CAPITULO XIII

CAPITULO XIII

Argumento

A mulher fatal. Thomazia cantada nas margens do Mondego. O que Nicoláo era capaz de fazer e o que fez. O juizo do meu bom amigo Antonio Joaquim. Descreve-se o fidalgo de Caminha, e diz-se que ella o tinha de memoria pelos motivos que no capitulo se relatam. O que Thomazia fez ao outro dia. Começa o namoro como se estivesse a fazer crise. Anceia um confidente que o diabo lhe depara na pessoa de um marceneiro. Addição d’um aguadeiro á confidencia. Topicos da primeira carta. O singelo estilo que inspira um amor sincero. Ao fim de sete cartas, é dispensado o gallego e substituido por escada mais intelligente. Chore quem poder.

A mulher fatal. Thomazia cantada nas margens do Mondego. O que Nicoláo era capaz de fazer e o que fez. O juizo do meu bom amigo Antonio Joaquim. Descreve-se o fidalgo de Caminha, e diz-se que ella o tinha de memoria pelos motivos que no capitulo se relatam. O que Thomazia fez ao outro dia. Começa o namoro como se estivesse a fazer crise. Anceia um confidente que o diabo lhe depara na pessoa de um marceneiro. Addição d’um aguadeiro á confidencia. Topicos da primeira carta. O singelo estilo que inspira um amor sincero. Ao fim de sete cartas, é dispensado o gallego e substituido por escada mais intelligente. Chore quem poder.

Era pois aquella a mulher fatal que Nicoláo d’Almeida tinha visto anno e meio antes em Caminha.

Ella alli estava, a vaga imagem que a miudo lhe alumiava os sonhos e perturbára as vigilias. Ali estava aEstellaque lhe tinha sido o titulo e sagração de muitas poesias que os seus amigos liamos admirados da frugalidade com que aquelle espirito se alimentava. Este ideal da mulher foi o do meu tempo em Coimbra: o ideal de hoje em dia não me lembro de o ter visto maltrapido com as meias e capas laceradas do meu tempo. Urgia que os academicos se anafassem e lustrassem agrenha como cosinheira em domingo, para que as ideas de Goettingue, entrajadas de lantejoulas, se enamorassem de rapazes tão de sua feição e peso.

Como disse, o ideal de qualquer rapaz então era a mulher.Estellatodos tinham uma; porém, tão intangivel e fugidiça como a de Nicoláo de Almeida, não sei que outro poeta a endeusasse com mais arrobado lirismo.

Eil-a pois a mulher fatal!

O fidalgo de Monção, no dia seguinte, disse a Antonio Joaquim:

—Que julgas tu que sou capaz de fazer por aquella mulher?

—Asneiras superiores ao meu calculo—respondeu o meu discreto amigo.

—Arrebatal-a, e estrangulal-a, se me perseguirem e eu me vir em risco de a perder.

—Vês?—tornou Antonio—ahi está uma parvoiçada a que não chegava o arrojo da minha imaginação! Arrebatal-a e estrangulal-a!... Não és rapaz de meias medidas. Faltou-te, no programma, enterral-a. É preciso enterral-a; e depois uma sangoeira de vampiro. Vaes por noute morta ao cemiterio e sugas-lhe as arterias.

—Não podes entender-me: és bom rapaz; mas não conheço coração mais estupido que o teu!—atalhou o academico, com um surriso em que reçumava o despeito delicado.

—Não é estúpido, quanto cuidas—contradisse gravemente o meu atilado amigo.—Tem um vicio que vocêsalcunham de estupidez: o vicio da virtude. Condemno com quanta sinceridade posso essa cruel brincadeira que tu chamas fatalidade. Já me disseste que é casada a mulher.

—Que me faz isso a mim?!—obviou Nicoláo sem tergiversar na pròtervia da refutação.—Eu sei lá o que é ser casada a mulher onde está uma alma que me pertence?

—Então a alma da mulher de um tal Innocencio pertence-te?!

—Não zombes!

—Pois tu crês que possa sustentar-se comtigo um dialogo serio? Que distincções estás ahi talhando entre corpo e alma!... Não me atarantes com subtilezas. Agacha-te ao raso do meu entendimento. A mulher é casada ou não?

—É.

—Então, deixa-a; porque não sabes quantas desgraças evitas á mulher que amas. Deixa-a em virtude do amor que lhe tens.

Nicoláo de Almeida apertou a mão do amigo e despediu-se, concluindo:

—Não vives n’este mundo. Eu, se tivesse mulher e filhos, em vez de andar semeando moral, estava ao pé dos meus filhos e da minha mulher. Adeus.

Alludia á situação ridicula de bom esposo e pae, que era já então Antonio Joaquim.

Thomazia reconheceu no camarote o moço que a seguira e indirectamente flagellára em Caminha. Não eraelle tão pouco assignalado de graças impressivas que dezoito mezes podessem delir-lhe a imagem.

Pungia-lhe a pennugem do bigode, bem que já tivesse vinte e dois annos. A magresa realçava-lhe a elegancia. Era pallido, negrejavam-lhe cabellos e olhos; a pequena bocca, surrindo infantilmente, quando dizia coisas nada innocentes, entre-mostrava o esmalte da dentadura primorosa.

Mão e pé, bem que eu os tenha em conta de attributos para rir n’um homem quando se encarecem pela pequeneza, não desdiriam com as fórmas da mais fidalga constructura de dama. Não sei se D. Thomazia deu tino, em Caminha, das bonitas extremidades do seu enlevado idolatra; mas já o leitor sabe que ella distinguira o pequenino pé de João da Costa Guimarães, de ominosa recordação.

O certo é que se recordou de o ter visto, e recordou-se tambem de ser aquella uma figura que lhe passava na fantasia, quando se lembrava das primeiras contendas com seu marido. Não porque a impressão lhe entalhasse a imagem na retina dos olhos d’alma; senão que, á semelhança de todas as mulheres, Thomazia comprazia-se de recordar o primeiro causador dos seus desgostos, com a certeza de que seu marido não se enganára, considerando-o apaixonado instantaneamente d’ella. Compensações que aligeiram o pezo da cruz do ciume nos debeis hombros das esposas innocentes.

Não admira que Thomazia adormecesse de madrugada a ver nas trevas o reapparecimento do extatico moçode Caminha, e a ouvir-lhe a voz insinuante e argentina, ao envez da pronuncia gosmenta de seu marido e parentes. Alvoreceu-lhe, apoz um dormir inquieto, a imagem do sonho cortado pelo raio de sol que lhe tocou nas palpebras e afugentou o somno. Levantou-se. Sentiu-se leve, nova, reflorecida ao calor da juventude, desejosa de se mirar no espelho, a cuidar que via flores, a imaginar-se solteira, desligada de juramentos que a maneatavam, a conhecer que a alma batia as azas para voar longe, a gosar-se do prazer de estar sosinha, de scismar sosinha, de não ter ninguem que soubesse traduzir-lhe nos olhos o doce alvoroço do coração.

—Tanta coisa!—diz a leitora esquecida do que sentiu, ou ignorante do que ainda hade sentir.

E o mais? e a satisfação com que ella depois se ria, com as trez velhas, da graça que teve o rapaz de levar o osso! E a delicadeza de offerecer o carroção! E a generosidade que elle teve de dar cinco cruzados novos ao carreiro!

Este ultimo heroismo foi citado com superior enthusiasmo por D. Florencia. O carreiro tinha revelado a Gervasio a sua fortuna, quando o commerciante lhe quiz pagar.

E, depois, Thomazia deu tamanha elasticidade ao caso que não teve aquella imaginosa familia outro assumpto n’aquelle dia; salvo, quando a mãe de Innocencio expedia um suspiro, e murmurava:

—Muito se riria o nosso menino, se cá estivesse! Meu pobre filho! onde estarás tu agora!...

As duas tias concentravam-se a resar para que Deus levasse o sobrinho a porto de salvamento, e a esposa quedava-se calada e pensativa a dialogar comsigo sobre o caso graciosissimo do osso.

No fim da tarde, Thomazia e a sogra, ao despegar da agulha, foram á janella. A esposa de Innocencio olhou sem intenção para a loja de um enxabellador que morava defronte, e reconheceu o rapaz de Caminha. Nicoláo de Almeida examinava, escolhia e comprava cadeiras, commodas, canapés, o que se lhe offerecia. O que elle comprava melhor, e por alto preço, era o tempo que se detinha, á espera da incerta occasião de ver Thomazia.

E ella, quando o avistou na quasi escuridade da loja, não disse nada á sogra: perfilou o rosto voltado para a velha, e poz os olhos de envez para elle.

Nicoláo quedou-se contemplativo. O marceneiro observava o enlevo, e, contente do freguez, tinha vontade de ser interrogado ácerca da sua visinha para ser prestavel com as suas informações. Já o bacharel sabia o essencial. Nada perguntava: seria enxovalhar o assumpto rebaixal-o a tal interlocutor.

No entanto, a velha saiu da janella, e a nova, retraindo-se um passo, ficou de modo que era vista, entre as duas portadas que iam fechar-se. Nicoláo esperou que ella desapparecesse detraz dos vidros e saiu.

—Careço de um confidente—disse elle de si comsigo no dia immediato.—Arrisco muito; mas, se o não tiver, posso perder tudo. É questão de vida ou morte para mim o desenlace d’isto. Dou punhados de ouro paraque ella saiba que eu heide matar-me na hora em que me disser que me não ama. Onde irei comprar um medianeiro?

Chegava o marceneiro ao hotel do Pexe, na Feira das Caixas, com gallegos carregados de mobilia. Nicoláo não sabia ainda para que comprára cadeiras e canapés, tremós e commodas. Mandou arrimar as alfaias no pateo do hotel. Chamou ao seu quarto o artista, pagou sem glosar a somma das parcellas, entrou em conversação com o homem, e abriu-lhe margem a contar-lhe sua vida. João Ferreira tinha duas filhas casadas com officiaes do seu officio, e a terceira estava para casar com um regente de um cartorio de escrivão de direito. O regente queria que elle dotasse a filha com uma mobilia completa de sala e dois quartos.

Lastimava-se o pae de não poder dispender-se em mais duzentos mil réis, importancia dos trastes. Nicoláo de Almeida poz-lhe a mão no hombro e disse:

—Senhor João Ferreira, a mobilia de sua filha está no pateo d’este hotel. Faço-lhe presente d’ella: mande-a buscar, que me dá n’isso muita satisfação.

—Pois vossa excellencia...—tartamudeou o artista.

—Disse. Mande-a buscar. Se não for bastante; e á vontade do seu futuro genro, augmente-a por minha conta.

O marceneiro quiz beijar-lhe a mão e abraçar-lhe os joelhos.

—Então vossa excellencia não precisava dos trastes..?—exclamou elle, fitando-o penetrantemente, como se lhe dissésse: «já entendo...»

—Não: digo-lhe, sem receio de que me denuncie, que não precisava dos moveis. Fui a sua casa para ver a senhora que móra de fronte...

—A mulher do Barros...—atalhou o artista surrindo—olhe que eu tambem o desconfiei...Não, que belleza assim!...

Nicoláo carregou sobrôlho á profanação, e João Ferreira estacou, suspeitando que se adeantára de mais.

—Vocemecê—disse o fidalgo de Caminha reanimando o interlocutor—pode fazer-me um serviço grande, sem o maior incommodo?

—O que vossa excellencia quizer e eu puder.

—Consegue que algum criado ou criada d’essa senhora lhe entregue uma carta?

Reflectiu dois segundos o pae da futura esposa do regente de cartorio, e disse:

—Está vossa excellencia servido. A carta hade entregar-lh’a o aguadeiro.

—A quem vocemecê dará esta recompensa.—E tirou um guinéo da bolça de prata.

—Isto dá p’ra dez vezes...—disse o marceneiro alargando as ridentes bochechas.

—Não, senhor: ordeno que seja a primeira gratificação de quem entregar a carta.

Estava já escripta. Fôra o dulcissimo lavor e fructo da noite desvelada. Eram dez paginas em 4.º grande. Uma biographia escripta com a sublimidade singela que todas as almas percebem, maiormente as almas amantes ou propensas ao amor.

Ao outro dia, ás dez horas da manhã, D. Thomazia (que presentimento!) como ouvisse os passos do aguadeiro, saíu ao mainel da escada para lhe encommendar que comprasse na loja do Antonio das Alminhas uma caixa de agulhas n.º 7. O gallego sacou de entre o collete e a camisa a carta embrulhada n’uma gaseta, e entregou-lh’a tregeitando com os olhos o misterio clandestino do acto.

—Que é?!—disse a senhora.

O aguadeiro sacudiu a cabeça, fechando um olho, como quem diz que não eram necessarias nem opportunas as explicações.

Thomazia, com as pernas tremulas e o coração em saltos, fechou-se no seu quarto e leu.

Topicos essenciaes da carta: A sêde d’amor que abrasava desde a primeira mocidade a alma de um rapaz para quem todas as mulheres conhecidas se figuravam o ludibrio das suas esperanças. O encontro nas ribas do mar, em Caminha. A saudade e a desesperação de a tornar a ver. As noites solitarias de Coimbra e as lagrimas com que elle pedia a Deus a segunda visão do anjo, embora o fulminasse a desgraça no restante da sua vida. A reapparição no theatro. O recrudescer do amor com o proposito inabalavel de se matar, e esperal-a no céo. As mais pungitivas paginas, porém, eram as da narrativa da sua mocidade, sem pae nem mãe aos seis annos, rico dos bens inuteis d’este mundo, e mendigo dos carinhos de uma alma que lhe ensinasse os nomes e sentimentos sagrados da familia, as ternuras da intimidade.Aqui, Thomazia não teve as lagrimas. Compreendeu aquella orfandade, e chorou por seus paes, como se dias antes tivesse visto sair os dois esquifes.

O abalo fôra profundo. Amava-o. Desde que alimpou os olhos para poder ler a ultima pagina da carta, amava-o, renascia, via ali um amigo sem ver ainda o amante, não sabia nem queria entender a sua posição social, não tinha marido nem deveres: era mulher, era uma alma sósinha, a quem tanto montava alar-se para o céo como descer ao abismo.

Não fio que estas frases lhe adejassem no espirito; mas o conceito, a interpretação do seu delicioso devaneio, depois de relida a carta, cifrava n’aquillo.

Respondeu sem medo nem consultar vocabularios. Poucas linhas, e essas, por milagre do amor, quasi correctas. «Vivo muito infeliz—escrevia ella.—Não tenho alegria nenhuma, senão quando leio esta carta que me faz chorar. Não ter pae nem mãe é a maior pobreza d’este mundo. Agora é que eu sei quanto perdi, por que as suas palavras o explicam de um modo tão verdadeiro, como eu poderia dizer, se soubesse escrever. Peço-lhe que me continue a dar o prazer das suas cartas, em quanto alguma desgraça me não privar de as receber. Sou tão sua amiga como uma irmã que não tem mais ninguem. Seja meu amigo.»

Passados quinze dias, Gervasio José de Barros e um irmão com as duas irmãs foram fazer a vindima ás quintas do Pinhão. Motivou uma leve enfermidade da velha D. Thomazia, ficar no Porto o restante da familia.

N’este tempo, o aguadeiro sentira sete vezes a satisfação de trocar uma carta por outra. Entreviam-se a miudo, sem escandalo dos visinhos. A residencia de Nicoláo, durante o dia, era no segundo andar da casa do marceneiro. João Ferreira pagava exuberantemente a dadiva dos trastes, e outras que tornavam a noiva do cartorario cada dia mais rica de seducções á cobiça do seu amado.

O jantar do hospede vinha do hotel com o resguardo conveniente para não suggerir desconfianças. O marceneiro e a filha engordavam a ôlho, de feição que os seios da moça, já de seu natural entumecidos, ganhavam volume que promettia uma ubérrima creadora de filhos, e regalo de lubricos devaneios ao amor licito do regente do tabellionato.

De noite, Nicoláo de Almeida saia embuçado, e recolhia-se ao hotel de Pexe a inventariar os jubilos do dia.

Mas succedeu uma vez que o inventariante dos jubilos diurnos em vez de encaminhar-se para o hotel, ao dar da meia noite, cingiu-se com a parede da casa fronteira, esperou minutos, abriu-se subtilmente a janella do 1.º andar, içou-se sem leve rumor uma corda por uma guita, e um homem pela corda, e a corda seguiu o homem, e fechou-se a janella.

O marceneiro fechou então vagarosamente a sua porta, esfregou as mãos satisfatoriamente e disse:

—Foi muito bem!

Era o jubilo artistico de ter tecido a corda e entravado os ganchos, e disposto as travessas em boas proporções, que foi um gosto ver Nicoláo de Almeida marinhar á janella sem dar de si, nem levemente torcer-se a escada.


Back to IndexNext