VI

—O patrão é que se está chamando, nanja eu.

—Olha que eu mando-te fazer uma montaria como a lobo!

—Pois vamos a isso. Coza-a commigo, que tenho o coirão duro, mas lá com o menino, cautela! Olhe que lhe sae do pêlo, senhor morgado.

—Pois atreves-te a ameaçar-me? A mim?

—Hoje em dia, meu amo, já não se póde mandar matarum homem sem se bailar n'uma forca, porque se acabaram os fidalgos e as suas patifarias.

—Até a isto se pegou a sarna jacobina!—exclamou com desdem, com desgosto.—Não falavas assim se eu não te désse licença para te ires emborrachar com a choldra do castello.

—Aqui, senhor morgado, aqui é que ellas se apanham de caixão á cova.

Perdendo a cabeça, o morgado poz o pé atraz, empunhou o cacete, mas envergonhando-se, atirou com elle, e deixou-se cahir no banco de pedra como aniquilado.

Ficou para ali vendo anoitecer, não querendo passar pelo pateo onde a quinteira se arrepelava, bradando que lhe desgraçára o marido.

Tinha ainda nos ouvidos os gritos de Maria, as injuriosas referencias da esposa.

Acabava de insultal-o um creado!

Sentia inteiramente desfeito o poder, a autoridade de que fôra tão cioso.

Todos se voltavam contra elle, todos pareciam ter razão contra a sua razão, a unica authentica, a unica verdadeira.

Perdera se a obediencia, quebrara-se o respeito, eem sua casa todos queriam mandar tanto como elle.

Estaria então a sociedade tão profundamente minada pelo mal, como dizia fr. Angelico, que a filha, uma fidalga, descesse até um misero plebeu, e todos se conspirassem contra elle, tomando partido pelo insignificante?

E atreviam-se a falar-lhe cara a cara, a elle, morgado, senhor de terras, nas novas leis que impediam a nobreza de desafrontar a sua honra a dentro do seu solar?

Invadia-o uma amarga dôr, um triste desanimo, como se a sua integridade physica fosse attingida, como se lhe tivesse quebrado a cabeça a cacetada, como se lhe mordessem os proprios cães.

E n'essa hora de abandono assaltava-o o remorso de muita injustiça.

Mas pouco a pouco reconquistou-o a fé absoluta na verdade das suas ideias.

Reanimou-se, decidiu-se.

O mal crescera, chegára a invadir-lhe a casa! Pois bem, collocar-se-ia d'ahi em diante ao lado dos que mantinham a verdade do passado, a honra incorruptivel da fidalguia, a fé religiosa intransigente!

Elevantou-se aprumado, disposto á lucta que a todos reclamava, e a que até ahi o subtraíra a indolencia do seu viver.

Segundo o costume, mal se levantára, fôra logo o morgado para a casa de jantar e, com a cabeça apoiada entre as mãos, os olhos fitos nos montes de rapa, nos picos de esterco do pateo interior, onde fossavam porcos e depenicavam gallinhas, reconstituia por partes a scena da vespera, illuminando se-lhe successivamente zonas da memoria, mas sem continuidade nos acontecimentos, como se uma palavra do frade lhe ficasse menos gravada, como se um insulto do veterano se marcasse mais fundo; e depois colligiu tudo, e poz-se a ligar os factos aos antecedentes e a preparar-lhes, por sua iniciativa, a necessaria conclusão.

Batiamalto na cosinha as galochas de sola de cedro da morgada, ao passar na parte do lagedo raspada pelo rachar da lenha; em sons abafados, surdos, ao calcar as crôstas de lama negra e luzente, terra da horta, caldeada ás escorrencias da amassaria.

Começou a chiar a frigideira na trempe, ao fogo das achas atiçadas pelo borralho do forno, onde acabava de cozer o pão da semana.

Ao cheiro da gordura e da linguiça com ovos, desabaram moscas do tecto de maceira, onde jaziam mortas gerações e gerações, o ventre inchado, avivado de cintas brancas, presas umas nas bambinelas de teias de aranha, suspensas outras pela tromba á cal do forro, que sustentava a telha, apoiando-se ás pernas de asna, firmadas por sua vez no friso onde amadureciam maçãs, e nas grandes traves em que curavam aboboras.

Esbarraram algumas, desvairadas, nos vidros poeirentos, grudados aqui e ali por miolo de pão, no centro das rachas estrelladas; mas depois precipitaram-se todas na cosinha, d'onde d'ali a pouco vieram pairando por cima da pratada, quando os pés descalços da creada batiam pancadas seccas nos degraus de pedra, da cosinha para a casa de jantar.

Entraramzumbindo pelas janellas as varejeiras dos chiqueiros e da esterqueira, cujas emanações azedas azotadas e amoniacaes, abafavam o cheiro da linguiça temperada a oregãos e da banha de vinha d'alhos.

Distraíu-o momentaneamente a lucta com os insectos, muitos dos quaes iam morrer na fervente gordura em que boiava a fritada.

Para comer em socego mandou fechar as janelas, e cessou a baforada da estrumeira, onde se enthesoiravam os despejos da casa, para riqueza das terras; mas pela do pateo da entrada, aberta para arejar, veiu o fedôr a bêsta das estrebarias que ficavam por baixo dos quartos de cama, onde pelas gretas do sobrado insinuavam ninhadas de pulgas.

Coube a vez ás moscas de cavallo, tardas, pegajosas, expulsas ás rabanadas pelas alimarias que, n'um luctar irritante, continuo, escarvavam o chão calçado de pedra roliça como amendoa, boleada pelo rolar das marés, pelo limar da areia.

Postos diante d'elle os torresmos frios, conservados em banha, e o pão de cabeça ainda quente, levantou-se o morgado e, tomando o cangirão de barro, de aza partida, cintado por dentro de sarro, foi-se ao barril cuidadosamente encanteirado, tirou-lhe oespicho e o vinho esguichou alourado, espumante, tornando a tapar por suas mãos, tanto cuidado lhe merecia o trato, tanta habilidade considerava necessaria para saber encher, sem deixar turvar.

Atestou o grande copo de crystal floreado de meia canada, difficil de abarcar na grande mão, ergueu-o á altura dos olhos, observou o vinho contra a luz, sorriu vendo mosquitos sepultos no fundo pelo jacto, e sobrenadando em redemoinho, prova de que continuava excellente o verdelho.

Esvasiou-o, excedendo a receita da sabedoria conventual «antes da sopa molha-se a bocca», «depois da sopa lava-se a bocca»; e quedou-se a admirar o vidro, seu unico luxo, a que ligava o valor estimativo dos reis testando em especial a taça «porque bebiam»; por onde só elle bebia, e bebia sempre, a não ser o vinho novo que, como entendedor, tomava por tijelinhas de barro.

Subiu da cosinha, afadigada, D. Perpetua, batendo nos degraus as galochas.

Volumosa pelas muitas saias de estopa e de panno da terra, como as creadas e as camponezas, trazia á cinta a bolsa de velludo preto, bordada a vidrilhos, onde tiniam grossos patacos de bronze e mólhos dechaves, pura ostentação, ante a dispensa escancarada, com a esbeiçada bexiga da gordura, onde se espetava a colher de pau.

Baixa, grossa, trigueira, olhar lubrico, beiços carnudos, olheiras em papos, pelle encarquilhada nas fontes, grandes rugas atravessando a testa de lado a lado, despenteada ainda como saíra da cama, as mãos sujas, de unhas negras como olhos de fava, desinteressava-se de tudo que não fosse fazer dôces, como aprendera no convento, e entregar-se a exercicios espirituaes com fr. Angelico, a cuja intimidade se agarrara n'um desespero de abandonada.

Era o symbolo da desordem que João sentia pairar n'essa casa, orgulhando-se de que a sua valia mais, porque n'ella transparecia a solida união que os elevára, emquanto a embriaguez, a preguiça, o desmazelo dissolviam aquella.

Sentou-se perto da cabeceira occupada pelo marido, e os dois pareciam degredados no isolamento da grande meza deserta, onde nos grandes dias se ostentava a baixella de prata guardada no fundo da arca e se alinhavam os grandes beberrões dos primos dando-lhe cresta na adega, por dias de annos, pelas festas; onde em quinta-feira santa jantava a creadagemcom os amos, celebrando a ceia dos apostolos.

Faltava Maria, e a mãe perguntou á creada:

—A menina?

—Mandou ir o almoço ao quarto.

—Estará doente?

Interpoz-se o morgado:

—Não sabe o que ella tem? Sei eu. É que vae saindo á senhora, herda-lhe as boas prendas, porque não tem outras que herdar.

Respondeu em furia de hysterica D. Perpetua, envidraçando os olhos que só para o frade se enterneciam:

—Vejo que o senhor ainda está com os destemperos de hontem. Já nem sequer o dormir lh'as coze.

Não se escandalisou o morgado, acostumado a essas violencias, e continuou:

—Por causa de sua filha houve hontem n'esta casa um escandalo. Não quero que se repitam, nem que ella faça o que a senhora toda a sua vida fez.

—O que eu fiz? Mas o que é que eu fiz, senão caír nas bocas do mundo por causa dos atrevidos do seu jaez. Por ter sido sua victima sou culpada? Eentão que nome merece o senhor, que com a sua brutalidade abusou da minha innocencia?

Riu Martinho estrondosamente:

—A innocencia de uma menina de vinte e quatro annos, creada n'um convento de freiras, acostumada ás denguices das grades, á intimidade dos primos, sabida em poucas vergonhas de namoros. Innocente, a senhora!

—Ria-se, ria-se. Mas não se riu quando o pae que Deus tem, que o conhecia por dentro e por fóra, o agarrou pelas orelhas: «Has-de casar, maroto, ou mato-te como a cão damnado, porque me enxovalhastes a filha». E o senhor tudo eram escrupulos do que se dizia, porque torna porque deixa, só por eu ser filha segunda, e andar á cata de herdeiras ricas. Quando viu sacos de cruzados não quiz saber de famas, de ditos nem mexericos. Meteu-me aqui dentro, tratou-me sempre como uma escrava, fez de mim esta desgraçada, mas plantou novas cepas para se emborrachar á vontade, e concertou este pardieiro onde chovia como na rua.

E n'um gesto longo abrangeu as paredes de cantaria de onde a cal despegava, o forro do tecto embarrigado pelo peso da telha, com lôstras de amarelo sujo, escuras ao centro, esbatidas para os bordos, daagua da chuva represada pelos coiceis, nascidos nas toiças de terra entre os regos; vertida pelas telhas rachadas por garotos que varejavam á funda os altos alamos, á caça de melros.

—Mente!—protestou o morgado contra a insinuação de interesseiro.—Cumpri apenas um dever de honra.

Riu convulsamente D. Perpetua, tendo perdido na intimidade o respeito á importancia que elle se arrogava ante os estranhos, impressionados pelo traje de côrte, á antiga, que o marcava como homem de outros tempos, tornado respeitavel á força de velho.

—A sua honra! Deixa-me rir! Quando o chamaram a Lisboa para a guerra com os franceses, o senhor, apesar da sua patente de capitão, não quiz saber de palavras bonitas, e deixou-se ficar no quartel de saude, como diz mestre Jacintho.

Iam comendo e insultando-se, na rotina de trinta annos de rancor.

—Como ha-de comprehender escrupulos de honra quem nunca os teve!—commentou o morgado.

Insistia D. Perpetua, muito teimosa, desabafando o odio ao longo captiveiro em que a mantivera:

—A sua honra, a sua embofia de fidalgo, que não o impediu de explorar como um judeu o primo Chico,pondo-o ao descimento da cruz com os seus contractos de avarento.

—Se a senhora não havia de defender esse reles picador de toiros!

—Que quer dizer com isso?

—Bem sabe o que fez, mesmo depois de casada, sua descaradona!

—Não tem senão lingua! Não lhe dar um estupôr que lh'a puzesse lesa!

—Tambem tenho mãos!—explodiu elle n'uma ameaça, dando um murro na meza, mostrando o punho fechado.—Não queira tornar a conhecel-as!

Sentindo reviver a offensa dos bofetões que a atiravam ao chão, replicou arripiando-se como uma gata:

—Conheço-lhe as mãos, covarde, mas o primo conhece-lhe a cara. Ainda o estou a vêr, quando cá veiu, muito enfiado, por causa da quinta do Pico da Urze: «Tu ficaste-me com as terras, pois então fica-me lá tambem com esta». E traz! Emplastou-lhe os cinco dedos nas bochechas!

Terminára o almoço, e ambos se ergueram de mãos postas, dando graças a Deus.

Vendo ainda vinho no fundo do jarro, deitou-o Martinho no copazio, atirou-o á bocca e chamou a mulher:

—Oiçaas minhas ordens.

Voltou-se D. Perpetua no habito de servidão adquirido n'uma vida inteira de obediencia, em que apenas havia a revolta das más palavras, que para o isolamento de ambos se tornára n'uma necessidade.

Ditava o morgado, sobrancelhas contrahidas, carrancudo, como absoluto senhor:

—Maria não tornará a saír do quarto sem minha ordem!

—Ah! Então fica encarcerada?

—Cale-se e obedeça!

—Não, que me sóbe uma coisa á garganta, e rebento se não lhe digo as verdades! Quer fazer-lhe o que me fez a mim, que me fechou como a um cão, para se meter com as creadas e com as mulheres do monte, vindas de proposito pagar as rendas em vez dos homens, para levarem sua pataca amarrada na ponta do lenço!

—Já acabou? Então oiça, e veja se tem a imprudencia de me desobedecer. Já sabe o que lhe custa!

—Quere-a para freira?

—D'aqui em deante não a deixe só, não lhe consinta cartas. Não a perca de vista, tome cautella. Eu vigiarei ambas.

Econfirmando a ordem n'um gesto de ameaça, saíu em passos largos, bordão em punho, caminho da adega, a visitar o alambique.

Muito irritada, porque a vigilancia da filha ia alterar-lhe os habitos, entrou-lhe D. Perpetua com mau modo pelo quarto dentro:

—Venho aqui esfogueteada por sua causa. Ouvi a seu pae o bom e o bonito! A menina precisa ter muito juizo. Lembre-se de quem é! Seu pae não quer que saia do quarto sem licença, e olhe que se ateima no namoro, é capaz de lhe pregar as janelas.

Recebeu Maria com indifferença a reprimenda, levantou-se e encaminhou-se para a porta.

—Que faz?!

—Que tenho eu que se ponham a disputar á meza, e depois queiram exercitar o genio commigo? Não fiz mal nenhum, não quero ficar presa! Não quero! Não quero!

—A menina está doida!

E saíndo para o corredor, apezar da mãe lhe querer tomar a porta:

—Vou mandar chamar a prima Josepha e o primo Jorge. Com gente de fóra hão de ter mais vergonha.

—Olhe,eu é que não estou para me incommodar. Préso muito o meu socego. Vou fazer queixa a seu pae, vou pôr-lhe tudo em pratos limpos.

—Pois vá, que não tenho medo do papão.

Embrenhou-se na quinta, e foi para o sitio onde ouvira o que tinha alterado o seu viver.

Longe de todos, repetia as suas palavras, recordava como ellas o iam transformando.

Ao principio era ainda o pequeno de escola com quem brincava; o humilde dependente d'esse frade, que viam passear ao longo da janela do escriptorio, côr de papoila, dedo no ar, ditando com voz de sermão.

Ao affirmar que a amava não parecia o mesmo; grave, offendido, dizendo retirar-se para sempre, decidido talvez a morrer n'essas luctas onde tantos caíam crivados de balas.

Na sua imaginação de rapariga apparecia João envolto no prestigio do sacrificio, via-o galhardamente na estrada brandindo uma lamina, arrostando com as ameaças, tão differente do tempo em que córava ao fingir-se ella convencida de que fr. Angelico lhe dava puchões de orelhas.

Parecia outro, mais esbelto, mais homem assim fardado; e agora lembrava com desvanecimento que ellelhe chamára bonita e dissera ter o futuro nos seus bellos olhos, a esperança de felicidade nos seus labios.

Queria-a para mulher. E poderia ser? Elle não era nobre, o que diziam não ser já preciso para nada. Mas o pae, só por uma desconfiança fizera o que fizera! Não quereria ouvir falar em semelhante casamento. Que haviam de fazer?

João o diria. Decidido como se mostrára, levaria tudo a bom caminho.

E se casassem?

Era bem differente do pae; delicado, fino! Não seria desgraçada como a mãe.

Que alegria a d'elle se a escutasse. Ah! mas teria vergonha de lh'o confessar. Da sua bocca nunca o ouviria. Dar-lho ia a saber pela prima. Oh! pela prima não. Achava-o tão lindo, era capaz de roubar-lho. Mas João amava-a muito para fazer caso de outra mulher. Portanto não lho mandaria dizer por pessoa nenhuma, havia de repetir-lho ella propria.

Habituar-se-ia, pouco a pouco, um bocadinho de cada vez, dando-lhe a perceber nos olhos...

Pois se casassem haviam de ter segredos?

Affligia-a o remorso. Porque não lhe falara assim quandoelle, tão pallido, se arriscára a desabafar? Não sentaria praça, não passaria pelo desgosto de o quererem espancar, e ella não estaria agora ameaçada pelo pae e pela mãe. Sempre o estimára, é certo, mas deixara-a fria esse inesperado desabafo, tanto estava longe de pensar n'elle para marido, quando desdenhava morgados, e julgava tudo merecer.

Elevara-o a deliberação, a coragem, o firme bem querer manifestado no rompimento com a situação de inferior.

Agora sim! Agora comprehendia-o e queria-lhe bem.

No enlevo d'essa commoção, não pensou mais nas ameaças, e apresentou-se á hora do jantar, como se nada tivesse havido.

Quando D. Perpetua lhe foi participar a desobediencia da filha, ficou muito offendido o morgado, mas não se ergueu do barril, não desamparou a destillação, nem sequer deu por entendido o recado.

Reconhecendo a mulher, em intima alegria, quanto o pungia essa noticia, voltou-lhe costas e foi-se.

Quando ao jantar, Maria lhe tomou a benção, estremeceu Martinho Vasques. Creára-a mimosa, votára-lhe certaaffeição, embora o seu genio sêcco não o deixasse transparecer.

Ante o seu ar alegre, de desafio, não se atreveu a censural-a, e durante o jantar não se trocou palavra a respeito da vespera.

Saíram as mulheres após as graças a Deus, e ficcou o morgado, meditando e bebendo, até á chegada de fr. Angelico.

Não libaram n'esse dia.

Tomando a serio o papel de dono de casa, de senhor absoluto, desfechou-lhe o morgado, á queima roupa, a ordem de fazer contas ao jardineiro, e de o pôr fóra immediatamente:

—Não lhe consinta lamurias nem alcovitices.

Partiu o frade, humilhado da seccura e passando pelo escriptorio para levar a pataca do mez, foi procurar mestre Jacintho ao casinhoto.

Voltou á adega o morgado, encarando com mais clareza a situação. Livre do veterano, não poderia a filha corresponder-se com João, e esquecer-lhe-ia a perrice.

E na primeira aberta que lhe permittissem as questões da ilha, toca para Lisboa!

Tencionava o frade descarregar no velho o despeito pelo tom imperioso do fidalgo, quando o viu saír,muito escovada a antiga farda; posto á banda o boné, n'uma reminiscencia da passada elegancia; calça de linho, de pastor, de onde rompiam, pesados e bolorentos, os butes do uniforme; saco de chita debaixo do braço; cacetinho na mão.

Disse-lhe n'um amargo sorriso:

—Bem vê que já estava em ordem de marcha. Ao que houve, não contava com outra coisa.

Olhou em torno, e como não visse o fidalgo:

—Admira-me que o senhor morgado não venha pôr-se a arrotar contra mim.

E n'um risinho de triumpho:

—Tem mêdo cá do ginja! Pois não lhe comia nenhum bocado. Palavra que tenho pena, queria dizer-lhe duas verdades. E d'ahi, não. Aquillo não tem emenda. É falar ás paredes.

Ouvia-se rir, ao longe, Maria com a prima Josepha da Esperança.

—Ó aquella sim, tenho pena! Andei com ella ás cavallotas, quando me saltava nos canteiros atraz das borboletas, estragando-me as flôres, a traquinas.

Abrangeu a casa e a quinta n'um olhar de saudade:

—Cá fica, a pobre, para ter a sorte da mãe! Mas ella,que ri tanto, é porque não tem mêdo das parlapatices d'aquella bôa alma do pae. Faz bem rir, é uma creança!

E dando uma palmada irrespeitosa no ventre de fr. Angelico:

—Por mais ameaças que lhe faça, ha de o morgado ir adiante d'ella, é lei do mundo! Por mais intrigas que forge vossa reverendissima, tambem irá comer hervas pela raiz, e ella ha de cá ficar, e gostará de quem lhe der na veneta. Até eu, que não sou nenhum rato de sacristia, hei de ir á missa de costas, e ella ainda estará em edade de casar com o menino João.

—Vocemecê nada mais tem que fazer aqui. Está pago e satisfeito...

—Põe-me na rua? Não quer que me despeça da D. Mariquinhas? Pois é melhor para me não saltarem as lagrimas, e vossa reverendissima não se rir depois á minha custa, quando fôr á lambujem do alambique.

—Avie-se, que eu tenho mais que fazer.

—Pois vá-se embora, que não lhe pego. Ah! Fica de sentinella a mim! Quem tal havia de dizer! Fr. Angelico da Immaculada Conceição de Maria a governar esta casa! Olhe que eu nunca lhe gosei dacarantonha, e agora comprehendo que vocemecê, e os outros da sucia, como os mosquitos de roda do vinho bom, andam á espreita das casas ricas, para apanharem freiras com bons dotes, e quintas onde se refocillem. Mas esta não apanham, juro-lh'o eu, porque a minha menina não é para graças. Não vae com cantigas. Aquella ha de fazer sempre o que muito bem quizer, que a isso a costumaram desde pequena. Era o nosso «Sant'antoninho, onde te porei»!

Limpou uma lagrima ao canhão vermelho da jaleca, e virou-se contra o frade, que já não estava nada satisfeito:

—Ha de se lhe acabar o governo aqui dentro, como já se lhe acabou lá fóra!

Deu alguns passos para a porta, mas ainda se voltou para traz:

—Vou para o castello. Hão de precisar lá de soldados velhos para ensinar a recruta á galuchada.

Passou o postigo que o frade lhe fechou nas costas, de pancada, indo depois vigial-o para o alpendre.

Voltara-se mestre Jacintho ao estoiro, e não poude represar as lagrimas vendo-se expulso d'essa casa, que considerava como a sua.

Deu alguns passos, vergado ao peso do saco, penosamenteapoiado ao bordão, mas tirara-lhe as pernas a sensibilidade e veiu sentar-se na banqueta, a refazer-se.

Descendo para as bandas de S. Jorge, illuminava o sol as vidraças dos quarteis da fortaleza.

Abrangeu o velho toda a cortina que vem da bateria de São Diogo, cintando á beira-mar o Monte Brasil, varejando a bahia do Fanal; depois os grandes pannos da muralha do Caminho Novo, o torreão e a ponte levadiça.

Estava agora ali dentro João, o seu derradeiro affecto, e a velha espingarda com que fizera a campanha, e que tanto chorara ao abandonar ao quarteleiro.

Tinha a proteger essa creança, a reivindicar essa arma, a punir os aggravos do morgado e do frade.

Meteu-o em brios o espirito da classe. Ergueu-se, poz o saco no poial, abaixou-se-lhe, passou os cordões aos hombros e atou-os atraz das costas, á laia de mochila. Levantou-se com elle e o peso, puxando-o para traz, fez lhe perder a curvatura senil.

Deu uns passos amparando-se ao bordão, mas desempenou-o o automatismo profissional. Pôl-o ao hombro á guisa de espingarda, deu a si proprio uma voz de commando:

—Ordinario,marche!

E a passo cadenciado avançou estrada fóra, rejuvenescido pela esperança.

Na melancholia do entardecer, em que as trindades põem o echo de um soluço, impregnado da tristeza do esmorecer do sol, fitava João o mirante da quinta, quasi totalmente esbatido na folhagem dos pomares.

Representava-se-lhe a scena da emboscada, revia-se na galharda atitude em que provocára os adversarios, baioneta em punho; fixára na retina o rosto transformado de Maria, a ardencia refulgindo-lhe no olhar; e vibrava-lhe ainda nos ouvidos a commoção dos gritos afflictivos.

Amava-o! Denunciara-a a surpreza.

Seestivesse contra elle, riria ao vêl-o corrido pelos cães, ou ter-se-ia retirado indignada pela sua audacia.

Mas não! Manifestára-se claramente a seu favôr, e só á força deixára o torreão.

Amava-o pois! Era o essencial.

Sempre contára como hostil o pae. Haviam de vencer com persistencia, confiando um no outro, certos da mutua fidelidade. E, tão novos, pertencia-lhes o futuro.

Como haviam de entender-se? Precisavam apoiar-se, trocar esperanças, animar-se na penosa separação.

Iria pela quinta a cavallo, para vêr para dentro, onde o muro era mais baixo, e poder resistir melhor ás ciladas. Levaria pistolas nos coldres, e ai de quem se lhe atrevesse!

Turbavam-o impetos de vingança, deslumbramentos de sangue, ferido pelo insulto.

Como concretizar a desforra?

Indicavam os preparativos que era esperado. Mas quem o denunciára?

Ao lusco-fusco assoprou a creada o borralho para o corno da isca, accendeu a candeia da cozinha, e foi levar-lhe, com as bôas noites, o candieiro de latão detres bicos, e a branda luz do azeite alagou o polido do bufete, projectada pelo reflector.

Illuminado o quarto, deixou de vêr na penumbra o tenue esboço dos Folhadaes, mas quedou-se no mesmo sitio, esperando que o pontear de luzes lhe fôsse dando referencias para o reencontrar.

Gritou lhe de baixo a tia Dorotheia:

—Ahi vae uma visita.

Descontente por irem perturbal-o, não acertava com quem fôsse, nem conhecia os passos pesados, vagarosos e tropegos, subindo para a torre.

—Dá licença, camarada?—disseram da porta.

Era a voz do veterano, rouca da bronchite chronica adquirida nas noites ao relento.

—Vocemecê por aqui, mestre Jacintho?

E mandou-o sentar, no alvoroço de noticias.

—Como tem passado? Como vae a menina Mariquinhas?

Acanhou-se, sob o olhar magano do velho.

—Não se faça vermelho, senhor Joãosinho.

E batendo palmadas nos joelhos:

—Então logo a uma morgada, hein? Sim senhor, sim senhor!

João sentia o sangue rebentar-lhe pela cara, mas a anciedade impelliu-o:

—Conte-meque se passou depois que a mãe a levou para dentro.

—Que se havia de passar? Mais era com ella!

—Reprehenderam-a?

—Não é para graças, não tem mêdo.

—Então o morgado...

—Commigo, commigo é que foi o bom e o bonito!

—Coitado! Comprometter-se por minha causa.

—Não me coite, que não me fui abaixo das pernas.

—Na sua edade!...

Ergueu-se o veterano, desvanecido pelo rasgo:

—Foi-se pôr o morgado a crescer para mim, mas eu, como quem diz, fingi que não era commigo, que aquillo não tem senão lingua, mas tambem é como um lavadoiro!

—Perdôe-me ter sido a causa de tal desgosto.

—Espere, que elle não se foi sem resposta.

E possuindo-se da paixão com que falára:

—Disse-lhe tudo que me veiu á bôcca, deitei-lhe á cara a negra ingratidão com que nos pagou termos-lhe salvo a pelle, eu e seu avô; e o matreiro embuchou e ficou-se a assoprar, a roer...

João pediu-lhe, compungido:

—Nãotome mais o meu partido, não se inquiete por mim...

—A bôas horas. Hoje o intriguista do frade poz-me na rua.

—O quê? Pois está despedido?

—Não se assuste, menino, não hei de morrer á mingua. Aveso algumas patacas para pão de milho, e n'aquelle castello cabe muita gente. Já lá fui pôr os trapicalhos e marcar poleiro.

—Tem a nossa casa, mestre Jacintho.

—Bem sei, mas obrigado. Se mesmo o menino á escolheu aquella, queria que eu ficasse a rezar n'umas contas?

—Vocemecê precisa de socego.

—Depois, depois. Agora ninguem é de mais ali dentro, que cá por fóra os patifes são muitos.

—Desarrumar-se dos seus commodos por môr das minhas creancices!

—Não se afflija, que eu por mim não tenho pena nenhuma. Só me custa não ter dado uma afogação em fr. Angelico, que me tratou como a um negro.

Mostrava o punho cerrado:

—Mas não as perde. São favas contadas!

—Socegue, deixe-o lá. Essa agitação faz-lhe mal.

—Heide escalal-o, como a um chicharro, para lhe enforcar o Miguel nas tripas.

E como João sorrisse:

—Ah! Sim? Pois elle chegou muito estugado á quinta antes do menino, e não se me tira da cabeça que foi armar a tratantada.

—Elle?

—Sim senhor. E depois vi arrebentar muito depressa pela porta fóra aquella cára de condemnado, com estes dois que a terra ha de comer. Tenho para mim que ia com ella fisgada.

—Não seria simples coincidencia?

—É má rez, como todo o homem que veste saias. Sucia de mandriões!

—E Maria?

—Não ha mal que lhe chegue.

—Viu-a hoje?

—O patife do frade não me deixou, e eu não teimei porque a ouvi rir a bom rir.

—Pois ella estava alegre?

—Eu lhe conto. A senhora D. Perpetua foi muito prognostica dar-lhe o recado do pae, que ao almoço esteve como uma bicha, ouvia-se-lhe ao longe a prégação. Mas ella o caso que fez das prohibições foi escapulir-selogo para a quinta. Rapariga de uma cana!

Reparou que João entristecera.

—Não se me ponha a malucar, que se ella estava de risota com a senhora D. Josepha da Esperança era decerto para não dar o braço a torcer.

Depois de luctar comsigo mesmo, aventurou-se a perguntar:

—Manda-me dizer alguma coisa?

Riu-se muito Jacintho, meneou a cabeça, e respondeu:

—Estou velho, mas não ando de capote e capello.

Arrependeu-se João:

—Desculpe, não foi por menos consideração.

—Desculpar o quê? Tivesse falado com ella, que eu mesmo lhe perguntava se queria alguma coisa para o menino.

—Como lhe hei de agradecer tanta dedicação!

—É vicio velho em mim, não me caíam os parentes em deshonra.

E vigiando que não fôsse ouvido:

—Já n'esse particular servi de muito ao seu avôsinho.

Bateu-lhe familiarmente nas costas:

—Aindaassim, elle não começou tão cêdo, verdade seja dita.

Desvaneceu-se o rapaz pela admiração implicita n'aquellas palavras, e animou-se a aproveitar a bôa vontade:

—Preciso falar-lhe, ou escrever-lhe, comprehende bem. Tenho muito que lhe dizer, e quero saber o que ella pensa de mim.

—O que ahi vae, o que ahi vae.

—Aconselhe-me, mestre Jacintho. Como ha de ser?

—Dê tempo ao tempo!

—Hei de desamparal-a quando todos a ameaçam?

—Não tenha mêdo, que aquillo é taboa que não joga. Teimosa! Que o diga eu, que muito lhe soffri em mais pequena.

—Que quer dizer na sua?

—Espere, espere, que ha de chegar-lhe tempo para tudo.

—Esperar? Isso não. Quero entender me francamente com ella, por palavra ou por escripto. E se me quizer como eu lhe quero, como hontem me pareceu...

—Casa immediatamente, não é verdade?

—Éclaro.

Recreiou-se o veterano com a resposta:

—E havia de casar n'essa edade, com dezaseis annos?

—Que tem que vêr a edade com o amôr?

—Ora vá-se crear, menino. Isso até lhe fazia mal á saude.

Córou João até ás orelhas.

—Não me fique amuado, que isto é brincar.

—Bem. Então falemos a serio.

—Não se zangue. Que geniosinho!

João fôra respirar á janella, a cabeça em fogo, e puzera-se a olhar ao longe, na direcção das raras luzes das casas de campo, em meio das quaes reconhecia a d'ella.

Chegou o velho á janela, abrangendo n'um gesto a cidade e o castello:

—Sabe que mais? Ponhamos as coisas a direito, que ella lhe ha de ir parar ás mãos.

—Não póde ser. E d'aqui até lá ha de ficar abandonada ao pae e á mãe, sem contar commigo, sem me sentir a seu lado?

—Tem razão, nanja que eu lha tire. Mas deixe acabar a desconfiança do morgado, que agora anda tudo de olho em cima d'ella...

—Seráassim, mas não posso esperar.

—Largos dias tem cem annos.

Entendeu João pôr-lhe termo aos conselhos, e proceder por sua conta.

—Pois mestre Jacintho, muito obrigado pelo que por mim fez. E não o incommodarei mais por esta causa, que agora já não é como no seu tempo, que só pela altura dos trinta annos é que se julgava uma senhora em edade casar. Agora vae tudo muito mais depressa. Se até ha barcos que andam a fogo!

Queixou-se amargamente o veterano:

—Foi sempre assim. A mocidade não quer saber da velhice para cousa nenhuma.

—Não diga isso. Sabe como o estimo. Só me refiro a estas coisas de amôr, de que mostra não perceber nada, pois quer que um namorado se cale, depois de acontecimentos como os de hontem.

N'uma saudade do passado, da juventude, do amôr, do prazer, remoçou-lhe o rosto engelhado:

—Isso é que percebo! Lá por me vêr agora um velhão, olhe que já passei pela sua edade, e até fui de mama! É o que lhe digo, não se me ponha a rir nas minhas barbas. No seu tempo, porém, ainda me entretinha a deitar o pião, não sabia o que fosse o bicho mulher. Mais tarde, sim; fui desempenado, bonitóte,e antes de me darem as bexigas, pellavam-se bôas moças por mim. Já vê que percebo, e tive bom mestre, olé se tive.

Aproximou-se muito o veterano, e num ar de confidencia, um sorriso bonacheirão, disse-lhe baixinho:

—Lições de seu avô, que foi das pontas! Elle atirava-se ás patrôas, e eu ás creadas. Uma vez...

Mas arrependeu-se.

—Nada. Nada. Suas tias podem desconfiar de que estou para aqui a perdel-o...

—Ellas não ouvem. Conte, conte.

—Uma vez que elle foi de castigo para a Graciosa ... Não digo nada, senão que muitos primos fidalgos tem por ahi, sem imaginar.

—Quem? Quem?

—Ora. Vão lá saber.

Deliciava-se na evocação:

—Só se atirava ao fino, o maroto. Deus lhe fale n'alma!

Entristeceu-o a ideia da morte, mas desanuviou-se rapidamente:

—O menino vae pelo mesmo caminho. Atirou-se logo a uma rica herdeira...

—Oh! Não julgue que foi por isso.

Continuouo velho, sem dar tento na interrupção:

—Fidalga como as melhores, bonita sem senão, os olhos de todos n'aquelle palminho de cara, e o morgado crente de que nenhum a valia, a ponto de a querer levar a um primo do reino.

—Fosse ella uma pobre de Christo, queria-lhe da mesma maneira, acredite-me.

—Pois sim, pois sim; mas ella é o que eu disse, isso é que é a verdade. Se fôsse uma pobre sem eira, nem beira, nem ramo de figueira, não lhe açulavam os cães. Tratavam logo de o encambulhar com ella ... Agora sendo o que é, não espere conseguir d'ali nada ao bem. Ha de ser á má cara, e é se fôr.

—Estou resolvido a tudo.

—Não digo menos d'isso. Quem sae aos seus não degenera.

—Maria ha de ser minha mulher, ao bem ou ao mal!

—Que a coisa começa torta, bem vejo eu. O menino já tem chorado lagrima gorda por causa d'ella. Mas não deve desanimar. A farda sempre deu sorte em coisas de mulheres. Lá por ella ser morgada, não é mais do que a imperatriz da Russia, quedava o cavaquinho pelo general Gomes Freire, com quem andámos no Russilhão. Pois eu não conheci um corneta, um rapagão como um turco, o menino bonito da rainha nossa senhora que se perdia a ouvir-lhe repetir os toques? E não vieram todos desvanecidos os soldados do dezaseis de infantaria de um destacamento em Queluz quando a Senhora D. Carlota Joaquina estava presa? Até um granadeiro, alto como uma torre, valha a verdade, trazia duas cartas de pessôa de dentro!

E reparando na surpreza de João:

—O menino ficou vermelho como uma malagueta. Mas olhe que é tudo verdade. Pergunte lá no castello, que lh'o hão de trocar em miudos.

Concentrou-se João, e depois perguntou:

—Em resumo, mestre Jacintho. Está, ou não disposto a auxiliar-me?

—Com alma e vida.

—Não podia esperar de si outra coisa. Muito obrigado. Agora diga-me lá, que lhe parece: devo procural-a ou escrever-lhe?

—Por emquanto não se podem levar as coisas ás do cabo. O menino ainda está com os dentes com que mamou, e já quer casar. Valha-o Deus!

—Lá volta aos gracejos.

—Masnão torno mais. Olhe, por agora basta que lhe escreva.

—Tambem me parece.

—Se a sua firmeza fôr tal como diz, o tempo que levarem separados ha de fazel-os quererem-se mais um ao outro.

—Juro-te que é.

—Ninguem lucra mais com o seu casamento do que eu. Voltar aos meus canteiros, ao meu buraquinho, fazer de enxota cães quando lá fôr fr. Angelico ou os collegas, a vêr se pilham alguma coisa.

—Como lhe hei de mandar a carta, sem a comprometter?

Meditou um pouco o soldado, e respondeu:

—O melhor, e o mais seguro de tudo, é falar á senhora D. Josepha. É muito capaz d'isso, porque gosta muito do menino. Até parecia uma gata assanhada quando foi da patifaria do quinteiro, que por signal lá anda com a cabeça amarrada, para não cair n'outra.

—E como ha de ser para lhe falar?

—Descance. Eu sei de uns atalhos, por entre as terras, que vão lá sair mesmo ao pé do canavial ao fim do pomar.

—Tem a certeza de que não nos podem vêr?

—Contoque não.

—Pois então vamos lá amanhã mesmo, visto que não ha nada a receiar.

—Amanhã? Deus te livre! Andam á espreita d'ella para ganharem o dôce. Davam-nos logo com o rasto, e o morgado mandava alevantar o muro. Nada! Nada! Deixe ao meu cuidado saber o que se passa lá dentro, e em elles andando desprevenidos, damos-lhe a saltada.

João, por fim, rendeu-se á evidencia:

—Pois seja assim. Mas vê lá o que promettes.

—Descance, que não me esquecerei. Não tenho menos vontade n'isso, creia, para o vêr feliz, e para ajustar as minhas contas. Onde se fazem, lá se pagam. Ali aonde me desfeitearam é que quero entrar de cabeça levantada, a deitar foguetes, no dia do casamento.

—Oxalá!

—E com esta me vou, senhor Joãosinho.

Já de pé, sacou do mólhinho de folhas de milho, das mais tenues camisas que na sóca protegem o grão tenro, leitoso; alisou-a com a navalha, acamou-lhe o picado de tabaco negro, da terra, accendeu ao candieiro o cigarro grosso e despediu-se:

—Com bem passe.

AindaJoão tentou retel-o:

—Porque não quer ficar? A casa é grande, cabemos todos.

—Obrigado, menino. Ali é que é o meu poiso. Antes eu de lá nunca houvesse saído, para ver o que tenho visto.

E já na escada recommendou ainda, muito baixinho, o dedo na bocca:

—Deixe esquecer a coisa por estes dias, olhe que o morgado anda com a pedra no sapato.

Ao ficar só, sentou-se ao bufete e poz-se a escrever. Não se recusaria D. Josepha a pôl-os em relações.

Acceitava esse alvitre do velho, mas lá deixar de vêl-a, isso é que não.

Perguntava-lhe a melhor maneira de o fazerem, e se mestre Jacintho não accedesse, iria sósinho.

Com espanto, sentiu perdida, ao escrever-lhe, a timidez em que só por meias palavras se lhe declarára. Enthusiasmava-se como se a tivesse diante de si, mas dirigia-se-lhe em termos que, face a face, nunca arriscaria.

Erao seu primeiro amor. Sentira bem como á ameaça de um ciume, ao receiar que a entregassem a outro homem, a amisade de irmãos se transformára na paixão em que esquecera a sua inferioridade ante a riqueza e a nobreza da mulher para quem se atrevera a levantar os olhos. Mas n'estes tempos de liberdade podia aspirar a ella, erguer-se até á sua grandeza, porque d'ora ávante as posições, os cargos, a consideração publica ganhar-se-iam com o trabalho, não se obteriam só por herança.

E n'uma grande ternura comparava o viver de ambos, tão semelhante; elle sem pae nem mãe, ella como se os não tivesse, isolada no ermo casarão onde pairava a sombra da tristeza.

Restituiu essa carta a Maria a tranquillidade que lhe roubára o conflicto, e quando esperava alegremente a prima, e se perdia com ella pela quinta, nas travessuras de outros tempos, chegava o pae a suspeitar que recebesse noticias d'elle.

Não desconfiava, porém, de D. Josepha da Esperança, e toda a vigilancia era na porta e nos muros, receiando temeridades do veterano ou algum arrojo de João.

Tendocomo militares garantida a impunidade, cria-os capazes de irem lá, com algum bando de camaradas, a desforrarem-se da cilada da sua gente.

Passaram-se dias, e parecia completamente esquecido o caso. Era, porém, caprichosa de mais a filha para não querer, ao menos por despeito, entender-se com João.

No seu tempo já teria liquidado tudo á valentona. Hoje usava-se de astucia, e n'esse terreno reconhecia-se inhabil.

Eram assumptos mais para fr. Angelico, manhoso como frade, batido em argucias de confessor habituado a lêr no intimo das almas.

Deixára de apparecer, e fazia lhe falta. Offendera-o a sua sobranceria. Puzera-se nas suas tamanquinhas, e mandar chamal-o era uma satisfação. Mas antes dar o braço a torcer, que deixar fazer o ninho atraz da orelha. Só o frade seria capaz de desenredar a meada, e de trazer Maria a bom caminho.

Resfolegou triumphante fr. Angelico ao receber o recado do morgado.

Dar-lhe ordens como a um feitor? Era lá coisa que lhe permittisse? Agora o passado, passado; mas fariarender a reconciliação. Não voltaria da quinta sem grosso donativo a pretexto do levantamento de guerrilhas; sem algumas das peças que D. Perpetua, na intenção de salvar a alma, forrava, em demencias de usura, ás despezas da casa, e escondia no colchão.

Servia-lhe de pretexto a atitude do fidalgo para acabar com a intimidade da dona da casa. Fatigava-o já a paixão senil a que ella se apegára durante vinte annos, desde que succedera na capellania da casa ao seu mestre, de quem decerto herdára a affectuosidade da morgada, a sua predilecção pelo lubrico contacto do aspero burel.

Parecendo-lhe nos primeiros tempos uma antecipação do paraiso, tornára-se depois o automatismo de um habito, e liquidára por fim nas repugnancias da obrigação.

Ia todos os dias a creada saber da saude de sua reverendissima e falava-lhe da afflicção da senhora, tão sequiosa das suas bemfeitorias espirituaes.

Mostrava-se elle theatralmente, no seu palco, ao fundo do sanctuario onde se armazenavam as imagens sem capella propria, cujos olhos de vidro brilhavam nas meias tintas do escuro armazem.

Os grandes pés descalços no lagedo, sem habito, acamisa desabotoada, empunhando disciplinas de grossa corda e nós nas pontas, simulava fr. Angelico o soffrimento de terriveis expiações.

Respondia n'uma voz sumida:

—Diga a sua ama a grande penitencia que estou cumprindo, a pão e agua. Que rese por este pobre peccador, para que lhe sejam perdoadas as fraquezas.

Regressou um dia a creada com a nova de que reappareceria o frade chamado do senhor; e D. Perpetua não desamparou o mirante e a varanda, passeando inquieta, aconchegando ao peito o embrulhinho com que faria esquecer ao penitente as visões do inferno.

Mal transpuzéra a porta da saleta, puxou-o para um canto, e meteu-lhe na mão o saquinho de sêda carmezim, onde elle pelo tacto reconhecia as peças de oiro.

—Angelicosinho da minha alma, para que me deixaste, ingrato? Que mal te fez a tua Perpetua?

Elle simulava um terror sagrado:

—Deixa-me, filha, tenho esta alma mais negra que um tição. Já estou a arder nas penas do inferno, sinto o fogo aqui dentro.

E comprimia o estomago, onde as penosas digestões detoucinho e presunto, servido em grandes postas no refeitorio, fermentavam em dolorosas azias, que afogava a bôa aguardente do fidalgo.

—É assim que me pagas os sacrificios que tenho feito por ti? São desculpas como das outras vezes. Nova confessada, descarado. Ha de ser a tal Joaquinina do Ó, de quem me chegaram uns zum-zuns.

Elle erguia o olhar ao tecto, n'um ar compungido:

—Ai filha, que perdeste a minha rica alminha! E não ha remissão para o peccado da carne, de si mesmo mortal, aggravado ainda em cima com o disfarce de coisas de religião.

Forcejava por desprender-se:

—Nunca mais! Acabou-se!

Perpetua agarrou-o na angustia do desamparo. Ia-se com elle o ultimo vislumbre de mocidade, o sonho em que se emancipava da trivialidade do seu viver. Era a morte aquelle rompimento!

N'um desespero articulou surdamente:

—Assim é que se perde a minha alma!

—Tem paciencia, irmã. Procura a consolação espiritual na penitencia. Verás como é bom, que gosos celestiaes dão os cilicios e as disciplinas. Pede á Senhora da Rocha que te ajude a conformar. Tem dadovista aos cegos e movimento aos paralyticos, fará o milagre de te dar resignação.

E aproveitando o desanimo em que ella se amparava ao archibanco, enfiou pelo corredor em demanda de Martinho.

Lavando na aguardente o mau sabôr dos beiços de D. Perpetua, desculpou-se fr. Angelico da Immaculada Conceição de Maria com a doença, que o impedira de ir receber as ordens do seu bemfeitor.

E emquanto passavam da casa de jantar á adega, sumindo-se um atraz do outro pelo alçapão, ia o frade lamentando a incredulidade dos tempos, e a audacia do governo provisorio.

Assentado no tampo do barril, o dorso apoiado ás frescas aduelas das pipas cheias, emquanto lá fóra escaldava o sol, desabafava o morgado, sentindo-se sem testemunhas:

—Estou muito isolado, fr. Angelico, desconfio de todos. Hoje só conto com a sua amisade sincera e desinteressada.

Agarrou logo o frade a occasião, que vinha preparando:

—E desinteressada, senhor Martinho Vasques! Permitta-me v. ex.aque accentue essa palavra, ao serforçado a appellar mais uma vez para a sua inexgotavel caridade, para a sua nunca desmentida dedicação ao throno e ao altar!

Simulava não reparar nos gestos de contrariedade do morgado:

—N'estes perversos tempos retraem-se os donativos, e o nosso convento quasi não tem para a sua pobre meza. Peço, pois, uma esmolinha para os frades de São Francisco, certo de que não recorro em vão á boa e generosa alma de v. ex.a

Tartamudeou o morgado:

—Ámanhã, ámanhã...

Continuava, porém, infatigavel o frade:

—Tudo se prepara para nos vermos livres d'essa liberdade de má morte. Apparecerão guerrilhas no concelho da Praia, para restabelecerem os inauferiveis direitos do nosso legitimo rei, e auxiliarem o desembarque da esquadra que se espera a todo o momento. Ha muitos fieis alistados, mas faltam armas e polvora. Todos os defensores da ordem tem auxiliado a boa causa. Espera-se que v. ex.anão deixe de concorrer...

—Ámanhã, ámanhã...

—É de tamanha urgencia...

—Bem sabe o costume. Só mexo em dinheiro antesdo jantar. E cada vez me sinto peior para contractos, porque o desgosto de minha filha poz-me muito fraca esta pobre cabeça.

—Isto não é negocio, senhor D. Martinho, ou antes, grande negocio é que elle é. Quem dá aos pobres empresta a Deus, recebendo-se no ceu o principal e os juros. Emquanto á esmola para meus irmãos em Christo. Que do auxilio aos partidarios do senhor D. Miguel tira logo v. ex.ao lucro, em não ter a sua casa ameaçada de confiscos...

Tocado na corda sensivel, sobresaltou-se o morgado:

—E elles irão de vez a terra?

—Quem o póde duvidar? Em todo o Portugal governa sua magestade. Falta só este palmo de terra, por vergonha de todos nós! Dá-se a mão aos que vem pelo mar, e acaba-se com elles n'um instante.

—Deus o permitta, que não posso ir descançado para Lisboa deixando-os em cima. São capazes de me darem cabo de tudo.

—Haja com que comprar espingardas, polvora e bala, e nem terão tempo de dizer Jesus! Com quanto póde concorrer v. ex.a?

—Jálhe disse que ámanhã. Venha jantar, e antes de nos sentarmos á meza...

—Muito obrigado, senhor Martinho Vasques. Vou já annunciar o valioso auxilio de v. ex.aaos amigos da religião.

—Preciso-o cá, e até o tomaria para sempre como commensal, para alivio da sua pobre meza, se lh'o consentissem os seus labores.

—Que honra, senhor morgado.

—E sabe porque? Preciso da sua influencia junto de minha filha. Se podesse ganhar n'ella o ascendente que tem em minha mulher...

—Quizesse-o ella—respondeu o frade n'um suspiro—e eu seria o mais feliz dos homens!

Continuou n'um arroubo ascetico:

—Trazel-a ao bom caminho! Afastal-a d'esses herejes que lhe hão-de perder a alma!

—Era isso mesmo que queria que lhe dissesse, porque eu não sou capaz de a levar ao bem, e não usarei da força senão na ultima extremidade. Faça o possivel por demovel-a, fr. Angelico.

E n'uma ameaça, para o lado do pomar, onde a sabia em colloquio com a prima:

—Mas ai d'ella se não obedecer!

—Alviçaras, senhor morgado, alviçaras! Deus amerceiou-se de nós, e deu por terminada a expiação com que quiz provar os seus servos!

Olhou-o um tanto desconfiado Martinho, pela falta de fundamento de semelhantes boatos.

Mas o frade confirmou, enthusiasmado:

—Victoria! Victoria! E graças sejam dadas ao ceu!

—É então verdade o que para ahi dizem?

—Estão reunidos nos Biscoitos mil e quinhentos homens, commandados por João Moniz Côrte-Real e Joaquim d'Almeida. Esperam mais gente de outras freguesias,e vão acclamar el-rei na villa da Praia, e facilitar ali o desembarque á esquadra do senhor D. Miguel, que saíu contra a Madeira, e vem agora libertar a nossa terra!

—E a tropa que marchou hontem contra elles?

—Protegeu o Senhor os nossos, e deu lhes logo a victoria. Foram derrotados os dois destacamentos, e ficaram presos os infames soldados liberaes. Que vergonha para esses fanfarrões!

—E que vergonha para mim, fr. Angelico—exclamou o morgado, n'um impeto guerreiro.—Devia estar ao lado d'elles, como me impõe o nome, a linhagem, o serviço do throno e do estado. Venha d'ahi, sellam-se dois cavallos, e em quatro horas estamos com elles.

—Não posso, senhor Martinho Vasques; a minha missão é toda de paz!

—Sei de muitos frades que se teem batido pela bôa causa.

—Sempre houve meus irmãos em Christo que usassem a cruz e a espada. Eu porém sou mais destro no manejo das armas espirituaes...

—Pois irei eu só. Não quero que notem a minha falta...

—Lembro-lhe a sua idade, meu senhor, e as molestias quetanto o tem impossibilitado. O melhor serviço que póde prestar ao senhor D. Miguel é dar mais alguma quantia...

—Tem razão, estou já muito velho para essas danças—concordou o morgado, procurando eximir-se á nova contribuição.

—Será tido na devida conta o seu soccorro, e Deus reconhecerá n'elle a sua bôa vontade.

—Se venceram, como diz, para que precisam elles mais dinheiro?

—Sempre são mil e quinhentas bôcas a comer...

—Tomem á força o que precisarem, como fizémos no Roussillon.

—Não diria o mesmo V. Ex.ase esses valentes realistas andassem cá pelas visinhanças.

—Tem razão, tem. Mas que isto se decida por uma vez. Acabe-se com a choldra, para que eu possa embarcar descansado.

—Ainda persiste em ir para Lisboa?

—E conto que vossa reverendissima prepare o espirito de minha filha, para que de todo esqueça esse disparatado namorico, e se disponha a desposar o primo D. Luiz de Sousa, que dará á minha casa a tão desejada successão.

—PerdôeV. Ex.aa minha extranheza. Depois do que se tem passado ainda pensa em tão honrosa alliança?

—E porque não?

—Póde um dia o nobre fidalgo a quem a destina pedir contas d'essa peccaminosa aventura...

—Noto a insistencia com que vossa reverendissima aggrava o alcance d'essa creancice, condemnavel, sim, mas pura creancice. Sabe por ventura alguma coisa?

—Sei o bastante, senhor morgado. Elle é um perverso, um hereje, um liberal; em conclusão: um depravado capaz de tudo.

—Mas minha filha é uma fidalga, e as fidalgas estão muito acima d'esses miseraveis, para que a sua intimidade se lhes torne perigosa.

—Na minha qualidade de director espiritual d'esta casa, é-me permitido manifestar as indicações que faz o Creador ás creaturas servindo-se dos seus intermediarios. Assim, senhor morgado, dir lhe-ei que uma voz occulta brada em meu peito: «Quero-a para mim! Quero-a para mim!» Significa isto que está indicada a clausura como penitencia da leviandade, e como resposta aos malvados constitucionaes quese arrojaram a cubiçar os bens de V. Ex.apara as suas obras de Satanaz.

—Se fôsse uma filha segunda já lá estava. Mas é uma morgada, não a hei de meter freira.

—Não digo que professe, senhor Martinho Vasques. Aconselho apenas que a mande para o convento, como castigo pela sua imprudencia, e como resposta á seita jacobina. Se mais tarde o Senhor lhe inspirasse a vocação, ver-se-ia. A verdade é que fazendo-a passar pelo claustro, ficava quite V. Ex.apara com seu genro. Creio que a senhora D. Maria só foi attingida na sua bôa fama. De mais graves estragos, porém, tem ido refazer-se jovens fidalgas ao seio das virtuosas madres, e bastou isso para que seus nobres esposos se dessem por satisfeitos.

Meditou um pouco o morgado, e respondeu:

—Não posso deshabituar-me da ideia de que hei de vêr um neto varão, já que Deus não me deixou vingar um filho, que succedesse no meu appellido e nos meus bens. Quanto ao mais, não tenha receio. Minha filha leva um magnifico dote, e por minha morte ficará bem. O primo, que pouco possue, alem da herdade perto de Evora, e do seu grande nome, terá toda a conveniencia em não dar ouvidos ás intrigas.

—Ea senhora D. Maria quererá casar com elle?

—Cumprirá o que lhe ordenar, como deve.

—Assim é em theoria, meu senhor, mas lembro que n'estes malditos tempos nem fica incolume a propria obediencia filial. Foram por certo os conselhos d'esse perverso que a fizeram má filha, como a hão-de fazer má esposa.

—Entregue-a eu ao marido, e o mais é com elle. Bem sabe a fama de leviandade que minha mulher teve, e a seriedade com que tem procedido desde casada. Feche-a, como eu faço, tire-lhe as occasiões, e será esposa exemplar como as outras.

—Como a senhora D. Perpetua—exclamou fr. Angelico, pondo a mão no peito—apesar das más linguas a quem irrita o exemplo da virtude! Que até em demasia pratíca a minha senhora os seus deveres religiosos. Appelle V. Ex.apara a sua autoridade de marido, e faça-a limitar a frequencia ao tribunal da penitencia. Ella é insaciavel de mortificações, e receio que acabe por lhe fazer mal. Imponha-lhe parcimonia, porque o meu ministerio não é o mais proprio para a arrancar a excessos de devoção.

—Não se lhe preste vossa reverendissima ás rabujices de beata. Agora todo o seu tempo será para corrigirminha filha. Sou o primeiro a sentir a sua desobediencia e a reconhecer a culpa que n'ella tenho, pelo mimo de que a rodeei. Por isso recorro ás suas luzes. Repita-lhe as confissões, meta-lhe medo com o inferno e fale-me, á meza, dos sacrilegios d'esses patifes.

—Cumprirei a minha missão de pastor, chamando ao redil a desgarrada ovelha ... Mas o mais seguro de tudo é a caça aos lobos. É preciso offerecer a esta nossa terra o espectaculo do desaggravo da religião e de el-rei, encher as casamatas do castello e dar que fazer á forca!

—Sim, diz bem.

—Pois lembre-se V. Ex.ados nossos amigos que já começaram a batida.

Receioso da incerteza dos tempos, precavia-se d'essa fórma fr. Angelico, enchendo o seu pé de meia antes que o morgado abalasse para Lisboa.

Deu-lhe Martinho, voltando a cara, novo saquitel de dinheiro, fechando cuidadosamente o contador e, sem mais palavras, foram para a meza.

Tirou o morgado o vinho, examinaram-o, provaram-o e aguardaram o comer.

Para affligir Maria, repetiu o frade ao jantar as noticias da revolta miguelista, dirigindo-se a D. Perpetua, grandepartidaria de Carlota Joaquina, hostil aos liberaes pelo seu odio aos conventos.

—Pois minha querida senhora D. Perpetua, vae V. Ex.asentir desafogada a sua alma pela grande desafronta que na nossa terra vae haver. Teremos carne fresca, salutares espectaculos a este povo tão offendido, e estou certo que o senhor morgado não deixará de mandar pôr o seu carroção para dar ás festas o prestigio da sua presença, e á menina Mariquinhas, como é de lei, a lição do castigo dos criminosos.

Muito nervosa, cravou Maria os olhos no prato, não respondeu ás solicitações directas do frade, e sempre conseguiu reprimir os impetos de o descompôr.

Impacientava-a a demora d'esse jantar interminavel.

Aterrada pelo perigo de vida em que se encontravam os constitucionaes, anciava vêr Josepha da Esperança que lhe devia contar a verdade.

Procurava convencer-se de que eram tudo exageros do frade, encommenda do pae para a fazer abandonar João.

Contava agora fr. Angelico os desacatos dos liberaes, o desabafo do povo de Lisboa em 1820, invadindo opalacio da inquisição, e despedaçando a estatua da Fé, da frontaria; e as invenções fradescas de Christos servindo de alvo, de imagens arrastadas pelos cabellos em procissões maçonicas.

Assustavam esses horrores a inconsciente credulidade de Maria, e quando o frade lhe falou do milagre de Setubal, dois anjos a cavallo n'uma nuvem, com a legenda de vivas a D. Miguel, temeu viver em peccado mortal pela affeição votada a um adepto de Satanaz.

Mas chocava-a a inverosimilhança de que esse pobre rapazinho, tão meigo, tão ingenuo, tão respeitador, bebesse vinho por caveiras, e escarrasse nas cruzes, como o frade ia insinuando, cada vez mais excitado pelo verdelho.


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