CAPITULO XVII

CAPITULO XVII

Argumento

Apanha a franceza um murro portuguez de lei. O esmurraçador vae comprar leques, e quando volta não acha a creatura socada. Dão-lhe uma carta, em que elle aprende miudezas do fenomeno da gestação, em que o pae o considera agente de primeira ordem. Fervem-lhe os miolos, e corre a vingar-se: Adoece no Havre de febre cerebral, e está perigoso. Chegam noticias ao Porto. Scenas pateticas. Thomazia, no auge da atarantação, perde os sentidos, e dá á luz um menino de oito mezes, em resultado do susto, que costuma aperfeiçoar obstetricamente e fenomenalmente estas coisas. Dois infernos ambos elles mais peores, como dizia o negro dos dois senhores que tinha tido.

Apanha a franceza um murro portuguez de lei. O esmurraçador vae comprar leques, e quando volta não acha a creatura socada. Dão-lhe uma carta, em que elle aprende miudezas do fenomeno da gestação, em que o pae o considera agente de primeira ordem. Fervem-lhe os miolos, e corre a vingar-se: Adoece no Havre de febre cerebral, e está perigoso. Chegam noticias ao Porto. Scenas pateticas. Thomazia, no auge da atarantação, perde os sentidos, e dá á luz um menino de oito mezes, em resultado do susto, que costuma aperfeiçoar obstetricamente e fenomenalmente estas coisas. Dois infernos ambos elles mais peores, como dizia o negro dos dois senhores que tinha tido.

Quinze dias corridos, um viajante inglez que estadeava equipagens e librés, viu a franceza no theatro Scala de Milão, e perguntou entre dois bocejos quem era aquella creatura de olhos piscos e sobrancelha negra.

Deteve-se a resposta em quanto os informadores desvelados andaram escudrinhando nos hoteis a procedencia da ditosa que se endeusára a um raio visual do ricasso bretão.

Innocencio dera trez vezes de olhos com o binoculodo inglez apontado ao seu camarote, e raciocinou que não era elle de si objecto para attenções tão pertinazes. Antes do acto 3.º convidou a franceza a sair; mas a rebelde rejeitou o convite, desculpando-se com o amor da musica. Ia cantar a Ferlotti a romanza da Favorita:Ó mio Fernando. O galã portuense trincou o beiço com desamor e raiva tal, que apertaria mais brando o dente iracundo no coração de Jacqueline.

Concluida a opera, sairam amuados e desavieram-se em casa pela primeira vez. A franceza descomediu-se em remoques e desabrimentos. Innocencio amava das entranhas aquella mulher que lh’as cancerára. Do muito amar ao injuriar por ciumes, medeia meio passo: o bater está linhas adeante. A franceza apanhou um revez de mão portuense que corresponde ao murro de um ciclope. Empinou-se a parisiense deante do homem da rua das Cangostas, e disse-lhe:

—Ámanhã pagarei as despezas que fizer n’este hotel.

Innocencio caiu em si, e logo em joelhos, exclamando:

—Tem piedade de mim, que estou doido de ciumes. Amo-te! amo-te! Ouve-me, Jacqueline! se me não ouves, mato-te e mato-me!

Esta concisão denotava tenções sinistras. A franceza teve-lhe medo, e aquietou-o. Mas não chorou, como as mulheres ultrajadas, quando perdoam. Devia de ter levado outros murros aquella dama, ou a traça da vingança estava armada.

Quando Innocencio foi para o almoço com a alma e estomago livres de peso, já a risonha e indulgente commensal tinha um misterioso annuncio da criada que a servia. Fallára-lhe de um conde de certo condado inglez, que se pronunciava com cincoff, incompativeis com a doce lingua millaneza. E mais nada podera dizer-lhe.

Innocencio não se desabeirou n’aquelle dia da franceza. Agora a estava elle amando em tresdobro. Dizia-lhe coisas que não pareciam suas. Passava de tolo a eloquente, como se Amor e Minerva, n’aquelle dia, se revezassem a senhorear-lhe o espirito que até então andára sempre nas divindades da ralé celestial.

E ella voltava-lhe em surrisos as caricias, e dissimulava o enojo impaciente com as momices do coração magoado.

Sobre tarde, Innocencio deteve-se com o mestre de dança, e Jacqueline com a criada.

Coração, figados, baço, e tudo de Innocencio funccionava normalmente no dia seguinte.

A franceza pediu-lhe um leque de sandalo. Saiu o jubiloso amante a comprar leques de varios feitios.

Voltou com o folego apressurado. Entrou á ante-camara do seu quarto. Não viu o seu enlevo d’olhos. Procurou-a entre os cortinados do leito. Foi á sala do piano. Interrogou os criados. Ninguem lhe daria novas, se a criada do toucador da madame Barros, lhe não dissesse:

—Madame saiu, levou seus bahús, e deixou esta carta para vossa excellencia.

A carta, envolucro de outra, dizia:

Sem tempo para mais, adeus. Murros vá dal-os em sua mulher. E é tempo de ir. A carta inclusa dá-lhe uma noticia que o deve apressar a ir receber nos braços o pimpolho. Se é verdade o que me disse da sua casta união, tanto peor para o senhor. Lá se avenham.—Jacqueline B. de Rastignac.

Leu Innocencio a carta do pae, que resava assim:

«Vou-te dar uma grande alegria. Como dizes que vaes para Veneza, mando-te para lá esta carta, por via do vice-consul italiano. Saberás que tua mulher nos deu o maior cuidado, e pensámos que ella tinha grande mal interior; por que andava muito amarella e chupada da cara que parecia uma castanha sêcca. A gente perguntava-lhe o que ella tinha, e nada de novo. Queixava-se de enxaquecas, e comia como um passarinho. Depois passou-lhe aquelle fastio e pegou a comer melhor, mas andava triste como a noite, sempre a matutar e a chorar pelos cantos. Até que um dia, tua mãe veio ter comigo e disse-me:—Ó Gervasio, eu desconfio que ella não sabe o que tem; mas olha que o meu olho não mente: a rapariga traz menino na géra. Repara-lhe p’ráquelles encontros!—Tu que me dizes, mulher? Isso era uma felicidade para todos! O Innocencio se souber isso vem logo p’ra casa, não te parece?«Vae ella, depois, foi ter-se com tua mulher, é disse-lhe a sua desconfiança. Tua esposa começou a negar, e dar as suas razões; mas tua mãe protestou que não seenganava, e para o que mandou chamar o mestre da escola de cirurgia, o Sinval, que a examinou e disse que estava de cinco ou seis mezes. De cinco lhe disse eu que não podia ser, porque tu tinhas ido para o Pará ha seis. Então é de seis, disse elle; mas digam-lhe que não ande tão espartilhada.«A gente ficou alegre como tu podes imaginar; mas ella sempre triste, que não te digo nada!! Acho que está com medo de morrer, e não ha forças que lhe dêem animo. De maneira, que cá pelas nossas contas d’aqui a quatro mezes deve apparecer o que fôr: oxalá que seja um rapazito.«Terás tu a má condição de não vir para a tua casa antes d’esse tempo? Falta-me ver isso, meu filho!!!!! Não dês que fallar ao mundo n’este caso, que é de ficar mal para todo o sempre um homem. Logo que esta recebas, deixa-te de pagodes, e vem a toda a pressa para lhe dar animo; que ella está como uma tumba. Pede-te tua mãe que compres por lá um enxoval rico por conta d’ella; porque já sabes que os padrinhos somos nós, etc., etc.»

«Vou-te dar uma grande alegria. Como dizes que vaes para Veneza, mando-te para lá esta carta, por via do vice-consul italiano. Saberás que tua mulher nos deu o maior cuidado, e pensámos que ella tinha grande mal interior; por que andava muito amarella e chupada da cara que parecia uma castanha sêcca. A gente perguntava-lhe o que ella tinha, e nada de novo. Queixava-se de enxaquecas, e comia como um passarinho. Depois passou-lhe aquelle fastio e pegou a comer melhor, mas andava triste como a noite, sempre a matutar e a chorar pelos cantos. Até que um dia, tua mãe veio ter comigo e disse-me:—Ó Gervasio, eu desconfio que ella não sabe o que tem; mas olha que o meu olho não mente: a rapariga traz menino na géra. Repara-lhe p’ráquelles encontros!—Tu que me dizes, mulher? Isso era uma felicidade para todos! O Innocencio se souber isso vem logo p’ra casa, não te parece?

«Vae ella, depois, foi ter-se com tua mulher, é disse-lhe a sua desconfiança. Tua esposa começou a negar, e dar as suas razões; mas tua mãe protestou que não seenganava, e para o que mandou chamar o mestre da escola de cirurgia, o Sinval, que a examinou e disse que estava de cinco ou seis mezes. De cinco lhe disse eu que não podia ser, porque tu tinhas ido para o Pará ha seis. Então é de seis, disse elle; mas digam-lhe que não ande tão espartilhada.

«A gente ficou alegre como tu podes imaginar; mas ella sempre triste, que não te digo nada!! Acho que está com medo de morrer, e não ha forças que lhe dêem animo. De maneira, que cá pelas nossas contas d’aqui a quatro mezes deve apparecer o que fôr: oxalá que seja um rapazito.

«Terás tu a má condição de não vir para a tua casa antes d’esse tempo? Falta-me ver isso, meu filho!!!!! Não dês que fallar ao mundo n’este caso, que é de ficar mal para todo o sempre um homem. Logo que esta recebas, deixa-te de pagodes, e vem a toda a pressa para lhe dar animo; que ella está como uma tumba. Pede-te tua mãe que compres por lá um enxoval rico por conta d’ella; porque já sabes que os padrinhos somos nós, etc., etc.»

Quando chegou por aqui, Innocencio mal enxergava os caracteres. Zumbiam-lhe vespas na cabeça, ferroando-lhe os miolos. Lavaredas internas queimavam-n’o desde o diafrágma até aos beiços. O tremor das pernas fêl-o sentar-se de pancada n’umavoltaire, como se o derrubassem com uma catapulta jogada ao peito. Cravára no tecto os olhos betados de sangue. Nem amor nem odioá franceza lhe braseava o espirito extraviado. Varrêra-se-lhe de todo da lembrança a mulher a quem, horas antes, promettêra a mão de marido, se um dia enviuvasse, e lhe ella guardasse lealdade. Não a via sequer em imagem; mas, se a visse, tangivel, laceravel e capaz de afogar-se no proprio sangue, iria espedaçal-a a dentadas: porque a infame lhe retardára apunhalar a adultera.

Apunhalal-a, sim! esta era a idéa que lhe revia sangue nos olhos e rangia nos dentes.

Levantou-se de golpe como tigre assaltado de surpreza. Correu ao quarto, chamou criados, emmalou e alugou carruagem com frequentes mudas para França.

Quando chegou a Pariz, doze dias depois, entrou na via-ferrea para o Havre, pressurando-se em ir a tempo de embarcar no «paquebot» que navegava para Portugal. Porém, quando chegou, ao fim de cinco dias de insomnias, de fraqueza á mingua de alimento, de sobre-excitação febril, e impaciencia devorante, caiu de todo quebrado e incapaz de se mover do hotel até ao navio. O medico examinou-o e saiu esperançado da cura, obstando-lhe ao intento de se fazer levar para bordo em braços.

Obedeceu o enfermo, e pediu que lhe enviassem para o pae esta breve carta:Ha poucos dias que recebi a que me escreveu para Londres, dando-me parte dos prazeres que lá tem. Não me demorei onde estava; mas cheguei tão doente ao Havre, que fico na cama. Dezoito dias mais tardar é o que poderei estar por aqui. Lá vou tambem dar um terno abraço em minha mulher. Nãoposso mais. Seu filho muito do coração, Innocencio.

O barco havia saído quando o doente se arrepelava, exclamando:

—Eu dava dez contos por áquella carta!... Estou doido! Que asneira eu fiz! Agora foge ella á minha vingança em lendo a carta! Que inferno este!...

E, bramindo, sacudia a roupa, e saltava do leito, afugentando o enfermeiro que imaginava tel-as com um mentecapto. Venciam-n’o com força e carinhos. Levavam-n’o ao leito. Ministravam-lhe os remedios. Todavia, as febres exasperavam-se, e os simptomas do tifo não se escondiam aos olhos do medico, salvo se os da congestão cerebral se offereciam mais caracteristicos.

Sigamos a carta que lhe acerbou as angustias. Qualquer que fosse o motivo das delongas na participação do representante portuguez em Pariz, aconteceu que o ministro dos estrangeiros mandava transmittir para o Porto o aviso de viver o filho de Gervasio José de Barros, ao mesmo passo que o velho era surpreendido pela carta do filho.

Pobre pae! quando reconheceu a letra, expediu grandes gritos cortados pela suffocação da alegria e perdeu os sentidos, casquinando umas esfusiadas de riso nervoso.

As senhoras vieram assim encontral-o nos ultimos degráos, amparado nos braços do criado. Vinha entre ellas tambem Thomazia, secretamente e a um tempo abalada de prazer e de medo, cuidando que eram de agonia aquelles gritos.

Gervasio sentiu desabafar-se-lhe o alento, assim que ouviu aproximarem-se almas com quem podesse repartir do peso esmagador do seu jubilo.

—Está vivo nosso filho!—bradou elle.—Está vivo teu marido, afilhada! Aqui está uma carta! aqui está! vêde-a! Graças, meu Deus, graças!

—Graças, meu Deus!—conclamaram as trez senhoras e os trez velhos ajoelhando todos no degráo.

Thomazia, porém, permanecia quêda, empedrada, livida, esgaseando os olhos turvos. Assim se esteve n’aquelle alheamento, olhando tudo sem ver mais que a figuração do marido, por espaço bastante notavel, que todos levantaram para ella os olhos perplexos. N’este conflicto, faltavam-lhe os joelhos, entrou em convulsões, e, soltando um gemido, caiu nos braços da sogra e do padrinho, que a viam cambalear.

—Olhem o que faz a alegria!—clamou o velho.—Levem-n’a para cima, coitadinha! levem-n’a com geito, que isto passa logo... Eu vou ler a carta para vossês todos ouvirem ao pé da cama da nossa pobre filha.

—O peior é se este sobresalto lhe faz mal á creancinha!—disse D. Thomazia.

—Não hade fazer, se Deus quizer!—contrariou Gervasio, seguindo o grupo em cujo centro ia a esposa sem sentidos, amparada nos braços de todos.

Defumaram-n’a com alfazema e ungiram-lhe as fontes de vinagre. Descerrou as palpebras de sobre os espantados olhos. Viu muita gente a rir-se e a chorar de alegria, e já o sogro com a carta aberta, dizendo:

—Escuta lá, filha, escuta o que diz o teu homem. Diz pouco por que está doentinho; mas é bastante para ficarmos doidos de alegria. Ouve, menina.

Leu. Thomazia fazia ranjer o leito com as tremuras.

—Vês?—proseguiu Gervasio.—Olha como elle está contente, menina!

—Mas está doentinho!—accudiu a mãe.—Queira Deus que a doença seja leve.

—Hade ser, se Deus quizer!

—Ó manas—tornou D. Thomazia—vamos já pedir a Nosso Senhor que lhe dê saude. Vinde para o oratorio.

—Eu não posso ir...—murmurou a esposa de Innocencio, erguendo custosamente a cabeça.

—Pois não venhas, filha, não. Aqui fica teu pae a conversar comtigo emquanto nós vamos resar. Cá pediremos tambem em teu nome, Thomazinha; e mais tu podes resar d’ahi tambem, que Deus Nosso Senhor está em toda a parte onde se procura.

—Ó rapariga!—continuou Gervasio, assim que as senhoras sairam—a nós a alegria deu-nos de bota abaixo! Eu tambem perdi a tramontana; e, se lá não está o gallego, dou com a cabeça no corrimão, que a parto! Não que elle!... Ó menina, eu parece que estou areado do juizo! Pois inda torno a ver meu filho!... Que me dizes?

—Deus o queira...—murmurou Thomazia, dizendo no fundo do seu coração: «Matai-me, Senhor, matai-me, e condemnai-me ao inferno para sempre!»

—Tu estás a modo de triste, afilhada!—sobreveio o velho.—Que tens tu que estás chorando agora?

—Chorando?—disse ella apalpando os olhos—é verdade... não sei por que choro... é alegria... pois que hade ser, meu padrinho?... é alegria...

—Ah! lá isso entendo eu! Olha, queres tu ver que tambem me rebentam as lagrimas?

De feito, Gervasio chorava e alimpava os olhos ao punho da japona, dizendo entre frouxos de riso:

—Deixal-as cair, que são as ultimas... Não torno a chorar na minha vida. Venha meu filho, veja eu o meu netinho, e depois não ha mais nada p’ra mim n’este mundo. Já cá deixo gente que farte para fazer honra á minha memoria.

N’este momento, sacudiu-se em convulsas contorções D. Thomazia, e vibrou um prolongado gemido.

—Que tens, menina?!—clamou alvoroçado o sogro.

—Ai!—repetiu ella gemebunda, estendendo os braços e batendo os dentes.

Gervasio foi chamar a mulher aceleradamente gritando que Thomazinha estava muito mal. Acudiu a senhora com as cunhadas, e observou ao marido, em termos caseiros, que o sobresalto da noticia poderia antecipar a hora que não obedece sempre ao ciclo das nove luas.

Foi chamado o facultativo de maior nome em obstetetrica, ladeado de duas famigeradas comadres.

D. Thomazia diagnosticára magistralmente o incommodo, segundo concordou com o facultativo e as previstas assistentes.

Apoz trez horas de gritos alternados com desmaios, viu Gervasio sair sua mulher com um menino recemnascido nos braços.

—Nasceu de oito mezes!—dizia a radiosa velha.—Está vingado e perfeitinho!

O velho encarou na creança muito de perto; mas não ousou pôr-lhe os beiços cubiçosos, receioso de lhe magoar as carnes tenrinhas.

Ao mesmo tempo, no segundo andar da casa do marceneiro, Nicoláo d’Almeida, já informado de que se esperava Innocencio, e de que o medico e parteiras tinham sido chamados á pressa, imitava na irrequietação, no desesperar-se, nos exteriores de uma ancia insoffrida, as torturas por que tinha passado em Milão o marido de Thomazia.

As agonias eram diversas; e todavia não sabemos decidir em qual das duas almas podia caber mais um gume de ferro. O marido arfava no anceio de a matar. O amante na impossibilidade de a salvar, cuidando que ella ia morrer. Quem optaria de prompto pelo mais suave d’estes dois infernos?


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