CAPITULO XIX

CAPITULO XIX

Argumento

João Ferreira vae na piugada dos fugitivos levando a nova da viuvez a D. Thomazia. A viuva fica satisfeita ao que parece. Noite de pezames na casa das Cangostas. Revelações do commendador Batalha, negociante probo e honesto da Praça do Porto. O que elle diz de Thomazia, e o que os outros dizem d’elle e da mulher. Sucia de patifes e burros. Gervasio declara que não tem nada de seu, por temer que a nora o queira roubar. Suspendem-se-lhe as lagrimas na repreza do odio. Abraça-se á mulher, quando as visitas o deixam e desafoga a sua dôr por maneira consternadora. E do mais que consta o capitulo abaixo declarado.

João Ferreira vae na piugada dos fugitivos levando a nova da viuvez a D. Thomazia. A viuva fica satisfeita ao que parece. Noite de pezames na casa das Cangostas. Revelações do commendador Batalha, negociante probo e honesto da Praça do Porto. O que elle diz de Thomazia, e o que os outros dizem d’elle e da mulher. Sucia de patifes e burros. Gervasio declara que não tem nada de seu, por temer que a nora o queira roubar. Suspendem-se-lhe as lagrimas na repreza do odio. Abraça-se á mulher, quando as visitas o deixam e desafoga a sua dôr por maneira consternadora. E do mais que consta o capitulo abaixo declarado.

Meia hora depois, João Ferreira, o devotado marceneiro, chegou esbofado ao hotel do Pexe, endireitou aos aposentos de Nicoláo d’Almeida; e como o não visse no quarto, perguntou afflicto ao criado:

—O fidalgo de Caminha?

—Chegou aqui, mandou apparelhar os cavallos e partiu.

—Para onde!

—Não sei.

—Iria para Caminha?

—Não sei.

O artista pediu ao dono do hotel que lhe alugasse cavallo para ir levar uma urgente noticia ao fidalgo; mandou recado á filha, e partiu na piugada de Nicoláo, caminho de Villa do Conde.

Ao abrir da manhã, avistou além de Casal de Pedro os dois cavalleiros, que reconheceu pela libré do lacaio. Nicoláo ouviu brados á rectaguarda. Parou, deixou avisinhar o cavalleiro que batia as pernas á espora fita, e reconheceu o marceneiro.

—Que ha?—perguntou Almeida, a distancia.

—Que ha? morreu o senhor Innocencio.

—Como?!—volveu Nicoláo, em quanto a viuva, a tremer sobre as andilhas, abafa o respirar para não perder uma sillaba das palavras de João Ferreira.

—Lembra-se vossa excellencia quando a minha filha disse que ia entrando muita gente para casa da senhora D. Thomazinha?

—Sim.

—Eram negociantes que acompanhavam o senhor Gervasio, onde vinham dois que desembarcaram e trouxeram a noticia de ter morrido na França o senhor Innocencio. Assim que vossa excellencia saiu e mais a senhora, d’ali a pouco, fecharam-se as janellas. Eu disse logo á minha companheira: «Ó mulher, aquillo é novidade! pois com este calor fecham já as janellas!»—«Que queres tu? (disse ella). Se te parece!... Fugiu-lhe a nora, elles não sabem d’ella... estão a gritar, e fecham as janellas por isso.» «Não (disse eu) ali ha coisa de maior!» Tirei-me dos meus cuidados e desci árua. Cheguei-me a uns senhores que estavam á porta do senhor Gervasio, e perguntei se havia alguma novidade.—Morreu no Havre (acho que disse isto) o Innocencio de Barros. N’isto vinha saindo um sujeito, e disse aos que estavam: «Vocês não sabem? A mulher do Innocencio fugiu esta noute. Vae lá em cima uma barafunda de gritos que nem o diabo se entende! As velhas estão todas desmaiadas; o Gervasio está n’um pasmo mortal. Desgraça d’este calibre, nunca eu vi!»—Puz-me á espreita a ver o mais que diziam uns que vinham e outros que iam, e contavam a mesma coisa. Só houve um que disse: «Se querem saber onde está a mulher de Innocencio, procurem-n’a no hotel do Pexe, que móra lá o brejeiro (vossa excellencia hade perdoar) que lhe andava por aqui a raspar a asa. Eu bem n’o disse, mas ninguem fez caso. Melhor fizera eu, se tivesse avisado o Gervasio.» «Não, que a esse respeito (disse outro d’ali, que por signal era o commendador Batalha) a esse respeito eu lhe conto: não ha muito que eu estava aqui na visinhança mettido n’um pateo á meia noute e um quarto, pouco mais ou menos, e vi botar uma escada de corda a esta janella, e subir um homem, e metter-se lá para dentro, e mais a corda.»—«E você calou-se com isso?—Veio d’alli outro.—«Calei-me, respondeu o Batalha, porque não sou o almotacé das honras alheias; cada qual que guarde a sua casa.»

Eu assim que ouvi isto, meu fidalgo, despedi por ali arriba, que não sei como não botei os fidalgos pela bocca fóra... Depois, foi um raio por essa estrada fóra catrapós,que trago aqui o garrano a dar as ultimas. Aqui tem vossa excellencia o que ha. Sirvo para amigo ou não?

—É um bom, e não sei se o meu unico amigo, senhor Ferreira—disse Nicoláo, apertando-lhe a mão.

—Não ouviu dizer nada do meu filhinho?—perguntou a viuva.

—Não, minha senhora. Ninguem lá fallou no menino.

—E agora? que fazes, Nicoláo?—tornou ella, voltando-se para o pae de seu filho.

—Tudo estava salvo, se não foges... murmurou o de Caminha muito concentrado.

—Mas posso agora ir... acudiu ella.

—Segundo desatino—obstou Nicoláo.—Estás prohibida de deliberar, minha filha—proseguiu o moço em tom de suave preceito.—Senhor Ferreira, siga-nos para Villa do Conde: lá pensaremos. Não ha razões para precipitar qualquer resolução. Estás viuva, estás livre, Thomazia. O teu filho has de reclamal-o: ninguem tem mais direito do que tu a possuil-o. Agora estão as leis por ti. Socega. É uma questão de pouco tempo.

Deixal-a expandir agora a sua silenciosa alegria. Aquillo sim, que é tragar liberdade a sorvos deliciosos. Se ali não fossem duas testemunhas dos seus transportes, Thomazia pediria a Nicoláo que a deixasse desafogar em gritos de exultação bem aconchegada do seio d’elle. O filhinho é d’ella: disse-lh’o tão sobre o seguro o pae! É seu: dentro em pouco, poderá despir-lhe o lucto; e, quando elle souber proferir a palavrapae, ninguem lhedirámorreu! Que lhe faz a ella que a riqueza de Gervasio não seja para seu filho? O pae é tão rico, é tão brioso, que não ha de querer que o seu menino se appellideBarrospara succeder na herança de algumas duzias de contos! Fluctuando de idéa em idéa, disputada por uma á alegria da outra, de vez em quando foge-lhe um suspiro desafogado por entre surrisos que lhe desbordam do seio.

Nicoláo, porém, vae triste: sente cair-lhe e queimar-lhe sobre o coração uma torrente de lagrimas; relucta por tirar a consciencia de sob o peso d’um cadaver. Quer elle imaginar que a sua misteriosa amargura são parvulesas de poeta, e de amador novel que ainda não tem abroquellado o peito para rebater os golpes do remorso. Quer e succumbe. Vae pois mais amargurado do que virera até ao momento em que lhe disseram: Caminha a passo; não fujas; que o marido d’essa mulher é morto; e o deshonrado pae que ficou a choral-o é um ancião.

Ai! e como o deploravel velho chorava, apertando ao seio a creancinha, n’aquella hora!

—Não tens pae nem mãe!—exclamava elle com a eloquencia nascida a subitas das ingentisssimas agonias.—Como ella te deixou, anjinho, entregue a uns velhos que não podem viver muito!...

E o commendador Batalha, que não o desamparára em todo o curso da noite, dizia-lhe:

—Deixal-a ir: nunca este menino saiba que teve talmãe! E guarde-se de que essa infame lhe entre a sua porta. Ella hoje é capaz de vir buscar o filho e chamar-se senhora da fortuna que hade ser d’elle e da que lhe cabe.

—Ella!—exclamou de salto o velho—ella pôr mão em dinheiro do meu filho e do meu neto!... Isso é mais facil eu ajuntar o valor de tudo que tenho n’esta casa, e pôr-lhe o fogo! Sou capaz de o fazer... E de mais—proseguiu Gervasio subitamente inspirado e mais energico para que todos ouvissem—não tenho nada de meu. Tudo o que ahi está é os dotes de meus irmãos e irmãs. Não tenho nada que dar a essa mulher...

—Mas que ingrata!—dizia D. Thomazia, na saleta visinha, entre soluços, á esposa do commendador Batalha—que ingrata aquella!... Trazel-a eu pobresinha, creal-a, dar-lhe o meu filho... o meu querido filho... que eu não torno a ver...—e lançava-se por terra, ferindo o rosto nas cadeiras, e escabujando nos braços das cunhadas, que mal podiam acudir aos transes alheios.

—Eu já soube esta noite lá fóra quem era o tal desaforado—dizia o commendador ao auditorio funebre, que de vez em quando intermittia no estilo elegiaco algumas diatribes politicas a José Passos e outros propugnadores da revolução de maio d’aquelle anno—bem sei quem elle era... e agora me arrepello de não ter avisado este pobre chefe de familia; que eu bem o vi subir pela escada de corda...

—Havia de ser—disse o negociante Abreu ao ouvido do negociante Leite—havia de ser quando elle se preparavapara subir pela escada de páo, e não de córda, para o quarto da mulher do Simão Lopes que mora trez portas abaixo do lado de lá.

—Pois era isso...—confirmou o negociante Leite—eu já de lá o vi sair de madrugada, e ás dez horas encontrei-o no escriptorio do Simão a dizer que o mundo estava desmoralisado, e que sabia de trez infames mulheres casadas que traziam nas praças e nos cafés a honra dos seus maridos ás vaias dos folhetinistas e d’outros calafrios d’esta laia.

—Pois aquillo é um tratante!... Olha, olha, como elle se explica.

—Estes malvados—proseguia o commendador Batalha, batendo murros nas proprias pernas—estes malvados que desviam do seu dever as senhoras honestas, e cavam a ruina domestica das familias, deviam ser mortos a tiro como cães damnados. E ellas então? eu, todos sabem que sou casado. Graças aos céos, topei mulher que me deixa andar com a cara descoberta...

—Aquillo é mentira—disse o negociante Abreu ao ouvido do negociante Leite.

—Ora diz-m’o a mim!—segredou o outro.—A casa d’elle ninguem sobe com escada de corda, por que a estrada para o coração da mulher é pela trapeira, ha mais de doze annos. Bem sabes que o Raimundo Braga, visinho d’ella...

—Se sei!... Deixa-m’o ouvir.

O commendador saltára do assumpto, por que um dosauditores tinha escarrado, querendo chamar com tão indecente signal a attenção de Leite e d’Abreu.

—Faz o senhor Gervasio o que deve em não consentir que essa mulher perdida lhe entre em casa, nem leve o pequeno—proseguiu o commendador, solicitando com os circumvagantes olhos o apoio do auditorio.—Segure-se, e quanto antes, meu amigo. Estamos aqui todos promptos para tudo que fôr necessario. Não sei se o troca-tintas do seductor tem de seu; mas acho que pouco terá. É d’estes cavalheirotes de aldeia que colhem cem rasas de milho, e vendem quatro arvores quando vem ao Porto. Se é o que eu penso, elle hade querer comer d’ella, e não tarda por ahi a justiça a vir intimal-o para inventario.

—A mim?—atalhou Gervasio—está bem servida a justiça comigo! Já disse que não tenho nada de meu. Devo a cada um de quatro irmãos que ahi estão dez mil crusados de dote afóra os juros. As quintas do Douro estão captivas dos dotes, e mais esta casa. O vinho que por ahi está nos armazens já o vendi. Estou sem nada, logo que pagar o que devo.

—Faz muito bem!—obtemperou radiosamente o commendador—assim é que se ensinam os bigorrilhas e as... e as... adulteras.

—Não sabe o nome da mulher d’elle...—cochichou Abreu á orelha de Leite.

—É mais burro que honrado—addicionou o outro.

Esta farça funebre de pesames, cuja exactidão careciade mais espaço e relêvo, passava assim n’um lance de supremo infortunio. As lagrimas intermitentes de Gervasio tinham perdido toda a sua pungitiva uncção. Quem ali fosse para compenetrar-se do funeral espectaculo de um velho, chorando um filho morto e simultaneamente infamado, sairia rindo ou amaldiçoando quem tão vilissima tempera deu ao homem.

Quando Gervasio, ao raiar do sol, sentiu pesar-lhe a cabeça carecida de repouso e a recostou para os braços cruzados sobre o peito, os hospedes evacuaram de mansinho a sala, queixando-se todos de enxaqueca, e convidando-se para ir tomar chocolate ao botequim da rua de Santo Antonio.

Gervasio sentiu que uns braços o achegavam do seio e uma face branda lhe animava as cãs. Olhou, e viu sua mulher, que lhe dizia:

—Ó meu pobre homem, se nos deixassem chorar sósinhos...

Abraçaram-se estremecidamente. As primeiras lagrimas de desafogo foram aquellas.


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