VIIIRaivando contra si proprio, o barão de Celorico...O barão de Celorico!Personagem novo no conto?Novo! pois eu não disse já que João José Dias dera cinco mil cruzados ás urgencias do Estado, e seiscentos mil réis ao official maior da secretaria onde se fabricam os barões, e cincoenta moedas ao agente secreto das urgencias do Estado, e das urgencias dos estadistas?Se não lêram isto já, perderam-se na typographia quatro tiras de composição a mais rendilhada a buril classico, a mais puritana de linguagem, com recheio de idéas substanciosas, e gordura de pensamentos!Finalisava o capitulo VII por um baile de regosijo, que o novo titular estimulado pelo sogro, resolvera dar aos seus collegas, e mais amigos, que o felicitaram da mercê.Esse baile correra amargurado para o barão de Celorico.Ao caír da noite, recebera elle uma carta anonyma,{84}da qual não pude haver copia, e, podendo inventar uma, não o faço, que m'o veda o proposito de fidelidade.É certo, porém, que o contheudo d'essa carta entendia com Ludovina, meiga creatura, organisação melindrosa, que tanto a pesar meu hei de nomear baroneza de Celorico.Não se póde aferir o grau de calumnia d'essa carta pelas carantonhas do barão, que a lia. Em carantonha perenne estava elle sempre, lastimoso Amphitryão, desde que a sombra de um Jupiter de casaca lhe assombrava os encantos da innocente Alcmena. Qual seria o espirito rasteiro que se quizesse vasar nas fórmas de João José para enganar-lhe a esposa? Esta pergunta faço-a aos que leram Plauto, Molière, e Camões. Nem ella, com tantos mimos e promessas de delicias, vos faria a vós, leitores sedentos, acceitar a transfiguração hedionda.O barão tragou a affronta em quanto o bojo o comportava; depois, rebentou, chamando a sogra ao mais escuro do palacete, e dando-lhe a ler a torpe carta.D. Angelica disse conhecer a mal disfarçada letra de Ricardo de Sá; convenceu-o de que o despeito de uma alma vil devia vir áquella infamia; appellou da calumnia para a consciencia do barão; obrigou-o a confessar que nunca sua mulher saíra de casa sem elle; fez, finalmente, resolver o pestilencial tumor que ameaçava, n'aquella noite, uma supuração escandalosa.Raivando contra si proprio, (cá estamos na cabeça do capitulo) o barão de Celorico, não podia transigir com{85}as razões da sogra. Terminado o baile, duas ou tres vezes amaxucára a carta na mão convulsa, para a lançar ao toucador de Ludovina, que desenfeitava as tranças e o pescoço.—Que tens, meu amiguinho?—disse ella, que o vira, no espelho, fazendo esgares com os beiços—parece-me que está agitado!«Estou bom, muito obrigado, estou como se quer.—Que modo é esse de responder?—tornou ella, voltando-se de subito para o barão, que passeava, ou antes se rolava de parede a parede com achavascada impetuosidade.«Está bom; deixe-me, que eu não estou bom, e qualquer dia dou um estoiro como uma castanha.—O senhor está disparatando! explique-se.«Foi o diabo o nosso casamento, sr.ª D. Ludovina.—Nada de exclamações; clareza e franqueza, meu amigo! Que é isso?«É os meus peccados; é o que eu lhe tenho dito duzentas vezes, e a senhora não quer crer que a sociedade do Porto está corrompida, e quem aqui estiver não póde dar boa conta de si.—Vamos aos factos; applique... diga a que vem isso?«Ahi tem o que é.E arremeçou-lhe ao regaço a carta amarfanhada, que parecia uma pela.A baroneza abriu-a serenamente, amaciou-lhe os vincos, e leu, sem signal de inquietar-se.{86}«Diz-se aqui que eu tenho um amante—disse ella sorrindo—que se corresponde comigo. O senhor crê isto? Responda, senhor; crê que eu tenho um amante?—Não, senhora; mas, pelos modos, dizem-no, e a minha honra soffre com isso.«Como soffreria com a verdade do aviso?—Que é? não entendi.«Se as suas suspeitas condissessem com este aviso, não soffreria mais?—Matava-a, sr.ª D. Ludovina, dou-lhe a minha palavra de honrado, que a matava, e tiraria os figados pela bôca ao proprio diabo do inferno, e tinha alma de metter uma faca no peito para morrer ao pé de si!Esta rajada sacudiu todas as fibras bambas do barão. Não teve remedio se não sentar-se, a resumar camarinhas de suor, impando, e arfando como folle de forja.Ludovina, mais assustada que compadecida, tomou-lhe a mão, e com a outra enxugou-lhe a face.«Soffre porque me não ama, porque me não crê...—disse ella.—Não faças caso d'isto, não é nada... não é nada—regougou elle.«Seja superior aos infames que nos invejam, meu amigo. Não lhes dê o prazer da vingança. A pessoa que lhe escreve, é um miseravel inferior ao meu desprezo.—Já sei tudo... não falemos n'isso mais. Deite-se, que eu preciso de tomar ar.«Onde vae?—Vou ao jardim.{87}«Eu vou comsigo... espere um bocadinho.—Não venhas cá, deita-te, que está fria a madrugada.Foi.Eram tres horas e meia da manhã. As trevas descondensavam-se. A nebrina do mar serpenteava por entre as ribas marginaes do Douro. O clarão da lua ia-se descórando ao arraiar do crepusculo. Era a hora menos poetica das vinte e quatro da rotação d'este planeta, onde ás tres horas e meia da manhã, dorme toda a gente que tem juizo, e sabe um pouco de hygiene.O barão de Celorico não dava fé das bellezas matutinas que o rodeavam. Atravessou, sorvendo haustos de ar fresco, o passeio central do seu jardim, até parar no muro, que o extremava de outra rua. Esta rua é justamente aquella por onde vimos passar Francisco Nunes, raivando imprecações garrafaes contra o charuto incombustivel. N'esse muro havia uma gradaria de ferro, e portadas interiores. O barão abriu machinalmente a janella, e viu approximar-se d'ella um vulto embuçado, que lhe disse:—Cuidei que tinhas adormecido! que demora foi essa?—O que é?—exclamou o barão atordoado.O vulto coseu-se com a parede, e, a passo rapido, desappareceu na meia escuridão.Longo tempo, agarrado ás grades, o barão de Celorico, parecia ter perdido a memoria, a sensibilidade, o senso intimo. A patrulha, que recolhia ao quartel, vendo{88}aquelle immovel espectaculo, através das grades, imaginou primeiro seria estatua do jardim; reparando attentivamente, ouviu o sussurro da respiração cavernosa, e decidiu que estava alli um homem.—Olá!—disse um soldado.«Que é?—respondeu o barão, espertando da lethargia.—É d'ahi d'essa casa?«Sou o dono d'ella.—Então perdoará. Fizemos esta pergunta, porque ha de haver cinco dias que vimos saír ás quatro horas da manhã um encapotado d'aquella porta que alli está abaixo, chamamo'-lo, elle deu á canella, e sumiu-se-nos lá em baixo na travessa.«D'esta porta que está na parede d'este jardim?—exclamou o barão.—É como diz.«A que horas?—A estas horas, pouco mais ou menos.«Um homem de capote?—Tal e qual.«E não viram mais ninguem?—Parece-me que vi ahi n'essa grade uma figura de mulher, com lenço branco na cabeça.«Obrigado, camaradas, muito obrigado, e boas noites.O barão arremessou as portadas, e, levando as mãos á cabeça, atirou-se com brutal frenesi a um banco de pedra. Ao tempo que cáe em cheio, vê ao pé de si um objecto escuro. Apalpa, repara, examina: era o projectil{89}fatal do charuto que Francisco Ennes, na vespera, arrojára para dentro.O barão contempla o charuto na mão convulsa, e desentranha um rugido fremente, apertando-a, rábido e sanhudo.—Eis a prova da minha deshonra!—exclama, e ergue-se vacillante e cambaio. Entra em casa, e vê correr um vulto de mulher através de um passadiço. Corre impetuoso, e já o não alcança. Tresvariando, grita que ha ladroes em casa. Affluem os creados, buscam e rebuscam todos os cantos inutilmente. Ludovina e sua mãe acodem espavoridas, e encontram o barão, debatendo-se nos braços de dois creados, com um ataque de nervos. Ministram-lhe soccorros, conduzem-n'o á cama, querem vêr o que elle fecha na mão direita, e podem apenas lobrigar a ponta queimada de um charuto. Ludovina inquire com meiguice e pena o que é aquillo, e o desgraçado, maior e mais eloquente na sua angustia, responde:«É a nossa morte!Instam na explicação das respostas, e elle troveja:—Não quero aqui ninguem!Pasmam; e retiram-se, atemorisados.«Estará elle doudo, meu pae?—dizia a baroneza, tremula de medo, apoiando-se nos braços do espavorido Melchior.—Parece que sim, minha filha. Chamem-se medicos já. Este homem deve ter demasiado sangue. É ameaça de doudice, não póde ser outra cousa.{90}«Que sorte a minha!—disse Ludovina lagrimosa. E foi para o pé do leito de seu marido.—Se se verificar a demencia—dizia Melchior a D. Angelica, de modo que só todos nós pudemos ouvir—a administração da casa passa immediatamente para Ludovina, e Rilhafolles com elle. Este homem saíu muito outro do que eu imaginava. Ainda me não disse que deixasse o logar da alfandega, nem me offereceu um emprestimo com que eu possa tentar demanda contra os possuidores da minha casa. Tenho remorsos de ter dado a este alarve uma creatura tão perfeita como a nossa Ludovina!D. Angelica não respondeu.«Ainda te doe a cabeça, Angelica?—Bastante.«Já estavas a dormir, quando o barão gritou?—Dormitava.«Mas eu fui ao teu quarto, e já te não encontrei lá!—Tinha corrido sobresaltada.«Então pelo que eu vejo tinhas-te deitado vestida...—É verdade, nem forças tive para desapertar os colchetes.«Porque me não chamaste, filha?—Não quiz incommodar-te.«Ora essa!...—Até logo, filho, vou ver se descanço um instante{91}«Vae, vae, menina.Ha reticencias que não dizem nada.A litteratura merceeira, para justificar o adjectivo, inventou as carreiras de reticencias, as quaes correspondem aos pesos roubados da mercearia.Eu abri loja, e vou com os outros.Não me entrem, pois, a desconfiar que os pontinhos juntos fazem borrão n'este painel de bons costumes.A sr.ª D. Angelica é excellente mãe, no meu conceito; e, no conceito do sr. Melchior Pimenta, é excellente esposa.Póde morrer, que o necrologio já não coxeia.{92}{93}IXNão averiguei miudamente o que disse Ludovina a seu marido. Um dos dois medicos chamados ás sete horas da manhã para examinarem a supposta demencia, a pedido do Melchior Pimenta, disse-me que encontrára o barão febricitante, mas sem o menor suspeito symptoma de loucura. Accrescentou que o enfermo lhes dissera, que bebessem elles a tizana que receitaram; e lhes mandára pagar a visita, com recommendação de o darem por curado.Ás nove horas já o barão tinha sahido, sem dizer a Ludovina o seu destino, nem acceitar o almoço.Saíra pela porta principal, e entrára na rua para onde olhava a janella do jardim. Em frente d'essa janella, na margem esquerda da rua, estava com escriptos uma casa terrea. O barão perguntou, na vizinhança, quem era o proprietario da casinha, encontrou-o perto, alugou, pagou a casa, e recebeu a chave.D'alli foi ao largo de S. Bento. Entrou n'uma loja de{94}ferragem, e comprou uma clavina trochada, e um par de pistolas de coldres; e, n'outra parte, as munições de fogo.Tornou a casa ao meio dia, pediu o almoço, e comeu á tripa fôrra. A baroneza, e D. Angelica assistiram ao almoço, e não conseguiram arrancar-lhe tres palavras. Quem o servia era o negro, que o acompanhára do Rio, e o adorava com o fervor nativo da sua raça. O barão chamou-o no fim do almoço, e disse em segredo:«Esta chave é d'aquella casa baixa que tem o numero doze, defronte da janella do jardim. Vae á loja de ferragem no largo de S. Bento, com este bilhete. Hão-de entregar-te umas armas, e um embrulho. Pega em tudo isso, de modo que ninguem cá de casa te veja, fecha-o no tal casebre, e entrega-me a chave depois.O barão foi passear no jardim, e recolheu o seu espirito em meditabundas reflexões.Poucos dias antes, tinha elle ouvido uma historia que toda a gente sabe. Era aquelle conto de uma mulher adultera, que o marido inexoravel matára sem pau nem pedra, pondo-lhe diante dos olhos uma moeda de prata ao almoço, ao jantar, á cêa, a toda a hora, em todas as situações, até que a matou. Esta historia entalhára-se na memoria do barão com indeleveis traços. Contou-a a sua sogra, que a classificou de indecente para se dizer a senhoras. Contou-a a sua mulher, que não desculpou a victima, mas reprovou a fereza do verdugo. João José Dias fez a apologia do verdugo, e disse que «a honra de um homem só assim se vingava.» Ludovina fitou-o{95}com espanto, e acreditou que o ciume seria capaz de desenvolver os instinctos ferozes de seu marido.Era aquella historia o ponto convergente das meditações que o reconcentraram, por espaço de tres horas. D'esta longa e dolorosa encubação do pensamento deve-se esperar um parto, um monstro, uma façanha, mais ou menos plagiaria, da medonha expiação da adultera.Chamaram-n'o para jantar: disse que jantaria em mesa á parte com sua mulher. Desceu ao jardim a baroneza, e perguntou-lhe a causa de tal exquisitice.—Não dou satisfações—respondeu—Quero jantar, e almoçar sósinho comsigo.—Isso é o mesmo que...—Não me replique! tenho dito.Fazia medo a cara do homem. Esverdinharam-se os refegos da papeira; as ventas fumegavam soluçando; testa e palpebras, tinham o escarlate da penca do perú assanhado.Ludovina estava atterrada, e julgou-se em risco, ali, sósinha. Recuára para se evadir com dignidade, honrando a retirada, quando o barão lhe disse:—Olhe, senhora!A baroneza voltou-se, e viu o braço do barão erguido em attitude prophetica; e lá em cima no cucuruto da mão cebácea... oCHARUTO!...—Que é isso?!—perguntou ella com mais curiosidade que espanto.—Não sabe o que isto é? chegue-se cá!Ludovina, indo receosa, disse:{96}—É um charuto... pois não é?!—É um charuto! é um charuto! mulher traidora!—ululou o bordalengo com a grenha irriçada.Ludovina recuou tres passos, tolhida de medo. O barão crescia sobre ella, com o braço no ar, arvorando o charuto. A pobre menina temeu as furias de um doudo, e chamou com afflictivo grito a mãe.Acudiu D. Angelica, já quando o barão, mettendo as mãos nas portinholas da japona, á laia de idolo chinez, voltava as costas a sua mulher.—Isto que é?!—exclamou D. Angelica.—Está doudo rematado, minha mãe!—disse, a meia voz, a baroneza.—Vae-se chamar teu pae, que chegou agora. Nós não podemos viver com um demente...—Janta-se, ou não se janta?—disse o barão, caminhando para ellas com socegado semblante.—Que desordem foi esta, sr. barão?—Desordem! ora essa é fresca! Aqui, que eu saiba, não houve desordem nenhuma... Foi sua filha que viu uma cousa que a fez gritar... A culpa é d'ella.—Que viste, Ludovina?—Eu vi um charuto na mão d'este senhor; mas gritei porque elle me deu berros medonhos, e correu para mim com ares ameaçadores.—Deixe-a falar, sr.ª D. Angelica—replicou o barão, sorrindo de um modo que confirmava a demencia—A cousa é outra... Vamos jantar, e, se minha mulher tem medo de mim, jantaremos todos juntos á mesma mesa.{97}Melchior Pimenta, informado da desordem, foi ao encontro do grupo que entrava em casa. D. Angelica, com um só dedo, fez-lhe dois gestos: um ao longo do nariz, para que se calasse, outro no centro da testa, para que as protegesse de um doudo furioso.Sentaram-se á mesa, espionando os menores movimentos do barão. Viram-no tirar a mão da algibeira, extender o braço por sobre a mesa, e deixar caír, ao pé do prato da baroneza o charuto.Ludovina lançou-o ao chão com a faca, dizendo:—Olhem que porcaria!—E voltando-se para o creado que servia a sôpa:—Atire isto lá fóra!—Não atires!—bradou o barão.—Porque não ha de atirar?!—Disse Melchior Pimenta.—Porque não quero! e porque sou dono d'esta casa! e porque quero despicar a minha honra!... e porque vae tudo com mil diabos, ouviu?Os talheres, os calices, as bandejas, e os pratos, resaltaram duas pollegadas acima da superficie: tamanho fôra o murro que o barão baixára sobre a mesa.Ergueram-se todos. D. Ludovina fugiu por uma porta; D. Angelica por outra; Melchior Pimenta, enfiado, amarello, sem gota de sangue, antevendo um violento embate na sua cara com a terrina, seguiu a mulher, colorindo a retirada com a prudencia.O barão embolsou o charuto, chamou o preto, e disse-lhe:{98}—Senta-te ahi, Simão; janta ao pé de mim, que és o unico amigo que eu tenho.Ha, n'este lance, motivo para nos condoermos.O barão não come, apesar do esforço. O bocado entala-se-lhe na garganta, comprimida pelos soluços. Depõe o garfo, e descáe o rosto, coberto de lagrimas, sobre as mãos. O preto, que não ousára sentar-se, vendo chorar o amo, cujo pão comera em liberdade, no espaço de vinte annos, chora tambem, e pergunta a medo a causa d'aquella afflicção. Responde-lhe em gemidos o bemfeitor, e ergue-se extenuado, e vacillante, como se os sentidos o desamparassem. O preto quer conduzi-lo ao quarto; mas o barão, um momento indeciso, pede o chapéo e sae.As angustias d'este homem condemnam Ludovina?Não. Ludovina é innocente como os anjos.A peçonha mortal, que espedaça o coração d'este homem, tem-na elle na algibeira: é o charuto de Francisco Nunes.{99}XÉ meia noite e um quarto no relogio da Lapa.A casta lua dá a sua luz poetica a muitas impudicicias, e tolera o escandalo resignada. Casta lhe chamam os poetas, e é bem posto o epitheto. Só ella seria capaz de manter-se pura com tantos exemplos de corrupção. De mim creio que a tem salvado a distancia que a separa dos bardos que a namoram; e, se não é a distancia, é a impertinencia das cartas rimadas que lhe mandam. Muitas mulheres, menos castas que a lua, teem sido salvas pelo mesmo theor. Os poetas, que amam em verso, são uns puros desinfectantes da putrida impureza. Se todos fizessemos versos, e nos amassemos em oitava rima, eu lhes asseguro que este globo era um viveiro de anjos. A theoria de Hobbes seria uma calumnia, e a de Maltus um absurdo. Não andariamos travados em permanente lucta, nem a exuberancia da propagação assustaria os economistas. Havia só o risco de nos matar a fome; mas cada cysne teria um canto derradeiro com que esforçar a guerra á prosa que inventou{100}os cereaes, o boi cozido, as acções do banco e a troca de um romance por quinhentos réis.Isto occorreu naturalmente da castidade da lua.Era, pois, meia noite e um quarto no relogio da Lapa, e fazia luar como de dia.Ás dez horas e meia, tinha entrado para a casa numero 12, da rua *** um vulto sinistramente rebuçado: era o barão de Celorico de Basto. A casa tinha uma janella tosca de madeira, que se abriu cousa de meio palmo, depois que o encapotado entrou. De vez em quando, um raio da luz, caíndo sobre a fresta das duas portadas, resvalava no nariz do barão, dando-lhe o colorido de uma cidra avelada.Soára o quarto depois da meia noite, quando a janella interior da grade do jardim se abriu cautelosamente.Um objecto branco sobresaía na sombra: devia ser o lenço de uma mulher.Cinco minutos, depois, n'uma extrema da rua appareceu um vulto encapotado, que fumava, caminhando cosido com o muro do jardim. A figura da janella desappareceu, e em seguida ouviu-se o ranger subtil da lingueta de uma chave. Era a porta do jardim que se abria ao avizinhar-se o vulto.A distancia de tres passos da porta, o homem que fumava ouviu o ruido de uma janella que se abria, e parou, voltando-se para a janella. O que elle viu foi o lampejo da detonação de um tiro, e levou a mão ao hombro esquerdo. Seguiu-se um pulo incrivel do barão fóra da janella, a fuga precipitada do vulto, e um segundo{101}tiro, que redobrou a força motriz do fugitivo.Apitára uma patrulha ao cabo da rua, duas, tres, vinte patrulhas apitaram. A cem passos de distancia do local dos tiros, encontraram um homem extendido na rua, e disseram em voz alta, que o barão ouvira:—parece que está morto.O barão, sem apressar o passo, entrou na porta do muro, e deu volta á chave. Olhou ao longo do jardim, e viu, por entre as sombras dos arbustos, contiguos á casa, perpassar um vulto, e sumir-se.Abriu-se outra vez a janella da grade, ao tempo que as janellas das casinhas fronteiras se abriam. Alguns soldados perguntavam onde se deram os tiros. Respondiam unanimemente que foram dados alli, e mostrava-se uma bucha ainda fumegando, no meio da rua.—Quem está ahi n'essa janella?—bradou um soldado ao barão, que estivera calado.—Sou eu, sou o dono d'esta casa.—E quem é o senhor?—É o senhor barão—responderam os vizinhos.—Não, d'alli de certo não foi.—Os tiros?—perguntou o barão.—Sim, senhor, dois tiros que se deram aqui agora.—Eu tambem, os ouvi, e por isso cá vim. Mataram alguem, ou foi patuscada?—Não foi má a patuscada! Está alli adiante um sujeito extendido nas pedras, e, se não está morto, pouco lhe falta.—Quem é? conhecem?{102}—Estão lá dois camaradas que o conhecem. Dizem que é um doutor de uma casa rica, chamado... lembras-te, 38?—Acho que elle disse... Almeida.—É isso, Almeida. O sr. barão conhece-o?—Não me lembro d'esse nome. Elle ainda lá está? Eu vou lá ver se o conheço...O barão seguiu a patrulha, até parar n'um grupo de soldados e paizanos, que rodeavam uma cadeira, onde estava assentado o ferido. Era coragem de cynico, ou desatino de demente? Mais que tudo isso: era o ciume!—Eu conheço este sujeito—disse o barão com admiravel placidez.—E elle tambem me ha de conhecer, se estiver vivo. Olé, sr. doutor! Está aqui o barão de Celorico, conhece-me?O ferido abriu a custo os olhos, e fez um aceno affirmativo,—Eu offerecia-lhe a minha casa, mas a d'elle é perto d'aqui, acho eu.—Nós sabemos—disseram os soldados.—Pobre homem!—proseguiu o barão em tom compadecido.—Ainda a noite passada elle esteve n'um baile que eu dei...Agglomeravam-se na rua os curiosos, quando o barão entrou em casa. Não ouviu o mais leve rumor. Entrou no quarto de sua mulher, e viu-a dormindo.Parou ao pé do leito, e vascolejou nas mandibulas, alvares uma gargalhada estrondosa. A baroneza acordou,{103}sentou-se no leito estremunhada sem saber o que ouvira, nem o que via.O barão tirou da algibeira o charuto, chegou-lh'o ao pé dos olhos, e bradou:—O tal patife não fuma outro.—Que diz?—exclamou Ludovina.—Faz-te de novas, mulher perdida! resa-lhe por alma, que a minha honra está vingada. Agora que digam o que quizerem.E saíu do quarto, deixando apavorada a pobre senhora, que o julgou n'um terceiro ataque de loucura.Ludovina vestiu-se apressadamente, e correu ao quarto da mãe.Encontrou-a vestida, prostrada sobre o tapete do guarda cama, com a face caída sobre os degraus do leito. Ajoelhou ao pé d'ella, chamou-a, ergueu-a, agitou-a com a força da afflicção, e caíu com ella sobre a cama.D. Angelica abriu os olhos pavidos, e vendo a filha, escondeu a face nas mãos, exclamando:—Jesus, meu Deus!—Que teve, mãesinha, isto que foi—Nada, infeliz; foi um accidente...—Por causa dos meus desgostos? ouviu o que aquelle homem me disse?—Não, minha pobre martyr... imagino o que te diria... Oh... deixa-me ver se consigo chorar, senão estalo... mas não chores tu, filha, não quero que nos ouçam... É preciso que eu te salve, antes que a morte me leve com o encargo da tua reputação infamada...{104}—Eu não a entendo, minha mãe!—Não pódes entender-me, Ludovina, não pódes... ai! deixa-me respirar, que eu não vivo uma hora assim...A baroneza amparou a mãe até á janella, que abriu. D. Angelica rasgava com as mãos os espartilhos compressores do collete, e fincava entre os cabellos os dedos com vertiginoso desespero. N'este frenesi, susteve-se, comprimindo a respiração, para escutar as vozes que vinham da rua contigua ao muro do jardim.Uma dizia:—Ia morto.Outra:—A bala entrou-lhe no peito.Outra:—Pobre familia, que bocado tão amargo!—Aquillo que é?—perguntou D. Angelica espavorida.—Eu não sei, mãe!—Esse malvado que te disse?—Chamou-me mulher perdida; mostrou-me o charuto, dizendo que o patife não fumava outro; e que lhe resasse por alma...D. Angelica expediu um grito, um ai vibrante, de uns que o seio arremessa de si, como se n'esse esforço expellisse um espinho arrancado ao coração.Ao grito de Angelica succedeu o terror confuso de Ludovina.N'este intervallo de silencio a lastimavel mãe concebeu{105}um designio atroz. Deu um salto para precipitar-se da janella, e achou-se travada nos braços da filha, que pedia soccorro, a altos brados, repuxando-a para o interior do quarto, com a força miraculosa da angustia.Ouviram-se passos no corredor. Ludovina exclamou:—Entre quem é.Abriu-se a porta, e surgiu o barão.D. Angelica lançou-lhe um olhar torvo, e fulminante; fugiu, de um repellão, aos braços da filha; correu para elle com a sanha de uma possessa, e atirou-o fóra do quarto com o choque dos punhos furiosos, exclamando:«Assassino! assassino!Ninguem me soube dizer a qual genero do sublime truanesco pertencia, n'este conflicto, o barão de Celorico. Eu tambem me não cancei em averiguações, porque o resultado d'ellas seria sujar com salmouras despicientes um quadro de angustias, que não é novo na vida, mas afouto-me a dize'-lo que é novo no romance. Melchior Pimenta não apparecia, sendo o seu quarto paredes meias com o de sua mulher. Deliciava-se nas profundezas de um somno do qual só podia emergir, quando a ultima molecula de tres grãos de morphina se perdesse através dos philtros nervosos. O dormir do somnolento empregado da alfandega explica-se com as vigilias aturadas de D. Angelica. Vá sem reticencias.Para nós é mais comprehensivel o espanto da baroneza do que estava sendo para ella o desespero de sua mãe. Se a pobre senhora suspeitasse que a demencia do marido era contagiosa; tinha desculpa. Tamanha afflição,{106}descompostura tal de contorsões, de gemidos, de arremessos para a janella, chamando a morte, não podia ser procedente do amor maternal exaltado até á ira da leôa.Ludovina ajuizava assim; mas não atinava com a razão possivel de effeitos tão extraordinarios no caracter inalteravel, e quasi duro de sua mãe.Instava, supplicando-lhe o desafogo da sua agonia. D. Angelica apertava-a contra o seio com arrebatada e insolita ternura. Promettia dizer-lhe tudo, quando pudesse falar, na certeza de que a sua ultima palavra fosse um adeus a este mundo, e uma confissão de que dependia o credito de sua filha.Foi um raio de luz para Ludovina estas palavras, cortadas por gemidos; esse raio de luz, porém, queimou-lhe o coração. Se Angelica reparasse na pallidez da filha, demasiado castigo seria da sua falta essa mudança. A parte da sua dôr, que até alli fôra remorso, seria depois vergonha, e vergonha de sua filha, tortura mil vezes mais pungente que a mordedura do remorso para a que soube ser mãe, e affrontou os deveres de esposa.A baroneza mudou de semblante e de carinho, sentiu-se gelada e inerte ao pé da mãe, logo que meia luz do enygma lhe aclarou o entendimento.«A mãe precisa descançar—disse ella com affectado gesto de carinho—Deite-se, que eu ajudo-a a despir-se, e ficarei ao pé da sua cama.—Não, filha; eu não tenho descanço n'este mundo, nem no outro. Se ainda tenho algum direito á tua obediencia,{107}deixa-me só; preciso de chorar lagrimas que nunca Deus permitta o teu coração as chore. Não pódes respeitar esta agonia, porque não a comprehendes, innocente martyr. Se soubesses... poderias abominar-me agora, para te compadeceres depois.«Sei, mãe.—Que sabes tu, Ludovina?! exclamou Angelica, abraçando-a convulsivamente.«O meu silencio responde-lhe, mãe... Não soffra pela minha deshonra. Deus sabe tudo; não me importa o mundo; a Providencia fará vêr a verdade a meu marido, sem que o nome de minha mãe seja sacrificado. Cale-se, por quem é. Não diga nada ao barão, e poupe meu pae. Eu sinto-me com forças para não vergar a um peso de infamação que me não cáe sobre a consciencia. Se o meu amor a póde consolar, não diga o seu segredo a ninguem; não diga porque eu não sei qual dos dois descreditos é mais afflictivo para mim...D. Angelica resvalou dos braços da filha, querendo ajoelhar-se-lhe aos pés.Ludovina ajoelhou com ella, e n'este momento abriu-se a porta.Era o barão de Celorico.—Ouvi tudo—exclamou elle—Perdôa-me, Ludovina, pelas cinco chagas de Christo. E foge d'essa mulher, que é a causa de eu ser um matador.—Tem razão; vae, minha filha—disse D. Angelica, afastando-a de si.—Sr. barão—disse Ludovina—eu não deixo uma mãe{108}culpada para seguir um assassino. Saia da minha presença, que o detesto. Apenas romper a manhã, deixo esta casa, deixo-lh'a para que o senhor caiba n'ella com o seu remorso. Matou um homem, sr. barão, um homem que não conhecia; matou-o a sangue frio, e será capaz de praticar uma crueldade menor matando-me a mim.D. Angelica arrancou-se aos braços da filha com furioso impeto, e postou-se terrivel diante do barão, exclamando com uma toada de voz soturna e tremula:—Com que direito assassinou um homem, scelerado, carniceiro?O barão tremeu, recuou, e pendeu o queixo inferior relaxado pelo espasmo.—Responda á amante do homem que matou; á mulher que acceita voluntariamente a infamia da sua culpa, para ter o direito de pedir contas ao assassino de Antonio d'Almeida. Querias, com essas mãos tintas de sangue, tocar em minha filha, miseravel algoz, que és tão estupido como sanguinario!Ludovina, cingindo a cintura da mãe, arrastou-a para longe do barão, que parecia, ao passo que ella falava, ir-se petrificando.A vehemencia da ira decaíu subitamente em syncope. D. Angelica encostou a face desfallecida ao seio da filha, que a levantou nos braços, e deitou no leito.E voltando-se para o miserando homem, cujo rosto confrangido accusava os pungimentos do remorso, a baroneza, em tom de cólera mal reprimida, disse:—O senhor não ha de ser mais feliz que as pessoas{109}a quem deu a morte, e a eterna vida de lagrimas. Pediu-me perdão? eu já lhe havia perdoado as suspeitas, as desconfianças, os insultos, as vergonhas a que hontem me expoz na presença dos seus creados. Tudo lhe perdoei, em quanto o suppuz demente; hoje, que o considero um criminoso de morte, e que não tenho quem me defenda das suas mãos póde matar-me, que o não chamarei á presença de Deus para ser julgado.—Ludovina—balbuciou o barão, com o rosto coberto de lagrimas—eu matei esse homem cuidando que era elle o teu amante...—Era a mim que devia matar-me, senhor.—Não podia ainda que quizesse, porque a minha tenção era matar-me e deixar-te viva, para que tu ao menos te lembrasses de mim com pena, quando já me não visses n'este mundo. Esse homem ainda não morreu, Ludovina; póde ser que se cure, e eu vou-me ajoelhar aos pés d'elle a pedir-lhe perdão, e, se tu quizeres, pedirei tambem perdão a tua mãe.—Não fale n'essa infeliz a ninguem, snr. Dias, a ninguem. Aqui a deshonrada sou eu. Se o descobrirem como assassino de Antonio de Almeida, diga, se quer que eu o não amaldiçôe, diga que esse homem era o meu amante; mas não fale em minha pobre mãe...«Que dizes tu, Ludovina? Pois tu queres que se diga que eu fui deshonrado por ti?—Deshonrado está o senhor, desde já, desde que matou, ou quiz matar por uma suspeita um vulto desconhecido...{110}«Elle vinha entrando para o jardim, Ludovina, e tua mãe estava na janella...—Cale-se! isso é mentira! minha mãe estava deitada na sua cama...«Não estava, Ludovina...—Estava, snr. Dias; não me contradiga, que eu juro contra as suas palavras em toda a parte.«Então quem estava na janella, senão tua mãe?—Era eu; já lhe disse que a deshonrada sou eu; esse homem que matou era o meu amante; sabe-o todo o mundo; sabia-o o senhor quando o matou; sou eu a causa de meu amante ser um cadaver, e meu marido um assassino. Sou, portanto, uma infame mulher que deve saír debaixo d'estas telhas. Ámanhã, ámanhã ha de fazer-se uma separação eterna entre nós. A sua honra fica assim completamente desaffrontada. Todos dirão que meu marido me expulsou com a ponta do pé de sua casa. Todos hão de admirar os brios do snr. barão que matou o rival, e não desceu á cobardia de matar uma mulher... Esta resolução é inalteravel; acabou-se tudo entre nós, menos a vergonha, a infamia, o escandalo que vae fazer dos nossos nomes um espectaculo para a irrisão de uns, e para a piedade de outros. Eis aqui a sua obra; a mim, como sua mulher, compete-me acceitar metade da responsabilidade...D. Angelica sentou-se no leito, afastou, como em delirio, os cabellos que lhe cobriam as faces, e pediu uma gota d'agua, com supplicante instancia, proferindo os nomes das creadas da casa. Ludovina ministrava-lhe a{111}agua, que ella repelliu com ira. Permaneceu estarrecida alguns segundos, com os joelhos a prumo entre as mãos; depois, caíu de chofre sobre o travesseiro, e murmurou longo tempo palavras inintelligiveis.O barão tinha saído imperceptivel. D. Ludovina debruçou-se, debulhada em lagrimas, sobre o leito.Melchior Pimenta, no quarto immediato, espreguiçando-se fazia com os abrimentos de boca uma toada em falsete, rispida como o uivar do mastim.Abençoados quatro grãos de morphina que lhe povoastes o somno de deleitosas visões!Melchior Pimenta, eu, quando quero phantasiar um marido bemaventurado, lembras-me tu.Se vejo algum, desconcertado como as velleidades da metade que se despega, para entrar como excrescencia no complemento de outras existencias, que se reputam inteiras, dá-me vontade de lhes perguntar se já experimentaram a morphina.Eu tenho visto a suprema felicidade dos minotauros.Havia dois que espiritavam a galhofa de Melchior Pimenta; um, que repudiando, timbroso e austero, a esposa tentada pela cobra d'este paraizo terreal, onde as cobras inçam como em matagal bravio, recebe uma carta de dama d'alta estirpe, onde se lhe censura o burguez despique de peccadilho tão corrente em gente fina. O marido acceitára a correcção e a mulher incorrigivel. Melchior ria até caír.Outro, amante da paz caseira e fricassés acirrantes, conhece no aspecto carrancudo da mulher, e no aguado{112}dos molhos, os desvios do amante: inventa pretextos para aproxima'-los e ameiga os arrufos com um jantar campestre.Outro... Melchior conhecia outro, e eu conheço-o a elle, e mais dez exemplares que Brantome não archivou,[4]todos aporfiando em delicias sublunares.Mas o ditosissimo, o que vive e morre sem sentir na consciencia o toque despertador, omomentoda predestinação cumprida, esse é um só no meu catalogo.Melchior Pimenta, se quizeres um dia erigir estatuas aos deuses tutelares da tua prosperidade, lembra-te de Ludwig que farejou no opio a morphina; de Seguin que a descreveu; e de Sertuerner que aperfeiçoou o processo da extracção.Sem a morphina, não serias mais feliz que Octavio, que Cicero, que Domiciano, e tantos grandes e sabios do paganismo que podem, sem vergonha, apparecer diante de outros não menos sabios, e grandes senhores da christandade.Nasceste n'um folle, Melchior Pimenta!{113}XIMulheres são os melhores juizes de mulheres.Disseram philosophos e moralistas, uns, grandes santos como S. Paulo, e outros, grandes atheus como Voltaire, que a mulher é um ser exuberante de sensibilidade, e apoucado de raciocinio.D'ahi vem o denegarem-lhes accesso ás sciencias abstractas, ás politicas, aos parlamentos, ao magisterio, ás regiões intellectivas do machinismo social, e mandarem-nas cuidar dos filhos, e fiar na roca.Se o absurdo vinga, se, por alvitre grosseiro do mais forte, a mulher é um ente inepto para exercitar a razão, com que direito as julgamos e sentenciamos, segundo a razão, sendo as suas culpas demasias de sentimento?A injustiça é flagrante e odiosa.Privam-nas de razão para as excluirem das funcções que a requerem; sentenceiam-nas pela razão, se o sentimento, seu dom essencial, as desvia do piso demarcado por ella.{114}Isto é uma tyrannia, uma inquisição, uma crueza turca.A mulher não pode ser julgada por nós. Somos os senhores feudaes da razão. A nossa alçada respira a prepotencia do baraço e cutello. Estamos em insurreição permanente contra o santissimo apostolado de Jesus, que baixou seu divino braço por igual sobre o homem e mulher.Não podemos superintender no fôro do coração, porque a nossa jurisprudencia é toda de cabeça, e o nosso codigo em pleitos da alma é estupido ou hypocrita.Quem é o juiz da mulher? O homem que a despenha do abysmo, onde a lançou o amor, ao abysmo do opprobrio.É o homem, que lhe entalha o ferrete da ignominia na face onde imprimira o beijo da perdição.O altar onde se adora uma mulher é ao mesmo tempo a ara onde ella se dá em holocausto. Peccadora por muito sentir e chorar, amar e crer, quando nos abre céos e céos de alegria e gloria, abrimos-lhe nós o inferno dos desenganos, e o supplicio extremo do descredito. O mundo não as exila, mas affronta-as; o coração não as encrimina, mas agonisa na horrivel soledade para onde a razão o desterra.E somos nós os juizes, porque entramos n'uma herança usurpada pela força primeiro, e legalisada depois pelo sophisma escripto.A mulher foi escrava do braço, antes de o ser da superioridade moral.{115}Quando o homem chamou a sciencia a dar um testemunho falso da sua primazia, a mulher, quebrantada pela escravidão do braço, não pôde remir-se com as forças do espirito.Ainda assim, o tyranno, receoso da emancipação, fez em redor da escrava as trevas da ignorancia, para que a razão da mulher não pudesse conceber da luz o germen que a rehabilitasse.Pegou de formosa flor, cercou-a de estevas, cobriu-a de sombras por onde o sol não podia coar uma restea reanimadora.Esta machinação arteira sobreviveu a todas as borrascas sociaes. Os fautores, e ainda os martyres da egualdade perante Deus e perante a lei, nunca proferiram uma palavra, nem verteram gotta de sangue para o resgate moral da mulher.O Filho de Maria disse que a mulher era egual ao homem, e levou para o céo o segredo da sua emancipação.Ficamos nós cá, os açambarcadores do entendimento escrevendo livros, que sacrilegamente denominamos de moral derivada do Evangelho, e n'elles demarcamos a profunda raia que extremaRAZÃOdeSENTIMENTO. A razão para nós, o sentimento para ellas. Se, todavia, o sentimento claudica nos preceitos da razão pautada e insoffrida, condemnamos a mulher pela culpa de se deixar perder na escuridade, á mingua de uma lampada que lhe negáramos.{116}Não sei se rasgue estas cinco paginas do manuscripto. Se alguem me assegura que entre vinte mil leitoras (orça por isto o numero das senhoras que compram livros em Portugal) se me asseguram que entre as vinte mil ha duas que me entenderam a parlenda, e me ficam desejando muita saude e graça para servir a Deus, não rasgo as paginas, embora os homens me mandem, em portuguezissima phrase, bugiar.Quando comecei o capitulo, tinha de olho dizer, á quarta linha, que, ácerca de culpas de mulheres, já mais consulto homens.Mulheres são os melhores juizes de mulheres.A respeito de D. Angelica, consultei uma sua amiga de infancia, tão virtuosa como indulgente; mas virtuosa—não me afiram lá a palavra pelo elucidario caseiro—virtuosa amando muito e com muito despego de pecos empecilhos, atravancados pela impostura.Disse-me ella o seguinte:«D. Angelica é das poucas mulheres que podem fazer do seu crime um titulo ao respeito das mulheres que sentem o coração pela dôr.—Ao respeito!—atalhei eu, com fumos de juiz, vicio do sexo ingrato, onde por desventura me encontro.«Sim, ao respeito, porque D. Angelica amando vinte annos um homem, juro-lhe que não teve uma hora de consciencia quieta, nem intrepidez para sacrificar o coração ao repouso da consciencia.—Vinte annos! pois era amor de vinte annos o do tal Almeida que o barão de Celorico arcobuzou?{117}«Mais seria, talvez. Angelica era filha segunda de um fidalgo pobre do Minho. Foi educada comigo, no Porto, no recolhimento de S. Lazaro. Passava as festas do anno em casa de um doutor, que tinha filhas, e um filho que se formava n'esse tempo. Esse filho era o Antonio de Almeida, que o senhor conhece, e D. Angelica amou desde os quinze annos, com o amor immenso das sympathias contrariadas.O doutor descobriu a affeição do filho, e impoz-lhe um violento termo, prohibindo-o de vir ao Porto nos dois ultimos annos da formatura.As cartas de Antonio de Almeida recebia-as eu, e Angelica relia-as, ao cabo de dois annos de ausencia, com paixão cada vez mais entranhada.O fidalgo pobre resolveu casar a filha com um rapaz que se dizia rico. Melchior Pimenta era filho bastardo de um conego opulento, e litigava a herança paterna, com a certeza do vencimento.Angelica saíu do recolhimento sem saber para que fim saía. Friamente avisada de que havia de casar com Melchior Pimenta, embruteceu, ficou como tolhida, e desmemoriada do amor que alimentára tres annos.Quando o coração reviveu do lethargo, a indiscreta menina escreveu ao pae de Antonio de Almeida, pedindo-lhe que a pedisse ao pae para casar com seu filho. Que innocencia!Escreveu ao marido que lhe destinavam, confessando que não podia dar-lhe o coração.O doutor, se ella lhe conviesse te'-la ía. Angelica era{118}pobre. Melchior Pimenta não respondeu á carta, nem deminuiu as instancias.O fidalgo, informado pelo doutor, agradeceu-lhe a probidade da denuncia, e accelerou o desfecho.Angelica não soltou um gemido na presença do pae; sei que apenas lhe disse: «A historia de muitas mulheres desgraçadas começa como a minha.» Disse, e pôz a cabeça no altar do sacrificio. Ao marido apenas perguntou se recebera uma carta d'ella...Participei a Almeida o casamento de Angelica. Respondeu-me elle que não acreditava a infamia emquanto a perfida não tivesse o cynismo de lh'a dizer. Modifiquei as palavras d'esta carta, contando-as á minha amiga. Ella soluçou nos meus braços muito tempo, e disse com vehemente resolução: «Pois sou eu que lhe vou dar parte do meu casamento, e offerecer-lhe a minha casa.» Que fazes tu, menina?—repliquei eu, longe de suspeitar a resposta: «Faço á prepotencia de meu pae o sacrificio da minha dignidade, e castigo um homem que me comprou.»Julguei-a desvairada pela angustia, e reservei para melhor ensejo os conselhos que os meus vinte e cinco annos, já apalpados por amarguras de coração, podiam dar-lhe.Effectivamente, Antonio de Almeida voltou formado, e frequentou a casa de Melchior Pimenta, que dava bailes, e figurava na primeira plana a favor de antecipações que fazia sobre o penhor do seu patrimonio.Deixei de ser a confidente de Angelica, mezes depois.{119}As suas cartas não eram confidencias: eram lagrimas, queixumes vagos contra a sua sorte, chagas de consciencia que só a morte podia cicatrisar. Entendi tudo, e fiz o que faz, ou o que raras vezes faz uma amiga: consolei-a na queda, como a aconselhára á beira do abysmo. Disse-lhe que mandasse a consciencia ao pae, e que ficasse ella com o coração. Não lhe falei em Deus, nem na Virgem, porque no infortunio de Angelica, não havia que vêr com cousas sobrehumanas.O doutor farejava um casamento rico para o filho; achou-o, e marcou-lhe o prazo para se realisar. Antonio de Almeida rejeitou-o com toda a ousadia da desobediencia. Choveram maldições ás duzias, abriram-se os cancellos do inferno aos pés do obstinado moço. Peor que tudo isso, o castigo de Almeida foi ser expulso de casa, sem pão, nem habilitações promptas para ganha'-lo.Angelica soube tudo por mim, e por uma carta do doutor, que a responsabilisava pela desgraça do filho. Vendeu algumas joias que tinha de sua mãe, e pediu-me a entrega do producto, como dadiva minha, a Almeida. O brioso moço, não sei como, soubera onde as joias paravam. Acceitou o dinheiro, comprou as joias e pediu-me que as entregasse a Angelica.Duas almas assim nunca se separam. As ligações mais duradouras são as do crime, quando as virtudes do sacrificio reciproco chegam a esquecer-se da sua má origem.Antonio de Almeida trabalhou dia e noite, até ser um advogado de fama.{120}Melchior Pimenta, ao cabo de quatro annos de casado, tinha perdido a demanda, e estava pobre. Antonio de Almeida cortou ás suas primeiras necessidades para emprestar a Melchior o fausto da casa. Angelica soube-o tarde; mas, sabendo-o, conheceu a pobreza de seu marido, e a delicada generosidade do seu amigo.Fecharam-se as portas da sala, acabaram bailes e theatros, resumiu-se a vida de Angelica ao amor a sua filha, á adoração mais intima do amante, e aos respeitos affectuosos por seu marido.Antonio de Almeida acatou o melindre de Angelica. Inventou pretextos para melhorar-lhe a vida, que ella não desejava melhor. Conseguiu fazer despachar Melchior Pimenta para a alfandega, comprando o despacho por alto preço.Nem este mesmo sacrificio desconheceu Angelica. Os jornaes annunciaram a corrupção, e a minha atilada amiga adivinhou a causa. Melchior Pimenta, não. Esse perguntava se os seus merecimentos não eram demasiada recommendação para o despacho.Sabe agora a vida de Angelica?Se alguma vez o seu sestro linguareiro o levar a pôr em romance esta historia, accrescente que D. Angelica, ao despedir-se de Almeida para visitar o berço da filha, lavou-lhe muitas vezes o rosto com lagrimas. Diga que, outras muitas, o amante de Angelica, farto de a esperar na sala, e já receoso de algum successo triste, procurando-a, ia encontra'-la ajoelhada ao pé d'esse berço. E, depois que Ludovina se lançava aos braços de Almeida,{121}com fervor mais de filha que de creança affeita a mimos e carinhos, o rosto de Angelica incendiava-se de pejo, como se o affecto e a virgindade do coração travassem peleja.Em resumo, snr. romancista, acabo por onde principiei, e do que vou repetir faça uma maxima, por minha conta; mas não a enfileire a par da do commendador João José Dias:HA MULHERES QUE PODEM FAZER DO SEU CRIME UM TÍTULO AO RESPEITO DAS MULHERES QUE SENTEM O CORAÇÃO PELA DOR.D. Angelica está julgada e punida.................Entretanto foi Jesus para o monte Olivete:Então lhe trouxeram os escribas e os phariseus uma mulher que fôra apanhada em adulterio: e a puzeram no meio.E lhe disseram: Mestre, esta mulher foi agora mesmo apanhada em adulterio.E Moisés, na lei, mandou-nos apedrejar estas taes. Que dizes tu logo?Jesus, inclinando-se, escreveu com o dedo na terra.E, como elles teimavam em interroga'-lo, ergueu-se Jesus, e disse-lhes: O que de entre vós está sem peccado seja o primeiro a apedreja'-la.E, tornando a curvar-se, escrevia na terra.Elles, porém, ouvindo-o, saíram um a um, sendo os{122}mais velhos os primeiros; e ficou só Jesus e a mulher que permanecia, no meio, em pé.Então ergueu-se Jesus, e disse-lhe: Mulher, onde estão os que te accusavam? ninguem te condemnou?Ninguem, Senhor;—respondeu ella. Então, disse Jesus: Nem eu tão pouco te condemnarei: vae e não peques mais.O SANTOEVANGELHO DEJESUSCHRISTO, SEGUNDOS. JOÃO—Capitulo VIII.{123}
Raivando contra si proprio, o barão de Celorico...
O barão de Celorico!Personagem novo no conto?
Novo! pois eu não disse já que João José Dias dera cinco mil cruzados ás urgencias do Estado, e seiscentos mil réis ao official maior da secretaria onde se fabricam os barões, e cincoenta moedas ao agente secreto das urgencias do Estado, e das urgencias dos estadistas?
Se não lêram isto já, perderam-se na typographia quatro tiras de composição a mais rendilhada a buril classico, a mais puritana de linguagem, com recheio de idéas substanciosas, e gordura de pensamentos!
Finalisava o capitulo VII por um baile de regosijo, que o novo titular estimulado pelo sogro, resolvera dar aos seus collegas, e mais amigos, que o felicitaram da mercê.
Esse baile correra amargurado para o barão de Celorico.
Ao caír da noite, recebera elle uma carta anonyma,{84}da qual não pude haver copia, e, podendo inventar uma, não o faço, que m'o veda o proposito de fidelidade.
É certo, porém, que o contheudo d'essa carta entendia com Ludovina, meiga creatura, organisação melindrosa, que tanto a pesar meu hei de nomear baroneza de Celorico.
Não se póde aferir o grau de calumnia d'essa carta pelas carantonhas do barão, que a lia. Em carantonha perenne estava elle sempre, lastimoso Amphitryão, desde que a sombra de um Jupiter de casaca lhe assombrava os encantos da innocente Alcmena. Qual seria o espirito rasteiro que se quizesse vasar nas fórmas de João José para enganar-lhe a esposa? Esta pergunta faço-a aos que leram Plauto, Molière, e Camões. Nem ella, com tantos mimos e promessas de delicias, vos faria a vós, leitores sedentos, acceitar a transfiguração hedionda.
O barão tragou a affronta em quanto o bojo o comportava; depois, rebentou, chamando a sogra ao mais escuro do palacete, e dando-lhe a ler a torpe carta.
D. Angelica disse conhecer a mal disfarçada letra de Ricardo de Sá; convenceu-o de que o despeito de uma alma vil devia vir áquella infamia; appellou da calumnia para a consciencia do barão; obrigou-o a confessar que nunca sua mulher saíra de casa sem elle; fez, finalmente, resolver o pestilencial tumor que ameaçava, n'aquella noite, uma supuração escandalosa.
Raivando contra si proprio, (cá estamos na cabeça do capitulo) o barão de Celorico, não podia transigir com{85}as razões da sogra. Terminado o baile, duas ou tres vezes amaxucára a carta na mão convulsa, para a lançar ao toucador de Ludovina, que desenfeitava as tranças e o pescoço.
—Que tens, meu amiguinho?—disse ella, que o vira, no espelho, fazendo esgares com os beiços—parece-me que está agitado!
«Estou bom, muito obrigado, estou como se quer.
—Que modo é esse de responder?—tornou ella, voltando-se de subito para o barão, que passeava, ou antes se rolava de parede a parede com achavascada impetuosidade.
«Está bom; deixe-me, que eu não estou bom, e qualquer dia dou um estoiro como uma castanha.
—O senhor está disparatando! explique-se.
«Foi o diabo o nosso casamento, sr.ª D. Ludovina.
—Nada de exclamações; clareza e franqueza, meu amigo! Que é isso?
«É os meus peccados; é o que eu lhe tenho dito duzentas vezes, e a senhora não quer crer que a sociedade do Porto está corrompida, e quem aqui estiver não póde dar boa conta de si.
—Vamos aos factos; applique... diga a que vem isso?
«Ahi tem o que é.
E arremeçou-lhe ao regaço a carta amarfanhada, que parecia uma pela.
A baroneza abriu-a serenamente, amaciou-lhe os vincos, e leu, sem signal de inquietar-se.{86}
«Diz-se aqui que eu tenho um amante—disse ella sorrindo—que se corresponde comigo. O senhor crê isto? Responda, senhor; crê que eu tenho um amante?
—Não, senhora; mas, pelos modos, dizem-no, e a minha honra soffre com isso.
«Como soffreria com a verdade do aviso?
—Que é? não entendi.
«Se as suas suspeitas condissessem com este aviso, não soffreria mais?
—Matava-a, sr.ª D. Ludovina, dou-lhe a minha palavra de honrado, que a matava, e tiraria os figados pela bôca ao proprio diabo do inferno, e tinha alma de metter uma faca no peito para morrer ao pé de si!
Esta rajada sacudiu todas as fibras bambas do barão. Não teve remedio se não sentar-se, a resumar camarinhas de suor, impando, e arfando como folle de forja.
Ludovina, mais assustada que compadecida, tomou-lhe a mão, e com a outra enxugou-lhe a face.
«Soffre porque me não ama, porque me não crê...—disse ella.
—Não faças caso d'isto, não é nada... não é nada—regougou elle.
«Seja superior aos infames que nos invejam, meu amigo. Não lhes dê o prazer da vingança. A pessoa que lhe escreve, é um miseravel inferior ao meu desprezo.
—Já sei tudo... não falemos n'isso mais. Deite-se, que eu preciso de tomar ar.
«Onde vae?
—Vou ao jardim.{87}
«Eu vou comsigo... espere um bocadinho.
—Não venhas cá, deita-te, que está fria a madrugada.
Foi.
Eram tres horas e meia da manhã. As trevas descondensavam-se. A nebrina do mar serpenteava por entre as ribas marginaes do Douro. O clarão da lua ia-se descórando ao arraiar do crepusculo. Era a hora menos poetica das vinte e quatro da rotação d'este planeta, onde ás tres horas e meia da manhã, dorme toda a gente que tem juizo, e sabe um pouco de hygiene.
O barão de Celorico não dava fé das bellezas matutinas que o rodeavam. Atravessou, sorvendo haustos de ar fresco, o passeio central do seu jardim, até parar no muro, que o extremava de outra rua. Esta rua é justamente aquella por onde vimos passar Francisco Nunes, raivando imprecações garrafaes contra o charuto incombustivel. N'esse muro havia uma gradaria de ferro, e portadas interiores. O barão abriu machinalmente a janella, e viu approximar-se d'ella um vulto embuçado, que lhe disse:
—Cuidei que tinhas adormecido! que demora foi essa?
—O que é?—exclamou o barão atordoado.
O vulto coseu-se com a parede, e, a passo rapido, desappareceu na meia escuridão.
Longo tempo, agarrado ás grades, o barão de Celorico, parecia ter perdido a memoria, a sensibilidade, o senso intimo. A patrulha, que recolhia ao quartel, vendo{88}aquelle immovel espectaculo, através das grades, imaginou primeiro seria estatua do jardim; reparando attentivamente, ouviu o sussurro da respiração cavernosa, e decidiu que estava alli um homem.
—Olá!—disse um soldado.
«Que é?—respondeu o barão, espertando da lethargia.
—É d'ahi d'essa casa?
«Sou o dono d'ella.
—Então perdoará. Fizemos esta pergunta, porque ha de haver cinco dias que vimos saír ás quatro horas da manhã um encapotado d'aquella porta que alli está abaixo, chamamo'-lo, elle deu á canella, e sumiu-se-nos lá em baixo na travessa.
«D'esta porta que está na parede d'este jardim?—exclamou o barão.
—É como diz.
«A que horas?
—A estas horas, pouco mais ou menos.
«Um homem de capote?
—Tal e qual.
«E não viram mais ninguem?
—Parece-me que vi ahi n'essa grade uma figura de mulher, com lenço branco na cabeça.
«Obrigado, camaradas, muito obrigado, e boas noites.
O barão arremessou as portadas, e, levando as mãos á cabeça, atirou-se com brutal frenesi a um banco de pedra. Ao tempo que cáe em cheio, vê ao pé de si um objecto escuro. Apalpa, repara, examina: era o projectil{89}fatal do charuto que Francisco Ennes, na vespera, arrojára para dentro.
O barão contempla o charuto na mão convulsa, e desentranha um rugido fremente, apertando-a, rábido e sanhudo.
—Eis a prova da minha deshonra!—exclama, e ergue-se vacillante e cambaio. Entra em casa, e vê correr um vulto de mulher através de um passadiço. Corre impetuoso, e já o não alcança. Tresvariando, grita que ha ladroes em casa. Affluem os creados, buscam e rebuscam todos os cantos inutilmente. Ludovina e sua mãe acodem espavoridas, e encontram o barão, debatendo-se nos braços de dois creados, com um ataque de nervos. Ministram-lhe soccorros, conduzem-n'o á cama, querem vêr o que elle fecha na mão direita, e podem apenas lobrigar a ponta queimada de um charuto. Ludovina inquire com meiguice e pena o que é aquillo, e o desgraçado, maior e mais eloquente na sua angustia, responde:
«É a nossa morte!
Instam na explicação das respostas, e elle troveja:
—Não quero aqui ninguem!
Pasmam; e retiram-se, atemorisados.
«Estará elle doudo, meu pae?—dizia a baroneza, tremula de medo, apoiando-se nos braços do espavorido Melchior.
—Parece que sim, minha filha. Chamem-se medicos já. Este homem deve ter demasiado sangue. É ameaça de doudice, não póde ser outra cousa.{90}«Que sorte a minha!—disse Ludovina lagrimosa. E foi para o pé do leito de seu marido.
—Se se verificar a demencia—dizia Melchior a D. Angelica, de modo que só todos nós pudemos ouvir—a administração da casa passa immediatamente para Ludovina, e Rilhafolles com elle. Este homem saíu muito outro do que eu imaginava. Ainda me não disse que deixasse o logar da alfandega, nem me offereceu um emprestimo com que eu possa tentar demanda contra os possuidores da minha casa. Tenho remorsos de ter dado a este alarve uma creatura tão perfeita como a nossa Ludovina!
D. Angelica não respondeu.
«Ainda te doe a cabeça, Angelica?
—Bastante.
«Já estavas a dormir, quando o barão gritou?
—Dormitava.
«Mas eu fui ao teu quarto, e já te não encontrei lá!
—Tinha corrido sobresaltada.
«Então pelo que eu vejo tinhas-te deitado vestida...
—É verdade, nem forças tive para desapertar os colchetes.
«Porque me não chamaste, filha?
—Não quiz incommodar-te.
«Ora essa!...
—Até logo, filho, vou ver se descanço um instante{91}
«Vae, vae, menina.
Ha reticencias que não dizem nada.
A litteratura merceeira, para justificar o adjectivo, inventou as carreiras de reticencias, as quaes correspondem aos pesos roubados da mercearia.
Eu abri loja, e vou com os outros.
Não me entrem, pois, a desconfiar que os pontinhos juntos fazem borrão n'este painel de bons costumes.
A sr.ª D. Angelica é excellente mãe, no meu conceito; e, no conceito do sr. Melchior Pimenta, é excellente esposa.
Póde morrer, que o necrologio já não coxeia.{92}{93}
Não averiguei miudamente o que disse Ludovina a seu marido. Um dos dois medicos chamados ás sete horas da manhã para examinarem a supposta demencia, a pedido do Melchior Pimenta, disse-me que encontrára o barão febricitante, mas sem o menor suspeito symptoma de loucura. Accrescentou que o enfermo lhes dissera, que bebessem elles a tizana que receitaram; e lhes mandára pagar a visita, com recommendação de o darem por curado.
Ás nove horas já o barão tinha sahido, sem dizer a Ludovina o seu destino, nem acceitar o almoço.
Saíra pela porta principal, e entrára na rua para onde olhava a janella do jardim. Em frente d'essa janella, na margem esquerda da rua, estava com escriptos uma casa terrea. O barão perguntou, na vizinhança, quem era o proprietario da casinha, encontrou-o perto, alugou, pagou a casa, e recebeu a chave.
D'alli foi ao largo de S. Bento. Entrou n'uma loja de{94}ferragem, e comprou uma clavina trochada, e um par de pistolas de coldres; e, n'outra parte, as munições de fogo.
Tornou a casa ao meio dia, pediu o almoço, e comeu á tripa fôrra. A baroneza, e D. Angelica assistiram ao almoço, e não conseguiram arrancar-lhe tres palavras. Quem o servia era o negro, que o acompanhára do Rio, e o adorava com o fervor nativo da sua raça. O barão chamou-o no fim do almoço, e disse em segredo:
«Esta chave é d'aquella casa baixa que tem o numero doze, defronte da janella do jardim. Vae á loja de ferragem no largo de S. Bento, com este bilhete. Hão-de entregar-te umas armas, e um embrulho. Pega em tudo isso, de modo que ninguem cá de casa te veja, fecha-o no tal casebre, e entrega-me a chave depois.
O barão foi passear no jardim, e recolheu o seu espirito em meditabundas reflexões.
Poucos dias antes, tinha elle ouvido uma historia que toda a gente sabe. Era aquelle conto de uma mulher adultera, que o marido inexoravel matára sem pau nem pedra, pondo-lhe diante dos olhos uma moeda de prata ao almoço, ao jantar, á cêa, a toda a hora, em todas as situações, até que a matou. Esta historia entalhára-se na memoria do barão com indeleveis traços. Contou-a a sua sogra, que a classificou de indecente para se dizer a senhoras. Contou-a a sua mulher, que não desculpou a victima, mas reprovou a fereza do verdugo. João José Dias fez a apologia do verdugo, e disse que «a honra de um homem só assim se vingava.» Ludovina fitou-o{95}com espanto, e acreditou que o ciume seria capaz de desenvolver os instinctos ferozes de seu marido.
Era aquella historia o ponto convergente das meditações que o reconcentraram, por espaço de tres horas. D'esta longa e dolorosa encubação do pensamento deve-se esperar um parto, um monstro, uma façanha, mais ou menos plagiaria, da medonha expiação da adultera.
Chamaram-n'o para jantar: disse que jantaria em mesa á parte com sua mulher. Desceu ao jardim a baroneza, e perguntou-lhe a causa de tal exquisitice.
—Não dou satisfações—respondeu—Quero jantar, e almoçar sósinho comsigo.
—Isso é o mesmo que...
—Não me replique! tenho dito.
Fazia medo a cara do homem. Esverdinharam-se os refegos da papeira; as ventas fumegavam soluçando; testa e palpebras, tinham o escarlate da penca do perú assanhado.
Ludovina estava atterrada, e julgou-se em risco, ali, sósinha. Recuára para se evadir com dignidade, honrando a retirada, quando o barão lhe disse:
—Olhe, senhora!
A baroneza voltou-se, e viu o braço do barão erguido em attitude prophetica; e lá em cima no cucuruto da mão cebácea... oCHARUTO!...
—Que é isso?!—perguntou ella com mais curiosidade que espanto.
—Não sabe o que isto é? chegue-se cá!
Ludovina, indo receosa, disse:{96}
—É um charuto... pois não é?!
—É um charuto! é um charuto! mulher traidora!—ululou o bordalengo com a grenha irriçada.
Ludovina recuou tres passos, tolhida de medo. O barão crescia sobre ella, com o braço no ar, arvorando o charuto. A pobre menina temeu as furias de um doudo, e chamou com afflictivo grito a mãe.
Acudiu D. Angelica, já quando o barão, mettendo as mãos nas portinholas da japona, á laia de idolo chinez, voltava as costas a sua mulher.
—Isto que é?!—exclamou D. Angelica.
—Está doudo rematado, minha mãe!—disse, a meia voz, a baroneza.
—Vae-se chamar teu pae, que chegou agora. Nós não podemos viver com um demente...
—Janta-se, ou não se janta?—disse o barão, caminhando para ellas com socegado semblante.
—Que desordem foi esta, sr. barão?
—Desordem! ora essa é fresca! Aqui, que eu saiba, não houve desordem nenhuma... Foi sua filha que viu uma cousa que a fez gritar... A culpa é d'ella.
—Que viste, Ludovina?
—Eu vi um charuto na mão d'este senhor; mas gritei porque elle me deu berros medonhos, e correu para mim com ares ameaçadores.
—Deixe-a falar, sr.ª D. Angelica—replicou o barão, sorrindo de um modo que confirmava a demencia—A cousa é outra... Vamos jantar, e, se minha mulher tem medo de mim, jantaremos todos juntos á mesma mesa.{97}
Melchior Pimenta, informado da desordem, foi ao encontro do grupo que entrava em casa. D. Angelica, com um só dedo, fez-lhe dois gestos: um ao longo do nariz, para que se calasse, outro no centro da testa, para que as protegesse de um doudo furioso.
Sentaram-se á mesa, espionando os menores movimentos do barão. Viram-no tirar a mão da algibeira, extender o braço por sobre a mesa, e deixar caír, ao pé do prato da baroneza o charuto.
Ludovina lançou-o ao chão com a faca, dizendo:
—Olhem que porcaria!—E voltando-se para o creado que servia a sôpa:
—Atire isto lá fóra!
—Não atires!—bradou o barão.
—Porque não ha de atirar?!—Disse Melchior Pimenta.
—Porque não quero! e porque sou dono d'esta casa! e porque quero despicar a minha honra!... e porque vae tudo com mil diabos, ouviu?
Os talheres, os calices, as bandejas, e os pratos, resaltaram duas pollegadas acima da superficie: tamanho fôra o murro que o barão baixára sobre a mesa.
Ergueram-se todos. D. Ludovina fugiu por uma porta; D. Angelica por outra; Melchior Pimenta, enfiado, amarello, sem gota de sangue, antevendo um violento embate na sua cara com a terrina, seguiu a mulher, colorindo a retirada com a prudencia.
O barão embolsou o charuto, chamou o preto, e disse-lhe:{98}
—Senta-te ahi, Simão; janta ao pé de mim, que és o unico amigo que eu tenho.
Ha, n'este lance, motivo para nos condoermos.
O barão não come, apesar do esforço. O bocado entala-se-lhe na garganta, comprimida pelos soluços. Depõe o garfo, e descáe o rosto, coberto de lagrimas, sobre as mãos. O preto, que não ousára sentar-se, vendo chorar o amo, cujo pão comera em liberdade, no espaço de vinte annos, chora tambem, e pergunta a medo a causa d'aquella afflicção. Responde-lhe em gemidos o bemfeitor, e ergue-se extenuado, e vacillante, como se os sentidos o desamparassem. O preto quer conduzi-lo ao quarto; mas o barão, um momento indeciso, pede o chapéo e sae.
As angustias d'este homem condemnam Ludovina?
Não. Ludovina é innocente como os anjos.
A peçonha mortal, que espedaça o coração d'este homem, tem-na elle na algibeira: é o charuto de Francisco Nunes.{99}
É meia noite e um quarto no relogio da Lapa.
A casta lua dá a sua luz poetica a muitas impudicicias, e tolera o escandalo resignada. Casta lhe chamam os poetas, e é bem posto o epitheto. Só ella seria capaz de manter-se pura com tantos exemplos de corrupção. De mim creio que a tem salvado a distancia que a separa dos bardos que a namoram; e, se não é a distancia, é a impertinencia das cartas rimadas que lhe mandam. Muitas mulheres, menos castas que a lua, teem sido salvas pelo mesmo theor. Os poetas, que amam em verso, são uns puros desinfectantes da putrida impureza. Se todos fizessemos versos, e nos amassemos em oitava rima, eu lhes asseguro que este globo era um viveiro de anjos. A theoria de Hobbes seria uma calumnia, e a de Maltus um absurdo. Não andariamos travados em permanente lucta, nem a exuberancia da propagação assustaria os economistas. Havia só o risco de nos matar a fome; mas cada cysne teria um canto derradeiro com que esforçar a guerra á prosa que inventou{100}os cereaes, o boi cozido, as acções do banco e a troca de um romance por quinhentos réis.
Isto occorreu naturalmente da castidade da lua.
Era, pois, meia noite e um quarto no relogio da Lapa, e fazia luar como de dia.
Ás dez horas e meia, tinha entrado para a casa numero 12, da rua *** um vulto sinistramente rebuçado: era o barão de Celorico de Basto. A casa tinha uma janella tosca de madeira, que se abriu cousa de meio palmo, depois que o encapotado entrou. De vez em quando, um raio da luz, caíndo sobre a fresta das duas portadas, resvalava no nariz do barão, dando-lhe o colorido de uma cidra avelada.
Soára o quarto depois da meia noite, quando a janella interior da grade do jardim se abriu cautelosamente.
Um objecto branco sobresaía na sombra: devia ser o lenço de uma mulher.
Cinco minutos, depois, n'uma extrema da rua appareceu um vulto encapotado, que fumava, caminhando cosido com o muro do jardim. A figura da janella desappareceu, e em seguida ouviu-se o ranger subtil da lingueta de uma chave. Era a porta do jardim que se abria ao avizinhar-se o vulto.
A distancia de tres passos da porta, o homem que fumava ouviu o ruido de uma janella que se abria, e parou, voltando-se para a janella. O que elle viu foi o lampejo da detonação de um tiro, e levou a mão ao hombro esquerdo. Seguiu-se um pulo incrivel do barão fóra da janella, a fuga precipitada do vulto, e um segundo{101}tiro, que redobrou a força motriz do fugitivo.
Apitára uma patrulha ao cabo da rua, duas, tres, vinte patrulhas apitaram. A cem passos de distancia do local dos tiros, encontraram um homem extendido na rua, e disseram em voz alta, que o barão ouvira:—parece que está morto.
O barão, sem apressar o passo, entrou na porta do muro, e deu volta á chave. Olhou ao longo do jardim, e viu, por entre as sombras dos arbustos, contiguos á casa, perpassar um vulto, e sumir-se.
Abriu-se outra vez a janella da grade, ao tempo que as janellas das casinhas fronteiras se abriam. Alguns soldados perguntavam onde se deram os tiros. Respondiam unanimemente que foram dados alli, e mostrava-se uma bucha ainda fumegando, no meio da rua.
—Quem está ahi n'essa janella?—bradou um soldado ao barão, que estivera calado.
—Sou eu, sou o dono d'esta casa.
—E quem é o senhor?
—É o senhor barão—responderam os vizinhos.—Não, d'alli de certo não foi.
—Os tiros?—perguntou o barão.
—Sim, senhor, dois tiros que se deram aqui agora.
—Eu tambem, os ouvi, e por isso cá vim. Mataram alguem, ou foi patuscada?
—Não foi má a patuscada! Está alli adiante um sujeito extendido nas pedras, e, se não está morto, pouco lhe falta.
—Quem é? conhecem?{102}
—Estão lá dois camaradas que o conhecem. Dizem que é um doutor de uma casa rica, chamado... lembras-te, 38?
—Acho que elle disse... Almeida.
—É isso, Almeida. O sr. barão conhece-o?
—Não me lembro d'esse nome. Elle ainda lá está? Eu vou lá ver se o conheço...
O barão seguiu a patrulha, até parar n'um grupo de soldados e paizanos, que rodeavam uma cadeira, onde estava assentado o ferido. Era coragem de cynico, ou desatino de demente? Mais que tudo isso: era o ciume!
—Eu conheço este sujeito—disse o barão com admiravel placidez.—E elle tambem me ha de conhecer, se estiver vivo. Olé, sr. doutor! Está aqui o barão de Celorico, conhece-me?
O ferido abriu a custo os olhos, e fez um aceno affirmativo,
—Eu offerecia-lhe a minha casa, mas a d'elle é perto d'aqui, acho eu.
—Nós sabemos—disseram os soldados.
—Pobre homem!—proseguiu o barão em tom compadecido.—Ainda a noite passada elle esteve n'um baile que eu dei...
Agglomeravam-se na rua os curiosos, quando o barão entrou em casa. Não ouviu o mais leve rumor. Entrou no quarto de sua mulher, e viu-a dormindo.
Parou ao pé do leito, e vascolejou nas mandibulas, alvares uma gargalhada estrondosa. A baroneza acordou,{103}sentou-se no leito estremunhada sem saber o que ouvira, nem o que via.
O barão tirou da algibeira o charuto, chegou-lh'o ao pé dos olhos, e bradou:
—O tal patife não fuma outro.
—Que diz?—exclamou Ludovina.
—Faz-te de novas, mulher perdida! resa-lhe por alma, que a minha honra está vingada. Agora que digam o que quizerem.
E saíu do quarto, deixando apavorada a pobre senhora, que o julgou n'um terceiro ataque de loucura.
Ludovina vestiu-se apressadamente, e correu ao quarto da mãe.
Encontrou-a vestida, prostrada sobre o tapete do guarda cama, com a face caída sobre os degraus do leito. Ajoelhou ao pé d'ella, chamou-a, ergueu-a, agitou-a com a força da afflicção, e caíu com ella sobre a cama.
D. Angelica abriu os olhos pavidos, e vendo a filha, escondeu a face nas mãos, exclamando:
—Jesus, meu Deus!
—Que teve, mãesinha, isto que foi
—Nada, infeliz; foi um accidente...
—Por causa dos meus desgostos? ouviu o que aquelle homem me disse?
—Não, minha pobre martyr... imagino o que te diria... Oh... deixa-me ver se consigo chorar, senão estalo... mas não chores tu, filha, não quero que nos ouçam... É preciso que eu te salve, antes que a morte me leve com o encargo da tua reputação infamada...{104}
—Eu não a entendo, minha mãe!
—Não pódes entender-me, Ludovina, não pódes... ai! deixa-me respirar, que eu não vivo uma hora assim...
A baroneza amparou a mãe até á janella, que abriu. D. Angelica rasgava com as mãos os espartilhos compressores do collete, e fincava entre os cabellos os dedos com vertiginoso desespero. N'este frenesi, susteve-se, comprimindo a respiração, para escutar as vozes que vinham da rua contigua ao muro do jardim.
Uma dizia:
—Ia morto.
Outra:
—A bala entrou-lhe no peito.
Outra:
—Pobre familia, que bocado tão amargo!
—Aquillo que é?—perguntou D. Angelica espavorida.
—Eu não sei, mãe!
—Esse malvado que te disse?
—Chamou-me mulher perdida; mostrou-me o charuto, dizendo que o patife não fumava outro; e que lhe resasse por alma...
D. Angelica expediu um grito, um ai vibrante, de uns que o seio arremessa de si, como se n'esse esforço expellisse um espinho arrancado ao coração.
Ao grito de Angelica succedeu o terror confuso de Ludovina.
N'este intervallo de silencio a lastimavel mãe concebeu{105}um designio atroz. Deu um salto para precipitar-se da janella, e achou-se travada nos braços da filha, que pedia soccorro, a altos brados, repuxando-a para o interior do quarto, com a força miraculosa da angustia.
Ouviram-se passos no corredor. Ludovina exclamou:
—Entre quem é.
Abriu-se a porta, e surgiu o barão.
D. Angelica lançou-lhe um olhar torvo, e fulminante; fugiu, de um repellão, aos braços da filha; correu para elle com a sanha de uma possessa, e atirou-o fóra do quarto com o choque dos punhos furiosos, exclamando:
«Assassino! assassino!
Ninguem me soube dizer a qual genero do sublime truanesco pertencia, n'este conflicto, o barão de Celorico. Eu tambem me não cancei em averiguações, porque o resultado d'ellas seria sujar com salmouras despicientes um quadro de angustias, que não é novo na vida, mas afouto-me a dize'-lo que é novo no romance. Melchior Pimenta não apparecia, sendo o seu quarto paredes meias com o de sua mulher. Deliciava-se nas profundezas de um somno do qual só podia emergir, quando a ultima molecula de tres grãos de morphina se perdesse através dos philtros nervosos. O dormir do somnolento empregado da alfandega explica-se com as vigilias aturadas de D. Angelica. Vá sem reticencias.
Para nós é mais comprehensivel o espanto da baroneza do que estava sendo para ella o desespero de sua mãe. Se a pobre senhora suspeitasse que a demencia do marido era contagiosa; tinha desculpa. Tamanha afflição,{106}descompostura tal de contorsões, de gemidos, de arremessos para a janella, chamando a morte, não podia ser procedente do amor maternal exaltado até á ira da leôa.
Ludovina ajuizava assim; mas não atinava com a razão possivel de effeitos tão extraordinarios no caracter inalteravel, e quasi duro de sua mãe.
Instava, supplicando-lhe o desafogo da sua agonia. D. Angelica apertava-a contra o seio com arrebatada e insolita ternura. Promettia dizer-lhe tudo, quando pudesse falar, na certeza de que a sua ultima palavra fosse um adeus a este mundo, e uma confissão de que dependia o credito de sua filha.
Foi um raio de luz para Ludovina estas palavras, cortadas por gemidos; esse raio de luz, porém, queimou-lhe o coração. Se Angelica reparasse na pallidez da filha, demasiado castigo seria da sua falta essa mudança. A parte da sua dôr, que até alli fôra remorso, seria depois vergonha, e vergonha de sua filha, tortura mil vezes mais pungente que a mordedura do remorso para a que soube ser mãe, e affrontou os deveres de esposa.
A baroneza mudou de semblante e de carinho, sentiu-se gelada e inerte ao pé da mãe, logo que meia luz do enygma lhe aclarou o entendimento.
«A mãe precisa descançar—disse ella com affectado gesto de carinho—Deite-se, que eu ajudo-a a despir-se, e ficarei ao pé da sua cama.
—Não, filha; eu não tenho descanço n'este mundo, nem no outro. Se ainda tenho algum direito á tua obediencia,{107}deixa-me só; preciso de chorar lagrimas que nunca Deus permitta o teu coração as chore. Não pódes respeitar esta agonia, porque não a comprehendes, innocente martyr. Se soubesses... poderias abominar-me agora, para te compadeceres depois.
«Sei, mãe.
—Que sabes tu, Ludovina?! exclamou Angelica, abraçando-a convulsivamente.
«O meu silencio responde-lhe, mãe... Não soffra pela minha deshonra. Deus sabe tudo; não me importa o mundo; a Providencia fará vêr a verdade a meu marido, sem que o nome de minha mãe seja sacrificado. Cale-se, por quem é. Não diga nada ao barão, e poupe meu pae. Eu sinto-me com forças para não vergar a um peso de infamação que me não cáe sobre a consciencia. Se o meu amor a póde consolar, não diga o seu segredo a ninguem; não diga porque eu não sei qual dos dois descreditos é mais afflictivo para mim...
D. Angelica resvalou dos braços da filha, querendo ajoelhar-se-lhe aos pés.
Ludovina ajoelhou com ella, e n'este momento abriu-se a porta.
Era o barão de Celorico.
—Ouvi tudo—exclamou elle—Perdôa-me, Ludovina, pelas cinco chagas de Christo. E foge d'essa mulher, que é a causa de eu ser um matador.
—Tem razão; vae, minha filha—disse D. Angelica, afastando-a de si.
—Sr. barão—disse Ludovina—eu não deixo uma mãe{108}culpada para seguir um assassino. Saia da minha presença, que o detesto. Apenas romper a manhã, deixo esta casa, deixo-lh'a para que o senhor caiba n'ella com o seu remorso. Matou um homem, sr. barão, um homem que não conhecia; matou-o a sangue frio, e será capaz de praticar uma crueldade menor matando-me a mim.
D. Angelica arrancou-se aos braços da filha com furioso impeto, e postou-se terrivel diante do barão, exclamando com uma toada de voz soturna e tremula:
—Com que direito assassinou um homem, scelerado, carniceiro?
O barão tremeu, recuou, e pendeu o queixo inferior relaxado pelo espasmo.
—Responda á amante do homem que matou; á mulher que acceita voluntariamente a infamia da sua culpa, para ter o direito de pedir contas ao assassino de Antonio d'Almeida. Querias, com essas mãos tintas de sangue, tocar em minha filha, miseravel algoz, que és tão estupido como sanguinario!
Ludovina, cingindo a cintura da mãe, arrastou-a para longe do barão, que parecia, ao passo que ella falava, ir-se petrificando.
A vehemencia da ira decaíu subitamente em syncope. D. Angelica encostou a face desfallecida ao seio da filha, que a levantou nos braços, e deitou no leito.
E voltando-se para o miserando homem, cujo rosto confrangido accusava os pungimentos do remorso, a baroneza, em tom de cólera mal reprimida, disse:
—O senhor não ha de ser mais feliz que as pessoas{109}a quem deu a morte, e a eterna vida de lagrimas. Pediu-me perdão? eu já lhe havia perdoado as suspeitas, as desconfianças, os insultos, as vergonhas a que hontem me expoz na presença dos seus creados. Tudo lhe perdoei, em quanto o suppuz demente; hoje, que o considero um criminoso de morte, e que não tenho quem me defenda das suas mãos póde matar-me, que o não chamarei á presença de Deus para ser julgado.
—Ludovina—balbuciou o barão, com o rosto coberto de lagrimas—eu matei esse homem cuidando que era elle o teu amante...
—Era a mim que devia matar-me, senhor.
—Não podia ainda que quizesse, porque a minha tenção era matar-me e deixar-te viva, para que tu ao menos te lembrasses de mim com pena, quando já me não visses n'este mundo. Esse homem ainda não morreu, Ludovina; póde ser que se cure, e eu vou-me ajoelhar aos pés d'elle a pedir-lhe perdão, e, se tu quizeres, pedirei tambem perdão a tua mãe.
—Não fale n'essa infeliz a ninguem, snr. Dias, a ninguem. Aqui a deshonrada sou eu. Se o descobrirem como assassino de Antonio de Almeida, diga, se quer que eu o não amaldiçôe, diga que esse homem era o meu amante; mas não fale em minha pobre mãe...
«Que dizes tu, Ludovina? Pois tu queres que se diga que eu fui deshonrado por ti?
—Deshonrado está o senhor, desde já, desde que matou, ou quiz matar por uma suspeita um vulto desconhecido...{110}
«Elle vinha entrando para o jardim, Ludovina, e tua mãe estava na janella...
—Cale-se! isso é mentira! minha mãe estava deitada na sua cama...
«Não estava, Ludovina...
—Estava, snr. Dias; não me contradiga, que eu juro contra as suas palavras em toda a parte.
«Então quem estava na janella, senão tua mãe?
—Era eu; já lhe disse que a deshonrada sou eu; esse homem que matou era o meu amante; sabe-o todo o mundo; sabia-o o senhor quando o matou; sou eu a causa de meu amante ser um cadaver, e meu marido um assassino. Sou, portanto, uma infame mulher que deve saír debaixo d'estas telhas. Ámanhã, ámanhã ha de fazer-se uma separação eterna entre nós. A sua honra fica assim completamente desaffrontada. Todos dirão que meu marido me expulsou com a ponta do pé de sua casa. Todos hão de admirar os brios do snr. barão que matou o rival, e não desceu á cobardia de matar uma mulher... Esta resolução é inalteravel; acabou-se tudo entre nós, menos a vergonha, a infamia, o escandalo que vae fazer dos nossos nomes um espectaculo para a irrisão de uns, e para a piedade de outros. Eis aqui a sua obra; a mim, como sua mulher, compete-me acceitar metade da responsabilidade...
D. Angelica sentou-se no leito, afastou, como em delirio, os cabellos que lhe cobriam as faces, e pediu uma gota d'agua, com supplicante instancia, proferindo os nomes das creadas da casa. Ludovina ministrava-lhe a{111}agua, que ella repelliu com ira. Permaneceu estarrecida alguns segundos, com os joelhos a prumo entre as mãos; depois, caíu de chofre sobre o travesseiro, e murmurou longo tempo palavras inintelligiveis.
O barão tinha saído imperceptivel. D. Ludovina debruçou-se, debulhada em lagrimas, sobre o leito.
Melchior Pimenta, no quarto immediato, espreguiçando-se fazia com os abrimentos de boca uma toada em falsete, rispida como o uivar do mastim.
Abençoados quatro grãos de morphina que lhe povoastes o somno de deleitosas visões!
Melchior Pimenta, eu, quando quero phantasiar um marido bemaventurado, lembras-me tu.
Se vejo algum, desconcertado como as velleidades da metade que se despega, para entrar como excrescencia no complemento de outras existencias, que se reputam inteiras, dá-me vontade de lhes perguntar se já experimentaram a morphina.
Eu tenho visto a suprema felicidade dos minotauros.
Havia dois que espiritavam a galhofa de Melchior Pimenta; um, que repudiando, timbroso e austero, a esposa tentada pela cobra d'este paraizo terreal, onde as cobras inçam como em matagal bravio, recebe uma carta de dama d'alta estirpe, onde se lhe censura o burguez despique de peccadilho tão corrente em gente fina. O marido acceitára a correcção e a mulher incorrigivel. Melchior ria até caír.
Outro, amante da paz caseira e fricassés acirrantes, conhece no aspecto carrancudo da mulher, e no aguado{112}dos molhos, os desvios do amante: inventa pretextos para aproxima'-los e ameiga os arrufos com um jantar campestre.
Outro... Melchior conhecia outro, e eu conheço-o a elle, e mais dez exemplares que Brantome não archivou,[4]todos aporfiando em delicias sublunares.
Mas o ditosissimo, o que vive e morre sem sentir na consciencia o toque despertador, omomentoda predestinação cumprida, esse é um só no meu catalogo.
Melchior Pimenta, se quizeres um dia erigir estatuas aos deuses tutelares da tua prosperidade, lembra-te de Ludwig que farejou no opio a morphina; de Seguin que a descreveu; e de Sertuerner que aperfeiçoou o processo da extracção.
Sem a morphina, não serias mais feliz que Octavio, que Cicero, que Domiciano, e tantos grandes e sabios do paganismo que podem, sem vergonha, apparecer diante de outros não menos sabios, e grandes senhores da christandade.
Nasceste n'um folle, Melchior Pimenta!{113}
Mulheres são os melhores juizes de mulheres.
Disseram philosophos e moralistas, uns, grandes santos como S. Paulo, e outros, grandes atheus como Voltaire, que a mulher é um ser exuberante de sensibilidade, e apoucado de raciocinio.
D'ahi vem o denegarem-lhes accesso ás sciencias abstractas, ás politicas, aos parlamentos, ao magisterio, ás regiões intellectivas do machinismo social, e mandarem-nas cuidar dos filhos, e fiar na roca.
Se o absurdo vinga, se, por alvitre grosseiro do mais forte, a mulher é um ente inepto para exercitar a razão, com que direito as julgamos e sentenciamos, segundo a razão, sendo as suas culpas demasias de sentimento?
A injustiça é flagrante e odiosa.
Privam-nas de razão para as excluirem das funcções que a requerem; sentenceiam-nas pela razão, se o sentimento, seu dom essencial, as desvia do piso demarcado por ella.{114}
Isto é uma tyrannia, uma inquisição, uma crueza turca.
A mulher não pode ser julgada por nós. Somos os senhores feudaes da razão. A nossa alçada respira a prepotencia do baraço e cutello. Estamos em insurreição permanente contra o santissimo apostolado de Jesus, que baixou seu divino braço por igual sobre o homem e mulher.
Não podemos superintender no fôro do coração, porque a nossa jurisprudencia é toda de cabeça, e o nosso codigo em pleitos da alma é estupido ou hypocrita.
Quem é o juiz da mulher? O homem que a despenha do abysmo, onde a lançou o amor, ao abysmo do opprobrio.
É o homem, que lhe entalha o ferrete da ignominia na face onde imprimira o beijo da perdição.
O altar onde se adora uma mulher é ao mesmo tempo a ara onde ella se dá em holocausto. Peccadora por muito sentir e chorar, amar e crer, quando nos abre céos e céos de alegria e gloria, abrimos-lhe nós o inferno dos desenganos, e o supplicio extremo do descredito. O mundo não as exila, mas affronta-as; o coração não as encrimina, mas agonisa na horrivel soledade para onde a razão o desterra.
E somos nós os juizes, porque entramos n'uma herança usurpada pela força primeiro, e legalisada depois pelo sophisma escripto.
A mulher foi escrava do braço, antes de o ser da superioridade moral.{115}
Quando o homem chamou a sciencia a dar um testemunho falso da sua primazia, a mulher, quebrantada pela escravidão do braço, não pôde remir-se com as forças do espirito.
Ainda assim, o tyranno, receoso da emancipação, fez em redor da escrava as trevas da ignorancia, para que a razão da mulher não pudesse conceber da luz o germen que a rehabilitasse.
Pegou de formosa flor, cercou-a de estevas, cobriu-a de sombras por onde o sol não podia coar uma restea reanimadora.
Esta machinação arteira sobreviveu a todas as borrascas sociaes. Os fautores, e ainda os martyres da egualdade perante Deus e perante a lei, nunca proferiram uma palavra, nem verteram gotta de sangue para o resgate moral da mulher.
O Filho de Maria disse que a mulher era egual ao homem, e levou para o céo o segredo da sua emancipação.
Ficamos nós cá, os açambarcadores do entendimento escrevendo livros, que sacrilegamente denominamos de moral derivada do Evangelho, e n'elles demarcamos a profunda raia que extremaRAZÃOdeSENTIMENTO. A razão para nós, o sentimento para ellas. Se, todavia, o sentimento claudica nos preceitos da razão pautada e insoffrida, condemnamos a mulher pela culpa de se deixar perder na escuridade, á mingua de uma lampada que lhe negáramos.{116}
Não sei se rasgue estas cinco paginas do manuscripto. Se alguem me assegura que entre vinte mil leitoras (orça por isto o numero das senhoras que compram livros em Portugal) se me asseguram que entre as vinte mil ha duas que me entenderam a parlenda, e me ficam desejando muita saude e graça para servir a Deus, não rasgo as paginas, embora os homens me mandem, em portuguezissima phrase, bugiar.
Quando comecei o capitulo, tinha de olho dizer, á quarta linha, que, ácerca de culpas de mulheres, já mais consulto homens.
Mulheres são os melhores juizes de mulheres.
A respeito de D. Angelica, consultei uma sua amiga de infancia, tão virtuosa como indulgente; mas virtuosa—não me afiram lá a palavra pelo elucidario caseiro—virtuosa amando muito e com muito despego de pecos empecilhos, atravancados pela impostura.
Disse-me ella o seguinte:
«D. Angelica é das poucas mulheres que podem fazer do seu crime um titulo ao respeito das mulheres que sentem o coração pela dôr.
—Ao respeito!—atalhei eu, com fumos de juiz, vicio do sexo ingrato, onde por desventura me encontro.
«Sim, ao respeito, porque D. Angelica amando vinte annos um homem, juro-lhe que não teve uma hora de consciencia quieta, nem intrepidez para sacrificar o coração ao repouso da consciencia.
—Vinte annos! pois era amor de vinte annos o do tal Almeida que o barão de Celorico arcobuzou?{117}
«Mais seria, talvez. Angelica era filha segunda de um fidalgo pobre do Minho. Foi educada comigo, no Porto, no recolhimento de S. Lazaro. Passava as festas do anno em casa de um doutor, que tinha filhas, e um filho que se formava n'esse tempo. Esse filho era o Antonio de Almeida, que o senhor conhece, e D. Angelica amou desde os quinze annos, com o amor immenso das sympathias contrariadas.
O doutor descobriu a affeição do filho, e impoz-lhe um violento termo, prohibindo-o de vir ao Porto nos dois ultimos annos da formatura.
As cartas de Antonio de Almeida recebia-as eu, e Angelica relia-as, ao cabo de dois annos de ausencia, com paixão cada vez mais entranhada.
O fidalgo pobre resolveu casar a filha com um rapaz que se dizia rico. Melchior Pimenta era filho bastardo de um conego opulento, e litigava a herança paterna, com a certeza do vencimento.
Angelica saíu do recolhimento sem saber para que fim saía. Friamente avisada de que havia de casar com Melchior Pimenta, embruteceu, ficou como tolhida, e desmemoriada do amor que alimentára tres annos.
Quando o coração reviveu do lethargo, a indiscreta menina escreveu ao pae de Antonio de Almeida, pedindo-lhe que a pedisse ao pae para casar com seu filho. Que innocencia!
Escreveu ao marido que lhe destinavam, confessando que não podia dar-lhe o coração.
O doutor, se ella lhe conviesse te'-la ía. Angelica era{118}pobre. Melchior Pimenta não respondeu á carta, nem deminuiu as instancias.
O fidalgo, informado pelo doutor, agradeceu-lhe a probidade da denuncia, e accelerou o desfecho.
Angelica não soltou um gemido na presença do pae; sei que apenas lhe disse: «A historia de muitas mulheres desgraçadas começa como a minha.» Disse, e pôz a cabeça no altar do sacrificio. Ao marido apenas perguntou se recebera uma carta d'ella...
Participei a Almeida o casamento de Angelica. Respondeu-me elle que não acreditava a infamia emquanto a perfida não tivesse o cynismo de lh'a dizer. Modifiquei as palavras d'esta carta, contando-as á minha amiga. Ella soluçou nos meus braços muito tempo, e disse com vehemente resolução: «Pois sou eu que lhe vou dar parte do meu casamento, e offerecer-lhe a minha casa.» Que fazes tu, menina?—repliquei eu, longe de suspeitar a resposta: «Faço á prepotencia de meu pae o sacrificio da minha dignidade, e castigo um homem que me comprou.»
Julguei-a desvairada pela angustia, e reservei para melhor ensejo os conselhos que os meus vinte e cinco annos, já apalpados por amarguras de coração, podiam dar-lhe.
Effectivamente, Antonio de Almeida voltou formado, e frequentou a casa de Melchior Pimenta, que dava bailes, e figurava na primeira plana a favor de antecipações que fazia sobre o penhor do seu patrimonio.
Deixei de ser a confidente de Angelica, mezes depois.{119}As suas cartas não eram confidencias: eram lagrimas, queixumes vagos contra a sua sorte, chagas de consciencia que só a morte podia cicatrisar. Entendi tudo, e fiz o que faz, ou o que raras vezes faz uma amiga: consolei-a na queda, como a aconselhára á beira do abysmo. Disse-lhe que mandasse a consciencia ao pae, e que ficasse ella com o coração. Não lhe falei em Deus, nem na Virgem, porque no infortunio de Angelica, não havia que vêr com cousas sobrehumanas.
O doutor farejava um casamento rico para o filho; achou-o, e marcou-lhe o prazo para se realisar. Antonio de Almeida rejeitou-o com toda a ousadia da desobediencia. Choveram maldições ás duzias, abriram-se os cancellos do inferno aos pés do obstinado moço. Peor que tudo isso, o castigo de Almeida foi ser expulso de casa, sem pão, nem habilitações promptas para ganha'-lo.
Angelica soube tudo por mim, e por uma carta do doutor, que a responsabilisava pela desgraça do filho. Vendeu algumas joias que tinha de sua mãe, e pediu-me a entrega do producto, como dadiva minha, a Almeida. O brioso moço, não sei como, soubera onde as joias paravam. Acceitou o dinheiro, comprou as joias e pediu-me que as entregasse a Angelica.
Duas almas assim nunca se separam. As ligações mais duradouras são as do crime, quando as virtudes do sacrificio reciproco chegam a esquecer-se da sua má origem.
Antonio de Almeida trabalhou dia e noite, até ser um advogado de fama.{120}
Melchior Pimenta, ao cabo de quatro annos de casado, tinha perdido a demanda, e estava pobre. Antonio de Almeida cortou ás suas primeiras necessidades para emprestar a Melchior o fausto da casa. Angelica soube-o tarde; mas, sabendo-o, conheceu a pobreza de seu marido, e a delicada generosidade do seu amigo.
Fecharam-se as portas da sala, acabaram bailes e theatros, resumiu-se a vida de Angelica ao amor a sua filha, á adoração mais intima do amante, e aos respeitos affectuosos por seu marido.
Antonio de Almeida acatou o melindre de Angelica. Inventou pretextos para melhorar-lhe a vida, que ella não desejava melhor. Conseguiu fazer despachar Melchior Pimenta para a alfandega, comprando o despacho por alto preço.
Nem este mesmo sacrificio desconheceu Angelica. Os jornaes annunciaram a corrupção, e a minha atilada amiga adivinhou a causa. Melchior Pimenta, não. Esse perguntava se os seus merecimentos não eram demasiada recommendação para o despacho.
Sabe agora a vida de Angelica?
Se alguma vez o seu sestro linguareiro o levar a pôr em romance esta historia, accrescente que D. Angelica, ao despedir-se de Almeida para visitar o berço da filha, lavou-lhe muitas vezes o rosto com lagrimas. Diga que, outras muitas, o amante de Angelica, farto de a esperar na sala, e já receoso de algum successo triste, procurando-a, ia encontra'-la ajoelhada ao pé d'esse berço. E, depois que Ludovina se lançava aos braços de Almeida,{121}com fervor mais de filha que de creança affeita a mimos e carinhos, o rosto de Angelica incendiava-se de pejo, como se o affecto e a virgindade do coração travassem peleja.
Em resumo, snr. romancista, acabo por onde principiei, e do que vou repetir faça uma maxima, por minha conta; mas não a enfileire a par da do commendador João José Dias:
HA MULHERES QUE PODEM FAZER DO SEU CRIME UM TÍTULO AO RESPEITO DAS MULHERES QUE SENTEM O CORAÇÃO PELA DOR.
D. Angelica está julgada e punida.................
Entretanto foi Jesus para o monte Olivete:
Então lhe trouxeram os escribas e os phariseus uma mulher que fôra apanhada em adulterio: e a puzeram no meio.
E lhe disseram: Mestre, esta mulher foi agora mesmo apanhada em adulterio.
E Moisés, na lei, mandou-nos apedrejar estas taes. Que dizes tu logo?
Jesus, inclinando-se, escreveu com o dedo na terra.
E, como elles teimavam em interroga'-lo, ergueu-se Jesus, e disse-lhes: O que de entre vós está sem peccado seja o primeiro a apedreja'-la.
E, tornando a curvar-se, escrevia na terra.
Elles, porém, ouvindo-o, saíram um a um, sendo os{122}mais velhos os primeiros; e ficou só Jesus e a mulher que permanecia, no meio, em pé.
Então ergueu-se Jesus, e disse-lhe: Mulher, onde estão os que te accusavam? ninguem te condemnou?
Ninguem, Senhor;—respondeu ella. Então, disse Jesus: Nem eu tão pouco te condemnarei: vae e não peques mais.
O SANTOEVANGELHO DEJESUSCHRISTO, SEGUNDOS. JOÃO—Capitulo VIII.{123}