CAPITULO XII

CAPITULO XII

Argumento

Odio entranhado de D. Thomazia ao marido. Novas libertinagens de Innocencio. Segredos do thalamo contados com exemplar melindre e não vulgar habilidade. O virginal enthusiasmo das senhoras D. Sebastiana e Florencia. Os pagodes nocturnos do devasso. Morre Luiz de Pinhel, e Innocencio vae ao Pará. Admoestações epistolares do pae. O filho commove-se, mas Thomazia não n’o ajuda. De como a rethorica de Innocencio estava nos pés do mesmo. Vae-se o marido e ella passa soffrivelmente. Renascem as franciscanadas do Reimão e do theatro. Cyclo da prosperidade dramatica no Porto. A «Degolação dos Innocentes». Recorda-se a pá do carneiro com explicações supplementares.

Odio entranhado de D. Thomazia ao marido. Novas libertinagens de Innocencio. Segredos do thalamo contados com exemplar melindre e não vulgar habilidade. O virginal enthusiasmo das senhoras D. Sebastiana e Florencia. Os pagodes nocturnos do devasso. Morre Luiz de Pinhel, e Innocencio vae ao Pará. Admoestações epistolares do pae. O filho commove-se, mas Thomazia não n’o ajuda. De como a rethorica de Innocencio estava nos pés do mesmo. Vae-se o marido e ella passa soffrivelmente. Renascem as franciscanadas do Reimão e do theatro. Cyclo da prosperidade dramatica no Porto. A «Degolação dos Innocentes». Recorda-se a pá do carneiro com explicações supplementares.

Este sucesso enluctou o coração de todos. Thomazia, a esposa de Innocencio, cobrou odio entranhado ao marido: odio que superava o sentimento saudoso da morta. A Gervasio asseteavam-n’o remorsos, que o impediam de justificar a si mesmo o violento passo de despedir a pobresinha. As trez senhoras e os dois velhos lastimavam a defunta, e mais ainda o morrer-se tão atormentada e sem sacramentos. Innocencio andava a scismar e a querer divertir o animo das zargunchadas da consciencia.

Evitava-o com invencivel repugnancia a mulher, se elle parecia querer reconciliar-se. Sumia-se na alcova de Custodia, e desafogava n’um alto chôro, que a sogra não ousava increpar-lhe. Como Gervasio lhe dissesse que a velha, a não ter morrido, gosaria um descançado fim de vida no mosteiro de Santa Clara, a opprimida senhora mandou-lhe pedir pela tia Florencia que lhe désse no convento o encôsto destinado á criada.

O negociante injuriou a irmã portadora do recado, e foi, passado pouco tempo, affagar Thomazia, com promessas de lhe amaciar as rudesas do genio de seu filho: promessas que ella recebeu com desdem significativo de que preferia ser aborrecida.

E não havia congraçarem-se os esposos. Á mesa não se encontravam com olhos nem palavras. Innocencio demorava-se em casa o escasso tempo de comer; e de noite recolhia-se depois que os botequins o despediam, ou a intemperie do tempo o necessitava de abrigo. O espaçoso leito conjugal, desde a morte de Custodia, nunca mais deu o licito calôr áquellas duas almas em commum. Thomazia senhoreou-se do seu antigo catre, armando-o na alcova escura contigua á saleta do seu aposento. O marido vira-o feito, e não lh’o contrariára. Quando as irmãs lhe deram assombradas a noticia, Gervasio não impediu, não se interpoz, cuidando que a duplicidade das camas não significava coisa de vulto. As duas solteiras benziam-se, chamando «modernismo» á separação, e protestando com virginal enthusiasmo que, sendo casadas, jámais consentiriam semelhante moda.

Por parte de Innocencio a reconciliação não foi solicitada. Minguava-lhe amor para arrepender-se, e generosidade para perdoar a venial aleivosia das caricias ante-nupciaes. Assim mesmo, deante da familia esforçava-se em parecer senão amante ao menos amigo de sua esposa. Assim, porém, que a topava a sós, desviava-se, sem perceber que ella já de longe planeava o desvio. Tinha ella vida nocturna, que não era contemplativa nem ralada de solitaria tristesa. Os antigos conhecidos doscafésblasonavam de se banquetearem em festins por noite alta com parceiras condignas, sob a presidencia bisarra e liberal de Innocencio José de Barros. Gervasio não foi dos ultimos avisados da prodiga libertinagem do filho. Repreendeu-o, sem azedume, receioso de que o filho lhe replicasse: «Deixasse-me estar solteiro». Era fraco e pouco menos de estupido, além de delinquente, Gervasio José de Barros. Delinquira insinuando a violencia no tom de auctoridade paternal e coadjuvando a deslealdade de Thomazia. Estava pagando.

E dobaram-se assim trezentos dias e noites, quasi um anno, sem que Thomazia podesse relembrar dia ou noute em que não chorasse.

Em janeiro de 1845 recebeu Gervasio a nova de ter fallecido no Pará seu cunhado Luiz de Pinhel. O informador acrescentava que o maximo da herança coubera aos filhos legitimados do rico fazendeiro; isso não impedira, porém, que o finado se lembrasse de sua irmã Thomazia, a quem deixára trinta contos de réis fortes. Pedia o noticiador habilitação e poderes para liquidar, seGervasio não quizesse antes enviar directamente procurador que agenciasse a facilima cobrança.

—Deixe-me ir, meu pae! deixe-me ir a mim!—exclamou Innocencio.—Vou eu ao Pará, se me derem a procuração. Deixem-me ir, que me fazem um grande bem. Preciso sair do Porto por algum tempo. Ha muito que eu andava para pedir a meu pae que me deixasse ir ao Pará ver o tio...

Gervasio meditou, e disse:

—Pois prepara-te e vae... Queres levar tua mulher?

—Não, senhor—respondeu prompta e seccamente.—Se eu vivesse feliz, não buscaria modos de me apartar d’ella por algum tempo.

—Pois vae sósinho, filho, vae; mas tem pena da pobre rapariga. Não a trates mal agora que te retiras. Pede-te isto um velho pae que talvez não tornes a ver...

—Qual não? acudiu Innocencio—o mais tardar d’aqui a seis mezes estou aqui. Em quanto vou e venho, cançam-se de fallar de mim os canalhas dos Barcellos que me trazem entre os dentes...

—Pois vae, filho, vae, e Deus te traga com mais juizo do que levas... Agora sempre te direi que tens andado muito mal procedido por essa cidade. Os velhos do meu tempo dizem-me que estás perdido! Ainda não ha oito dias que foste visto na «Pedra Salgada» com uma corja de bebados e ladras a suciar. Chorei, e não te disse nada. Fallo n’isto agora—continuou o velho embargado a cada palavra pelos soluços—porque se eumorrer, quero que saibas e te lembres das afflicções que me causaste.

—Meu pae...—atalhou commovido Innocencio, abraçando o velho.—Se vocemecê quer, não vou.

—Vae, vae! antes por lá que por cá te deites a perder de todo. Eu cá fico a proteger a coitadita de tua mulher, que eu desgracei, pensando que a fazia feliz. Se o pae d’ella não tivesse morrido, a pobresinha da moça não estaria para ali mettida no seu quarto sempre a chorar, sem ter culpa que merecesse tal castigo.

—Se chora é porque quer—contrariou Innocencio.—Que mal lhe faço?

—Ora que mal lhe fazes!... Está bom, está bom; não questionemos, filho. Trata de te preparar, e sae no primeiro navio, que eu vou habilitar tua mãe, e arranjar-te os papeis. O que meu cunhado deixou, teu é. Vae cobral-o, e faz o que quizeres d’elle. Gasta-o em extravagancias; que tua mulher hade sempre ter o necessario para a vida. Eu não fui buscar esta menina para a fazer tua escrava. Essas contas não m’as hade pedir a alma de seus pães... isso não, que eu sou homem honrado.

Innocencio, algum tanto amollecido pelo pae a favor de Thomazia, adoçou a severidade do rosto, e foi dizer á esposa que ia ao Pará receber a parte da herança de seu tio.

Thomazia fitou-o com quanta serenidade de semblante podia melhor traduzir a nenhuma importancia da inesperadanoticia. Muito fez ella em não deixar transluzir o contentamento que lhe illuminou a escuridão da alma.

Innocencio reparou na placidez de sua mulher, e avincou a testa.

—Não dizes nada?!—proseguiu.

—Que queres que te diga?

—Não se te importa que eu vá... Estás morta por me vêr pelas costas...

—Não...—volveu Thomazia n’um tom que substituia a mais affirmativa resposta—se tu queres ir, que hei de eu dizer?...

Riu-se rispidamente o marido, e replicou:

—Sempre me tens um amor que nunca se viu coisa assim!

—E o teu? é um amor muito grande, não é?—redarguiu ella, retribuindo-lhe o riso ironico.

—É o que me faltava!... estar eu a apaixonar-me por ti!... Se eu fosse tolo!...

Thomazia curvou-se sobre a almofada da costura e continuou a trabalhar, com os olhos embaciados e a mão tremente.

O marido saiu, depois de bater o pé rijamente no sobrado. Era uma frase de arrebatada colera aquelle bater de pé! O vigor da cabeça não podia sair-se com tão estrondosa objurgatoria! Os pés, n’alguns individuos, são como a arte da rethorica para a eloquencia.

Á volta de nove dias, Innocencio José de Barros fez-se de véla para o Pará na barcaRomeu I. Despedira-seseccamente da esposa que ainda teve lagrimas ao abraçal-o, e coração com palpitações que o maravilharam. Thomazia, n’aquelle lance, presagiou que o não tornaria a vêr. Sentiu a saudade que deixam propriamente os maridos mortos ás viuvas que mortificaram.

Saudade, porém, foi aquella tão boa de levar, que, no breve termo de duas semanas, a resignada consorte, se queria odiar a imagem do marido, bastava-lhe recordar os derradeiros transes de Custodia. D’este rancor aquinhoava bastantemente o sogro; todavia, as maneiras meigas e tristes do velho com ella quebravam-n’a até o extremo de a enternecerem como filha.

Restaurado o socego de Gervasio, renasceram-lhe os antigos e aprasiveis affectos ás franciscanadas do Reimão e do theatro de tarde. A mulher já não ia de bom animo a taes delicias; mas, para divertir o espirito fatigado de seu homem, sacrificava-se ás digestões preguiçosas do anho assado e do savel de escabeche.

Thomazia recusou-se moderadamente a sair de casa no primeiro mez da ausencia do marido; mas, instada pelo sogro, condescendeu, honestando o seu apparecimento em publico no grave envoltorio da mantilha—deliberação que muito agradou á madrinha e mais senhoras.

Acertou de laurear-se então a scena portugueza, e nomeadamente o palco de S. João, com a carnificina dos meninos que ameaçavam a dinastia do rei de Jerusalem.A «Degolação dos Innocentes» vista seis vezes a fio pela familia das Cangostas, á setima representação desentranhou ainda novidades, peripecias e frases que arrancavam novas lagrimas e novos raptos de admiração áquella familia.

Quando a sensibilidade, á oitava recita, estava, para assim dizer, já moida, Gervasio animou-se a intervalar o odio á truculencia de Herodes com alguma golosina. Discutiram pacificamente Gervasio e a mulher se devia ser anho ou perua a victima immolada. O cordeiro era os amores, a sensualidade gastrica do negociante, que se abonava com o exemplo do divino Mestre e dos apostolos.

Amanharam as irmãs o anho, e deram com elle, loirejando sobre almofada de açafroado arroz, no camarote de terceira ordem.

Então succederam as coisas referidas naIntroducção, mas é urgente complanar uma lacuna que se deixou para esta opportunidade.

A esposa de Innocencio acceitou com bastante pejo a porção do anho que seu sogro lhe ministrou. Segredava-lhe certo instincto que a usança de merendar tão succosas vitualhas n’um camarote, implicava desaire de senhoras e risota de alguns dandis que zombeteavam dos innocentes prazeres de seus paes.

Não obstante, acceitou por condescendencia, pedindo a um irmão do sogro que cortasse da pá do cordeirinho offerecida um pequeno bocado.

O velho, como não atinasse a cortar com a faca pelasfibras ligamentosas da articulação, revirou os punhos do casaco, e forcejou por desnocar a pulso um osso do outro. No acto de estalarem as cartilagens, saltou-lhe da mão a pá, e caiu por cima do parapeito do camarote á platéa.

As senhoras encolheram-se de puro envergonhadas, e Thomazinha chegou a expedir um ai. Gervasio, porém, não deu valor ao successo, e proseguiu lascando a caveira do anho, em cata dos miolos. Esta suada operação estava Gervasio victoriando, quando Antonio Joaquim, Nicoláo de Almeida e eu assomamos no limiar do camarote.


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