IIIAS THEORIAS

IIIAS THEORIASQual é a sua concepção do mundo? qual o seu processo de invenção? qual o seu methodo de prova? qual a quantidade a qualidade e a ligação das suas idéias geraes? Eis as perguntas que um critico deve fazer sempre que queira ter uma percepção clara da razão do escriptor que analysa.Á portada do seu livroO Hellenismo e a Civilisação christãha uma theoria digna de attenção, menos pelo seu valor intrinseco de verdade ou novidade do que pela sua importancia como indicio do espirito que a formulou. É a theoria do Acaso. Em presença da realidade historica, como em presença da realidade natural, o Sr. Oliveira Martins é ferido pelo caracter eminentementeconcretoque ella apresenta. A infinita complexidade propria das cousas e que imprime a cada uma um caracter de individualidade, não escapa á sua observação.{52}Na sciencia, pensa elle, o necessario e o fortuito tem uma funcção igualmente inevitavel. É certo que o Sr. Oliveira Martins não confunde o fortuito com o milagroso, que justamente regeita como irracional. Mas admittindo ser impossivel explicar um caso qualquer na sua totalidade, elle introduz um elemento d'ignorancia mesmo n'aquella porção da Realidade que é confessadamente do dominio da sciencia positiva. É isto que a sua notavel theoria do Acaso enuncia com a lucidez propria das operações abstractas. Os factos apparecem-lhe certamente formando series e ligados entre si pelo nexo da causalidade. Mas o encontro d'essas series determina nos pontos de intersecção a apparição de novas formas de realidade, cuja existencia a sciencia não póde explicar, visto o encontro das series não ser necessario, e cujos aspectos o investigador se deve limitar a descrever, abandonando aqui a razão abstracta, instrumento adequado á descoberta das leis geraes, pela imaginação poetica, visão sufficiente da existencia concreta.Sem entrar na discussão desenvolvida d'esta theoria, a meu ver inexacta, não posso deixar de me demorar um instante com ella. A introducção da noção de Acaso como elemento constitutivo da Realidade, quer se considere o Acaso como ausencia de leis, quer seja apenas synonymo de contingencia no encontro das series naturaes expressas{53}por essas leis, significa sempre uma abdicação confessada ou tacita da Razão. A previsão dos casos futuros, aferidora da solidez das verdades adquiridas, torna-se tão impossivel n'um universo em que a ausencia de causalidade implica uma constitucional e incuravel anarchia, como n'um mundo em que os factos apparecem, sim, ligados por um nexo abstracto de causalidade, mas em que as cousas são aggregados contingentes, resultantes da intercorrencia de series independentes. A coherencia parcial representada pela existencia d'essas series é inutilisada pela ausencia de uma connexão natural que ligue as series n'um systema, resultando d'ahi uma incoherencia effectiva como a que torna um cahos o mundo concebido pela philosophia de Stuart Mill. Os resultados de uma tal doutrina fazem-se sentir logo; e não é difficil dizer porque occorrem ás vezes á penna do Sr. Oliveira Martins expressões singulares, que levariam a suspeital-o de scepticismo intellectual, se o corpo das suas opiniões não desmentisse uma tal hypothese, e se o proprio auctor não corrigisse o que as suas expressões possam conter de excessivo. Copiarei do prefacio doPortugal contemporaneoestas linhas para exemplo: «O profundo e inabalavel reconhecimento das causas que fazem dos homens os instrumentos do acaso ou do destino!...» N'este trecho está como que visivel toda a theoria. A affirmação das causas não exclue a{54}admissão do Acaso e uma extranha reserva coexiste com um dogmatismo energico.A theoria acima exposta contém certamente alguma cousa de verdadeiro; para que fosse absolutamente exacta seria preciso completal-a pela affirmação de uma solidariedade estructural entre as partes e de uma unidade systematica no todo universal. Affirmação esta que tem o seu fundamento quer na doutrina da communidade d'origem e identidade latente dos elementos da Realidade, quer na philosophia que vê na idéia de Systema como no conceito de Causa formas condicionaes do pensamento. Admittindo qualquer d'estas hypotheses, o Sr. Oliveira Martins não se privava do direito de se conservar n'uma prudente reserva em frente da esmagadora complexidade das cousas concretas, antes lhe seria facil motivar a sua abstenção com a impossibilidade em que se acha o espirito de exgottar por analyses successivas a quantidade infinita de elementos que entram na formação do mais insignificante phenomeno. De maneira que esta impossibilidade de explicação completa proviria não de uma falta de coherencia entre as series causaes, mas de um excesso d'ella. Fundada nestas duas idéias, o Universo e o Individuo, é possivel proceder á construcção da sciencia positiva. Para conseguil-o deve-se ainda recorrer a principios subsidiarios. Não entra no programma d'este estudo enuncial-os. Diga-se porém que a{55}noção de jerarchia de causas e a comparação entre grandezas de forças são instrumentos adequados á resolução do problema.Seja porém qual for o valor doutrinal d'esta theoria, ella nos interessa como documento do espirito que analysamos. Vê-se que o Sr. Oliveira Martins encontra na realidade dois principios, um necessario, outro fortuito. Quanto ao primeiro o nosso auctor exprime-se categoricamente; e investe-o de certeza absoluta; e no fim do seu livro aAnthropologiaescreve o seguinte: «A logica dipensa os prolegomenos da physiologia; e todos os progressos passados ou vindouros da anatomia do cerebro não alteraram, nem alterarão uma linha só do systema das suas leis. Podemos affirmar com afouteza que o que torna certa para nós uma proposição, a tornaria egualmente certa para intelligencias tão bem munidas de conhecimentos como a nossa: embora com a indispensavel capacidade organica, tivessem uma constituição physiologica differente. Com algumas circumvoluções mais ou menos no cerebro talvez se não seja capaz de comprehender a geometria; mas, sendo-se, a geometria não poderá ser diversa da que nos ensinaram Euclides ou Archimedes.» Esta peremptoria affirmativa nos revela uma intelligencia que por natureza ou por systema, se não deixa immergir nas nevoas da duvida. Quanto á admissão de um elemento fortuito na realidade, é conveniente observar que{56}o Sr. Oliveira Martins não só o confessa mas ainda o pratica. Com effeito nas suas narrações e deducções elle foge ás explicações que se contentam com uma só causa; as suas previsões são cheias de restricções. Pegar n'um trecho da realidade, despil-o de tudo quanto for accessorio, decompol-o n'um pequeno numero de elementos constitucionaes, referil-os a um pequeno numero de causas simples, subordinar todas estas causas a um só principio explicativo que é razão sufficiente de todo o grupo estudado, partir do trabalho feito para formular previsões imperiosas semelhantes a ordens dadas ao futuro, são actos proprios das intelligencias simplistas e centralistas, de que offerecem um excellente exemplo entre nós os primeiros escriptos do Sr. Theophilo Braga. O Sr. Oliveira Martins procede de um modo bem diverso. Elle multiplica os pontos de vista, não poupa principios novos para explicar novas formas de existencia, foge de theorias demasiado simples, e quando formula uma lei só admitte a sua futura realisação sob certas condições, abstendo-se de uma excessiva confiança na sciencia como explicação do presente ou previsão do porvir. Sem tomar as interminaveis precauções, nem ter a delicadeza infinita de um Ernesto Renan, por que lh'o não permitte o temperamento nimiamente apaixonado da raça, a sua prudencia é grande e seria efficaz, se a não prejudicasse o seu exaggerado e contumaz{57}espirito de improvisação. Assim como é, não se torna porém difficil mostrar a relação que prende os seus habitos d'intelligencia á sua concepção da realidade.Nem é menos facil apontar o nexo logico que liga a concepção exposta e as tendencias indicadas ao seu habitual e confessado processo de indagação. «Não bastam á historia, diz elle, a observação e o systema classificador, assim como á sua lingua, não bastam a precisão e a clareza; é mister sentir e adivinhar e por no estylo a vida e o calor proprios das cousas moraes». E accrescenta: «O historiador não reproduzirá a sociedade, se não poder combinar no seu espirito o raciocinio que descreve, a intuição que vê a alma que sente.» É mister sentir e adivinhar diz o Sr. Oliveira Martins e é o que elle faz de preferencia. Alguns verão n'estas palavras um paradoxo ou uma ironia. Mas as pessoas versadas no assumpto sabem que ha duas maneiras de inventar: Ou se parte da observação das causas e por um laborioso processo de raciocinio se sobe aos principios mais geraes que as explicam, ou por uma immediata e impetuosa improvisação se descobrem estes mesmos principios sem passar por todas as intermediarias logicas que são os seus antecedentes naturaes. D'estas duas classes de intelligencias, uma fadada para a grande descoberta inconsciente, outra predestinada para a perfeita{58}prova efficaz, e que mutuamente se completam, porque se uma é a invenção, a outra é a demonstração, o Sr. Oliveira Martins pertence á primeira, isto é, apparece-nos antes como um poeta, do que como um orador. Certamente elle estuda os assumptos de que trata, mas vê-se que as suas theorias derivam menos da erudição que da intuição. Póde-se dizer que elle adivinha, se entendermos por adivinhação, não uma milagrosa apprehensão de principios impossiveis de descobrir por meios naturaes, mas uma veloz e certeira descoberta de verdades que seria lento e penoso investigar pelo raciocinio ordinario. O nosso auctor pertence, salvo as differenças de grandeza, a essa classe d'espiritos, de que são excellentes exemplares Michelet na França, Carlyle na Inglaterra, e na Allemanha tantos Allemães. É antes um poeta, do que um orador. Porque os attributos proprios da razão oratoria, o instincto da ordem, o habito da symetria, o emprego das verdades claras e equidistantes, a contextura equilibrada e a velocidade uniforme do discurso, a abundancia de argumentos e a efficacia de provas, não são visiveis nos seus livros. Pelo contrario, os dons propriamente poeticos, a veracidade e a intensidade da visão concreta, a energia da imaginação instantanea e intermittente, o vôo desigual e tortuoso do raciocinio, o emprego da inspiração, e da paixão como processos de descoberta e exposição, saltam aos olhos de quem o{59}estuda. Este genero de espirito é fadado, pela sua estructura, ás verdades importantes e aos erros frequentes, e nem umas, nem os outros faltam nos trabalhos do Sr. Oliveira Martins.D'entre os dotes oratorios acima indicados, e cuja falta notei no Sr. Oliveira Martins, um dos mais importantes é certamente o talento e o gosto da prova; qualidade esta cuja importancia sobe de ponto, se observarmos que a prova é não sómente um instrumento da eloquencia, mas ainda um elemento da sciencia. Quem o leu, observou de certo, que elle se contenta com expor as idéias, muitas vezes novas, sempre interessantes, que lhe occorrem nas suas explorações atravez da Historia, sem procurar fundamentar as suas theorias, e tornar evidente aquillo que considera como verdadeiro. E não só esta ausencia de provas é visivel em questões theoricas, mas ainda em materia de factos. Certamente as narrações do Sr. Oliveira Martins tem um cunho d'extrema verosimilhança. Artista pela visão das massas e pelo sentimento dos conjunctos, elle sabe adequar os pequenos factos que escolhe ao effeito final que deseja, e nos seus livros a harmonia do todo garante a veracidade das partes. Mas salvo esta garantia que é commum ao romance que se imagina, como á historia que se narra, nada merece nas suas obras o nome de demonstrado. Nem a immensa accumulação dos factos{60}averiguados, nem a enumeração completa dos documentos compulsados, nem a discussão e a critica das fontes exploradas, vem dar á sua narração o cunho da certeza. Entrando num assumpto vai direito ao amago d'elle, e depois de traduzir a viva impressão recebida, com uma abundancia extrema de pormenores sensiveis, n'um quadro que se grava na memoria, passa a atacar outro assumpto e a pintar outro quadro, sem procurar convencer o leitor da efficacia da analyse e da fidelidade da pintura. No seu desdem de artista e no seu orgulho de inventor, parece crer que a evidencia é a atmosphera da intelligencia e repelle a prova como um pleonasmo. Nenhum dos nossos escriptores merece mais ser lido, nem carece mais de ser lido com cautela.{61}IVOS SENTIMENTOSEstudada a sua intelligencia passemos a estudar a sua sensibilidade; esta não é menos interessante do que aquella.Qual é o numero, a força, a especie das suas emoções? Certamente ellas são numerosas. A emoção é um estado habitual da sua alma. Qualquer que seja o assumpto de que se occupa, a paixão abunda. Isto é visivel sobretudo pelo tom do seu estylo. Historia ou critica, jornal ou theoria, tudo quanto escreve é animado por um sopro quente de commoção sincera. Nenhuma idéia lhe apparece como um simples objecto de comprehensão, mas como uma verdadeira fonte de impulsões.Frequentes e intensas. Basta percorrermos os seus livros, mesmo de relance, para nos convencermos que a força das suas emoções é tão grande como a sua constancia é perfeita. Vehementes sempre,{62}violentas muitas vezes, ellas constituem pela sua multiplicidade e continuidade um estado habitual de exaltação da sensibilidade. Dotes estes, que ligados á sua capacidade de visão, concreta e ao seu vivo sentimento dos totaes, dão a este historiador um alcance de artista e fazem d'este publicista um verdadeiro poeta.Ardentes e frequentes. Até aqui não vimos das suas emoções senão a quantidade, e isso mesmo dentro d'aquelles limites de imperfeita approximação que não é dado á Psychologia transpor. Vejamos agora a sua qualidade, isto é a especie dos sentimentos, e ordem dos agrupamentos.Sem duvida essas emoções são tristes. O bem estar em frente da realidade, a alegria de viver, não são sentimentos proprios do seu espirito. A gravidade e a tristeza que elle considera como qualidades da alma portugueza, são-no tambem da sua mesma alma. Se a dor é um maximum de sensação, a extrema sensibilidade é um principio de soffrimento.Capaz de emoções frequentes e vehementes, e propenso a emoções graves e tristes, vejamos que sentimentos são despertados n'elle ao contacto dos objectos, como elles se combinam com as ideias, quaes d'entre elles se transformam em paixões, e são capazes pela sua persistencia e efficacia de lhe governarem a actividade.Certamente não é a belleza physica que se impõe{63}á sua admiração. Escriptor de imaginação psychologica, a harmonia das linhas e o esplendor das côres deixa-o insensivel. Nós só nos commovemos com aquillo que percebemos, e a nossa sensibilidade é solidaria com a nossa intelligencia. Por isso no espirito que analyso, o enthusiasmo franco em frente da magnificencia da materia, a sympathia ardente pelo livre jogo das forças naturaes, não são visiveis. Se o Paganismo significa o amor da vida corporal e o predominio da actividade instinctiva, em contraposição com o Christianismo, considerado como uma reacção espiritualista, e uma repressão systematica das paixões organicas, não se lhe poderia chamar pagão. Mas a solidez da sua razão prática e a energia das suas tendencias moraes prohibe que o consideremos christão. Não é christão porque é mais largamente humano.Em parte nenhuma isto se verifica melhor do que na sua concepção do amor. A psychologia das paixões mostra que este sentimento é o mais complexo, e portanto o mais instructivo documento que se póde explorar para a intelligencia de um coração. Não temos do Sr. Oliveira Martins uma colleccão de poesias lyricas onde possamos estudar todos os cambiantes, de que um tal sentimento se reveste ao passar pelo seu espirito. Mas n'essas admiraveis paginas finaes da Historia romana, em que o philosopho resumiu as suas idéias sobre a{64}Vida, e o poeta poz a nú a sua alma, a confissão involuntaria vale por um documento especial. Ora de todos os elementos que podem entrar na composição d'esta paixão, elle só vê dois: o instincto animal e a compaixão. A energia dos seus instinctos moraes regeita o primeiro como inferior, e a mulher apparece-lhe não como um arrebatamento dos sentidos, uma satisfação do orgulho, um objecto de posse, um assumpto de analyse, uma visão divina imposta á admiração do artista, mas como um ente digno de piedade e necessitado de protecção. Alguma coisa de viril e triste caracterisa esta concepção. Ella é propria dos homens em que o dom da analyse perspicaz está ligado a vigorosos instinctos moraes.É que a energia da affirmação moral dá a chave d'este caracter. Esta energia de affirmação é tanto maior quanto no espirito de que nos occupamos ella não é uma força cega, mas coexiste com a vasta intelligencia comprehensiva e a grande curiosidade activa. Sentimentos e idéias tudo está nelle submettido a uma forte disciplina e subordinado a um plano determinado por uma livre resolução. Um vivo sentimento da dignidade humana, um amor apaixonado da justiça, brilha na sua Historia. Em balde a sua penetrante intelligencia lhe mostra o mechanismo dos factos sociaes e a majestade das causas permanentes. A energia da sua sensibilidade persiste a despeito da efficacia da analyse, e n'elle a{65}philosophia não annulla o sentimento moral. Vinte vezes nas suas narrativas os movimentos de admiração ou colera, de indignação ou compaixão, cortam a exposição dos successos. Bem que veja a fatalidade do curso dos acontecimentos, não pode resignar-se á exposição desinteressada e calma. Padece e triumpha com os seus personnagens e sobre tudo admira com vehemencia os seus heroes. É preciso ler noPortugal Contemporaneoa historia de Manoel Passos para ver como a energia de uma qualidade estructural resiste a toda a acção da cultura, e reapparece nos momentos decisivos. Este profundo psychologo, este historiador que explica os conjunctos pelas causas, pára de repente, soltando um applauso ou lançando um sarcasmo. A grande curiosidade indifferente que considera as almas como theoremas, e as sociedades como systemas, e que não vê no mundo senão um mechanismo a explicar, não é a forma propria da sua actividade mental. O Sr. Oliveira Martins está isento d'esta magnifica e perigosa exageração, pela sua robusta saude moral, pelo equilibrio estavel das suas faculdades. Incapaz de ver no Universo um ser divino a adorar, ou um simples mechanismo a comprehender, igualmente afastado da sensibilidade religiosa como da sensibilidade philosophica, escapa ás duvidas e incertezas inherentes á falta de solução do problema da Vida, pela energia da vontade e pelo habito da acção. E em quanto o{66}seu amigo Anthero de Quental, impellido pela intemperança desmedida dos seus desejos, pela grandeza e incoherencia dos seus instinctos metaphysicos, rolava pela ladeira do pessimismo ao abysmo da negação, o Sr. Oliveira Martins não mais feliz do que elle na solução dos problemas da Existencia, appellava para a força intima da sua alma, e resignava-se a acceitar a vida sem protestos vãos nem gigantescas indignações.Comtudo seria um erro consideral-o um stoico. Para sel-o, falta-lhe aquella perfeita afinação da intelligencia com a vontade, que segundo a sua propria definição constitue o caracter. Herculano, poeta da Energia, pôde sel-o; não o Sr. Oliveira Martins, psychologo por officio e que tem visto a vida e a historia com olhos de philosopho. A capacidade de fazer reviver em si os alheios sentimentos e paixões, e o habito de os comprehender e explicar como factos naturaes, determinados por causas, se não é bastante para abafar n'elle os movimentos do coração, e leval-o a observar o mundo com a indifferença immoral dos artistas, impedem contudo a faculdade da convicta approvação ou reprovação que constitue o fundo do estoicismo. A Justiça é para elle um amor, não um dogma.A palavra que define a alma do estoico, é o orgulho, diz o Sr. Oliveira Martins. O orgulho transcendente, isto é, o sentimento proprio de quem julga possuir a verdade absoluta e resolve applical-a{67}com um rigor absoluto. Bem diversa é a palavra que resume um caracter como o do Sr. Oliveira Martins. Esta é a Ironia, resultado natural da superioridade intelligente. A Ironia é tambem uma especie de orgulho, mas bem differente do estoico, porque é temperado pela piedade e pelo desdem. São estes os sentimentos que apparecem cada vez mais claros nos seus ultimos livros e tem a sua mais perfeita expressão no retrato maravilhoso de Cesar. É a Ironia aquelle estado da alma, que nelle provocam e confirmam dia a dia a experiencia e a cultura, o sentimento com que elle se mune para a travessia da Historia e para a campanha da vida. Foi este o sentimento que lhe dictou estas linhas á portada do seu livro mais original e que mais apaixonou a critica: «O exame dos nossos tempos apenas lhe provocou (ao auctor) expressões d'aquelles sentimentos que são compativeis com a serenidade da critica: uma ironia sem maldade, uma compaixão sem orgulho, pelas repetidas miserias dos homens; ás vezes, uma sympathia e um respeito singulares por certos individuos excepcionaes. Ironia, compaixão, sympathia, respeito,—moderadas commoções, com que é licito acompanhar o estudo, sem prejudicar a lucidez da vista—não impedem comtudo, que acima d'estas impressões fugitivas se colloque o profundo, inabalavel reconhecimento das causas que fazem dos homens os instrumentos do acaso ou do destino.»{68}A estructura do nosso espirito revela-se na especie do nosso ideal, e a nossa concepção da ventura deriva da nossa concepção da vida. Todos os sentimentos que no Sr. Oliveira Martins desperta a realidade e todas as opiniões que elle tem sobre as cousas, estão resumidas nas paginas finaes do seu ultimo livro (Historia Romana). É alli visivel o que ha de mais importante na sua alma, posto a nú por um psychologo, mestre na arte de pintar caracteres. O que elle pensa da paixão e do dever, da sciencia e da acção, do Universo e do eu, a sua idéia da vida e o seu ideal da vida, está expresso nesta curta pagina, em traços breves e profundos, a que a concisão do escorço exalta a energia. E não vejo melhor modo de fechar esta analyse, que é uma tentativa de autopsia moral, do que copiar este retrato que equivale a uma confissão espontanea.«Aquelle que, sem ter de esmagar desapiedadamente os sentimentos e paixões da sua natureza, sem ter de partir a mola interior que o torna um ser vivo, consegue mitigar, moderar, ponderar ou equilibrar os impulsos do seu sangue com os dictames das suas idéias, sanccionando paixões e pensamentos com a luz inextinguivel dos instinctos moraes e do senso esthetico; olhando para si proprio e para as angustias, para as dores e para as feridas da sua vida com uma commiseração vizinha{69}do desdem; olhando para o proximo e para o mundo, sem desprezo nem orgulho, mas com a ironia caridosa que se deve a todas as cousas involuntariamente inferiores; contemplando finalmente com uma curiosidade placida e discreta o nevoeiro dos mysterios e problemas que, sondados, endoudecem, e de que é mister fugir, como dos abysmos cujas vertigens hallucinam ou embrutecem; esse homem, por fóra activo, por dentro como que apathico, por vezes, e só por vezes, atacado de tedio, mas sabendo que não deve nem póde aborrecer a vida: esse homem é o unico verdadeiramente feliz.... Ser feliz depende de um acto da intelligencia e da vontade, independentemente das circumstancias exteriores da vida.»{70}{71}VO ESCRIPTORHabitos de intelligencia e movimentos de sensibilidade, tudo se reflecte nos seus processos de escriptor. Como um cardiographo delicado que regista e conta as mais imperceptiveis pulsações do espirito, assim é o estylo. Tão sómente pela analyse d'elle podiamos chegar ás conclusões a que nos levou o exame directo das opiniões e paixões; feito este, as paginas que se seguem só podem confirmar as verdades que se enunciaram e este capitulo, é menos uma indagação do que uma prova.Que especie de estylo é esse? Um escriptor de imaginação oratoria e gostos decorativos como o Sr. Latino Coelho, exprime-se n'uma linguagem adequada pela sua regularidade e sumptuosidade ás aptidões e tendencias do espirito que a emprega, e ás necessidades e utilidades do fim para que se destina. Leia-se o seu derradeiro discurso. Os vocabulos graves como fidalgos e compostos como{72}hallabardeiros, as immensas phrases roçagantes comparaveis a reposteiros de damasco, a amplitude e disciplina da syntaxe, a abundancia e efficacia das incidentes, a extensão e o aprumo dos periodos, o predominio do pensamento abstracto sobre a imaginação pittoresca, a perpetua representação do thema e a perfeita convergencia das provas, a unidade no todo, a proporção nas partes, a equidistancia nos termos, e a uniformidade na marcha do raciocinio, a majestade curul e a graça talar do discurso, revelam um homem apto e propenso para a prosa regular, a dissertação erudita, o elogio historico, a oração academica, e para todos os generos que requerem o gosto da pompa e o sentimento da gravidade, a correcção, a riqueza e a ordem, o respeito continuo de si e dos outros, uma especie de prodigalidade elegante e de arte sem nervos, a preferencia dada á erudição sobre a sciencia, e á rethorica sobre a poesia, a capacidade das idéias geraes exercendo-se em logares communs, qualidades que manejadas por um talento superior e postas ao serviço de um grande interesse, podem produzir verdadeiros monumentos litterarios.Bem diverso é o estylo do Sr. Oliveira Martins. Nada de menos grave, de menos pomposo e respeitoso. Elle escreve como fala, e fala como acha. O seu processo é a notação directa dos sentimentos presentes; a sua linguagem, a algebra nua da paixão. Rapida, irregular, tortuosa, brusca, insolente{73}e indecente, burlesca e sublime, composta de palavras que se empinam por se verem juntas, feita de phrases de todos os tamanhos e feitios, galopa ou vôa a sua prosa. Nada de mais agil e vivo. Ás vezes, a suppressão dos elementos grammaticaes produz extranhos escorços, e a phrase contrae-se como um musculo. Outras os pleonasmos batem o pé, e a repetição encrava a convicção, como um martello percutindo um prego. Ás vezes a inversão dá extranhas posturas á linguaguem, e os periodos rugem, crucificados com os pés para cima. A grammatica violada debate-se n'um tetano. As imagens soberbas ou ignobeis pullulam de todos os lados, trazidas dos palacios ou das tabernas, como um rebanho de conscritos arrastados para a batalha. E todo o livro avança, semelhante a um couraçado de combate, replecto do convez ao porão, n'um turbilhão de estrondo e espuma, precipitado pela massa e armado da velocidade, e levando na caldeira abrazada um foco de força e um perigo de explosão.Esta é a primeira impressão; profundemol-a, completando o juizo litterario pela analyse critica, e substituindo a linguagem imaginosa pela notação exacta, instrumento condigno do trabalho scientifico.Tres pontos ha a considerar na analyse de um estylo; o vocabulario, isto é, o conjuncto de elementos ultimos do discurso; a syntaxe, isto é, a{74}ordem em que estes elementos estão dispostos para constituirem o organismo da expressão; e as figuras, isto é, os expedientes necessarios para supprir as lacunas do vocabulario ordinario e da syntaxe regular.Mas antes de mais nada, observemos que o Sr. Oliveira Martins não possue o genio verbal, isto é, aquella facilidade de imitação e invenção de formas da linguagem, que em alguns dos nossos escriptores substitue e simula a intelligencia e a sensibilidade ausentes. Supponho que como os dois grandes historiadores a que o tenho comparado, Michelet e Carlyle, elle teve uma extrema difficuldade de exposição, no principio da sua carreira litteraria; pelo menos esteve muito longe de possuir aquella segurança e nitidez da palavra, aquella capacidade de adequar exactamente a expressão á intenção que caracterisa os verdadeiros temperamentos de escriptor. É porem justo dizer-se que sob este ponto de vista, como sob todos os mais, os livros do Sr. Oliveira Martins manifestam um progresso consideravel. A suaHistoria Romanaé um monumento litterario. Mas essa lacuna constitucional e o habito da improvisação impedem que as paginas perfeitas abundem nos seus escriptos; e possuindo em alto grau a força e a vida, carece de majestade e graça.Em primeiro logar, o seu vocabulario não é numeroso; não se manifesta nos seus livros aquella{75}abundancia, que no Sr. Ramalho Ortigão provém de um forte estudo do lexicon, e no Sr. Camillo Castello Branco de uma memoria verbal extremamente feliz. As palavras vagas não escasseiam nos seus escriptos mesmo exprimindo ideias precisas. Com as palavras vagas, os termos improprios que falseiam a expressão e tornam necessaria a decifração. Os vocabulos extrangeiros ou mesmo nacionaes tomados n'uma accepção extranha á lingua lançam manchas desagradaveis na tela do discurso. As expressões synonimicas e as emendas que elle faz seguir ás expressões originaes, parecem indicar que o proprio auctor sente que não exprimiu cabalmente o seu pensamento; e se muitas vezes a accumulação de expressões novas para formular a mesma idéia, manifesta a paixão obstinada e a convicção activa, muitas outras significa sómente a consciente escassez de recursos do escriptor.Dois typos syntacticos se notam nos escriptos do Sr. Oliveira Martins. Um é o grande periodo regular, de que elle se serve ordinariamente nos seus trabalhos didacticos, e de que se póde observar um bom exemplo no prefacio doHellenismo e a Civilisação christã. A ausencia de aptidões e gostos oratorios impede que o Sr. Oliveira Martins prime n'esta forma de discurso. E diga-se a verdade, poderiamos percorrer os escriptores portuguezes antigos ou contemporaneos sem encontrarmos muitos exemplares de prosa perfeita, taes como abundam{76}na litteratura franceza. O ar latino da nossa prosa classica póde illudir á primeira vista. Mas quem a submetter á analyse verá que não encontra nella aquelle habito de decompor as idéias e passar gradualmente por todos os seus elementos, que constitue um dos caracteristicos principaes da prosa franceza.O outro typo syntactico é o inciso, a phrase curta e entrecortada, offegante. Ella se obtem suspendendo continuamente o pensamento, supprimindo os desenvolvimentos das idéias, e até as particulas grammaticaes, pronomes, artigos e conjucções. A phrase elliptica tem movimentos convulsivos de ave decapitada, e os elementos do discurso trocam vivamente os logares como os raios de uma roda. Esta é a forma adequada a um temperamento litterario como o Sr. Oliveira Martins. É nesta forma que elle vasa as suas descripções e narrações. As ellipses, as repetições, as inversões, a ausencia completa de todas as figuras de symetria, conspiram no mesmo sentido, e não é difficil mostrar como sendo os sobresaltos da machina nervosa irregulares e instantaneos, é esta a prosa que convem ao escriptor e á obra que analysamos. Leia-se esta descripção do incendio nos armazens de Gaya. «Posto o fogo ao rastilho, começou breve a pyrotechnia, allumiando a noute. Começou por uma explosão tremenda, donde sahiram labaredas e rolos de fumo rapido. O vento animado impellia a{77}chamma. E as pipas estalando troavam como canhões. Singular batalha! O vinho rolava em cachões, da praia sobre o rio que ia tinto de vermelho como sangue. As labaredas subiam e a vasta seara de fogo batida pela aragem, ondeando, crescia, andava. Incendiados, como lavas de um vulcão, desciam ao Douro, os liquidos espirituosos e chocando as aguas repelliam-nas, entrando nellas como um cabo. Parecia uma tempestade geologica. A agua do rio fervia, fumava; e fluctuando sobre a agua, vogava á mercê da corrente um lançol de chammas rubras.» A phrase tem a velocidade, a mobilidade, a plasticidade da chamma, e o foco moral donde ella brota não é menos ardente e vivo.Os outros expedientes litterarios convergem no mesmo sentido. E antes de mais nada, a ausencia das figuras de dicção, que estabelecem uma symetria visivel e um equilibrio extrinseco do discurso, revela um espirito pouco sensivel á harmonia verbal e ás seducções da rhetorica. O epitheto, esse instrumento de que tanto se abusa, é raro, e quasi sempre pittoresco e novo. Mas os tropos abundam, como convem a um estylo que é a manifestação de uma alma audaciosa e ferida vivamente pelos aspectos das cousas. Ás vezes n'uma fria dissertação de direito publico ou de economia politica uma imagem fulgura magnificamente, como uma papoula{78}n'um trigal. Assim depois de expor o admiravel regimen de federação municipal que consolidava e completava a conquista romana, exclama num rapto de poeta: «Roma é a capital: está no pincaro da montanha ideal em cujas encostas por estradas espiraes se desenrola a procissão das gentes e cidades que sobem». Assim depois de pintar a angustiosa situação do paiz na primavera de 47, escreve referindo-se ao abuso da emissão fiduciaria, «Havia em Lisboa uma grande miseria, uma carestia excessiva de tudo, um doloroso mal-estar, perseguições e recrutamentos, os batalhões sempre em armas, e fluctuando, as notas, como os trapos de neve caindo, cobrindo tudo, nos dias mornos que precedem o desencadear da tormenta.» E as metaphoras como estas abundam ou magnificamente desenvolvidas n'uma pagina, ou ardendo concentradas n'um verbo e n'um epitheto.A mesma vehemencia de imaginação e paixão produz e explica as apostrophes ao leitor e aos personnagens da sua historia, as interrogações, as exclamações, as reticencias, as prosopopéias, os bruscos saltos, a falta de clareza, as referencias a factos que se calam e que o escriptor julga conhecidos. Esta energia de habitos vai tão longe, que se exerce sobre porções dos seus livros que parece deveriam escapar a ella. Copio doPortugal contemporaneoestes titulos de livros e capitulos:Fuit homo missus a Deo; Sic itur ad astra; O principio do fim;{79}Væ victis; Os impenitentes; A raposa e suas manhas.Quando lança um olhar retrospectivo sobre o conjuncto da sua obra, não encontra uma serie de idéias precisas, mas um tumulto de visões inflammadas. Por isso escasseiam os summarios, os resumos e todos os expedientes destinados a precisar as doutrinas e fixal-as na memoria. Este escriptor faz imagens e sarcasmos até nos indices.Tal é esse estylo: irregular, tortuoso, familiar, apaixonado e vivo. Para o conhecermos cabalmente não recuamos perante a minuciosa analyse das formas grammaticaes e dos expedientes litterarios, mas fizemol-a como psychologo e não como rhetorico. O espirito philosophico é o dom da analyse e da synthese, e a sciencia deve reunir como a aguia as garras penetrantes ás largas azas.{80}{81}VIO HISTORIADORComposto assim o seu espirito só resta a deduzir a sua obra e demonstrar a solidariedade que prende aquelle a esta, considerando-o successivamente como historiador e como politico.Se ha trabalho que pela sua complexidade e difficuldade assoberbe a imaginação de quem o intenta, e exija a maxima energia da parte de quem o realisa, é certamente o trabalho historico. Só examinando esta complexidade e difficuldade poderemos fazer idéia da variedade dos recursos empregados e da quantidade de força dispendida pelos grandes historiadores.Para isto, basta considerar que a Historia é a visão intelligente dos phenomenos sociaes. Toda a formidavel complicação dos trabalhos historicos deriva do simples exame d'esta formula.E antes de tudo, observemos que o aggregado social é dado em relação a um meio physico e constituido{82}por unidades vivas, o que torna necessario o conhecimento das sciencias inorganicas e organicas. A posição da sociologia na serie gerarchica das sciencias exige, nos que a cultivam, a posse das verdades que logicamente a condicionam. E desde os principios mais abstractos da Quantidade e da Forma até os factos relativamente menos simples da Anthropologia, tudo concorre para a explicação dos phenomenos sociaes. Os exemplos abundam e são faceis de adduzir. A doutrina da população não se póde constituir sem a theoria algebrica das series e o calculo arithmetico dos logarithmos. A relação geometrica que n'uma dada figura prende a grandeza da area ao valor do perimetro, é um elemento a considerar na comprehensão do engrandecimento d'um territorio. As leis que ligam o crescimento do organismo á massa do planeta e regem a distribuição do calor, da luz e porventura da electricidade á superficie da terra, forçosamente exercem uma intervenção activa no curso da Historia. Os dados geologicos que enunciam a natureza actual e as transformações futuras da crosta terrestre, não são indifferentes á explicação dos phenomenos que a tem por theatro; a theoria dos ventos interessa á historia da navegação de muitos povos, e a dos terremotos á vida d'alguns. Finalmente as leis que regem á existencia dos seres vivos, influem profundamente no corpo social, visto o homem ser um animal, e fazem do conhecimento da Biologia a{83}condicção immediata e indispensavel do estudo da Sociologia. Assim toda a massa das verdades adquiridas pela Sciencia vem illuminar directa ou indirectamente o caminho que o historiador tem de percorrer. (V. Spencer, Intr. á sciencia social; A. Comte, Curso de Philosophia positiva.)A todas estas difficuldades que resultam da variada e completa preparação em que se deve basear o historiador, é preciso juntar ás difficuldades intrinsecas, as que provém da natureza intima da Historia.Em primeiro logar, a Historia é uma sciencia moral, isto é, versa em ultima analyse sobre factos mentaes, sentimentos e idéias. O ser um estudo da alma humana é a primeira e mais grave fonte das difficuldades inherentes a esta ordem de investigações. Com effeito os phenomenos mentaes, quer os propriamente intellectuaes, quer os puramente emocionaes, se apresentam investidos de um duplo caracter que os torna eminentemente rebeldes a uma exacta observação. De um lado, a sua mesma natureza de phenomenos interiores, do dominio da consciencia, exige um dom especial, um sentido que nem todos possuem sufficientemente desenvolvido. D'outro lado, o composto mental é extremamente complicado e cada phenomeno de que se compõe se resolve por seu turno n'um numero enorme de elementos, que como taes caem fora do campo da consciencia, onde só apparecem os totaes.{84}A velocidade extrema das reacções cerebraes, corresponde a esta complexidade formidavel de que dão apenas uma vaga ideia os phenomenos que constituem as funcções propriamente biologicas.Accrescentem-se a estas difficuldades resultantes da natureza do individuo, as provenientes da natureza do aggregado social. Se é certo que em ultima analyse a Sociologia se reduz á Psychologia, é tambem certo que as opiniões e paixões individuaes são continua e vigorosamente modificadas pelas paixões e opiniões adjacentes, e que o espirito de cada um apparece como um espelho da sociedade inteira de que faz parte. Quando o aggregado social é bastante extenso a complicação resultante da sua grandeza é tal que parece desafiar o poder da analyse.Junte-se ainda a difficuldade que resulta de se considerar uma sociedade não num momento dado, mas na sua evolução atravez de muitos seculos. Seguir um aggregado tão multiplo nas suas continuas e imperceptiveis transformações de momento para momento, determinar as causas variadissimas e occultas d'essas transformações, marcar as forças superiores cuja permanencia determina a identidade de um povo atravez de todas as suas metamorphoses, produzindo essa consciencia social bem mais difficil de se estabelecer e bem mais facil de se destruir do que a individual, é{85}uma empresa comparada á qual, qualquer trabalho scientifico é relativamente facil.Considere-se finalmente que a Historia é uma sciencia concreta, isto e, descriptiva e narrativa. Este derradeiro traço é origem de grandes difficuldades na indagação e sobretudo na exposição das verdades historicas. Mesmo nas sciencias inferiores essas difficuldades são grandes. Por exemplo, em Astronomia é relativamente facil indicar as forças que determinam a harmonia do nosso systema solar; mas mostrar a evolução, pela qual elle se veiu transformando até se constituir como existe actualmente, é uma tarefa d'outra ordem que não comporta o mesmo grau de precisão; a hypothese da nebulosa está privada da certeza de que se acha investida a theoria da gravitação, e a hypothese das agglomerações meteoricas inventada por Julio-Roberto Meyer, prova a necessidade de tornar a doutrina de Laplace mais adequada á realidade completando-a com principios subsidiarios. Semelhantemente nas sciencias inorganicas, o methodo experimental permitte demonstrar com efficacia uma lei de barologia ou thermologia; mas a applicação d'essas leis para a explicação da historia passada e constituição actual do globo, não tem a mesma segurança; a Geologia está longe de attingir o estado de adeantamento da Physica e da Chimica, sciencias em que ella se baseia; a doutrina das geleiras não se acha constituida com a mesma perfeição{86}que a theoria da irradiação do calor. Em Biologia verifica-se o mesmo. Em quanto se tratam de indagar as leis abstractas da morphologia e da physiologia vegetal e animal, as difficuldades são grandes mas superaveis graças ao emprego da observação, da experimentação e da comparação; mas quando se trata de explicar a existencia das plantas e animaes taes como realmente são, as difficuldades crescem de ponto e inversamente diminue a precisão e certeza das doutrinas enunciadas; a hypothese de Darwin sobre a evolução dos organismos não póde aspirar á mesma convicta adhesão que o principio de Milne Edwards sobre a divisão do trabalho physiologico. Semelhantemente as difficuldades de investigação inherentes á natureza e complicação dos phenomenos sociaes, com serem enormes, são pequenas, comparadas com as que apresenta o estudo da Historia propriamente dicta. E abaixo dos philosophos nenhuma classe de espiritos arca com tamanhas difficuldades, incorre em tão graves responsabilidades, nem se reveste de uma tão alta dignidade scientifica como os historiadores.Para vencer tão grandes difficuldades, o historiador deve fecundar por uma vasta preparação geral e technica um espirito extremamente complexo e profundo. Qual seja essa preparação geral deriva da indicação acima feita dos estudos subsidiarios que condicionam o conhecimento da Sciencia{87}social. A preparação technica resulta semelhantemente da propria natureza da Sciencia social. Elle suppõe o conhecimento exacto dos factos adduzidos e a sua classificação methodica em grupos naturaes. Quanto aos dotes de espirito o historiador deve conter um sabio e um artista. A capacidade de observação exacta dos factos particulares deve estar ligada á faculdade das idéias geraes; e além d'isso a imaginação pittoresca que permitte a representação nitida e colorida das paysagens que constituem o palco da Historia, ha de ser completada pela imaginação psychologica que faz a alma dos individuos e povos que são os protogonistas da Historia. Finalmente o grande historiador deve ser um grande escriptor e empregar um estylo que reuna á precisão propria do trabalho scientifico, o colorido proprio das descripções, e o movimento proprio das narrações.Comparemos este modelo do historiador ideal com o retrato já traçado do Sr. Oliveira Martins e veremos o que elle tem e o que lhe falta.O seu saber é vasto inda que incompleto. Os volumes publicados da suaBibliotheca das Sciencias sociaese os annunciados no programma, revelam que o Sr. Oliveira Martins tem consciencia da importancia e largueza de estudos com que se deve preparar para o trabalho historico. Comtudo seria para desejar que o auctor conservasse ineditos os livros em que a sua originalidade e competencia{88}são contestaveis, e estudando convenientemente os assumptos sobre que elles versam, se abstivesse de tratar publicamente sciencias de que só se podem occupar com auctoridade os especialistas.No que toca á exactidão dos factos enunciados nos seus tratados de historia nacional, constituidos pelaHistoria da Civilisação Iberica, aHistoria de Portugal, e oPortugal Contemporaneo, o Sr. Oliveira Martins não tem o habito de enumerar os documentos compulsados e discutir as fontes exploradas. As notas, que nas grandes historias classicas acompanham e comprovam as affirmações feitas no texto, não apparecem na sua obra. É verdade que historiadores como Mommsen e Curtius supprimiram nos seus livros monumentaes a bagagem das demonstrações; mas esses historiadores já tinham assignalado a sua actividade de investigadores em numerosas dissertações especiaes, e accumulado materiaes que serviam de base ao auctor e de garantia ao leitor. Considere-se ainda que escreviam sobre assumptos largamente explorados. O Sr. Oliveira Martins occupando-se da historia de Portugal, deveria redobrar de precauções no que toca ás provas. Mas acceitando-a tal como está escripta, e lastimando que ella não seja mais extensa, observaremos que a conhecida assiduidade ao trabalho e a sinceridade certa do Sr. Oliveira Martins, são consideraveis garantias da veracidade das suas asserções.{89}Quanto as aptidões cujo conjuncto constitue o seu espirito, já vimos que o Sr. Oliveira Martins possue a imaginação dos movimentos, das massas, das forças e que as suas paysagens representam as expressões moraes dos aspectos physicos; e que além d'isso possue a capacidade e o habito de explicar os aspectos physicos como mechanismos naturaes. Se reflectirmos que estas duas aptidões exgottam a noção do scenario historico, considerado como um conjuncto de causas efficazes actuando sobre espiritos, veremos que o Sr. Oliveira Martins está apto pela imaginação pittoresca e pela razão abstracta a descrever e explicar omeiodos successos que narra. Semelhantemente e ainda melhor a sua admiravel imaginação psychologica habilita-o a ver o interior das almas individuaes e collectivas que põe em scena. Essa imaginação, integral e intensa, prima na representação das emoções, e como a maioria das acções é determinada por emoções, resulta d'ahi que o Sr. Oliveira Martins está apto para representar oagentedaHistoria, como representara o seumeio. E o mesmo poder de abstracção que lhe permittira comprehender as relações geraes entre os factos physicos, lhe faz ver o nexo logico que determina as coexistencias e as sequencias dos factos moraes.Vimos que o seu estylo era destituido de ordem, precisão e clareza, e que abundava em movimento, força e vida. A ausencia das primeiras qualidades{90}prejudica a sua Historia considerada como obra de sciencia, e impede que ella se possa considerar como obra de vulgarisação. A presença dos outros dotes dá-lhe um valor raro como obra de arte. O seu vocabulario trivial, technico, fornecido em todos os recantos da vida, permittir-lhe-á fazer descripções coloridas e supprir pela abundancia de pormenores concretos a nitidez ausente que lhe daria a ordem que não possue. A syntaxe rapida e tortuosa permittir-lhe-á fazer narrações dramaticas e vivas e acompanhar pela marcha offegante e irregular dos periodos a successão precipitada e sempre nova dos acontecimentos. Finalmente todos os outros expedientes de composição revelando o sentimento do real e a paixão intensa convergem no mesmo sentido; e a mesma solidariedade que prende a sua obra á sua imaginação e á sua sensibilidade, liga a ella o seu estylo.{91}

Qual é a sua concepção do mundo? qual o seu processo de invenção? qual o seu methodo de prova? qual a quantidade a qualidade e a ligação das suas idéias geraes? Eis as perguntas que um critico deve fazer sempre que queira ter uma percepção clara da razão do escriptor que analysa.

Á portada do seu livroO Hellenismo e a Civilisação christãha uma theoria digna de attenção, menos pelo seu valor intrinseco de verdade ou novidade do que pela sua importancia como indicio do espirito que a formulou. É a theoria do Acaso. Em presença da realidade historica, como em presença da realidade natural, o Sr. Oliveira Martins é ferido pelo caracter eminentementeconcretoque ella apresenta. A infinita complexidade propria das cousas e que imprime a cada uma um caracter de individualidade, não escapa á sua observação.{52}Na sciencia, pensa elle, o necessario e o fortuito tem uma funcção igualmente inevitavel. É certo que o Sr. Oliveira Martins não confunde o fortuito com o milagroso, que justamente regeita como irracional. Mas admittindo ser impossivel explicar um caso qualquer na sua totalidade, elle introduz um elemento d'ignorancia mesmo n'aquella porção da Realidade que é confessadamente do dominio da sciencia positiva. É isto que a sua notavel theoria do Acaso enuncia com a lucidez propria das operações abstractas. Os factos apparecem-lhe certamente formando series e ligados entre si pelo nexo da causalidade. Mas o encontro d'essas series determina nos pontos de intersecção a apparição de novas formas de realidade, cuja existencia a sciencia não póde explicar, visto o encontro das series não ser necessario, e cujos aspectos o investigador se deve limitar a descrever, abandonando aqui a razão abstracta, instrumento adequado á descoberta das leis geraes, pela imaginação poetica, visão sufficiente da existencia concreta.

Sem entrar na discussão desenvolvida d'esta theoria, a meu ver inexacta, não posso deixar de me demorar um instante com ella. A introducção da noção de Acaso como elemento constitutivo da Realidade, quer se considere o Acaso como ausencia de leis, quer seja apenas synonymo de contingencia no encontro das series naturaes expressas{53}por essas leis, significa sempre uma abdicação confessada ou tacita da Razão. A previsão dos casos futuros, aferidora da solidez das verdades adquiridas, torna-se tão impossivel n'um universo em que a ausencia de causalidade implica uma constitucional e incuravel anarchia, como n'um mundo em que os factos apparecem, sim, ligados por um nexo abstracto de causalidade, mas em que as cousas são aggregados contingentes, resultantes da intercorrencia de series independentes. A coherencia parcial representada pela existencia d'essas series é inutilisada pela ausencia de uma connexão natural que ligue as series n'um systema, resultando d'ahi uma incoherencia effectiva como a que torna um cahos o mundo concebido pela philosophia de Stuart Mill. Os resultados de uma tal doutrina fazem-se sentir logo; e não é difficil dizer porque occorrem ás vezes á penna do Sr. Oliveira Martins expressões singulares, que levariam a suspeital-o de scepticismo intellectual, se o corpo das suas opiniões não desmentisse uma tal hypothese, e se o proprio auctor não corrigisse o que as suas expressões possam conter de excessivo. Copiarei do prefacio doPortugal contemporaneoestas linhas para exemplo: «O profundo e inabalavel reconhecimento das causas que fazem dos homens os instrumentos do acaso ou do destino!...» N'este trecho está como que visivel toda a theoria. A affirmação das causas não exclue a{54}admissão do Acaso e uma extranha reserva coexiste com um dogmatismo energico.

A theoria acima exposta contém certamente alguma cousa de verdadeiro; para que fosse absolutamente exacta seria preciso completal-a pela affirmação de uma solidariedade estructural entre as partes e de uma unidade systematica no todo universal. Affirmação esta que tem o seu fundamento quer na doutrina da communidade d'origem e identidade latente dos elementos da Realidade, quer na philosophia que vê na idéia de Systema como no conceito de Causa formas condicionaes do pensamento. Admittindo qualquer d'estas hypotheses, o Sr. Oliveira Martins não se privava do direito de se conservar n'uma prudente reserva em frente da esmagadora complexidade das cousas concretas, antes lhe seria facil motivar a sua abstenção com a impossibilidade em que se acha o espirito de exgottar por analyses successivas a quantidade infinita de elementos que entram na formação do mais insignificante phenomeno. De maneira que esta impossibilidade de explicação completa proviria não de uma falta de coherencia entre as series causaes, mas de um excesso d'ella. Fundada nestas duas idéias, o Universo e o Individuo, é possivel proceder á construcção da sciencia positiva. Para conseguil-o deve-se ainda recorrer a principios subsidiarios. Não entra no programma d'este estudo enuncial-os. Diga-se porém que a{55}noção de jerarchia de causas e a comparação entre grandezas de forças são instrumentos adequados á resolução do problema.

Seja porém qual for o valor doutrinal d'esta theoria, ella nos interessa como documento do espirito que analysamos. Vê-se que o Sr. Oliveira Martins encontra na realidade dois principios, um necessario, outro fortuito. Quanto ao primeiro o nosso auctor exprime-se categoricamente; e investe-o de certeza absoluta; e no fim do seu livro aAnthropologiaescreve o seguinte: «A logica dipensa os prolegomenos da physiologia; e todos os progressos passados ou vindouros da anatomia do cerebro não alteraram, nem alterarão uma linha só do systema das suas leis. Podemos affirmar com afouteza que o que torna certa para nós uma proposição, a tornaria egualmente certa para intelligencias tão bem munidas de conhecimentos como a nossa: embora com a indispensavel capacidade organica, tivessem uma constituição physiologica differente. Com algumas circumvoluções mais ou menos no cerebro talvez se não seja capaz de comprehender a geometria; mas, sendo-se, a geometria não poderá ser diversa da que nos ensinaram Euclides ou Archimedes.» Esta peremptoria affirmativa nos revela uma intelligencia que por natureza ou por systema, se não deixa immergir nas nevoas da duvida. Quanto á admissão de um elemento fortuito na realidade, é conveniente observar que{56}o Sr. Oliveira Martins não só o confessa mas ainda o pratica. Com effeito nas suas narrações e deducções elle foge ás explicações que se contentam com uma só causa; as suas previsões são cheias de restricções. Pegar n'um trecho da realidade, despil-o de tudo quanto for accessorio, decompol-o n'um pequeno numero de elementos constitucionaes, referil-os a um pequeno numero de causas simples, subordinar todas estas causas a um só principio explicativo que é razão sufficiente de todo o grupo estudado, partir do trabalho feito para formular previsões imperiosas semelhantes a ordens dadas ao futuro, são actos proprios das intelligencias simplistas e centralistas, de que offerecem um excellente exemplo entre nós os primeiros escriptos do Sr. Theophilo Braga. O Sr. Oliveira Martins procede de um modo bem diverso. Elle multiplica os pontos de vista, não poupa principios novos para explicar novas formas de existencia, foge de theorias demasiado simples, e quando formula uma lei só admitte a sua futura realisação sob certas condições, abstendo-se de uma excessiva confiança na sciencia como explicação do presente ou previsão do porvir. Sem tomar as interminaveis precauções, nem ter a delicadeza infinita de um Ernesto Renan, por que lh'o não permitte o temperamento nimiamente apaixonado da raça, a sua prudencia é grande e seria efficaz, se a não prejudicasse o seu exaggerado e contumaz{57}espirito de improvisação. Assim como é, não se torna porém difficil mostrar a relação que prende os seus habitos d'intelligencia á sua concepção da realidade.

Nem é menos facil apontar o nexo logico que liga a concepção exposta e as tendencias indicadas ao seu habitual e confessado processo de indagação. «Não bastam á historia, diz elle, a observação e o systema classificador, assim como á sua lingua, não bastam a precisão e a clareza; é mister sentir e adivinhar e por no estylo a vida e o calor proprios das cousas moraes». E accrescenta: «O historiador não reproduzirá a sociedade, se não poder combinar no seu espirito o raciocinio que descreve, a intuição que vê a alma que sente.» É mister sentir e adivinhar diz o Sr. Oliveira Martins e é o que elle faz de preferencia. Alguns verão n'estas palavras um paradoxo ou uma ironia. Mas as pessoas versadas no assumpto sabem que ha duas maneiras de inventar: Ou se parte da observação das causas e por um laborioso processo de raciocinio se sobe aos principios mais geraes que as explicam, ou por uma immediata e impetuosa improvisação se descobrem estes mesmos principios sem passar por todas as intermediarias logicas que são os seus antecedentes naturaes. D'estas duas classes de intelligencias, uma fadada para a grande descoberta inconsciente, outra predestinada para a perfeita{58}prova efficaz, e que mutuamente se completam, porque se uma é a invenção, a outra é a demonstração, o Sr. Oliveira Martins pertence á primeira, isto é, apparece-nos antes como um poeta, do que como um orador. Certamente elle estuda os assumptos de que trata, mas vê-se que as suas theorias derivam menos da erudição que da intuição. Póde-se dizer que elle adivinha, se entendermos por adivinhação, não uma milagrosa apprehensão de principios impossiveis de descobrir por meios naturaes, mas uma veloz e certeira descoberta de verdades que seria lento e penoso investigar pelo raciocinio ordinario. O nosso auctor pertence, salvo as differenças de grandeza, a essa classe d'espiritos, de que são excellentes exemplares Michelet na França, Carlyle na Inglaterra, e na Allemanha tantos Allemães. É antes um poeta, do que um orador. Porque os attributos proprios da razão oratoria, o instincto da ordem, o habito da symetria, o emprego das verdades claras e equidistantes, a contextura equilibrada e a velocidade uniforme do discurso, a abundancia de argumentos e a efficacia de provas, não são visiveis nos seus livros. Pelo contrario, os dons propriamente poeticos, a veracidade e a intensidade da visão concreta, a energia da imaginação instantanea e intermittente, o vôo desigual e tortuoso do raciocinio, o emprego da inspiração, e da paixão como processos de descoberta e exposição, saltam aos olhos de quem o{59}estuda. Este genero de espirito é fadado, pela sua estructura, ás verdades importantes e aos erros frequentes, e nem umas, nem os outros faltam nos trabalhos do Sr. Oliveira Martins.

D'entre os dotes oratorios acima indicados, e cuja falta notei no Sr. Oliveira Martins, um dos mais importantes é certamente o talento e o gosto da prova; qualidade esta cuja importancia sobe de ponto, se observarmos que a prova é não sómente um instrumento da eloquencia, mas ainda um elemento da sciencia. Quem o leu, observou de certo, que elle se contenta com expor as idéias, muitas vezes novas, sempre interessantes, que lhe occorrem nas suas explorações atravez da Historia, sem procurar fundamentar as suas theorias, e tornar evidente aquillo que considera como verdadeiro. E não só esta ausencia de provas é visivel em questões theoricas, mas ainda em materia de factos. Certamente as narrações do Sr. Oliveira Martins tem um cunho d'extrema verosimilhança. Artista pela visão das massas e pelo sentimento dos conjunctos, elle sabe adequar os pequenos factos que escolhe ao effeito final que deseja, e nos seus livros a harmonia do todo garante a veracidade das partes. Mas salvo esta garantia que é commum ao romance que se imagina, como á historia que se narra, nada merece nas suas obras o nome de demonstrado. Nem a immensa accumulação dos factos{60}averiguados, nem a enumeração completa dos documentos compulsados, nem a discussão e a critica das fontes exploradas, vem dar á sua narração o cunho da certeza. Entrando num assumpto vai direito ao amago d'elle, e depois de traduzir a viva impressão recebida, com uma abundancia extrema de pormenores sensiveis, n'um quadro que se grava na memoria, passa a atacar outro assumpto e a pintar outro quadro, sem procurar convencer o leitor da efficacia da analyse e da fidelidade da pintura. No seu desdem de artista e no seu orgulho de inventor, parece crer que a evidencia é a atmosphera da intelligencia e repelle a prova como um pleonasmo. Nenhum dos nossos escriptores merece mais ser lido, nem carece mais de ser lido com cautela.{61}

Estudada a sua intelligencia passemos a estudar a sua sensibilidade; esta não é menos interessante do que aquella.

Qual é o numero, a força, a especie das suas emoções? Certamente ellas são numerosas. A emoção é um estado habitual da sua alma. Qualquer que seja o assumpto de que se occupa, a paixão abunda. Isto é visivel sobretudo pelo tom do seu estylo. Historia ou critica, jornal ou theoria, tudo quanto escreve é animado por um sopro quente de commoção sincera. Nenhuma idéia lhe apparece como um simples objecto de comprehensão, mas como uma verdadeira fonte de impulsões.

Frequentes e intensas. Basta percorrermos os seus livros, mesmo de relance, para nos convencermos que a força das suas emoções é tão grande como a sua constancia é perfeita. Vehementes sempre,{62}violentas muitas vezes, ellas constituem pela sua multiplicidade e continuidade um estado habitual de exaltação da sensibilidade. Dotes estes, que ligados á sua capacidade de visão, concreta e ao seu vivo sentimento dos totaes, dão a este historiador um alcance de artista e fazem d'este publicista um verdadeiro poeta.

Ardentes e frequentes. Até aqui não vimos das suas emoções senão a quantidade, e isso mesmo dentro d'aquelles limites de imperfeita approximação que não é dado á Psychologia transpor. Vejamos agora a sua qualidade, isto é a especie dos sentimentos, e ordem dos agrupamentos.

Sem duvida essas emoções são tristes. O bem estar em frente da realidade, a alegria de viver, não são sentimentos proprios do seu espirito. A gravidade e a tristeza que elle considera como qualidades da alma portugueza, são-no tambem da sua mesma alma. Se a dor é um maximum de sensação, a extrema sensibilidade é um principio de soffrimento.

Capaz de emoções frequentes e vehementes, e propenso a emoções graves e tristes, vejamos que sentimentos são despertados n'elle ao contacto dos objectos, como elles se combinam com as ideias, quaes d'entre elles se transformam em paixões, e são capazes pela sua persistencia e efficacia de lhe governarem a actividade.

Certamente não é a belleza physica que se impõe{63}á sua admiração. Escriptor de imaginação psychologica, a harmonia das linhas e o esplendor das côres deixa-o insensivel. Nós só nos commovemos com aquillo que percebemos, e a nossa sensibilidade é solidaria com a nossa intelligencia. Por isso no espirito que analyso, o enthusiasmo franco em frente da magnificencia da materia, a sympathia ardente pelo livre jogo das forças naturaes, não são visiveis. Se o Paganismo significa o amor da vida corporal e o predominio da actividade instinctiva, em contraposição com o Christianismo, considerado como uma reacção espiritualista, e uma repressão systematica das paixões organicas, não se lhe poderia chamar pagão. Mas a solidez da sua razão prática e a energia das suas tendencias moraes prohibe que o consideremos christão. Não é christão porque é mais largamente humano.

Em parte nenhuma isto se verifica melhor do que na sua concepção do amor. A psychologia das paixões mostra que este sentimento é o mais complexo, e portanto o mais instructivo documento que se póde explorar para a intelligencia de um coração. Não temos do Sr. Oliveira Martins uma colleccão de poesias lyricas onde possamos estudar todos os cambiantes, de que um tal sentimento se reveste ao passar pelo seu espirito. Mas n'essas admiraveis paginas finaes da Historia romana, em que o philosopho resumiu as suas idéias sobre a{64}Vida, e o poeta poz a nú a sua alma, a confissão involuntaria vale por um documento especial. Ora de todos os elementos que podem entrar na composição d'esta paixão, elle só vê dois: o instincto animal e a compaixão. A energia dos seus instinctos moraes regeita o primeiro como inferior, e a mulher apparece-lhe não como um arrebatamento dos sentidos, uma satisfação do orgulho, um objecto de posse, um assumpto de analyse, uma visão divina imposta á admiração do artista, mas como um ente digno de piedade e necessitado de protecção. Alguma coisa de viril e triste caracterisa esta concepção. Ella é propria dos homens em que o dom da analyse perspicaz está ligado a vigorosos instinctos moraes.

É que a energia da affirmação moral dá a chave d'este caracter. Esta energia de affirmação é tanto maior quanto no espirito de que nos occupamos ella não é uma força cega, mas coexiste com a vasta intelligencia comprehensiva e a grande curiosidade activa. Sentimentos e idéias tudo está nelle submettido a uma forte disciplina e subordinado a um plano determinado por uma livre resolução. Um vivo sentimento da dignidade humana, um amor apaixonado da justiça, brilha na sua Historia. Em balde a sua penetrante intelligencia lhe mostra o mechanismo dos factos sociaes e a majestade das causas permanentes. A energia da sua sensibilidade persiste a despeito da efficacia da analyse, e n'elle a{65}philosophia não annulla o sentimento moral. Vinte vezes nas suas narrativas os movimentos de admiração ou colera, de indignação ou compaixão, cortam a exposição dos successos. Bem que veja a fatalidade do curso dos acontecimentos, não pode resignar-se á exposição desinteressada e calma. Padece e triumpha com os seus personnagens e sobre tudo admira com vehemencia os seus heroes. É preciso ler noPortugal Contemporaneoa historia de Manoel Passos para ver como a energia de uma qualidade estructural resiste a toda a acção da cultura, e reapparece nos momentos decisivos. Este profundo psychologo, este historiador que explica os conjunctos pelas causas, pára de repente, soltando um applauso ou lançando um sarcasmo. A grande curiosidade indifferente que considera as almas como theoremas, e as sociedades como systemas, e que não vê no mundo senão um mechanismo a explicar, não é a forma propria da sua actividade mental. O Sr. Oliveira Martins está isento d'esta magnifica e perigosa exageração, pela sua robusta saude moral, pelo equilibrio estavel das suas faculdades. Incapaz de ver no Universo um ser divino a adorar, ou um simples mechanismo a comprehender, igualmente afastado da sensibilidade religiosa como da sensibilidade philosophica, escapa ás duvidas e incertezas inherentes á falta de solução do problema da Vida, pela energia da vontade e pelo habito da acção. E em quanto o{66}seu amigo Anthero de Quental, impellido pela intemperança desmedida dos seus desejos, pela grandeza e incoherencia dos seus instinctos metaphysicos, rolava pela ladeira do pessimismo ao abysmo da negação, o Sr. Oliveira Martins não mais feliz do que elle na solução dos problemas da Existencia, appellava para a força intima da sua alma, e resignava-se a acceitar a vida sem protestos vãos nem gigantescas indignações.

Comtudo seria um erro consideral-o um stoico. Para sel-o, falta-lhe aquella perfeita afinação da intelligencia com a vontade, que segundo a sua propria definição constitue o caracter. Herculano, poeta da Energia, pôde sel-o; não o Sr. Oliveira Martins, psychologo por officio e que tem visto a vida e a historia com olhos de philosopho. A capacidade de fazer reviver em si os alheios sentimentos e paixões, e o habito de os comprehender e explicar como factos naturaes, determinados por causas, se não é bastante para abafar n'elle os movimentos do coração, e leval-o a observar o mundo com a indifferença immoral dos artistas, impedem contudo a faculdade da convicta approvação ou reprovação que constitue o fundo do estoicismo. A Justiça é para elle um amor, não um dogma.

A palavra que define a alma do estoico, é o orgulho, diz o Sr. Oliveira Martins. O orgulho transcendente, isto é, o sentimento proprio de quem julga possuir a verdade absoluta e resolve applical-a{67}com um rigor absoluto. Bem diversa é a palavra que resume um caracter como o do Sr. Oliveira Martins. Esta é a Ironia, resultado natural da superioridade intelligente. A Ironia é tambem uma especie de orgulho, mas bem differente do estoico, porque é temperado pela piedade e pelo desdem. São estes os sentimentos que apparecem cada vez mais claros nos seus ultimos livros e tem a sua mais perfeita expressão no retrato maravilhoso de Cesar. É a Ironia aquelle estado da alma, que nelle provocam e confirmam dia a dia a experiencia e a cultura, o sentimento com que elle se mune para a travessia da Historia e para a campanha da vida. Foi este o sentimento que lhe dictou estas linhas á portada do seu livro mais original e que mais apaixonou a critica: «O exame dos nossos tempos apenas lhe provocou (ao auctor) expressões d'aquelles sentimentos que são compativeis com a serenidade da critica: uma ironia sem maldade, uma compaixão sem orgulho, pelas repetidas miserias dos homens; ás vezes, uma sympathia e um respeito singulares por certos individuos excepcionaes. Ironia, compaixão, sympathia, respeito,—moderadas commoções, com que é licito acompanhar o estudo, sem prejudicar a lucidez da vista—não impedem comtudo, que acima d'estas impressões fugitivas se colloque o profundo, inabalavel reconhecimento das causas que fazem dos homens os instrumentos do acaso ou do destino.»{68}

A estructura do nosso espirito revela-se na especie do nosso ideal, e a nossa concepção da ventura deriva da nossa concepção da vida. Todos os sentimentos que no Sr. Oliveira Martins desperta a realidade e todas as opiniões que elle tem sobre as cousas, estão resumidas nas paginas finaes do seu ultimo livro (Historia Romana). É alli visivel o que ha de mais importante na sua alma, posto a nú por um psychologo, mestre na arte de pintar caracteres. O que elle pensa da paixão e do dever, da sciencia e da acção, do Universo e do eu, a sua idéia da vida e o seu ideal da vida, está expresso nesta curta pagina, em traços breves e profundos, a que a concisão do escorço exalta a energia. E não vejo melhor modo de fechar esta analyse, que é uma tentativa de autopsia moral, do que copiar este retrato que equivale a uma confissão espontanea.

«Aquelle que, sem ter de esmagar desapiedadamente os sentimentos e paixões da sua natureza, sem ter de partir a mola interior que o torna um ser vivo, consegue mitigar, moderar, ponderar ou equilibrar os impulsos do seu sangue com os dictames das suas idéias, sanccionando paixões e pensamentos com a luz inextinguivel dos instinctos moraes e do senso esthetico; olhando para si proprio e para as angustias, para as dores e para as feridas da sua vida com uma commiseração vizinha{69}do desdem; olhando para o proximo e para o mundo, sem desprezo nem orgulho, mas com a ironia caridosa que se deve a todas as cousas involuntariamente inferiores; contemplando finalmente com uma curiosidade placida e discreta o nevoeiro dos mysterios e problemas que, sondados, endoudecem, e de que é mister fugir, como dos abysmos cujas vertigens hallucinam ou embrutecem; esse homem, por fóra activo, por dentro como que apathico, por vezes, e só por vezes, atacado de tedio, mas sabendo que não deve nem póde aborrecer a vida: esse homem é o unico verdadeiramente feliz.... Ser feliz depende de um acto da intelligencia e da vontade, independentemente das circumstancias exteriores da vida.»{70}{71}

Habitos de intelligencia e movimentos de sensibilidade, tudo se reflecte nos seus processos de escriptor. Como um cardiographo delicado que regista e conta as mais imperceptiveis pulsações do espirito, assim é o estylo. Tão sómente pela analyse d'elle podiamos chegar ás conclusões a que nos levou o exame directo das opiniões e paixões; feito este, as paginas que se seguem só podem confirmar as verdades que se enunciaram e este capitulo, é menos uma indagação do que uma prova.

Que especie de estylo é esse? Um escriptor de imaginação oratoria e gostos decorativos como o Sr. Latino Coelho, exprime-se n'uma linguagem adequada pela sua regularidade e sumptuosidade ás aptidões e tendencias do espirito que a emprega, e ás necessidades e utilidades do fim para que se destina. Leia-se o seu derradeiro discurso. Os vocabulos graves como fidalgos e compostos como{72}hallabardeiros, as immensas phrases roçagantes comparaveis a reposteiros de damasco, a amplitude e disciplina da syntaxe, a abundancia e efficacia das incidentes, a extensão e o aprumo dos periodos, o predominio do pensamento abstracto sobre a imaginação pittoresca, a perpetua representação do thema e a perfeita convergencia das provas, a unidade no todo, a proporção nas partes, a equidistancia nos termos, e a uniformidade na marcha do raciocinio, a majestade curul e a graça talar do discurso, revelam um homem apto e propenso para a prosa regular, a dissertação erudita, o elogio historico, a oração academica, e para todos os generos que requerem o gosto da pompa e o sentimento da gravidade, a correcção, a riqueza e a ordem, o respeito continuo de si e dos outros, uma especie de prodigalidade elegante e de arte sem nervos, a preferencia dada á erudição sobre a sciencia, e á rethorica sobre a poesia, a capacidade das idéias geraes exercendo-se em logares communs, qualidades que manejadas por um talento superior e postas ao serviço de um grande interesse, podem produzir verdadeiros monumentos litterarios.

Bem diverso é o estylo do Sr. Oliveira Martins. Nada de menos grave, de menos pomposo e respeitoso. Elle escreve como fala, e fala como acha. O seu processo é a notação directa dos sentimentos presentes; a sua linguagem, a algebra nua da paixão. Rapida, irregular, tortuosa, brusca, insolente{73}e indecente, burlesca e sublime, composta de palavras que se empinam por se verem juntas, feita de phrases de todos os tamanhos e feitios, galopa ou vôa a sua prosa. Nada de mais agil e vivo. Ás vezes, a suppressão dos elementos grammaticaes produz extranhos escorços, e a phrase contrae-se como um musculo. Outras os pleonasmos batem o pé, e a repetição encrava a convicção, como um martello percutindo um prego. Ás vezes a inversão dá extranhas posturas á linguaguem, e os periodos rugem, crucificados com os pés para cima. A grammatica violada debate-se n'um tetano. As imagens soberbas ou ignobeis pullulam de todos os lados, trazidas dos palacios ou das tabernas, como um rebanho de conscritos arrastados para a batalha. E todo o livro avança, semelhante a um couraçado de combate, replecto do convez ao porão, n'um turbilhão de estrondo e espuma, precipitado pela massa e armado da velocidade, e levando na caldeira abrazada um foco de força e um perigo de explosão.

Esta é a primeira impressão; profundemol-a, completando o juizo litterario pela analyse critica, e substituindo a linguagem imaginosa pela notação exacta, instrumento condigno do trabalho scientifico.

Tres pontos ha a considerar na analyse de um estylo; o vocabulario, isto é, o conjuncto de elementos ultimos do discurso; a syntaxe, isto é, a{74}ordem em que estes elementos estão dispostos para constituirem o organismo da expressão; e as figuras, isto é, os expedientes necessarios para supprir as lacunas do vocabulario ordinario e da syntaxe regular.

Mas antes de mais nada, observemos que o Sr. Oliveira Martins não possue o genio verbal, isto é, aquella facilidade de imitação e invenção de formas da linguagem, que em alguns dos nossos escriptores substitue e simula a intelligencia e a sensibilidade ausentes. Supponho que como os dois grandes historiadores a que o tenho comparado, Michelet e Carlyle, elle teve uma extrema difficuldade de exposição, no principio da sua carreira litteraria; pelo menos esteve muito longe de possuir aquella segurança e nitidez da palavra, aquella capacidade de adequar exactamente a expressão á intenção que caracterisa os verdadeiros temperamentos de escriptor. É porem justo dizer-se que sob este ponto de vista, como sob todos os mais, os livros do Sr. Oliveira Martins manifestam um progresso consideravel. A suaHistoria Romanaé um monumento litterario. Mas essa lacuna constitucional e o habito da improvisação impedem que as paginas perfeitas abundem nos seus escriptos; e possuindo em alto grau a força e a vida, carece de majestade e graça.

Em primeiro logar, o seu vocabulario não é numeroso; não se manifesta nos seus livros aquella{75}abundancia, que no Sr. Ramalho Ortigão provém de um forte estudo do lexicon, e no Sr. Camillo Castello Branco de uma memoria verbal extremamente feliz. As palavras vagas não escasseiam nos seus escriptos mesmo exprimindo ideias precisas. Com as palavras vagas, os termos improprios que falseiam a expressão e tornam necessaria a decifração. Os vocabulos extrangeiros ou mesmo nacionaes tomados n'uma accepção extranha á lingua lançam manchas desagradaveis na tela do discurso. As expressões synonimicas e as emendas que elle faz seguir ás expressões originaes, parecem indicar que o proprio auctor sente que não exprimiu cabalmente o seu pensamento; e se muitas vezes a accumulação de expressões novas para formular a mesma idéia, manifesta a paixão obstinada e a convicção activa, muitas outras significa sómente a consciente escassez de recursos do escriptor.

Dois typos syntacticos se notam nos escriptos do Sr. Oliveira Martins. Um é o grande periodo regular, de que elle se serve ordinariamente nos seus trabalhos didacticos, e de que se póde observar um bom exemplo no prefacio doHellenismo e a Civilisação christã. A ausencia de aptidões e gostos oratorios impede que o Sr. Oliveira Martins prime n'esta forma de discurso. E diga-se a verdade, poderiamos percorrer os escriptores portuguezes antigos ou contemporaneos sem encontrarmos muitos exemplares de prosa perfeita, taes como abundam{76}na litteratura franceza. O ar latino da nossa prosa classica póde illudir á primeira vista. Mas quem a submetter á analyse verá que não encontra nella aquelle habito de decompor as idéias e passar gradualmente por todos os seus elementos, que constitue um dos caracteristicos principaes da prosa franceza.

O outro typo syntactico é o inciso, a phrase curta e entrecortada, offegante. Ella se obtem suspendendo continuamente o pensamento, supprimindo os desenvolvimentos das idéias, e até as particulas grammaticaes, pronomes, artigos e conjucções. A phrase elliptica tem movimentos convulsivos de ave decapitada, e os elementos do discurso trocam vivamente os logares como os raios de uma roda. Esta é a forma adequada a um temperamento litterario como o Sr. Oliveira Martins. É nesta forma que elle vasa as suas descripções e narrações. As ellipses, as repetições, as inversões, a ausencia completa de todas as figuras de symetria, conspiram no mesmo sentido, e não é difficil mostrar como sendo os sobresaltos da machina nervosa irregulares e instantaneos, é esta a prosa que convem ao escriptor e á obra que analysamos. Leia-se esta descripção do incendio nos armazens de Gaya. «Posto o fogo ao rastilho, começou breve a pyrotechnia, allumiando a noute. Começou por uma explosão tremenda, donde sahiram labaredas e rolos de fumo rapido. O vento animado impellia a{77}chamma. E as pipas estalando troavam como canhões. Singular batalha! O vinho rolava em cachões, da praia sobre o rio que ia tinto de vermelho como sangue. As labaredas subiam e a vasta seara de fogo batida pela aragem, ondeando, crescia, andava. Incendiados, como lavas de um vulcão, desciam ao Douro, os liquidos espirituosos e chocando as aguas repelliam-nas, entrando nellas como um cabo. Parecia uma tempestade geologica. A agua do rio fervia, fumava; e fluctuando sobre a agua, vogava á mercê da corrente um lançol de chammas rubras.» A phrase tem a velocidade, a mobilidade, a plasticidade da chamma, e o foco moral donde ella brota não é menos ardente e vivo.

Os outros expedientes litterarios convergem no mesmo sentido. E antes de mais nada, a ausencia das figuras de dicção, que estabelecem uma symetria visivel e um equilibrio extrinseco do discurso, revela um espirito pouco sensivel á harmonia verbal e ás seducções da rhetorica. O epitheto, esse instrumento de que tanto se abusa, é raro, e quasi sempre pittoresco e novo. Mas os tropos abundam, como convem a um estylo que é a manifestação de uma alma audaciosa e ferida vivamente pelos aspectos das cousas. Ás vezes n'uma fria dissertação de direito publico ou de economia politica uma imagem fulgura magnificamente, como uma papoula{78}n'um trigal. Assim depois de expor o admiravel regimen de federação municipal que consolidava e completava a conquista romana, exclama num rapto de poeta: «Roma é a capital: está no pincaro da montanha ideal em cujas encostas por estradas espiraes se desenrola a procissão das gentes e cidades que sobem». Assim depois de pintar a angustiosa situação do paiz na primavera de 47, escreve referindo-se ao abuso da emissão fiduciaria, «Havia em Lisboa uma grande miseria, uma carestia excessiva de tudo, um doloroso mal-estar, perseguições e recrutamentos, os batalhões sempre em armas, e fluctuando, as notas, como os trapos de neve caindo, cobrindo tudo, nos dias mornos que precedem o desencadear da tormenta.» E as metaphoras como estas abundam ou magnificamente desenvolvidas n'uma pagina, ou ardendo concentradas n'um verbo e n'um epitheto.

A mesma vehemencia de imaginação e paixão produz e explica as apostrophes ao leitor e aos personnagens da sua historia, as interrogações, as exclamações, as reticencias, as prosopopéias, os bruscos saltos, a falta de clareza, as referencias a factos que se calam e que o escriptor julga conhecidos. Esta energia de habitos vai tão longe, que se exerce sobre porções dos seus livros que parece deveriam escapar a ella. Copio doPortugal contemporaneoestes titulos de livros e capitulos:Fuit homo missus a Deo; Sic itur ad astra; O principio do fim;{79}Væ victis; Os impenitentes; A raposa e suas manhas.Quando lança um olhar retrospectivo sobre o conjuncto da sua obra, não encontra uma serie de idéias precisas, mas um tumulto de visões inflammadas. Por isso escasseiam os summarios, os resumos e todos os expedientes destinados a precisar as doutrinas e fixal-as na memoria. Este escriptor faz imagens e sarcasmos até nos indices.

Tal é esse estylo: irregular, tortuoso, familiar, apaixonado e vivo. Para o conhecermos cabalmente não recuamos perante a minuciosa analyse das formas grammaticaes e dos expedientes litterarios, mas fizemol-a como psychologo e não como rhetorico. O espirito philosophico é o dom da analyse e da synthese, e a sciencia deve reunir como a aguia as garras penetrantes ás largas azas.{80}{81}

Composto assim o seu espirito só resta a deduzir a sua obra e demonstrar a solidariedade que prende aquelle a esta, considerando-o successivamente como historiador e como politico.

Se ha trabalho que pela sua complexidade e difficuldade assoberbe a imaginação de quem o intenta, e exija a maxima energia da parte de quem o realisa, é certamente o trabalho historico. Só examinando esta complexidade e difficuldade poderemos fazer idéia da variedade dos recursos empregados e da quantidade de força dispendida pelos grandes historiadores.

Para isto, basta considerar que a Historia é a visão intelligente dos phenomenos sociaes. Toda a formidavel complicação dos trabalhos historicos deriva do simples exame d'esta formula.

E antes de tudo, observemos que o aggregado social é dado em relação a um meio physico e constituido{82}por unidades vivas, o que torna necessario o conhecimento das sciencias inorganicas e organicas. A posição da sociologia na serie gerarchica das sciencias exige, nos que a cultivam, a posse das verdades que logicamente a condicionam. E desde os principios mais abstractos da Quantidade e da Forma até os factos relativamente menos simples da Anthropologia, tudo concorre para a explicação dos phenomenos sociaes. Os exemplos abundam e são faceis de adduzir. A doutrina da população não se póde constituir sem a theoria algebrica das series e o calculo arithmetico dos logarithmos. A relação geometrica que n'uma dada figura prende a grandeza da area ao valor do perimetro, é um elemento a considerar na comprehensão do engrandecimento d'um territorio. As leis que ligam o crescimento do organismo á massa do planeta e regem a distribuição do calor, da luz e porventura da electricidade á superficie da terra, forçosamente exercem uma intervenção activa no curso da Historia. Os dados geologicos que enunciam a natureza actual e as transformações futuras da crosta terrestre, não são indifferentes á explicação dos phenomenos que a tem por theatro; a theoria dos ventos interessa á historia da navegação de muitos povos, e a dos terremotos á vida d'alguns. Finalmente as leis que regem á existencia dos seres vivos, influem profundamente no corpo social, visto o homem ser um animal, e fazem do conhecimento da Biologia a{83}condicção immediata e indispensavel do estudo da Sociologia. Assim toda a massa das verdades adquiridas pela Sciencia vem illuminar directa ou indirectamente o caminho que o historiador tem de percorrer. (V. Spencer, Intr. á sciencia social; A. Comte, Curso de Philosophia positiva.)

A todas estas difficuldades que resultam da variada e completa preparação em que se deve basear o historiador, é preciso juntar ás difficuldades intrinsecas, as que provém da natureza intima da Historia.

Em primeiro logar, a Historia é uma sciencia moral, isto é, versa em ultima analyse sobre factos mentaes, sentimentos e idéias. O ser um estudo da alma humana é a primeira e mais grave fonte das difficuldades inherentes a esta ordem de investigações. Com effeito os phenomenos mentaes, quer os propriamente intellectuaes, quer os puramente emocionaes, se apresentam investidos de um duplo caracter que os torna eminentemente rebeldes a uma exacta observação. De um lado, a sua mesma natureza de phenomenos interiores, do dominio da consciencia, exige um dom especial, um sentido que nem todos possuem sufficientemente desenvolvido. D'outro lado, o composto mental é extremamente complicado e cada phenomeno de que se compõe se resolve por seu turno n'um numero enorme de elementos, que como taes caem fora do campo da consciencia, onde só apparecem os totaes.{84}A velocidade extrema das reacções cerebraes, corresponde a esta complexidade formidavel de que dão apenas uma vaga ideia os phenomenos que constituem as funcções propriamente biologicas.

Accrescentem-se a estas difficuldades resultantes da natureza do individuo, as provenientes da natureza do aggregado social. Se é certo que em ultima analyse a Sociologia se reduz á Psychologia, é tambem certo que as opiniões e paixões individuaes são continua e vigorosamente modificadas pelas paixões e opiniões adjacentes, e que o espirito de cada um apparece como um espelho da sociedade inteira de que faz parte. Quando o aggregado social é bastante extenso a complicação resultante da sua grandeza é tal que parece desafiar o poder da analyse.

Junte-se ainda a difficuldade que resulta de se considerar uma sociedade não num momento dado, mas na sua evolução atravez de muitos seculos. Seguir um aggregado tão multiplo nas suas continuas e imperceptiveis transformações de momento para momento, determinar as causas variadissimas e occultas d'essas transformações, marcar as forças superiores cuja permanencia determina a identidade de um povo atravez de todas as suas metamorphoses, produzindo essa consciencia social bem mais difficil de se estabelecer e bem mais facil de se destruir do que a individual, é{85}uma empresa comparada á qual, qualquer trabalho scientifico é relativamente facil.

Considere-se finalmente que a Historia é uma sciencia concreta, isto e, descriptiva e narrativa. Este derradeiro traço é origem de grandes difficuldades na indagação e sobretudo na exposição das verdades historicas. Mesmo nas sciencias inferiores essas difficuldades são grandes. Por exemplo, em Astronomia é relativamente facil indicar as forças que determinam a harmonia do nosso systema solar; mas mostrar a evolução, pela qual elle se veiu transformando até se constituir como existe actualmente, é uma tarefa d'outra ordem que não comporta o mesmo grau de precisão; a hypothese da nebulosa está privada da certeza de que se acha investida a theoria da gravitação, e a hypothese das agglomerações meteoricas inventada por Julio-Roberto Meyer, prova a necessidade de tornar a doutrina de Laplace mais adequada á realidade completando-a com principios subsidiarios. Semelhantemente nas sciencias inorganicas, o methodo experimental permitte demonstrar com efficacia uma lei de barologia ou thermologia; mas a applicação d'essas leis para a explicação da historia passada e constituição actual do globo, não tem a mesma segurança; a Geologia está longe de attingir o estado de adeantamento da Physica e da Chimica, sciencias em que ella se baseia; a doutrina das geleiras não se acha constituida com a mesma perfeição{86}que a theoria da irradiação do calor. Em Biologia verifica-se o mesmo. Em quanto se tratam de indagar as leis abstractas da morphologia e da physiologia vegetal e animal, as difficuldades são grandes mas superaveis graças ao emprego da observação, da experimentação e da comparação; mas quando se trata de explicar a existencia das plantas e animaes taes como realmente são, as difficuldades crescem de ponto e inversamente diminue a precisão e certeza das doutrinas enunciadas; a hypothese de Darwin sobre a evolução dos organismos não póde aspirar á mesma convicta adhesão que o principio de Milne Edwards sobre a divisão do trabalho physiologico. Semelhantemente as difficuldades de investigação inherentes á natureza e complicação dos phenomenos sociaes, com serem enormes, são pequenas, comparadas com as que apresenta o estudo da Historia propriamente dicta. E abaixo dos philosophos nenhuma classe de espiritos arca com tamanhas difficuldades, incorre em tão graves responsabilidades, nem se reveste de uma tão alta dignidade scientifica como os historiadores.

Para vencer tão grandes difficuldades, o historiador deve fecundar por uma vasta preparação geral e technica um espirito extremamente complexo e profundo. Qual seja essa preparação geral deriva da indicação acima feita dos estudos subsidiarios que condicionam o conhecimento da Sciencia{87}social. A preparação technica resulta semelhantemente da propria natureza da Sciencia social. Elle suppõe o conhecimento exacto dos factos adduzidos e a sua classificação methodica em grupos naturaes. Quanto aos dotes de espirito o historiador deve conter um sabio e um artista. A capacidade de observação exacta dos factos particulares deve estar ligada á faculdade das idéias geraes; e além d'isso a imaginação pittoresca que permitte a representação nitida e colorida das paysagens que constituem o palco da Historia, ha de ser completada pela imaginação psychologica que faz a alma dos individuos e povos que são os protogonistas da Historia. Finalmente o grande historiador deve ser um grande escriptor e empregar um estylo que reuna á precisão propria do trabalho scientifico, o colorido proprio das descripções, e o movimento proprio das narrações.

Comparemos este modelo do historiador ideal com o retrato já traçado do Sr. Oliveira Martins e veremos o que elle tem e o que lhe falta.

O seu saber é vasto inda que incompleto. Os volumes publicados da suaBibliotheca das Sciencias sociaese os annunciados no programma, revelam que o Sr. Oliveira Martins tem consciencia da importancia e largueza de estudos com que se deve preparar para o trabalho historico. Comtudo seria para desejar que o auctor conservasse ineditos os livros em que a sua originalidade e competencia{88}são contestaveis, e estudando convenientemente os assumptos sobre que elles versam, se abstivesse de tratar publicamente sciencias de que só se podem occupar com auctoridade os especialistas.

No que toca á exactidão dos factos enunciados nos seus tratados de historia nacional, constituidos pelaHistoria da Civilisação Iberica, aHistoria de Portugal, e oPortugal Contemporaneo, o Sr. Oliveira Martins não tem o habito de enumerar os documentos compulsados e discutir as fontes exploradas. As notas, que nas grandes historias classicas acompanham e comprovam as affirmações feitas no texto, não apparecem na sua obra. É verdade que historiadores como Mommsen e Curtius supprimiram nos seus livros monumentaes a bagagem das demonstrações; mas esses historiadores já tinham assignalado a sua actividade de investigadores em numerosas dissertações especiaes, e accumulado materiaes que serviam de base ao auctor e de garantia ao leitor. Considere-se ainda que escreviam sobre assumptos largamente explorados. O Sr. Oliveira Martins occupando-se da historia de Portugal, deveria redobrar de precauções no que toca ás provas. Mas acceitando-a tal como está escripta, e lastimando que ella não seja mais extensa, observaremos que a conhecida assiduidade ao trabalho e a sinceridade certa do Sr. Oliveira Martins, são consideraveis garantias da veracidade das suas asserções.{89}

Quanto as aptidões cujo conjuncto constitue o seu espirito, já vimos que o Sr. Oliveira Martins possue a imaginação dos movimentos, das massas, das forças e que as suas paysagens representam as expressões moraes dos aspectos physicos; e que além d'isso possue a capacidade e o habito de explicar os aspectos physicos como mechanismos naturaes. Se reflectirmos que estas duas aptidões exgottam a noção do scenario historico, considerado como um conjuncto de causas efficazes actuando sobre espiritos, veremos que o Sr. Oliveira Martins está apto pela imaginação pittoresca e pela razão abstracta a descrever e explicar omeiodos successos que narra. Semelhantemente e ainda melhor a sua admiravel imaginação psychologica habilita-o a ver o interior das almas individuaes e collectivas que põe em scena. Essa imaginação, integral e intensa, prima na representação das emoções, e como a maioria das acções é determinada por emoções, resulta d'ahi que o Sr. Oliveira Martins está apto para representar oagentedaHistoria, como representara o seumeio. E o mesmo poder de abstracção que lhe permittira comprehender as relações geraes entre os factos physicos, lhe faz ver o nexo logico que determina as coexistencias e as sequencias dos factos moraes.

Vimos que o seu estylo era destituido de ordem, precisão e clareza, e que abundava em movimento, força e vida. A ausencia das primeiras qualidades{90}prejudica a sua Historia considerada como obra de sciencia, e impede que ella se possa considerar como obra de vulgarisação. A presença dos outros dotes dá-lhe um valor raro como obra de arte. O seu vocabulario trivial, technico, fornecido em todos os recantos da vida, permittir-lhe-á fazer descripções coloridas e supprir pela abundancia de pormenores concretos a nitidez ausente que lhe daria a ordem que não possue. A syntaxe rapida e tortuosa permittir-lhe-á fazer narrações dramaticas e vivas e acompanhar pela marcha offegante e irregular dos periodos a successão precipitada e sempre nova dos acontecimentos. Finalmente todos os outros expedientes de composição revelando o sentimento do real e a paixão intensa convergem no mesmo sentido; e a mesma solidariedade que prende a sua obra á sua imaginação e á sua sensibilidade, liga a ella o seu estylo.{91}


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