em vomitos negros, o tossir rispido da bronchyte, as asthmas offegantes, o ronco profundo da pieira laringea, os deliquios da cabeça atordoada, a podridão dos dentes, as fendas carboniformes dos beiços, os abcessos pulmonares, as hemorrhagias de sangue apostemado:—ha tudo isto, debaixo d'este céo impassivel, na presença do codigo criminal, n'um paiz, onde trabalha a electricidade por arames, onde se comemomelettes sucréesesoufflées, e d'onde se mandam rapazes para o extrangeiro estudarBENEFICENCIA«Mentira! Mentira e escarneo!
«Se quereis beneficiar este paiz, não mandeis lá fóra, oh parvos governadores da Barataria, não mandeis lá fóra estudar o processo do bem-fazer.
«Vêde-me este moço, que apenas tem vinte e dois annos, e já precoces sulcos da doença lhe enrugam a fronte. A cutis macilenta, onde deviam vicejar as rosas da adolescencia, adhere aos ossos desmedulados e cariados; uma tosse violenta lhe reteza os musculos do pescoço, expedindo das glandulas salivares um pus{17}granuloso, pardo, e alcalino. As faculdades intellectuaes estão entorpecidas n'esse mancebo. Estimulando-se com cognac e absynto, esta especie de cretino, bestificado por uma enfermidade incuravel, apenas consegue dizer tres tolices ácerca de Donizetti, sentado n'um mocho de botiquim, encostando o corpo enervado á banca dos licores incitantes.
«Sabeis quem reduziu esse vegetal a tão quebrantado estiolamento?
«Foi o charuto!
«O contracto do tabaco empeçonhára a seiva d'esse moço, que os fados, menos poderosos que os caixas, talvez tivessem destinado para exercer o magisterio do folhetim, maximo esforço de intelligencia, n'uma época, e n'um paiz, cujo amor ás letras não vale a correspondencia de uma local bem poetica como a do baile do sr. fulano.
«Voltae para esse corpo achacadiço e apodrentado o vosso animo beneficente, Sanchos-Panças lerdos, pantalões administrativos!
«Chamae a juizo os vampiros que sugaram o soro d'esse sangue aguado que o faz tolhiço para tudo.
«Fazei a autopsia de um charuto como este—proseguia Francisco Nunes, parando e contemplando as nervuras negras do rôlo de folha, que semelhava uma rolha de cortiça queimada—e vereis que ha aqui dentro um talo de couve lombarda, uma carocha secca, uma folha de leituga, uma casca de bolota, e tres grãositos excrementicios de rato ou coelho.{18}
«Horrivel, e sujamente infernal!
«Senhores deputados! não se mata assim impunemente um povo![2]
«As nações tyrannisadas, quando a oppressão requinta, erguem-se como um só homem, e fogem para o Aventino.
«Os envenenadores congregaram-se em conciliabulo de abutres, e crearam o charuto de vintem, a pitada do meio grosso, e o cigarro onde cresce o musgo como em parede velha. Cadafalso para os envenenadores!
«O conselho de saude, bandeado n'este tripudio de canibaes, forma o cortejo scientifico das parcas que nos arrebanham para a região dos suicidas. Morte ao conselho!
«Não ha typhos, nem cholera, nem febre amarella, senhores deputados! Ha charutos, ha o meio-grosso, e o cigarro. A epidemia não está nos canos, senhores; está n'estes canudos, por onde os contractadores cospem affronta e morte na face do povo!
«Que elles sejam malditos setenta vezes sete vezes, como se dizia no Oriente!{19}
«Na hora do trespasse, a alma d'elles, tisnada pelo remorso, será negra como este charuto, d'onde eu sorvi um pus que me requeima os bofes... Vae-te, infame!»
E, assim rugindo, n'uma como inprecação do moribundo atormentado, arremessou o charuto por cima do muro para o quintal.{20}{21}
—Ludovina, já pensaste a resposta que has-de dar a teu pae?
Pergunta que faz a sua filha uma senhora de nobre presença, quarenta annos, ainda frescal, chamada Angelica, e casada com o sr. Melchior Pimenta, empregado na alfandega do Porto.
Ludovina respondeu:
«Como hei-de eu responder, se ainda não vi o homem?
—É um homem como os outros;—replicou D. Angelica—são todos o mesmo, menina. Teu pae sabe o que faz. Um homem é quem melhor conhece outro homem. Se elle te disse que achou um bom marido, não póde enganar-se.
«Ora essa, mãe! E se eu antipathisar com elle?
—Deves casar, como se sympathisasses.
«Bravo!... e depois?
—E depois, virá a sympathia. Imaginas lá com que repugnancia eu casei? Casaram-me, deixei-me levar porque{22}era uma creança, vivia na aldeia, e sonhava com os vestidos e os bailes, e os theatros do Porto. Depois, teu pae... teu pae adorava-me, dava-me mais do que eu ambicionava, e sem saber como, nem porque, contentei-me tanto com a minha sorte, que não invejava a de ninguem. Tinha vaidade em ser bonita, vestir com gosto, e chegar onde as mais ricas não podiam chegar. Via homens elegantes, reconhecia a differença que os fazia superiores a teu pae, e, comtudo, nunca me passou pela cabeça a loucura, a ingratidão, o crime da infidelidade.[3]Posso dizer que principiei a amar meu marido, quando as outras mulheres se enfastiam. Aqui tens o que nunca te disse. Não ha homem nenhum que seja indigno da estima de uma mulher.
«Mas a mãe sabe que eu... amo outro homem.
—Eu não sei se amas outro homem... Sei que namoras outro homem, e entre namorar e amar está o reflectir, menina. Esse rapaz que te manda romances e cartas entre as paginas... (não te inquietes, que sei tudo, e tudo pouco vale...) esse rapaz quem é? Um filho-familia, sem posição, sem modo de vida, que te ama, que será teu marido, se tu quizeres; que viverá das tuas sopas, se as tiveres para ti, que se envergonhará da sua dependencia, quando o amor obedecer á razão; que se enfastiará dos teus carinhos, se quizeres prende'-lo com elles a ti, ou ao berço de teu filho. Se quizesses exemplos,{23}dava'-tos. Tens ouvido censurar duas ou tres amigas, que tens, casadas com homens ricos de cabellos brancos?
«Ainda hontem li um folhetim contra as mulheres que se deixam seduzir pela «fortuna» de estupidas creaturas...
—Lêste? De quem era o folhetim? Se o auctor fôr rico, e tiver quarenta annos, o auctor é insuspeito, e, n'esse caso, digo-te que sujeites o teu destino á determinação do folhetim. Escreve uma carta ao auctor, e conta-lhe que és uma menina pobre, virtuosa, com excellentes joias de espirito. Offerece-lhe o teu coração, e promette que has-de levar-lhe a felicidade com a pobreza. Se elle te vier buscar, peso-te a ouro ao santo que fizer o milagre. Ora, se o folhetinista é um talento raro, um elegante de grande bigode e luneta, mas pobre, faz-lhe o mesmo offerecimento, prevenindo-o de que és tão pobre como elle. Se o folhetinista te vier pedir, é um dia de festa n'esta casa...
Aprende, creança. Os rapazes pobres, se vivem na boa sociedade, criam ahi ambições, que uma menina sem riqueza não satisfaz. Pois não os conheces tu, Ludovina? Não os vês no baile e no theatro namorando um dote como quem namora uma mulher? Não és tu a mesma que censuras a indignidade de certos homens, que recebem resignados todas as repulsas, e teimam sempre em esquadrinhar um dote, como se fizessem voto de casarem ricos, ainda á custa de vergonhas? Vê lá se entre os folhetinistas aspirantes ao casamento de especulação{24}se te depara o nome que hontem lêste... Talvez ainda não reparasses em outra injustiça que se faz ás mulheres pobres, se a fortuna lhes dá maridos ricos. Não ha por ahi rapazes com grandes patrimonios? Recebem elles, por ventura, em casamento meninas virtuosas e pobres? Não. Procuram-nas ricas, e fiscalisam menos a vida honesta da noiva, que o numero de acções do banco, ou o valor da propriedade paterna. Os moralistas de gazeta que dizem d'isto? Sacrificam, talvez, a sua indignação ao amor do sexo: não dizem nada, e rebentam por outro lado em imprecações contra a mulher, que os elegantes ricos rejeitam, e os ricos sem elegancia procuram.
Olha, filha, se te não fosse penosa a experiencia, deixava-te casar por paixão, como se diz, com o primeiro moço pobre que te encantasse. Depois, quando saísses a passeio com teu marido, levarias um vestidinho de chita, por não poderes levar um deglacé. Os taes censores de folhetim ver-te-iam mal trajada, e diriam, no auge da sua pena: «pobre rapariga, fez um casamento infeliz!» Ao teu lado passaria uma das tuas amigas, ricamente vestida, pelo braço de um velho com quem a casaram as conveniencias. Os mesmos censores diriam: «Que mal empregada mulher em semelhante alarve!» Já vês que o estimulo da compaixão, que fizeste, era o teu vestido de chita; e o estimulo de inveja, que fez a tua amiga, era o vestido de seda.
«Mas se eu fosse feliz com o meu vestido de chita, e o homem do meu coração?{25}
—Isso é romance, menina. Nunca é feliz com um vestido de chita a mulher que tem amigas com vestidos de seda. Hoje reina a opinião publica, Ludovina, não é a consciencia de cada um. O agente principal do espirito de uma mulher é a modista. Se ha casadas que envelhecem disputando ás netas a melhor eleição de um talhe de vestido, que farão as solteiras?
Basta de razões insignificantes, que devem humilhar a tua razão, Ludovina. Eu nunca embaracei esse ligeiro conhecimento que tens com o Ricardo de Sá, por saber que nunca seriam tardias as reflexões que te faço agora. Não pódes casar com esse homem sem desgostar teus paes, e grangear para ti o infortunio, e para elle o arrependimento. Se soubesses o que deve ser o arrependimento entre casados, a maior prova de amor que podias dar a esse rapaz, seria esquece'-lo. Tu sabes que vivemos do ordenado de teu pae: temos podido manter a decencia e o luxo até dos teus caprichos de formosa; porém, nada mais podemos. Se tivesses um grande dote, a primeira a diligenciar o teu casamento com Ricardo de Sá, seria eu. Assim, reprovo-o, opponho-me, e serei eu a encarregada de dizer a esse cavalheiro que a tua vontade não é livre, ou que a tua escolha foi outra.
«Não diga tal, mamã. Se casar com o homem que me destinam, a escolha não é minha. Deixem-me, ao menos, este desforço... Fique a responsabilidade da acção a quem me obriga.
—Pois teus paes acceitam a responsabilidade, Ludovina.{26}
O dialogo rematára assim, quando se fez annunciar Ricardo de Sá.
D. Ludovina, com os olhos humedecidos, e desconcertado o semblante, disse á mãe que não podia ir á sala, e recolheu-se ao seu quarto. Foi D. Angelica receber a visita.
Ricardo esperava-a na sala, correndo o teclado do piano, com a sem-cerimonia de um visitante habitual. Apertou-lhe a mão, beijando-a ao estylo da França, cousa que elle vira fazer a quatro ou cinco viajantes distinctos do Porto, que tinham conhecido, em Pariz, a «mesa-redonda» dos hoteis onde estiveram. Ahi vão á pressa dois traços d'este Ricardo de Sá. É um bacharel formado em direito, filho de outro bacharel que faz requerimentos, em quanto o filho, reservado para a magistratura, destino em que se dispensa vocação, faz cartas de namoro com letra ingleza, e timbra em comprar noMoréos mais aniladosenveloppes, e o melhor papel-setim de fimbria dourada.
Lê, e empresta os romances aos namoros; commenta-os na margem das paginas, e addiciona-lhes appendices manuscriptos de lavra sua, quando a catastrophe merece ser corrigida.
Além d'isto, o bacharel tem tres bengalinhas, que reveza, todas muito bonitas, com os punhos de massa de marfim, formando uma o grupo das graças, outra o das musas, e a mais embrincada é uma Suzana a saír do banho, espreitada pelo olho lascivo dos arreitados juizes de Israel. Ricardo de Sá consome as manhãs, que principiam{27}para elle ás onze horas, dividindo os cabellos em delgados fasciculos, e lustrando cada um d'elles com um cylindro de cera. Aguça, quanto possivel, as guias do bigode, encerando-as, e enverniza a pera com um oleo contido no decimo nono frasco da terceira serie. Depois, o laço da gravata, e a collocação symetrica do pseudo camapheu é obra de fôlego que lhe dá tempo de assobiar dois actos doTrovador, a aria valida doRigoletto, e o acto final daLucia. De seguida, a compostura airosa das lapellas do fraque, a ultima demão de escova, e o aprumo do chapéo onde não ha um fio erriçado, tolhem muitas vezes a saída do peralta, que se encontra com a terrina da sopa do jantar.
O bacharel nutre-se de ar puro, e d'alguns escropulos de carne de boi. O pae, homem roliço e respeitador das immunidades do estomago, suppõe que seu filho desbarata a pequena mezada nas casas de pasto, e não se assusta da inappetencia.
Ricardo crê que o seu estomago destacou tecidos para o coração, reservando para o funccionalismo alimenticio um estomago-miniatura, oquantum satisdas compleições sylphidicas. Convicto da excrecencia espiritual, crê-se dotado de fluidos nêrveos, magnetismo, electricidade, etherisação. Julga-se em fim anestesico, espasmodico, dynamico, em fim tudo o mais que não se entende.
Não ama as mulheres, pranteia-as como victimas do seu poder fascinante. Algumas vezes, tem a piedade de as não encarar para as não abysmar. Outras, exerce a crueza da experiencia, fitando-as com o olho carregado{28}de electricidade, fala-lhes com um timbre magnetico que elle sabe, e, não ha que vêr, o somnambulismo é prompto, a attracção é irresistivel como a da cobra-cascavel do Canadá apoz o tangedor da flauta.
Crê tudo isto o bacharel, e ha velhacos que lh'o ouvem com a sisudeza da crença, e lhe não receitam um curativo de causticos.
D. Ludovina Pimenta é uma das suas somnambulas, e a menos victima de todas. Ricardo distingue-a, impondo-se a obrigação cavalheirosa de corresponder-lhe quanto em si cabe para que a infeliz desilludida não tente contra a existencia. Vae ve-la todos os dias, conversa litteratura com a mãe, toma uma chavena de chá sem assucar, e despede-se ás onze horas, dizendo que vae esperar no seu quarto a hora da inspiração matinal para continuar a sua obra intitulada:O SECULO PERANTE A SCIENCIA.
É o que podemos esquadrinhar ácerca do bacharel Ricardo de Sá.
Os homens assim não se pintam; a zombaria não os enxerga na profundeza da sua toleima... são o Rubicon do folhetim, a desesperação da comedia desde Aristophanes até Molière.
O original anda por ahi. Tenho-lhe assestado tres vezes a machina photographica, de rosto; sahiu-me sempre aquillo.{29}
«Ludovina fica hoje no quarto—disse D. Angelica, respondendo á pergunta admirada do bacharel.
—Doente?
—Sim, passageiramente doente; mas é tão debil a pequena, tão melindrosa...
—É um corpo que não póde com o espirito... Eu comprehendo o que são esses desfallecimentos d'alma. A filha de v. ex.ª tem uma organisação muito semelhante á minha. As minhas enfermidades são sempre quebrantos, estherismos, lethargia, procedentes das fadigas intellectuaes, ou dos anceios do coração. Compleições infelizes, não acha, minha senhora?
—Oh! infelicissimas, de certo...
—Se, todavia, v. ex.ª tivesse a bondade de dizer a sua filha que fizesse um esforço para me vir contar os seus padecimentos, talvez que uma medicina toda espiritual...
—A curasse?... talvez...
—Sorriso de incredulidade, não é assim? V. ex.ª é{30}sobejamente espirituosa para desconhecer a influencia que exerce uma alma sobre outra, quando as correntes magneticas...
—Não lhe dá treguas a sua paixão magnetica, sr. Sá!... A Ludovinasinha queixa-se de enxaqueca... Eu voto, d'esta vez, por medicamentos caseiros... Talvez que uns sinapismos...—proseguiu ella, rindo, sem ferir o orgão maniaco do bacharel—dispensem uma descarga electrica.
—V. ex.ª não quiz entender-me, ou eu tenho sido confuso na exposição das minhas convicções.
—É clarissimo sempre, sr. Sá; mas desconfio da inefficacia da sua vontade sobre a enxaqueca de Ludovina. E depois, convém-nos que ella esteja doente por um quarto de hora. Vamos falar a respeito d'ella.
—Tenho razões para suspeitar que minha filha não é indifferente a v. s.ª.
—De certo, não.
—Póde dizer-me até que ponto me devo lisonjear com a affeição que Ludovina lhe merece?
—Voto á sr.ª D. Ludovina um sentimento profundamente respeitoso...
—Só?
—Uma affeição nobre e desinteressada...
—Amor?
—De certo... amor... reflectido, e bem intencionado...
—Uma paixão verdadeira, não é verdade?
—Quanto em mim cabe, minha senhora... quanto{31}é possivel apaixonar-se um homem de vinte e oito annos, apalpado já pelas desillusões, e esterilisado tanto ou quanto pelos ventos contrarios dos revezes da alma...
D. Angelica fez um geito de quem ouvia chamar; ergueu-se com a mais destra simulação, dizendo:
—Minha filha tocou a campainha... As creadas não a ouvem de certo, eu volto já...
Ricardo de Sá fez mentalmente o seguinte monologo:
—D. Angelica vae propôr-me o casamento da filha. Eis-me entalado n'uma crise imprevista! Está explicado o enygma da carta que Ludovina me escreveu hoje. Receia que eu me esquive á proposta; e tem razão. Eu não caso. Esta mulher está abaixo dos meus calculos. Lisonjeia um amante, mas não póde satisfazer as complicadas necessidades de um marido... É horrorosa a minha posição!... Sei que faço uma victima... de certo a mato... Estudemos uma evasiva, não obstante...
O monologo continuava, quando Ludovina, conduzida machinalmente por sua mãe, se collocava atraz de uma vidraça da alcova immediata á sala.
D. Angelica era um assombro de esperteza. A leitora já admirou a eloquencia persuasiva com que ella abalou o coração da filha; já disse, de si para si, que, com tal mãe, não ha filha que rejeite o casamento de um brasileiro rico; já leu as paginas que ahi ficam á mãesinha para que ella saiba os argumentos com que se vence a desobediencia das filhas, em casos identicos. Pois, se gostou e admirou as palavras de D. Angelica, ha de tambem admirar-lhe as obras.{32}
D. Angelica viu o mais secreto do animo do bacharel; previu o desenvolvimento da conversação, e quiz dar á filha o mais rude, mas tambem o mais proveitoso desengano.
—Nada era... ou era muito... Queria saber como v. s.ª estava—disse a matreira esposa do sr. Pimenta.
—E ella como está agora?
—Soffre bastante... Falei-lhe no seu magnetismo, e a tolinha córou... Era talvez o clarão da descarga electrica, seria?
—V. ex.ª sempre «fazendo espirito» com os axiomas da sciencia... Ha de convencer-se... A experiencia lhe apontará as evidencias...
—A mim? ora essa! Terá v. s.ª a infausta idéa de me magnetisar? Adormecer-me... isso é facil; bastam os livros que tratam da sciencia, não é precisa a acção... Não «faço mais espirito» como v. s.ª diz... Vamos á nossa pratica interrompida que é muito séria:
Disse o sr. Sá que minha filha lhe merecia um sentimento profundamente respeitador, uma affeição nobre e desinteressada, um amor reflectido e bem intencionado, e finalmente uma paixão, que não era bem uma paixão, por quanto desillusões, revezes,et cœtera, lhe haviam... não me recordo...
—Esterilisado a alma...
—Foi isso... Em toda a sua resposta só ha de desagradavel essa esterilidade de alma; todavia, eu creio que tão boa alma ha de sempre florescer e fructificar, quando a cultura fôr confiada a uma mulher de bom{33}coração, meiga, docil, maviosa, em fim, a uma que não inveje as boas qualidades de minha filha.
—De certo... assim o penso, minha senhora—balbuciou o bacharel, forçado pelo silencio interrogador de D. Angelica.
—Minha filha ama-o, sr. Sá. Ama-o delirantemente, perdidamente, quer ser sua ou da sepultura, não acceita admoestações nem esperanças tardias, quer unir-se ao esposo da sua alma, mas já, já, senão... diz que, mais tarde, será victima da sua paixão. Sabia v. s.ª que era tamanho o seu dominio n'aquella innocente alma?
—Sabia... desgraçadamente sabia.
—Desgraçadamente!... essa palavra faz tristeza! Pois nem sequer o orgulho de ser assim amado o alegra?
—Sim, minha senhora—tartamudeou o bacharel, afagando as guias do bigode—tenho orgulho de ser assim amado...Desgraçadamentedisse eu, porque me doem os soffrimentos da sr.ª D. Ludovina...
—Estando na sua vontade o mais facil e desejado remedio d'elles? é singular!
—Ainda assim... ha situações na vida...
—Sei o que quer dizer—atalhou a zombeteira senhora—ha situações em que quizeramos immediatamente felicitar as pessoas que soffrem por nossa causa. Isso é assim... Pois bem. Tratemos definitivamente da felicidade da nossa Ludovina. Minha filha, como v. s.ª sabe, não tem dote. É pobre, supposto que o fausto com que vive queira desmentir esta triste verdade. Em riquezas{34}de espirito é millionaria. Nas do coração, sabemos nós o que ella é. A «fortuna» porém, é muitas vezes a inimiga da verdadeira felicidade, não é assim?
—De certo, minha senhora...
—V. s.ª tem uma habilitação, tem uma vasta intelligencia, sobram-lhe expedientes para grangear o sufficiente para duas almas venturosas; agouro a ambos uma felicidade duradoura. Entrego-lhe minha filha, na certeza de que nunca me será turvado o prazer d'este instante de expansão maternal pelo arrependimento da minha leviandade. Dê-me um abraço, que já começo a consideral'-o meu filho.
—Minha senhora—disse o enfiado bacharel, extendendo a mão a D. Angelica—eu estou cordealmente penhorado pela confiança que mereço a v. ex.ª. Cumpre, porém, reflectir n'um passo tão momentoso. Eu amo em extremo a sr.ª D. Ludovina, toda a minha ambição é identifica'-la ao meu destino sobre a terra, mas, minha senhora, eu não posso dispôr da parte de obediencia que devo a meu velho e respeitavel pae, sem consulta'-lo, porque dependo d'elle, em quanto não entrar na carreira da magistratura, e o cabedal dos meus estudos não me abona tanto quanto v. ex.ª imagina que póde proporcionar-me a intelligencia.
—Pensa mui judiciosamente—redarguiu D. Angelica formando com a prolongação dos beiços, e o abrimento dos olhos, um tregeito de mui sisuda approvação—e qual conjectura v. s.ª que seja a resposta de seu pae?
—Não sei, minha prezada senhora...{35}
—Se fôr negativa?
—Se fôr negativa...
—Obedece?
—Como filho dependente; mas os dias da minha existencia serão poucos, e attribulados...
—Mas isso é horrivel, sr. Sá! Minha pobre filha succumbe... V. s.ª mata a mulher que mais o amou, a unica n'este mundo que o compreendeu, um anjo que não viu outro homem digno d'ella... Que diz a uma mãe consternada, sr. Sá?
—Minha senhora... a nossa posição é desgraçadissima.
«Remedeie-a, que póde. Se seu pae o não acceitar casado, tem a casa de sua mulher, onde será recebido como filho... Oh! que insensibilidade! o senhor não ama Ludovina!
—Se a não amo! Isso mata-me, snr.ª D. Angelica!
«V. s.ª é que mata uma santa, uma martyr...
—Segui'-la-hei na morte...
«Pois o melhor é viverem ambos!—disse D. Angelica, desafivelando a mascara da amargura, e abrindo o riso mais galhofeiro e fulminante que imaginardes, leitores phantasiosos—V. sr.ª tem sido logrado desapiedadamente, snr. Ricardo de Sá. Peço-lhe que viva muito tempo, porque uma pessoa como v. s.ª não deve morrer, em quanto a tristeza, que foge ao riso, andar por este mundo. Snr. Sá, é preciso dizer-lhe que minha filha ouviu esta nossa scena comica, e acredite que o magnetismo não operou a approximação. Eu comecei a falar-lhe{36}em minha filha para pedir ao seu cavalheirismo que não a inquietasse, porque vae esposar um homem que seu pae lhe escolheu. V. s.ª alumiou-me o entendimento, deu-me um alegrão inapreciavel; e voltou as minhas idéas para o lado opposto. Fui buscar minha filha, para assistir ao espectaculo do coração de v. s.ª, e dei-lhe um bello espectaculo. Snr. Sá, a sua posição é desagradavel, e faz-me pena, por não dizer tedio. Um homem como v. s.ª nunca devera erguer os olhos para uma menina honesta.
D. Angelica retirou-se da sala, soberba como uma rainha na descida do throno.
O auctor possivel doSECULO PERANTE A SCIENCIA, emergindo do estupor momentaneo, procurou a bengalinha de Suzana a saír do banho, e caminhava atordoado para a porta, quando entravam Melchior Pimenta, e um sujeito desconhecido ao bacharel.
—Ólá, por cá, snr. Sá?
«É verdade, snr. Pimenta.
—Ninguem lhe falou?! estava sósinho?!
«Saiu da sala, n'este instante, a snr.ª D. Angelica.
—E Ludovina?
«Está de cama, creio eu.
—De cama!? ella ficou boa quando eu saí... Alguma dôr de cabeça...
«Creio que sim... Dá-me as suas ordens, snr. Pimenta?
—Saude, meu amigo, appareça á noite, que lhe quero{37}dar o conhecimento d'este meu amigo, que será provavelmente o marido de minha filha...
«Sim?... estimo muito conhecer... Ás suas ordens, meus senhores.
Saíu; e o snr. João José Dias (que é o tal), franzindo a testa, disse ao pae da esposa promettida:
—Que diabo de cousa é isto? Cuidei que me picava o bom do homem com os galhos do bigode! Eu corto as orelhas ambas e duas, se aquillo não fôr um patarata!
«É um pobre diabo que lê novellas, e não é mau rapaz—respondeu o snr. Melchior, limpando o suor da testa.
—Novellas!... hum!—estehumdo snr. João José Dias é uma cousa semelhante a um grunhido roufenho; aquellehumé a these de uma dissertação que elle, em tempo opportuno, ha de fazer contra a leitura immoral dos romances—A sua filha lê novellas, snr. Melchior?—continuou elle pondo os olhos de esguelha, como molosso desconfiado.
«Entretem-se com a mãe, ás vezes, n'essa leitura; mas lê sómente as que a mãe já tem lido.
—Pois não faz bem. As novellas são a perdição das mulheres. Lá no Rio está aquillo mal de religião e virtude desde que pegaram a ler romances as moças. Em minha casa é sujidade que não entra. Eu já uma vez, para ver o que era aquillo, puz-me a lêr uma novella, chamada... chamada... era de um tal... d'um talKocles, ouKoques, e, meu amiguinho, era maroteira de ferver bicho.{38}
A snr.ª D. Angelica interrompeu a parlenda acrimoniosa de João José contra os romances.
«Aqui t'o apresento—disse Melchior.
D. Angelica mirou-o de alto a baixo, e fez-lhe uma ligeira cortezia. No rosto expressivo da sympathica senhora, liam-se estas dolorosas palavras:Minha pobre filha, que impressão vaes receber!{39}
João José Dias devia orçar pelos seus quarenta e cinco annos. Era de estatura menos que mean, adiposa, sem proeminencias angulares, essencialmente pansuda, porque João José tinha uma serie descendente de panças, desde a papeira côr de rosa até ás buchas das canellas ventrudas.
Nas faldas de uma testa estreita, chata, e rugosa, como um elytro da concha de um cágado, luziam os olhos pequenos e esverdinhados de João José. As palpebras tumidas e pillosas como a casca da fava, enviezavam-se para dentro, formando á raiz das pestanas um rebordo purpurino. O nariz, sem base nem ossos, nem cartilagens, devia ser a desesperação de Falopio e de Bichat: rompiam-lhe d'entre os olhos as ventas já formadas, com a ponta arregaçada e as azas convexas, dilatando-se até ás alturas dos ossos malares, entupidos nas bochechas gordurentas. Os beiços eram bicolores; nacarinos no centro, e rôxos para as extremidades quasi invisiveis sob os refegos relachados dos musculos limitrophes.{40}João José tinha quatro dentes incisivos de brilhante esmalte, entalados nos outros quatro, formando de commum accordo as saliencias irregulares de um pedaço de crystal bruto. Os dentes laniares ou caninos tinham uma crusta de carie, e algumas luras chumbadas. Os vinte malares estavam no goso das suas funcções triturantes, com quanto amarellados de saes terreos, e regorgitamentos do bolo indigesto.
João José não tinha pescoço: as espaduas ladeavam-lhe os bocios da garganta, alteando-se ao nivel das orelhas escarlates, com bolbos da mesma côr, e não sei que excrescencias no lobulo, simulando pingentes de coral.
Disse-se que era todo barriga o homem, já que Buffon e Cuvier asseveram que é homem, feito á imagem e semelhança de... não ousamos escrever a blasphemia. O que se não sabe é que a barriga lhe marinhava peito acima, até levar de assalto o campo onde fôra pescoço.
As pernas de João José eram dois cepos, postos em peanha a uma esphera armilar. Tão curtas eram ellas, e tão desmesurados os pés, que me não seria difficultoso convencer-vos de que a natureza, em hora de travessura, fez da porção de materia, destinada para perna e pé, duas partes eguaes, juntou-as e o ponto de juncção denominou-o calcanhar.
As botas de João José tinham incriveis expansões de couro: eram um oceano de bezerro cortado de ilhas. Os joanetes do pé direito formavam um archipelago. No remanescente das milhas despovoadas, o pé era raso e chão como uma lousa de mercieiro.{41}
Deram-se uns longes para auxiliar a phantasia de quem não conhece o snr. João José Dias. Para os que o viram, a pintura, vae tacanha e inhabil, aqui o confesso, envergonhado do meu descredito.
Vamos á biographia da pessoa, e veremos que boa alma se nichou n'este hediondo envolucro.
João foi cachôpo para o Brasil, e estreou-se n'uma loja de molhados, onde grangeou renome de rapaz videiro e possante. Abraçava uma talha de azeite de tres almudes, e aguentava com ella do armazem para a loja, sem impar. Levantava do sobrado para o balcão o peso das tres arrobas com os dentes. Punha a prumo meia pipa de cachaça, e levava á bôca, sem gemer, um barril de dois almudes, com o braço testo na aza. Isto constou na rua dos Pescadores, e, ao terceiro anno, João era alliciado por varios patrões, que disputavam o lanço.
Não pertencem á alma estes esclarecimentos, bem o sei; mas a alma de João José formou-se então. A probidade, a lisura, a honradez do boçal caixeiro nunca foram desmentidas pela gaveta do patrão. Os convites, feitos á sua cubiça de melhores ordenados, repelliu-os sempre, dizendo que nunca deixaria a casa onde comera o primeiro bocado de pão. O augmento de ordenado vinha sempre espontaneo dos patrões: podendo inculcar-se com as propostas dos vizinhos, nunca João José se queixou dos pequenos ganhos.
Os paes de João eram uns pobres fazendeiros de Celorico de Basto, que se desfizeram do unico cevado e de uma vitella para pagarem a passagem do rapaz. João{42}não esqueceu estes sacrificios nem as lagrimas que vira no rosto da mãe, quando, em Miragaia, lhe deu um quartinho em ouro embrulhado em seis camadas de papel.
Os lucros dos tres primeiros annos foram quasi todos enviados a seus paes, e, d'ahi em diante, metade do ordenado vinha repartido em pequenas mesadas para os velhos, que lh'os devolviam em roupas brancas.
João José, morrendo um socio da casa, achou-se herdeiro da terça parte do negocio. Pudera então retirar-se com haveres sobejos para viver descançado na patria; mas, para obviar os desarranjos da liquidação, continuou na sociedade.
Veiu a Portugal em 1835, comprou no Minho a cerca de um convento, e, deixando o uso-fructo aos paes para que vivessem regalados, voltou ao Rio de Janeiro, onde achou fallida a sua casa commercial, e compromettida a compra que fizera na terra.
Tinha sido escandalosamente roubado o pobre homem.
Aconselharam-no que intentasse acção judiciaria contra os socios. Rejeitou o alvitre, dizendo que Deus os julgaria. Acceitou os enormes creditos que lhe offereceram, estabeleceu-se, e dentro de doze ou treze annos pagou as dividas de seus socios, e liquidou cem contos de réis fortes, entre os quaes, diz elle, e dizem todos os que o conheceram, não havia cinco réis adquiridos deshonrosamente.
Chegou a Portugal em 1848. O pae era morto e a mãe octogenaria estava entrevadinha, pedindo ao Senhor{43}que a não remisse das penas d'este mundo sem ver seu filho.
João José Dias assistiu seis annos aos longos paroxismos de sua mãe, adoçados com as lagrimas da felicidade. Em 1854 finou-se a velha nos braços do filho, dizendo-lhe que fizesse feliz uma moça pobre, casando com ella já que Deus lhe déra a riqueza.
Passado o luto, o capitalista veiu ao Porto, e conheceu casualmente, na alfandega, Melchior Pimenta, que lhe fez um pequeno serviço na brevidade de uns despachos.
Alguns dias depois, encontrou o empregado da alfandega com uma formosa menina pelo braço, e perguntou-lhe se era sua filha. No dia immediato foi á praça, e colheu de alguns negociantes informações ácerca da filha de Melchior.
Todos á uma lhe disseram que a menina gosava de excellente opinião; mas tinha só o defeito de querer hombrear em luxo com as filhas dos negociantes mais abastados. Um dos informadores accrescentou que os tafetás, as rendas, e as pelliças da filha do empregado da alfandega não pagavam direitos.
Esta mordedura dos malevolos não magoou João José Dias.
Fez-se encontradiço com Melchior, e falou-lhe dos seus teres, e da tenção que tinha de mudar de estado, até para cumprir uma promessa que fizera a sua mãe. Disse-lhe Melchior que era acertada a resolução, e muito facil o realisa'-la. Replicou o brazileiro pedindo que lhe{44}indicasse alguma menina honesta. Pimenta pediu tempo para pensar, e o capitalista, com a rude franqueza de uma boa alma, disse que a sua escolha estava feita. Averiguada a cousa, a escolhida era a filha do sr. Melchior Pimenta, que não cabia n'um sino.
—Isto é um modo de falar...—observou João José—Sem que sua filha dê o sim, nada feito. Eu sei que estou no calçado velho, e não trajo cá á moda dos janotas, como por ahi dizem. A sua filha é muito nova, e quererá um rapaz. Fale com ella, diga-lhe a verdade, eu irei lá se o senhor quizer; se ella quiz, muito bem; se não quiz, ficamos amiguinhos como d'antes.
—A minha filha é docil e ajuizada: ha-de querer o que eu quizer. Foi educada por uma mãe, que teve melhores principios que eu, e faz com que ella lhe obedeça, tractando-a como irmã. Posso dizer-lhe que minha filha será sua esposa; mas bom é que o senhor nos dê o prazer de frequentar a nossa casa, para conhecer o coração da minha Ludovina.
É este o resumo do grande dialogo que precedeu a apresentação do sr. João José Dias a D. Angelica.
Não querendo eu, nem por sombras, indispôr contra os meus fieis escriptos o imperio do Brazil, peço ao meu sisudo editor que faça estampar o seguinte epilogo d'este capitulo:
João José Dias adquiriu com exemplar probidade os seus bens de fortuna.{45}
Foi bom filho.
Levou a honra commercial ao primor de embolsar credores roubados pelos socios que o roubaram a elle.
Foi trabalhador, quando precisava acreditar-se pelo trabalho; e foi-o tambem, na opulencia, como o ultimo dos seus servos.
Nunca teve escravos, comprados ou alugados: remiu alguns na decrepitude, e deu-lhes uma cama onde o ultimo instante da vida lhes fosse o primeiro de bem-estar.
Que mais virtudes, ou maiores encomios a um bom caracter? Se pintei João José Dias feio, não é d'elle a culpa, nem minha. João José Dias era realmente muito feio.
Do Brasil vem muita gente galante.
Tenho na pasta um esboço de romances onde figuram quatro brasileiros bonitos.
Hão-de ver com que isenção de animo se escreve n'esta provincia das lettras.
Acabou-se o epilogo, e preveniu-se uma crise litteraria no Brasil.{46}{47}