CAPITULO XI

CAPITULO XI

Argumento

Innocencio resiste á ceia de pescada cosida. Injurias selvagens que elle dardeja á esposa. Acode Gervasio embrulhado n’um capote de trez cabeções. Socega o truculento. Gervasio manda sair Custodia. A velha faz chorar as pedras, saudosa da sua menina. Lança-se-lhe nos braços, e sae d’elles moribunda. Expira a velhinha. O author escreve o elogio da defunta, e dirige-lhe uma allocução commovente, como consta d’este sentimental capitulo.

Innocencio resiste á ceia de pescada cosida. Injurias selvagens que elle dardeja á esposa. Acode Gervasio embrulhado n’um capote de trez cabeções. Socega o truculento. Gervasio manda sair Custodia. A velha faz chorar as pedras, saudosa da sua menina. Lança-se-lhe nos braços, e sae d’elles moribunda. Expira a velhinha. O author escreve o elogio da defunta, e dirige-lhe uma allocução commovente, como consta d’este sentimental capitulo.

No transito da Batalha á rua das Cangostas, os beiços de Innocencio não se abriram. Entrou em casa carrancudo como um somnambulo. Não quiz cear, com quanto a mãe, o pae e as tias lhe asseverassem que a pescada cosida a podiam comer os anjos, de boa que estava. A esposa escassamente comeu, e foi para o seu quarto onde o marido passeiava rapido e assoprando.

—Que tens tu?—perguntou ella mais altiva que carinhosa.

—Tenho vergonha de ser seu marido!—respondeu com selvagem e concisa eloquencia o aprumado Innocencio, voltando-lhe as espaçosas costas.

A senhora ficou transida de frio e assombrada largo tempo sem poder articular a réplica.

Voltou-se rapido contra ella o marido e repetiu:

—Sim, é o que lhe digo: tenho vergonha de ser casado com a senhora!

—Por que?—murmurou ella com humildade.

—A senhora sabe-o; não me faça perguntas.

Calou-se alguns segundos e voltou com impetuosa vehemencia:

—O que a senhora quiz foi ser rica, não é assim?

—Eu...

—Sim. Não me tinha amor nenhum; mentiu-me, andou a imposturar para me illudir...

—Não digas isso, Innocencio...—redarguiu ella energicamente; mas a consciencia esfriou-lhe logo a reacção.

—Então isto é mentira? A carta que você me escrevia para o Douro não era sua?

Thomazia abaixou o rosto e chorou. Em situações analogas, mulheres sem defeza, choram. As lagrimas são supplicas n’estes lances. Se os juizes teem boa alma e a virtude da delicadeza, rasgam o processo. Se são da indole rustica do filho de Gervasio, enfurecem-se em dobro e vociferam. Para esta ralé de homens faz-se mister que a mulher, bem que culpada, relucte e rebata as accusações, simulando arrogante innocencia. Se não ganhar o pleito, perde-o sem humilhar-se.

—Responda a isto!—bradou Innocencio.—A carta era sua... ou foi por engano que m’a quiz mandar?... Sim... pergunto... póde ser que a tal cartinha fosse para o Costa Guimarães.

—Logo vi...—soluçou a senhora—logo vi que atua raiva era por estar no theatro aquelle maldito...

—E acha você que é só por isso, eim? Acha que não tenho mais nada que lhe bote na cara, a respeito do tal tratante? Faz de mim tão tolo que estou aqui assim zangado porque elle olhou para a senhora!... Ora, minha amiga, outra vida!... Sabe que mais?—e destampou a voz de subito como trovão inesperado—Sei tudo! sei tudo, ouviu? Sei tudo e sei tudo!

Aterrou-se Thomazia. Tremiam-lhe os dentes e os labios.

Os berros do homem estrondearam na casa. Gervasio saltou da cama, embrulhou-se n’um capote de trez cabeções, e veio bater á porta do quarto do filho, a tempo que elle bramia:

—Escrevia-lhe a elle você e fazia-me a côrte a mim ao mesmo tempo! Essa acção é de mulher sem honra!

—Quem é?—disse elle, suspendendo a apostrofe, e attentando a orelha á porta em que batia o pae.

—Sou eu—disse Gervasio—vem aqui fóra.

Innocencio saiu. O pae levou-o para uma saleta na extrema do segundo andar, e disse-lhe severamente:

—Portaste-te como um gallego. Estás ahi a berrar com tua mulher, depois de eu te ter pedido que não fizesses caso da intriga. Isso é feitio, rapaz? É assim que tu começas a tratar tua consorte? Que começos de vida levas! Quando isto é no primeiro mez, que será d’aqui a seis! Mal haja a hora em que esta rapariga veio para minha casa?...

Gervasio disse isto com dôr, e anciado do peito.

O filho teve compaixão do velho; pediu-lhe que se deitasse e dormisse, na certeza de que elle não tornaria a questionar com Thomazia.

O pae recolheu-se ao primeiro andar, onde já estavam as duas irmãs espavoridas perguntando á cunhada queautemgeniera aquelle na alcova de Innocencinho.

Cumpriu a promessa o irado esposo, posto que o sangue lhe engorgitasse o coração.

Deitou-se. Thomazia passou o restante da noite sentada n’um canapé, a chorar e a tremer de frio. Innocencio perguntou-lhe de madrugada o que estava a fazer ali.

—Nada... respondeu a esposa.

Elle grunhiu o que quer que fosse. Já era dia, quando Thomazia se levantou em direitura á porta no proposito de subir ás aguas-furtadas e contar a Custodia os successos. Innocencio sentou-se de golpe na cama, e bradou:

—Onde vae a senhora?

—Vou sair lá para dentro.

—Quer ir entender-se com a beata? Não vae. Deixe-se estar ahi.

Voltou-se a sentar-se, tremente de raiva, a medrosa senhora.

Ao nascer do sol, Gervasio José de Barros já andava na rua. Entrou no mosteiro de Santa Clara, deteve-se meia hora a conversar com a prelada, foi d’ali ao paço episcopal, e voltou com um papel assignado pelo bispo.

Chegou a casa esbaforido. Mandou chamar ao escriptorio Custodia da Porciuncula, e disse-lhe com semblante carregado:

—Custodia, não podes estar mais tempo em minha casa. Escuso de te dizer as razões que tenho para te despedir. Não me serves...

—Então...—exclamou Custodia, erguendo as mãos em affligidissima postura—assim se põe na rua uma velhinha de sessenta e nove annos!...

—Não vaes p’rá rua, mulher. Venho de te arranjar um encôsto no convento de Santa Clara, onde te mandarei dar todos os mezes o necessario para o teu passadio. Vaes para onde possas rezar e ouvir muitas missas á tua vontade. Cá em casa é que me não serves.

—E a minha menina!—tornou Custodia, lavada em lagrimas—a minha filhinha do meu coração... heide deixal-a!... ai! que eu morro! ai! que eu morro!

—Não faças gritarias, mulher!—atalhou Gervasio, sustando o alarido da consternada velha.—A tua menina ia por bom caminho, se tu continuasses a levar e trazer cartinhas de sujeitos que tu lá sabes...

—Eu!... seja pelas almas!—interrompeu ella.

—Está bom, está bom—concluiu o negociante—não queroplemicas! Vae lá tratar de arranjar a tua caixa, que d’aqui a uma hora has de ir para o convento; e, se não quizeres ir com a boa esmola que te dou, procura a tua vida lá por onde te fizer conta.

Custodia pediu quasi ajoelhada que a deixasse despedir da senhora D. Thomazia.

—Sim, sim, ella está lá por cima—abreviou Gervasio, fechando-lhe a porta na cara.

Subiu Custodia e encontrou n’um corredor a filha da senhora, creada aos seus peitos. Lançou-se a ella, suffocada de soluços, beijando-a e molhando-a com a torrente das lagrimas.

—Adeus, até ao dia do juizo, minha filhinha!—foram as unicas palavras que poude proferir, porque perdeu o alento nos braços da senhora.

Thomazia sentou-se no pavimento e deitou-a no regaço, bafejando-lhe as mãos regeladas. N’esta postura a encontrou o marido. Parou, e disse carrancudo:

—Que historia é esta?!

A esposa não respondeu e continuou a aquecer com a fricção das suas as mãos da criada.

Passou Innocencio adeante e chamou as tias, mandando-as conduzir Custodia para as aguas-furtadas.

Acudiram as senhoras todas, ainda ignorantes do successo; que Gervasio apenas tinha segredado a sua mulher que a tal santinha de Custodia era uma desavergonhada de mão cheia.

Thomazia disse ás senhoras que a velhinha estava fria de morte.

Pegaram n’ella e conduziram-n’a ao leito. Agitaram-n’a, chamaram-n’a, deram-lhe um pediluvio de agua espertada com mostarda, e borrifaram-lhe a cara com vinagre. Não dava signal de vida a pobre Custodia.

D. Thomazia de Barros foi ao escriptorio dizer ao marido que a velha parecia morta.

—Isso ha de ser fingido para não ir p’ró convento,—disse Gervasio—mas eu vou lá vêr...

Quando Gervasio chegou acima e se abeirou do catre de Custodia, já a velhinha tinha os olhos abertos, e circumvagava com elles espantados por toda a gente.

—Eu não te disse que era fingimento!—segredou Gervasio á esposa.—É matreira como o diabo a tal beata! Pois ha de ir...

N’este comenos, as palpebras de Custodia desceram outra vez; mas não chegaram a unir-se; porque as inferiores já tinham perdido a força vital da elevação. Estava morta: morrêra da sua fulminante agonia. Foi a saudade que lhe desfez o coração em que não tinha mais sangue que o das ultimas lagrimas choradas nos braços da sua ama. Não levou á presença de Deus culpa que a excluisse da misericordia do céu. Peccou por ignorancia e demasiada fé em S. Gonçalo e outros santos da mesma respeitabilidade. Peccou attribuindo á magia do sal virgem o exito de um casamento que se lhe figurou a felicidade da sua menina. Foi medianeira nos amores de João José emquanto acreditou que o homem trazia missão do alto quando solicitava a sua protecção. Odiou-o assim que lhe descobriu a protervia dos planos, e voltou os seus esconjuros a favor de Innocencio, por lhe parecer o melhor marido, á falta de outro eleito nos conclaves dos santos, martires, doutores e apostolos do seu conhecimento.

Descança, pois, em paz eterna na tua cova do cemiterio de S. Francisco, pobre Custodia da Porciuncula!Dorme até que a trombeta chame ás alvoradas do dia eterno a tua alma. E, se n’essa occasião este meu livro sobreviver, como espero, ao renovado cháos, pede ao teu anjo da guarda que junte este capitulo ao autos do teu processo, e eu terei tambem o duplo prazer de ter concorrido para a tua salvação, e de ser citado no valle de Josaphat.


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