CAPITULO XVIII

CAPITULO XVIII

Argumento

Que a justiça divina raras vezes defere aos criminosos que lhe requerem a morte. Luctas horrendissimas do coração maternal com o opprobrio de mulher. Considera a sciencia que Thomazia ficou areada do juizo. Coração de pae, resgatando o delicto de mau cidadão. Dizem que está Innocencio á barra. Foge a esposa, sem poder levar o filho. Situação para muita dôr, em que a jocosidade seria profanação selvagem. Afflicções que sentiram muitos, e muitissimos hão de sentil-as em quanto a Providencia não tirar o coração ao homem ou a propensão do crime ao genero humano.

Que a justiça divina raras vezes defere aos criminosos que lhe requerem a morte. Luctas horrendissimas do coração maternal com o opprobrio de mulher. Considera a sciencia que Thomazia ficou areada do juizo. Coração de pae, resgatando o delicto de mau cidadão. Dizem que está Innocencio á barra. Foge a esposa, sem poder levar o filho. Situação para muita dôr, em que a jocosidade seria profanação selvagem. Afflicções que sentiram muitos, e muitissimos hão de sentil-as em quanto a Providencia não tirar o coração ao homem ou a propensão do crime ao genero humano.

Nas intercadencias de febre sobrevinda ao parto, perguntava Thomazia quando vinha Innocencio; nos delirios, porém, palavreava desconchavos, chamando a miudo Nicoláo. Dizia D. Sebastiana a este respeito que a doentinha invocava S. Nicoláo milagroso.

Desconfiaram-n’a os medicos; não obstante, a soberana justiça mandou affastar a morte d’aquella mulher que precisava ser, alguma hora, expiação e exemplo. Mal sabem os que choram á volta de um esquife que bom despacho Deus enviou aos que morrem quando mais lhes enverdeciam esperanças. Suave passo é acabarquando filhos não olham para a mão cadaverica d’onde costumavam receber o seu pão e caricias.

Levantou-se do leito aos quatorze dias Thomazia.

A sciencia medica pasmou do seu triumpho; mas confessava-se inefficaz para debellar um torpor moral e spasmo organico em que ficára a convalescente.

Se lhe levavam a creancinha, debulhava-se em lagrimas, e parecia repulsal-a, voltando o rosto. Outras vezes, pedia que lh’a déssem dos braços da ama, estreitava-lhe ao seio soffregamente o corpinho, e soluçava.

O parecer dos facultativos era que Thomazia ficára tanto ou quanto desconcertada de juizo; mas era de esperar que, mediante socego, distracção e tempo, se restaurasse.

Houve, na familia, opiniões diversas, respeito ao baptismo do menino. Uns queriam que se esperasse Innocencio, outros que se não demorasse além de oito dias dar uma alma á creancinha. Venceria Gervasio com os primeiros, se o pequenino sem alma, aos nove dias, não désse signaes de pouco vivedoiro.

Baptisou-se, pois, aos dez, sendo padrinhos os avós; (o assento baptismal diziaavós: não sejamos mais escrupulosos que o abbade na propriedade dos termos.) Chamaram-lhe Pedro, em memoria de alguns seus antepassados illustres na linhagem.

Não deram noticia do nascimento ao pae, (o assento dizia tambem que Innocencio José de Barros era pae) visto não haver tempo de chegar aHavre de Gracea nova, antes de elle se abalar para Portugal.

Estamos em julho de 1846.

Espera-se que o paquete francez aviste a barra do Porto no dia 18.

Ao anoitecer do dia 15, Thomazia recebeu da mão do aguadeiro a terceira carta de Nicoláo d’Almeida, escripta n’estes termos:

«Está tudo preparado. Já tenho no hotel a ama para o menino. Assim que ámanhã anoitecer, sae. Espero-te aqui defronte. Logo que te vir sair, sigo-te, recebo o filhinho, e tu vaes indo a meu lado até á rua dos Inglezes onde nos espera a sege. Ámanhã mesmo partimos para Caminha. De lá, se nos incommodarem, iremos para Hespanha. Onde quer que chegarmos, encontraremos a felicidade. Ainda bem que eu não desbaratei a minha juventude em falsas delicias que derrancam e envelhecem a alma. Sinto-me pae e esposo em todo o vigor de um coração novo, robustecido pelo teu amor, minha graça e formosura do céo.«E o meu filhinho? Sabes que o vi baptisar? Olhei para elle em quanto as lagrimas me deixaram. Estive quasi a pedir á ama que me consentisse beijal-o. Que sensações me tumultuavam na alma! Aquelle sentir nascer um amor novo que me enchia o coração!...«Deixa-me abafar a saudade; que, se não, fico a escrever-te, e são horas de te avisar.«Não sei como te has de haver com tirar o menino, sem darem fé!... Dêem ou não, é forçoso, Thomazia! Nem mais um dia, porque me dizem que o paquete francezalgumas vezes se antecipa quarenta e oito horas e mais, quando, peor ainda, não acontece sair algum extraordinario do Havre.«Eu só descançarei, quando puder abraçar os meus dois queridos amores, e pedir então a Deus que nos perdôe, se não é possivel santificar a nossa união. Espera, minha filha; que o nosso anjinho ha de pedir por nós.»

«Está tudo preparado. Já tenho no hotel a ama para o menino. Assim que ámanhã anoitecer, sae. Espero-te aqui defronte. Logo que te vir sair, sigo-te, recebo o filhinho, e tu vaes indo a meu lado até á rua dos Inglezes onde nos espera a sege. Ámanhã mesmo partimos para Caminha. De lá, se nos incommodarem, iremos para Hespanha. Onde quer que chegarmos, encontraremos a felicidade. Ainda bem que eu não desbaratei a minha juventude em falsas delicias que derrancam e envelhecem a alma. Sinto-me pae e esposo em todo o vigor de um coração novo, robustecido pelo teu amor, minha graça e formosura do céo.

«E o meu filhinho? Sabes que o vi baptisar? Olhei para elle em quanto as lagrimas me deixaram. Estive quasi a pedir á ama que me consentisse beijal-o. Que sensações me tumultuavam na alma! Aquelle sentir nascer um amor novo que me enchia o coração!...

«Deixa-me abafar a saudade; que, se não, fico a escrever-te, e são horas de te avisar.

«Não sei como te has de haver com tirar o menino, sem darem fé!... Dêem ou não, é forçoso, Thomazia! Nem mais um dia, porque me dizem que o paquete francezalgumas vezes se antecipa quarenta e oito horas e mais, quando, peor ainda, não acontece sair algum extraordinario do Havre.

«Eu só descançarei, quando puder abraçar os meus dois queridos amores, e pedir então a Deus que nos perdôe, se não é possivel santificar a nossa união. Espera, minha filha; que o nosso anjinho ha de pedir por nós.»

Estava Thomazia cogitando modos como, no dia seguinte á mesma hora, havia de fugir com o filho, quando se levantou um subito ruido de muitas vozes no escriptorio, onde o sogro ainda estava.

Thomazia expediu um grito e quasi perdeu o alento, cuidando que chegára o marido.

Encostada á parede, foi-se acercando da escada, e debruçou-se no corrimão. Era a tempo que Gervasio e dois amigos vinham subindo, e as trez senhoras e os outros velhos iam descendo. O velho exclamava:

—Ahi está o paquete defronte da barra. Pediu lancha para pôr em terra passageiros. Está ahi o nosso Innocencio! Vão dizel-o a Thomazia, que nós partimos já para a Foz; mas olhem lá como lh’o dizem, que não vá dar alguma coisa na pequena. Preparem a ceia.

—Mas será elle?!—atalhou a esposa.

—Pois quem hade ser?! certificou Gervasio—É elle, não póde deixar de ser elle... Até logo, nós cá vamos encontral-o ao caminho.

Entraram as trez senhoras ao quarto de Thomazia efizeram pé atraz de puro espavoridas. A esposa de Innocencio guinava de uma parede para outra com as mãos apertadas nas fontes, despedindo gritos em que se conheciam mal articuladas as palavras «meu filho!»

—Jesus, santo nome de Jesus!—clamava a sogra—Ó menina, que tens tu? Olha que vem ahi teu marido, filha!...—E, voltada ás cunhadas, continuava:—Querem as manas ver que ella endoideceu!

N’este acto, rompeu Thomazia por entre ellas e desceu ao primeiro andar a procurar o filho.

—O meu filho?—dizia ella em altos clamores—o meu filho?

—A ama saiu com elle á tardinha; mas não tarda ahi—respondeu a madrinha tremente e assombrada.

—Quero o meu filho!—rebradava Thomazia, indo bater á porta do quarto da ama.

—Menina, não está ahi a ama! já te disse que ella foi dar ao Pedrinho o ar da fresca, e volta logo. Ó Virgem Mãe de Deus! pelas chagas de vosso Filho, fazei que ella não perca o juizo!

E ajoelhára de mãos erguidas com as cunhadas a velha angustiadissima.

Em quanto ellas ciciavam fervorosas orações, Thomazia desceu as escadas como quem se precipita.

—Onde vae ella?!—gritou D. Sebastiana.

E desceram todas tão depressa, quanto a idade e a nutrição lhes consentia.

Quando chegaram ao pateo, já não entreviram Thomaziana escuridade da estreita rua, e proromperam chamando-a a brados.

Ajuntaram-se os transeuntes ouvindo as lastimas, com quanto pesar podiam, por não entenderem a fundo a causa dos gritos. Queriam elles ir logo de porta em porta relatar o escandalo; mas as senhoras vexavam-se de dizer que Thomazia fugira doida pela rua fóra.

A este tempo, a mulher de Innocencio, no 2.º andar da casa do marceneiro, arquejava anciadissima nos braços de Nicoláo d’Almeida.

—O meu filho!—exclamava ella.—Vae buscar o meu filho, antes que chegue Innocencio, que póde matar-m’o!... O teu filho, Nicoláo!... Corre lá... tira-o aos braços da ama... traz-m’o, que se não vês-me aqui morrer de dôr!

Estes rogos eram desarrasoados, depois d’ella já ter dito que, no lance da fuga, o menino estava fóra de casa. Além de quê, Nicoláo acovardava-se de romper a multidão que pejava o pateo de Gervasio, e ir arrancar uma creança aos braços da ama no seio de numerosa familia. Absteve-se pois de obedecer ás supplicas de Thomazia, abafou a propria angustia e disse-lhe:

—Primeiro que tudo, sair d’aqui.

—E o meu filho?—acudiu ella.

—Trata-se da tua segurança agora. Não percamos tudo por amor da creança...

—E se elle a mata...?

—Não ha ferocidade tamanha em coração de homem nenhum... A occasião não permitte questões, Thomazia!...É sair... e já pela porta do quintal que vae dar á cerca de S. Domingos.

N’isto, avisou a filha do marceneiro que ia entrando muita gente para casa de Gervasio.

—Depressa...—disse Nicoláo, tirando pelo braço a inerte mãe de Pedro.

Minutos depois, subiam as escadas da Esnoga. Ella ia soluçando, e elle apanhava as lagrimas no lenço.

Ao assomarem debaixo do paredão da Victoria, abraçaram-se em reciproco impeto, exclamando:

—O nosso filho!


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