Mal se levantou a mãe, ergueu-se logo, e foi para o mirante esperar a prima, deixando o frade no relato dos castigos celestes, provocados pelo peccado da liberdade, os tremores de terra, as perdas de colheitas, a febre amarela que flagellára a Hespanha por causa das suas côrtes constitucionaes.
Confirmou-lhe Josepha a apparição da guerrilha, e a derrota dos dois destacamentos, mas tranquillisou-a, que aquillo não tinha importancia nenhuma.
Fôrapedir-lhe João que a animasse.
N'essa mesma tarde estaria a revolta acabada, porque saÃra toda a tropa do castello para ir afugentar os miguelistas.
—Por isso ouvi tantos toques de cornetas, que o vento estava de lá.
—Passaram-me pela porta. Olha que ia bonito! Nunca vi tanta soldadesca junta, carretas com peças, officiaes a cavallo, a musica a tocar o hymno constitucional, a garotada dançando á frente, e povo como bichos atraz. Ao passar, o João abaixou-me a cabeça...
—Pois elle tambem foi?
E Maria abraçou-se á prima a chorar.
—Elle, Josepha, uma creança, metido n'isso por minha causa. Sim, porque se não fosse dar lhe para gostar de mim, não tinha ido sentar praça, não se via agora envolvido n'essas guerras, em risco de lá ficar.
—Então, filha, aquillo não vale nada. Se tu visses como elle ia contente, risonho! Parecia um passeio. Se prenderam as outras forças é porque eram só de vinte homens, e foi cada qual por seu caminho.
—Mas hão de dar tiros, e se algum acerta n'elle? Écapaz d'isso, que eu sou muito desgraçada, e nunca vae por diante aquillo a que quero bem. Elle é as flores da minha estima, os canarios das minhas gaiolas. Credo! Credo!
—Acredita que não tem perigo. O mestre Jacintho, que lá ia sentado n'uma carreta, porque percebe muito de peças, a rir-se como um tolinho, disse ao meu creado que ao primeiro tiro fugirão como bando de estorninhos.
—A minha desgraça, Josepha!—continuava Maria, inconsolavel—É como se já o visse morto! Ao que eu ouvi a fr. Angelico, elles teem tudo como feito, e já falam de enforcar os liberaes. No que se vae vêr aquelle pobrinho!
—Agora vejo que te esteve a meter mêdo, o sujo. Não sei o que me contem, que não diga um dia ao tio porque vem elle aqui tanta vez, a exercicios espirituaes. Mas se o maldito continua a fazer-te chorar, olé se o desmascaro. Hypocrita! É tudo mentira, filha, acredita-me.
Maria encarou-a mais esperançada.
—Olha, se o visses, em vez de chorar, rias-te como eu me ri. Elle ia de mochila, capote, bornal, correias por cima de correias, espingarda ao hombro, tão carregado de coisas que nem sei como se podiamecher. Pois apezar d'isso andava tão depressa que desapparecia. Os caçadores vão desesperados por causa dos paisanos lhe terem prendido os camaradas. Olha que elles são soldados de fama! Onde chegam, vencem tudo.
—Estou mais descançada por ir o mestre Jacintho, que ha de tomar conta n'elle.
—Ora vê lá esse velhote, o que tem passado, as guerras em que entrou, e como ahi está são e escorreito. Teu pae mesmo por lá andou, o avô do João veiu morrer á sua cama, e quantos e quantos! Até me parece que elles inventam os perigos, para se darem ares, e que no fundo é tudo uma santa historia.
—Deus te oiça, Josepha!
—O que te posso dizer é que elles iam tão assustados que encaravam com todas as janelas. E que olhares, filha, parece que queimavam, tanto calor me subia á cara! Era tão bonito vêl-os marchar, os officiaes muito empertigados, a retorcerem o bigode, que se me foram os olhos n'elles.
Desanuviou-a um pouco a vivacidade de Josepha:
—Ainda vens a namorar um militar.
—Cuidas que todas gostam de soldados, como tu?
Mariaacabou por sorrir, e enxugou as ultimas lagrimas.
—Sabes quem é para ter dó?—continuou Josepha.—É o primo Jorge. Anda com os guerrilhas, o grande maluco. Foi-se-me mostrar, todo pimpão, com uma aguilhada de carreiro para imitar o senhor D. Miguel. No que elle se engana é que aqui os liberaes estão armados, e em Lisboa andavam com as mãos a abanar, por isso el-rei os perseguia a pampilho. O que vale é que, como anda a cavallo, e ha-de ser dos primeiros a fugir, antes que o apanhe alguma bala, põe-se a salvo.
—Que malditas questões!—suspirou Maria, tornando a commover-se.—Succeda o que succeder, pelo menos uma de nós ha-de chorar, se não chorarmos ambas.
—Lá d'elle vir corrido não me importa nada. Até gosto, se queres que te diga, porque o João deu-me volta ao miolo. Se isto é ser constitucional e fica feio, não sei nem quero saber, mas lá em querer acabar com os conventos teem elles carradas de razão. Para que é aquillo bom? Para fazer dôces? Pois em nossa casa fazem-se muito melhores, e não são lambidos por aquellas fufias, crédo, que até me repugnam os seus beijos repenicados.
Porfim, ao despedirem-se, combinou Josepha como havia de dar-lhe noticia certa do que se passasse. Mandaria pelo creado pedir-lhe qualquer coisa, e isso seria o signal de que João estava incólume.
Ficando só, entregue ao seu desgosto, poz-se Maria a contemplar as grandes serras do interior da ilha, a querer descortinar o que atraz d'ellas se estava passando.
Para além das escuras cumeadas marchava João entre as cento e cincoenta praças da columna, pensando amargamente na abominavel escravidão mental em que jazia o povo, a ponto de reunir-se em armas hostilisando os libertadores.
Tinham que levar pela violencia os proprios a quem emancipavam, erguendo-os á concepção de uma patria, á realisação de um pais independente, entregando-lhes a posse dos seus destinos.
Eram forçados a armarem-se de espingardas contra esses cujo soffrimento interpretavam, emancipando o individuo, o trabalho, a terra; abrangendo na mesma redempção o camponês dobrado sobre a enxada, o plebeu asphyxiado pelo preconceito do nascimento,a mulher escravisada na clausura.
Reclamavam para si o logar a que lhes davam direito as faculdades intellectuaes, mas não esqueciam o cavador, o pescador, o artifice, formulando as reclamações que elles eram incapazes de conceber, analphabetos, desmoralisados por castigos corporaes, intimidados pelo inferno, esperando apenas a felicidade depois de mortos a troco da completa submissão.
Por si e por esses que pretendiam elevar pelo ensino obrigatorio, pela suppressão do direito dos senhores ao producto do trabalho, expropriaram as classes privilegiadas: funccionarios monopolisadores das rendas publicas; desembargadores vendilhões da justiça; militares insaciaveis de promoção e de soldos; capitães-móres que dispensavam de soldado a troco da honra das mulheres, da virgindade das raparigas; fidalgos possuidores da terra, do exclusivo dos altos cargos, do privilegio da venda do vinho, dos moinhos, dos lagares de azeite, da agua para regas, das pescas nos rios e no mar, das coutadas que por si sós eram a ruina da agricultura; padres, frades e freiras que, como proprietarios, usufruiam todos os privilegios da nobreza e exerciam a maior industria, quasi a unica industria, a exploraçãoda credulidade publica, pesando terrivelmente, pelas communidades ricas e pelas ordens mendicantes sobre todo o trabalho nacional.
E mais uma vez a inconsciencia dos opprimidos, guiada pelos semeadores do mal, desejava-lhes a morte, e reclamava-a cantando, em córos de vozes avinhadas:
Rebenta maçãoRemoe liberal,Livre é PortugalDa constituição.Ó Virgem da Bôa Morte,Senhora dae-lhes consumoPara que ospedreiroslevemA volta que leva o fumo.A fôrca em bolandasAndando apressadaDa atrozpedreiradaAcabe as demandas.
Rebenta maçãoRemoe liberal,Livre é PortugalDa constituição.
Ó Virgem da Bôa Morte,Senhora dae-lhes consumoPara que ospedreiroslevemA volta que leva o fumo.
A fôrca em bolandasAndando apressadaDa atrozpedreiradaAcabe as demandas.
Estavam convencidos os desgraçados populares, arrancados á familia para derramarem sangue pelos seusparasitas, de que se batiam pela religião, de que, combatendo os soldados de D. Pedro, esse rei estrangeiro, liberal e pedreiro livre, que declarára guerra a Portugal, e lhe arrancára o Brasil, calcando aos pés emblemas nacionaes, obedeciam aos designios de Deus, que mandara á terra o archanjo S. Miguel, incarnado no infante, para restabelecer no seu antigo explendor a fé catholica.
Tinham-o ante os olhos, resplandecente, prestigioso, n'esses retratos postos nos altares, como os de santos, ante os quaes se rezava e se diziam missas; n'essas gravuras que o mostravam pujante de juventude, na sympathia dos vinte annos, no vigor dos amplos gestos, na rijeza da musculatura, largo de hombros, amplo arcaboiço, expressão de firmeza no rosto comprido e trigueiro, lampejos de energia no olhar vivo, a figura dominadora a cavallo, chapéo de dois bicos vistoso de plumagens, esmaltado de crachás, espada em punho mandando avançar.
E murmuravam na uncção de orações, as cantigas em que elle apparecia como representante do ceu:
Senhora da ConceiçãoMadrinha de D. Miguel.D.Miguel vae p'r'ó altarCom dois palmitos aos lados.É Miguel anjo de pazQue Deus tem por general.
Senhora da ConceiçãoMadrinha de D. Miguel.
D.Miguel vae p'r'ó altarCom dois palmitos aos lados.
É Miguel anjo de pazQue Deus tem por general.
Chegára á villa da Praia, onde celebrou a acclamação de D. Miguel, lavrando o respectivo auto na camara, a grande guerrilha que já reunia cinco mil homens, mas retrocedeu ao Pico do Selleiro a esperar a columna liberal, e ahi rompeu o combate, avançando os soldados em atiradores até duzentos metros da elevação onde tomara posições.
Empallideceu João ao vêr esses homens em attitude aggressiva, apontando-lhe espingardas.
Jurára morrer pela liberdade, mas estremecia á ideia de ter de matar em nome d'ella.
Para que a nova ideia triumphasse era preciso reduzir a um montão de mortos e de feridos aquelles homens, seus patricios, seus irmãos ante a noção da fraternidade.
Era a ignorancia o seu unico crime, e por isso iam ser dizimados pelas peças, pelas espingardas dos caçadores, pela sua propria arma, que d'essa fórma ia estrear.
Masse até para o bem d'elles era preciso!
E á voz de fogo, na passividade da disciplina que o tornava uma simples peça d'essa machina de morte, poz a espingarda á cara e, fechando os olhos, disparou.
Atordoou-o a descarga geral, a seca detonação da fuzilaria, o sonoro estampido dos canhões e, cambaleante do coice, os olhos a arderem da explosão da carga, a face magoada pela pancada da coronha, alagado em suor frio, mais morto que vivo, sentiu-se agarrado pelo veterano que, mal pudéra, fôra reunir-se a elle.
—Então, menino, isto não vale nada! Anime-se, que até parece mal. Está amarelo como um defunto!
—Ah! És tu, meu amigo!
Recobrando-se, explicou:
—O tiro rebentou-me mesmo na cara, ia-me deitando ao chão.
E segurou a espingarda pela bandoleira:
—Escalda, nem sei por onde lhe hei-de pegar.
—Não tiveram tempo para lhe ensinar o officio. Pois bem fiz eu em vir ser seu padrinho no baptismo de fogo, como seu avô foi para mim. Olhe, pegue-lhe por aqui, pelo delgado do fuste, agarre-a bem,não a encoste á cara, e não lhe succede mal nenhum.
Emquanto lhe explicava os manejos d'arma, continuava o combate; estremecia João ao vêr caÃr gente do seu lado, sem que parecesse attingida, e baixava instinctivamente a cabeça ao tiroteio do inimigo.
—Deixe-os lá—continuou mestre Jacintho—estenderem-se no chão para fazerem fogo deitado. Não me faça cortesias, menino, que não serve de nada, e olhe bem direito para a frente, se quer vêr o enxame de moscas azues e vermelhas que andam a zumbir por entre a gente.
Fez ajoelhar João, collocou-se ao lado, e poz-se tambem a fazer fogo.
—Lá vae uma para aquelle patife de desertor do Cinco, que por lá anda envergonhando a farda Pum! Prompto! Ah! Já fostes escutar a cavallaria? Ande com elles, Joãosinho, aponte aos fardados, que são quem nos faz mal, e nos mandam cadaameixa! A paizanada, estar ali ou não estar, é tudo o mesmo. Mire os que andam a cavallo, que são os chefes, e ferre-me com elles em terra.
Aqueceu João, enthusiasmou-se, agora carregava a arma febrilmente e, tão sereno como se não o visassem asduzentas espingardas da guerrilha, apontava segundo as indicações do veterano, e disparava, de olhos bem abertos, observando se attingia o alvo.
—Agora sim! Está um homem, um bravo como seu avô! Pode servir de exemplo aos mais velhos! Vejam este camarada, rapazes, vocês que andaram na guerra, mas que são galuchos á minha vista!
E abraçou-o entre os applausos da sua esquadra.
—Cá o deixo, já não precisa de mim. Filho de peixe sabe nadar! Temos homem para ir longe. E agora deixe-me chegar até ás peças, a vêr se me deixam apontar uma á minha vontade, que já é tempo de varrer aquella malta.
Partiu, fazendo-se muito baixinho, dobrado ao meio, descendo aos regos do terreno para offerecer menos alvo, occultando-se com pedregulhos, arvores, restos de paredes derrubadas, como soldado afeito á guerra.
E João continuou muito senhor de si, lembrando-se de que a illusão da fraternidade perdera o governo constitucional, e depois a revolução do Porto.
Só pela violencia se dissolveriam as castas; só pelas armas se imporiam as medidas liberaes; nunca o progresso se realisaria sem sangue!
Apóshora e meia de fogo, flanqueou uma força liberal a posição miguelista, e a guerrilha debandou ao vêr despedaçar pela metralha ocaçador, do Porto Judeu.
—Victoria! Victoria!
E o veterano voltou a abraçal-o, e pegou-lhe ao collo, como se fosse a criança que amimára, envaidecendo-se do seu recruta, recordando enternecido a bravura do seu antigo official.
Respirava João amplamente, na alegria dos vivas, no orgulho do triumpho, e queria apparecer por encanto na quinta, mostrar a Maria que ficára illeso, beijal-a, chorar e rir abraçado a ella, affirmar-lhe que estava salva a causa, garantida a ventura de ambos.
—Pois havemos de lá ir, que o mereceu, galucho de uma cana! Que sustos não terão pregado á pobre menina!
E a essa evocação do receio dos que ficaram, lembrou-se da afflição das pobres tias, que tinham ido logo ajoelhar diante do oratorio, a pedirem por elle ás imagens da sua devoção: Santa Rita, dos impossiveis; S. José, que tinha ao lado uma palma benta em dia de Ramos, maior do que elle; o Christo de prata n'uma cruz de ébano; um coração comtampa de vidro, e dentro um menino entre flôres; um outro menino Jesus barrigudo, córado, vestido de boneca, com a bola do mundo na mão; e ainda outro n'um berço côr de rosa, com uma almofadinha bordada: menino Jesus nusinho para os beijos devotos, em que as beatas bemdiziam a sua santa virilidade.
Na manhã seguinte recebeu Maria o recado de Josepha. Mandava pedir flôres. E ao ir ao jardim dal-as ao creado, soube da bôcca d'elle que os liberaes tinham vencido facilmente; que João não soffrera nem uma arranhadura, e que as flôres eram para as visinhas deitarem por cima dos soldados, que n'essa tarde entrariam triumphantes.
N'uma explosão de jubilo colheu quanto havia e ao deitar para o cesto o pouco que lhe dava outubro: «rosas do Japão» vermelhas e brancas, «esporas de cavalleiro» azul escuras, cheirosas baunilhas, a vermelha «flôr do laço», a «corôa de rei» azul-claro, misturadas com ramos de alecrim, era como se das janellas tambem as atirasse para cima de João, inebriada pela sua victoria.
Foio jantar a antithese da vespera; desabafando o frade em improperios contra os liberaes que vira passar ao som de repiques, com ramos de louro nas espingardas, sob uma chuva de petalas, e Maria finava-se de rir pela parte que tivera na festa.
Veiu á tarde Josepha da Esperança, e contou-lhe que o vira radiante. Dissera-lhe «até logo», e era capaz de apparecer.
Foram ambas, alvoroçadas, esperal-o do lado da canada, aonde vinham dar os atalhos.
Mal debandou a força no quartel, correu João a casa, a socegar as velhas.
Ao vel-o a creada, atiaMaria da Assumpção, persignou se de uma maneira especial:
Eu me benzoCo'o sangue de ChristoCo'o o leite da VirgemCo'o a flôr da luzPara sempre amen Jesus.
Foram mostrar-lhe a tia Dorotheia e a tia Pulcheria o oratorio a que ardiam velas em promessa. Proclamavamo milagre, e esperavam que elle se rendesse, caÃndo de joelhos, agradecendo o dom do ceu. Mas só a ellas se mostrou grato, beijando-as, tornando-se de novo a creancinha em que não podiam adivinhar o rude soldado da vespera.
Debatiam-se agora as tres velhas n'um grave caso de consciencia.
Para que tinham forçado ao milagre a senhora Santa Rita dos Impossiveis? Fôra um pedido sacrilego! Vinha João mais hereje do que fôra, sem sequer agradecer aos santinhos que se amerceiaram d'elle. Salvando-o d'essa forma, talvez se tivessem perdido com elle!
O mal disfarçado riso com que Maria offendera á meza o seu despeito, encolerizára o morgado e o frade.
A indifferença da vespera, a certeza com que ella n'esse dia se mostrava ao facto da victoria, aggravou a Martinho as suspeitas de que se correspondia com João.
E depois da indispensavel visita ao alambique, foram emboscar-se a vigial-a.
Avistaram-osellas, e reconheceram-se alvo da sua vigilancia, mas por coisa alguma se resignava Maria a deixar de vêr o namorado. Far-lhe-ia signal para que não parasse, e defender-se-ia do pae mostrando-se extranha a essa mera coincidencia.
Avistaram por fim ao longe o veterano e João, cosendo-se com as paredes dos cerrados.
Ao reconhecel-os, quiz o morgado lançar-se n'um impeto, mas conteve-lhe o frade o mau genio.
Esperava o momento compromettedor, em que a filha não podesse negar a leviandade e, confundida, ao vêr-se descoberta, pedisse perdão da afronta, e se entregasse a um sincero arrependimento.
Cedeu não sem custo, e quando tornou a olhar por entre as faias, notou com surpreza que já tinham desapparecido.
Percebendo os signaes para se afastarem, tinham os dois saltado á canada.
Rente com o muro, correra João a atirar-lhe para cima, enrolado a uma pedra, o bilhete que levava para a hypothese de não poder falar-lhe, e indo ter com mestre Jacintho saÃram ao Caminho de Cima, por entre quintas.
Desconfiados, precipitaram-se fr. Angelico e o morgado,ao tempo que Maria devorava as quatro palavras de João.
—Dê-me essa carta, senhora!—bradou o frade, que chegára primeiro.
Sem responder, amarrotou o papel, e com elle fechado na mão, voltou-lhe as costas n'um olhar de desprezo, e afastou-se de braço com a prima.
Deteve-a o pae, exigindo-lhe o bilhete, que Josepha já occultára no seio, e Maria respondeu que nada tinha.
—Vi-lh'a eu, senhor, a carta d'esse hereje, d'esse pedreiro livre, que para deshonra de V. Ex.aperdeu a alma da senhora D. Maria!
E fr. Angelico apoiou a denuncia agarrando-lhe a mão em que a amarrotára.
Soltou-se ella violentamente, e o frade, cambaleando com a sacudidela de Maria e um indignado empurrão de Josepha, caÃu contra um renque de vasos, esfarrapando-se e partindo-os.
Então o pae cresceu para ella:
—A menina estava esperando um homem, a quem eu repelli da minha porta. Além de me desobedecer, offendeu-me agora, resistindo a uma ordem minha. Repare bem, sou eu quem lh'o exijo! Dê-me a carta.
—Nãotenho carta nenhuma, senhor. Deixe-me passar.
—Isso é que não. Iria escondel-a.
E detendo-a:
—Dê-me esse papel ao bem, ou arrepende-se!
—Senhor, já lhe disse que não tenho. E se tivese não devia dal-o, nem o pae m'o devia pedir.
—Ah! Não tem? É o que vamos vêr.
E segurando-a, o morgado apalpou-lhe o corpete, rebuscou-lhe a algibeira da saia, apertando-lhe brutalmente os pulsos emquanto ella se debatia, e como tudo fosse inutil, atirou-a rudemente contra o muro.
—A menina ha-de ficar sabendo que não se zomba d'um pae, e não se emporcalha um nome fidalgo namorando soldados.
N'um choro convulso Maria bradava, caÃda na banqueta:
—O pae bateu-me! Mas foi a ultima vez. Está enganado commigo. Não quero ter a sorte da mãe!
E para Josepha da Esperança, que os dois levavam adiante de si, tratando-a de encobridora, de enredeadeira:
—Não me desampares, Josepha! Conta o que vistes, e não te esqueças de que me bateram, e de queesse frade me magoou! É preciso que elle o saiba!
Tornara-se João tudo para ella!
Bloqueado por temporaes de inverno, dias de chuva torrencial, grandes frios, installára-se fr. Angelico da Immaculada Conceição de Maria na quinta dos Folhadaes, mandando como senhor, dirigindo a casa, cujo governo D. Perpetua abandonára, para se refugiar no quarto de Maria, horrorisada por adivinhal-o catechizando creadas pelo escuro dos grandes corredores.
Enclausurada voluntariamente com a filha, prohibida de sahir do quarto, comiam ali ambas depois de prévia revista do morgado ou do frade ao que recebiam, não fossem cartas escondidas.
Só os dois homens pois iam á meza, e ali passavam quaside uma á outra refeição, não se decidindo a arrostar a frieza da adega, nem o chavascal do campo.
Aparada em alguidares e em celhas pingava agua do tecto, alastrado de bolôr; pelas frinchas das janellas empenadas soprava um vento cortante que os fazia tiritar sob os capotes.
Desforravam-se a bebericar aguardente, quando a criada foi annunciar o senhor juiz corregedor.
—Justiça em minha casa!—exclamou o morgado, pondo-se de pé.
Chegou á janela e olhou para fóra. Não cessára de chover.
—Com um tempo d'estes! Deve ser coisa grave.
Voltou-se para o frade:
—Descobriria a alçada que eu dei dinheiro para os guerrilhas?
Tranquillisou-o logo fr. Angelico:
—Quanto a isso descance v. ex.aNão invoquei o seu nome, por causa das secretas vinganças que os pedreiros livres costumam tirar de quem os guerreia. Lembre-se dos lentes de Condeixa.
—Sim, sim, fez bem. Má gente. Mas se não é por isso, que querem de mim?
—O mesmo que pretendem dos outros. Intimidar ospartidarios do throno e do altar. E como as suas opiniões são bem conhecidas...
—Mas eu nunca as manifestei, não saio de casa, não me saliento...
Voltou-se para a criada:
—Elle vem só?
—Saberá v. ex.aque sim senhor.
—Se eu fugisse, fr. Angelico?
—Não me parece que haja razão para isso.
—É exactamente por não saber o motivo que receio.
—Agora! Agora!—accudiu o frade, já desanuviado.—Imaginam que está por ahi alguem escondido, e como andam á procura do João Moniz e do Joaquim d'Almeida...
—Pois lembra bem, deve ser isso—concordou o morgado.—Que hei de fazer n'esse caso?
—Recebel-o ás bôas, deixal-o dar busca á sua vontade, e ficaremos livres d'elle.
—Pois hei de franquear-lhe minha casa?
—Que remedio, se pode entrar á força. Estão de cima. É aguentar e cara alegre, emquanto não chegam melhores dias.
—Vá então recebel-o em meu nome, e desculpe-me. Diga que estou doente.
—Eu,senhor! Não sabe v. ex.ao odio que nos votam esses adeptos de Satanaz! O pobre de mim até foi na lista que elles mandaram ao nosso provincial, intimando-o a prohibir os franciscanos de defenderem a causa do throno e do altar.
—Não posso ver gente de justiça, e demais a mais justiça d'esta!
—Tenha paciencia, que nos havemos de vingar de tudo. Vá attendel-o v. ex.a, ponha-se ás bôas, trate-o o melhor que puder, para não dar logar a que exhorbite, e tenho para mim que o ha de confundir a sua respeitabilidade. Eu ficarei rogando a Deus...
—Isso é que não. Ou me acompanha, ou não o recebo, e faça o que melhor lhe parecer.
Olhou irritado para os campos innundados de agua:
—Tivesse cá a gente de trabalho, e outro gallo lhe cantára. Mas assim, não ha com que lhe dar uma lição, que elle com certeza não vem só, nem com as mãos a abanar.
E como visse retrahir-se o frade:
—Ande d'ahi, já lhe disse.
Apavorado, pediu fr. Angelico, de mãos postas:
—Só se v. ex.ame promette ser conciliador. Disseo Divino Mestre, que se o inimigo nos offender na face esquerda devemos offerecer-lhe a direita.
—Isso aconselharia aos frades, que aos fidalgos não!—respondeu irritado Martinho.
—Pois n'esse estado de espirito, meu senhor, Deus me defenda.
—O melhor é falar vossa reverendissima. Eu acompanho-o, mas permitto-lhe todas as habilidades conciliadoras, porque tambem prefiro que não me incommodem.
—É Deus que o illumina, senhor morgado. Assim verá que fica tudo em bem.
—Mande-o entrar para a sala dos retratos—disse o morgado á criada—peça desculpa da demora, e que já lá vamos.
Estremeceu o frade de novo:
—Ah! Senhor do ceu! Basta o tempo que o fizemos esperar para o esbirro já estar como uma bicha. Que carantonha que não vae fazer!
Bebeu mais aguardente o fidalgo, tirou o capote, mirou-se, compoz os bofes, puchou os punhos de rendas, e lançou a fr. Angelico um olhar de desdem:
—Você já não conheceu o homem de côrte. Pois fiquesabendo que me vi muita vez nos regios paços de Queluz, e sei bem a etiqueta das salas. Verá como procedo, e como, sem o humilhar, por que elles estão de cima, lhe farei sentir a differença que vae de um fidalgo a um traficante de sentenças. Basta o logar onde o recebo para o envergonhar do seu baixo nascimento. E certas coisas que lhe direi ao correr do pello...
—Não me perca v. ex.a, por amor de Deus! Deixe-me ficar no meu cantinho!
—Não, que você é manhoso como os que o são e, se eu me desmanchar, meterá a sua colherada. Beba uma pinga para cobrar animo, e vamos dar-lhe uma lição mestra já que cá veiu meter o nariz.
Tomou novo alento ao beber, o frade, mas ainda aconselhou:
—Lembre-se v. ex.aque os demonios teem o poder na mão, e por algum tempo. Além da victoria do Pico do Selleiro, ainda foi por elles o temporal que destroçou a esquadra de sua magestade, depois de tomar a Madeira, quando vinha fazer o mesmo a esta desgraçada terra. Primeiro que se arme em Lisboa outra frota para vir até cá ... Não se esqueça v. ex.ad'isto. Agora são elles quem manda.
Aoentrar na sala, empertigou-se mais o morgado em respeito ao scenario aonde ultimamente só raras vezes se mostrava, télas escurecidas pelo tempo destacando nas paredes caiadas, o cadeirado de coiro e pregaria amarela, o grande buffete carregado de finos buzios rosados, de amplas conchas de madreperola, os reposteiros vermelhos onde pompeava o seu brazão, com longes de capoeira.
Saudou o juiz n'uma pirueta cortez:
—Desculpe v. s.aa involuntaria demora. A justiça é como se entrasse em minha casa el-rei, que vossa senhoria já representou, e em nome de quem continuará um dia a exercer o mando, como é timbre de homens d'ordem.
Mordeu os labios o magistrado ao tratamento e ao remoque, mas, contando com peior acolhimento, saudou por sua vez o morgado:
—Está v. s.aem sua casa, e sou eu que tenho de escusar-me de o vir incommodar.
Córou Martinho Vasques á falta de excellencia, e o frade, que o percebeu, muito animado pelo tom ordeiro do juiz, interveiu:
—Permitta-me v. ex.a, senhor Martinho Vasques de Linhares Soeiro, que aponte a sua senhoria os achaques...
Maso corregedor, sem fazer caso, interrompeu-o, dirigindo um novo golpe á prosapia de fidalgo:
—Não julgue, senhor Soeiro, que venho aqui por causa das tristes perturbações fomentadas pelos mal intencionados que exploram as disenções de irmãos. Calcula decerto o grave motivo que me traz por semelhante tempo...
Ferido no seu orgulho, julgou conveniente o morgado dar-lhe desde logo a lição projectada, e forçando um sorriso que o tornava mais feio, respondeu:
—Quem não deve, não teme, e se eu tivesse que receiar das justiças, ou não estaria á mercê d'ellas, ou a minha porta achar-se-ia guardada, com o direito de que sempre usaram em Portugal fidalgos de solar.
Apontou para fóra o juiz, n'um gesto amavel:
—Foi informado o tribunal de que ha aqui um quinteiro brigão, o que, para evitar algum desacato d'esse desordeiro, me forçou a vir convenientemente acompanhado, não por causa de v. s.a, mas por via d'elle.
Trocaram um olhar fr. Angelico e o morgado. A escolta lembrava logo uma prisão. E a referencia á cilada fazia-lhe receiar que João ou o veterano otivessem denunciado como conspirador.
Triumpharam os propositos conciliadores que ditava o mêdo, e o frade adiantou-se, muito curvado:
—Perdôe v. ex.a, senhor corregedor, não lhe ter offerecido já alguma coisa quente, uma chavena de café, uma magnifica aguardente da lavra do fidalgo, para o preservar de uma peitogueira...
Sorriu muito lhano o magistrado:
—Lembrou bem vossa reverendissima, e acceito de bôa vontade, com o que provo os meus amigaveis intuitos.
SaÃu por um momento, muito lépido, o frade a dar ordens; e o morgado, fazendo um exforço, recalcou as offensas, e submeteu-se ao receio da escolta:
—Vejo que v. ex.anão me conhece, por attribuir á minha atitude intuitos diversos da justificadissima surpreza...
—Oh! De modo algum.
—E como v. ex.anão é da ilha, permitta-me que me apresente, fazendo-o tomar relações com os meus antepassados, que não lhe podia ter dado melhor companhia, pois não a ha mais escolhida n'estaterra, nem lá fóra é frequente a que se lhe possa comparar.
—Já os estive admirando assim que entrei, e conheço-os por tradicção, como conheço a v. ex.amais do que imagina.
Envaideceu Martinho a homenagem do tratamento e, attribuindo-o ao effeito d'essa berrante linhagem, insistiu no proposito de desenrolar os pergaminhos.
—Perde-se a minha geração na noite dos tempos, entroncando-se por muitas vezes no ramo da dynastia, mas a mais proxima representante é esta minha trisavó, que morreu em Odivellas em cheiro de santidade.
Apontou um retrato de moldura oval, que tão bem ia ao rostinho envolto na toalha:
—É soror Thereza de Jesus, que em formosura desbancou a madre Paula, senhora de Melres, e conhecida por isso no convento pelaMelrinha, ao que allude o segundo quartel do meu brazão, tres melrinhos de oiro sobre purpura. Era já fidalga, filha do senhor de Villar de Corvos, representado no primeiro quartel por aquelle corvo de prata em campo azul, mas el-rei o senhor D. João V—e curvou-se como se estivesse na presença do monarcha—houve porbem, ao conceder-lhe o alvará de legitimação do filho, dar a meu bisavô o titulo de moço fidalgo da casa real, com serviço no paço.
Orgulhava-se apontando outro retrato, um homemzarrão em corpo inteiro, grande cabelleira em caracoes, tricornio debaixo do braço:
—É meu visavô, D. Francisco, com quem, dizem, me pareço muito. Batendo-se como um heroe, conquistou para o nosso nome um immorredoiro prestigio, merecendo pelos seus feitos d'armas, e pela particular predilecção que sempre nutriu el-rei por minha visavó, as doações com que se creou o nosso morgado.
Indicou-lhe outro retrato, em meio corpo:
—Este é meu pae, D. Fernando, intimo d'el-rei o senhor D. Pedro III, que o teve em alta estima. A esse prestigio de que sempre gosámos no paço, deve minha irmã, D. Mafalda, o honroso logar de dama de honor da rainha senhora D. Carlota Joaquina.
Era a dama que enchia outra grande téla, em trajo de côrte, vestida a azul e vermelho, toucado de plumas, opulenta de rotundidades que a tornavam celebre nos lubricos bailados da rainha, sua rival em fama.
Porsua vez, indicou o juiz um retrato:
—Este, que como os meninos postos de castigo está voltado para a parede, brilha para mim atravez da tela. Conheço-o, é D. Bernardo, o amigo dedicado do grande marquez de Pombal, que veiu a esta terra cumprir a ordem de expulsão dos jesuitas. Porque não honra v. ex.aas nobres tradições d'este seu avô? Porque não reconhece que as nossas ideias teem raizes bem fundadas, e que já foram defendidas por bons fidalgos, como v. ex.aclassifica os da sua geração?
Respondeu gravemente Martinho Vasques:
—Este infeliz foi transviado, corrompeu-o o mal do tempo, e a sua alma deve estar no purgatorio, aguardando o juizo final, feliz ainda assim por levar em seu favôr os serviços que filhos e netos teem prestado ao throno e ao altar. Os verdadeiros principios da minha familia são os religiosos; nasceu e creou-se meu visavô no convento; auxiliou meu pae a restauração religiosa da senhora rainha D. Maria, que santa gloria haja, e foi minha irmã uma das fundadoras do culto da Senhora da Rocha.
Voltára o frade, á frente da creada com a bandeja de dôces, a chicara do Japão com o café, e a garrafinhadourada com aguardente, a tempo de auxiliar a defeza dos bons principios:
—O timbre e lustre da linhagem, excellentissimo senhor, é D. Francisco, que em serviço d'el-rei e gloria do reino, andou no cruzeiro d'Angola defendendo para a nação os rebanhos de escravos de que os malditos estrangeiros queriam lançar mão. Perseguido um dia por um negreiro hollandez refugiou-se na costa, e com tanta felicidade que poude dar auxilio a um barco portuguez que carregavaébanopara o Brasil. Não queriam obedecer os malditos pretos, e elle, n'uma patriotica decisão, desembarcou com uma manga de arcabuzeiros. Não intimidaram aos ferozes selvagens os elmos, as couraças, nem as grandes armas apoiadas nas forquilhas. E quando D. Francisco, ao cravar no sólo a nossa gloriosa bandeira, viu que não se deitavam por terra, curvando-se ante o lábaro sagrado que levára á Africa a religião de Christo, mandou-lhes dar uma surriada de arcabuzes, emquanto o navio os varejava de metralha. E de toda essa multidão bravia que nutrira a louca ideia de, com settas de cana, emplumadas de pennas de gallinha, defender mulheres e filhos, não ficou um para amostra. Dos nossos apenas foi ferido esse bravo dos bravos,com uma azagaiada na nadega, que toda a vida o fez sentar de banda.
Muito ancho, accrescentou o morgado:
—É o feito que commemora aquella cabeça de negro, em fundo de prata, do meu brazão; e a esse alto tropheu de familia corresponde aquelle outro emblema, as mãos de ouro em vermelho, como fartando-se d'esse sangue derramado em prol da nação.
Muito risonho commentou o juiz, que tomára o café e provára um calice da justamente celebrada aguardente:
—Pois conheço-o tão bem, D. Martinho, que me admiro não vêr-lhe sobre as armas o distinctivo dos bastardos reaes.
—V. ex.aconfunde-me!
—É um direito que só lhe contestam os primos do Alemtejo, dizendo que n'esse tempo entrava em Odivellas o sequito do rei, até ao ultimo lacaio, que todas as freiras reclamavam os mesmos prazeres que a madre Paula, que as santas monjas não recusavam a esmola das graças corporaes, e que vibrava o mosteiro em alegres risos de muitas creanças.
—Sei que meus primos falam por inveja—retorquiu omorgado—mas não deixam de reconhecer a superioridade do meu ramo, tanto que requestam para seu filho a mão de minha filha.
Aproveitou o juiz o ensejo:
—Desculpe v. ex.ao meu involuntario esquecimento. Como está sua excellentissima filha?
—Bem, muito obrigado a v. ex.a
—Já que me deu o prazer de conhecer os seus antepassados, desejava ter a honra de ser apresentado á senhora D. Maria, cujos dotes de espirito tanto me elogiam.
Trocaram novo olhar o morgado e o frade, e acudiu fr. Angelico ao amo:
—Sua excellencia disse «bem», porque felizmente não é coisa de gravidade, mas a pobre menina não se póde levantar da cama, constipada por esta frialdade...
Estranhou o juiz n'uma inflexão grave:
—Parece que o contrariou o meu desejo.
—De modo algum.
—Não m'o recuse pois. O seu ligeiro incommodo não a impedirá de certo de vir á sala.
Interveiu de novo o frade:
—Trata-se de um caso de certa gravidade, que sópara não assustar o senhor morgado, fingimos considerar sem importancia.
—Acho conveniente—retorquiu o juiz—que se não meta onde não é chamado. Dirigia-me ao senhor Soeiro, e creio que elle, que tanto se orgulha da sua nobreza, não ignora que os fidalgos dizem timbrar em não mentir.
—E não mentem, senhor!—protestou o morgado.
—Mantenha então a primeira resposta, de que sua filha se encontrava de perfeita saude.
Encolhera-se o frade, e Martinho Vasques dirigiu-se ao juiz, mudando de tom:
—Antes de mais nada: Que significa semelhante insistencia?
—Sabe-o tão bem como eu.
—Sinto apenas uma certa estranheza...
—Tratando de sua filha, calcula decerto ao que venho. Vá, um bom movimento! Ponha de parte os seus escrupulos e torne felizes aquelles que uma honesta inclinação destinaram um ao outro.
Passou no olhar do morgado um lampejo de rancor; mordeu furioso os labios, mas conteve-se ante o receio de ser dado por cumplice dos revoltosos, e de vêr confiscados os bens.
Aindaassim entendeu dar por finda a visita:
—Se v. ex.anão tem outro assumpto a tratar...
Redarguiu energicamente o magistrado:
—Vejo que comprehendeu o sentido das minhas palavras. Tenho pois todo o direito a uma resposta.
Fazendo esforços para se não exceder, respondeu o morgado:
—Minha filha casará com o primo D. Luiz de Sousa, a quem está prometida ha muito.
—É essa a sua ultima palavra?
—Naturalmente.
—Desejava conhecer a resposta da senhora D. Maria.
—Lá vem outra vez com minha filha!
Accorreu de novo fr. Angelico:
—As filhas só podem ter a vontade dos paes.
Tornou a pedir o juiz:
—Satisfaça v. ex.ao meu pedido, e retirar-me-hei com a resposta da senhora D. Maria, seja qual fôr.
—Senhor, a sua insistencia!
—Não se exalte. Quero estabelecer a harmonia e não desejo usar de outros processos.
—Ameaça-me?
—Não.Lembro-lhe apenas quem sou, e o respeito que me é devido.
—Pois lembre-se tambem em casa de quem está, diante d'estas nobres figuras, e reconheça que, em vez da atitude pacifica em que se disfarça, levou a sua audacia, apoiada na escolta, a ponto de me tratar como um igual quando eu sou um fidalgo, e o senhor, apezar do seu cargo não passa de um plebeu.
—Assim é. Na minha familia não ha femeas que tivessem servido de cano de esgôto para a transfusão do sangue real. Não me orgulho do que envergonha gente de bem. Quanto a esses mostrengos de narizes coloridos pela aguardente, só podem interessar a Lavater, que teria muito que estudar n'aquellas physionomias. Quanto a mim nada me importam, e de grande paciencia dei provas ouvindo-lhe as historietas do brazão.
E como o frade se interpozesse, querendo abrandar o morgado, que bufava, apopletico:
—Entremos no assumpto que aqui me traz. Recebeu a justiça uma queixa de que jaz ha muito tempo em carcere privado e recebe maus tratos, a senhora D. Maria. A insistencia com que recusou apresentar-m'a confirma a queixa. Ora nem v. ex.anempessoa alguma póde encarcerar por seu arbitrio quem quer que seja.
Martinho Vasques desabafou:
—Sente-se bem, no irritante do seu falar, que por terem vencido uma escaramuça, e haver o temporal desviado a esquadra, tem o rei na barriga, e se lançam em desenfreadas vinganças. Agora trazem a anarchia ao seio da familia! Já nem respeitam a santidade do lar!
—O despotismo familiar não o respeitamos, nem o consentimos. É da lei, que temos obrigação de cumprir.
—Essas malditas leis constitucionaes...
—Já as ordenações do reino o prohibiam, mas eram letra morta as medidas que defendiam os fracos, pois gosavam da impunidade os poderosos como v. ex.a. Hoje a lei é egual para todos, quer premeie quer castigue. Eu proprio, por esta mesma diligencia posso ser julgado se me exceder. São regalias que custaram muito sangue, e hão de custar ainda mais. Mas o poder despotico de maltratar, de torturar, acabou para sempre!
—Se quer que o respeite—bradou o morgado—não alluda mais ás intrigas tecidas por um atrevido que fui forçado a expulsar d'esta casa.
—Saiba,senhor, que a justiça não se rebaixa a intrigas. Ha uma queixa em fórma, com testemunhas, contra o seu procedimento.
—Uma queixa d'esses reles soldados...
—Foi apresentada por uma fidalga, sua parenta, a sr.aD. Victoria, digna portanto de todo o credito.
—Ah! Espertezas da menina Josepha da Esperança! Essa namoradeira é outra que tal! Se eu lhe tivesse arrancado as orelhas não era ella que ia enredar-me...
—Vem dos mesmos illustres avós que v. ex.a, essa dama que maltrata. Mas não me pertence apreciar se o seu procedimento é ou não de fidalgo.
Fazia esforços fr. Angelico por conter Martinho.
O juiz dirigiu-se a elle:
—Queira vossa reverendissima aconselhar o seu amigo. É conveniente evitar aparatos incommodos. Não desejo chamar a minha gente para testemunhar o encarceramento da senhora D. Maria, o que redundaria n'um processo crime, com pena de cadeia. Basta-me que lhe possa falar livremente, e esquecerei tudo o que desagradavel se tem passado.
Arrastando-o para um canto, tentava o frade convencer omorgado, falando-lhe em voz baixa, acaloradamente mas, não conseguindo decidil-o a apresentar Maria, ainda pretendeu abrandar o juiz:
—Se é necessario o testemunho do ministro do Senhor, aqui estou eu prompto a jurar, pelo santo nome de Deus, que s. ex.aé incapaz de opprimir sua filha, sendo, pelo contrario, o modelo dos Paes.
Já enfadado, retorquiu-lhe o corregedor:
—Vá vossa reverendissima buscar a senhora D. Maria, ou obrigam-me a praticar uma violencia, em que tambem será envolvido.
Desculpou-se o frade para com o fidalgo, indicando-lhe o magistrado n'um gesto:
—Deus é contra o escandalo.
Dirigiu-se á porta, para ir chamal-a.
—Seja assim—disse Martinho Vasques—vá buscal-a, e este senhor reconhecerá a sem razão das accusações dirigidas contra mim.
Depois de a vir intimidando pelo corredor, apresentou Maria fr. Angelico:
—Aqui a tem, senhor.
Occupada com a pacificação da ilha, a captura dos guerrilheiros, a investigação das cumplicidades, não pudera a justiça intervir mais cedo.
EstavaMaria ao corrente dos seus esforços. Apezar da continua vigilancia, recebia cartas que o moço de cavallariça lhe metia da cocheira por uma greta do sobrado, onde introduzia as respostas, depois de bater devagarinho para baixo.
Durante mezes interminaveis ambicionára esse momento, mas agora sentia-se fraquejar ao ter de queixar-se do pae, ao quebrar, ante o novo amor, a linha de obediencia, o respeito de filha, o periodo de submissão.
Compadeceu-se do velho, cujo rosto transtornado vira de soslaio, e sentia-se sem forças para realisar o que planeára no seu desespero.
Mas horrorisava-a o que a mãe soffrera, captiva d'esse homem que, por se dizer seu progenitor, por um direito que era alheio ao seu consentimento, a maltratára de palavras, a magoára brutalmente, e a fechára á chave no quarto, prohibindo-lhe os passeios, os entretenimentos, a correspondencia, o convivio.
No absoluto isolamento dos primeiros dias horrorisara-se ante a annulação da individualidade, a suppressão da consciencia, que era a educação preconisada pelo pae. Ao visitar d'antes a prima Josepha envergonhava-se de não saber tocar cravo, denão conhecer os livros em que ella lhe falava, e que só a furto podia devorar, porque, no entender do morgado, a leitura pervertia a mulher. Não sabia bordar como ella, nem fazer os pequeninos enfeites que por toda a casa lhe denotavam a educação e o gosto.
Depois, quando o frade lhe foi aconselhar uma submissão ainda mais completa, não só nos actos externos, mas nos seus sentimentos mais intimos, revoltou-se energicamente. E saÃu corrido fr. Angelico, queixando se de que o demonio, por intermedio do jacobino, se apossára inteiramente d'ella.
Por fim a mãe, exasperada pelo abandono, vendo o frade senhor da casa, pastoreando o rebanho das creadas, passou a odial-o, como odiava o esposo, comprehendendo o baixo interesse que o ligára a ella, emquanto do sacco das despezas lhe podia ir dando suas peças, e tornára-se cumplice da filha, protegendo-lhe a correspondencia, avisando-a do que elles projectavam, animando-a a insurgir-se, a libertar-se d'elles.
E n'esses dias enfadonhos, n'essas infindaveis noites de inverno, contava lhe insulto a insulto, offensa a offensa, grosseria a grosseria, o seu martyrio de trinta annos.
Prohibira-lheo marido as idas á egreja, sua unica distração, mandando dizer missa na capella da quinta, para lhe tirar esse pretexto de saÃr; impedira-a de fazer visitas; negára-a ás pessoas que a procuravam; afastára-lhe os derradeiros parentes, que ainda arrostavam com o seu mau modo para não a desampararem; offendera-a, humilhára-a em intimidades suspeitas com serviçaes, com rendeiras, e fizera d'ella aquelle trapo, envelhecera-a aos cincoenta annos, moera-a, tornára-a negra por dentro, matára-a lentamente: que sem punhal ou veneno tambem se mata!
Seguia o pae já com ella o systema; nunca vira com bons olhos Josepha, e por fim expulsára-a; queria entregal-a a um homem a quem recommendaria os seus processos, e tornal-a-ia uma escrava por sua vez.
Oh! Antes morrer!
Esperava dia a dia a promettida intervenção da autoridade, e tinha-a antecipadamente como o momento em que passaria a pertencer a João.
Como elle era differente! Como seria ditosa ao seu lado, no enthusiasmo d'esse amor juvenil, na meiguice do olhar, na delicadeza do seu trato, na suavidade das suas falas. Com que direito pois lhe prohibiama sua parte de felicidade n'este mundo, se tivera a suprema ventura de a poder realisar?
Espreitava por dentro dos ralos a chegada da justiça, adivinhando-a em todos os vultos que divisava ao longe, nos carroções que denunciava o estrepito distante, e só n'essa manhã tivera a fortuna de a vêr chegar.
Tremendo, abraçada á mãe, a quem n'esses dias de dôr quizera mais que em toda uma vida de afastamento, de seccura, aguardou que a fossem buscar.
Parecia-lhe de mau agouro a demora.
Quando o frade a chamou, seguiu-a D. Perpetua n'um repente tão aggressivo que fr. Angelico receiou um desacato.
Que triste que era o seu noivado! pensava Maria, ao encaminhar-se para a sala, crente de que a esse rompimento seguiria o consorcio.
Revoltou-se o juiz ao vêr-lhe os olhos pisados de chorar, as faces pallidas, cavadas, a agitação em que tremia.
Pediu-lhe que se sentasse, e perguntou-lhe se era verdade ter sido maltratada, e encontrar-se prohibida de toda a communicação.
Acobardou-seella ante o tom grave da pergunta, e levando o lenço aos olhos, rompeu a chorar, sem responder.
—Não preciso melhor confirmação—disse o juiz erguendo-se, e dirigindo-se a Martinho Vasques—É o caso da lei, abuso do poder paternal. Sou pois forçado a cumprir o que se me requer, o deposito judicial em casa do mais proximo parente.
—Protesto contra semelhante violencia, e juro que lavarei esta afronta com sangue!—bradou o morgado.
E increpou violentamente a filha:
—Basta de comedia, menina. Diga claramente se lhe fiz algum mal.
—Nenhum, senhor!—respondeu ella, abandonada de toda a energia, aniquilada pela commoção que, sobre a longa espectativa, lhe esgotava a resistencia.
Mas D. Perpetua, que ficára entre portas a vigiar, desconfiada, entrou bradando como louca:
—Senhor juiz, minha filha tem mêdo da fera! Este perverso bateu-lhe, como me bate em mim, e a pobre ainda tem os braços cheios de nodoas negras. É verdade que a tem fechada como a um cão, e manda ameaçal-a todos os dias por esse frade, quejá se atreveu a levantar a mão para ella.
Por unica resposta, disse o juiz:
—Tenha a bondade, minha senhora, de mandar a sua filha o necessario para que me acompanhe immediatamente.
SaÃu promptamente a velha, dirigindo a fr. Angelico um olhar de triumpho.
Olhar injectado de sangue, labios tremulos, ergueu-se o morgado em passo mal seguro, e dirigiu-se a Maria, que instinctivamente se refugiou por traz do magistrado.
Este interpoz-se, na energia da sua figurinha secca, nervosa, fronte avincada, bôcca accentuada com firmeza, olhar vivo de argumentador, o ar decidido de homem novo, habituado aos grandes lances:
—Que faz, senhor?
—Quero despedir-me de minha filha!—tartamudeou Martinho—Não me assiste esse direito?
Replicou o corregedor com repugnancia:
—Esta senhora não o evitaria, se fosse um movimento sincero. Está n'essa repulsão o seu maior castigo.
Atirou-se o fidalgo, esmagado, para uma cadeira, os olhos queimados de lagrimas de desespero, fechando os punhos em crispações nervosas:
—Ah!Que se eu a abraçasse, ia esta noite ceiar com Christo!
Entrou D. Perpetua, já de manto, o rebuço deitado para traz, ajudou-a a vestir a saia de merino, atou-lhe o capuz á cintura e deitou-lh'o pela cabeça, emquanto ella se despedia, abraçando-a e beijando-a:
—Perdôe-me o passo que vou dar, e peça a Deus que me faça feliz.
—Não o serás!—exclamou o pae—porque eu te amaldiçôo! Permitta o Senhor, filha desnaturada, que caias tão baixo que ainda venhas aqui de rastos, coberta de bichos, pedir uma côdea á porta d'esta casa que deshonraste. Deus te amaldiçôe, como eu te amaldiçôo!
—Vamos, minha senhora, tenha coragem!—disse o juiz, dando o braço a Maria, e encaminhando-se para a porta, sem se despedir, indignado por semelhantes palavras.
—Eu vou comtigo, não fico nem mais um dia n'esta casa—murmurou-lhe ao ouvido D. Perpetua.
E cobrindo-se poz-se ao lado da filha.
De um salto, o fidalgo tomou a porta, e deteve-a, emquanto o juiz e Maria se afastavam.
—Ondevaes?
—Sigo minha filha.
—Isso é que não. A ti governo eu! Has de obedecer-me cegamente, has de ficar onde eu quizer, entendes bem, onde eu quizer!
Fechou a porta violentamente, e empurrou-a para dentro.
De joelhos, mãos postas, ella supplicava:
—Por amôr de Deus! Deixa-me acompanhal-a!
—Não! Has de pagar por ella.
Já na sége, para onde se deixára arrastar atordoada, reparou Maria na falta da mãe, e pelos gritos comprehendeu o que se passava.
Pediu ao juiz que a fosse buscar, mas elle desculpou-se com a lei, que não o autorizava a tanto.
N'uma grande amargura, Maria exclamou sentidamente:
—Então, senhor juiz, para que serve a liberdade, se ainda se pode opprimir uma mulher!
Agora viam-se, falavam-se, estavam ali juntos um do outro, no vão da janela, um degrau acima do sobrado, como n'um nicho, sentados nos poiaes de pedra, os joelhos tocando-se, as mãos dadas, tão perto os labios, que só os impedia de passarem a tarde n'um longo beijo o olhar vigilante da tia Victorina, a mãe de Josepha da Esperança, enterrada na poltrona, roca á cinta, fiando massarocas para a Francisca da Bica, grande tecedeira, que as lançava no tear em guardanapos, lençoes e colchas, a trinta reis a vara.
Para impedir o escandalo de se falarem da janela abaixo, permittia-lhes, aos domingos, a dona dacasa, esse curto desabafo em que pesava com a sua presidencia, impassivel, entre a commoda negra, de pés recurvos, e a porta de vidraça da escura alcova onde dormiam as raparigas.
Nos outros dias, ao passar para o castello e para casa, via-a João ao postigo do grande ralo, de riscas em diagonal pintadas a verde, com remates de pinhas nos rectangulos divididos pelos columnellos, manchas rubras de cravos nos recantos, no alto gaiolas de cana onde saltitavam canarios.
Dominava-os a tristeza da casa, em que pairava a viuvez de D. Victoria, entristecendo a propria filha a quem faltava a distração das tardes na quinta, para onde, mal acabava de jantar, partia sentada na burrinha, que o moço tangia, escudeirando-a.
Maria, olheirenta, emmagrecida, definhada pela vida tão differente que ali levava, fechada n'uma casa pequena, acostumada como estava a passar ao ar livre o dia inteiro, queixou-se, dominada por uma inconsolavel melancholia:
—João, desde que saà de casa só tenho chorado. Foi praga que me rogaram. Ha de ser a maldição do pae!
Emvão pretendia elle reagir contra o desanimo que tambem o ganhára:
—Não penses n'isso. Temos que passar por este tributo. A nossa felicidade fará esquecer estas horas amargas, e até teu pae se cançará da sua teima, e ha de abençoar-te e querer-te ditosa.
—Oh! O pae! Não o conheces bem. Mas ainda elle me queira sempre mal, paciencia. O que mais me custa é a mãe.
—Está costumada, não soffre tanto como tu.
—Deu-lhe volta ao juizo a minha saÃda, ficou a emprehender n'aquillo, e como lhe fechassem as portas atirou-se da janella abaixo para me vir vêr.
—Coitada.
—Tem estado á morte, e eu receio que morra sem a tornar a vêr.
Sobresaltou-se João:
—Acautela-te! Póde ser um estratagema para te obrigarem a voltar a casa.
—Não. Infelizmente é verdade.
—E como o soubeste?
—Está por ahi tudo cheio.
—Sim. Eu tambem o ouvi, mas tive-o por maroteira de fr. Angelico.
Encarou-o Maria aterrada:
—Foia tua funesta hostilidade á religião que te inspirou esse falso testemunho, pois o frade nunca mais voltou á quinta desde que eu vim para aqui.
Elle ficou mais receioso ainda:
—Pois tu defendes esse homem, que tanto mal nos fez, que denunciou a minha visita, para que me espancassem, e se atreveu a pôr-te as mãos?
—Não o defendo, não; mas temo por mim e por ti essa tua inclinação contra tudo o que respeita á egreja. Ainda te póde dar de rosto.
—Agora, Maria, é que tenho razão para estar triste porque já me não pareces a mesma!
—Não sei porquê—retorquiu offendida.
Atalhou João, para não a desgostar mais:
—Mas o que ha de tua mãe?
—Assim que soube que o Malaquias, o mulato, moço do sineiro da Sé, fôra encanelar-lhe a perna, mandei-o chamar, e só depois de lhe acenar com uma pataca é que aquelle recancha se decidiu a vir coxeando até cá, pois tinha ordem de não dizer nada.
—Era então verdade?
—Sim. Esteve mais de um mez sem se virar, abandonada de todos, e até foi despedida uma creada porque a tratava caridosamente.
—Pobresenhora!
—Essa veiu cá, e contou-me horrores. Vive no meu quarto, fechada como eu, arrastando-se pegada a um pausinho. E dão-lhe convulsões que fica de bôca á banda, tomada de um lado. Para ali vive como um môcho, a penar, a penar, que antes o Senhor se lembrasse d'ella, Deus me perdõe!
Elle tomou uma decisão:
—Pois meu amôr, em vez de a lamentarmos, o que não lhe serve de nada, tratemos de a arrancar d'essa maldita casa. Requer-se uma acção de separação, prova-se com o testemunho da creada e do mulato o carcere privado, vae lá a justiça, e...
—Exactamente como a mim. Mas de que me serviu, se sou tão infeliz como d'antes ... talvez ainda mais? De que servem essas leis, de que vocês fazem tantos escarceus, se me tiraram de uma prisão para me meterem n'outra, não nos deixando casar, como desejamos, senão quando eu tiver vinte e cinco annos; se permittem que uma pobre mulher esteja encerrada, pela vontade do marido, embora um juiz ouvisse que ella não queria viver em casa? Não, a felicidade não depende da alçada das leis, nem da vontade dos homens; a felicidade está na mão de Deus, e os que, como nós, o teem offendido, nãoa podem esperar nem n'este mundo, nem no outro!
Encarou-a João, como a lêr-lhe no olhar, e depois respondeu commovido:
—Dizes bem, dizes, não depende das leis a felicidade, nem de nós proprios, mas dos que nos educaram, dos que nos formaram o espirito, e que governam sempre dentro em nós. O que os principios porque nos batemos hão-de impedir d'aqui em diante, é a sementeira do mal, o obscurecimento dos cerebros, a aniquilação das consciencias.
E sobresaltado por uma desconfiança, que como um relampago o esclareceu:
—Por mais que negues, anda frade n'isto! Não é assim?
Accentuou-lhe a suspeita a confusão d'ella:
—Dize-me tudo. Não pódes ter segredos para mim! Sou como teu marido, desde que por minha causa abandonaste teu pae. Falaste com algum religioso?
Negou ella, frouxamente:
—Não, não falei.
—Perdôa, mas não te acredito. Veiu aqui alguma d'essas aves de mau agouro!
—Como me custa ouvir-te falar assim!
—Masveiu ou não veiu algum santo ministro do Senhor?
—O padre mestre, confessor de minha tia, sim. Vem cá muitas vezes esse santo homem: que eu distingo bem fr. Angelico d'elle, mas nem me falou, nem eu ouvi o que diziam.
—Então é intriga tecida por elle! Tem cá entrada. Mas que admiração, se em cada rua ha um convento, se a cidade é d'elles mais que dos moradores!
E aproximando-se muito, tomando-lhe as mãos, n'uma voz grave, mas baixa como um murmurio, para que não o ouvisse D. Victoria:
—Ah, minha querida Maria, que te querem roubar-me! Por amor de Deus desvia-te d'elles, não lhes dês ouvidos, considera antecipadamente como envenenadas as suas palavras! Querem separar-te de mim, pretendem desforrar-se do meu triumpho. E se ainda me queres bem, como o provaste, recusa-te a ouvil-os, quer falem em nome de tua mãe, que desgraçaram, porque foram elles que a inutilisaram, pergunta-lh'o um dia, se puderes; quer te falem em nome de Deus, que trazem sempre nos labios, tendo o demonio no coração!
Maria respondeu com lagrimas na voz:
—Poispódes duvidar de mim, ao passo que dei! Eu, uma morgada, esquecer-me do respeito que devo ao meu nome, por amor de ti! Eu, uma fidalga, expôr-me a commentarios vergonhosos...
E não poude mais. Afogada n'um choro convulso, que disfarçava tapando a bocca com o lenço, virando para as gelosias os olhos requeimados.
Então confessou-lhe tudo.
A convite do padre mestre, resolvera ir D. Victoria a uma festa em S. Francisco. Quizera leval-a comsigo, e aos favores que lhe devia não se pudera recusar. Como ia de manto, ninguem a conheceria. Não tencionava confessar-lh'o, para o não desgostar.
Houve missa cantada, distrahiu-se com a cantoria e com as ceremonias, que não via ha tantos annos, mas ao sermão cuidou morrer de vergonha.
Bradára um frade contra os desacatos, falára de Christo crivado de tiros, calices profanados em orgias, altares escolhidos para sentinas; indicára horriveis castigos para os constitucionaes e para as mulheres que os seguissem, alvejando intencionalmente as desgraçadas que abandonavam os paes para seguirem soldados, arrastadas por baixos apetites, tratando-as atodas por furias e prostitutas, indignas de se aproximarem da mêsa da communhão.