CAPITULO XIV
Argumento
Invocação ao anjo do pudor.
Anjo do pudor, embrulha a cabeça nas tuas azas!
Libra-te nas regiões ethéreas onde ainda existe a virtude dos passaros.
Não vás, no tribunal da justiça divina, offerecer libello contra a peccadora da rua das Cangostas.
Anjo do pudor, não te vingues n’ella das desfeitas que recebes desde Bethsabé.
Muitas sei eu que te esbofetearam, ó anjo, e praticam a villanaz hipocrisia de nos querer embair que ainda estás com ellas.
Vae dizer ao supremo juiz que ponha os olhos da sua ira nas que farçanteam no tablado do mundo cobrindo a nudez das Faustinas com a tunica pudica das Porcias.
Repara, ó doce amigo das santas—nem Cortonas, nem Egipciacas, nem Magdalenas—repara, anjo do pudor, que umas de quem tu fugiste, mais enjoado que lagrimoso, dispensam a tua fiscalisação, e cospem injurias n’outras, cujas faces, tu, uma vez por outra, ainda aqueces.
E tu consentes que ellas blasonem e digam que és tu quem lhes volta o rosto das que desamparaste.
Não refines o travor do calix a umas que deram o coração ao remorso, depois que as tuas alegrias se lhes desluziram da consciencia.
Vae, anjo do pudor, embióca-te nas tuas azas, diz ás matronas honestas do reino celestial que não contem com Thomazia; mas não vás tu fazer grandes escarcéos lá em cima, que ha de ahi estar muita alma circumspecta que te diga: «Ora vamos! não berres tanto, que estão aqui muitas senhoras a quem estás offendendo por tabella.»
E mais te digo, anjo do meu maior acatamento, que não ha de ti cá em baixo a necessidade que presumpçosamente cuidas.
A tua fugida não faz revoluções nem abala os eixos sociaes. Ninguem dá tento da tua ausencia, quando saes de uma casa com a cara velada, e ao mesmo passo entra a fortuna com a cornucopia. Os próceres do nosso esterquilinio, quando saltam das suas berlindas ao peristilo das Lesbias, não perguntam se tu estás lá dentro.
Os moralistas tambem lá vão, e dizem entre si que tu és bonito, em quanto a impudicicia, carminando a cara que tu purpurejavas com o reflexo das tuas azas, os faz acreditar que apenas és necessario ás meninas de dez annos para que não digam ás mamãs, deante de gente de fóra, que hão de casar e ter filhinhos.
Vê tu, anjo do pudor, que, d’aqui a pouco, escassamente serás invocado pelos romancistas, e contado pelosdedos nas rimas dos poetas, por que acertaste de rimar com muita coisa.
Emfim, meu sensivel anjo, sê equitativo para ser justo. Atira-me abaixo do pedestal as devassas que te bigodeiam; e, depois, querella de Thomazia das Cangostas.Fiat justitia.