CAPITULO II
Argumento
João de Pinhel quer levar o rapaz para o Pará. Amores infantis de Thomazia e Innocencio. Idéas do brazileiro ácerca do casamento predestinado para creanças. Como a menina se fez linda, e não queria saber ler. Vê-se o que faz a vaidade e o que ella promette aos sete annos. Delicias de Gervasio José nas hortas do Reimão, onde correram os dias mais felizes da geração que vai acabando. Diz se que os peraltas do Porto exercitaram o seu tirocinio de elegancia nas merendas do linguado frito. Investidas dos cavalleiros portuenses ao coração virginal de Thomazia. Congrega-se a familia para casar Innocencio com ella. Vê-se que o rapaz era namoradiço, e o pae tanto ou que velhaco, sem desfazer na sua honradez commercial, cousa invulneravel no Porto. Receia o pae que o filho atire dois couces ao apparelho. Tendencias artisticas de Innocencio para desenhar narizes, e do mais que no capitulo se disser.
João de Pinhel quer levar o rapaz para o Pará. Amores infantis de Thomazia e Innocencio. Idéas do brazileiro ácerca do casamento predestinado para creanças. Como a menina se fez linda, e não queria saber ler. Vê-se o que faz a vaidade e o que ella promette aos sete annos. Delicias de Gervasio José nas hortas do Reimão, onde correram os dias mais felizes da geração que vai acabando. Diz se que os peraltas do Porto exercitaram o seu tirocinio de elegancia nas merendas do linguado frito. Investidas dos cavalleiros portuenses ao coração virginal de Thomazia. Congrega-se a familia para casar Innocencio com ella. Vê-se que o rapaz era namoradiço, e o pae tanto ou que velhaco, sem desfazer na sua honradez commercial, cousa invulneravel no Porto. Receia o pae que o filho atire dois couces ao apparelho. Tendencias artisticas de Innocencio para desenhar narizes, e do mais que no capitulo se disser.
Quando Innocencio, filho de Gervasio, prefez doze annos, veio a Portugal um tio seu materno, estabelecido no Pará, solteiro e rico. Quebrantado pelas enfermidades do clima, Luiz de Pinhel, que assim se chamava o opulento fazendeiro de cacau, promettia pouca vida aos quarenta annos. Algumas melhoras cobrou com os arespatrios, mas a sciencia futurou-lhe peorar e morrer, se voltasse ao Pará.
Não obstante, insistiu na ida para liquidar os seus haveres contados por centenas de contos, e pediu instantemente a sua irmã Thomazia que deixasse ir com elle o sobrinho Innocencio para quem estivera trinta annos amontoando os cabedaes já agora inuteis para si.
A resistencia foi energica e indelicada; mas, ao verem que Luiz de Pinhel desistia despeitado da benevola pretenção, convieram em consistorio os paes e tios que se deixasse ir o menino; que tanto montava acrescer-lhe ao seu dote de bons cincoenta contos o triplo d’esta quantia.
—De maneira, dizia o pae, que o nosso rapaz vem a ser o homem mais rico do Porto, e juntará a fortuna que teria, se os ladrões dos francezes lhe não roubassem ao avô quinhentos mil cruzados, não fallando no juro desde 1808 até hoje, que já lá vão vinte e oito annos. Vejam vocês p’ra onde isto deitava!
O rapaz, porém, não ia de vontade para o Pará. Cada vez que a pequenina Thomazia lhe dizia: «Então tu vaes-te embora, Innocencio?» o menino debulhava-se em lagrimas e dizia entre arrancos que era a mãe que o mandava. As senhoras presenciavam consternadissimas este lance, e não podiam ter o pranto.
Um dia chamaram ellas Luiz de Pinhel para espreitar como as duas creanças se abraçavam a soluçar. O tio condoeu-se, e disse muito commovido:
—Agora, minha irmã, sou eu que peço, e ordeno, sefôr preciso. Innocencio não vae. Se eu morrer, cá lhe vem dar o que fôr meu; se eu viver, irá mais tarde, quando lhe chegar vontade de vêr mundo.
E chamando a si os pequenos disse-lhes cariciativamente:
—Brincae, meninos, brincae; que eu não te levo o teu amiguinho, Thomazia. Lá virá tempo em que a ambição ou o amor vos apartem...
Thomazia sorriu-se e levando o irmão de parte, segredou-lhe:
—Não sabes, Luiz, que muitas vezes a gente tem pensado em os casar? Estes já não se apartam...
—Isso é muito possivel; e, se elles vão n’este affecto, chegados á idade, não ha mais que leval-os á egreja; que bem casados levam elles já os corações. Mas olha, Thomazia, que não ha fiar n’estas affeiçõesinhas. Eu conheço alguma cousa o mundo, e por isso andei sempre por longe d’elle, e mettido cá no meu trabalho, por não saber em que havia de gastar a vida, que bem depressa gastei... Estas creanças que brincam, em começando a olhar seriamente uma para a outra, já não acham gosto ás brincadeiras da meninice. Depois, cada qual trata de procurar cousas e affeições novas, porque o coração humano é assim. O moço não tem o coração do menino, nem o velho o coração do moço, percebes? O que eu te quero dizer é que não vás tu por engano casal-os muito cedo, sem elles saberem o que fazem nem o que querem. É muito perigoso que, na idade de saberem o que são e hão de ser até á morte, se não submettamás obrigações para que a sua razão não foi consultada. Entretanto, Deus os faça tão bom homem e digna mulher como são bons e amigos em creanças.
O paraense foi-se embora com grande jubilo de Innocencio e Thomazia. Os paes do menino tambem exultaram, ficando-lhes a certeza da herança proxima ou remota.
Principiaram as aulas de Innocencio, e minguaram as horas da folia. O pequeno applicava-se ao estudo, e ia ensinando a Thomazia o que aprendia, já com certo aprumo e vaidade de preceptor. A menina entretinha-se com mediocre prazer nas praticas do alfabeto, e ia arguindo vocação negativa para cultivar o entendimento. Era a soberana ordem das cousas, raras vezes desconcertada. Chovia-lhe a natureza dons de infantil formosura, e dava-lhe ao mesmo tempo sequidões esterilisadoras de intelligencia. Cada dia lhe abrolhava flores novas; e cada dia lhe entibiava mais a percepção. Por maneira que a menina já choramigava quando Innocencio lhe pedia contas da invencivel difficuldade de soletrar.
—Deixa lá a pequena!—exclamou a madrinha compadecida.—Eu tambem não sei ler, e graças a Deus não me tem feito falta. Uma mulher de casa não lhe chega bem o tempo para cuidar do seu arranjo. Isso de lêr é lá para as fidalgas que não sabem no que hão de gastar as horas. Aprende tu, que és homem, e deixa a menina. Se ella não tem geito, para que apertas com ella? É forte birra a tua, rapaz!
—Eu não quero que ella seja bruta!—disse Innocencio com uma authoridade e sobrecenho irrisorio, attentos os seus doze annos.
—E que tal!—clamaram as tias em quanto a menina córava, e a mãe se benzia, murmurando:
—Ora esta! querem vocês vêr! O rapaz já diz que não quer que ella seja bruta! Assim nos vae chamando brutas a todas! Então tu governas em Thomazia?—tornou a risonha senhora.—Ella é tua parente ouadrente?
Innocencio fez uma pirueta de educação mediocremente esmerada e saiu da presença da mãe aos pinotes.
Ora vejam agora como a serpente da vaidade mordeu de assalto o amor proprio da menina. Ao outro dia, pediu ao seu impertinente mestre que lhe ensinasse a lição, estudou-a, deu de si boa conta á custa de muito martelar na combinação litteral dos nomes bisillabos, e conseguiu em poucos mezes livelar-se com a sciencia do pedagogo. Fez-se o prodigio em razão de lhe ter chamado elle bruta!... Indicio de alguma coisa, a meu vêr; se boa, se ruim, o futuro, querendo Deus, nos irá assentando as bases para seguro juizo.
Na aprendizagem incompleta das primeiras letras consistiu a educação litteraria de Thomazia Alves. O padrinho entendia que as quatro operações não lhe desconvinham e a leitura de uma carta lhe podia ser util. D’aqui em deante, nem elle sabia nem lhe constava que mulheres podessem aprender coisa proveitosa.
Por encurtar fastios, sigamos de salto os annos de Thomazia até aos quinze.
Eil-a bella quanto póde imaginal-a a mais artistica e ambiciosa fantasia. Faltava, porém, alma e luz n’aquelle rosto, porque as imperfeições, embora poetas e romancistas as esqueçam, são inevitaveis. A estatua de certo tinha vida bastante para valer em tresdobro da Galathea e das notorias Venus de innocente marmore; todavia, a glacial placidez do semblante, se não fosse natural, deslustral-a-ía com umas sombras de desvanecida e concentrada na contemplação de si mesma. Não era; e que fosse, ainda assim daria muito que invejar ás poucas a quem a prodigalidade do destino concedeu peregrino rosto e adoravel alma a transluzir-lhe em olhos e sorrisos; que alteza de pensamento e profundidade de conceitos isso não vale tanto á mulher bella como quatro flôres do campo nos cabellos.
Thomazia ganhára fama, bem que os pregoeiros da sua formosura escassamente a vissem nas egrejas, nas procissões, nos camarotes da 3.ª algum domingo de tarde, e uma ou outra vez nas hortas do Reimão, onde Gervasio José costumava desde menino ir merendar sob a folhagem das parreiras. Se o apetite lhe faltava e o cirurgião lhe formulava oleo de mamona, dizia elle á familia:
—Bem sei... Vamos ao Reimão merendar uns linguados com a respectiva salada. O meu oleo de mamona é o verdasco de Basto ali tirado da pipa, e quatro azeitonas de Sevilha.
Apesar das precauções do avisado enfermo nos lanços da preguiça de estomago, Thomazia era vista dos peraltas que ainda em 1841 se não pejavam de apear de seus cavallos e carruagens á porta das tavernas do Reimão e Barros-Lima.
Se o commerciante reparasse nos seus confrades da medicina do linguado e da azeitona, podia vêr alguns d’elles caracolando os ginetes que lhe pateavam sonoramente a testada da sua casa nas Cangostas.
Elle, de certo não; mas a sua afilhada, menos mal servida de reminiscencia, reconhecia trez ou quatro dos cavalleiros que uma vez e diversas vezes tinha visto nos bucolicos festins do padrinho ou nos festins espirituaes da madrinha mui devota do Senhor-exposto de Bello-Monte e da Misericordia.
Isto, porém, não desluz nem mareia a candura de Thomazia. Era um acto de memoria e mais nada; acto, porém, que não condizia com a frouxa faculdade de reter a taboada salteada. Ha compensações; é o que é. Ora agora, que a senhora D. Thomazia de Barros (odomcomeçou a honorifical-a ahi por 1840, anno em que seu marido foi da camara) que a senhora D. Thomazia e suas cunhadas e marido não tinham sombra de suspeita da leviandade da menina, é bem de entender, sendo tal e tão crescente o amor que lhe davam.
Ahi por volta dos dezeseis annos da moça, a familia Barros congregou-se em sessão, cujo memento se infere de terem descido ao escriptorio de Gervasio. Se um caso desatado da historia podesse ser contado aqui, sem enfadode quem lê, diriamos que Thomazinha, vendo-se só e ouvindo estrupiada de cavallo, entreabriu as portadas da varanda, e por um resquicio espreitou o cavalleiro até á revolta da rua para o largo de S. Domingos. Está averiguado que elle a viu tambem com olhos satanicos; mas ella, por sua parte, ficou illesa e quieta de coração. Quando é que a lua, nas alturas onde os poetas lhe mandam declarações de amor, se deu por offendida ou perdeu tanto como isto da sua proverbial castidade? Thomazia podia pleitear isenções com a lua n’este caso e vencel-a em muitas qualidades amaveis.
Desçamos ao escriptorio.
É proposto e não discutido o casamento de Innocencio José de Barros com a ditosa menina. Divergem ainda assim os pareceres, no tocante ao prazo da realisação. Os tios Jeronimo e Felizardo opinam que o rapaz está muito novo. As tias Sebastiana e Florencia abundam n’este parecer; mas Gervasio, bamboando trez vezes a cabeça como quem prefacía uma revelação ponderosa, diz:
—O rapaz tem dezenove annos. Vocês cuidam que o tempo de hoje é o nosso? Estão enganados. No meu tempo, antes dos vinte e cinco, homem que tolejasse com mulheres, era um asno de quem as pessoas serias não faziam cabedal. Eu tinha vinte e oito e alguns mezes, quando pensei em procurar companheira. Isto agora é outra coisa. Voltou-se o mundo. As mulheres estãodesaustinadase os mancebos, assim que lhes pinta o buço, ninguem tem mão n’elles...
—O nosso filho é bem comportado—atalhou a senhora D. Thomazia com applauso do auditorio, que se mexeu nas suas cadeiras de segovia marchetadas de botões de cobre.
—O nosso filho, repetiu com intencional surriso o orador, o nosso filho é como os outros. Eu que lh’o digo é que o sei; e agora... vão vocês saber que Innocencio... namora!
—S. Bento!—exclamou a senhora D. Thomazia, sobrelevando ás interjeições dos outros ouvintes.
—Namora, sim, senhores. Pois que cuidam? Vocês não sabem que elle é rico? não sabem que ha por ahi muita moça que pensa que ha de casar-se rica, porque tem um palmo de cara ageitada? Não sabem—proseguiu elle alteando a voz graduada pela inspiração propria e espanto dos ouvintes—não sabem que assim que ahi chegam brasileiros ricos ao Porto, são os proprios paes das raparigas casadoiras que os mostram ás filhas e as picam para que ellas andem para deante antes que as visinhas os apanhem? Não sabem...—continuou Gervasio José adivinhando o quilate rhetorico doquousque tandemde Cicero, repetido com ascendente energia.—Não sabem que meu cunhado, quando cá veio do Pará, me disse a mim que lá na America não se feiravam tão desavergonhadamente as pretas como aqui as brancas? Se não sabem,—concluiu o velho restaurando a respiração esbofada—saibam que mais de seis mulheres andam na piugada de Innocencio, e de quatro que eu conheço, não ha uma que tenha dez réis de seu,assim que eu levar ao tribunal as lettras reformadas que cá tenho dos paes d’ellas.
D. Thomazia tinha-se benzido tantas vezes, quantas foram os triumfaesnão sabem. Jeronimo e Felizardo bufavam, e coçavam-se como se quizessem arrancar á unha das cabeças d’elles idéas condignas da sua indignação. As tias do rapaz pareciam corridas do seu sexo e espantadas da pureza dos seus costumes.
Seguiu-se ao silencio de trez minutos esta pausada interrogação de Gervasio:
—Que me dizem agora vocês? É tempo de o casarmos ou não?
—E quanto antes—responderam tios e tias.
—E tu que dizes, Thomazia?—tornou elle voltando-se á esposa, que sobre-estivera silenciosa e cogitativa.
—Que hei de eu dizer?... Estava a pensar no que meu irmão me disse quando cá veio... Homem! e se elle não gosta da nossa afilhada? Amisade é uma coisa, amor é outra... Achas que o nosso filho, se quizesse casar com Thomazia, andaria lá com esses namoros que dizes?...
O marido surriu-se, e, por entre os beiços velhacamente franzidos, murmurou:
—Namorar não é casar... Vocês são mulheres, e não sabem nada do mundo... Eu cá me entendo... O rapaz, já lhe disse, é como os outros do seu tempo. As raparigas desafiam-n’o; elle que lhe ha de fazer?
—É não lhe dar trela!—respondeu pressurosa a senhora D. Thomazia.
—Valha-te Deus, mulher!—redarguiu o esposo, editando segunda vez o surriso sôrna e justificativo de que o homem não resalvára a sua innocencia da peste contemporanea—valha-te Deus! Um homem é um homem. A culpa não n’a tem elles; são ellas. Eu cá me entendo... Se o rapaz fosse creado com as leis e costumes de ha quarenta annos, os namoros custavam-lhe um par de trochadas boas; mas hoje em dia não ha rei nem roque logo que elles asneam. O mais prudente é um pae leval-os ás boas; se não, quando um homem mal se percata, está-lhe em casa o juiz e o escrivão com um requerimento lá de uma trocatintas que lhe tira o filho de casa e o leva para a sua. Isso está-se vendo, e medo não me falta a mim; por isso me tenho posto á espreita, e não faço bulha, que não vá o rapaz atirar dois couces ao apparelho, e por aqui me sirvo. Só aqui ha dias lhe disse: «Innocencio, tem-me lume n’esse olho: não faças cavallada. Olha que as moças que te fazem festas, o que querem é o teu dinheiro; mas vão erradas; que eu o que tenho, posso perdel-o; nemja que um filho m’o leve para onde eu não quero que vá o suor de teus avós, entendes, Innocencio?»
—E vae elle que disse?—interrompeu com alvoroço a senhora D. Thomazia.
—Nem uma nem duas; sentou-se ali áquella mesa e esteve a riscar com a penna sobre o papel uns narizes que ainda lá hão de estar. Aqui teem vocês o que sepassou. Agora estou resolvido a dizer-lhe que é minha vontade que elle se case com Thomazia. Se sim, bem estamos; se disser que não... veremos.
—Se elle disser que não,—obviou a esposa bem aconselhada pelas advertencias do mano Luiz—acabou-se; á força não quero casamentos.
Discutiram detidamente os dois conjuges e vieram afinal em que, por suaves modos, se consultasse a vontade do moço.
A vontade da orfã não foi discutida. Discutir o coração da pobre... para quê?!