CAPITULO III
Argumento
Discorre o author ácerca das reticencias com singular originalidade. De como as duas creaturas não se amavam. Thomazia e pilhada a escrevinhar e ingrampa o velho. Intenta elle debalde convencer o filho, chamando-lhe pedaço de asno, como se não fosse plus quam-perfeito. O que Gervasio José entende por amoricos de caquerácá, e outras coisas que do capitulo melhor se verão.
Discorre o author ácerca das reticencias com singular originalidade. De como as duas creaturas não se amavam. Thomazia e pilhada a escrevinhar e ingrampa o velho. Intenta elle debalde convencer o filho, chamando-lhe pedaço de asno, como se não fosse plus quam-perfeito. O que Gervasio José entende por amoricos de caquerácá, e outras coisas que do capitulo melhor se verão.
Não se amavam.
Que grande milagre não se amarem!... O uso de se verem duas pessoas entre-amadas gasta-lhes o amor. O uso de se verem as que muito se estimaram, não lh’o deixa nascer. O imprevisto, a surpresa, o dominio incerto e disputado, isto sim, é céo ou inferno, onde o amor rejubila como anjo, ou se estorce em fogo de reprobo.
Não se amavam: é onde bate o ponto.
Innocencio respondeu, rodeando rethoricamente o assumpto, que era amigo de Thomazia; mas que...
E ficou-se.
A menina, recebida a noticia que a madrinha lhe deu, disse que a sua vontade era a dos seus bemfeitores; mas que...
E nada mais.
Adiante das reticencias ponha o leitor uma coisa insignificante chamada «coração». As reticencias podiam dar a misteriosa origem de bastas agonias. Onde ninguem vê nada, estão ladeiras de muitos abismos. Ha ahi muita gente transviada na vereda que leva ao deserto sem horisontes—deserto, onde não enfolha arvore com sombra, nem borbulha fonte que reviva peitos sedentos de vida. Na historia d’essas almas que já aqui levam o letreiro fatal do poeta florentino—almas sem esperança, e, por tanto, sem amor, sem alegria, sem fé, sem Deus—na perdição d’essas, ha um quê indescriptivel, origem fatidicamente inescrutavel. Seria uma palavra? um acto de irreflexão cega? destino? impulso irresistivel da bossa? Não. Foi uma frase cortada, uma expansão sincera afogada pelo pejo, pelo respeito, pelo terror. Foram as reticencias.
Gervasio, posto que transigisse com a insanavel gangrena da geração nova, não abdicava da rigidez de sua authoridade paterna. Avisado domas... de seu filho, saltou logo furioso a filar a peior das conjecturas, imaginando-o em arranjos de se fazer raptar judicialmente por alguma das seis oppositoras ao rapaz.
Assombrou a cara de ameaças, accendeu os olhos de coriscos, fez dos narizes respiradouro de cólera fumegante, e, esbarrando com o filho n’um corredor, expediu do peito estes gritos:
—Estás enganado, marióla! Casar, casarás tu; mas dinheiro meu não vês uma dex. Arranja mulher quete dê de comer e vestir e casa; que eu... não sou de uns certos paes que mudam de genio quando os filhos desobedientes lhes levam os netos...
—Mas, meu pae—atalhou Innocencio—eu não o entendo... Quem lhe disse que eu...?
—Lérias, meu amigo! não me conte lonas! Você que respondeu a seus tios a respeito de Thomazia? Venha cá... entre aqui dentro n’este quarto da tia Sebastiana, que não quero que a pequena nos escute...
E, dizendo, tirou pelo filho para o quarto de sua irmã, que tinha saido com a outra para o Lausperenne das Almas de Santa Catharina.
No lanço, porém, de empurrar a porta, soou dentro do quarto um ai espavorido.
Era Thomazia.
—Que é isso?!—perguntou Gervasio.—Que medo tiveste, rapariga?!
—Eu estava aqui...—tartamudou a orfã, encostando-se a uma commoda, sobre a qual estava uma folha de papel e o tinteiro da sua escripta.
—Estavas a fazer o teu traslado?
—Estava... a escrevinhar...—tartamudou a candida assucena acerejando-se lindamente.
—Deixa lá vêr como estás adiantada...
—Ora...—tornou ella, oppondo uma atrapalhada resistencia ao velho, que foi direito ao papel.
Innocencio desconfiaria dos inoffensivos exercicios caligraphicos da sua discipula? Parece que sim; por que, adeantando-se á moderada curiosidade do pae, estendeuo braço e subtraiu o papel por entre os dois.
Thomazia ia começar um desmaio, quando a innocencia reagiu ao insulto nervoso, recobrando-lhe a alma para sair-se bem do apêrto.
Innocencio leu alto, alternando os olhos entre ella e o pae.
Meu caro amor do meu coração, e unico bem da minha paixão...
—Ai!—exclamou o risonho velho.—A menina faz versos? ou isso não é da tua cabeça?...
Thomazia respondeu com um tregeito de modestia acompanhado de tosse de pigarro; tudo, porém, lhe realçava a graça do semblante.
O moço continuou, lendo:
Não tenho palavras com que possa explicar-vos...
E estacou. É que não continha mais a carta.
Innocencio atirou o papel ao chão, entortou os beiços com dois sorrisos sarcasticos, e murmurou:
—O pae não sabe o que é isto?... Não sabe?
—Não: pois que é isso? respondeu Gervasio.
—É uma carta de namoro.
—Que é?—bradou o velho. Tu escrevias esta carta a alguem, Thomazia?!
A menina sorriu-se e disse com imperturbavel candura:
—Escrevia, sim, senhor; mas não a mandava... Eu bem sei que me não ama a pessoa a quem eu escrevia...
—Querem vocês vêr...—atalhou Gervasio com ocarão allumiado de dois raios de esperteza e alegria interior—querem vocês vêr... Tu ainda não percebeste, Innocencio?
—Eu, não, senhor.
—Pois não percebeste, pedaço d’asno?... A carta era para... Diz tu, menina... Para quem era a carta?...
Thomazia olhou carinhosa para o padrinho, e balbuciou muito dengosa:
—Elle bem sabe... mas... não lhe faz conta dizer.
—Entendeste agora, rapaz?—bradou o velho victorioso e inchado de sua soberba.
—Ora, meu pae...—replicou o incredulo fazendo um momo plebeu como a frase—eu não engulo maranhões... Esta carta não era para mim...
—Pois p’ra quem havia de ser, bruto?—retorquiu o pae, batendo palmas na cabeça.
A orfã, apparentando doloroso constrangimento, pediu ao padrinho liçença para sair do quarto.
—Vae, afilhada, que eu bem sei que és uma boa menina—condescendeu o velho.—Pena é que este rapaz não tenha o coração de teu padrinho...
Thomazia saiu de rosto abatido e braços pendentes.
—Ó alma de cantaro!—apostrophou Gervasio—pois tu acharás debaixo da rosa do sol rapariga mais galante e que mais te encha as medidas?!
—Esta carta não era para mim...—tornou Innocencio, relendo a parte poetica, no dizer do velho, e a oração incompleta que parecia ser prosa.—Não tenho palavras com que possa explicar-vos—leu elle.—Pois ellaque me queria explicar?! Sim; que me queria explicar ella a mim?
—Queres que eu te responda, menino?... Espera, que eu já volto.
Saiu Gervasio, tirando-lhe da mão o papel. Foi entender-se com a afilhada, deteve-se alguns segundos, e tornou:
—Eu te desengano já, pateta. Thomazia estava para pôr adeante d’isto que aqui está... Que diz? Deixa-me lêr:Não tenho palavras com que possa explicar-vos...ahi vae o resto:a satisfação que recebi quando vossa mãe me disse que nos queria ligar pelos sagrados laços do...não me lembra do que ella disse... é uma coisa muito fallada nas comedias...sagrados laços do... laços do...
—Do himeneu?—acudiu-lhe o rapaz.
—É isso... É o que ella queria escrever, por que diz que se acovardava de t’o dizer de cara a cara. Percebes, homem? Que estás ahi malucando? A apostar que tens alma de não amar este serafim!! Esta creaturinha tão linda que foi creada comtigo! Rapaz! olha bem para mim! Ouve lá, que isto é a valer. Se a não quizeres para tua companheira, quero-a eu para minha filha. Percebes tu? Para ella ter que comer á farta não precisa de casar comtigo. Olha se me entendes, Innocencio. O pae d’ella sou eu. Tu anda lá por onde quizeres, que eu... cá estou. O filho podem levar-m’o; o dinheiro não... Cuidas que eu não sei a tua vida? (aqui Gervasio espirrou um riso de maganão). Tenho-me calado,por que pensava que lá essas tuas raparigas eram amoricos de cáquerácá. A coisa é seria pelo modo... Deixas a minha afilhada lá por alguma farropilha que te botou o anzol? Bem asno és... Tu cá virás com a cella na barriga... Lá t’avém. Boas noites.