CAPITULO XX

CAPITULO XX

Argumento

De como a formosa viuva se embalava nas serenas aguas do Minho, e o que diziam a respeito de varias coisas os ditosissimos amantes. Requerimentos, embargos, accordãos e outros feitos das justiças d’estes reinos. Gervasio escapa-se com o neto. Nicoláo de Almeida prova de um modo vulgar e sabido que a sociedade devia chamar-se uma porcaria, se a palavra não fosse plebea e repugnante a ouvidos cerimoniosos. O commendador Batalha depois que revessou do bucho a ucharia encruada. As jornalistas pregoam as virtudes de Thomazia, com outras tolices ao mesmo respeito.

De como a formosa viuva se embalava nas serenas aguas do Minho, e o que diziam a respeito de varias coisas os ditosissimos amantes. Requerimentos, embargos, accordãos e outros feitos das justiças d’estes reinos. Gervasio escapa-se com o neto. Nicoláo de Almeida prova de um modo vulgar e sabido que a sociedade devia chamar-se uma porcaria, se a palavra não fosse plebea e repugnante a ouvidos cerimoniosos. O commendador Batalha depois que revessou do bucho a ucharia encruada. As jornalistas pregoam as virtudes de Thomazia, com outras tolices ao mesmo respeito.

D. Thomazia, a viuva, e Nicoláo de Almeida deliciavam-se campestremente nas inspirativas margens do rio Minho.

Vestia de crepe a formosa. Era-lhe realce o escuro. Trajada de côres festivas, a alma saía-lhe ao rosto a dar reflexos de alegria aos lutos.

Nicoláo remava no batel, por baixo de um docel de salgueiros. Os remos trapeavam cadentes, de uma ourela para outra do rio. Cada vez que aproavam a terra e abicavam por entre os bosquesinhos espelhados n’agua, saíam da frescura os rouxinões esvoaçados, e iam maislonge emboscar-se n’algum amieiral, onde a lua bem sabia que era esperada dos seus cantores nocturnos.

—És feliz?—perguntou-lhe Nicoláo secretamente vaidoso de abrir thesouros de felicidade para aquella mulher.

—Não...—murmurou ella surrindo-lhe meiguices de quem pede perdão do aggravo.—Falta-me o nosso filho.

—Não te basta a certeza de que elle hade vir?

—E a saudade? e o medo que m’o tirem ou o façam desapparecer?...

—Não ganhavam com isso nada.

—Mas se meu padrinho cuidar que elle é seu neto?...

—Nem assim lhe assiste o direito de t’o negar.

—Mas quem sabe se o Innocencio deixou alguma declaração...

—De que o filho não era d’elle?

—Sim...

—Mais forte rasão para que t’o não queiram, e comecem desde já um processo a provar a illegitimidade do filho adulterino. Seja como fôr, minha filha, lá tens optimo procurador no Porto. Póde ser que a esta hora o nosso anginho venha esvoaçando para nós. Teu sogro hade achar-te louvavel o procedimento, porque não pedes herança, nem sequer as tuas joias. Pedes o filho e renuncias a ter quinhão dos bens de teu marido.

—E se elles m’o não entregarem?

—Vou eu buscal-o. Entrarei á presença de Gervasio,e direi: «Este menino é meu filho. Não tem d’esta casa uma tabua nem um farrapo. Gosem tranquillos os seus bens de fortuna, que esta creança, quando fôr homem, nem sequer ha de saber que sua mãe foi casada com um chamado Innocencio.»

—E tu ias dizer isso?—atalhou exultantemente a viuva.

—Com toda a certeza, se o escandalo fôr necessario.

—Não ha de ser... Elles dão-me a creancinha.

O procurador de D. Thomazia apresentou ao juiz o requerimento da sua constituinte, pedindo a entrega do filho. Deferiu o juiz. Gervasio José de Barros saiu com embargos ao despacho. Allegava o porte immoral da viuva que não podia ser boa educadora do filho. Desfiavam os artigos a historia das adulteras invasões do amante por escada de corda, consoante as referira o commendador Batalha. As testemunhas de vista eram já sobejas para justificar o crime, e pelo conseguinte a devassidão da viuva, concubinaria de Nicoláo d’Almeida. Accrescentava o libello que Innocencio José de Barros morrêra de paixão e vergonha.

Foram acceitos os embargos.

O procurador aggravou: não teve provimento.

A conjuração contra Thomazia subia das praças aos tribunaes. Os juizes da Relação, no seu accordão, ajustavam á aggravante o epitheto de «infame».

Nicoláo d’Almeida, informado do despacho da causa em segunda instancia, auctorisou o procurador a declararem nome da sua constituinte que o filho de Thomazia não era filho de Innocencio.

O agente de causas foi retido pelo pudor de sua propria pessoa. Respondeu que regeitava a procuração, e difficilmente encontraria advogado que assignasse a original e de nenhum modo desculpavel declaração.

Os amigos do fidalgo admoestaram-n’o a que não expozesse o nome de D. Thomazia, se a presava tanto como era de presumir; que semelhante requerimento sobrepujava o cumulo do despejo; que, embora o mundo a considerasse criminosa, não fosse ella dobrar a fealdade da sua culpa, revelando segredos que a livelariam hombro por hombro das mulheres derrancadas até onde já não resta sentimento de vergonha.

Caiu em si Nicoláo, e voltou o espirito para a urdidura de traça heroica e summaria. Cogitava em raptar a creança.

Decorreram quinze dias de plano, em que entrava o marceneiro, auctorisado a segurar á ama do menino uma avultada independencia.

Outros quinze dias espiou João Ferreira os passos da ama. Não a viu. As janellas de Gervasio nunca mais se abriram, e as portas meio cerradas escassamente deixavam passar as visitas frequentes, os bons amigos do negociante que lhe alvidravam alienar fraudulentamente os seus haveres e mudar de paiz.

Os mais cordatos asseguravam-lhe que o direito de Thomazia á posse do filho fôra denegado iniquamente, visto que nenhum processo a espoliára dos direitos maternos:precaviam-n’o, pois, contra as novas tentativas d’ella, assim que o odio geral se desvanecesse e a lei funccionasse mais desassombrada.

Temeu o velho e abraçou o alvitre.

Deu os dotes a seus irmãos, segurados nos bens rusticos e urbanos. Liquidou as especies commerciaes, embolçou o maximo dos seus haveres em dinheiro, lavrou titulos capciosos para legalisar as vendas, e saiu furtivamente para Inglaterra com a esposa, e o seu Pedro nos braços da ama.

Raros amigos lhe souberam o destino.

Chegou a nova a Caminha, levada pelo marceneiro. Nicoláo chorou amargamente. Aquelle extremoso amor de pae entranhára-lh’o assim a Providencia para castigo. São inescrutaveis e invisiveis os caminhos por onde baixam do céo as flechas que trespassam as almas. Até succede exasperarem-se em ardor de inferno sentimentos sacratissimos! Vejam onde as chammas começaram a queimar: no coração de pae! tão sublime affecto convertido em lança penetrante!

Thomazia soffreu menos. Levantou clamores de apiedar feras, caiu sem accôrdo nos braços de Nicoláo; mas soffreu menos. Volvidos mezes, quando ella estiver esquecida do filho, Nicoláo d’Almeida, que apenas vira a creança no baptisterio, enxugará as lagrimas cada vez que vir um menino nos braços de seu pae.

Agora, leitores, deixem correr os annos. A vida vae depressa. E, nos romances, quando ella entra no trilho commum, a rapidez salva o leitor do fastio.

Em 1847 Nicoláo d’Almeida era já pae de um menino chamado Lopo. Este filho nasceu legitimo... A sã moral toma aqui ar.

Nasceu legitimo. Um sacerdote, com pouquissimo trabalho, duas frases latinas e duas portuguezas, um meneio de estola, uma benção, e de fóra os termos do ritual, duas graçolas espirituosas de sua lavra, santificou pae, mãe e filho.

Thomazia não se debulhou em lagrimas de reconhecimento. Bastava-lhe saber que era amada antes de ser esposa. O fidalgo tambem não engrandeceu o quilate do seu feito. O que elle havia dado mais valioso áquella mulher, dera-lh’o antes: a alma. O que o esposo fez de mais, foi chamar para si os tios de Thomazia, os irmãos e irmãs do bravo capitão Joaquim Alves, que eram pobres.

Um dia, em 1849, Nicoláo d’Almeida disse a Thomazia:

—O nosso filho Pedro está em Londres.

—Ah! soubeste-o?

—Disse-mo no Porto um homem que viu Gervasio de Barros em Londres.

—E que intentas fazer, meu filho?

—Que hei de eu fazer? esperar. Não questionemos a posse da creança em sacrificio ao teu nome. Quando elle poder entender-me, quando o sangue lhe agitar o coração na minha presença, então lhe direi: «sou teu pae!»

Passados instantes, tomou nos braços o pequenito Lopo, mirou-o muito de chapa, e disse, coberto de lagrimas:

—Pede a Deus que me dê o teu irmãosinho.

Thomazia cobriu o rosto com as mãos, inclinou a cabeça para o seio e soluçou, murmurando:

—Não torno a vel-o...

—Has de ver! replicou Nicoláo com vehemencia.

Em 1850, disse o fidalgo de Caminha a sua mulher:

—Faz hoje quatro annos que o teu nome no Porto era um como ferro que fazia golfar a posthêma da maledicencia d’aquelles peitos. Desejo que tu conheças de perto as cavernas onde não poude chegar a lanceta do teu nome. Ha lá dentro pus que não saiu, quando t’o cuspiram ás costas. Prepara-te. Vamos passar dois mezes ao Porto.

—Por quem és, meu filho, não vamos...—accudiu Thomazia.

—Vamos, menina. Pois não queres conhecer as delicias da rehabilitação? Sabes lá tu que prazer ensoberbece a gente, quando nos vemos de perto com os detraidores de outro tempo, e então reconhecemos quanto eramos grandes, á vista dos abjectos inimigos que tivemos?... Ir ao Porto, é coisa que eu te peço de joelhos, se fôr necessario—concluiu Nicoláo acariciando-a.

—Vamos, filho. Se me fizeram chorar, tu me consolarás.

—Quem te ha de fazer chorar? Vaes topar toda a gente á porfia de te fazer rir... E has de rir.

Era um palacio com quatro salões corridos, e doze janellas a jorrarem luz e estrondosas harmonias. As carruagens, entralhando-se á porta do palacio, despejavam commendadores relampadejantes de venéras com os braços arqueados, onde poisavam leveiras como arveolas umas mulheres que volitavam com suas azas de alvissimas gazes. As baronezas nutridas pisavam ponderosamente os tapetes do vasto peristilo do palacio, pedindo aos maridos que lhes desfizessem os refegos da saia, mas com disfarce. Um criado com borlas e galões de ouro tirava pela sineta, assim que ouvia o fremir das sedas no pateo. A meio da escada, descia então o dono da casa, um mancebo de 26 annos, pallido, de olhos negros, e surriso torvo. Inclinava-se deante das houris que iam povoar o seu paraiso, e, recurvando os braços, as conduzia até onde estava uma mulher loura, grave e linda. Então voltando-se ás senhoras, dizia com palaciano entono:

—Apresento a vossas excellencias Thomazia de Almeida, minha mulher.

E a profusão da ceia fez suppôr que Lucullo e Cresso e Apicio morreram de fome.

Um conviva, quasi afogado pela onda do champagne, e opilado de aves frias que se lhe encruavam no estomago, avençou-se com um criado para lhe ensinar a parte da casa, onde elle podesse obedecer aos impetos de um vomitorio involuntario: era o commendador Batalha.Despejada a ucharia mal esmoida que lhe tomava as cavidades intestinas, sem resalva de uma em que tivera a consciencia, foi dizer a D. Thomazia que Gervasio José de Barros, como judeu que era, alienára indignamente quanto tinha, posto o intento em roubal-a.

—Mas esteja vossa excellencia certa—acrescentava elle—de que seu filho vem a herdar o melhor de oitenta contos. Se fôr preciso, eu direi a vossa excellencia com quem foram feitos os contractos fraudulentos.

D. Thomazia não respondeu. Entreviu nos grupos o marido que a procurava com os olhos, e rebatia, cerrando os labios, o impulso do riso.

Ao outro dia, a imprensa periodica, no esmero com que cinzelou o estilo das noticias, bem deixava entender que escrevia para a eternidade.

Da dona da casa, diziam que associava á fidalguia das maneiras uma tamanha gentileza e fidalgo porte que o primor das joias riquissimas era de seus enfeites o que menos resplandecia.

Que a flôr da sociedade portuense convergira, á competencia de galas, aos salões de suas excellencias; sendo tantas as «notabilidades» que não sabia o redactor estremar primazias de bellezas e ainda menos detoilettes.

Que a elegante esposa do excellentissimo Almeida surpreenderia com as suas peregrinas graças a quem a não tivesse já admirado entre as mais preclaras formosuras do Porto, onde sua excellencia tinha nascido.

Que ás cinco da manhã parecia ter começado o baile, sendo áquella hora tal o delirio e enthusiasmo, que ospares invadiam as quatro salas, arrebatados na febre docotillon.

Que a excellentissima Thomazia d’Almeida apenas dançára duas quadrilhas, concedendo a solicitada honra de parceira aos senhores barão da Sola e visconde do Tijolo, que tiveram a fortuna de ouvir sua excellencia descrever as pittorescas orlas dos rios Lima e Minho, onde a virtuosa e abastada senhora possue riquissimas quintas.

«Suas excellencias—concluia o poeta das locaes—tencionam ainda abrir segunda vez as suas esplendidas salas na estação invernosa. Parabens á nata da esbelta cidade da Virgem! que só assim, na esperança de renovados jubilos, poderemos ir mitigando as saudades da rapida noite que hontem nos proporcionou a liberalidade e finissimo gosto d’esta fidalga familia,»etc.,etc.

Nicoláo de Almeida, lido o terceiro periodico, entre frouxos de riso, quedou-se triste e disse gravemente:

—Principia agora o nojo. Viste a sociedade, Thomazia? Estás contente com a rehabilitaçao?

Thomazia surriu-se, beijou as mãos do esposo, e respondeu:

—De que me serve a mim isto? Tu é que me fizeste o que sou...

—E receias que estas mulheres façam de ti o que ellas são?

—Não receio... tu me defenderás, meu amor.

—Entendes pois que esta gente não póde reabilitar ninguem?... Vamos então embora. Levemos o nossofilho para as arvores do Minho, que este ar tem veneno que faz mal ás creanças. Está aqui o bafejo acre da podridão interior da illustre canalha, que ha quatro annos te levaria a pontapés das portas dos juizes, se tu viesses pedir teu filho, e o filho fosse de teu marido, e não tivesses pão que lhe dar senão o dos Barros das Cangostas.


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