XII

XIIEm quanto D. Angelica dormita os somnos curtos e sobresaltados da febre, a baroneza despertou o pae, chamando-o á ante-camara.Melchior Pimenta, estremunhado e como ebrio dos aturdimentos da morphina, extranhou á filha a extraordinaria madrugada, e perguntou se o barão fizera alguma nova loucura.—Não podemos continuar a existir n'esta casa, meu pae—disse Ludovina, sem saber ainda como sahir-se bem de lance tão perigoso para sua mãe.«Então que houve? esse alarve que fez? será necessario amarra'-lo?—O necessario é sahirmos; mas a mãe está muito incommodada...«Que tem ella?!—Os meus desgostos affligiram-n'a a tal ponto que está ardendo em febre, e não sei se poderá transportar-se.«Vamos vê'-la.—Pois sim vamos, mas não perca tempo. Um medico{124}é o mais urgente agora. Veja-a; se ella estiver descançando, não a desperte, e vá dispôr as cousas em nossa casa para nos mudarmos logo, sim, meu pae?«Mas que fez o bruto?! A gente ha de sair d'aqui sem dar uma satisfação á opinião publica? Não vês que esta saida precipitada auctorisa a maledicencia a calumniar-te como o barão te calumnia?—Não tratemos agora da opinião publica, nem do barão. O pae saberá tudo. Venha ver a mãe, e vá depressinha, sim?Melchior Pimenta entrou na camara de sua mulher. Tateou-lhe a testa que transpirava o suor da febre, sondou-lhe o pulso, afastou-lhe os cabellos dos olhos, e murmurou:«Isto é doença séria, Ludovina!...—Talvez não, meu pae... São afflicções que se curam com o socego da nossa casa. Não se demore. Vá por casa do medico e mande-o já. Se vir o barão não lhe diga nada, promette-me?«Eu sei cá o que farei! Ao despedir-me, tenciono dizer-lhe que me não codilhou. Tu tens escriptura de dote. Quando quizeres, levantas vinte contos de réis...—Pois sim, meu pae, esses negocios não são para agora. O que eu quero é a saude de minha mãe. Vamo-nos d'aqui embora, que eu torno a ser feliz... Se é meu amigo, não se demore; tire-nos d'este purgatorio.Melchior Pimenta ia scismando no divorcio, e nos vinte contos, quando o barão lhe surgiu na extremidade do corredor.{125}—Bons dias, sr. Melchior.«Bons dias, sr. barão.—Isso hoje foi madrugar!«Assim é preciso.—Se não tem muita pressa, dê-me aqui uma palavra.«Não posso, sr. barão, vou com pressa.—Olhe cá, sr. Melchior, é preciso que nos entendamos.«A que respeito?—A respeito d'estas poucas vergonhas que aqui vão.«Que chama o senhor poucas vergonhas?—Homem! vamos falar claro; eu sei tudo, e o senhor, se o não sabe, saiba-o, e tome tento na sua vida.«O sr. barão é que já perdeu o tento da sua. Essa cabeça está desmanchada.—Desmanchada está a sua, e bem desmanchada, sr. Melchior. Entre cá, e ha de agradecer-me o que eu fiz, vingando a sua honra.«A minha honra não póde ser offendida nem vingada pelo sr. barão.—Estou a ter pena do sr. Melchior! Venha aqui dentro que eu conto-lhe tudo.«Que ha de o senhor contar?!—disse Melchior entrando na sala.—Quer contar-me a historia do charuto?—O charuto! o charuto agora já me não serve a mim; é ao senhor; veja lá se o quer, que eu dou-lh'o de boa vontade.«É para isso que me chama, sr. barão? De que me{126}serve a mim esse ridiculo instrumento com que o senhor está representando perfeitamente o papel de doudo?!—Doudo quer o senhor fazer-me, mas ha-de-lhe custar... digo-lh'o eu... Sente-se ahi, e dê-me attenção, que o caso é muito serio...Melchior Pimenta sentou-se impacientado. O barão de Celorico proseguiu, cerrando a porta da sala:—O senhor tem vivido enganado com minha sogra, acho eu.«O que?—Tenha mão, não se atrigue, sr. Melchior. As desgraças são para os homens, e o remedio é atura'-las quando ellas chegam. Sua mulher não lhe tem sido fiel.«O senhor está doudo, e, se não está doudo, é um infame malvado!—exclamou Melchior erguendo-se com arrebatamento.—Sente-se, homem; eu não lhe tenho medo, nem metto a fala no bucho. Ouça, e faça o que quizer; creia ou não, saiba ou não saiba, o que eu lhe digo é que sua mulher tinha um amante, e eu dei esta noite um tiro n'esse homem cuidando que era o amante de minha mulher.«O sr. barão sabe o que está dizendo? Se tem algum resto de juizo, desdiga-se da affronta que fez á minha honra.—Affronta?! essa não é má! Pois eu vinguei a sua honra, sem saber o que fazia, e o senhor ainda diz que o affronto! Ora, meu amigo, o senhor é que me parece{127}doudo! Acredite o que lhe digo, sr. Melchior. Este charuto era do amante de sua mulher, que entrava no meu jardim pela porta do muro, e vinha a esta casa todas as vezes que queria.«Quem, sr. barão? diga quem, quando não um de nós ha de morrer.Ludovina entrou precipitadamente na sala.«Quem?! então não diz quem é o amante de minha mulher—repetiu Melchior, em quanto a baroneza cravava os olhos no semblante subitamente desfigurado do marido.—Que indecentes palavras escuto, meu pae!«Primeiro as ouvi eu a este miseravel que m'as disse!—A meu marido? Desculpe-o que elle tem o juizo perturbado. O sr. barão não disse taes palavras com intenção de offender os pais de sua mulher, não é verdade? Essa calumnia foi, um desatino, uma irreflexão, não foi meu amigo? Dê uma satisfação a meu pae, que está afflicto como vê, ou então crave-se um punhal no seio, antes de repetir na minha presença que minha pobre mãe está infamada.«Tens razão, Ludovina—murmurou o barão, com as lagrimas nos olhos—Eu estou doudo; o que disse é uma mentira; se fôr necessario, eu peço perdão ao sr. Melchior, e á sr.ª D. Angelica.—Ouviu, meu pae? Vá, agora vá. Assim fez o que lhe pedi?«Foi elle que me arrastou para esta sala... Sabe que mais, sr. barão? O senhor o que deve fazer é recolher-se{128}a um hospital, antes que as auctoridades o amarrem. Eu vou requerer um exame ás suas faculdades intellectuaes...—Meu pae!—murmurou afflictivamente Ludovina—pelo amor de Deus lhe peço que se retire, quando não, vê-me cahir aqui morta.«Eu vou, menina.E sahiu, reatando a meditação no divorcio e nos vinte contos.—Não lhe disse eu já, sr. Dias—continuou Ludovina baixando a voz com maviosa brandura, e assumindo ares de penitente—não lhe disse eu já que o homem ferido pelo senhor era meu amante? que a mulher da janella do jardim era eu? que a culpada, a adultera, a infame, a digna de morte ou do seu desprezo é sua mulher?«Mentes, mentes, Ludovina! eu ouvi tudo o que tua mãe te disse no quarto.—Que importa o que o senhor ouviu? Tudo quanto meu marido disser contra mim, tudo o que a sociedade inventar contra a minha dignidade, hei-de certifica'-lo com o meu silencio, e com o meu divorcio. Tudo o que o senhor disser contra minha mãe, hei-de desmenti'-lo em publico, pondo em mim as nodoas que o senhor puzer na reputação d'ella. De maneira que meu marido, quando cuida salvar a sua honra, sacrifica-a, e provoca o escarneo do publico. Vê quaes são as minhas tenções, meu amigo?«Tu não fazes isso, Ludovina!—rugiu iracundo o deploravel homem—Se fazes tal... Ludovina, se fazes tal...{129}—Que se ha-de seguir?«Eu sei!... tu queres matar-me, mulher! mata-me, mas deixa-me a honra, que eu estimo mais que tudo. Dou-te tudo quanto tenho, deixo-te em liberdade, torno para o Brazil; mas não digas que me foste infiel; não digas que esse homem era teu amante. Peço-te isto de joelhos, Ludovina.Era feio o espectaculo, mas fazia dó a postura humilde do barão. Ludovina, apiedada ou aborrecida da attitude, pôz-lhe as mãos nas espaduas, pedindo-lhe, affectuosa, que não estivesse assim.E continuou:—Entre nós ha só uma reconciliação possivel. Vou fazer-lhe uma proposta: se o senhor a acceita, retiro-me contente de sair por um contracto; se a não acceita, vou de sua casa como fugitiva. O sr. Dias não dirá a alguem que deu um tiro em Antonio de Almeida; não fará suspeitar pelo mais pequeno indicio que Antonio de Almeida foi ferido, quando entrava no jardim d'esta casa; não proferirá o nome de minha mãe, contando ou ouvindo contar essa desgraça acontecida esta noite. Estas são as suas obrigações do contracto que lhe proponho; as minhas são as seguintes: sairei de sua casa, com minha mãe, porque o amor que tenho a minha mãe é incomparavel ao simples respeito que o sr. Dias me inspira; sairei, calando o segredo do seu crime, para que ninguem desconfie de que o senhor me surprehendeu com um amante. Auctoriso e quero que meu marido diga ás pessoas admiradas da nossa separação que o{130}meu genio era intractavel, que a minha educação era pessima, que as minhas impertinencias de rapariga eram insoffriveis. Diga tudo o que lhe lembrar, em meu desabono, que eu com o meu procedimento desmentirei alguma desconfiança injuriosa que possa haver. Eu não levo d'esta casa o valor de um ceitil. Os meus bahus irão como saíram do meu guarda-roupa de solteira. O senhor fica na posse livre de tudo que tinha, menos de uma mulher que o ha-de infallivelmente flagellar. Essa mulher sou eu, sr. Dias, porque o não amo, nem se quer estimo. Respeito-o, temo-o, d'aqui a pouco hei-de odia'-lo. O homem que o senhor feriu ou matou creou-me nos braços, foi o primeiro rosto extranho que vi ao pé do meu berço, ha quinze annos que o via todos os dias, da amizade que lhe tinha ao amor que se pode ter a um homem delicado, generoso, e confidente das alegrias e maguas da minha familia, não ia grande distancia. Eu choro esse homem, sr. Dias, não é só a minha desgraçada mãe que o chora. Se ella era amante d'elle, eu, como filha, não tenho direito a censura'-la; como mulher de coração creio que lhe perdoaria. Tenho dito mais do que devo, e importa ao sr. Dias. Entendeu-me bem, quer que eu repita por outras palavras o que disse?—Não é preciso... entendi bem...—Qual é a sua resposta?—É necessario pensar, Ludovina.—Não lhe dou tempo a demoradas reflexões. Eu hei-de sair d'aqui logo que meu pae volte.{131}—N'esse caso, faz o que quizeres; mas eu hei-de dizer em toda a parte que Antonio de Almeida era o amante de tua mãe.—E eu direi que era o meu amante; darei em publico quantas provas puder dar para o desmentir; hoje mesmo irei ser a enfermeira d'esse homem, se elle não tiver morrido. O sr. Dias será tido na conta de assassino, e assassino ridiculo, que mata o amante de sua mulher, e denuncia adultera sua sogra, para que se supponha que os seus merecimentos não podiam ser vencidos por um rival.—Tu és uma serpente, mulher!—bradou o barão, fazendo com os braços e a cabeça as azas d'um alambique—És um dragão! foste o demonio que me appareceste em corpo e alma! Vae-te para as profundas do inferno, e nunca descanço tenhas noite e dia em quanto me não vieres pedir perdão de quereres deshonrar teu marido, que te deu palacios, e quintas, e carruagens, e tudo quanto cobre o sol. Vae-te para onde quizeres, ingrata mulher, e quando souberes que eu morri doudo vem tomar conta de tudo isto que é teu, porque o que vocês querem todos é acabar comigo, para ficarem com isto que eu ganhei com honra a trabalhar como um mouro!Ludovina voltára as costas ao berreiro virulento de João José Dias.Entrou no quarto de sua mãe, que não resurgira ainda do torpor febril. A creada, que lhe assistia, entregou á baroneza uma carta, sobrescriptada a D. Angelica. Era-lhe{132}conhecida a letra de Antonio de Almeida. Alvoroçada com a aprazivel certeza de que Almeida vivia, Ludovina abriu a carta sem reflectir. Apenas viu no topo do papel «Angelica», simplesmente «Angelica», estremeceu, caindo em si. Era uma carta do amante, do amante de sua mãe. Repugnava-lhe o le'-la, mas a amizade instigava-a, desprezando os escrupulos de uma virtude intempestiva.Leu o seguinte:«Angelica, fui ferido com um tiro quando entrava no jardim d'essa casa. O segredo do meu assassino morrerá comigo. O meu ferimento dizem ser mortal. Não importa. Morro amando-te. Esperava assim morrer. Mas a tua honra, minha amiga? Não bastará a minha vida para salva'-la? Dá um beijo a tua filha, ao nosso anjo que eu não verei jámais. Sacrificamo'-la ambos, ao verdugo de... A febre deu-me este intervallo. Adeus, até ao céo dos desgraçados.—A. de A.»Ludovina rompeu em gemidos, e caíu de joelhos orando com o fervor da desesperação. Nada mais triste n'este mundo que o espectaculo d'aquelle quarto! Não é preciso grande coração e poder de phantasia para acceitar um quinhão de tamanha angustia. A alma de pedra estala de encontro a este conflicto que esmorece na pintura. Cada lagrima ardente de Ludovina bastaria a reaccender a luz de piedade apagada no coração humano. Já imaginastes uma vida com este immenso horto de{133}agonia? Na previsão de todos os infortunios, concebeu alguem as torturas d'aquella mãe, e da filha que acceita a deshonra para salvar-lhe o nome? Desamparados da esperança e de Deus, cobrae alento nas dores com que não podeis, agradecei ao vosso anjo mau os supplicios vindos, pedi-lhe mais, pedi-lh'os todos, menos o calix de Angelica, e Ludovina, porque ha ahi o succo de todos os venenos provados n'este inferno da vida, obra prima de uma causa eterna, obra que mais me espanta a mim que a creação dos astros, do mar, e do homem.A minha grande prova de Deus, da justiça, e da condemnação é este inferno. O outro... é inferior á Omnipotencia que deixou, no seio da creatura, aberta a garganta do abysmo, onde a alma se despenha a devorar-se.{134}{135}XIIIEu costumo reunir alguns peritos em letras magras como estas, e leio-lhes alguns capitulos dos meus romances, com adoravel modestia e exemplar submissão. Recito-lhes sempre um preambulo improvisado que estudo cinco horas, no qual os convido, com humildade de aprendiz inexperto, a que me corrijam as hyperboles desgrenhadas, me desbastem as excrescencias da taramelice a que sou atreito, e me recomponham os desatavios da fórma em que me descuido, se a imaginação desfila comigo pelos prados floridos do inverosimil.Tão atilado é o arrolamento que faço dos meus arbitros, que raro de entre elles se desacredita admoestando ou corrigindo as perfeições que me escorregam do bico da penna, com primores de fundição esmerada. Esse raro, porém, se encalha em elegancia que não percebe e deturpa, cá o inscrevo no meu canhenho de pascacios, e nem sequer desaggravo o meu talento offendido com resposta comedida. A minha docilidade chega até este ponto, e não ha ahi que ver mais lhano e brando do{136}que eu sou á opinião cortada dos meus amigos, que me fazem o obsequio de trazer da rua quatro superlativos encomiastas, antes de saberem que pabulo vou dar-lhes á sua admiração faminta.Ha pouco acabei eu de ler os doze capitulos passados a quatro luzeiros do orbe litterario, e um d'elles, acabada a girandola dos elogios, teve a descocada impertinencia de me dizer uma cousa assim:—Os teus romances do meio em diante adivinham-se.—Ora essa!—Adivinham-se, e coxeiam por isso. O sexto sentido do romancista é o invento da surpresa. A concatenação logica e natural dos successos damnifica a peripecia, e aguarenta a curiosidade do leitor.—O leitor é que não é capaz de entender-te essa linguagem assaralhopada. Tu calumnias o gosto dos meus leitores. Sou informado pelo orgão da opinião publica, o orgão que eu mais respeito, o meu editor, que o bomsiso dos consumidores escolhe o romance verosimil, amalgamado com arte e discernimento, escripto de modo que seja o reflexo da sociedade, e que possa de per si reflectir tambem na sociedade, amoldurando-se nas fórmas costumeiras e exequiveis.—Enfreia lá os impetos, modesto escriptor! não soltes a parlenda inexoravel. Concordo com o bom senso publico. O natural e o reflectido da vida apraz e captiva o leitor; mas a previdencia dos capitulos advenientes esfria o empenho, e dessabora a curiosidade.—Acceito a correcção, e tu acceita a aposta. Se adivinhares{137}o enredo dos capitulos subsequentes, eu prescindo dos meus titulos de Henri Heine, Alphonse Karr portuguez, e escrevo repertorios de hoje em diante. Se não adivinhares, escreve-me uma critica litteraria em que has-de provar aos incredulos basbaques que eu alojo na cabeça um d'esses lobinhos cerebraes que chamam «genio» os galiparlas da nossa terra.«Acceito, e ahi vae o desenvolvimento do teu romance, nos pontos essenciaes: D. Angelica póde morrer de uma congestão cerebral, ou de um typho. Não questiono a morte; é certo que a matas brevemente, e a fazes pedir, na hora derradeira, perdão do escandalo á filha, e da traição ao marido. Antonio de Almeida já nos disse que morria, e elle que o diz é porque o sabe, e tu já o sabias antes d'elle. D. Ludovina vae para a casa paterna, e, a pedido de Melchior Pimenta, enxuga as torrentes caudaes do pranto que a saudade maternal lhe arranca, mas teima em não querer nada do abominado marido. O barão de Celorico, atassalhado pelo remorso, dispara apostrophes sem grammatica ao espectro de Antonio de Almeida, pega-lhe a febre socia predilecta dos romancistas pathologicos, solta quatro urros estridulos ao despegar-se-lhe a alma do sêbo corporal, e vê'-lo que morre boçalmente, sem deixar nada aoHospital do Terço, nem ásVelhas da Cordoaria! A tua crueldade para com este homem irá ao extremo de lhe negares até um necrologio na gazeta, ignominia posthuma com que rematarás a biographia de um homem que teve o infortunio de ser cevado de enxundias, em quanto tu espirras{138}ossos por todos os póros. D. Ludovina toma conta da herança, e...—E, sabendo que tu és um portento de esperteza—atalhei eu—digno de substituir João José Dias, manda-te convidar pelo seu procurador para tomar chá ás quartas feiras; namora-te, casa comtigo, e o auctor é padrinho de primeiro pequeno. Ora, meu amigo, outro officio. Desquito-te da promessa do elogio; já nem «genio» quero ser á custa do teu estylo assoprado. Eu já disse em mais de um livro que não escrevo de phantasia. A verdade e a observação dispoem-me as situações como tu as não inventas. A natureza, que tu conheces, é tôla, meu amigo.Disse.{139}XIVAntonio de Almeida esperava em ancias a apparição de D. Angelica. Não lhe pedira, como vimos, essa derradeira e afflictissima prova de um amor de vinte e dois annos; mas ve'-la, apertar-lhe a mão, expirar nos braços d'ella, egualar o escandalo ao flagello de lance tal, isso alvoroçava-lhe o espirito, attrahindo-lh'o para a unica visão aprazivel e ao mesmo tempo angustiada que o detinha entre a vida e a morte.As irmãs de Almeida ignoravam tudo o que se passára, excepto o ferimento mortal de seu irmão. A denuncia do barão de Celorico fôra segredada ao enfermo pelo proprietario da casa, seu antigo creado. A policia devassára do crime, e nada averiguára das respostas concisas e obscuras de Almeida. Suspeitavam as attribuladas irmãs que seu irmão tivesse tentado um suicidio, por desgostos desconhecidos, e calasse o desastre para occultar a fraqueza, e obviar a presumpções nocivas á honra de alguem, e á propria memoria.N'estas conjecturas, annunciou-se o barão de Celorico{140}de Basto. Almeida recebeu a parte d'esta visita com excitamento prejudicial ao seu estado. Os facultativos conheceram a exaltação inconveniente, e perguntaram-lhe se a presença do barão lhe era penosa.—Não é—disse elle—que entre, e venha só, porque é necessario assim.Entrou o livido barão, fechando a porta. Chegou-se ao leito do enfermo, e estacou silencioso, com os olhos rasos de lagrimas. Esteve assim instantes, ergueu as mãos, e ajoelhou sem proferir palavra.—Que é isso, senhor?—disse Almeida.«É um desgraçado que vem pedir perdão, snr. Almeida. Quem lhe deu o tiro foi este malvado infeliz que aqui está diante da sua vista. Eu cuidava que minha mulher me era infiel, e me deshonrava. Tive uma carta em que me avisavam d'isso. Encontrei um charuto no meu jardim. Disse-me a patrulha que do meu quintal saíra um homem fóra de horas. Tentou-me o demonio a tirar vingança de quem me deshonrava. Vi-o a v. sr.ª, e, sem pensar no que fazia, dei-lhe dois tiros. Depois soube tudo o que havia; minha mulher está innocente, e o senhor nunca me fez mal nenhum, e está ferido por mim. Se me quer entregar á justiça, aqui estou, snr. Almeida; chame toda essa gente que está em sua casa para ouvir a confissão.—Levante-se, snr. barão—atalhou Almeida—Não diga a ninguem que me feriu; fique entre nós esse segredo para sempre. Eu depressa morrerei com elle, e o senhor viva sem se denunciar a pessoa alguma. Eu sabia que{141}o meu assassino fôra o senhor. Se quer mitigar o seu remorso, respeite... a mãe de sua mulher. Se ella um dia precisar dos seus favores, faça-lh'os como os faria á viuva do homem que matou. Agora, vá em paz.O barão retirou, enxugando as lagrimas. Entrou furtivamente em casa, e escreveu uma carta. Sahiu com o preto, e montou a cavallo á porta de um alquilador.A carta, que escrevera, era sobrescriptada á baroneza; da qual carta se dá o texto viciado com as perdoaveis infidelidades da correcção ortographica:«Ludovina, quando receberes esta, teu infeliz esposo já não está no Porto!!!! Vou por esses mundos de Christo penar o meu crime, até que o remorso dê cabo de mim!!!! que não tardará!! Fica n'esta casa, que é tua, minha amada Ludovina; para mim me basta um bocado de terra onde enterrar os meus ossos!!! Quando souberes o meu triste fim então perdoarás a teu infeliz e desgraçado marido!! Fui já pedir perdão ao Antonio de Almeida, e oxalá que eu morresse ao pé d'elle. Pela tua honra e vida te peço que trates tua mãe com todo o amor e carinho. Faz com que ella me perdôe o mal que lhe fiz. Não tive animo de ir onde a ella, pedir-lhe que fosse tão boa como foi para mim aquelle honrado homem, que Deus permitta não morra. Adeus Ludovina, desgraçada Ludovina!!! para sempre, adeus! Não me tenhas odio; tem antes compaixão de teu marido, que te escreveu esta com a cara coberta de lagrimas e o coração acabrunhado de remorsos. Adeus para nunca mais!!!!!»{142}Afóra a sobejidão de pontos admirativos, que são talvez signaes symbolicos da dôr indizivel do barão de Celorico de Basto, o que se nos depara n'essa carta é a simplicidade, a mudez, a phrase chan de uma verdadeira angustia. Em lance identico um marido letrado, e concedo até que romancista, não escreveria cousa mais pathetica e pungitiva.Ludovina leu esta carta ao pé de sua mãe, que authomaticamente se deixava vestir para ser transportada n'uma cadeirinha, nem ella sabia para onde.Melchior Pimenta trouxera de fóra a noticia do perigoso ferimento de Antonio de Almeida, e vendo que sua filha não se espantava da nova, porque não era então maré de fingimentos, ficou perplexo, e scismou no caso alguns minutos.Uma idéa, entre muitas idéas (se o leitor concede que Melchior tivesse muitas idéas) o incommodava. Seria Antonio de Almeida amante de sua filha, e o barão, por consequencia, quem lhe dera o tiro? Era esta a conjectura que o preoccupava, quando Ludovina lhe disse que não podia fazer-se a mudança n'aquelle dia porque a receava perigosa para sua mãe.«Vem cá, Ludovina—disse o sr. Pimenta, franzindo a testa sobrecarregada de cuidados—fallemos de espaço, e desembrulha-me este novello. O barão disse-me, ha pouco, que dera esta noite um tiro n'um homem que era o amante de tua mãe. Acabo de saber que Antonio de Almeida está ferido. Contei-te este acontecimento, que te não espantou. Vejo tua mãe doente. Lembra-me{143}o que teu marido me disse... Quero explicações d'este mysterio.—São muito dolorosas para mim as explicações, meu pae.«Como dolorosas?!—E muito, meu pae; vergonhosas até para que uma filha se atreva a dize'-las. Queira ignorar tudo, meu pae, ou tudo saber de outra pessoa que não seja eu...«Porque não has de ser tu?—Porque sou criminosa.«Criminosa! mas o barão disse que estavas innocente.—Foi a minha querida mãe que me salvou á custa da sua dignidade.«Não entendo...—Entende, meu pae. A amante de Antonio de Almeida era eu.«Tu! pois tu!...—Não me culpe, ou culpe-me, mas perdoe-me. Obedeci, quando me casaram com este homem, obedeci cegamente; mas o coração negou-se ao sacrificio.«E Antonio de Almeida, meu amigo de vinte annos, que te viu nascer, teve a ingratidão e a infamia de te fazer a côrte, sendo tu casada?! Foi bem dado o tiro! Bem hajas tu, barão, que me desaffrontaste, e procedeste como homem de bem!—Isso é improprio da sua nobre alma, meu pae. A culpa é minha só. Amei desde creança Antonio de Almeida, era amiga d'elle até o julgar superior a todos os{144}homens. Pedi-lhe a felicidade do coração, que só elle podia dar-me. Amava-me por piedade; fazia-me esmola do seu amor. Fui eu que o matei. Já que me forçou a esta confissão, dir-lhe-hei mais que, na posição em que estou, considero-me responsavel das minhas acções más perante Deus e meu marido. O pae perdeu o direito de me injuriar na desgraça que lhe devo. Minha mãe foi mais generosa comigo. Fez, não sei de que modo, convencer-se o barão de que a amante de Antonio de Almeida era ella. Aqui tem a explicação das palavras que meu marido lhe disse, e não poude sustentar na minha presença. Minha pobre mãe, depois de victimar a sua honra á minha salvação, succumbiu á vergonha de si, e á dôr, talvez, de me ver indigna d'ella. Basta de explicações, meu pae. Estas palavras tem-me custado annos de vida. Se a minha deshonra reflecte no seu pundonor, perdoe-me; se me não quer perdoar, amaldiçoe-me, mas não profira na presença de minha mãe o nome de Antonio de Almeida. Mereço isto á sua compaixão?«Não falarei mais n'esse homem por minha honra propria.—Assim o deve á sua dignidade.Ludovina foi chamada com urgencia ao quarto de D. Angelica. Encontrou-a vestida, disposta a sair, com o rosto escarlate do crescimento febril, e gestos de quem delira.«Onde quer ir, minha mãe?—Morrer em qualquer parte, Ludovina... Quero ar...{145}«Não ha de sair d'aqui; supplico-lhe que não saia, minha mãe.—Não me dês esse nome... Eu não quero já ser mãe nem esposa...Ludovina fez sair a creada, que testemunhava este dialogo.«Não quer ser mãe nem esposa?—Não. Sou amante de um homem que está moribundo ou morto. Quero que todo o mundo saiba, que o fui e que o sou. Desprezo tudo, não ha para mim deveres nem respeitos agora. Se elle está vivo, quero dar-lhe os meus ultimos instantes. Se morreu, quero chorar e morrer ao pé do seu cadaver.«Fale baixo, por misericordia, minha mãe!—Podem todos ouvir-me, não me escondo d'alguem, agradeço as affrontas, os desprezos, as injurias, agradeço tudo que fôr martyrisarem-me, com tanto que me matem depressa.«Mas, minha mãe, attenda-me por piedade. Vou-lhe contar tudo, se me escuta... Sente-se, e ouça-me...—Diz, anjo, diz...«Antonio de Almeida não morreu, e talvez não morra. O barão escreveu-me uma carta em que se despede de mim, e me recommenda que lhe peça o perdão para elle. N'esta casa ignora-se tudo. Meu pae está convencido que sou eu a amante de Antonio de Almeida...—Jesus! exclamou D. Angelica.—Como tu me castigas, Ludovina!«Como eu a castigo, mãe?! por quem é, deixe-me{146}ser boa para o meu coração, e indigna para todo o mundo. Sinto na alma alegrias tamanhas d'este meu procedimento!... isto é Deus que me premeia, minha mãe, é Deus que me dá em consolações do céo as amarguras, que o mundo me possa dar. Ora, se a mãe me envenena este prazer, mata-me... Deixe-me ser senhora de uma parte do seu coração e da sua vida. Obedeça-me, sim? não saia de casa; não saia, que talvez me não encontre viva quando voltar.Ludovina abraçou-se, a chorar, em D. Angelica. Choravam ambas, com os rostos unidos, apertando-se cada vez mais. O seio da mãe desafogava de angustias soffocantes n'aquelle pranto. O da filha fortalecia-se de animo para arcar com a ignominia do seu descredito.D. Angelica recaíu no entorpecimento. Ludovina chamou creadas para lhe assistirem, e executarem as prescripções dos medicos. Melchior Pimenta esperou que a filha saísse do quarto, e foi sentar-se, meditabundo e sombrio, ao pé do leito da enferma, tateando-lhe o pulso, e chamando-a com os maviosos epithetos do carinho. Angelica abria os olhos pávidos, encarava-o por momentos, e recaía na somnolencia.Ludovina entrou na carruagem, deu ordem ao boleeiro, e apeou na Lapa. A trezentos passos d'ahi, morava Antonio de Almeida. Velando o rosto com um véo negro impenetravel á vista, a baroneza de Celorico, sósinha, subiu as escadas do amante de sua mãe.Descia um medico ao qual ella perguntou o estado do enfermo. Respondeu-lhe que havia esperanças de{147}salva'-lo. A noticia feliz alvoroçou-a. Receberam-n'a as irmãs de Almeida, maravilhadas de tamanha prova de estima. O doente conheceu-lhe a voz, agitou-se, quasi desfez o apparelho do curativo, e chamou-a com ancia.Ludovina entrou no quarto, só, que assim o pedira ás amigas. Almeida apertou-lhe a mão, orvalhou-a de lagrimas, e murmurou balbuciante:«É a boa nova... agora creio que vencerei a morte, minha amiga, filha do meu coração.A baroneza ficou muda e convulsa.Filha do meu coraçãoforam palavras que lhe entraram como fogo no recesso da alma, fogo, porém, que, de repente, se mudára em sensação de intima doçura. Passados minutos de mudo anceio, Ludovina curvou-se para o seio de Almeida, e disse:—A mãe está muito doente; mas sem perigo. A sua carta não lh'a entreguei, lia-a eu, e occultei-lh'a para a não matar.—O barão denunciou tudo?—Nada: tudo se ignora, e toda a gente ignora, só eu sei que ella o estima tanto como eu. É necessario que o nosso amigo concorra quanto puder para lhe dar allivio. Tem esperanças, não tem?—Tenho. Os facultativos disseram agora que o ferimento não é mortal. Já não morro, minha... minha querida amiga, não quero morrer...—Escreva a minha mãe, se pode. Diga-lhe isso, que eu levo a carta. Não fale em mim, não diga que eu vim cá.{148}Antonio de Almeida escreveu. Ao despedir-se beijou Ludovina na face, e disse soluçando:«Será o beijo de um moribundo?«Não diga tal, sr. Almeida.«Se fôr...» e desentalando a voz dos gemidos que lh'a embargavam, proseguiu «se fôr... Ludovina... lembra-te sempre da situação em que te deu o seu ultimo beijo... teu pae.A baroneza tremeu uma sezão de instantes. Quiz saír, mas o abalo quebrantou-lhe as forças, coando-lhe nos nervos o desfallecimento, e a perda quasi dos sentidos.Almeida tocou a campainha, e disse á irmã que primeiro chegou:—O ar d'este quarto fez mal a esta senhora: levem-n'a para a sala, e vá uma das manas acompanha'la.Ludovina pediu que lhe mandassem buscar a sua sege, que a esperava na Lapa.{149}Cinco paginas que é melhor não se leremEste capitulo mira a alvo transcendental.Nem mais nem menos, quer provar que o Codigo do Imperador Justiniano—corpo de leis que uma falsa piedade chama «Digesto», sendo elle a causa indigesta de muitas gastralgias intellectuaes—quer provar, digo, que o Digesto, entre muitas que não conheço, traz, uma lei de tamanho absurdo e insensatez, quanta é a indignação com que para aqui a traslado:Pater is est quem nuptiæ demonstrant.Em portuguez comezinho:O pai é aquelle que se diz pae no assento do baptismo.A versão é de christão catholico, entenda-se.Aquella regra de jurisprudencia pagã não fala em assento baptismal. Se o legislador fosse baptisado, como estes de agora, a lei não saía assim.Contra a qual lei temos a articular:1.º Que o pae é uma entidade muito mais nobre, efficiente, cathegorica, e circumspecta. E demonstra-se:{150}Quem leu a physiologia da geração sabe que ha cinco phenomenos caracteristicos d'essa funcção de mysteriosa origem. O primeiro d'esses phenomenos, cuja confusa theoria os imperitos podem lêr nas fontes respectivas, é influido pela acção de um ser directo e immediato, que os latinos denominampater, os inglezesfather, os allemãeswatter, os francezespère, os hespanhoespadre, e nós, com mais suavidade que todos os outros idiomas,pae.Paequer dizer «productor, gerador»Parens qui aliquem genuit—isto a meu vêr, é claro como tudo o que se diz em latim.Conclusão: Pae é aquelle que é pae.2.º Ha paes postiços, paes contra-natura, paes testas de... ferro, paesin mente legis, na presumpção da lei, e na fé dos padrinhos de quem são compadres, por obra e graça de um sacramento.Os homens, reconhecendo a inconveniencia de acceitar a natureza feia como ella ás vezes se apresenta deliberaram, de commum concerto, pôr-lhe mascara.E como a natureza paterna era uma das que mais a miudo saía á gente com as suas deformidades medonhas, resolveram os desvelados reformadores corrigir os aleijões d'essa natureza, inventando o pae civil, o pae do assento baptismal, o pae da arvore de geração escripta em pergaminho, o pae que transmitte os bens e os appellidos, o pae, finalmente, que tem tudo que é paternal, mas não é pae.Este invento honra a sagacidade humana; mas a causa{151}que o incitou deturpa a humanidade, e opprime agramente os corações dos individuos virtuosos. Todavia, a mascara foi necessaria, logo que as fealdades deram nos olhos. Hoje acceita-se o remedio do mesmo modo que o travor da quina se tolera para combater a sezão. Os paladares mais melindrosos affazem-se á peçonha, e estomago ha ahi de pae postiço, que disputa a Mithridates a invulnerabilidade.Eu não applaudo aSandicecomo Desiderius Erasmus; mas observo que o famoso theologo chamava «sandice» o que nós cá, gente bemaventurada da civilisação, denominamos «Cultura.»Erasmus não deu pela theoria das mascaras. Pasmado da bonacheirona paz d'alguns paes impossiveis, exclama o mestre de Bolonha:«Grande Jupiter! O que ahi não iria de divorcios, e peor do que divorcios, se a união do homem e mulher não fosse corroborada pela lisonja, pela complacencia, pelo esquecimento, e pela dissimulação, que formam o meu cortejo! Que raros não seriam os matrimoniamentos, se o homem de ante-mão esquadrinhasse os brinquedos da innocentinha noiva! Que rompimentos conjugaes, se o descuido ou a inepcia, não cegassem o bom do marido, para não enxergar os tregeitos e os feitios da companheira querida! Dizem que é toleima isto; deixa'-la ser; mas o grande caso é que marido e mulher vivem ás mil maravilhas, que reina a santa paz em casa, e os vinculos da alliança estão rijos. Isto é que é o essencial. Se ao pascacio dão nomes feios, que se lhe dá{152}elle d'isso? Ve'-la a infiel a choramingar; para logo o pobre marido lhe sorve as lagrimas enternecidamente. Qual é melhor, ser assim bom, ou andar atormentado pelas furias do ciume?»É boa a pergunta do theologo! O melhor é ser assim bom, ser assim illustrado, ser assim desbravado das velharias pundonorosas que obrigaram Cicero e Sulpicio Gallo a divorciarem-se das mulheres, um porque a sua lhe não respondeu a todas as cartas enviadas do exilio, outro porque a d'elle teve a impudicicia de saír um dia, sem coifa, á rua.Aconteceu isto muito depois do reinado de Saturno, quando o pudor, como pondera Juvenal, já não morava nas primitivas cavernas onde os dois sexos se luravam sobre colchões de folhagem.Credo Pudicitiam, Saturno rege, moratamIn terris...já quando o genio tutelar do hymeneu andava corrido das pseudo-paternidades que se enxertavam, á sombra d'elle, nos illustres troncos de Roma:Antiquum et vetus est alienum, Postume, lectum.Concutere, atque sacri genium contemnere fuclri.«Ó Postumo!—exclama o poeta—pois tu eras, até aqui, escorreito e atilado, e vaes casarCerte sanus eras: uxorem, Postume, ducis!{153}Por esses tempos, a balbuciante civilisação dos espiritos engendrou a lei contra a qual se escreve este capitulo. As nupcias indicavam o pae:pater is est quem nuptiæ demonstrant. Agora, em pleno seculo de luz, somos mais romanos que os proprios romanos, tresandamos ao paganismo fetido, e difficultamos o divorcio para sellar o escandalo com o cunho sacramental da lei nova.Como quer que seja, pae é aquelle que é pae, apesar do Direito Romano, e das Instituições de Direito Civil de Coelho da Rocha.Não se adduzem os 3.º, 4.º e 5.º artigos da refutação, porque ninguem supporta um embrechado arripiante de textos latinos: e o auctor, com quanto assim grangeasse voga de romancista sumarento e condimentoso, seria lido apenas por tres ou quatro mestres de latinidade.COROLLARIOMelchior Pimenta era um dos paes presumidos na intenção doDigesto, na lei citada, do L. 5.ºde in jus voc, e C. da Rocha no cap.Paternidade e filiação legitima.{154}{155}XVD. Angelica, afflicta com a longa ausencia de Ludovina, pedira ao marido que procurasse a filha. Melchior Pimenta correra a casa, alarmando os creados, que francamente lhe disseram que a senhora baroneza saíra na sege. Melchior suspeitou que a destemida Ludovina descera ao infimo degrau da desenvoltura, visitando o amante á hora do dia, no momento em que seu marido a abandonava aos terriveis juizos da sociedade. Com as mãos agarradas á cabeça, entrou o consternado pae no quarto da mulher, abafando de vergonha, como elle dizia.D. Angelica, receosa de que tudo já fosse notorio a seu marido, apavorou-se, e quiz fugir do quarto.«Que queres tu fazer agora, santa mulher?!—exclamou elle, sustendo-a com meiga brandura.—Deixa'-la perder-se de todo, já que ella assim o quer... Ahi tens como Ludovina te paga o sacrificio que fizeste da tua dignidade e da minha para a salvares. Ainda bem que{156}o procedimento d'ella te ha de desmentir, Angelica...—Que dizes?—atalhou a perplexa senhora.«Que digo? pois eu não sei já tudo? Não me contou ella o que tu fizeste para capacitar o barão de que Antonio de Almeida era teu amante, e não d'essa desgraçada que tão mal aproveitou as tuas lições? O que tu fizeste, não devias faze'-lo sem tomar o meu parecer; porque, a falar verdade, se corresse o boato de que o escandalo era cousa tua, a minha honra soffria tanto como a de minha mulher. O que vale é que o barão não dirá nada, e o falatorio ha de acabar como acabam todos os escandalos, quando os faladores se cançarem. Mas, Ludovina! Ludovina! onde está esta mulher que nos anda envergonhando por lá?«Estou aqui, meu pae—disse a baroneza com angelica serenidade, e sorriso de meiguice para sua mãe.—Minha filha, minha santa filha, minha providencia!—exclamou D. Angelica abraçando-a com arrebatamento.«Isso não é assim, Angelica!—disse carrancudo Melchior Pimenta.—Pergunta-lhe de onde vem, e reprehende-a, já que tão boa moral lhe ensinaste em solteira.—Silencio, meu amigo. Vae...—atalhou com azedume D. Angelica—vae, e deixa-nos sós.«Não tem geito nenhum!—accrescentou o austero pae.—É preciso saber-se para onde foi teu marido, Ludovina, e ir pedir-lhe perdão, perdão, antes que a sociedade saiba que elle te abandonou.—Irei, meu pae.{157}«Irás; mas entretanto sáes de carruagem, e não dizes onde vaes... Onde foste tu, diz?Ludovina abaixou os olhos, e não respondeu.«Vês, Angelica?—proseguiu com virulencia Melchior—Não respondeu; já sabes d'onde ella vem... Já se viu no mundo um descaramento assim?—Nem mais uma palavra a minha filha!—exclamou com impetuosa arrogancia D. Angelica—Nem mais uma palavra, porque se não, Melchior...«Se não, o que?—interrompeu elle.—Minha mãe, pelo seu amor lhe peço...—murmurou a baroneza, apertando-a ao seio, como se quizesse comprimir-lhe as palavras no coração.Pimenta sahiu, como entrára, com as mãos agarradas á cabeça. D. Angelica, beijando soffrega a face da filha, dizia, soluçando:«Ao que eu te expuz, minha querida victima! ao que tu quizeste sujeitar-te, Ludovina! Pesa-me mais a tua innocencia diffamada que o meu proprio descredito. Não, filha, isto não póde continuar assim. Deixa-me ser virtuosa no crime, deixa-me expiar a minha culpa com menos amargura. Esta expiação é a maior de todas, Ludovina. O meu coração está cheio de fel. Tu queres salvar tua mãe e matas-me, anjo do meu coração. É-me muito mais dolorosa a vergonha que tenho de ti, que da sociedade. Que o mundo todo me culpe, mas perdôa-me tu, filha!—Mãe, por piedade... não me turve a satisfação d'esta pequena virtude. Olhe que não é heroismo isto,{158}não, é a crença, a esperança de que a felicidade ha-de vir para todos nós, se me não desviarem do caminho por onde eu a busco...«Para todos nós, filha! que innocencia, que illusão a tua! D'esta queda ninguem mais se ergue, e menos eu.—Ergue, mãe. Verá que o desenlace d'este desgraçado enredo não ha-de ser o que a mãe espera.«Oh, filha! tu queres que eu sobreviva a esse infeliz que mataram...—Ninguem morreu, minha mãe. Olhe... aqui tem uma carta do sr. Almeida; escreveu-a elle com o proprio punho; está livre de perigo... Veja, veja o que elle diz...D. Angelica abriu a carta com fervente soffreguidão, e leu o seguinte:«Minha prezada amiga. Sei quanto deve ser-lhe penosa a noticia do triste acontecimento, que hontem se deu. Apresso-me a dar-lhe a certeza do nenhum risco da ferida, e rogo-lhe que se convença d'esta verdade, para ser mais suave a cura. De v. exc.ª amigo verdadeiro.—Antonio de Almeida.»«Isto é verdade, Ludovina?—exclamou ella erguendo as mãos, e apertando a carta ao coração—Isto é verdade, minha filha?—É, juro-lhe que é...«Como podes tu jura'-lo? quem o viu?—Eu, mãe.«Tu! viste-o, Ludovina? sem repugnancia, minha filha?{159}Que inspiração tiveste de o visitar? O coração impellia-te? era o coração? diz, diz, que eu preciso acreditar n'uma influencia divina em tua nobre alma! Não me respondes, filha! Não queres dar-me a alegria completa! Foi só por caridade, por compaixão, que o visitaste?—Foi por amor de minha mãe que o visitei.«E elle? que fez quando te viu? abraçou-te? beijou-te? chorou nos teus braços, Ludovina? Disse-te alguma palavra que te espantou, augmentando a tua piedade? Fala, fala sem pejo. Aqui a vergonha é toda minha. A reserva já agora é impossivel entre nós, filha. Que te disse? responde...—Nada, minha mãe...—balbuciou a baroneza.«Nada?—Que poderia elle dizer-me... para augmentar a minha piedade? bastava ser nosso amigo de tantos annos... lembrar-me eu que o vi sempre ao pé de minha mãe... recordo-me dos affagos que elle me fazia, dos bons conselhos que me deu sempre, das consolações affectuosas com que alliviava as minhas maguas, desde que infelizmente casei. Tanto como isto era sobejo estimulo á minha pena. E, depois, vêr quanto a mãe soffria... porque o prezava tanto como eu o estimava...«Basta, minha filha, eu mortifico-te... Ha de custar-te amarguras terriveis essa delicadeza... Comprehendo-te, minha amiga... Agora vaes tu dizer-me por que meio has de restaurar o teu credito perante teu marido... Não me atrevo a aconselhar-te, Ludovina, por{160}que ha em ti fortaleza de juizo que confunde a minha timidez e fraqueza... Faz o que quizeres de mim; eu obedeço-te, sigo-te cegamente; acceito conselhos de ti como do meu anjo da guarda.—Eu não a aconselho, minha mãe... pelo contrario, supplico-lhe que me advirta, se eu me desencaminhar do bom caminho onde a consciencia me diz que estou agora. Toda a minha confiança está posta em Deus, que protege a innocencia e é misericordioso com a culpa. O mundo será cruel comnosco; seja, muito embora; nós supportaremos as cruezas do mundo, sem nos curvarmos aos seus juizos. Minha mãe ha de ajudar-me a vencer os dissabores passageiros da maledicencia, pensando em me fazer cada vez mais digna do seu amor. No tocante ao que ha de vir melhorar a nossa sorte, espero que virá, mas os meios não os sei. Hei de a este respeito consultar o nosso amigo Antonio de Almeida.{161}

Em quanto D. Angelica dormita os somnos curtos e sobresaltados da febre, a baroneza despertou o pae, chamando-o á ante-camara.

Melchior Pimenta, estremunhado e como ebrio dos aturdimentos da morphina, extranhou á filha a extraordinaria madrugada, e perguntou se o barão fizera alguma nova loucura.

—Não podemos continuar a existir n'esta casa, meu pae—disse Ludovina, sem saber ainda como sahir-se bem de lance tão perigoso para sua mãe.

«Então que houve? esse alarve que fez? será necessario amarra'-lo?

—O necessario é sahirmos; mas a mãe está muito incommodada...

«Que tem ella?!

—Os meus desgostos affligiram-n'a a tal ponto que está ardendo em febre, e não sei se poderá transportar-se.

«Vamos vê'-la.

—Pois sim vamos, mas não perca tempo. Um medico{124}é o mais urgente agora. Veja-a; se ella estiver descançando, não a desperte, e vá dispôr as cousas em nossa casa para nos mudarmos logo, sim, meu pae?

«Mas que fez o bruto?! A gente ha de sair d'aqui sem dar uma satisfação á opinião publica? Não vês que esta saida precipitada auctorisa a maledicencia a calumniar-te como o barão te calumnia?

—Não tratemos agora da opinião publica, nem do barão. O pae saberá tudo. Venha ver a mãe, e vá depressinha, sim?

Melchior Pimenta entrou na camara de sua mulher. Tateou-lhe a testa que transpirava o suor da febre, sondou-lhe o pulso, afastou-lhe os cabellos dos olhos, e murmurou:

«Isto é doença séria, Ludovina!...

—Talvez não, meu pae... São afflicções que se curam com o socego da nossa casa. Não se demore. Vá por casa do medico e mande-o já. Se vir o barão não lhe diga nada, promette-me?

«Eu sei cá o que farei! Ao despedir-me, tenciono dizer-lhe que me não codilhou. Tu tens escriptura de dote. Quando quizeres, levantas vinte contos de réis...

—Pois sim, meu pae, esses negocios não são para agora. O que eu quero é a saude de minha mãe. Vamo-nos d'aqui embora, que eu torno a ser feliz... Se é meu amigo, não se demore; tire-nos d'este purgatorio.

Melchior Pimenta ia scismando no divorcio, e nos vinte contos, quando o barão lhe surgiu na extremidade do corredor.{125}

—Bons dias, sr. Melchior.

«Bons dias, sr. barão.

—Isso hoje foi madrugar!

«Assim é preciso.

—Se não tem muita pressa, dê-me aqui uma palavra.

«Não posso, sr. barão, vou com pressa.

—Olhe cá, sr. Melchior, é preciso que nos entendamos.

«A que respeito?

—A respeito d'estas poucas vergonhas que aqui vão.

«Que chama o senhor poucas vergonhas?

—Homem! vamos falar claro; eu sei tudo, e o senhor, se o não sabe, saiba-o, e tome tento na sua vida.

«O sr. barão é que já perdeu o tento da sua. Essa cabeça está desmanchada.

—Desmanchada está a sua, e bem desmanchada, sr. Melchior. Entre cá, e ha de agradecer-me o que eu fiz, vingando a sua honra.

«A minha honra não póde ser offendida nem vingada pelo sr. barão.

—Estou a ter pena do sr. Melchior! Venha aqui dentro que eu conto-lhe tudo.

«Que ha de o senhor contar?!—disse Melchior entrando na sala.—Quer contar-me a historia do charuto?

—O charuto! o charuto agora já me não serve a mim; é ao senhor; veja lá se o quer, que eu dou-lh'o de boa vontade.

«É para isso que me chama, sr. barão? De que me{126}serve a mim esse ridiculo instrumento com que o senhor está representando perfeitamente o papel de doudo?!

—Doudo quer o senhor fazer-me, mas ha-de-lhe custar... digo-lh'o eu... Sente-se ahi, e dê-me attenção, que o caso é muito serio...

Melchior Pimenta sentou-se impacientado. O barão de Celorico proseguiu, cerrando a porta da sala:

—O senhor tem vivido enganado com minha sogra, acho eu.

«O que?

—Tenha mão, não se atrigue, sr. Melchior. As desgraças são para os homens, e o remedio é atura'-las quando ellas chegam. Sua mulher não lhe tem sido fiel.

«O senhor está doudo, e, se não está doudo, é um infame malvado!—exclamou Melchior erguendo-se com arrebatamento.

—Sente-se, homem; eu não lhe tenho medo, nem metto a fala no bucho. Ouça, e faça o que quizer; creia ou não, saiba ou não saiba, o que eu lhe digo é que sua mulher tinha um amante, e eu dei esta noite um tiro n'esse homem cuidando que era o amante de minha mulher.

«O sr. barão sabe o que está dizendo? Se tem algum resto de juizo, desdiga-se da affronta que fez á minha honra.

—Affronta?! essa não é má! Pois eu vinguei a sua honra, sem saber o que fazia, e o senhor ainda diz que o affronto! Ora, meu amigo, o senhor é que me parece{127}doudo! Acredite o que lhe digo, sr. Melchior. Este charuto era do amante de sua mulher, que entrava no meu jardim pela porta do muro, e vinha a esta casa todas as vezes que queria.

«Quem, sr. barão? diga quem, quando não um de nós ha de morrer.

Ludovina entrou precipitadamente na sala.

«Quem?! então não diz quem é o amante de minha mulher—repetiu Melchior, em quanto a baroneza cravava os olhos no semblante subitamente desfigurado do marido.

—Que indecentes palavras escuto, meu pae!

«Primeiro as ouvi eu a este miseravel que m'as disse!

—A meu marido? Desculpe-o que elle tem o juizo perturbado. O sr. barão não disse taes palavras com intenção de offender os pais de sua mulher, não é verdade? Essa calumnia foi, um desatino, uma irreflexão, não foi meu amigo? Dê uma satisfação a meu pae, que está afflicto como vê, ou então crave-se um punhal no seio, antes de repetir na minha presença que minha pobre mãe está infamada.

«Tens razão, Ludovina—murmurou o barão, com as lagrimas nos olhos—Eu estou doudo; o que disse é uma mentira; se fôr necessario, eu peço perdão ao sr. Melchior, e á sr.ª D. Angelica.

—Ouviu, meu pae? Vá, agora vá. Assim fez o que lhe pedi?

«Foi elle que me arrastou para esta sala... Sabe que mais, sr. barão? O senhor o que deve fazer é recolher-se{128}a um hospital, antes que as auctoridades o amarrem. Eu vou requerer um exame ás suas faculdades intellectuaes...

—Meu pae!—murmurou afflictivamente Ludovina—pelo amor de Deus lhe peço que se retire, quando não, vê-me cahir aqui morta.

«Eu vou, menina.

E sahiu, reatando a meditação no divorcio e nos vinte contos.

—Não lhe disse eu já, sr. Dias—continuou Ludovina baixando a voz com maviosa brandura, e assumindo ares de penitente—não lhe disse eu já que o homem ferido pelo senhor era meu amante? que a mulher da janella do jardim era eu? que a culpada, a adultera, a infame, a digna de morte ou do seu desprezo é sua mulher?

«Mentes, mentes, Ludovina! eu ouvi tudo o que tua mãe te disse no quarto.

—Que importa o que o senhor ouviu? Tudo quanto meu marido disser contra mim, tudo o que a sociedade inventar contra a minha dignidade, hei-de certifica'-lo com o meu silencio, e com o meu divorcio. Tudo o que o senhor disser contra minha mãe, hei-de desmenti'-lo em publico, pondo em mim as nodoas que o senhor puzer na reputação d'ella. De maneira que meu marido, quando cuida salvar a sua honra, sacrifica-a, e provoca o escarneo do publico. Vê quaes são as minhas tenções, meu amigo?

«Tu não fazes isso, Ludovina!—rugiu iracundo o deploravel homem—Se fazes tal... Ludovina, se fazes tal...{129}

—Que se ha-de seguir?

«Eu sei!... tu queres matar-me, mulher! mata-me, mas deixa-me a honra, que eu estimo mais que tudo. Dou-te tudo quanto tenho, deixo-te em liberdade, torno para o Brazil; mas não digas que me foste infiel; não digas que esse homem era teu amante. Peço-te isto de joelhos, Ludovina.

Era feio o espectaculo, mas fazia dó a postura humilde do barão. Ludovina, apiedada ou aborrecida da attitude, pôz-lhe as mãos nas espaduas, pedindo-lhe, affectuosa, que não estivesse assim.

E continuou:

—Entre nós ha só uma reconciliação possivel. Vou fazer-lhe uma proposta: se o senhor a acceita, retiro-me contente de sair por um contracto; se a não acceita, vou de sua casa como fugitiva. O sr. Dias não dirá a alguem que deu um tiro em Antonio de Almeida; não fará suspeitar pelo mais pequeno indicio que Antonio de Almeida foi ferido, quando entrava no jardim d'esta casa; não proferirá o nome de minha mãe, contando ou ouvindo contar essa desgraça acontecida esta noite. Estas são as suas obrigações do contracto que lhe proponho; as minhas são as seguintes: sairei de sua casa, com minha mãe, porque o amor que tenho a minha mãe é incomparavel ao simples respeito que o sr. Dias me inspira; sairei, calando o segredo do seu crime, para que ninguem desconfie de que o senhor me surprehendeu com um amante. Auctoriso e quero que meu marido diga ás pessoas admiradas da nossa separação que o{130}meu genio era intractavel, que a minha educação era pessima, que as minhas impertinencias de rapariga eram insoffriveis. Diga tudo o que lhe lembrar, em meu desabono, que eu com o meu procedimento desmentirei alguma desconfiança injuriosa que possa haver. Eu não levo d'esta casa o valor de um ceitil. Os meus bahus irão como saíram do meu guarda-roupa de solteira. O senhor fica na posse livre de tudo que tinha, menos de uma mulher que o ha-de infallivelmente flagellar. Essa mulher sou eu, sr. Dias, porque o não amo, nem se quer estimo. Respeito-o, temo-o, d'aqui a pouco hei-de odia'-lo. O homem que o senhor feriu ou matou creou-me nos braços, foi o primeiro rosto extranho que vi ao pé do meu berço, ha quinze annos que o via todos os dias, da amizade que lhe tinha ao amor que se pode ter a um homem delicado, generoso, e confidente das alegrias e maguas da minha familia, não ia grande distancia. Eu choro esse homem, sr. Dias, não é só a minha desgraçada mãe que o chora. Se ella era amante d'elle, eu, como filha, não tenho direito a censura'-la; como mulher de coração creio que lhe perdoaria. Tenho dito mais do que devo, e importa ao sr. Dias. Entendeu-me bem, quer que eu repita por outras palavras o que disse?

—Não é preciso... entendi bem...

—Qual é a sua resposta?

—É necessario pensar, Ludovina.

—Não lhe dou tempo a demoradas reflexões. Eu hei-de sair d'aqui logo que meu pae volte.{131}

—N'esse caso, faz o que quizeres; mas eu hei-de dizer em toda a parte que Antonio de Almeida era o amante de tua mãe.

—E eu direi que era o meu amante; darei em publico quantas provas puder dar para o desmentir; hoje mesmo irei ser a enfermeira d'esse homem, se elle não tiver morrido. O sr. Dias será tido na conta de assassino, e assassino ridiculo, que mata o amante de sua mulher, e denuncia adultera sua sogra, para que se supponha que os seus merecimentos não podiam ser vencidos por um rival.

—Tu és uma serpente, mulher!—bradou o barão, fazendo com os braços e a cabeça as azas d'um alambique—És um dragão! foste o demonio que me appareceste em corpo e alma! Vae-te para as profundas do inferno, e nunca descanço tenhas noite e dia em quanto me não vieres pedir perdão de quereres deshonrar teu marido, que te deu palacios, e quintas, e carruagens, e tudo quanto cobre o sol. Vae-te para onde quizeres, ingrata mulher, e quando souberes que eu morri doudo vem tomar conta de tudo isto que é teu, porque o que vocês querem todos é acabar comigo, para ficarem com isto que eu ganhei com honra a trabalhar como um mouro!

Ludovina voltára as costas ao berreiro virulento de João José Dias.

Entrou no quarto de sua mãe, que não resurgira ainda do torpor febril. A creada, que lhe assistia, entregou á baroneza uma carta, sobrescriptada a D. Angelica. Era-lhe{132}conhecida a letra de Antonio de Almeida. Alvoroçada com a aprazivel certeza de que Almeida vivia, Ludovina abriu a carta sem reflectir. Apenas viu no topo do papel «Angelica», simplesmente «Angelica», estremeceu, caindo em si. Era uma carta do amante, do amante de sua mãe. Repugnava-lhe o le'-la, mas a amizade instigava-a, desprezando os escrupulos de uma virtude intempestiva.

Leu o seguinte:

«Angelica, fui ferido com um tiro quando entrava no jardim d'essa casa. O segredo do meu assassino morrerá comigo. O meu ferimento dizem ser mortal. Não importa. Morro amando-te. Esperava assim morrer. Mas a tua honra, minha amiga? Não bastará a minha vida para salva'-la? Dá um beijo a tua filha, ao nosso anjo que eu não verei jámais. Sacrificamo'-la ambos, ao verdugo de... A febre deu-me este intervallo. Adeus, até ao céo dos desgraçados.—A. de A.»

Ludovina rompeu em gemidos, e caíu de joelhos orando com o fervor da desesperação. Nada mais triste n'este mundo que o espectaculo d'aquelle quarto! Não é preciso grande coração e poder de phantasia para acceitar um quinhão de tamanha angustia. A alma de pedra estala de encontro a este conflicto que esmorece na pintura. Cada lagrima ardente de Ludovina bastaria a reaccender a luz de piedade apagada no coração humano. Já imaginastes uma vida com este immenso horto de{133}agonia? Na previsão de todos os infortunios, concebeu alguem as torturas d'aquella mãe, e da filha que acceita a deshonra para salvar-lhe o nome? Desamparados da esperança e de Deus, cobrae alento nas dores com que não podeis, agradecei ao vosso anjo mau os supplicios vindos, pedi-lhe mais, pedi-lh'os todos, menos o calix de Angelica, e Ludovina, porque ha ahi o succo de todos os venenos provados n'este inferno da vida, obra prima de uma causa eterna, obra que mais me espanta a mim que a creação dos astros, do mar, e do homem.

A minha grande prova de Deus, da justiça, e da condemnação é este inferno. O outro... é inferior á Omnipotencia que deixou, no seio da creatura, aberta a garganta do abysmo, onde a alma se despenha a devorar-se.{134}{135}

Eu costumo reunir alguns peritos em letras magras como estas, e leio-lhes alguns capitulos dos meus romances, com adoravel modestia e exemplar submissão. Recito-lhes sempre um preambulo improvisado que estudo cinco horas, no qual os convido, com humildade de aprendiz inexperto, a que me corrijam as hyperboles desgrenhadas, me desbastem as excrescencias da taramelice a que sou atreito, e me recomponham os desatavios da fórma em que me descuido, se a imaginação desfila comigo pelos prados floridos do inverosimil.

Tão atilado é o arrolamento que faço dos meus arbitros, que raro de entre elles se desacredita admoestando ou corrigindo as perfeições que me escorregam do bico da penna, com primores de fundição esmerada. Esse raro, porém, se encalha em elegancia que não percebe e deturpa, cá o inscrevo no meu canhenho de pascacios, e nem sequer desaggravo o meu talento offendido com resposta comedida. A minha docilidade chega até este ponto, e não ha ahi que ver mais lhano e brando do{136}que eu sou á opinião cortada dos meus amigos, que me fazem o obsequio de trazer da rua quatro superlativos encomiastas, antes de saberem que pabulo vou dar-lhes á sua admiração faminta.

Ha pouco acabei eu de ler os doze capitulos passados a quatro luzeiros do orbe litterario, e um d'elles, acabada a girandola dos elogios, teve a descocada impertinencia de me dizer uma cousa assim:

—Os teus romances do meio em diante adivinham-se.

—Ora essa!

—Adivinham-se, e coxeiam por isso. O sexto sentido do romancista é o invento da surpresa. A concatenação logica e natural dos successos damnifica a peripecia, e aguarenta a curiosidade do leitor.

—O leitor é que não é capaz de entender-te essa linguagem assaralhopada. Tu calumnias o gosto dos meus leitores. Sou informado pelo orgão da opinião publica, o orgão que eu mais respeito, o meu editor, que o bomsiso dos consumidores escolhe o romance verosimil, amalgamado com arte e discernimento, escripto de modo que seja o reflexo da sociedade, e que possa de per si reflectir tambem na sociedade, amoldurando-se nas fórmas costumeiras e exequiveis.

—Enfreia lá os impetos, modesto escriptor! não soltes a parlenda inexoravel. Concordo com o bom senso publico. O natural e o reflectido da vida apraz e captiva o leitor; mas a previdencia dos capitulos advenientes esfria o empenho, e dessabora a curiosidade.

—Acceito a correcção, e tu acceita a aposta. Se adivinhares{137}o enredo dos capitulos subsequentes, eu prescindo dos meus titulos de Henri Heine, Alphonse Karr portuguez, e escrevo repertorios de hoje em diante. Se não adivinhares, escreve-me uma critica litteraria em que has-de provar aos incredulos basbaques que eu alojo na cabeça um d'esses lobinhos cerebraes que chamam «genio» os galiparlas da nossa terra.

«Acceito, e ahi vae o desenvolvimento do teu romance, nos pontos essenciaes: D. Angelica póde morrer de uma congestão cerebral, ou de um typho. Não questiono a morte; é certo que a matas brevemente, e a fazes pedir, na hora derradeira, perdão do escandalo á filha, e da traição ao marido. Antonio de Almeida já nos disse que morria, e elle que o diz é porque o sabe, e tu já o sabias antes d'elle. D. Ludovina vae para a casa paterna, e, a pedido de Melchior Pimenta, enxuga as torrentes caudaes do pranto que a saudade maternal lhe arranca, mas teima em não querer nada do abominado marido. O barão de Celorico, atassalhado pelo remorso, dispara apostrophes sem grammatica ao espectro de Antonio de Almeida, pega-lhe a febre socia predilecta dos romancistas pathologicos, solta quatro urros estridulos ao despegar-se-lhe a alma do sêbo corporal, e vê'-lo que morre boçalmente, sem deixar nada aoHospital do Terço, nem ásVelhas da Cordoaria! A tua crueldade para com este homem irá ao extremo de lhe negares até um necrologio na gazeta, ignominia posthuma com que rematarás a biographia de um homem que teve o infortunio de ser cevado de enxundias, em quanto tu espirras{138}ossos por todos os póros. D. Ludovina toma conta da herança, e...

—E, sabendo que tu és um portento de esperteza—atalhei eu—digno de substituir João José Dias, manda-te convidar pelo seu procurador para tomar chá ás quartas feiras; namora-te, casa comtigo, e o auctor é padrinho de primeiro pequeno. Ora, meu amigo, outro officio. Desquito-te da promessa do elogio; já nem «genio» quero ser á custa do teu estylo assoprado. Eu já disse em mais de um livro que não escrevo de phantasia. A verdade e a observação dispoem-me as situações como tu as não inventas. A natureza, que tu conheces, é tôla, meu amigo.

Disse.{139}

Antonio de Almeida esperava em ancias a apparição de D. Angelica. Não lhe pedira, como vimos, essa derradeira e afflictissima prova de um amor de vinte e dois annos; mas ve'-la, apertar-lhe a mão, expirar nos braços d'ella, egualar o escandalo ao flagello de lance tal, isso alvoroçava-lhe o espirito, attrahindo-lh'o para a unica visão aprazivel e ao mesmo tempo angustiada que o detinha entre a vida e a morte.

As irmãs de Almeida ignoravam tudo o que se passára, excepto o ferimento mortal de seu irmão. A denuncia do barão de Celorico fôra segredada ao enfermo pelo proprietario da casa, seu antigo creado. A policia devassára do crime, e nada averiguára das respostas concisas e obscuras de Almeida. Suspeitavam as attribuladas irmãs que seu irmão tivesse tentado um suicidio, por desgostos desconhecidos, e calasse o desastre para occultar a fraqueza, e obviar a presumpções nocivas á honra de alguem, e á propria memoria.

N'estas conjecturas, annunciou-se o barão de Celorico{140}de Basto. Almeida recebeu a parte d'esta visita com excitamento prejudicial ao seu estado. Os facultativos conheceram a exaltação inconveniente, e perguntaram-lhe se a presença do barão lhe era penosa.

—Não é—disse elle—que entre, e venha só, porque é necessario assim.

Entrou o livido barão, fechando a porta. Chegou-se ao leito do enfermo, e estacou silencioso, com os olhos rasos de lagrimas. Esteve assim instantes, ergueu as mãos, e ajoelhou sem proferir palavra.

—Que é isso, senhor?—disse Almeida.

«É um desgraçado que vem pedir perdão, snr. Almeida. Quem lhe deu o tiro foi este malvado infeliz que aqui está diante da sua vista. Eu cuidava que minha mulher me era infiel, e me deshonrava. Tive uma carta em que me avisavam d'isso. Encontrei um charuto no meu jardim. Disse-me a patrulha que do meu quintal saíra um homem fóra de horas. Tentou-me o demonio a tirar vingança de quem me deshonrava. Vi-o a v. sr.ª, e, sem pensar no que fazia, dei-lhe dois tiros. Depois soube tudo o que havia; minha mulher está innocente, e o senhor nunca me fez mal nenhum, e está ferido por mim. Se me quer entregar á justiça, aqui estou, snr. Almeida; chame toda essa gente que está em sua casa para ouvir a confissão.

—Levante-se, snr. barão—atalhou Almeida—Não diga a ninguem que me feriu; fique entre nós esse segredo para sempre. Eu depressa morrerei com elle, e o senhor viva sem se denunciar a pessoa alguma. Eu sabia que{141}o meu assassino fôra o senhor. Se quer mitigar o seu remorso, respeite... a mãe de sua mulher. Se ella um dia precisar dos seus favores, faça-lh'os como os faria á viuva do homem que matou. Agora, vá em paz.

O barão retirou, enxugando as lagrimas. Entrou furtivamente em casa, e escreveu uma carta. Sahiu com o preto, e montou a cavallo á porta de um alquilador.

A carta, que escrevera, era sobrescriptada á baroneza; da qual carta se dá o texto viciado com as perdoaveis infidelidades da correcção ortographica:

«Ludovina, quando receberes esta, teu infeliz esposo já não está no Porto!!!! Vou por esses mundos de Christo penar o meu crime, até que o remorso dê cabo de mim!!!! que não tardará!! Fica n'esta casa, que é tua, minha amada Ludovina; para mim me basta um bocado de terra onde enterrar os meus ossos!!! Quando souberes o meu triste fim então perdoarás a teu infeliz e desgraçado marido!! Fui já pedir perdão ao Antonio de Almeida, e oxalá que eu morresse ao pé d'elle. Pela tua honra e vida te peço que trates tua mãe com todo o amor e carinho. Faz com que ella me perdôe o mal que lhe fiz. Não tive animo de ir onde a ella, pedir-lhe que fosse tão boa como foi para mim aquelle honrado homem, que Deus permitta não morra. Adeus Ludovina, desgraçada Ludovina!!! para sempre, adeus! Não me tenhas odio; tem antes compaixão de teu marido, que te escreveu esta com a cara coberta de lagrimas e o coração acabrunhado de remorsos. Adeus para nunca mais!!!!!»{142}

Afóra a sobejidão de pontos admirativos, que são talvez signaes symbolicos da dôr indizivel do barão de Celorico de Basto, o que se nos depara n'essa carta é a simplicidade, a mudez, a phrase chan de uma verdadeira angustia. Em lance identico um marido letrado, e concedo até que romancista, não escreveria cousa mais pathetica e pungitiva.

Ludovina leu esta carta ao pé de sua mãe, que authomaticamente se deixava vestir para ser transportada n'uma cadeirinha, nem ella sabia para onde.

Melchior Pimenta trouxera de fóra a noticia do perigoso ferimento de Antonio de Almeida, e vendo que sua filha não se espantava da nova, porque não era então maré de fingimentos, ficou perplexo, e scismou no caso alguns minutos.

Uma idéa, entre muitas idéas (se o leitor concede que Melchior tivesse muitas idéas) o incommodava. Seria Antonio de Almeida amante de sua filha, e o barão, por consequencia, quem lhe dera o tiro? Era esta a conjectura que o preoccupava, quando Ludovina lhe disse que não podia fazer-se a mudança n'aquelle dia porque a receava perigosa para sua mãe.

«Vem cá, Ludovina—disse o sr. Pimenta, franzindo a testa sobrecarregada de cuidados—fallemos de espaço, e desembrulha-me este novello. O barão disse-me, ha pouco, que dera esta noite um tiro n'um homem que era o amante de tua mãe. Acabo de saber que Antonio de Almeida está ferido. Contei-te este acontecimento, que te não espantou. Vejo tua mãe doente. Lembra-me{143}o que teu marido me disse... Quero explicações d'este mysterio.

—São muito dolorosas para mim as explicações, meu pae.

«Como dolorosas?!

—E muito, meu pae; vergonhosas até para que uma filha se atreva a dize'-las. Queira ignorar tudo, meu pae, ou tudo saber de outra pessoa que não seja eu...

«Porque não has de ser tu?

—Porque sou criminosa.

«Criminosa! mas o barão disse que estavas innocente.

—Foi a minha querida mãe que me salvou á custa da sua dignidade.

«Não entendo...

—Entende, meu pae. A amante de Antonio de Almeida era eu.

«Tu! pois tu!...

—Não me culpe, ou culpe-me, mas perdoe-me. Obedeci, quando me casaram com este homem, obedeci cegamente; mas o coração negou-se ao sacrificio.

«E Antonio de Almeida, meu amigo de vinte annos, que te viu nascer, teve a ingratidão e a infamia de te fazer a côrte, sendo tu casada?! Foi bem dado o tiro! Bem hajas tu, barão, que me desaffrontaste, e procedeste como homem de bem!

—Isso é improprio da sua nobre alma, meu pae. A culpa é minha só. Amei desde creança Antonio de Almeida, era amiga d'elle até o julgar superior a todos os{144}homens. Pedi-lhe a felicidade do coração, que só elle podia dar-me. Amava-me por piedade; fazia-me esmola do seu amor. Fui eu que o matei. Já que me forçou a esta confissão, dir-lhe-hei mais que, na posição em que estou, considero-me responsavel das minhas acções más perante Deus e meu marido. O pae perdeu o direito de me injuriar na desgraça que lhe devo. Minha mãe foi mais generosa comigo. Fez, não sei de que modo, convencer-se o barão de que a amante de Antonio de Almeida era ella. Aqui tem a explicação das palavras que meu marido lhe disse, e não poude sustentar na minha presença. Minha pobre mãe, depois de victimar a sua honra á minha salvação, succumbiu á vergonha de si, e á dôr, talvez, de me ver indigna d'ella. Basta de explicações, meu pae. Estas palavras tem-me custado annos de vida. Se a minha deshonra reflecte no seu pundonor, perdoe-me; se me não quer perdoar, amaldiçoe-me, mas não profira na presença de minha mãe o nome de Antonio de Almeida. Mereço isto á sua compaixão?

«Não falarei mais n'esse homem por minha honra propria.

—Assim o deve á sua dignidade.

Ludovina foi chamada com urgencia ao quarto de D. Angelica. Encontrou-a vestida, disposta a sair, com o rosto escarlate do crescimento febril, e gestos de quem delira.

«Onde quer ir, minha mãe?

—Morrer em qualquer parte, Ludovina... Quero ar...{145}

«Não ha de sair d'aqui; supplico-lhe que não saia, minha mãe.

—Não me dês esse nome... Eu não quero já ser mãe nem esposa...

Ludovina fez sair a creada, que testemunhava este dialogo.

«Não quer ser mãe nem esposa?

—Não. Sou amante de um homem que está moribundo ou morto. Quero que todo o mundo saiba, que o fui e que o sou. Desprezo tudo, não ha para mim deveres nem respeitos agora. Se elle está vivo, quero dar-lhe os meus ultimos instantes. Se morreu, quero chorar e morrer ao pé do seu cadaver.

«Fale baixo, por misericordia, minha mãe!

—Podem todos ouvir-me, não me escondo d'alguem, agradeço as affrontas, os desprezos, as injurias, agradeço tudo que fôr martyrisarem-me, com tanto que me matem depressa.

«Mas, minha mãe, attenda-me por piedade. Vou-lhe contar tudo, se me escuta... Sente-se, e ouça-me...

—Diz, anjo, diz...

«Antonio de Almeida não morreu, e talvez não morra. O barão escreveu-me uma carta em que se despede de mim, e me recommenda que lhe peça o perdão para elle. N'esta casa ignora-se tudo. Meu pae está convencido que sou eu a amante de Antonio de Almeida...

—Jesus! exclamou D. Angelica.—Como tu me castigas, Ludovina!

«Como eu a castigo, mãe?! por quem é, deixe-me{146}ser boa para o meu coração, e indigna para todo o mundo. Sinto na alma alegrias tamanhas d'este meu procedimento!... isto é Deus que me premeia, minha mãe, é Deus que me dá em consolações do céo as amarguras, que o mundo me possa dar. Ora, se a mãe me envenena este prazer, mata-me... Deixe-me ser senhora de uma parte do seu coração e da sua vida. Obedeça-me, sim? não saia de casa; não saia, que talvez me não encontre viva quando voltar.

Ludovina abraçou-se, a chorar, em D. Angelica. Choravam ambas, com os rostos unidos, apertando-se cada vez mais. O seio da mãe desafogava de angustias soffocantes n'aquelle pranto. O da filha fortalecia-se de animo para arcar com a ignominia do seu descredito.

D. Angelica recaíu no entorpecimento. Ludovina chamou creadas para lhe assistirem, e executarem as prescripções dos medicos. Melchior Pimenta esperou que a filha saísse do quarto, e foi sentar-se, meditabundo e sombrio, ao pé do leito da enferma, tateando-lhe o pulso, e chamando-a com os maviosos epithetos do carinho. Angelica abria os olhos pávidos, encarava-o por momentos, e recaía na somnolencia.

Ludovina entrou na carruagem, deu ordem ao boleeiro, e apeou na Lapa. A trezentos passos d'ahi, morava Antonio de Almeida. Velando o rosto com um véo negro impenetravel á vista, a baroneza de Celorico, sósinha, subiu as escadas do amante de sua mãe.

Descia um medico ao qual ella perguntou o estado do enfermo. Respondeu-lhe que havia esperanças de{147}salva'-lo. A noticia feliz alvoroçou-a. Receberam-n'a as irmãs de Almeida, maravilhadas de tamanha prova de estima. O doente conheceu-lhe a voz, agitou-se, quasi desfez o apparelho do curativo, e chamou-a com ancia.

Ludovina entrou no quarto, só, que assim o pedira ás amigas. Almeida apertou-lhe a mão, orvalhou-a de lagrimas, e murmurou balbuciante:

«É a boa nova... agora creio que vencerei a morte, minha amiga, filha do meu coração.

A baroneza ficou muda e convulsa.Filha do meu coraçãoforam palavras que lhe entraram como fogo no recesso da alma, fogo, porém, que, de repente, se mudára em sensação de intima doçura. Passados minutos de mudo anceio, Ludovina curvou-se para o seio de Almeida, e disse:

—A mãe está muito doente; mas sem perigo. A sua carta não lh'a entreguei, lia-a eu, e occultei-lh'a para a não matar.

—O barão denunciou tudo?

—Nada: tudo se ignora, e toda a gente ignora, só eu sei que ella o estima tanto como eu. É necessario que o nosso amigo concorra quanto puder para lhe dar allivio. Tem esperanças, não tem?

—Tenho. Os facultativos disseram agora que o ferimento não é mortal. Já não morro, minha... minha querida amiga, não quero morrer...

—Escreva a minha mãe, se pode. Diga-lhe isso, que eu levo a carta. Não fale em mim, não diga que eu vim cá.{148}

Antonio de Almeida escreveu. Ao despedir-se beijou Ludovina na face, e disse soluçando:

«Será o beijo de um moribundo?

«Não diga tal, sr. Almeida.

«Se fôr...» e desentalando a voz dos gemidos que lh'a embargavam, proseguiu «se fôr... Ludovina... lembra-te sempre da situação em que te deu o seu ultimo beijo... teu pae.

A baroneza tremeu uma sezão de instantes. Quiz saír, mas o abalo quebrantou-lhe as forças, coando-lhe nos nervos o desfallecimento, e a perda quasi dos sentidos.

Almeida tocou a campainha, e disse á irmã que primeiro chegou:

—O ar d'este quarto fez mal a esta senhora: levem-n'a para a sala, e vá uma das manas acompanha'la.

Ludovina pediu que lhe mandassem buscar a sua sege, que a esperava na Lapa.{149}

Este capitulo mira a alvo transcendental.

Nem mais nem menos, quer provar que o Codigo do Imperador Justiniano—corpo de leis que uma falsa piedade chama «Digesto», sendo elle a causa indigesta de muitas gastralgias intellectuaes—quer provar, digo, que o Digesto, entre muitas que não conheço, traz, uma lei de tamanho absurdo e insensatez, quanta é a indignação com que para aqui a traslado:

Pater is est quem nuptiæ demonstrant.

Em portuguez comezinho:

O pai é aquelle que se diz pae no assento do baptismo.

A versão é de christão catholico, entenda-se.

Aquella regra de jurisprudencia pagã não fala em assento baptismal. Se o legislador fosse baptisado, como estes de agora, a lei não saía assim.

Contra a qual lei temos a articular:

1.º Que o pae é uma entidade muito mais nobre, efficiente, cathegorica, e circumspecta. E demonstra-se:{150}

Quem leu a physiologia da geração sabe que ha cinco phenomenos caracteristicos d'essa funcção de mysteriosa origem. O primeiro d'esses phenomenos, cuja confusa theoria os imperitos podem lêr nas fontes respectivas, é influido pela acção de um ser directo e immediato, que os latinos denominampater, os inglezesfather, os allemãeswatter, os francezespère, os hespanhoespadre, e nós, com mais suavidade que todos os outros idiomas,pae.

Paequer dizer «productor, gerador»Parens qui aliquem genuit—isto a meu vêr, é claro como tudo o que se diz em latim.

Conclusão: Pae é aquelle que é pae.

2.º Ha paes postiços, paes contra-natura, paes testas de... ferro, paesin mente legis, na presumpção da lei, e na fé dos padrinhos de quem são compadres, por obra e graça de um sacramento.

Os homens, reconhecendo a inconveniencia de acceitar a natureza feia como ella ás vezes se apresenta deliberaram, de commum concerto, pôr-lhe mascara.

E como a natureza paterna era uma das que mais a miudo saía á gente com as suas deformidades medonhas, resolveram os desvelados reformadores corrigir os aleijões d'essa natureza, inventando o pae civil, o pae do assento baptismal, o pae da arvore de geração escripta em pergaminho, o pae que transmitte os bens e os appellidos, o pae, finalmente, que tem tudo que é paternal, mas não é pae.

Este invento honra a sagacidade humana; mas a causa{151}que o incitou deturpa a humanidade, e opprime agramente os corações dos individuos virtuosos. Todavia, a mascara foi necessaria, logo que as fealdades deram nos olhos. Hoje acceita-se o remedio do mesmo modo que o travor da quina se tolera para combater a sezão. Os paladares mais melindrosos affazem-se á peçonha, e estomago ha ahi de pae postiço, que disputa a Mithridates a invulnerabilidade.

Eu não applaudo aSandicecomo Desiderius Erasmus; mas observo que o famoso theologo chamava «sandice» o que nós cá, gente bemaventurada da civilisação, denominamos «Cultura.»

Erasmus não deu pela theoria das mascaras. Pasmado da bonacheirona paz d'alguns paes impossiveis, exclama o mestre de Bolonha:

«Grande Jupiter! O que ahi não iria de divorcios, e peor do que divorcios, se a união do homem e mulher não fosse corroborada pela lisonja, pela complacencia, pelo esquecimento, e pela dissimulação, que formam o meu cortejo! Que raros não seriam os matrimoniamentos, se o homem de ante-mão esquadrinhasse os brinquedos da innocentinha noiva! Que rompimentos conjugaes, se o descuido ou a inepcia, não cegassem o bom do marido, para não enxergar os tregeitos e os feitios da companheira querida! Dizem que é toleima isto; deixa'-la ser; mas o grande caso é que marido e mulher vivem ás mil maravilhas, que reina a santa paz em casa, e os vinculos da alliança estão rijos. Isto é que é o essencial. Se ao pascacio dão nomes feios, que se lhe dá{152}elle d'isso? Ve'-la a infiel a choramingar; para logo o pobre marido lhe sorve as lagrimas enternecidamente. Qual é melhor, ser assim bom, ou andar atormentado pelas furias do ciume?»

É boa a pergunta do theologo! O melhor é ser assim bom, ser assim illustrado, ser assim desbravado das velharias pundonorosas que obrigaram Cicero e Sulpicio Gallo a divorciarem-se das mulheres, um porque a sua lhe não respondeu a todas as cartas enviadas do exilio, outro porque a d'elle teve a impudicicia de saír um dia, sem coifa, á rua.

Aconteceu isto muito depois do reinado de Saturno, quando o pudor, como pondera Juvenal, já não morava nas primitivas cavernas onde os dois sexos se luravam sobre colchões de folhagem.

Credo Pudicitiam, Saturno rege, moratamIn terris...

já quando o genio tutelar do hymeneu andava corrido das pseudo-paternidades que se enxertavam, á sombra d'elle, nos illustres troncos de Roma:

Antiquum et vetus est alienum, Postume, lectum.Concutere, atque sacri genium contemnere fuclri.

«Ó Postumo!—exclama o poeta—pois tu eras, até aqui, escorreito e atilado, e vaes casar

Certe sanus eras: uxorem, Postume, ducis!{153}

Por esses tempos, a balbuciante civilisação dos espiritos engendrou a lei contra a qual se escreve este capitulo. As nupcias indicavam o pae:pater is est quem nuptiæ demonstrant. Agora, em pleno seculo de luz, somos mais romanos que os proprios romanos, tresandamos ao paganismo fetido, e difficultamos o divorcio para sellar o escandalo com o cunho sacramental da lei nova.

Como quer que seja, pae é aquelle que é pae, apesar do Direito Romano, e das Instituições de Direito Civil de Coelho da Rocha.

Não se adduzem os 3.º, 4.º e 5.º artigos da refutação, porque ninguem supporta um embrechado arripiante de textos latinos: e o auctor, com quanto assim grangeasse voga de romancista sumarento e condimentoso, seria lido apenas por tres ou quatro mestres de latinidade.

Melchior Pimenta era um dos paes presumidos na intenção doDigesto, na lei citada, do L. 5.ºde in jus voc, e C. da Rocha no cap.Paternidade e filiação legitima.{154}{155}

D. Angelica, afflicta com a longa ausencia de Ludovina, pedira ao marido que procurasse a filha. Melchior Pimenta correra a casa, alarmando os creados, que francamente lhe disseram que a senhora baroneza saíra na sege. Melchior suspeitou que a destemida Ludovina descera ao infimo degrau da desenvoltura, visitando o amante á hora do dia, no momento em que seu marido a abandonava aos terriveis juizos da sociedade. Com as mãos agarradas á cabeça, entrou o consternado pae no quarto da mulher, abafando de vergonha, como elle dizia.

D. Angelica, receosa de que tudo já fosse notorio a seu marido, apavorou-se, e quiz fugir do quarto.

«Que queres tu fazer agora, santa mulher?!—exclamou elle, sustendo-a com meiga brandura.—Deixa'-la perder-se de todo, já que ella assim o quer... Ahi tens como Ludovina te paga o sacrificio que fizeste da tua dignidade e da minha para a salvares. Ainda bem que{156}o procedimento d'ella te ha de desmentir, Angelica...

—Que dizes?—atalhou a perplexa senhora.

«Que digo? pois eu não sei já tudo? Não me contou ella o que tu fizeste para capacitar o barão de que Antonio de Almeida era teu amante, e não d'essa desgraçada que tão mal aproveitou as tuas lições? O que tu fizeste, não devias faze'-lo sem tomar o meu parecer; porque, a falar verdade, se corresse o boato de que o escandalo era cousa tua, a minha honra soffria tanto como a de minha mulher. O que vale é que o barão não dirá nada, e o falatorio ha de acabar como acabam todos os escandalos, quando os faladores se cançarem. Mas, Ludovina! Ludovina! onde está esta mulher que nos anda envergonhando por lá?

«Estou aqui, meu pae—disse a baroneza com angelica serenidade, e sorriso de meiguice para sua mãe.

—Minha filha, minha santa filha, minha providencia!—exclamou D. Angelica abraçando-a com arrebatamento.

«Isso não é assim, Angelica!—disse carrancudo Melchior Pimenta.—Pergunta-lhe de onde vem, e reprehende-a, já que tão boa moral lhe ensinaste em solteira.

—Silencio, meu amigo. Vae...—atalhou com azedume D. Angelica—vae, e deixa-nos sós.

«Não tem geito nenhum!—accrescentou o austero pae.—É preciso saber-se para onde foi teu marido, Ludovina, e ir pedir-lhe perdão, perdão, antes que a sociedade saiba que elle te abandonou.

—Irei, meu pae.{157}

«Irás; mas entretanto sáes de carruagem, e não dizes onde vaes... Onde foste tu, diz?

Ludovina abaixou os olhos, e não respondeu.

«Vês, Angelica?—proseguiu com virulencia Melchior—Não respondeu; já sabes d'onde ella vem... Já se viu no mundo um descaramento assim?

—Nem mais uma palavra a minha filha!—exclamou com impetuosa arrogancia D. Angelica—Nem mais uma palavra, porque se não, Melchior...

«Se não, o que?—interrompeu elle.

—Minha mãe, pelo seu amor lhe peço...—murmurou a baroneza, apertando-a ao seio, como se quizesse comprimir-lhe as palavras no coração.

Pimenta sahiu, como entrára, com as mãos agarradas á cabeça. D. Angelica, beijando soffrega a face da filha, dizia, soluçando:

«Ao que eu te expuz, minha querida victima! ao que tu quizeste sujeitar-te, Ludovina! Pesa-me mais a tua innocencia diffamada que o meu proprio descredito. Não, filha, isto não póde continuar assim. Deixa-me ser virtuosa no crime, deixa-me expiar a minha culpa com menos amargura. Esta expiação é a maior de todas, Ludovina. O meu coração está cheio de fel. Tu queres salvar tua mãe e matas-me, anjo do meu coração. É-me muito mais dolorosa a vergonha que tenho de ti, que da sociedade. Que o mundo todo me culpe, mas perdôa-me tu, filha!

—Mãe, por piedade... não me turve a satisfação d'esta pequena virtude. Olhe que não é heroismo isto,{158}não, é a crença, a esperança de que a felicidade ha-de vir para todos nós, se me não desviarem do caminho por onde eu a busco...

«Para todos nós, filha! que innocencia, que illusão a tua! D'esta queda ninguem mais se ergue, e menos eu.

—Ergue, mãe. Verá que o desenlace d'este desgraçado enredo não ha-de ser o que a mãe espera.

«Oh, filha! tu queres que eu sobreviva a esse infeliz que mataram...

—Ninguem morreu, minha mãe. Olhe... aqui tem uma carta do sr. Almeida; escreveu-a elle com o proprio punho; está livre de perigo... Veja, veja o que elle diz...

D. Angelica abriu a carta com fervente soffreguidão, e leu o seguinte:

«Minha prezada amiga. Sei quanto deve ser-lhe penosa a noticia do triste acontecimento, que hontem se deu. Apresso-me a dar-lhe a certeza do nenhum risco da ferida, e rogo-lhe que se convença d'esta verdade, para ser mais suave a cura. De v. exc.ª amigo verdadeiro.—Antonio de Almeida.»

«Isto é verdade, Ludovina?—exclamou ella erguendo as mãos, e apertando a carta ao coração—Isto é verdade, minha filha?

—É, juro-lhe que é...

«Como podes tu jura'-lo? quem o viu?

—Eu, mãe.

«Tu! viste-o, Ludovina? sem repugnancia, minha filha?{159}Que inspiração tiveste de o visitar? O coração impellia-te? era o coração? diz, diz, que eu preciso acreditar n'uma influencia divina em tua nobre alma! Não me respondes, filha! Não queres dar-me a alegria completa! Foi só por caridade, por compaixão, que o visitaste?

—Foi por amor de minha mãe que o visitei.

«E elle? que fez quando te viu? abraçou-te? beijou-te? chorou nos teus braços, Ludovina? Disse-te alguma palavra que te espantou, augmentando a tua piedade? Fala, fala sem pejo. Aqui a vergonha é toda minha. A reserva já agora é impossivel entre nós, filha. Que te disse? responde...

—Nada, minha mãe...—balbuciou a baroneza.

«Nada?

—Que poderia elle dizer-me... para augmentar a minha piedade? bastava ser nosso amigo de tantos annos... lembrar-me eu que o vi sempre ao pé de minha mãe... recordo-me dos affagos que elle me fazia, dos bons conselhos que me deu sempre, das consolações affectuosas com que alliviava as minhas maguas, desde que infelizmente casei. Tanto como isto era sobejo estimulo á minha pena. E, depois, vêr quanto a mãe soffria... porque o prezava tanto como eu o estimava...

«Basta, minha filha, eu mortifico-te... Ha de custar-te amarguras terriveis essa delicadeza... Comprehendo-te, minha amiga... Agora vaes tu dizer-me por que meio has de restaurar o teu credito perante teu marido... Não me atrevo a aconselhar-te, Ludovina, por{160}que ha em ti fortaleza de juizo que confunde a minha timidez e fraqueza... Faz o que quizeres de mim; eu obedeço-te, sigo-te cegamente; acceito conselhos de ti como do meu anjo da guarda.

—Eu não a aconselho, minha mãe... pelo contrario, supplico-lhe que me advirta, se eu me desencaminhar do bom caminho onde a consciencia me diz que estou agora. Toda a minha confiança está posta em Deus, que protege a innocencia e é misericordioso com a culpa. O mundo será cruel comnosco; seja, muito embora; nós supportaremos as cruezas do mundo, sem nos curvarmos aos seus juizos. Minha mãe ha de ajudar-me a vencer os dissabores passageiros da maledicencia, pensando em me fazer cada vez mais digna do seu amor. No tocante ao que ha de vir melhorar a nossa sorte, espero que virá, mas os meios não os sei. Hei de a este respeito consultar o nosso amigo Antonio de Almeida.{161}


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