IV—Então a pequena está incommodada?—perguntou Melchior a sua mulher, que não declinava os olhos do cepo informe do sr. João José Dias.—Um pouco incommodada.—Vaes dizer-lhe que venha á sala, menina?—Irei.—Estou boa, papá—disse Ludovina entrando subitamente, e cortejando o hospede, que ella reconhecera de o ter visto outra vez.—Tem a bondade de sentar-se, snr. Dias?—disse Melchior ao acanhado brasileiro, que mal pudera gaguejar um «creado de vossa senhoria» que corrigiu bruscamente em «vossa excellencia.»—Minha filha, quando hontem te disse que a Providencia me deparára para ti um digno marido, era d'este senhor que te falava.—Tenho muito prazer em conhece'-lo—atalhou Ludovina com uma affabilidade e desembaraço que espantou a mãe, alegrou o pae, e lisonjeou o noivo.—Para satisfazer a uma exigencia d'este cavalheiro—continuou Melchior—é preciso que tu digas se acceitas{48}livremente a minha escolha, ou direi melhor a escolha com que te distinguiu o sr. Dias.—Acceito muito de minha livre vontade—respondeu com firmeza D. Ludovina.—Não lhe restam escrupulos?—tornou Melchior inclinando-se para o brasileiro.—Não, senhor—disse elle—Estou satisfeito; o que eu não queria era que a menina viesse um dia a arrepender-se... e...—Não espero tal desgraça...—interrompeu Ludovina, sem fitar os olhos no brasileiro.—Da minha parte, hei-de fazer o possivel por lhe não dar desgosto, porque o meu natural é bom, e ninguem, até hoje, se deu mal comigo.Ludovina ergueu-se, e pediu licença de retirar-se por um instante. D. Angelica entendeu-a, e seguiu-a pouco depois. Foi encontra'-la no quarto, afogada em soluços, curvada sobre o leito.—Que é isto, filha?—Nada, minha mãe...—É muito, Ludovina; que tens?—Precisão de desabafar assim. Estas lagrimas não fazem mal a ninguem. É uma victima que se entrega ao sacrificio, mas deixem-a chorar... Que vida, que futuro, meu Deus!—Ludovina, não chores, e escuta-me. Eu não imaginava que teu pae te dera a semelhante homem. Tens razão... É repugnante, e horroroso. Não casarás com elle, menina.{49}—Hei-de casar, minha mãe. Mal o vi ainda; não tive ainda tempo de sentir repugnancia ou horror... Choro como victima, mas não d'elle; é do outro que me matou.—Isso é que é cobardia, Ludovina! Pois não te fez nojo esse miseravel?—Fez, fez; mais que nojo... É preciso que elle se não persuada que minha mãe lhe mentiu, quando lhe disse que a sua intenção era dar-lhe parte do meu casamento. Devo casar muito depressa, o mais breve que seja possivel.—Casar por vingança?... Isto é um desforço desgraçado...—Não caso por vingança, que elle não vale o odio. Caso para salvar a nossa dignidade, minha mãe. Hei-de simular quanto possa o contentamento da mais feliz mulher. Não tenho já coração para sentir desgostos. Será tudo estupidamente alegria na minha vida. Toda a gente dirá que eu amo... meu marido. As pessoas que souberem do meu namoro com esse infame, dirão que devia ama'-lo muito pouco a mulher que se deixou casar com um homem ridiculo. Quero que se diga isto; quero que me assaquem a calumnia de que eu sou mais uma das mulheres que se venderam á riqueza. O que nunca ninguem dirá é que eu infamei o homem que me comprou... nunca, meu Deus!... Pois a mãe está chorando agora, depois de me ter ensinado a ver o mundo como elle é? Não se arrependa, minha boa mãe. Deu—me a maior prova de amor fazendo-me escutar o que{50}esse homem disse... palavras de tanta afflicção como vergonha para mim... Fiquei bem, estou desopprimida... vê? já não choro.D. Angelica abraçou com vehemencia a filha, beijou-a como beijaria a creancinha de peito, e saíu, enxugando as lagrimas. Entretanto, conversavam assim, na sala, os snrs. João José Dias e Melchior Pimenta:—Gostou dos modos da pequena, snr. Dias?—Gostei muito; mas, a falar-lhe a verdade, pareceu-me que ella não olhava direita para mim!—Recato de moça, pejo, e acanhamento, não acha que é muito natural?—Isso sim; mas dava aquellas respostas tão... tão... tão desenganadas, que parecia ter por mim sympathia de mais tempo...—Minha filha tem muito juizo, snr. Dias...—Não duvido.—E então quiz desde logo agradar a seu pae e a seu futuro marido.—Ora, olhe; o senhor não se lhe dá que eu tenha com sua filha, cá em particular, uma conversasita?—Pois não, snr. Dias! todas as vezes que quizer. Eu mesmo desejo que sonde o coração de Ludovina, e reconsidere a sua tenção, se vir que ella o não merece. Eu vou manda'-la.—Faça-me esse favor.Melchior procurou a filha, reparou nos indicios das lagrimas, e fingiu que os não percebia. Dizendo-lhe que viesse á sala, accrescentou:{51}—Lembra-te que fazes a tua felicidade e a de tua familia. Esse homem não será só teu marido, será um protector de todos os teus, e fará a tua independencia n'uma sociedade onde a formosura se estima como um meio de alcançar «fortuna», e a «fortuna» como um meio de se alcançar tudo. Entendeste-me, filha?—Entendi, meu pae.Ludovina entrou jovialmente na sala.—Minha senhora,—disse o brasileiro, gaguejando—Eu fui toda a minha vida negociante, apenas sei ler e escrever, e digo as cousas assim como ellas me vem á idéa. Ora bem; a menina está resolvida a ser minha companheira de toda a vida?—Sim, senhor, disse ainda ha pouco que sim.—É verdade que disse; mas póde ser que o dissesse para contentar seu pae, e lá no interior sentisse outra cousa.—Disse o que sentia, e repito o que disse.—Quem sabe se a senhora tinha alguma sympathia por ahi, e que lá por eu ter alguns vintens seu pae a fizesse voltar-se para outro lado?—Não, senhor, eu não tenho affeição a alguem.—Porque depois eramos ambos desgraçados; e eu devo dizer-lhe, que tudo o que eu mais tenho estimado n'este mundo é a minha honra; até hoje, louvado Deus, ninguem lhe pôz o dedo sujo; e seria mais facil eu deixar que me tirassem a vida do que a honra. Trabalhei muito anno para a conservar, cheguei até esta edade sem ser offendido, e assim d'estes cabellos brancos que{52}me vê, se alguem me atacasse a minha honra, tornava aos meus vinte e cinco annos. A menina entende-me?—Creio que entendi, e sinto que v. s.ª me esteja offendendo com as suas supposições injuriosas.—Isto é um modo de falar, sr.ª D. Ludovina, e perdoará se a offendi. Tudo o que lhe digo é em bem seu, e meu. Eu sou o que está vendo; a menina é nova e linda; se vê que se ha de arrepender, diga-me a verdade do seu coração, que eu arranjarei as cousas de modo que seu pae se queixe de mim e não da senhora.—Já disse a v. s.ª que desejo ser sua esposa; não sei que mais deva dizer-lhe. Não me hei de arrepender, porque espero merecer sempre a sua estima e confiança; mas tenho um favor a pedir-lhe.—Diga lá, seja o que fôr.—Desejava que ficassemos na companhia de meus paes.—Ficaremos; e quando formos passar algum tempo á nossa casa de Celorico, a nossa familia irá comnosco. Era só isso?—Não tenho outra ambição.—Isso pouco é... Ha-se de fazer tudo que a menina quizer: graças a Deus, temos mais que o preciso para satisfazer as nossas vontades. Agora, se quizer dizer a seu pae que já lhe disse o que tinha a dizer, vá lá, que eu fico á espera d'elle e de sua mãesinha para me despedir, até á noite.D. Ludovina chamou o pae, sem saír da sala. Melchior, lendo o bom resultado das suas reflexões na cara{53}jubilosa do radioso capitalista, convidou-o a jantar, quando elle se despedia. João José disse que jantára tres horas antes, e jantaria segunda vez com tão amavel companhia. Estava inspirado!E cumpriu a promessa. Jantou, fez muitos brindes, e o ultimo, e mais solenne que fez foi o seguinte:Á saude de quem de hoje a um anno ha de ser meu compadre, e minha comadre!Melchior Pimenta agradeceu.D. Angelica franziu a testa, fez-se branca de cera, e levou o calix aos labios.D. Ludovina córou até ás orelhas.A leitora faça o que quizer.Eu não ri, nem córei: deu-me para chorar como uma vide, quando me contaram isto.{54}{55}VInventou-se uma lua para os casados.Os irracionaes teem uma lua; essa entende-se, sabe-se o que é. Mas o aluarem-se, á força, os casados, é uma idéa ingrata á decencia, feia, e deshonesta.Uma senhora innocente que diz: «lua de mel» suja os labios, se preza a pureza n'elles; se, porém, sabe o que diz, se sabe o que é o favo, omelda lua, desdenha o pudor, e despreza-se.Os noticiaristas das gazetas aforaram a phrase, sem saberem, talvez, que desaforavam as palavras. Os diarios do Porto, em 1856, noticiaram assim um casamento:«Hontem ás nove horas da manhã, contraíram o sacramento do matrimonio o ill.mosr. João José Dias, rico negociante que foi no Rio de Janeiro, com a ex.masr.ª D. Ludovina da Gloria Pimenta, filha do nosso amigo Melchior Pimenta. O sr. Dias deve á fortuna a escolha de uma noiva tão rica de prendas moraes como de formosura{56}angelica. A gentil menina encontrou um honrado protector, cuja fortuna, sendo immensa, vale menos que a briosa reputação que tem. Os esposos vão passar aLUA DE MELá sua quinta de Celorico de Basto, para onde partiram hontem de manhã acompanhados dos numerosos amigos dos ditosos consortes. Diz-se que o sr. Dias vae mandar construir um palacete no Porto, onde tenciona fixar a sua residencia. Damos os parabens á cidade invicta por tão valiosa acquisição.A local está redigida a primor, como lá se faz sempre nas gazetas; mas aquellaLUA DE MELindigna-me.Se querem que haja por força uma lua para os que se casam, façamos umas poucas de luas:Lua de mel;Lua de cicuta;Lua de laudanum;Lua de tartaro emetico;Lua de mostarda ingleza;Lua de oleo de ricino;Lua de fel da terra;Lua de salsa-parrilha;Lua de raspa de veado;Lua de jalapa;Luas tónicas, luas antiphologisticas, luas irritantes, luas vomitas, luas drastricas, etc.Convém, de seguida, observar, que a lua não influe por egual nos dois noivos. Cada um deve ter sua, nos casos exceptuados de casamento por paixão reciproca.{57}Tal marido é aluado em ovos molles, e sua mulher em jalapa.Tal noiva saboreia-se nos dulcissimos favos da colmeia lunar, e o homem enjoa um cozimento salobro de raspa de veado, animal que muitas vezes lhe lembra, por causa das virtudes medicinaes, e outras causas.Qual d'essas luas influiria em João José Dias, e qual em D. Ludovina da Gloria?Eu não decido, porque sou supinamente ignorante em astrologia judiciaria. Conto os factos, e deixo as luas ao arbitrio do leitor.Fez-se o casamento, e effectivamente partiram os conjuges para Celorico de Basto. D. Angelica tambem foi. Melchior Pimenta ficou para comprar terreno, e contractar o architecto e alveneis que deviam fazer o palacete, a toda a pressa.Os cavalheiros de Basto receberam cartão do casamento. Esta usança das familias de bem, desconhecida a João José Dias, fôra lembrança da previdente D. Angelica: o fim era relacionar sua filha com as familias mais tractaveis de Basto, para que estas visitando-a, segundo o ceremonial, a distrahissem das melancolias do noivado.Tudo lhe saíu ao pintar dos seus projectos. A fidalguia circumvizinha não desdenhou as relações do capitalista. O cartão enviado ás senhoras dizia:{58}D. ANGELICA THEODORINA DA MESQUITA PEREIRA SOUSA PINTO CASTRO LEITE E LEMOSTEM A HONRA DE PARTICIPAR A V. EX.ªO CASAMENTO DE SUA FILHAA EX.MASR.ªD. LUDOVINA DA GLORIA PIMENTA DA MESQUITA PEREIRA SOUSA PINTO CASTRO LEITE E LEMOSCOM O ILL.MOSR.JOÃO JOSÉ DIASOs appellidos heraldicos abalaram os espiritos pechosos d'aquella fidalguia de travessão que por alli enxamêa.Devia ser filha segunda de casa muito distincta a que descera até aos fabulosos milhões do João da Chan-de-Cima: diziam-n'o assim os que d'aquelle modo chasqueavam o brasileiro, pouco dado com fidalgos.Consentiram algumas familias em visitar os noivos. Um dos fidalgos, esmerilhando a procedencia genealogica de D. Angelica, descobriu que um seu tio-visavô sahira da casa dos Ciprestes para ir entroncar na nobilissima familia dos Pereiras e Sousas, em Paços de Gaiôlo, d'onde era oriunda a avó de D. Angelica. Feito o descobrimento, D. Ludovina achou-se prima de tudo que faz o lustre e ornamento de Celorico, Cabeceiras, Arco, e terras de Barroso.João José Dias tambem era primo dos primos de sua mulher; e, de si para si, ao bom do homem dava-lhe para rir-se á socapa da parentella. A lingua não se lhe ageitava a chamar primos aos fidalgos da casa dos Ciprestes,{59}aos do Reguengo, aos da Capella, e outros que frequentavam, mais do que elle queria, a casa e o espirito attrahente da sua sogra, espanto das fidalgas analphabetas.Sem embargo, o capitalista simulava affectuosa estima aos hospedes, e contentamento com o ar festivo que sua mulher mostrava, tendo visitas.D. Ludovina pagava as visitas, passava as noites em sociedade, primava em tafularia, ensinava as primas a vestirem-se, cuidava dos seus enfeites com desvelo, e gastava com seu marido o tempo necessario para projectarem passeios, romarias, e saraus por aquellas redondezas.Annuia o conjuge, folgazão no rosto, e zangado por dentro. O bom siso dizia-lhe que sua mulher era uma creança, vezada a bailes, e ainda verde para gostar da quietação domestica. Bem via elle a innocente alegria com que Ludovina andava nos honestos brinquedos, e o desapercebimento, se não desprezo, com que ella acceitava as louvaminhas dos primos.D. Angelica entendia o que o seu genro calava; conhecia a violencia que elle fazia ao genio e aos annos ronceiros, para andar n'aquella lufa-lufa de visita em visita, bifurcado n'um macho, que lhe contundia as carnes com o chouto ingrato. Receosa de que a impaciencia rebentasse em fim por algum dito menos delicado á mulher, quiz ella prevenir o desgosto de ambos, dizendo uma vez á filha:«Convém conformarmo-nos um pouco aos costumes{60}de teu marido, Ludovina. Teu homem não foi assim educado, e os annos extranham esta transição.—Que quer a mãe que eu faça?«Que espaces os teus passeios e visitas, que vivas mais em tua casa, que tenhas com elle algumas horas mais de convivencia.—Que hei de eu dizer-lhe?!«O que has-de tu dizer-lhe?!...—Sim, mamã. Temos occasiões de estar duas horas juntos sem trocarmos tres palavras. Sou amiga d'elle; mas não sei como hei-de mostrar-lh'o de outro modo. Se querem que eu não receba visitas, nem vá a casa de quem me visitou, estarei em casa, contemplando os carvalhos e os castanheiros; mas eu não creio que se possa viver assim na aldeia. Se elle ainda me não disse nada, porque ha de a minha mãe censurar-me este desabafo que eu preciso? Eu a fugir de falar na minha situação, e a mãe a lembrar-m'a! Cuida que sou feliz? Diga, mãe, está persuadida que eu devo estar extasiada de contentamento deante de meu marido?«Não creio que te devas extasiar, mas tambem não approvo que te arrependas. Como explicas tu a consideração, o respeito com que és tractada? Pensas que o seres casada com este homem te desmerecesse aos olhos d'esta gente, que lhe chama parente?—E a felicidade é isso, mãe?!«A felicidade não é cousa nenhuma d'esta vida, e, se alguma existe cá, é a que dá á consciencia da mulher casada o prazer de não envergonhar seu marido.{61}—Que palavras! Isso que quer dizer, minha mãe?«Não t'as applico, Ludovina: respondi á tua pergunta. A felicidade no amor é um creancice dos quinze annos, e ás vezes dos quarenta; mas o desengano vem com todos os homens e com todas as edades. Não te persuadas que a vida te seria aqui mais risonha, por muito tempo, com um marido de tua escolha. Este homem, d'aqui a tres mezes, has-de ama'-lo como se ama um amigo. O outro, d'aqui a tres mezes, ama'-lo-ias com o afflictivo amor da mulher que enfastia, que se vê cada vez mais aborrecida, e compara os ardores dos primeiros mezes de casada com a fria sequidão dos que traz o cansaço. Poupaste-te ao maior dos infortunios, que é esse para a mulher que não quer curar a chaga do amor a seu marido com a peçonha da infidelidade, comprehendes-me, Ludovina? Eu não consinto que tu, sequer, recordes alguns exemplos de mulheres casadas que viste conciliadas com o despreso dos maridos, acceitando a adoração de outros, como vingança, e fazendo do crime uma necessidade. Lembra-te só d'ellas como mulheres que casaram apaixonadas, que doudejaram de alegria nos primeiros tempos, e pareciam cheias de felicidade para toda a vida. Não te recommendo paciencia, Ludovina, porque ninguem te dá causa de soffrimento; recommendo-te juizo. Este homem ha-de merecer a tua amizade: logo que a tenha, viverás da melhor affeição, da que mais dura n'este mundo; terás o bem que raras vezes fica de um amor ardente.Estas e outras palavras modificaram a força motriz{62}de D. Ludovina. Os passeios rarearam-se, os convites para reuniões foram esquecendo á mingua de estimulo e as massas amollecidas do sr. João José Dias recobraram vigor, com não menos gaudio do velho macho que as caminhadas traziam desmedrado e manhoso.Estava já a lua de mel em quarto minguante, quando os noivos, voltando para o Porto, foram hospedar-se na casa paterna, em quanto não alugavam casa provisoria, onde esperassem que o palacete se fizesse.João José Dias foi agradavelmente surprehendido em casa de seu sogro.Convidado para um baile, em que Ludovina ia ostentar preciosissimos recamos de brilhantes, que seu marido lhe déra na vespera do casamento, João José Dias ao vestir a casaca nova, que seu sogro lhe mandava ao quarto n'uma bandeja, viu uma commenda pregada n'ella, e sobre uma salva de prata um collar com a cruz da ordem de Christo, pendente de um vistoso laço de fita.—Que diabo é isto?—disse elle ao creado no requinte do pasmo.«É um presente que faz a v. exc.ª o sr. Melchior.—Diz-lhe que venha cá, e pega lá para cigarros—dizendo isto, o commendador lançou á salva... sete centos e vinte.Não vos assombre este lance dadivoso de grandeza. Em successos de menor estimulo á munificencia, sei de outros arrojos de liberalidade, que desbancam João José Dias.{63}Ahi vão de passagem dois exemplos:Um visconde, opulento pelos dons de uma bestial fortuna que o ama como a cousa sua, compra um quarto de bilhete da loteria hespanhola. O rapaz que, á custa de muito teimar, lh'o vendera, vae dar-lhe a nova de que a cautela fôra premiada com quatro mil duros. O visconde manda esperar o alviçareiro moço e traz-lhe umas calças de cutim sem fundilhos.Outro, na passagem do rio Douro, escorrega do barco para a corrente, e mergulha; passados instantes, emerge á tona d'agua resfolegando, e pedindo soccorro. Travam-no os braços robustos do barqueiro que, em risco de morte, consegue salva'-lo, Vae leva'-lo á familia, mandam-no esperar á porta da rua, e recebe, como salvador d'uma vida cara aos seus, uma vida que os jornaes pranteariam com tarjas da grossura de um dedo, e vinhetas das mais funebres da typographia, recebe, finalmente, setecentos e vinte em cobre.Isto é publico e notorio; mas não estava em chronica. Receio maguar a modestia dos generosos cavalheiros, por isso resalvo os nomes. Na quinta edição d'este livro, havidos os consentimentos respectivos, serão postos em estampa, para inveja de miseraveis sovinas, e estimulo á profusão da presente raça.O commendador não era fona. Esse caínho feito não desluz os bizarros presentes que fazia á esposa e aos sogros. Ludovina era o primor da casquilhice, e do mais rico em gosto e droga. Para cada baile, para cada exposição do theatro lyrico, um vestido não visto, só comparavel{64}aos que trajára antes, e inferiores aos que trazia depois.Osleõessertanejos, estes cinco ou seis pataratas, senhores de uma gloria tão productiva, que faz lembrar a dos dominios da corôa portugueza na Ethiopia, Arabia e Persia, os leões honorificos do Porto, se assestavam pertinazes os oculos na peregrina esposa do commendador, o mais que conseguiam era realisar o anexim nacional: «—viam-na por um oculo.»João José Dias envesgava o olho de soslaio por sobre as feras; e, a meu ver, seria elle homem bastante para realisar, já não com um, mas com todos, a fabula do leão espinotado pelo orelhudo.O commendador tinha em sua mulher inteira confiança, nada lhe alterava o conceito bem merecido; todavia era accessivel ao ciume sem causa. Nos bailes, andava o pobre homem sempre assustado. Não tinha socego, nem póro que não estilasse o suor da apoquentação. As affabilidades mais triviaes e innocentes da cortezia, um sorriso de Ludovina ao par dançante que a deliciava com ensosso palavrorio, o menor gesto de attenção a que a delicadeza obrigava a festejada dama, isso era um adstringente doloroso que apertava as entranhas do commendador.N'um d'esses bailes, em que João José Dias emagreceu duas polegadas na circumferencia, appareceu Ricardo de Sá, que nunca mais vira Ludovina desde a vespera da sua derrota.Audacioso até ao desatino, teve a petulancia de aprumar-se{65}diante de Ludovina, com a luneta insultante. A filha de D. Angelica pediu o braço a uma amiga e saíu d'aquella para outra sala. O commendador não fôra extranho ao acto, e seguiu-a com disfarce. Ricardo, brincando com os berloques do relogio, e tregeitando o habitual sorriso do homem tragico de romance, seguiu de longe as duas amigas, simulou um encontro casual, estacou diante d'ellas, e montou a luneta.D. Ludovina rodou sobre o calcanhar e voltou-lhe as costas. Á cabeça do commendador subiu um repuxo de sangue, e os lobulos das orelhas fizeram-se-lhe escarlates como ginjas.D. Angelica, que espiava o successo da sala proxima, acercou-se de Ricardo de Sá, fitou-o com fulminante soberania, e disse-lhe a meia voz:—O senhor é um miseravel tolo, que incommoda. Se se estima alguma cousa, não me obrigue a encarregar o boleeiro de minha filha de responder ás suas provocações.—Mude de sexo como Theresias, e falle-me depois—disse Ricardo, dando á perna direita o costumado repuxão dos elegantes.O commendador veio ao encontro de D. Angelica, e disse-lhe:—«Aquelle sujeito com quem a senhora falou agora, não é um homem que eu encontrei em sua casa a primeira vez que lá fui?—É.—Que diabo anda elle a prantar-se diante de Ludovina?{66}—Já reparei n'essa acção repetida. Eu lhe conto, dê um passeio comigo—E tomando-lhe o braço, D. Angelica continuou:—Este homem foi uma afeição innocente de minha filha, e é hoje um ente desprezivel para ella e para mim.—Escreviam cartas um ao outro?—interrompeu o commendador, bufando.—Escreviam, sim...—Porque me não disse isso a senhora?!—Porque não merecia a pena dizer-lh'o. Que é escreverem-se cartas?—Não é pouco, acho eu... E como acabou isso?—Acabou, dizendo eu a esse homem que não voltasse a minha casa.—E que quer elle agora?—Vingar-se da unica maneira que póde: affligir minha filha... Ella ahi vem... não falemos n'isto.D. Ludovina disse affectuosamente ao marido:—Vamos embora? eu estou incommodada.—Vamos, disse a mãe.—N'esse caso, vou chamar a carruagem; esperem um pouco, que eu venho já—disse o commendador.As senhoras foram esperar na sala menos concorrida. D. Ludovina arquejava em ancias, e falava aceleradamente a sua mãe.Entretanto, João José Dias entrou na sala onde se dançava, e viu na porta fronteira Ricardo de Sá encostado, com a luneta em acção, e o cotovello direito apoiado na mão esquerda.{67}Foi ao pé d'elle e disse-lhe:—O senhor sabe quem eu sou?—Creio que já o vi em alguma parte.—Faz favor de vir aqui que lhe quero fallar.Ricardo seguiu-o machinalmente, atravessou um corredor, e parou n'um patamar deserto:—Eu sou o marido d'aquella senhora que vocemecê insultou lá dentro.—Essa é muito boa! Eu não insultei senhora alguma!—Se insultou ou não, sei eu. Fique-lhe de aviso que a sr.ª Ludovina tem um marido de quarenta e tantos annos, isso é verdade, mas capaz de pegar n'uma orelha dos pandilhas como vocemecê, e dar-lhe com a cabeça n'uma esquina, tem percebido?O commendador desceu as escadas, e Ricardo de Sá, estupefacto e aturdido, atravessou o corredor, e entrou nas salas.Pouco depois, entravam na carruagem D. Ludovina e sua mãe. O commendador não lhes disse palavra com referencia ao desforço solenne que tirára do bacharel.Isto, se eu o não contasse, era cousa que morria ignorada porque o auctor embrionario doSECULO PERANTE A SCIENCIAnunca a diria.{68}{69}VIEsta inquietação damnificou a vida menos má do commendador, e o socego, apparentemente feliz, de Ludovina. A paz existia; era, porém, como a serenidade presagiosa de trovoada.O marido recebia os convites para bailes, e queimava, á surrelfa, as cartas. Ludovina admirava o esquecimento, sem aventurar uma pergunta. Estes rebuços são a desgraça das familias, e o rastilho de polvora que espera uma faisca.Ao theatro iam raras vezes. O commendador adoecendo quasi sempre no dia da recita, supportou no estomago muitas papas de linhaça, sem precisão. O seu achaque postiço era uma inflammação intestinal.D. Angelica censurava o procedimento do genro; mas calava-se, para não dar anso á filha de romper em queixumes, que abafava com a esperança de melhor vida, ou desafogava em carpir-se sósinha. Melchior Pimenta achava que tudo ia bem, e dava-lhe mais cuidado a esperançosa{70}apparição de um neto que a irritação de entranhas do capitalista.Acabára-se o palacete, e fez-se a mudança. O commendador não convidava os sogros para viverem com elle. Ludovina, reagindo contra a tyrannia simulada disse que não saía da casa onde nascera, sem levar seus paes. João José acreditou na resolução, e disfarçou o intento, dizendo que nunca tivera outro.Ludovina queixava-se á mãe da reclusão em que vivia cheia de aborrecimento e tedio; perguntava se era aquella a felicidade que dava o dinheiro; dizia que a pobreza e o ar livre eram preferiveis ao goso de cincoenta vestidos que se traçavam no guarda roupa, e da luxuosa mobilia que ninguem admirava.D. Angelica, já aborrecida tambem, prometteu á filha entender-se com o genro, e muda'-lo por meios suaves.—Que motivo ha, snr. commendador—disse D. Angelica—para se encerrar n'esta casa, cortando as suas relações com a sociedade que tão bem o tratava?«Eu vivo assim melhor.—Viverá!... não creio. O senhor, quando estivemos em Celorico, divertia-se nas sociedades, e já no Porto parece que folgava de que o vissem com sua mulher em toda a parte...«Estou velho para andar a perder as noites. Esta minha inflammação de entranhas não me deixa. A saude está em primeiro logar.—Tem razão; mas n'este mundo só se vive bem, sacrificando-se a gente uma á outra. O senhor é casado{71}com uma menina habituada aos innocentes prazeres da sociedade, e eu, se me dá licença, dir-lhe-hei que não consentiria um casamento entre genios tão contrarios, se previsse o que está acontecendo.«Então que é?—É que minha filha não póde assim viver contente.«Agora não! ella não se queixa: a senhora é que toma as dôres por ella.—Não se queixa porque é muito delicada, muito soberba, ou uma sancta. O peor será quando ella se queixar... Isto assim vae mal, sr. Dias; mude de vida, confie em sua mulher que é um anjo de virtude, incapaz de offender a sua dignidade.«Não duvido; mas estou melhor assim, e ella tambem não está mal, acho eu. Quem casa vive para seu marido, e para os filhos, se os tem. Isso de andar de bailarico em bailarico é bom para as raparigas solteiras que andam á pesca de marido. Até parece mal uma mulher casada a saltarilhar com um homem que lhe pega pela cinta, e anda alli com a cara ao pé da d'ella. Nada de bailes, sr.ª D. Angelica. Minha mulher, se quer passear tem ahi uma carruagem e eu estou prompto a acompanha'-la para toda a parte.—Pois bem, não se frequentem os bailes, mas conservem-se as relações da nossa casa. Ludovina tem amigas, que extranham muito a vida encarcerada que ella passa. Porque não ha-de sua mulher visitar e receber as visitas de suas amigas?«E isso de que livra? Isto de mulheres umas com as{72}outras não dizem cousa boa. O melhor é cada um em sua casa.—Que razão essa tão... tão singular!«A final de contas, sr.ª D. Angelica, eu estou em minha casa, e entendo que faço bem. Não se lucra nada em apparecer. O mundo está uma pouca vergonha. Eu já sei como está o Porto, e como se vive por ahi. Não quero que minha mulher ande nas bôcas do mundo. Se Ludovina não fosse ao baile, onde lhe appareceu o tal namorado que ella teve, não tinhamos todos a zanga com que sahimos de lá. Em casa, em casa é onde se está melhor.—Eu não me responsabiliso pelas consequencias, sr. Dias. Ludovina tem brios e pundonor; se ella desconfia que v. s.ª a encerra em casa, por suspeitar da lealdade d'ella, teremos grandes desordens e não terei poder para accomoda'-las.«Eu não desconfio de minha mulher; se não vou aos bailes, é porque não quero que os outros desconfiem, e acabou-se.O dialogo ficou aqui; mas ha ahi duas linhas que fazem honra á intelligencia equivoca de João José. Merecem ter segunda edição de versaletes:EU NÃO DESCONFIO DE MINHA MULHER; SE NÃO VOU AOS BAILES É PORQUE NÃO QUERO QUE OS OUTROS DESCONFIEM.Isto é uma grande idéa, das quatro idéas grandes que apparecem em cada seculo, e que, por engano, entrou na cabeça inhospita do commendador.{73}Pesem bem o quilate das duas linhas, que me ministrou João José, e verão que as melhores d'este livro são ellas.O marido, que me está lendo, se tem cincoenta annos, e espreita os vinte de sua mulher, através do vidro embaciado que a experiencia lhe vendeu caro, não deve já agora perder a esperança de dizer, no auge do seu ciume, alguma cousa que possa ler-se em lettra redonda.A indignação fazia os versos de Juvenal; porque não ha de o ciume fazer as prosas toleraveis dos maridos?A idéa de João José, se fosse minha, ninguem me aturava a vaidade. Rogo aos escriptores contemporaneos, e aos futuros sabios, alinhavadores de remendos alheios, que se escreverem a seguinte maxima:Ha maridos que não desconfiam das mulheres; mas não vão aos bailes para que os outros não desconfiem;escrevam por baixo —O commendadorJOÃOJOSÉDIAS.As pessoas que melhores idéas engendraram, não teem sido as mais felizes. O commendador pertence ao martyrologio dos grandes pensadores. Os fados, os estupidos fados hão de castiga'-lo por essas poucas palavras com que elle arranjou um nicho, pôdre de barato, no templo da memoria.O castigo começa.{74}{75}VIILudovina disse um dia a sua mãe:—Estou casada ha treze mezes, e sinto-me velha. Até aqui obedeci como creança, a minha mãe, a meu pae, e a esse homem, que entrou na nossa familia com certa auctoridade que me intimidava. Eu fui sempre docil, docil até á pusillanimidade. Se a violencia não fosse tamanha, este homem que chamam meu marido, teria feito a escravidão da minha alma para sempre. Assim não póde ser. Sinto-me outra; perdi os costumes de creança; envelheceram-me com os desgostos continuos, e por isso hão de soffrer-me agora emancipada.—Que vem tudo isso a dizer, Ludovina?—Que quero a minha liberdade, que hei de passar por cima da oppressão á custa de tudo.—Ludovina! que linguagem é essa?—É a da desesperação, e da justiça. Não pratiquei sombra de mau acto, por onde mereça este amargo viver que me dão. Quero saber porque vivo apartada das{76}minhas amigas, e dos recreios, d'onde a minha reputação saíu sempre sem mancha.—A quem o perguntas, a mim?—Sim, á mãe, ao pae, e depois pergunta'-lo-hei ao dono d'esta casa, ao dono dos meus vestidos e dos meus braceletes. Se este me disser que a minha liberdade é o preço d'essas cousas, deixo-lh'as, e peço a meu pae a subsistencia que me dava d'antes. Se m'a negarem, Deus me inspirará o destino que me convém. Isto ha de decidir-se hoje. Ninguem soffria tanto tempo, por amor proprio, ou pela virtude da paciencia.—Tens direito a interrogar teu marido, Ludovina; mas sê prudente; vence-o com razões moderadas, por não dizer humildes.—E se elle, por maldade ou por ignorancia, suspeitar da pureza das minhas intenções?—Fala-lhe como deve falar uma senhora, e confundi'-lo-has.Veiu o commendador cortar o colloquio. Nunca tão achamboada e trombuda se mostrára a lerda physionomia do personagem. N'essa occasião, o achaque intestinal era veridico, segundo o testemunho do semblante. Era o ideal da fealdade, então, o sr. Dias!D. Angelica, instada por um gesto da filha, deixára-os sós.—É a primeira vez—disse Ludovina, sentada n'uma cadeira de braços estofada, com a formosa face encostada á palma da mão direita, e uma perna sobre a outra balouçando-se, deixando ver o pé de fada, através{77}do rendilhado da saia que a velava.—É a primeira vez que falo a meu marido como se deve falar a um marido. Até aqui tratei-o como se trata um amigo que se respeita, um tio, um pae d'esses com quem se não tem muita confiança.O snr. Dias abriu a bôca para entender melhor. D. Ludovina proseguiu:—Poucas filhas ha tão respeitadoras como eu lhe tenho sido na qualidade de mulher. Tudo que ha n'esta casa, snr. Dias, seu tem sido, como seria, se eu aqui não fosse mais que uma pessoa extranha, sujeita á sua generosidade. A sua vontade é o movel das minhas acções. Em quanto o senhor me concedeu a liberdade honesta, que meus paes me concediam, acceitei-a, sem lh'a agradecer, porque achei isso tão natural como absurdo e impossivel o contrario. Logo que o senhor, sem me explicar a causa da sua mudança, de repente me afastou da sociedade, como se faz ás pessoas incapazes de viverem n'ella, acceitei tambem, sem me queixar, o captiveiro, e supportei-o seis mezes como uma mulher culpada que expia a culpa com a paciencia muda. O snr. Dias, sem saber o que fez, expoz sua mulher aos commentarios offensivos que a sociedade ha de ter feito á minha ausencia repentina. Deu um escandalo, sem necessidade de evitar outro. Disse á sociedade que não tinha bastante confiança em mim para me levar onde ha o bom e o mau.«Estás enganada, menina, eu não disse isso a ninguem—interrompeu o commendador, que andou ás aranhas{78}muito tempo antes que traduzisse para vulgar o estylo sentencioso da filha e discipula de D. Angela.—Não o disse com a palavra; mas disse-o com as acções. Privando-me de ir aos bailes, de frequentar o theatro, de receber as minhas amigas de collegio, e as relações de minha familia, o que diria a sociedade?«Lá o que ella quizer, menina...—O que ella quizer, não, snr. Dias! Não consinto que se façam de mim conjecturas desairosas. Requeiro que o senhor me explique o motivo d'esta separação injusta a que me fórça.«Não te zangues, Ludovina... Foi tua mãe que te metteu na cabeça essas palavras? Bem diz lá o ditado: «Livra-te da sogra, que eu te livrarei do diabo.»—Respeite minha mãe, senhor! Eu não falo pela bôca de minha mãe; o meu silencio até hoje não era estupidez nem insensibilidade: era amor proprio, e outro sentimento mais nobre que o senhor não entende. Vamos ao essencial, snr. Dias. Teve alguma razão para me privar de viver como vivem todas as mulheres casadas da boa sociedade?«Não, já disse que não. A cousa é outra...—Qual é essa outra cousa?«As boas pagam pelas más, e não ha mulher honrada para certa gente que vae aos bailes e aos theatros.—Pois eu não estou disposta a sacrificar-me ás mulheres indignas. A minha consciencia é o meu juiz. Não me importa o que se diz de mim.{79}«Essa é de cabo de esquadra! Pois não se te importa o que se diz de ti?—Que se diz, snr. Dias?«Não sei; mas... elles lá sabem o que dizem.—Elles quem? accuse-me sem piedade; repita as affrontas que me fazem; tenha a coragem de calumniar-me, se lhe é preciso inventar os meus crimes.«Tu estás fóra de ti, Ludovina! Isso não é assim! Ahi anda espirito-santo de orelha... O teu genio não é esse...—O meu genio é a minha dignidade, n'este caso. Responda-me: Offendi a sua honra?«Não, já disse duas vezes que não.—Faltei aos meus deveres de esposa?«E ella a dar-lhe!—Pois bem: quero viver como vivi nos primeiros seis mezes da nossa união. Quero ir ao theatro, aos bailes, ás visitas, como ia em solteira. Quero receber as minhas relações, como as recebi antes de ter metade da sua riqueza. Quero uma inteira liberdade como premio do meu procedimento para comsigo. Quero...«Então isto, pelos modos, é «nós, el-rei, e justiça de Fafe!» Aqui não ha rei nem roque n'esta casa? é quero, e mais nada?—Quero, sim, porque é de justiça o que já não tenho a baixeza de pedir; mas quando não, snr. Dias, meus paes teem uma casa estabelecida, e sobejos meios para eu me declarar independente d'essas riquezas com que o senhor me dotou, e que eu, de todo o meu coração,{80}rejeito, porque não acceito o preço porque fui vendida.Ludovina, já de pé, com o rosto inflammado, e os bellos olhos coruscantes de cólera, sahiu de um impeto, deixando o commendador attonito na mais palerma immobilidade. D. Angelica ouvira tudo;—Excedeste-te, Ludovina—disse ella—mas fizeste-me orgulhosa de ser tua mãe. Acceito, de hora em diante, a responsabilidade das tuas palavras, seja ella qual fôr.João José Dias nem palavra n'aquelle dia e no seguinte. Ao terceiro havia theatro lyrico. D. Ludovina mandou buscar camarote. Ás sete horas e meia mandou pôr os cavallos á sege, e disse a seu marido se a acompanhava ao theatro. O commendador fez-se verde-garrafa, desenrugou as palpebras quanto poude, e pasmou os olhos suinos na attitude imperiosa de Ludovina, que apertava o botão da luva, e enroscava no collo as marthas.—Vem, ou não?—repetiu ella.«Espera, que eu visto-me—disse o commendador, tomado d'uma especie de susto irreflectido, que em muitos maridos é o corollario de demorados raciocinios.Fez impressão o apparecimento de Ludovina. Acharam-n'a mais donosa os amadores do pallido. O viço da florescencia tinha murchado ao lento deseccar da melancolia. Ficára a pelle assetinada, com as alvuras do desmaio, realçando o vivido fulgor dos olhos negros, assombrados da côr-violeta, que tanto encarece o rosto dolorido. Ponderaram os analystas que os tecidos cellulares{81}do commendador estavam cada vez mais chorumentos e luzidios. Segredaram-se, ácerca das medranças d'elle, pilherias que incitam o riso, e ferem o melindre de ouvidos pudibundos.Estes colloquios, que a estampa rejeita, ciciavam, por entre frouxos de riso, nos camarotes, onde estava a propria virtude, com cabellos á Stuart, e despeitorada á Aspasia.Ludovina falava com meiguice ao marido, explicando-lhe o entrecho doTrovador, e aguçando-lhe a compuncção nas lamentações finaes da Ponti, que o commendador denominava uma «comedianta de mão cheia.» O ar de felicidade que se mutuavam, era o espanto dos observadores, e o castigo da maledicencia desapontada.Seguiu-se um baile. A carta de convite não ficou, d'esta vez, no escriptorio do commendador. Ludovina primou mais que nunca em enfeites. A inflammação deu treguas ás entranhas de João José Dias. Era para ver como elle se tornava, sadio e durazio, aos prazeres do mundo.Mas o interior de João José? Era um incendio para que a philosophia humana não inventou ainda bomba efficaz! Era o inferno do mouro de Veneza chorriscando aquelle humano torresmo!Que via elle para se moer assim? Nada. Ludovina nem, sequer, dançava já danças de roda, de contacto, de aperto, e raras contradanças acceitava. Os cavalheiros, que se avizinhavam d'ella, com liberdade, eram os amigos de seu pae, ou de seu marido. Os outros, repellidos{82}pela sisudez e gravidade com que os ella recebia, denominavam-na uma virtuosa grosseira, e apostavam que andava alli influencia de capellão incognito.Que sandeus ciumes, eram, pois, os do commendador, que a fortuna poupava á sorte de pessoas tão conspicuas, e bem ageitadas de corpo e alma?Batei n'esta sáphara, entendedores do coração humano, esmerilhadores do intimo dospredestinadoseminothauroseSganarellosao alcance da sciencia humana.Cançar-vos-heis sem achar a razão da cousa. O axioma foi proferido ha quatro annos, e já tem tres edições com esta:Ha maridos que não desconfiam das mulheres; mas não vão aos bailes, para que os outros não desconfiem.O commendadorJOÃOJOSÉDIAS(passim).{83}
—Então a pequena está incommodada?—perguntou Melchior a sua mulher, que não declinava os olhos do cepo informe do sr. João José Dias.
—Um pouco incommodada.
—Vaes dizer-lhe que venha á sala, menina?
—Irei.
—Estou boa, papá—disse Ludovina entrando subitamente, e cortejando o hospede, que ella reconhecera de o ter visto outra vez.
—Tem a bondade de sentar-se, snr. Dias?—disse Melchior ao acanhado brasileiro, que mal pudera gaguejar um «creado de vossa senhoria» que corrigiu bruscamente em «vossa excellencia.»—Minha filha, quando hontem te disse que a Providencia me deparára para ti um digno marido, era d'este senhor que te falava.
—Tenho muito prazer em conhece'-lo—atalhou Ludovina com uma affabilidade e desembaraço que espantou a mãe, alegrou o pae, e lisonjeou o noivo.
—Para satisfazer a uma exigencia d'este cavalheiro—continuou Melchior—é preciso que tu digas se acceitas{48}livremente a minha escolha, ou direi melhor a escolha com que te distinguiu o sr. Dias.
—Acceito muito de minha livre vontade—respondeu com firmeza D. Ludovina.
—Não lhe restam escrupulos?—tornou Melchior inclinando-se para o brasileiro.
—Não, senhor—disse elle—Estou satisfeito; o que eu não queria era que a menina viesse um dia a arrepender-se... e...
—Não espero tal desgraça...—interrompeu Ludovina, sem fitar os olhos no brasileiro.
—Da minha parte, hei-de fazer o possivel por lhe não dar desgosto, porque o meu natural é bom, e ninguem, até hoje, se deu mal comigo.
Ludovina ergueu-se, e pediu licença de retirar-se por um instante. D. Angelica entendeu-a, e seguiu-a pouco depois. Foi encontra'-la no quarto, afogada em soluços, curvada sobre o leito.
—Que é isto, filha?
—Nada, minha mãe...
—É muito, Ludovina; que tens?
—Precisão de desabafar assim. Estas lagrimas não fazem mal a ninguem. É uma victima que se entrega ao sacrificio, mas deixem-a chorar... Que vida, que futuro, meu Deus!
—Ludovina, não chores, e escuta-me. Eu não imaginava que teu pae te dera a semelhante homem. Tens razão... É repugnante, e horroroso. Não casarás com elle, menina.{49}
—Hei-de casar, minha mãe. Mal o vi ainda; não tive ainda tempo de sentir repugnancia ou horror... Choro como victima, mas não d'elle; é do outro que me matou.
—Isso é que é cobardia, Ludovina! Pois não te fez nojo esse miseravel?
—Fez, fez; mais que nojo... É preciso que elle se não persuada que minha mãe lhe mentiu, quando lhe disse que a sua intenção era dar-lhe parte do meu casamento. Devo casar muito depressa, o mais breve que seja possivel.
—Casar por vingança?... Isto é um desforço desgraçado...
—Não caso por vingança, que elle não vale o odio. Caso para salvar a nossa dignidade, minha mãe. Hei-de simular quanto possa o contentamento da mais feliz mulher. Não tenho já coração para sentir desgostos. Será tudo estupidamente alegria na minha vida. Toda a gente dirá que eu amo... meu marido. As pessoas que souberem do meu namoro com esse infame, dirão que devia ama'-lo muito pouco a mulher que se deixou casar com um homem ridiculo. Quero que se diga isto; quero que me assaquem a calumnia de que eu sou mais uma das mulheres que se venderam á riqueza. O que nunca ninguem dirá é que eu infamei o homem que me comprou... nunca, meu Deus!... Pois a mãe está chorando agora, depois de me ter ensinado a ver o mundo como elle é? Não se arrependa, minha boa mãe. Deu—me a maior prova de amor fazendo-me escutar o que{50}esse homem disse... palavras de tanta afflicção como vergonha para mim... Fiquei bem, estou desopprimida... vê? já não choro.
D. Angelica abraçou com vehemencia a filha, beijou-a como beijaria a creancinha de peito, e saíu, enxugando as lagrimas. Entretanto, conversavam assim, na sala, os snrs. João José Dias e Melchior Pimenta:
—Gostou dos modos da pequena, snr. Dias?
—Gostei muito; mas, a falar-lhe a verdade, pareceu-me que ella não olhava direita para mim!
—Recato de moça, pejo, e acanhamento, não acha que é muito natural?
—Isso sim; mas dava aquellas respostas tão... tão... tão desenganadas, que parecia ter por mim sympathia de mais tempo...
—Minha filha tem muito juizo, snr. Dias...
—Não duvido.
—E então quiz desde logo agradar a seu pae e a seu futuro marido.
—Ora, olhe; o senhor não se lhe dá que eu tenha com sua filha, cá em particular, uma conversasita?
—Pois não, snr. Dias! todas as vezes que quizer. Eu mesmo desejo que sonde o coração de Ludovina, e reconsidere a sua tenção, se vir que ella o não merece. Eu vou manda'-la.
—Faça-me esse favor.
Melchior procurou a filha, reparou nos indicios das lagrimas, e fingiu que os não percebia. Dizendo-lhe que viesse á sala, accrescentou:{51}
—Lembra-te que fazes a tua felicidade e a de tua familia. Esse homem não será só teu marido, será um protector de todos os teus, e fará a tua independencia n'uma sociedade onde a formosura se estima como um meio de alcançar «fortuna», e a «fortuna» como um meio de se alcançar tudo. Entendeste-me, filha?
—Entendi, meu pae.
Ludovina entrou jovialmente na sala.
—Minha senhora,—disse o brasileiro, gaguejando—Eu fui toda a minha vida negociante, apenas sei ler e escrever, e digo as cousas assim como ellas me vem á idéa. Ora bem; a menina está resolvida a ser minha companheira de toda a vida?
—Sim, senhor, disse ainda ha pouco que sim.
—É verdade que disse; mas póde ser que o dissesse para contentar seu pae, e lá no interior sentisse outra cousa.
—Disse o que sentia, e repito o que disse.
—Quem sabe se a senhora tinha alguma sympathia por ahi, e que lá por eu ter alguns vintens seu pae a fizesse voltar-se para outro lado?
—Não, senhor, eu não tenho affeição a alguem.
—Porque depois eramos ambos desgraçados; e eu devo dizer-lhe, que tudo o que eu mais tenho estimado n'este mundo é a minha honra; até hoje, louvado Deus, ninguem lhe pôz o dedo sujo; e seria mais facil eu deixar que me tirassem a vida do que a honra. Trabalhei muito anno para a conservar, cheguei até esta edade sem ser offendido, e assim d'estes cabellos brancos que{52}me vê, se alguem me atacasse a minha honra, tornava aos meus vinte e cinco annos. A menina entende-me?
—Creio que entendi, e sinto que v. s.ª me esteja offendendo com as suas supposições injuriosas.
—Isto é um modo de falar, sr.ª D. Ludovina, e perdoará se a offendi. Tudo o que lhe digo é em bem seu, e meu. Eu sou o que está vendo; a menina é nova e linda; se vê que se ha de arrepender, diga-me a verdade do seu coração, que eu arranjarei as cousas de modo que seu pae se queixe de mim e não da senhora.
—Já disse a v. s.ª que desejo ser sua esposa; não sei que mais deva dizer-lhe. Não me hei de arrepender, porque espero merecer sempre a sua estima e confiança; mas tenho um favor a pedir-lhe.
—Diga lá, seja o que fôr.
—Desejava que ficassemos na companhia de meus paes.
—Ficaremos; e quando formos passar algum tempo á nossa casa de Celorico, a nossa familia irá comnosco. Era só isso?
—Não tenho outra ambição.
—Isso pouco é... Ha-se de fazer tudo que a menina quizer: graças a Deus, temos mais que o preciso para satisfazer as nossas vontades. Agora, se quizer dizer a seu pae que já lhe disse o que tinha a dizer, vá lá, que eu fico á espera d'elle e de sua mãesinha para me despedir, até á noite.
D. Ludovina chamou o pae, sem saír da sala. Melchior, lendo o bom resultado das suas reflexões na cara{53}jubilosa do radioso capitalista, convidou-o a jantar, quando elle se despedia. João José disse que jantára tres horas antes, e jantaria segunda vez com tão amavel companhia. Estava inspirado!
E cumpriu a promessa. Jantou, fez muitos brindes, e o ultimo, e mais solenne que fez foi o seguinte:
Á saude de quem de hoje a um anno ha de ser meu compadre, e minha comadre!
Melchior Pimenta agradeceu.
D. Angelica franziu a testa, fez-se branca de cera, e levou o calix aos labios.
D. Ludovina córou até ás orelhas.
A leitora faça o que quizer.
Eu não ri, nem córei: deu-me para chorar como uma vide, quando me contaram isto.{54}{55}
Inventou-se uma lua para os casados.
Os irracionaes teem uma lua; essa entende-se, sabe-se o que é. Mas o aluarem-se, á força, os casados, é uma idéa ingrata á decencia, feia, e deshonesta.
Uma senhora innocente que diz: «lua de mel» suja os labios, se preza a pureza n'elles; se, porém, sabe o que diz, se sabe o que é o favo, omelda lua, desdenha o pudor, e despreza-se.
Os noticiaristas das gazetas aforaram a phrase, sem saberem, talvez, que desaforavam as palavras. Os diarios do Porto, em 1856, noticiaram assim um casamento:
«Hontem ás nove horas da manhã, contraíram o sacramento do matrimonio o ill.mosr. João José Dias, rico negociante que foi no Rio de Janeiro, com a ex.masr.ª D. Ludovina da Gloria Pimenta, filha do nosso amigo Melchior Pimenta. O sr. Dias deve á fortuna a escolha de uma noiva tão rica de prendas moraes como de formosura{56}angelica. A gentil menina encontrou um honrado protector, cuja fortuna, sendo immensa, vale menos que a briosa reputação que tem. Os esposos vão passar aLUA DE MELá sua quinta de Celorico de Basto, para onde partiram hontem de manhã acompanhados dos numerosos amigos dos ditosos consortes. Diz-se que o sr. Dias vae mandar construir um palacete no Porto, onde tenciona fixar a sua residencia. Damos os parabens á cidade invicta por tão valiosa acquisição.
A local está redigida a primor, como lá se faz sempre nas gazetas; mas aquellaLUA DE MELindigna-me.
Se querem que haja por força uma lua para os que se casam, façamos umas poucas de luas:
Lua de mel;
Lua de cicuta;
Lua de laudanum;
Lua de tartaro emetico;
Lua de mostarda ingleza;
Lua de oleo de ricino;
Lua de fel da terra;
Lua de salsa-parrilha;
Lua de raspa de veado;
Lua de jalapa;
Luas tónicas, luas antiphologisticas, luas irritantes, luas vomitas, luas drastricas, etc.
Convém, de seguida, observar, que a lua não influe por egual nos dois noivos. Cada um deve ter sua, nos casos exceptuados de casamento por paixão reciproca.{57}
Tal marido é aluado em ovos molles, e sua mulher em jalapa.
Tal noiva saboreia-se nos dulcissimos favos da colmeia lunar, e o homem enjoa um cozimento salobro de raspa de veado, animal que muitas vezes lhe lembra, por causa das virtudes medicinaes, e outras causas.
Qual d'essas luas influiria em João José Dias, e qual em D. Ludovina da Gloria?
Eu não decido, porque sou supinamente ignorante em astrologia judiciaria. Conto os factos, e deixo as luas ao arbitrio do leitor.
Fez-se o casamento, e effectivamente partiram os conjuges para Celorico de Basto. D. Angelica tambem foi. Melchior Pimenta ficou para comprar terreno, e contractar o architecto e alveneis que deviam fazer o palacete, a toda a pressa.
Os cavalheiros de Basto receberam cartão do casamento. Esta usança das familias de bem, desconhecida a João José Dias, fôra lembrança da previdente D. Angelica: o fim era relacionar sua filha com as familias mais tractaveis de Basto, para que estas visitando-a, segundo o ceremonial, a distrahissem das melancolias do noivado.
Tudo lhe saíu ao pintar dos seus projectos. A fidalguia circumvizinha não desdenhou as relações do capitalista. O cartão enviado ás senhoras dizia:{58}
D. ANGELICA THEODORINA DA MESQUITA PEREIRA SOUSA PINTO CASTRO LEITE E LEMOSTEM A HONRA DE PARTICIPAR A V. EX.ªO CASAMENTO DE SUA FILHAA EX.MASR.ªD. LUDOVINA DA GLORIA PIMENTA DA MESQUITA PEREIRA SOUSA PINTO CASTRO LEITE E LEMOSCOM O ILL.MOSR.JOÃO JOSÉ DIAS
Os appellidos heraldicos abalaram os espiritos pechosos d'aquella fidalguia de travessão que por alli enxamêa.
Devia ser filha segunda de casa muito distincta a que descera até aos fabulosos milhões do João da Chan-de-Cima: diziam-n'o assim os que d'aquelle modo chasqueavam o brasileiro, pouco dado com fidalgos.
Consentiram algumas familias em visitar os noivos. Um dos fidalgos, esmerilhando a procedencia genealogica de D. Angelica, descobriu que um seu tio-visavô sahira da casa dos Ciprestes para ir entroncar na nobilissima familia dos Pereiras e Sousas, em Paços de Gaiôlo, d'onde era oriunda a avó de D. Angelica. Feito o descobrimento, D. Ludovina achou-se prima de tudo que faz o lustre e ornamento de Celorico, Cabeceiras, Arco, e terras de Barroso.
João José Dias tambem era primo dos primos de sua mulher; e, de si para si, ao bom do homem dava-lhe para rir-se á socapa da parentella. A lingua não se lhe ageitava a chamar primos aos fidalgos da casa dos Ciprestes,{59}aos do Reguengo, aos da Capella, e outros que frequentavam, mais do que elle queria, a casa e o espirito attrahente da sua sogra, espanto das fidalgas analphabetas.
Sem embargo, o capitalista simulava affectuosa estima aos hospedes, e contentamento com o ar festivo que sua mulher mostrava, tendo visitas.
D. Ludovina pagava as visitas, passava as noites em sociedade, primava em tafularia, ensinava as primas a vestirem-se, cuidava dos seus enfeites com desvelo, e gastava com seu marido o tempo necessario para projectarem passeios, romarias, e saraus por aquellas redondezas.
Annuia o conjuge, folgazão no rosto, e zangado por dentro. O bom siso dizia-lhe que sua mulher era uma creança, vezada a bailes, e ainda verde para gostar da quietação domestica. Bem via elle a innocente alegria com que Ludovina andava nos honestos brinquedos, e o desapercebimento, se não desprezo, com que ella acceitava as louvaminhas dos primos.
D. Angelica entendia o que o seu genro calava; conhecia a violencia que elle fazia ao genio e aos annos ronceiros, para andar n'aquella lufa-lufa de visita em visita, bifurcado n'um macho, que lhe contundia as carnes com o chouto ingrato. Receosa de que a impaciencia rebentasse em fim por algum dito menos delicado á mulher, quiz ella prevenir o desgosto de ambos, dizendo uma vez á filha:
«Convém conformarmo-nos um pouco aos costumes{60}de teu marido, Ludovina. Teu homem não foi assim educado, e os annos extranham esta transição.
—Que quer a mãe que eu faça?
«Que espaces os teus passeios e visitas, que vivas mais em tua casa, que tenhas com elle algumas horas mais de convivencia.
—Que hei de eu dizer-lhe?!
«O que has-de tu dizer-lhe?!...
—Sim, mamã. Temos occasiões de estar duas horas juntos sem trocarmos tres palavras. Sou amiga d'elle; mas não sei como hei-de mostrar-lh'o de outro modo. Se querem que eu não receba visitas, nem vá a casa de quem me visitou, estarei em casa, contemplando os carvalhos e os castanheiros; mas eu não creio que se possa viver assim na aldeia. Se elle ainda me não disse nada, porque ha de a minha mãe censurar-me este desabafo que eu preciso? Eu a fugir de falar na minha situação, e a mãe a lembrar-m'a! Cuida que sou feliz? Diga, mãe, está persuadida que eu devo estar extasiada de contentamento deante de meu marido?
«Não creio que te devas extasiar, mas tambem não approvo que te arrependas. Como explicas tu a consideração, o respeito com que és tractada? Pensas que o seres casada com este homem te desmerecesse aos olhos d'esta gente, que lhe chama parente?
—E a felicidade é isso, mãe?!
«A felicidade não é cousa nenhuma d'esta vida, e, se alguma existe cá, é a que dá á consciencia da mulher casada o prazer de não envergonhar seu marido.{61}
—Que palavras! Isso que quer dizer, minha mãe?
«Não t'as applico, Ludovina: respondi á tua pergunta. A felicidade no amor é um creancice dos quinze annos, e ás vezes dos quarenta; mas o desengano vem com todos os homens e com todas as edades. Não te persuadas que a vida te seria aqui mais risonha, por muito tempo, com um marido de tua escolha. Este homem, d'aqui a tres mezes, has-de ama'-lo como se ama um amigo. O outro, d'aqui a tres mezes, ama'-lo-ias com o afflictivo amor da mulher que enfastia, que se vê cada vez mais aborrecida, e compara os ardores dos primeiros mezes de casada com a fria sequidão dos que traz o cansaço. Poupaste-te ao maior dos infortunios, que é esse para a mulher que não quer curar a chaga do amor a seu marido com a peçonha da infidelidade, comprehendes-me, Ludovina? Eu não consinto que tu, sequer, recordes alguns exemplos de mulheres casadas que viste conciliadas com o despreso dos maridos, acceitando a adoração de outros, como vingança, e fazendo do crime uma necessidade. Lembra-te só d'ellas como mulheres que casaram apaixonadas, que doudejaram de alegria nos primeiros tempos, e pareciam cheias de felicidade para toda a vida. Não te recommendo paciencia, Ludovina, porque ninguem te dá causa de soffrimento; recommendo-te juizo. Este homem ha-de merecer a tua amizade: logo que a tenha, viverás da melhor affeição, da que mais dura n'este mundo; terás o bem que raras vezes fica de um amor ardente.
Estas e outras palavras modificaram a força motriz{62}de D. Ludovina. Os passeios rarearam-se, os convites para reuniões foram esquecendo á mingua de estimulo e as massas amollecidas do sr. João José Dias recobraram vigor, com não menos gaudio do velho macho que as caminhadas traziam desmedrado e manhoso.
Estava já a lua de mel em quarto minguante, quando os noivos, voltando para o Porto, foram hospedar-se na casa paterna, em quanto não alugavam casa provisoria, onde esperassem que o palacete se fizesse.
João José Dias foi agradavelmente surprehendido em casa de seu sogro.
Convidado para um baile, em que Ludovina ia ostentar preciosissimos recamos de brilhantes, que seu marido lhe déra na vespera do casamento, João José Dias ao vestir a casaca nova, que seu sogro lhe mandava ao quarto n'uma bandeja, viu uma commenda pregada n'ella, e sobre uma salva de prata um collar com a cruz da ordem de Christo, pendente de um vistoso laço de fita.
—Que diabo é isto?—disse elle ao creado no requinte do pasmo.
«É um presente que faz a v. exc.ª o sr. Melchior.
—Diz-lhe que venha cá, e pega lá para cigarros—dizendo isto, o commendador lançou á salva... sete centos e vinte.
Não vos assombre este lance dadivoso de grandeza. Em successos de menor estimulo á munificencia, sei de outros arrojos de liberalidade, que desbancam João José Dias.{63}
Ahi vão de passagem dois exemplos:
Um visconde, opulento pelos dons de uma bestial fortuna que o ama como a cousa sua, compra um quarto de bilhete da loteria hespanhola. O rapaz que, á custa de muito teimar, lh'o vendera, vae dar-lhe a nova de que a cautela fôra premiada com quatro mil duros. O visconde manda esperar o alviçareiro moço e traz-lhe umas calças de cutim sem fundilhos.
Outro, na passagem do rio Douro, escorrega do barco para a corrente, e mergulha; passados instantes, emerge á tona d'agua resfolegando, e pedindo soccorro. Travam-no os braços robustos do barqueiro que, em risco de morte, consegue salva'-lo, Vae leva'-lo á familia, mandam-no esperar á porta da rua, e recebe, como salvador d'uma vida cara aos seus, uma vida que os jornaes pranteariam com tarjas da grossura de um dedo, e vinhetas das mais funebres da typographia, recebe, finalmente, setecentos e vinte em cobre.
Isto é publico e notorio; mas não estava em chronica. Receio maguar a modestia dos generosos cavalheiros, por isso resalvo os nomes. Na quinta edição d'este livro, havidos os consentimentos respectivos, serão postos em estampa, para inveja de miseraveis sovinas, e estimulo á profusão da presente raça.
O commendador não era fona. Esse caínho feito não desluz os bizarros presentes que fazia á esposa e aos sogros. Ludovina era o primor da casquilhice, e do mais rico em gosto e droga. Para cada baile, para cada exposição do theatro lyrico, um vestido não visto, só comparavel{64}aos que trajára antes, e inferiores aos que trazia depois.
Osleõessertanejos, estes cinco ou seis pataratas, senhores de uma gloria tão productiva, que faz lembrar a dos dominios da corôa portugueza na Ethiopia, Arabia e Persia, os leões honorificos do Porto, se assestavam pertinazes os oculos na peregrina esposa do commendador, o mais que conseguiam era realisar o anexim nacional: «—viam-na por um oculo.»
João José Dias envesgava o olho de soslaio por sobre as feras; e, a meu ver, seria elle homem bastante para realisar, já não com um, mas com todos, a fabula do leão espinotado pelo orelhudo.
O commendador tinha em sua mulher inteira confiança, nada lhe alterava o conceito bem merecido; todavia era accessivel ao ciume sem causa. Nos bailes, andava o pobre homem sempre assustado. Não tinha socego, nem póro que não estilasse o suor da apoquentação. As affabilidades mais triviaes e innocentes da cortezia, um sorriso de Ludovina ao par dançante que a deliciava com ensosso palavrorio, o menor gesto de attenção a que a delicadeza obrigava a festejada dama, isso era um adstringente doloroso que apertava as entranhas do commendador.
N'um d'esses bailes, em que João José Dias emagreceu duas polegadas na circumferencia, appareceu Ricardo de Sá, que nunca mais vira Ludovina desde a vespera da sua derrota.
Audacioso até ao desatino, teve a petulancia de aprumar-se{65}diante de Ludovina, com a luneta insultante. A filha de D. Angelica pediu o braço a uma amiga e saíu d'aquella para outra sala. O commendador não fôra extranho ao acto, e seguiu-a com disfarce. Ricardo, brincando com os berloques do relogio, e tregeitando o habitual sorriso do homem tragico de romance, seguiu de longe as duas amigas, simulou um encontro casual, estacou diante d'ellas, e montou a luneta.
D. Ludovina rodou sobre o calcanhar e voltou-lhe as costas. Á cabeça do commendador subiu um repuxo de sangue, e os lobulos das orelhas fizeram-se-lhe escarlates como ginjas.
D. Angelica, que espiava o successo da sala proxima, acercou-se de Ricardo de Sá, fitou-o com fulminante soberania, e disse-lhe a meia voz:
—O senhor é um miseravel tolo, que incommoda. Se se estima alguma cousa, não me obrigue a encarregar o boleeiro de minha filha de responder ás suas provocações.
—Mude de sexo como Theresias, e falle-me depois—disse Ricardo, dando á perna direita o costumado repuxão dos elegantes.
O commendador veio ao encontro de D. Angelica, e disse-lhe:
—«Aquelle sujeito com quem a senhora falou agora, não é um homem que eu encontrei em sua casa a primeira vez que lá fui?
—É.
—Que diabo anda elle a prantar-se diante de Ludovina?{66}
—Já reparei n'essa acção repetida. Eu lhe conto, dê um passeio comigo—E tomando-lhe o braço, D. Angelica continuou:—Este homem foi uma afeição innocente de minha filha, e é hoje um ente desprezivel para ella e para mim.
—Escreviam cartas um ao outro?—interrompeu o commendador, bufando.
—Escreviam, sim...
—Porque me não disse isso a senhora?!
—Porque não merecia a pena dizer-lh'o. Que é escreverem-se cartas?
—Não é pouco, acho eu... E como acabou isso?
—Acabou, dizendo eu a esse homem que não voltasse a minha casa.
—E que quer elle agora?
—Vingar-se da unica maneira que póde: affligir minha filha... Ella ahi vem... não falemos n'isto.
D. Ludovina disse affectuosamente ao marido:
—Vamos embora? eu estou incommodada.
—Vamos, disse a mãe.
—N'esse caso, vou chamar a carruagem; esperem um pouco, que eu venho já—disse o commendador.
As senhoras foram esperar na sala menos concorrida. D. Ludovina arquejava em ancias, e falava aceleradamente a sua mãe.
Entretanto, João José Dias entrou na sala onde se dançava, e viu na porta fronteira Ricardo de Sá encostado, com a luneta em acção, e o cotovello direito apoiado na mão esquerda.{67}
Foi ao pé d'elle e disse-lhe:
—O senhor sabe quem eu sou?
—Creio que já o vi em alguma parte.
—Faz favor de vir aqui que lhe quero fallar.
Ricardo seguiu-o machinalmente, atravessou um corredor, e parou n'um patamar deserto:
—Eu sou o marido d'aquella senhora que vocemecê insultou lá dentro.
—Essa é muito boa! Eu não insultei senhora alguma!
—Se insultou ou não, sei eu. Fique-lhe de aviso que a sr.ª Ludovina tem um marido de quarenta e tantos annos, isso é verdade, mas capaz de pegar n'uma orelha dos pandilhas como vocemecê, e dar-lhe com a cabeça n'uma esquina, tem percebido?
O commendador desceu as escadas, e Ricardo de Sá, estupefacto e aturdido, atravessou o corredor, e entrou nas salas.
Pouco depois, entravam na carruagem D. Ludovina e sua mãe. O commendador não lhes disse palavra com referencia ao desforço solenne que tirára do bacharel.
Isto, se eu o não contasse, era cousa que morria ignorada porque o auctor embrionario doSECULO PERANTE A SCIENCIAnunca a diria.{68}{69}
Esta inquietação damnificou a vida menos má do commendador, e o socego, apparentemente feliz, de Ludovina. A paz existia; era, porém, como a serenidade presagiosa de trovoada.
O marido recebia os convites para bailes, e queimava, á surrelfa, as cartas. Ludovina admirava o esquecimento, sem aventurar uma pergunta. Estes rebuços são a desgraça das familias, e o rastilho de polvora que espera uma faisca.
Ao theatro iam raras vezes. O commendador adoecendo quasi sempre no dia da recita, supportou no estomago muitas papas de linhaça, sem precisão. O seu achaque postiço era uma inflammação intestinal.
D. Angelica censurava o procedimento do genro; mas calava-se, para não dar anso á filha de romper em queixumes, que abafava com a esperança de melhor vida, ou desafogava em carpir-se sósinha. Melchior Pimenta achava que tudo ia bem, e dava-lhe mais cuidado a esperançosa{70}apparição de um neto que a irritação de entranhas do capitalista.
Acabára-se o palacete, e fez-se a mudança. O commendador não convidava os sogros para viverem com elle. Ludovina, reagindo contra a tyrannia simulada disse que não saía da casa onde nascera, sem levar seus paes. João José acreditou na resolução, e disfarçou o intento, dizendo que nunca tivera outro.
Ludovina queixava-se á mãe da reclusão em que vivia cheia de aborrecimento e tedio; perguntava se era aquella a felicidade que dava o dinheiro; dizia que a pobreza e o ar livre eram preferiveis ao goso de cincoenta vestidos que se traçavam no guarda roupa, e da luxuosa mobilia que ninguem admirava.
D. Angelica, já aborrecida tambem, prometteu á filha entender-se com o genro, e muda'-lo por meios suaves.
—Que motivo ha, snr. commendador—disse D. Angelica—para se encerrar n'esta casa, cortando as suas relações com a sociedade que tão bem o tratava?
«Eu vivo assim melhor.
—Viverá!... não creio. O senhor, quando estivemos em Celorico, divertia-se nas sociedades, e já no Porto parece que folgava de que o vissem com sua mulher em toda a parte...
«Estou velho para andar a perder as noites. Esta minha inflammação de entranhas não me deixa. A saude está em primeiro logar.
—Tem razão; mas n'este mundo só se vive bem, sacrificando-se a gente uma á outra. O senhor é casado{71}com uma menina habituada aos innocentes prazeres da sociedade, e eu, se me dá licença, dir-lhe-hei que não consentiria um casamento entre genios tão contrarios, se previsse o que está acontecendo.
«Então que é?
—É que minha filha não póde assim viver contente.
«Agora não! ella não se queixa: a senhora é que toma as dôres por ella.
—Não se queixa porque é muito delicada, muito soberba, ou uma sancta. O peor será quando ella se queixar... Isto assim vae mal, sr. Dias; mude de vida, confie em sua mulher que é um anjo de virtude, incapaz de offender a sua dignidade.
«Não duvido; mas estou melhor assim, e ella tambem não está mal, acho eu. Quem casa vive para seu marido, e para os filhos, se os tem. Isso de andar de bailarico em bailarico é bom para as raparigas solteiras que andam á pesca de marido. Até parece mal uma mulher casada a saltarilhar com um homem que lhe pega pela cinta, e anda alli com a cara ao pé da d'ella. Nada de bailes, sr.ª D. Angelica. Minha mulher, se quer passear tem ahi uma carruagem e eu estou prompto a acompanha'-la para toda a parte.
—Pois bem, não se frequentem os bailes, mas conservem-se as relações da nossa casa. Ludovina tem amigas, que extranham muito a vida encarcerada que ella passa. Porque não ha-de sua mulher visitar e receber as visitas de suas amigas?
«E isso de que livra? Isto de mulheres umas com as{72}outras não dizem cousa boa. O melhor é cada um em sua casa.
—Que razão essa tão... tão singular!
«A final de contas, sr.ª D. Angelica, eu estou em minha casa, e entendo que faço bem. Não se lucra nada em apparecer. O mundo está uma pouca vergonha. Eu já sei como está o Porto, e como se vive por ahi. Não quero que minha mulher ande nas bôcas do mundo. Se Ludovina não fosse ao baile, onde lhe appareceu o tal namorado que ella teve, não tinhamos todos a zanga com que sahimos de lá. Em casa, em casa é onde se está melhor.
—Eu não me responsabiliso pelas consequencias, sr. Dias. Ludovina tem brios e pundonor; se ella desconfia que v. s.ª a encerra em casa, por suspeitar da lealdade d'ella, teremos grandes desordens e não terei poder para accomoda'-las.
«Eu não desconfio de minha mulher; se não vou aos bailes, é porque não quero que os outros desconfiem, e acabou-se.
O dialogo ficou aqui; mas ha ahi duas linhas que fazem honra á intelligencia equivoca de João José. Merecem ter segunda edição de versaletes:
EU NÃO DESCONFIO DE MINHA MULHER; SE NÃO VOU AOS BAILES É PORQUE NÃO QUERO QUE OS OUTROS DESCONFIEM.
Isto é uma grande idéa, das quatro idéas grandes que apparecem em cada seculo, e que, por engano, entrou na cabeça inhospita do commendador.{73}
Pesem bem o quilate das duas linhas, que me ministrou João José, e verão que as melhores d'este livro são ellas.
O marido, que me está lendo, se tem cincoenta annos, e espreita os vinte de sua mulher, através do vidro embaciado que a experiencia lhe vendeu caro, não deve já agora perder a esperança de dizer, no auge do seu ciume, alguma cousa que possa ler-se em lettra redonda.
A indignação fazia os versos de Juvenal; porque não ha de o ciume fazer as prosas toleraveis dos maridos?
A idéa de João José, se fosse minha, ninguem me aturava a vaidade. Rogo aos escriptores contemporaneos, e aos futuros sabios, alinhavadores de remendos alheios, que se escreverem a seguinte maxima:
Ha maridos que não desconfiam das mulheres; mas não vão aos bailes para que os outros não desconfiem;escrevam por baixo —O commendadorJOÃOJOSÉDIAS.
As pessoas que melhores idéas engendraram, não teem sido as mais felizes. O commendador pertence ao martyrologio dos grandes pensadores. Os fados, os estupidos fados hão de castiga'-lo por essas poucas palavras com que elle arranjou um nicho, pôdre de barato, no templo da memoria.
O castigo começa.{74}{75}
Ludovina disse um dia a sua mãe:
—Estou casada ha treze mezes, e sinto-me velha. Até aqui obedeci como creança, a minha mãe, a meu pae, e a esse homem, que entrou na nossa familia com certa auctoridade que me intimidava. Eu fui sempre docil, docil até á pusillanimidade. Se a violencia não fosse tamanha, este homem que chamam meu marido, teria feito a escravidão da minha alma para sempre. Assim não póde ser. Sinto-me outra; perdi os costumes de creança; envelheceram-me com os desgostos continuos, e por isso hão de soffrer-me agora emancipada.
—Que vem tudo isso a dizer, Ludovina?
—Que quero a minha liberdade, que hei de passar por cima da oppressão á custa de tudo.
—Ludovina! que linguagem é essa?
—É a da desesperação, e da justiça. Não pratiquei sombra de mau acto, por onde mereça este amargo viver que me dão. Quero saber porque vivo apartada das{76}minhas amigas, e dos recreios, d'onde a minha reputação saíu sempre sem mancha.
—A quem o perguntas, a mim?
—Sim, á mãe, ao pae, e depois pergunta'-lo-hei ao dono d'esta casa, ao dono dos meus vestidos e dos meus braceletes. Se este me disser que a minha liberdade é o preço d'essas cousas, deixo-lh'as, e peço a meu pae a subsistencia que me dava d'antes. Se m'a negarem, Deus me inspirará o destino que me convém. Isto ha de decidir-se hoje. Ninguem soffria tanto tempo, por amor proprio, ou pela virtude da paciencia.
—Tens direito a interrogar teu marido, Ludovina; mas sê prudente; vence-o com razões moderadas, por não dizer humildes.
—E se elle, por maldade ou por ignorancia, suspeitar da pureza das minhas intenções?
—Fala-lhe como deve falar uma senhora, e confundi'-lo-has.
Veiu o commendador cortar o colloquio. Nunca tão achamboada e trombuda se mostrára a lerda physionomia do personagem. N'essa occasião, o achaque intestinal era veridico, segundo o testemunho do semblante. Era o ideal da fealdade, então, o sr. Dias!
D. Angelica, instada por um gesto da filha, deixára-os sós.
—É a primeira vez—disse Ludovina, sentada n'uma cadeira de braços estofada, com a formosa face encostada á palma da mão direita, e uma perna sobre a outra balouçando-se, deixando ver o pé de fada, através{77}do rendilhado da saia que a velava.—É a primeira vez que falo a meu marido como se deve falar a um marido. Até aqui tratei-o como se trata um amigo que se respeita, um tio, um pae d'esses com quem se não tem muita confiança.
O snr. Dias abriu a bôca para entender melhor. D. Ludovina proseguiu:
—Poucas filhas ha tão respeitadoras como eu lhe tenho sido na qualidade de mulher. Tudo que ha n'esta casa, snr. Dias, seu tem sido, como seria, se eu aqui não fosse mais que uma pessoa extranha, sujeita á sua generosidade. A sua vontade é o movel das minhas acções. Em quanto o senhor me concedeu a liberdade honesta, que meus paes me concediam, acceitei-a, sem lh'a agradecer, porque achei isso tão natural como absurdo e impossivel o contrario. Logo que o senhor, sem me explicar a causa da sua mudança, de repente me afastou da sociedade, como se faz ás pessoas incapazes de viverem n'ella, acceitei tambem, sem me queixar, o captiveiro, e supportei-o seis mezes como uma mulher culpada que expia a culpa com a paciencia muda. O snr. Dias, sem saber o que fez, expoz sua mulher aos commentarios offensivos que a sociedade ha de ter feito á minha ausencia repentina. Deu um escandalo, sem necessidade de evitar outro. Disse á sociedade que não tinha bastante confiança em mim para me levar onde ha o bom e o mau.
«Estás enganada, menina, eu não disse isso a ninguem—interrompeu o commendador, que andou ás aranhas{78}muito tempo antes que traduzisse para vulgar o estylo sentencioso da filha e discipula de D. Angela.
—Não o disse com a palavra; mas disse-o com as acções. Privando-me de ir aos bailes, de frequentar o theatro, de receber as minhas amigas de collegio, e as relações de minha familia, o que diria a sociedade?
«Lá o que ella quizer, menina...
—O que ella quizer, não, snr. Dias! Não consinto que se façam de mim conjecturas desairosas. Requeiro que o senhor me explique o motivo d'esta separação injusta a que me fórça.
«Não te zangues, Ludovina... Foi tua mãe que te metteu na cabeça essas palavras? Bem diz lá o ditado: «Livra-te da sogra, que eu te livrarei do diabo.»
—Respeite minha mãe, senhor! Eu não falo pela bôca de minha mãe; o meu silencio até hoje não era estupidez nem insensibilidade: era amor proprio, e outro sentimento mais nobre que o senhor não entende. Vamos ao essencial, snr. Dias. Teve alguma razão para me privar de viver como vivem todas as mulheres casadas da boa sociedade?
«Não, já disse que não. A cousa é outra...
—Qual é essa outra cousa?
«As boas pagam pelas más, e não ha mulher honrada para certa gente que vae aos bailes e aos theatros.
—Pois eu não estou disposta a sacrificar-me ás mulheres indignas. A minha consciencia é o meu juiz. Não me importa o que se diz de mim.{79}
«Essa é de cabo de esquadra! Pois não se te importa o que se diz de ti?
—Que se diz, snr. Dias?
«Não sei; mas... elles lá sabem o que dizem.
—Elles quem? accuse-me sem piedade; repita as affrontas que me fazem; tenha a coragem de calumniar-me, se lhe é preciso inventar os meus crimes.
«Tu estás fóra de ti, Ludovina! Isso não é assim! Ahi anda espirito-santo de orelha... O teu genio não é esse...
—O meu genio é a minha dignidade, n'este caso. Responda-me: Offendi a sua honra?
«Não, já disse duas vezes que não.
—Faltei aos meus deveres de esposa?
«E ella a dar-lhe!
—Pois bem: quero viver como vivi nos primeiros seis mezes da nossa união. Quero ir ao theatro, aos bailes, ás visitas, como ia em solteira. Quero receber as minhas relações, como as recebi antes de ter metade da sua riqueza. Quero uma inteira liberdade como premio do meu procedimento para comsigo. Quero...
«Então isto, pelos modos, é «nós, el-rei, e justiça de Fafe!» Aqui não ha rei nem roque n'esta casa? é quero, e mais nada?
—Quero, sim, porque é de justiça o que já não tenho a baixeza de pedir; mas quando não, snr. Dias, meus paes teem uma casa estabelecida, e sobejos meios para eu me declarar independente d'essas riquezas com que o senhor me dotou, e que eu, de todo o meu coração,{80}rejeito, porque não acceito o preço porque fui vendida.
Ludovina, já de pé, com o rosto inflammado, e os bellos olhos coruscantes de cólera, sahiu de um impeto, deixando o commendador attonito na mais palerma immobilidade. D. Angelica ouvira tudo;
—Excedeste-te, Ludovina—disse ella—mas fizeste-me orgulhosa de ser tua mãe. Acceito, de hora em diante, a responsabilidade das tuas palavras, seja ella qual fôr.
João José Dias nem palavra n'aquelle dia e no seguinte. Ao terceiro havia theatro lyrico. D. Ludovina mandou buscar camarote. Ás sete horas e meia mandou pôr os cavallos á sege, e disse a seu marido se a acompanhava ao theatro. O commendador fez-se verde-garrafa, desenrugou as palpebras quanto poude, e pasmou os olhos suinos na attitude imperiosa de Ludovina, que apertava o botão da luva, e enroscava no collo as marthas.
—Vem, ou não?—repetiu ella.
«Espera, que eu visto-me—disse o commendador, tomado d'uma especie de susto irreflectido, que em muitos maridos é o corollario de demorados raciocinios.
Fez impressão o apparecimento de Ludovina. Acharam-n'a mais donosa os amadores do pallido. O viço da florescencia tinha murchado ao lento deseccar da melancolia. Ficára a pelle assetinada, com as alvuras do desmaio, realçando o vivido fulgor dos olhos negros, assombrados da côr-violeta, que tanto encarece o rosto dolorido. Ponderaram os analystas que os tecidos cellulares{81}do commendador estavam cada vez mais chorumentos e luzidios. Segredaram-se, ácerca das medranças d'elle, pilherias que incitam o riso, e ferem o melindre de ouvidos pudibundos.
Estes colloquios, que a estampa rejeita, ciciavam, por entre frouxos de riso, nos camarotes, onde estava a propria virtude, com cabellos á Stuart, e despeitorada á Aspasia.
Ludovina falava com meiguice ao marido, explicando-lhe o entrecho doTrovador, e aguçando-lhe a compuncção nas lamentações finaes da Ponti, que o commendador denominava uma «comedianta de mão cheia.» O ar de felicidade que se mutuavam, era o espanto dos observadores, e o castigo da maledicencia desapontada.
Seguiu-se um baile. A carta de convite não ficou, d'esta vez, no escriptorio do commendador. Ludovina primou mais que nunca em enfeites. A inflammação deu treguas ás entranhas de João José Dias. Era para ver como elle se tornava, sadio e durazio, aos prazeres do mundo.
Mas o interior de João José? Era um incendio para que a philosophia humana não inventou ainda bomba efficaz! Era o inferno do mouro de Veneza chorriscando aquelle humano torresmo!
Que via elle para se moer assim? Nada. Ludovina nem, sequer, dançava já danças de roda, de contacto, de aperto, e raras contradanças acceitava. Os cavalheiros, que se avizinhavam d'ella, com liberdade, eram os amigos de seu pae, ou de seu marido. Os outros, repellidos{82}pela sisudez e gravidade com que os ella recebia, denominavam-na uma virtuosa grosseira, e apostavam que andava alli influencia de capellão incognito.
Que sandeus ciumes, eram, pois, os do commendador, que a fortuna poupava á sorte de pessoas tão conspicuas, e bem ageitadas de corpo e alma?
Batei n'esta sáphara, entendedores do coração humano, esmerilhadores do intimo dospredestinadoseminothauroseSganarellosao alcance da sciencia humana.
Cançar-vos-heis sem achar a razão da cousa. O axioma foi proferido ha quatro annos, e já tem tres edições com esta:
Ha maridos que não desconfiam das mulheres; mas não vão aos bailes, para que os outros não desconfiem.
O commendadorJOÃOJOSÉDIAS(passim).{83}