CAPITULO V
Argumento
Innocencio espreita e apanha a menina. Diz-se o que era o babeiro do amor. Cacareja elle uma risada sinistra. Como o cavallo do elegante collaborou no amor subitamente accendido no peito de Innocencio. Terrores de Thomazia. Custodia dá-lhe espirito, promettendo tolher a lingua do joven. Quem era João José da Costa Guimarães. Como ella alimpou os olhos enxutos e logrou segunda vez Gervasio. Intervem Custodia no lance solemne de se estar Innocencio roendo as unhas sem acabar de resolver-se a casar. Cita um apophtegma do boticario. É mal recebida a authoridade metrica no auditorio. Recolhe-se Gervasio e mais o filho a um armazem de geropiga, onde lhe diz o que melhor se verá adiante. Como um homem precisa ser mais entendido que o burro de Buridan.
Innocencio espreita e apanha a menina. Diz-se o que era o babeiro do amor. Cacareja elle uma risada sinistra. Como o cavallo do elegante collaborou no amor subitamente accendido no peito de Innocencio. Terrores de Thomazia. Custodia dá-lhe espirito, promettendo tolher a lingua do joven. Quem era João José da Costa Guimarães. Como ella alimpou os olhos enxutos e logrou segunda vez Gervasio. Intervem Custodia no lance solemne de se estar Innocencio roendo as unhas sem acabar de resolver-se a casar. Cita um apophtegma do boticario. É mal recebida a authoridade metrica no auditorio. Recolhe-se Gervasio e mais o filho a um armazem de geropiga, onde lhe diz o que melhor se verá adiante. Como um homem precisa ser mais entendido que o burro de Buridan.
Innocencio não enguliu, como elle dizia, o maranhão: riu-se da boa fé paternal e espantou-se da astucia da rapariga.
Por volta das quatro horas da tarde, estava elle, á porta da rua, fogueando o seu charuto, ás escondidas do pae, e resfolegando soffrego as fumaças, com a voluptuosidade de rapaz que fuma ás furtadellas. N’este comenos, passou, em upas e corcovos de fogoso ginete, o enviado de S. Gonçalo, com os olhos disfarçados noparapeito da janella onde Thomazia costumava sair já nada esquiva. Innocencio retraíu-se para o escuro do pateo, e deu tento de rangerem em cima as portadas da janella. Espreitou de esconso o cavalleiro, e viu-o meio-voltado sobre o sellim, com esbelto meneio, revirar um olho á janella e surrir, correndo pelo bigode um lenço branco. O lenço branco, n’aquelle tempo, era ainda o babeiro do tenro amor, a bandeira do coração em batalha de ternos dardos.
Passou o galhardo picador, e Innocencio, pulando ao meio da rua, deu de cara com Thomazia ainda embevecida na figuração ideal do gentil rapaz, com os olhos postos no cunhal da casa onde se lhe desfizera a visão.
O filho de Gervasio cacarejou uma risada rispida e melodramatica como de actor garraio. A orfã olhou despavorida, e viu Innocencio a trincar o charuto, debaixo da aba do chapéo carregado sobre o nariz, coruscando-lhe das pupilas umas áscuas de raiva não vulgar.
Fez pé atraz a menina, e sumiu-se com o seu pejo e medo. Innocencio voltou para o pateo, acendeu outro charuto, e começou a passear freneticamente no lagêdo, scismando sem atinar com o alvitre mais adequado á sua refervente indignação.
Estranhava-se o rapaz! Poucas horas antes, a quasi certeza de que Thomazia escrevia a outro, levemente lhe agastára a vaidade; e agora, o vêl-a acudir ao reclamo do mais famigerado galã do Porto, e o cuidar que era aquelle o encuberto amor da rapariga, isto sómente lhe atanazava o peito de raladores ciumes! Comparava-secom o outro em gentileza e agrados. Raivava convicto da sua inferioridade; porque o seu rival cavalgava guapamente, era bem parecido, galeava pelos figurinos, tinha uns ares soberbos de quem despreza invejosos, entrava na roda dos provincianos fidalgos, e, de mais a mais, rico.
Vejam de que paixão ruim nasceu o amor de Innocencio! Foi a inveja que lh’o esporeou! Isto não admira. Não é bem sujo e fetido o adubo em que se aquece a raiz de um assetinado lirio? De detritos podres não surdem e avoejam insectos de azas iriadas de ouro e azul?
A orfã agachou-se a tremer á beira de Custodia e disse-lhe anciada:
—O Innocencio viu-me na janella... Agora ahi vem elle acusar-me ao padrinho... Que ha de ser de mim, Custodinha?
—Não, que a menina negue—acudiu a velha destemida.—Negue, que eu vou responsal-a, e tolhel-o a elle, que hade querer fallar e não poder.
A serva de Deus recolheu-se, apanhou entre os joelhos a cara, e quedou-se orando n’aquella postura pouco reverenciosa e quasi indecente.
No entanto, a rapariga, offegante de medo, subia e descia de mansinho as escadas que levavam da agua-furtada, onde era o quarto da velha, ao segundo andar. De cada vez que voltava, ia á beira de Custodia, e segredava-lhe:
—Não ouço nada.
—Deixe-me cá...—resmuneou a creatura, que continuavade bôrco os seus arranjos com os espiritos superiores.
Corrido um quarto de hora sem que Innocencio fizesse rumor, a velha alçou a cabeça, e disse com modesto aprumo:
—Está tolhido! Os meus santos não se cançam de ouvir a peccadora. Devo uma novena ao meu padre Santo Antonio.
Acabadas de proferir estas palavras, reboou desde o patamar do escriptorio a vozeira de Gervasio José, chamando Thomazia.
Estremeceu a menina; e a velha ficou por momentos descrida de ter bem tolhido a lingua de Innocencio.
—Ai! e agora?!—exclamava Thomazia.
—Vá lá, vá lá; faça-se de novas, e negue, que eu cá fico a rezar... E não se me ponha lá a choramingar... ouviu? Noivo tem a menina...
—Então, digo-lhe ao padrinho que tenho noivo?... acho que o melhor é ser verdadeira, não é, Custodia?...
—Não diga nada por ora, que em fim...
Gervasio vinha já subindo as escaleiras, quando a moça descia com a mais serena compostura de semblante, dizendo:
—Aqui vou, meu padrinho...
—A senhora não ouviu chamal-a ha pedaço?—perguntou desabridamente o velho.
—Não ouvi...
—Essa é boa! onde estava vocemecê?
—Na trapeira a dar agua aos manjaricões.
—Hum...—regougou Gervasio, medindo-a com olhar carrancudo.
—O padrinho está zangado?—atalhou affavelmente Thomazia.
—Venha cá ao meu escriptorio: temos que fallar...—E accrescentou abaixando a voz:—Estou pasmado...
—De que, meu padrinho?!
Entraram no escriptorio. Thomazia viu as costas de Innocencio que estava olhando para o saguão atravez da vidraça.
—Com que então...—disse Gervasio, bamboando a cabeça—com que então...
A moça esperava o resto, serenamente encarada, com as mãos nos bolcinhos do avental.
—Afinal de contas...—proseguiu o entalado velho, saltando do exordio ao final de contas.—Que me dizes tu a isto, Thomazia?...
—A isto quê, meu padrinho?! Eu não sei por que vocemecê me está tratando assim...
—Não sabes?!—bradou Gervasio—não sabes?... Com que então... aquella carta era para o meu filho?... era para o meu filho que tu estavas escrevendo a cartinha, sim?
—Era, sim, senhor.
—Não minta!—entreveio Innocencio; rodando sobre os engonços dos calcanhares com a presteza de um manequim. Não minta! A senhora não foi, ha bocado, á janella, quando passava a cavallo o João José da Costa Guimarães?
—Quem é esse?—acudiu a menina com assombrada innocencia—eu conheço lá o Guimarães!...
—Não conhece aquelle rapaz que ia a surrir-se para cima, e a assoar-se a um lenço branco?—replicou o moço—Não sabe quem é o Costa Guimarães?!... Ora adeus!...
—Eu tinha aberto a janella—voltou Thomazia triste, mas socegada—porque... estive por traz dos vidros a ver se...—E suspendendo-se por dois segundos, continuou com mais calor.—Eu direi a meu padrinho o que estava fazendo, e a razão por que fui á janella.
—Então, diz lá...—sobreveio Gervasio.
—Hade ser só a meu padrinho...
—Vae lá p’ra cima, Innocencio—disse o pae ao rapaz.
Saiu Innocencio com os olhos abatidos e as mãos nos bolços da judia. Levava ares de tolo, e todavia doia-lhe o coração deveras. Gervasio fez um gesto de cara para deante e cabeça para traz, significando á menina que fallasse.
—Eu, padrinho, estava atraz das vidraças a ver se o Innocencio saía. Quasi sempre o vou espreitar de modo que elle o não saiba, para que não pense que eu lhe quero bem por que elle é rico. Hoje estava eu á espera que saisse; esperei, esperei muito tempo; e cuidando que elle estava á porta da rua a olhar para a Maraquinhas Gomes, abri a janella, quando ia a passar o tal homem a cavallo, que eu não sei se é Guimarães, se que diacho é. Vae n’isto, o Innocencinho foi p’ro meio da rua, e poz-se a olhar para mim muito carrancudo.Eu pensava que a zanga d’elle era por eu o andar espreitando; e vae elle de que se hade lembrar? vem dizer ao padrinho que eu estava a namorar o outro. Coisa assim!...
Thomazia tirou um lencinho da algibeira, e levou-o aos olhos para que Gervasio lh’os não visse enxutos.
A cara do velho alargou-se dilatada pelo calorico da alegria; é preciso a fisica para explicar os movimentos das caras onde não ha metafisica nenhuma. Tem não sei que aspeito alvar o contentamento das almas boas. O de Gervasio José de Barros jubilava tão grandemente e tão convencido da innocencia da afilhada, que não se satisfez com menos de abraçar a orfã e exclamar:
—Ó menina, perdôa ao meu filho, que é um asno!... Anda aquelle bólas com a cabeça tão desarranjada, que se tu lhe não dás juizo com o casamento, eu qualquer hora pego d’elle e mando-o comer no Brazil o pão que o diabo amaçou. Mas o que o Innocencio quer, filha, é que tu gostes d’elle, e mal sabe o patarata que tu lhe queres tanto... Gostas do meu filho, deveras, rapariga?
—Sim... eu...; mas... elle... como é rico, e tem muito quem o queira... e eu sou pobre... por isso...
—Asneiras, menina, asneiras! Quem é rico sou eu, não é elle, entendes, Thomazia? Eu é que tenho alguma coisa, riqueza não digo, por que ha quem tenha mais; mas ganhado com mais honra, não. Ora agora, o meu filho por emquanto é tão rico como tu; e ao futuro, se me andar fóra dos eixos, póde ficar a ver o sete-estrello, entendes?... Eu já te disse que...
—Mas se elle casar com outra menina rica...—interrompeu Thomazia.
—E d’ahi?
—Não lhe faltarão senhoras do agrado do padrinho...
—Não me dês leis, menina. O que me convem sei eu... Não quero cá a menina rica... Quero-te a ti, por que te estimo como filha; quasi me nasceste nos braços; e prometti á alma de teu pae olhar tanto por ti, como se fosses irmã do meu Innocencio. São dois filhos que eu tenho. Se elle te não quizesse, Thomazia, sabes o que acontecia? pelo menos metade do que eu tenho havia de ser teu; isso lá nem a justiça nem o bersabú t’o tiravam. Se elle casar comtigo, como de feito, fica-vos tudo; não tendes partilhas que fazer, e fica-vos bastante, graças a Deus, e louvores a quem m’o deixou sem pragas de orfãos e viuvas.
Thomazia não se enterneceu até ás lagrimas; mas ficou tanto ou quanto commovida por sentimento de gratidão ao amor paternal do velho. Figurou-se-lhe ver a imagem do pae, ainda não delida totalmente da sua memoria, arguindo-lhe com severidade a perfidia com que respondia á generosa alma do seu bemfeitor. Sem intervenção do venerando fantasma de seu pae, sobrava para magoal-a a vergonha espontanea que sobreleva os malissimos instinctos.
O regosijado Gervasio José saiu ao pateo e chamou o filho, e a mulher, e as irmãs, sentindo não ser usual invocar os visinhos para quinhoarem da alegria de umcoração bonissimo. Innocencio foi o ultimo que desceu.
—Venham cá!—exclamou o velho com as bochechas rosadas e cheias de riso.—Anda cá tu, meu filho, que és um lorpazito como eu fui quando amava tua mãe, e como hão de ser teus filhos e netos até ao fim do mundoperonia secla seclorium. Ouve lá, menino. Olha que a Thomazia foi á janella para te ver; e tu, que trazes a cabeça lá por cascos de rôlhas, cuidaste que ella ia ver o outro. Menina, conta ahi tu como foi a coisa a este teu noivo, que está ali com um nariz de palmo a olhar p’ró chão e com a vista de esguelha! Não me estejas a olhar-me p’rá pequena com esse olhar de porco, Innocencio! Vaes mal com esse sistema... Pagar amor com ingratidão nem os cães. Menina, diz ahi tu como foi que...
Thomazinha, sem erguer o collo da pudica inclinação em que o tinha, murmurou mui constrangida:
—Já contei ao padrinho... Se elle não quer acreditar, deixal-o. O que eu faço d’aqui em deante é não tornar á janella, e acabam-se as desconfianças...
—Como as desconfianças se acabam sei eu,—emendou D. Thomazia.—O que se hade fazer ao tarde faça-se ao cedo.
—Dizes bem, mulher!—obtemperou o marido.—Hade isto ficar decidido aqui hoje.—E voltado solemnemente ao filho, continuou:—Innocencio, queres receber por tua esposa esta menina?
Deteve o rapaz a resposta, roendo a unha do dedo pollegar, e revirando de soslaio os olhos a Thomazia.
—Então?—bradou o pae—comes os dedos ou respondes?
—Ella que diga...—murmurou Innocencio, passando a roer nas unhas da outra mão.
—Afilhada!—apostrofou o velho guardando os mesmos tom e postura graves.—Queres casar com meu filho?
A menina corria a orla do avental retorcendo as franjas de retroz uma por uma com os seus alvissimos dedos.
—Responde, Thomazia!—tornou Gervasio dando aos hombros com impaciencia.
—O padrinho bem sabe a minha vontade... Eu estou por tudo... mas...
—Mas quê...—abreviou o velho desconfiado das reticencias.
—Se elle me não ama depois... O padrinho bem sabe que o Innocencinho nunca me disse se eu queria casar com elle... Tem lá outros namoros de meninas ricas... e eu sou uma pobre orfã... Se depois se arrepender...
—Que dizes áquillo, Innocencio?—tornou Gervasio.
—Eu...
—Sim, tu! pois com quem diabo fallo eu!
—Ó Gervasio!—atalhou a irmã Sebastiana—não tens precisão de fallar no porco-sujo!...
—Pois que querem vocês?—explicou o velho.—Um homem perde a paciencia! Está ali aquelle focinhudo aroer os cascos, e não acaba de desembuchar o que lá tem dentro!
—Responde a teu pae, menino!—interpoz-se D. Thomazia.—Ou sim, ou não. Contra vontade não quero que te cases...
—Isso é assim!—atalhou um novo personagem n’esta poetica e fidelissima scena de familia.
Era a senhora Custodia da Porciuncula que assomava no limiar do escriptorio com as calmandulas enroscadas no pulso.
—Peço licença... Ninguem me cá chamou; os meus santos é que me trouxeram...—disse ella.
Abriram-lhe passagem com agradavel sombra as trez senhoras em quanto a menina desabafava o animo, encarando na sua confidente.
—A senhora D. Thomazia tem razão—proseguiu Custodia, inclinando profundamente a cabeça deante da consorte de Gervasio.—Casar, se o coração não puxa, é mau arranjo. Sempre me ha de lembrar o verso em que o boticario dizia:
Menina, casar sem gostoPor fazer vontade alheiaÉ cair no inferno em vida,Remar contra a maré cheia.
Menina, casar sem gostoPor fazer vontade alheiaÉ cair no inferno em vida,Remar contra a maré cheia.
Menina, casar sem gostoPor fazer vontade alheiaÉ cair no inferno em vida,Remar contra a maré cheia.
Menina, casar sem gosto
Por fazer vontade alheia
É cair no inferno em vida,
Remar contra a maré cheia.
Innocencio careteou uma visagem de anojado do tom enfatico e talvez ridiculo com que a senhora Custodia usava citar os aforismos liricos do boticario. A velhadeu tento do desdem do moço, e calou-se de subito, relançando-lhe a vista azedada.
—Deixemo-nos agora lá do verso do boticario—disse o pae de Innocencio egualando-se ao filho no descaroado desamor a poetas, mormente quando se discutia uma coisa séria. Não venha cá a Custodia dar sentenças, que o negocio hade arranjar-se sem o seu voto, se Deus quizer...
—Senhor Gervasio—replicou a velha—se Deus quizer, sim; mas se Deus não quizer, não...
—Deixa fallar a mulhersinha, Gervasio,—interveio a esposa,—deixa-a fallar, que é mulher experimentada.
—Será, será; o diabo o negue...—acudiu o burguez maliciando o dito casto da mulher.
—Anjo bento!—murmurou a senhora D. Florencia—ahi vens tu outra vez com o cão tinhoso!
—Sabeis vós que mais?—redarguiu Gervasio—ide á fava! Estou a mandal-as todas p’ra riba, e fico sósinho com os pequenos... Que estás ahi a resmungar, Custodia?... Diz lá o que quizeres... Achas que a filha de teus amos vae mal casada com o meu filho?
—É consoante, senhor Gervasio. Se elles gostam um do outro, muito que bem; se não gostam, tanto faz ser rica como pobre; contentes é que elles hão de viver, quando eu fôr rainha. Não é isto nem aquillo... Estes meninos, cá segundo entendo, não estão talhados p’ra se casarem. O senhor Innocencinho não gosta da senhora D. Thomazinha.
—Quem t’o disse?!—bradou Gervasio.
—Ora, quem m’o disse! Basta vêl-o. Se elle gostasse d’ella, estava aqui agora aquella menina á espera que elle se resolva? Então já lh’o elle tinha dito, e acabavam estas caramunhas de parte a parte... Emfim, senhor Gervasio, queira perdoar o meu atrevimento, mas a minha opinião é que os deixe estar solteiros. O seu filho não lhe faltam noivas; e á menina, se Deus quizer, não lhe hão de faltar noivos. O melhor dote que ella pode ter é a sua virtude e a carinha de santa que tem.
Gervasio roçava as costas das mãos uma na outra e bufava, voltando a parte posterior de sua pessoa á sã filosofia de Custodia. As trez senhoras, convictas de que a velha era servida de favores do alto e sempre mais ou menos inspirada, attentavam religiosamente no que ella dizia. A menina desafogava-se da oppressão, respirando pelo desabafo da criada. Innocencio guardava um silencio que tanto podia considerar-se summo siso como supina toleima.
Quebrados os impetos da colera, Gervasio José abriu uma porta de entrada para um armazem de geropigas, e disse ao filho:
—Anda comigo, rapaz.
Entrados ao armazem, fechou o velho a porta, e rompeu assim de vizeira com Innocencio:
—Queres casar ou não? Gostas da rapariga ou não gostas? Diz lá o que quizeres, que eu não t’o levo a mal. Se vês que te não agrada o casamento, dil-o p’r ahiá bocca cheia. Cá ás costas não quero culpas. Queres a moça ou não queres?
N’este lance, o rapaz viu trez bonitas raparigas: uma era a visinha Mariquinhas Gomes, que tocava piano; outra, era a Felismina da rua das Flores, que lhe tinha dado amendoas, na Misericordia, em quinta feira santa, ao pé da pia; a terceira era a Rosinha da Praça Nova, que lhe pisára um pé, estando elle a jogar o quino em casa da mesma menina, a mais presada das trez. Por tanto eram trez provas de ternura que lhe lancetavam o coração n’aquelle momento. Trez meninas, aliás quatro com Thomazia, que lhe embaraçavam a escolha, obrigando-o a ter mais engenho que o pensador e historico burro de Buridan.
N’esta oscillação, demorou-se o que bastou para o pae concluir assim terminantemente:
—Está visto... Não queres a rapariga... Acabou-se; não fallemos mais n’isto. Vamos embora.
—Olhe cá, meu pae...—susteve Innocencio.
—Que é?
—Eu queria dizer-lhe uma coisa...
—Então?
—Peço quinze dias de espera.
—P’ra quê? P’ra te decidires? Deixemo-nos de historias. Se o coração t’o não pede, acabou-se. Tanto faz scismar no caso como estar a dormir. Arrumou-se a pendencia. Nada perdido. Vou tratar de casar a pequena com um dos meus sobrinhos de Villa-Flor. O que eu não quero é têl-a solteira em casa; que isto de mulheres,ás duas por trez, desandam, e ninguem tem mão n’ellas. Acabou-se. Vamos embora.
A determinação de Gervasio era sincera. Póde ser que um misterioso relampago, n’aquella hora, lhe aclarasse, em confuso, o porvir desditoso de tal enlace. O certo é que a vontade de unir o filho á orfã se lhe varreu de todo.