CAPITULO X

CAPITULO X

Argumento

Desafogo de Rosa com o «Ponha aqui o seu pésinho». Encontram-se no theatro as duas familias. O que elle sentiu quando viu Rosa tentadora como o peccado. Louvores doFayelexprimidos no chuveiro de lagrimas das velhas. Innocencio chama tola á esposa. Roque de Barcellos lancéta o coração de Innocencio e conta-lhe tudo com intenções damnadas. Gervasio acalma o filho, e diz coisas escorreitas das mulheres com o tino e siso de um Balzac. Innocencio a rir-se no camarote para «metter ferro» a Rosa. A sangoeira da tragedia que inunda de prantos a familia Barros. De como Gervasio presume que o traductor da peça é um sabio que inventou a tramoia, e decide que Fayel era da pelle do diabo. Torna Innocencio a estorcegar o braço da mulher á conta do Costa Guimarães.

Desafogo de Rosa com o «Ponha aqui o seu pésinho». Encontram-se no theatro as duas familias. O que elle sentiu quando viu Rosa tentadora como o peccado. Louvores doFayelexprimidos no chuveiro de lagrimas das velhas. Innocencio chama tola á esposa. Roque de Barcellos lancéta o coração de Innocencio e conta-lhe tudo com intenções damnadas. Gervasio acalma o filho, e diz coisas escorreitas das mulheres com o tino e siso de um Balzac. Innocencio a rir-se no camarote para «metter ferro» a Rosa. A sangoeira da tragedia que inunda de prantos a familia Barros. De como Gervasio presume que o traductor da peça é um sabio que inventou a tramoia, e decide que Fayel era da pelle do diabo. Torna Innocencio a estorcegar o braço da mulher á conta do Costa Guimarães.

A este tempo, Rosa estava tocando no piano a musica do «Ponha aqui o seu pésinho» renovada com o apparecimento do drama «Pedro Sem», joia literaria que ainda rebrilha no palco doPalacio de cristal, revesada comIgnez de Castroem quanto o progresso não abrangerManuel Mendes Enxundia. Tocava, porém, de raivosa a menina.

A mãe d’ella, que já andava moirejando no enchoval,soffreu um insulto nervoso, e passou o dia a beber chá de valeriana.

O jantar correu sombrio e taciturno, deixando apenas ouvir o mascar da numerosa familia e caixeiros. Tudo estava perdido, afóra o estomago.

Magnanimo e inquebrantavel animo tinha aquella Rosa! Quem a visse na representação do «Fayel» quinze dias depois, radiosa de guapas fitas que lhe serpeavam dos opulentos cabellos por sobre os modelados hombros, cuidaria que era ella a noiva de Innocencio de Barros, e não aquell’outra senhora melancolica do camarote fronteiro.

Tinha sido Gervasio quem comprára o bilhete, ao outro dia da chegada do filho, afim de espairecer o tristonho aspecto de toda a sua familia. No camarote, estavam elle e a senhora, Thomazia e o esposo, as duas irmãs e os dois irmãos, acamados e dispostos d’esta ordem: na frente as duas Thomazias e Gervasio; na camada intermedia Jeronimo, Sebastiana e Innocencio; na terceira e ultima Felizardo e Florencia.

Trajava a noiva modestamente vestido de seda sobre o escuro. Os enfeites do cabello eram o ouro da côr d’elle. O peitilho de cambraia, afogado, só ao perto deixava ver que era menos alvo que as espaduas de jaspe lisas e brunidas. Se a tristeza realçasse sempre matizes de formosura, a esposa de Innocencio José de Barros, n’aquella noite, poderia gloriar-se de ser invejada das senhoras e lastimada dos rapazes, por conta de tal marido.

A familia do senhor Barcellos da Praça Nova entrou mais tarde no camarote.

Rosa pendurou a capa sem desfitar os olhos de Thomazia. Sentou-se, segredou, surrindo-se, aos irmãos a visinhança que tinham, e, sacudidas as crinas de fitas, travou do binoculo e encarou no brasileiro Andraens, que a comprimentou da platéa, curvando-se quanto a barriga lhe outorgou. Não ha para que fallar mais n’este brasileiro Andraens. Veiu aqui para desmentir o fanqueiro da Praça Nova, receioso de que lhe faltassem brasileiros á filha.

Innocencio viu Rosa. Palpitou-lhe o coração como saco aneurismatico. Lancetavam-lh’o saudades, saudades como ellas são e pungem quando onunca maisvem com ellas. Nunca lhe parecéra bonita senão então a Rosinha. Uns modos acanhados de innocencia boçal que d’antes tivera a moça, transfiguraram-se em meneios graciosamente desenvoltos, sem desaire de pouco senhoris, um certo desembaraço afidalgado que Innocencio via nas damas de raça, e desejaria ver nas raparigas da sua roda. Tendencias ao sublime, não vulgares em sujeitos da sua laia.

Como estivesse inquieto, o esposo de Thomazia saiu do camarote e passeou nos corredores. O pae, assim que o pano se levantou, saiu a chamar o filho.

Entrava Innocencio no camarote, quando a personagem chamada IZAURE dizia a FAYEL:

Ah! já não amas a infeliz consorte?

Ah! já não amas a infeliz consorte?

N’este lanço, a loura esposa voltou o rosto e olhou intencionalmente para o marido, que tinha já os olhos cravados no camarote de Rosa.

Thomazia seguiu o suspeito lanço de vista, surriu-se, e baixou a cabeça, encostando-a á mão direita.

D’ahi a pouco as senhoras D. Florencia e Sebastiana choravam lagrimas como punhos. É que Izaure, de joelhos deante do furioso Fayel, exclamava:

Ah! prostrada a teus pés, digna-te ouvir-me.Tem compaixão, Senhor, da afflicta esposa! etc.

Ah! prostrada a teus pés, digna-te ouvir-me.Tem compaixão, Senhor, da afflicta esposa! etc.

Ah! prostrada a teus pés, digna-te ouvir-me.Tem compaixão, Senhor, da afflicta esposa! etc.

Ah! prostrada a teus pés, digna-te ouvir-me.

Tem compaixão, Senhor, da afflicta esposa! etc.

Poucas scenas deixaram de ser victoriadas pelas lagrimas da familia Barros, exceptuado Gervasio; que esse, quando Fayel vociferava ameaças de morte contra a esposa, dizia:

—O homem é levadinho de todos os diabos!

Findo o primeiro acto, perguntou D. Thomazia ao marido se tinha gostado.

—Gostei...—respondeu seccamente Innocencio.

—E ouviste o que elles disseram?

—Ouvi, que estava perto.

—Cuidei que não...—disse-lhe ella ao ouvido.—A tua comedia esta noite é a Rosinha...

—És tola...—replicou brandamente o esposo.—Que me importa cá a mim a mulher!...

—E a mim importava-me menos o homem de Caminha...—voltou Thomazia.

Este breve dialogo correu sem attenção da familia,que se occupava em ponderações relativas aos casos tristes do acto 1.º

Innocencio foi fumar para o vestibulo.

Roque, o irmão discreto de Rosa, visinhou-se d’elle com bom semblante, apertou-lhe a mão, e deu-lhe os emboras do seu casamento.

Innocencio tartamudeava, humilhando-se com conscienciosa vergonha á superioridade do outro que devia ser o corrido.

—Sempre fui teu amigo desde a escola—disse Roque—e hei de sêl-o até á morte.

—Tambem eu fui sempre teu.... tartamelou Innocencio, pedindo-lhe o cigarro para accender o charuto.

—Lá com o que faz a minha familia não me importo. Se estiverem de mal comtigo, deixal-os estar. Pois hei de querer-te mal porque não casaste com minha irmã Rosa? Não... Fizeste o que te pediu o coração, e...

—Foi meu pae...—atalhou Innocencio abemolando piedosamente a voz.

—Eu logo vi que foi teu pae: que tu por tua vontade não casavas com quem casaste. Isso mesmo disse eu á minha familia... Parece que adivinhava! Quando me affirmaram que casaste por namoro, gritei sempre que era mentira; ou então não sabias quem ella era...

—Ella quem?

—A senhora D. Thomazia, acho que é Thomazia a mulher.

É; mas então... dizes tu... que eu não sabia quem ella era?

—Sim, não sabias...

—Sabia muito bem. O pae d’ella era um capitão que morreu no cêrco, e a mãe uma senhora que morou sempre defronte da minha casa, e era filha de um negociante fallido com honra, depois dos francezes.

—Não digo o que tu pensas, meu amigo. A minha idéa é outra.

—Sim, tu disseste que eu não sabia quem era Thomazia—insistiu Innocencio com a voz alterada.—Que vem isso a ser?

—Já que m’o perguntas com esse fogo, sempre te vou explicar o meu pensamento. Tu és um rapaz de caracter e brios. Diz-me cá: se te avisassem de que a menina com quem querias casar andava escrevendo cartas a uns e a outros, casavas com ella?

—Não; mas...?

—E se te contassem que um dos seus namorados vinha ler as cartas d’ella na Praça Nova, no meio de uma roda de lordes de luva branca, para que elles rissem até romper pelas ilhargas, casavas com ella? Sim, pergunto eu...

—Não, já t’o disse; mas que tem isso com minha mulher?

—Que tem? essa é boa! tem tudo; porque tua mulher é que escrevia cartas ao Costa Guimarães, que tu conheces perfeitamente, não conheces?

—Sim...

—E elle, ali á esquina da Praça Nova, que o vi eu com estes dois, esteve a ler em alta voz uma carta, emque ella por signal dizia tolices de palmo e meio, e eram as gargalhadas tantas que até parava a gentalha espantada. Aqui tens agora por que eu te dizia que...

—Tu juras pela vida de teu pae que não mentes, Roque?—exclamou Innocencio trespassado de dôr que só vilissimas almas ousariam motejar.

—Juro pela vida de meu pae que não minto, e que sustento o que digo deante do Costa Guimarães, e deante da tua criada Custodia que era a confidente da correspondencia.

Innocencio encostou-se á parede, livido e tremulo, com os olhos encarniçados e fitos no rosto do denunciante, jubiloso de sua vingança.

Depois, impetuosamente, saiu do seu torpor, e disse convulso:

—E que ganhaste em vir contar isso, tu?

—Não ganhei nada... nem te peço paga nenhuma. Isto veio a proposito de eu te ter sempre defendido, quando ouço dizer que tu bem sabias quem tua mulher tinha sido em solteira.

Innocencio rompeu de roldão por entre o povo apinhado no atrio e saiu, sem redarguir, ao irmão de Rosa.

Chegou a meio do largo da Batalha e retrocedeu. Entrou outra vez no camarote, quando corria já na ultima scena o acto 2.º la desfigurado. O pae tirou-o fóra pela lapella do casaco, e obrigou-o ora suave, ora asperamente a contar-lhe a conversação com Roque. Ouviu-o retraindo os assomos da ira, esteve-se a scismarrematado o conto, e disse placidamente ao filho attribulado:

—Innocencio, não tomes a peito isso que póde ser mentira, e, se o não fôr, tambem não é crime que te envergonhe. Thomazia fez uma acção má em escrever ao Guimarães; mas olha que na idade d’ella essas coisas não tem aquella nenhuma. Todas namoram, todas escrevem e a gente não póde pedir-lhes contas do que fizeram antes de serem nossas mulheres. Tua mãe, quando me escreveu a mim, já tinha escripto a outro; e ha muitas senhoras honradas que escreveram a uma duzia d’elles ao mesmo tempo. Mau é terem ellas quem lhes leve as cartinhas...

—É verdade!—atalhou o filho.—E Custodia? que me diz vocemecê á desaforada da Custodia! aquella beata que ouve trez missas!...

—A Custodia, meu filho, está cá por minha conta... Agora o que te peço é que venhas para o camarote, que não te mostres d’avessas com tua mulher, que te rias para ella de modo que lá os Barcellos te vejam... Pois tu não entendes que o bregeiro do Roque o que quiz foi metter-te a garrocha e fazer-te saltar? Esta hora estão elles lá muito regalados de verem que saiste do camarote, e ámanhã vão espalhar que tu bateste na mulher... Vem, Innocencio, vem, que Thomazia está innocente. Cartas escrevem-n’as todas. Ora olha cá o que te eu digo. A Rosa não te escrevia?

—Sim, senhor.

—E a Gomes? tambem. E a Luiza Leite? tambem.E a Emilia Fernandes? tambem. E as outras trapalhonas que andavam á pilha da tua fortuna? Todas te escreviam. Eu sabia a tua vida hora por hora. Olha cá o que te eu digo agora: essas raparigas, que te escreveram, ficaram deshonradas por isso?

—Não, senhor.

—E, se ellas casarem, os maridos ficam deshonrados por que tu te carteaste com ellas? Não; não ficam. Ficam ou não?

—Não, senhor.

—Então que estás tu ahi a malucar? Cuidei que tinhas outra cabeça, homem! Eu, se fosse a ti, e o Roque me viesse cá com essas trampolinices, dizia-lhe: «Ora, meu amigo de Peniche, vá dizer a sua irmã que metta a viola no saco, e que vá cavar pés de burro.» E, se lhe não dissesse isto, dava-lhe dois pares de murros á portugueza, que elle havia de ter que contar ao sarrafaçana do pae, que está levado de dez milhões de diabos por que não poude metter-me em casa a lambisgoia da filha. Arre, ladrões, vão ganhal-o!

E, dizendo, levou o filho pelo braço, recommendando-lhe que entrasse a rir-se, muito satisfeito no camarote.

E, de feito, Innocencio entrou a rir-se no camarote, com a mais infeliz cara que imaginaram Gavarni e Molière. O rir d’elle era uma dilatação lateral de bochechas, e o vertice da lingua apontado aos dentes. São tão poucos os infortunios sem um reverso ridiculo!

Perguntou-lhe Thomazia onde tinha estado.

—Andei a conversar com os amigos—respondeuelle meigamente, sem desmanchar o apparelho do riso.

—Não viste o segundo acto que era tão bonito!—tornou ella.

—Ai, filho!—confirmou a mãe—sempre aqui temos chorado!...

—Eu cuidei que perdia os sentidos!—abundou D. Florencia, em quanto D. Sebastiana enxugava ainda os residuos das lagrimas estancadas nas rugas.

Corrido o pano para o terceiro acto, Innocencio sentou-se á beira de sua mulher, fallando-lhe com fervoroso interesse e geitos muito acariciativos, em coisas que era natural dizerem-se sisuda e gravemente.

Estava como admirada Thomazia. Aquelles modos causavam-lhe certa estranheza e desconfiança; porque não eram usuaes nem naturaes em seu marido. Além de quê, a senhora desejava seguir o entrecho da tragedia, e elle a cada instante, com a bocca cheia de riso, lhe cortava a attenção com algum dito de tão desengraçado espirito que propriamente Thomazia o achava parvo.

Decorreram assim dois actos.

A familia Barcellos espreitava, simulando indifferença, os movimentos do camarote. A vista de Innocencio, apurada pela raiva, tudo via de soslaio. Quanto mais o espreitavam assim elle requintava em ternura com sua mulher, chegando á demasia de lhe estar brincando com as guarnições do decote.

Na penultima scena do 5.º acto, pediu-lhe Thomazia que a deixasse ouvir a falla deGabriella, apontando para o cadaver deCuci.

As trez velhas, chegado o drama a este abuso da sensibilidade humana, já não choravam sómente, gemiam gemidos de tal arrancar do seio, que Thomazia mal poude ouvir os derradeiros versos de Gabriella que gritava assim pela bocca da Grata:

Sim, meus votos recebe, sombra amada;Por teus manes ensanguentados juroUm amor te prometto, que escarneçaDe seus furores. Não, já te não temo!A minha mesma dôr me arranca a vida.

Sim, meus votos recebe, sombra amada;Por teus manes ensanguentados juroUm amor te prometto, que escarneçaDe seus furores. Não, já te não temo!A minha mesma dôr me arranca a vida.

Sim, meus votos recebe, sombra amada;Por teus manes ensanguentados juroUm amor te prometto, que escarneçaDe seus furores. Não, já te não temo!A minha mesma dôr me arranca a vida.

Sim, meus votos recebe, sombra amada;

Por teus manes ensanguentados juro

Um amor te prometto, que escarneça

De seus furores. Não, já te não temo!

A minha mesma dôr me arranca a vida.

Ora, como Fayel corresse então sobre a mulher, e a matasse com um punhal, Gervasio não teve mão de si que não murmurasse em tom indignado:

—Era da pelle do diabo o homem!

Vae, depois, Fayel mata-se tambem. São já trez os cadaveres em ruma. O terror abafa a respiração do auditorio, emquanto a razão não emerge do seu lethargo para applaudir e vozear pelos artistas. A esposa e irmãs continuam a soluçar entaladas, puxando a custo a respiração dos gorgomillos.

Gervasio reveste-se da sua dignidade critica e diz:

—Vossês são tolas! Olhem que isto é tudo uma tramoia inventada pelo sabio que fez a comedia. Levantem-se d’ahi, e vamos embora.

Innocencio deu o braço a sua mulher. As trez senhoras velhas ainda trajavam mantilha. Desceram ao pateo, e esperaram o carroção. Esta demora assanhou a ulceralatente de Innocencio. Thomazia sentiu um brutal repellão que lhe torturou o braço. Olhou para o marido, e viu que elle cravára os olhos n’um homem que, d’entre a multidão, lhe estava espreitando para a consorte. Ella seguiu aquelle raio de luz sinistra e viu João José da Costa Guimarães. Córou: incendeu-lhe as faces o odio, estimulado pela vergonha.

Havia ainda muita coisa boa na alma d’aquella mulher. Córava!


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