CAPITULO IV
Argumento
Desengano aos fariscadores de escandalos. Como póde o engenho fazer o milagre de conservar personagens honestos até ao 4.º capitulo inclusivé. De como no Porto de ha vinte annos houve homens endiabrados com senhoras, e outras coisas tristes. Por que dizem que a esperança é verde. Entra na historia a senhora Custodia da Porciuncula, e as santas manhas d’ella, que foi amada de um boticario poeta. Vê-se que a menina gostava do enviado de S. Gonçalo de Amarante, mas não lhe entende o estilo. Explica a senhora Custodia o que é o rolo a suspirar pela rola, servindo-se do texto do boticario, que por signal se chamava Gregorio. Dizem-se outras coisas que tocam o coração.
Desengano aos fariscadores de escandalos. Como póde o engenho fazer o milagre de conservar personagens honestos até ao 4.º capitulo inclusivé. De como no Porto de ha vinte annos houve homens endiabrados com senhoras, e outras coisas tristes. Por que dizem que a esperança é verde. Entra na historia a senhora Custodia da Porciuncula, e as santas manhas d’ella, que foi amada de um boticario poeta. Vê-se que a menina gostava do enviado de S. Gonçalo de Amarante, mas não lhe entende o estilo. Explica a senhora Custodia o que é o rolo a suspirar pela rola, servindo-se do texto do boticario, que por signal se chamava Gregorio. Dizem-se outras coisas que tocam o coração.
Não se alegrem os pessimistas, os corvos que crocitam onde ha sómente podridão. Cuidam que teem escandalo já no capitulo 4.º? Vem mal parados cá para os personagens das minhas novellas, os quaes só começam a derrancar-se do 5.º capitulo por deante.
Aquella cartinha de Thomazia era casta como os coloquios amorosos das virgens com as estrellas, segundo poetas dizem que ellas se palram a horas improprias e suspeitas. Eu de mim declaro que ainda não surpreendi palestras d’essa especie: o que eu tenho visto é virgens,mais authenticas que as onze mil da legenda, conversando, pelo alto silencio da noite, não já com estrellas, mas com uns corpos opacos, a espaços luminosos por effeito da luz de algum fosforo.
E Thomazia não fazia isto nem aquillo; não conhecia estrella nenhuma, nem dava azeite nos gonzos da janella para a deshoras chover sobre o objecto amado o maná dos favos do coração.
A carta seria coisa, por pequenissima, mal-cabida nas grandiosas proporções d’esta historia, se eu não tivesse avesado o leitor a saber as miudezas de tudo. Vejam se tanta candura merecia a pena de duas ou trez paginas em 8.º!
Foi assim: Aquelle sujeito, que passou galhardamente, no seu estrepitoso fouveiro, Cangostas acima, quando a familia Barros estava congregada no escriptorio, era um moço bem apessoado, enlevo de olhos incautos, e D. João Tenorio quanto cabia nas forças seductoras de um portuense de 1843. Havi-os então de bico revôlto, fataes, menos scientificos que Fausto, e com mais quatro diabos no corpo que o outro. Que devastadores de corações em flôr e do mais!
Se é certo tudo o que se conta dos peraltas portuenses de ha quarenta annos até á regeneração da moral, que data ahi de 1850 para cá, somos todos pouco mais ou menos filhos d’elles, embora nos assignemos com os appellidos dos maridos de nossas mães. Isto, se é verdade, bem que não leze as leis da procreação, é deshonesto e digno de esquecimento. Esqueça-se. Viva tantoesta lembrança como ha de viver o livro que leva a denuncia.
Pois o cavalleiro, freguez do Reimão, e consumidor do linguado frito das hortas do Barros Lima, era um d’aquelles açoites que traziam espavoridos no Porto os anjos do pudor, custodios das mulheres respectivas.
Cuidava eu que elle não tinha lobrigado Thomazia a espreital-o pela fisga das duas portadas. Viu-a e dardejou-lhe dos olhos fulminantes uma flecha ervada no succo da sardonica erva que faz rir o coração. Sabem o que é rir o coração? Esta pergunta não a faço aos desgraçados nem aos velhos meus contemporaneos. É ás loiras almas dos dezesete annos de Thomazia. Loiras?! por que não? Quem quizer materialisar o ideal da suprema graça ha de enlourecel-o, assemelhal-o á suprema graça real. Pois o ouro que é senão louro? Porque chamaram verde á esperança, se porverdenão quizeram figurar poetas opastocommum das almas, os ervaçaes onde ellas se vão em sasão propria renovar sangue e pellagem? Loura é que se pinta a esperança aos olhos dos que ainda resistem á espessura de umas trevas negras e frias como a leiva interior das sepulturas. Aos cegos para côres da felicidade não pergunto eu, pois, se sabem o que seja rir o coração.
Thomazia não me responderia nem poetica nem grammaticalmente; e por isso mesmo, se respondesse, não seria mais intelligivel nem correcta que um d’estes bardos tirados pela fieira allemã; sublime, porém, devia sêl-o; ou então o movimento que ella fez, levando amão ao lado esquerdo do seio, era dôr de estagnação de fluido, ou, mais sobre o claro, encalhe de sangue.
Pois não disse nada a ninguem, nem á ama que a creou, nem á velha que já tinha sido serva de seus avós.
Ora, esta velha tinha ganhado tão pela raiz a estimação das novas amas, perfumando a casa do rosmaninho da sua virtude, que era já tambem da familia. Andava por egrejas desde que alvorecia a manhã até ás dez, em jejum, com os bolços atacados de biscoitos de Valongo, importunando a côrte celestial com deprecações pela felicidade de seus amos, asseverava ella. Entre egreja e egreja mascava alguns biscoitos de envolta com doispadres-nossos, e, n’algum recanto de pateo, desentupia-se, emborcando uma cabacinha de tão generoso vinho, que S. Jeronimo, se lh’a vasassem á força nas mirradas goelas, daria com a caveira na cara de quem lhe impedisse o caminho de Roma. Ao fim da quarta missa, a tia Custodia sentia-se morrer de fraca, e ia para casa, em jejum. Algumas vezes contava as suas visões. Se as ella não teria!... Que visões não dá uma cabacinha enxuta!
Convém saber que a senhora Custodia não gostava de Innocencio. Tal desaffeição ou embirra vinha de longe e até certo ponto justificada. O rapaz, creado com mimo de filho unico, era endiabrado aos sete annos. As tias defendiam-n’o quando a mãe o ameaçava; o pae defendia-o das iras das tias; a mãe escondia-o no regaço quando o pae com fingida colera o procuravaonde sabia que o não encontraria. De sorte, que o traquinas zombava de todos, e nomeadamente de Custodia, victima obrigada e por excellencia da tirannia do rapaz.
Se a velha se estava remendando, com o dorso curvo e o nariz espremido e entalado nas cangalhas, Innocencio pinchava-lhe ás cavalleiras, dando-lhe de calcanhares nas ilhargas, onde ella se queixava de uma «obstrucção» de cada lado. Outras vezes, fazia-lhe por detraz pontaria ás cangalhas com a bengala do pae, e de subito lh’as fazia saltar, repuxando-lhe dolorosamente os refêgos do nariz. Custodia engulia as pragas que lhe vinham da arca do peito, visto que a mãe e tias do menino riam da brincadeira; todavia, a raiva repremida converteu-se em peçonha de odio, que o tempo não pôde inteiramente esvurmar do coração da velha.
O que ella podia ter feito era resgatar-se do verdugo, deixando a casa; mas impediam-n’a muitas razões de força, entre as quaes realçavam o affecto que ella tinha á menina, de cuja mãe fôra já ama; depois o pedido que lhe fizera o capitão Alves de se não apartar de sua filha emquanto os bemfeitores lhe dessem uma tigela de caldo; finalmente, a liberdade de ir ás suas missas, e grangear a salvação da sua alma, sem faltar aos reparos e reboques do corpo com a argamassa dos biscoitos ensopados nos haustos sorvidos da cabacinha, com que a fantasia se lhe etherisava misticamente até aos tactos substanciaes infusos. E, depois, como adicção a tantos impedimentos, a meza de Gervasio era abundantissima,vinho a granel, cama bem enroupada, afóra estipendio superior aos serviços da velha, que todos se cifravam em grangear a gloria eterna de seus amos e responsar a boa saída de todos os negocios da casa.
Isto não obstante, congraçar-se com Innocencio é que não pôde mais a retrincada Custodia. Lanço de fallar mal d’elle a Thomazinha não o perdia; e, desde que as tias do pequeno lhe segredaram que talvez os dois meninos viessem a ser esposos, a velha entrou a scismar e a fazer trezenas a varios santos para que a filha de sua ama tivesse melhor fado que ser mulher de tão mal-creado tunante. Assim que Thomazinha teve idade e entendimento do que era matrimonio, a velha foi-lhe insinuando a noticia do que tinha percebido, sem todavia a desviar de querer Innocencio para marido, caso lhe não deparassem os santos da sua particular devoção outro noivo com riqueza e melhor genio que o filho de Gervasio. A menina escutava a sua criada complacentemente e denotava nenhum empenho em passar de pobre a rica, e de orfã beneficiada a filha e herdeira dos Barros das Cangostas. Póde ser que o muito amartellar-lhe da velha contra a malvadez de Innocencio, e por sobre isto uma certa aversão á dependencia, pesada sempre nas condições ingratas, predispozessem a moça ao desagrado que avultou em antipathia chegado aos quinze annos o coração.
Andava inquieta e mais fervorosa em advogar perante os seus santos a desconveniencia de tal casamento a senhora Custodia da Porciuncula, na occasião em queGervasio deliberára realisal-o, receoso dos filtros que lhe traziam o filho ebrio de amorios de má casta e peores consequencias.
Nas egrejas é que a solicita velha gastava as manhãs expondo mentalmente aos seus advogados que Innocencio era um bandalho, indigno de Thomazia; e que a filha de sua defunta ama, se elles santos quizessem, poderia arranjar marido mais capaz, e tão rico como o outro.
A confiança que a beata Custodia punha em suas rogativas era tão segura, que já de antemão a fé lhe dava a certeza de que, finda a trezena a S. Gonçalo da Sé, lhe havia de apparecer signal de ter sido ouvida.
Ao decimo quarto dia, concluida a devoção dos treze decorridos sem novidade, saía Custodia da Sé, e ao descer do Arco da Senhora de Vandoma para a Rua Chã, chegou-se d’ella um bem assombrado e galhardo moço que lhe disse:
—Muito bons dias, senhora Custodia.
—Deus lhe dê os mesmos. Quem é vossa senhoria?—cortejou e perguntou a velha, alvoroçada com o rebate de ser chegado o enviado de S. Gonçalo, seu procurador de causas matrimoniaes em ultima estancia.
—Sou, disse elle, um rapaz que muito ama a senhora D. Thomazinha, e venho confiar de vocemecê este segredo, pedindo-lhe que não duvide fazer os serviços que puder á felicidade da menina a quem adoro.
—Vossa senhoria sentiu alguma coisa no coração para vir ter-se comigo?—perguntou a risonha Custodia,querendo verificar se de feito o gentil moço fôra tocado por S. Gonçalo d’Amarante.
—Senti, sim...—confirmou elle, bem que respondesse a uma idéa que não era a intencional da pergunta.
—Sentiu coisa no seu interior?—tornou ella.
—Uma paixão ardente pela menina que me não deixa dormir nem comer.
—Desde quando foi isso? lembra-se?...
—Desde que a vi no Reimão, e depois que a tornei a ver no theatro...
—Mas aqui ha coisa de duas semanas que tem vossa senhoria sentido lá dentro do seu coração?
O rapaz não achou bem escorreito o inquerito e quedou-se a olhar muito a fito nos olhos inquietos da velha, e a repetir:
—Aqui ha coisa de duas semanas?...
—Sim... pergunto eu se foi ha duas semanas que vossa senhoria formou tenção de casar com a minha menina?
—Se formei tenção...?—titubeou elle.
—Pois então?—volveu Custodia desconfiada do ar perplexo do casquilho.—Vossa senhoria o que quer, não é casar com a senhora D. Thomazinha?!
—Com toda a certeza...—acudiu o taful vergastando a perna direita com o chicotinho, e ferrando os dentes n’um sorriso de motejo.
—Está bom; mas queria eu saber cá por certas razões se vossa senhoria essa vontade que tem de casarcom a menina lhe veio ha coisa de treze dias para cá.
—Sim, eu... ha muito que gósto da senhora D. Thomazinha; mas... a tenção de casar... é como vocemecê diz... foi... ha quantos dias?
—Ha treze para cá.
—Justamente: ha treze para cá...
—Então posso ir agradecer ao meu S. Gonçalo...—acudiu com enthusiastico fervor a velha.—E como é a sua graça de vossa senhoria?
Proferiu o moço um nome com dois appellidos que n’aquelle tempo significavam uma familia das mais enriquecidas no commercio. Custodia esbugalhou os olhos inchados da alegria que lhe sobejava do riso, e exclamou:
—Que bonito noivo vae ter a filha da minha ama!... Não caibo na pelle!... Vossa senhoria, ainda que eu seja confiada, ha de ser tão rico ou mais que o Innocencio do senhor Gervasio das Cangostas...
—Não sei; mas por que me faz essa pergunta?
—Cá me entendo.
—Tambem eu a entendo, senhora... senhora...
—Custodia da Porciuncula, sua criada por muitos annos e bons.
—Vem a dizer a senhora Custodia que o filho do Gervasio quer casar com a senhora D. Thomazia...
—É o pae, pelos modos, que trabalha para amanhar isso; mas a pequena não assigna, é por’ora...; e, se Deus quizer, o marido d’ella ha de ser vossa senhoria, ou S. Gonçalo não tem poder nenhum...—disse Custodiacom a pia intenção de estimular o capricho do santo empenhado.
—Pois bem—replicou o interlocutor, anediando a rosca da luzente e calamistrada cabelleira que lhe assentava nas espaduas.—Faz-me vocemecê o favor de entregar uma carta á menina?
—Pois isso nem dado nem de graça; lá fallar-lhe, isso, não lh’o posso arranjar; mas escrever-lhe, não ha remedio, p’ra se entenderem; e eu aqui estou p’ra levar a carta.
—Aqui a tem—disse o «elegante». (Alcunhavam-se n’aquelle tempo deelegantesos sujeitos ferozes de que saíram depois mais parvuos e derrancados os modernosjanotas.)
—Pois já a trazia feita?!—clamou a senhora Custodia com a sincera exultação de quem via em tudo S. Gonçalo e se via a si com a efficacia de suas recommendações.
E ao tempo que recebia a carta sentiu uma substancia mais fresca e solida do que o papel em contacto com os seus dedos.
—Isto que é?—perguntou ella, sem pôr os olhos sobre o objecto estranho.
—Faça-me o favor de receber estas tres mexicanas para rapé—disse urbanamente o moço.
—Nemja eu... não, senhor... queira servir-se de me perdoar; mas eu não ando n’isto por interesse... Tome lá, que eu não pego n’este dinheiro...
—Então, faz-me essa desfeita, senhora Custodia?!—redarguiu elle.
—Tenha paciencia...—insistiu a briosa velha. Não sou da casta de muitas criadas que eu cá sei. Isto que faço... sabe por que o faço? sabe por que eu levo a carta á menina?... É por que m’o manda quem póde... vem do céo este destino... o que eu quero é vêl-a feliz á filha da senhora que eu criei aos meus peitos, e heide olhar pela sorte d’ella em quanto viver. O que eu queria era ir d’este mundo depois de a deixar bem casada, para poder dizer lá no céo á mãesinha d’ella: «a sua filha lá ficou feliz a resar por nós ambas».
Custodia estava enxugando os olhos, em quanto o elegante chicotava a ponta da bota de verniz, e remirava a costura da pantalona até á polaina com o desvanecimento de lhe ajustar a primor o talhe.
Ditas algumas poucas palavras de despedida e convenção de se entreverem volvidos dois dias, separaram-se.
A velha ainda foi á Sé agradecer a S. Gonçalo com effusão de alma convencida do milagre. Depois, em casa, apropositado o ensejo, segredou a Thomazia os successos decorridos, e concluiu entregando-lhe a carta do sujeito que havia de passar na rua ás quatro da tarde.
Thomazia inferiu logo quem lhe escrevia, segundo os signaes que deu Custodia. Devia de ser o cavalleiro costumado na rua.
—Elle tem melenas pretas e um bigodinho retorcido?—perguntava Thomazia com alvoroço.
—Tem, sim, menina.
—E a modo de trigueiro, a olhar assim por debaixo do chapéo?
—É isso, é isso mesmo.
—E muito fino da cintura, com a mão pequenina?
—Tal e qual. Que lhe parece, minha filha? Gosta d’elle?
—Sim... eu...
—Pois ahi tem o que hade ser seu marido.
—Ora!... Quem sabe?...
—Quem sabe!—respondeu severamente Custodia, pondo um braço ao alto, e um dedo apontado.—Quem sabe?! O meu S. Gonçalo d’Amarante é que sabe, e, por intercessão do glorioso santo, Deus é que o quer.
Thomazia abriu a carta. A lettra era ingleza, garrafal e elegante de hastes, enquadrada em cercadura de flores que enramavam frecheiros Cupidos. Custodia cavalgou os oculos para se pasmar de um coração ferido em ninho de folhagem, sobre a qual duas calhandras ou passarinhos parecidos, asseteados tambem do amor, davam mostras de se estarem beijando com os amorosos bicos.
—Vejam vocês! que graça teem estes bonecos!—dizia a senhora Custodia, jogando com a cabeça e oculos para apanhar em cheio o raio visual.—E este menino tão gordo!—proseguiu ella pondo o dedo arroixado de um unheiro sobre a cara jubilosa de Cupido.—Isto não póde ser o menino Jesus, por que tem aqui uma cestinha á bandoleira. Será São Joãosinho?
—Nada, não é—corrigiu a menina.—Isto é o Amor.
—O amor?!—interrogou com absorta ignorancia a senhora Custodia da Porciuncula.—Este rapazinho assim era pêllo é o amor?...
—Foi o Innocencio que me ensinou a conhecer o retrato de Cupido. Chama-se Cupido tambem.
—Ah! isso póde ser; que eu, quando era moça, bem me lembra de ouvir cantar o boticario da minha terra umas modinhas á guitarra, onde dizia lá o verso:
Maldito seja o cupidoQue cravou no peito meuA setra que não penetra,Marilia no peito teu.
Maldito seja o cupidoQue cravou no peito meuA setra que não penetra,Marilia no peito teu.
Maldito seja o cupidoQue cravou no peito meuA setra que não penetra,Marilia no peito teu.
Maldito seja o cupido
Que cravou no peito meu
A setra que não penetra,
Marilia no peito teu.
—Já hoje se não cantam d’estas modinhas!—continuou em tom de lastima a velha, tirando os oculos.—Agora o que se ouve por ahi é umas senhoras a dar uns guinchos que parece que estão com as dôres de parto. Pelos modos cantam á moda italiana...
—Vamos agora ver a carta?—atalhou Thomazia.
—Vá lá.
Começou a menina deletreando correntiamente o fraseado. A velha abria os olhos á proporção da bocca, por onde ella dava signaes de querer engulir a indigesta intelligencia das expressões. Thomazia ia lendo monotonamente e ladeando a vista d’uma linha para a outra á espera de topar palavra em que tomasse o fôlego e sentisse a satisfação de entender a idéa do namorado estilista. Chegou a anhelada passagem. A seguinte frase ajustou-se-lhe ao entendimento esclarecido pelo coração:«Suspiro por vós como o rôlo que geme na arvore solitaria pela rolinha amada.»
—Ai!—suspirou Thomazia.—Vês o que elle diz, Custodia?
—Elle que diz?—perguntou a velha.—Má mez p’ra mim, se eu entendi pataca! Ha uns modos de dizer á moderna que parece latim! E a menina já sabe isso que ahi diz o que é que diz?
—Algumas palavras não as entendo; mas outras sim. Pois tu não entendes isto? Diz elle que suspira por mim...
—Sim, isso entendi eu; mas...
—Que suspira por mim como o rôlo...
—O rôlo?!
—Sim; o rôlo que geme pela rolinha...
—Ah! já, já, já!—exclamou a velha, batendo palmadas nas cabeças perfurantes dos joelhos.—O boticario tambem cantava esse verso á guitarra. Deixe-me vêr se me alembra... ha de alembrar...
O rôlo quer a rolinhaE a gemer chama por ella;O pombo quer a pombinha;Só tu me despresas, bella!
O rôlo quer a rolinhaE a gemer chama por ella;O pombo quer a pombinha;Só tu me despresas, bella!
O rôlo quer a rolinhaE a gemer chama por ella;O pombo quer a pombinha;Só tu me despresas, bella!
O rôlo quer a rolinha
E a gemer chama por ella;
O pombo quer a pombinha;
Só tu me despresas, bella!
—E depois dizia—proseguiu a senhora Custodia com juvenil enthusiasmo:
Invejo a sorte do rôlo,E do pombo a sorte invejo;Santas leis da natureza,Não falteis ao meu desejo.
Invejo a sorte do rôlo,E do pombo a sorte invejo;Santas leis da natureza,Não falteis ao meu desejo.
Invejo a sorte do rôlo,E do pombo a sorte invejo;Santas leis da natureza,Não falteis ao meu desejo.
Invejo a sorte do rôlo,
E do pombo a sorte invejo;
Santas leis da natureza,
Não falteis ao meu desejo.
—Ai! que tempo! que tempo!... Tivesse eu cabeça, que bem podia a esta hora ser a dona da botica!... Morria por mim o pobre do Gregorio... Sim, o Gregorio—disse ella baixando o tom da voz á feição de nota explicativa entre-parenthesis—o Gregorio era o boticario, que me botava estes versos e muitos que me hão de lembrar!... Fui tôla... na cabeça me deu... Ai! homens, homens!
Uma lagrima borbulhando no canto interno do olho direito de Custodia da Porciuncula attesta que, n’aquelle momento, se desdobram scenas tristes deante de sua alma. Respeitemos a secreta angustia que ainda póde espremer-lhe uma lagrima do coração mirradinho. Um lance desgraçado de sua vida nos basta para conjecturar que passava por ella o suão infernal de um amor desditoso. Aquella mulher, quarenta e dois annos antes, acceítára a creação de um filho estranho, tendo atirado o seu á roda dos expostos. Quantas agonias de arrependimento e saudade n’aquella lagrima!
—Vamos lá... leia o mais, menina—disse ella com vehemencia limpando os olhos, e sacudindo os braços como se quizesse afugentar as imagens mortificativas.
D. Thomazia foi lendo até final, sem encontrar frase que lhe lisongeasse a percepção. A linguagem era cada vez mais repolhuda, e entremeada de vocabulos exdruxulos e de tal compridez, que a menina partia-os a meio para arejar os bofes. Confessou ella ingenuamente que não tinha estudos para entender os dizeres do sujeito;sem embargo, o coração interpretou aquelles adoraveis enigmas.
—O que elle diz é que me ama; isso lá, diz!—asseverou Thomazia.
—E que quer casar com a menina? vem isso lá?—perguntou atiladamente Custodia.—Sim; é preciso saber-se se diz que a ama para o bom fim.
—Pois não ouviste que elle escreve...
—O quê? que escreve?
—Que suspira pela rolinha amada...—observou Thomazia relendo o trecho predilecto.
—Mas isso que diz da rolinha não é cá o que eu quero saber. Deixemo-nos de rolinhas. Falla ahi em casar? Eu não ouvi...
—Casar? sim... eu,casar, não achei cá.
—Pois então, menina—decidiu severamente a velha—se não achou, não responda sem que elle diga pelo claro o que quer. Que eu—modificou a senhora Custodia—estou certa de que o mancebo quer casar; mas, pelo sim, pelo não, quero tudo em pratos limpos. Ora com isso de rôlos e rolinhas não temos feito nada. Eu já não sou d’hoje nem d’hontem. O mundo está cada vez mais diabo, Deus me perdôe. Os meliantes já não eram poucos no meu tempo... que fará agora, que a religião está na espinha! Emfim, depois de ámanhã hei de ir onde a elle, e bem sei o que lhe hei de dizer.
Parecia querer a menina advogar o texto sibillino da carta, allegando que a sua falta de sabedoria a não deixava entender os pontos onde a pessoa lhe propunha ocasamento. Correu d’olhos outra vez a carta a vêr se, pelo menos, encontrava a palavrahimeneu, erudição que a pratica das comedias lhe havia ministrado, e depois lhe serviu, como se disse, na mentira a Gervasio. O que prova, ao mesmo tempo, que a erudição é boa e má.
Himeneuera vocabulo de que os estilistas de 1844 já se não serviam. Não estava na carta esta velharia tão necessaria a Thomazia, n’um lanço em que o seu espirito podia confundir a ignorancia e ruim suspeita de Custodia. Ficou triste a moça; mas não duvidosa das intenções honestas do seu amador, mormente, se, consoante a fé vacillante da velha, lh’o tinha suggerido S. Gonçalo—intervenção em que a menina não punha a maior confiança.
Como quer que fosse, Custodia, passados dois dias, foi em cata do programmatico noivo, e disse-lhe que fizesse outra carta que se entendesse, e pozesse claro o sentido do namoro.
O elegante não se riu interiormente da ignorancia da Thomazia, porque, bem averiguado o caso, não era redacção d’elle a carta, nem elle, dizendo verdade, se tinha avantajado á innocente da rua das Cangostas em percebel-a. O interprete de seu coração tinha sido um poeta, prosador biblico, precursor temporão d’estes teutonicos de hoje em dia, cujo progresso os distancía tanto do lirismo de 1844, que já os espalhafatos d’aquelle tempo nos parecem agora comparativamente chãos como a carta d’amores de uma costureira.
O rico mancebo que encommendava os rascunhosaos seus amanuenses, sem lhes graduar o calibre intellectual das mulheres, e, pelo commum, se não déra mal com o genero farfalhudo, pediu copia sem pautar o espirito da pessoa, trasladou-a com esmerada caligraphia, convicto de que os corações amados desnecessitam entender a rethorica dos corações amantes. Advertido agora pela honesta alcaiote d’estes amores mal estreados por causa do luxo da lingua (quepara tudo serve e presta, como diz Rodrigues Lobo, e até para tolos é dadivosa) foi o joven logo d’ali escrever outra carta com o estilo de casa, bom, espalmado, optimo para o effeito de que o entendessem.
Á leitura da segunda carta, Custodia batia as palmas e exclamava, abafando o esganiçado enthusiasmo:
—Agora, agora! Isso percebo eu, menina!
Thomazia tambem percebia tudo, tirante as sandices que podiam ser sómente inventariadas por pessoas de espirito culto. No mais, não faltava á declaração um ar de sincera estupidez, solapando o bestial intento de seduzir a moça.
Agora fica já conhecido o sujeito a quem a menina das Cangostas estava respondendo.