Chapter 4

[1] No original vem este dialogo em hespanhol.

Ha quarenta annos Saint-Malo possuia uma viela chamada viela Coutanchez. Essa viela já não existe: foi comprehendida nos melhoramentos da cidade.

Era uma dupla fileira de casas de páo inclinadas umas para as outras, e deixando no centro lugar sufficiente para correr um rego que se chamava rua. Andava-se alli com as pernas abertas dos dous lados da agua lamacenta, abalroando com a cabeça e o cotovello as casas da direita e da esquerda. As velhas choupanas da idade média normanda tem perfis quasi humanos. De albergue a feiticeiro a distancia não é grande. Os andares entrantes, as paredes inclinadas, os alpendres circumflexos, e o embrenhado de ferros velhos, simulam labios, queixos, nariz e sobrancelhas. A trapeira é o olho, zarolho. A face é a parede, rugosa e herpetica. Tocam-se as paredes como se conspirassem uma acção iniqua. Todos estes nomes da antiga civilisação, quebra-cabeças e quebra-ventas, prendem-se aquella architectura.

Uma das casas da viela Coutanchez, a maior, a mais famosa ou a mais afamada, chamava-se a Jacressarde.

A Jacressarde era a habitação daquelles que não têm habitação.

Em todas as cidades, e especialmente nos portos de mar, ha, abaixo da população, um residuo. Vagabundos, aventureiros, vivendo de expedientes, chimicos de especie larapio, pondo sempre a vida no alambique, todas as formas do andrajo e todas as maneiras de vesti-lo, os jubilados da improbidade, as existencias em bancarrota, as consciencias que já fizeram balanço, os que abortaram no assalto e no arrombamento de portas, (porque os ladrões trabalham por baixo e por cima) os operarios e as operarias do mal, os velhaquetes e as velhaquinhas, os escrupulos rasgados e os cotovellos rotos, os tratantes chegados á indigencia, os malevolos mal recompensados, os vencidos do duelo social, os famintos que foram devorados, osganha-poucodo crime, os miseraveis na dupla e lamentavel accepção da palavra, tal é o pessoal. Alli é bestial a intelligencia humana. É o montão de immundicies das almas. Ajunta-se tudo aquillo a um canto, onde passa de quando em quando a vassoura policial. Em Saint-Malo esse canto era a Jacressarde.

O que se encontra nessas espeluncas não são os grandes criminosos, os bandidos, os grandes productos da ignorancia e da indigencia. Se o assassino é representado alli, é por algum bebado brutal; alli o roubo não vai além da ratonice. É antes o escarro que o vomito da sociedade. O vagabundo sim, o salteador não. Todavia não ha que fiar. Aquelle ultimo degráo dos bohemios póde ter extremidades malvadas. Um dia, lançando a rêde no Epi-Scié, que era em Paris, o que a Jacressarde é em Saint-Malo, a policia apanhou Lacenaire.

Tudo entra naquelles albergues. A queda é um nivelamento. Ás vezes a honestidade esfarrapada escoa-se por alli. A virtude e a probidade tem aventuras. Não se deve, á primeira vista, estimar os Louvres nem condemnar as galés. O respeito publico e a reprovação universal devem ser descascados. Quantas sorprezas não se dão! Um anjo no lupanar, uma perola no monturo,—não é impossivel este sombrio e deslumbrante achado.

A Jacressarde era mais páteo que casa, e mais poço que páteo. Não tinha andares para a rua. A fachada era uma alta parede com uma porta baixa. Levantava-se o ferrolho, empurrava-se a porta, entrava-se em um páteo.

No meio desse páteo havia um buraco redondo, cercado de uma orla de pedra, ao nivel do chão. Era um poço. O páteo era pequeno, e o poço era grande. Em roda do bocal do poço o chão era mal calçado.

O páteo, quadrado, tinha construcções por tres lados. Do lado da rua, nada; mas diante da porta, á direita e á esquerda, haviam aposentos.

Quem, á noite, entrasse alli, um pouco arriscadamente, ouviria como que um rumor de respirações juntas, e se houvesse bastante luar ou estrellas, para dar forma aos lineamentos obscuros, eis o que veria:

O páteo. O poço. Em roda do páteo, em frente á porta, uma palhoça figurando uma especie de ferradura quadrada, galeria carunchosa, toda aberta, com tecto de vigas, sustentada por pilares de pedra desigualmente espaçados; no centro, o poço; á roda do poço, em uma liteira de palha, e fazendo como que um rosario circular, viam-se solas de sapato, umas direitas, outras acalcanbadas, dedos apparecendo pelos buracos dos sapatos, e muitos tornozelos nús, pés de homem, pés de mulher, pés de criança. Todos esses pés dormiam.

Depois desses pés, penetrando o olhar na penumbra da palhoça, distinguiam-se corpos, fórmas, cabeças adormecidas, prolongamentos inertes, farrapos de ambos os sexos, uma promiscuidade no monturo, um sinistro jazigo humano. Era um quarto de dormir para todos. Pagava-se dous soldos por semana. Os pés tocavam no poço. Nas noites de tempestade, chovia sobre os pés; nas noites de inverno, cabia neve sobre os corpos.

Quem eram aquellas creaturas? Os desconhecidos. Iam alli de noite e sabiam de manhã. A ordem social anda misturada com aquellas larvas. Alguns esgueiravam-se alli de noite e não pagavam. A maior parte entrava em jejum. Todos os vicios, todas as abjecções, todas as supposições, todas as miserias, o mesmo somno de prostração no mesmo leito do lodo. Os sonhos de todas essas almas faziam boa visinhança. Funebre entrevista em que se remechiam e se amalgamavam no mesmo miasma, os cançassos, os desfallecimentos, as borracheiras, incubadas as marchas e contra-marchas de um dia sem um pedaço de pão e sem um bom pensamento, as noites lividas e somnolentas, remorsos, cobiças, cabellos immundos, rostos com o olhar da morte, beijos, talvez, das bocas da treva. A podridão humana fermentava naquella tina. Eram atiradas áquelle alvergue pela fatalidade, pela viagem, pelo navio chegado na vespera, por uma sahida de prisão, pelo acaso, pela noite. O destino vasava alli, todos os dias, a sua alcofa. Entrava quem queria, dormia quem podia, falhava quem ousava. Era proprio para cochichar. Todos se apressavam em misturar-se. Tratavam de esquecer-se no somno, visto que não podiam perder-se na sombra. Tiravam á morte aquillo que podiam. Fechavam os olhos naquella agonia confusa que todas as noites começava. Donde sahiam? Da sociedade, porque eram a miseria; da vaga, porque eram a espuma.

Nem todos tinham palha. Mais de uma nudez estava alli no chão; deitavam-se estafados; erguiam-se anquilosados. O poço sem parapeito e sem tampa, sempre aberto, tinha trinta pés de profundidade. Cahia alli a chuva, escorriam as immundicies, filtravam todos os escoamentos do pateo. A caçamba para tirar agua ficava a um lado. Quem tinha sede, bebia. Quem estava aborrecido, afogava-se. Do somno do monturo passava-se ao somno do poço. Em 1819 tirou-se dalli um menino de 14 annos.

Para não correr risco naquella casa era preciso serda laia.Os estranhos eram mal vistos.

Conheciam-se acaso entre si, aquellas creaturas? Não; farejavam-se.

A dona da casa era uma mulher moça, assaz bonita, trazendo um barrete ornado de fitas, lavada ás vezes com agua do poço, e tendo uma perna de páo.

Desde madrugada esvasiava-se o pateo; iam-se embora os freguezes.

Havia no pateo um gallo e algumas gallinhas, que esgaravatavam no esterco durante o dia. O pateo era atravessado por um barrote horisontal, collocado sobre postes, figura de força, que não estava alli em terra estranha. Via-se ás vezes estendido no barrote, no dia seguinte ás noites chuvosas, um vestido de seda molhado e enlameado, pertencente á mulher da perna de páo.

Acima da palhoça, e, circulando o pateo, havia um andar superior e acima do andar um celeiro. Subia-se até lá por uma escada de madeira podre que furava o tecto; escada vacillante por onde subia com estrepito a mulher côxa.

Os locatarios de arribação, por semana ou por noite, moravam no pateo; os locatarios residentes moravam na casa.

Janellas, nem um caixilho; portas, nem uma hombreira; lareiras, nem um fogão; era a casa. Passava-se de um quarto a outro indifferentemente por um buraco quadrado e comprido que fôra porta, ou por uma fresta triangular que ficava entre duas pilastras do tabique. A caliça cahida cobria o assoalho. Não se sabia como aquella casa estava em pé. O vento não a abalava. Mal se podia subir pela escada gasta, e escorregadia. Tudo estava aberto. O inverno entrava na casa como agua em esponja. A abundancia das aranhas tranquillisava os moradores contra o desmoronamento immediato. Mobilia, nenhuma. Dous ou tres enxergões nos cantos, rotos no centro, deixando ver mais cinza que palha, aqui e alli uma bilha e um alguidar, servindo para diversos usos. Cheiro insipido e hediondo.

As janellas davam sobre o pateo. De cima o pateo assemelhava-se a um carro de lama. As cousas, aem contar os homens, que alli apodreciam e enferrujavam-se, eram indescriptiveis. Os destroços fraternisavam: cahiam paredes, cabiam creaturas. Os trapos semeavam entulhos.

Além da população fluctuante alojada no pateo, a Jacressarde tinha tres inquilinos, um carvoeiro, um trapeiro e um fabricante de ouro. O carvoeiro e o trapeiro, occupavam dous enxergões no primeiro andar; o fabricante de ouro, chimico, morava nas aguas furtadas, que tambem se chamava sotão. Não se sabia em que lugar dormia a mulher. O fabricante de ouro era um tanto poeta. Habitava debaixo das telhas n'um quarto em que havia uma trapeira estreita e uma grande chaminé de pedra, golphão onde ia rugir o vento. A trapeira não tinha caixilhos; o fabricante de ouro pregou em cima um pedaço de ferro em folha, proveniente de um rasgão de navio. A folha deixava passar pouca luz e muito frio. O carvoeiro pagava a casa com um sacco de carvão de quando em quando; o trapeiro pagava com um cestario de grãos para as gallinhas, cada semana; o fabricante de ouro não pagava nada. Entretanto ia queimando a casa. Já tinha arrancado a pouca madeira, e a cada instante tirava da parede, ou do tecto uma ripa para aquecer a caldeira do ouro. No tabique acima do grabato do trapeiro, viam-se em duas columnas algarismos feitos com greda, escriptos pelo trapeiro todas as semanas, uma columna de tres e uma columna de cinco, conforme o cestario de grão custasse tres liards ou cinco centimos. A caldeira do chimico era uma velha bomba quebrada, promovida por elle ao cargo de caldeira, e que lhe servia para combinar os ingredientes. A transmutação absorvia-a. Algumas vezes fallava nisso aos maltrapilhos do pateo, que deitavam a rir. Dizia elle:aquella gente está cheia de preconceitos.Estava resolvido a não morrer sem atirar a pedra phylosophal ás vidraças da sciencia. O forno com que trabalhava comia muita lenha. Já o patamar da escada tinha desapparecido. Ia-se toda a casa paulatinamente. Dizia-lhe a hoteleira:Neste andar só me fica o casco.O chimico abrandava-lhe a colera fazendo-lhe versos.

Tal era a Jacressarde.

O criado da casa era um menino, talvez anão, contando doze annos ou sessenta de idade, cheio de borbulhas, e trazendo sempre uma vassoura na mão.

Os frequentadores entravam pela porta do páteo; o publico entrava pela porta da loja.

O que era a loja?

A alta parede que dava para a rua tinha á direita da entrada do páteo uma abertura feita em esquadria, que era a um tempo porta e janella, tendo postigo e caixilhos; o postigo era o unico da casa que tinha eixos e fechaduras, o caixilho era o unico que tinha vidros. Por traz da janella que abria sobre a rua havia um pequeno quarto que tomava uma parte do telheiro de dormir. Lia-se na porta da rua este distico feito com carvão:Aqui encontram-se as curiosidades.A palavra já corria mundo. Sobre tres taboas que fingiam prateleiras collocadas por traz de vidraças, viam-se alguns potes de porcellana falsa, sem aza, um chapéo de sol chinez feito de pergaminho delgado, ornado de figuras, furado em diversos pontos, impossivel de abrir e fechar, cadinhos de ferro, louça informe, chapéos de homem e mulher estragados, tres ou quatro conchas, alguns embrulhos de botões de osso e de cobre já velhos, uma boceta com o retrato de Maria Antoinette, e um volume trancado da algebra de Boisbertrand.

Tal era a loja. Aquelle sortimento era a curiosidade. A loja communicava por uma porta do fundo com o páteo onde estava o poço. Tinha uma mesa e um escabello. A mulher do perna de páo era a moça do balcão.

Clubin não foi á pousada João, nem na noite de terça-feira, nem na noite de quarta-feira.

Nesta noite, ao escurecer, dous homens entraram pela viella Coutanchez; pararam diante da Jacressarde. Um delles bateu na vidraça. Abrio-se a porta da loja. Entraram ambos. A mulher da perna de páo deu-lhes o sorriso reservado aos burguezes. Havia uma vela sobre uma mesa.

Os dous homens eram effectivamente burguezes.

O homem que tinha batido na vidraça disse:

—Boa noite, mulher. Venho por aquillo.

A mulher da perna de páo sorrio segunda vez e sahio pela porta que dava para o páteo. Minutos depois abrio-se de novo a porta, e appareceu um homem pela fresta, trazendo bonet e blusa, debaixo da qual havia um objecto volumoso. Tinha uns fios de palha nas dobras da blusa e pelos olhos via-se que acabava de acordar.

O homem avançou. Olharam-se todos. O homem da blusa tinha um ar turvado e esperto.

—O senhor é o armeiro? disse elle.

O homem que tinha batido respondeu.

—Sim. O senhor é o Parisiense?

—Chamado Peaurouge. Sim.

—Deixe vêr.

—Aqui está.

O homem tirou debaixo da blusa um instrumento; muito raro na Europa naquella época, um revolver.

O revolver era novo e brilhante. Os dous burguezes examinaram-no. O que pareceu conhecer a casa e a quem o homem da blusa chamou armeiro, fez mover o mecanismo. Entregou depois a arma ao outro burguez, que parecia não ser morador na cidade, e que se conservava com as costas voltadas para a luz.

O armeiro perguntou:

—Quanto custa?

O homem da blusa respondeu.

—Venho da America. Ha pessoas que trazem macacos, papagaios, animaes, como se os francezes fossem selvagens. Eu trouxe isto. É uma invenção util.

—Quanto custa? perguntou de novo o armeiro.

—É uma pistola que faz molinete.

—Quanto custa?

—Paf. Primeiro tiro. Paf. Segundo tiro. Paf... é uma saraivada! Isto faz obra.

—Quanto custa?

—Tem seis canos.

—Mas quanto custa?

—Seis canos são seis luizes.

—Quer cinco luizes?

—Impossivel. Um luiz por cada bala. É o preço.

—Quer fazer negocio, seja razoavel.

—Já disse o preço. Examine-me esta obra, Sr. arcabuzeiro.

—Já examinei.

—O molinete anda de roda como o Sr. Talleyrand. Podiam pôr este molinete no diccionario das ventoinhas. É uma joia.

—Já vi.

—Os canos são de fabrica hespanhola.

—Já reparei.

—São lavrados. A cousa arranja-se assim. Deita-se na forja uma alcofa de ferros velhos, cravos, ferraduras quebradas...

—E velhas laminas de fouces.

—Ia dizel-o, Sr. armeiro. Depois deita-se em cima uma boa porção de fogo, e sahe disto tudo um magnifico instrumento de ferro.

—Sim, mas póde ter gretas e buraquinhos; póde sahir esconço.

—Sim. Mas tudo se arranja.

—O senhor é do officio?

—Tenho todos os officios.

—Os canos são brancos.

—É belleza, Sr. armeiro. Faz-se isto com borra de antimonio.

—Diziamos nós que isto custa cinco luizes...

—Tomo a liberdade de observar que eu tive a honra de dizer seis luizes.

O armeiro abaixou a voz.

—Ouça, Parisiense. Aproveite a occasião. Desfaça-se disto. Isto para vocês não vale nada. Chama a attenção.

—Na verdade, disse Parisiense, é um tanto vistoso. É melhor para um burguez.

—Quer cinco luizes?

—Não, seis. Um por cada buraco.

—Pois bem, seis napoleões.

—Quero seis luizes.

—Não é bonapartista. Prefere um luiz a um napoleão?

Parisiense sorrio.

—Napoleão é melhor, disse elle, mas luiz vale mais.

—Seis napoleões.

—Seis luizes. É para mim uma differença de oitenta francos.

—Então não fazemos nada.

—Pois sim. Guardo o revolver.

—Guarde.

—Abater o preço! pois não! não se dirá que eu me desfiz sem mais nem menos de uma invenção destas!

—Então, boa noite.

—É um progresso sobre a pistola, que os indios chesapoakes chamam Nortay-u-Hoh.

—Cinco luizes á vista, é ouro.

—Nortay-u-Hoh, quer dizer espingarda pequena. Muitas pessoas ignoram isto.

—Quer cinco luizes e mais um escudo?

—Eu já disse que custa seis.

O homem que estava de costas para a luz e que ainda não tinha fallado, fazia mover o mecanismo. Approximou-se do armeiro e disse-lhe ao ouvido:

—A arma é boa?

—Excellente.

—Eu dou os seis luizes.

Cinco minutos depois emquanto Parisiense apertava em um buraco feito na manga da blusa, os seis luizes de ouro que acabava de receber, o armeiro e o comprador, levando no bolso da calça o revolver sahiram da viella Coutanchez.

No dia seguinte, que era quinta-feira, a pouca distancia de Saint Malo, perto da ponta do Decolé, n'um lugar em que as rochas das praias são altas, e o mar profundo, passou-se uma cousa tragica.

Nada mais frequente na architectura do mar, que uma lingua de rochedos em fórma de lança, que se prende á terra por um isthmo estreito, prolonga-se na agua e acaba-se ahi bruscamente em forma de rochedo a pique. Para chegar ao alto desse rochedo, indo da praia, segue-se um plano inclinado cuja subida é ás vezes assaz difficil.

No alto de um rochedo desse genero, achava-se em pé, pelas quatro horas da tarde, um homem embrulhado em uma larga capa de uniforme, e provavelmente armado, o que era facil de reconhecer por certas dobras rectas e angulosas do manto. O sitio em que estava esse homem era uma plataforma assaz vasta semeada de cubos á semelhança de seixos immensos, deixando entre si estreita passagem. Esta plataforma onde brotava uma hervasinha estreita e curta, terminava do lado do mar por um espaço livre, que ia dar a um despenhadeiro, de uns sessenta pés de altura, acima do mar, e parecia talhado com um prumo. Entretanto, o angulo da esquerda ia-se arruinando e offerecia uma dessas escadas naturaes proprias aos granitos marinhos, cujos degraos pouco commodos exigem ás vezes pernas de gigante ou pulos de downs. Descia perpendicularmente ao mar e mergulhava nas aguas. Era um quebra-costas. Podia-se, comtudo, a rigor, ir por alli embarcar na muralha da lingua de rochas.

Soprava uma brisa. O homem, apertado na capa, firme nas pernas, com o cotovello direito na mão esquerda, piscava um olho e applicava ao outro um oculo. Parecia absorto em uma attenção séria. Approximou-se da borda do rochedo, e alli estava immovel com o olhar imperturbavelmente fito no horisonte. A maré estava cheia. A vaga batia por baixo delle no sopé do rochedo.

O que o homem observava era um navio ao largo que fazia manobras singulares.

Esse navio, que apenas uma hora antes sahira de Saint-Malo, tinha parado por traz dos Banquetiers. Era uma galera. Não tinha deitado ancora, talvez porque o fundo não lh'o permittisse, e porque o navio teria prendido a ancora de baixo do gurupés. Limitou-se a pôr-se á capa.

O homem, que era guarda-costa, como o uniforme indicava, espiava todas as manobras do navio e parecia tomar nota mentalmente. O navio tinha atravessado: era o que indicava a vela ré alada a barlavento, e as de prôa largas por mão; tinha braceado o panno de ré o mais que lhe foi possivel, de forma que neutralisava a força dos de prôa. Deste modo, cahindo a sotavento, não perdia mais de milha e meia por hora.

O dia ainda estava claro, sobretudo em pleno mar e no alto das rochas. Mas ao pé das costas começava a escurecer.

O guarda-costa, entregue ao seu trabalho, e espionando conscienciosamente ao largo, não tinha pensado em examinar o rochedo ao lado e em baixo. Dava as costas para a escada pouco praticavel que punha em communicação a plataforma com o mar. Não reparou que alguma cousa andava alli em movimento. Havia nessa escada, por traz da anfractuosidade, alguma pessoa, um homem escondido alli, segundo parecia, antes da chegada do guarda-costa. De tempos a tempos, na sombra, apparecia uma cabeça por baixo da rocha, olhava para cima e espiava o espião. Essa cabeça coberta por um largo chapéo americano, era a cabeça do quaker, que, uns dez dias antes, fallara nas pedras do Petit Bey, ao capitão Zuela.

De repente pareceu redobrar a attenção do guarda-costa.

Limpou rapidamente com a manga o vidro do oculo e firmou-o com energia sobre o navio.

Destacara-se um ponto negro.

O ponto negro, semelhante a uma formiga no mar, era uma barcaça.

A barcaça parecia querer ganhar a terra. Era tripolada por alguns marinheiros que remavam vigorosamente.

Já obliquava a pouco e pouco e dirigia-se para a ponta do Decollé.

A espreita do guarda-costa chegou ao seu maior gráo de fixidez. Elle não perdia nenhum dos movimentos da barcaça. Approvimou-se mais ainda da borda do rochedo.

Neste momento um homem de alta estatura, o quaker, surgio por traz do guarda-costa, no alto da escada. O espião não via o quaker.

Parou este alguns instantes, com os braços cahidos, e os punhos crispados, e, com o olhar do caçador que aponta, olhou para as costas do espião.

Quatro passos apenas o separavam do guarda-costa; adiantou um pé, depois parou; deu outro passo e parou outra vez; o unico movimento que fazia era andar, o resto do corpo era estatua; o pé firmava-se na relva sem rumor; deu terceiro passo, e parou; estava quasi tocando o guarda-costa, sempre immovel, com o oculo fixo. O homem ajuntou as duas mãos fechadas na altura das suas claviculas, depois, bruscamente, abateram-se os antebraços, e os dous punhos, como que soltos por uma mola, bateram nos hombros do guarda-costa. O choque foi sinistro. O guarda-costa nem teve tempo de soltar um ai. Cahio de cabeça no mar. Viram-se-lhe os pés durante o tempo de um relampago. Foi uma pedra n'agua. A agua cerrou-se depois, descrevendo dous ou tres grandes circulos.

Ficou apenas o oculo escapo ás mãos do guarda-costa e cahido no chão.

O quaker inclinou-se á borda das rochas, vio acalmar-se a agua, esperou alguns minutos, depois endireitou-se, cantando entre os dentes:

Monsieur de la police est mortEn perdant la vie.

Inclinou-se outra vez. Nada reappareceu. Sómente no lugar onde o guarda-costa tinha cahido, formou-se na superficie da agua uma especie de espessura negra, que se alargava no movimento da vaga. Era provavel que o guarda-costa tivesse quebrado o craneo em alguma rocha sub-marinha. O sangue subira e fazia aquella mancha na espuma. O quaker, contemplando aquella mancha, continuou:

Un quart d'heure avant sa mort,Il était encore....

Não acabou.

Ouvio atraz de si unia voz doce que lhe dizia:

—Ora viva, Rantaine. Acaba o senhor de matar um homem.

Elle voltou-se, e vio a quinze passos, no intervallo de dous rochedos, um homem baixo que tinha um revolver na mão.

Respondeu:

—Como vê. Bom dia. Sr. Clubin.

O homem baixo estremeceu.

—Reconheceu-me?

—Não me reconheceu o senhor? disse Rantaine.

Entretanto ouvio-se um rumor de remos no mar. Era a barcaça observada pelo guarda-costa que se approximava.

O Sr. Clubin disse a meia voz como se fallasse comsigo:

—A cousa foi rapida.

—Em que precisa de mim? perguntou Rantaine.

—Pouca cousa. Ha quasi dez annos que nos não vemos. O senhor ha de ter feito bons negocios. Como está de saude?

—Bem, disse Rantaine. E o senhor?

—Perfeitamente, respondeu Clubin.

Rantaine deu um passo para o Sr. Clubin.

Um pequeno som chegou aos seus ouvidos. Era o Sr. Clubin que armava o revolver.

—Rantaine, estamos a 15 passos. É uma boa distancia. Fique onde está.

—Ah! mas o que quer o Sr. de mim?

—Venho conversar.

Rantaine não se mecheu. O Sr. Clubin coutinuou:

—O senhor matou agora mesmo um guarda-costa, Rantaine levantou a aba do chapéo e respondeu:

—Já me fez a honra de dizel-o.

—Em termos menos precisos. Disse ha pouco: um homem; agora digo: um guarda-costa, O quarda-costa tinha o n. 619. Era um pai de familia. Deixa mulher e cinco filhos.

—Deve ser assim, disso Rantaine.

Houve um imperceptivel tempo de silencio.

—São homens escolhidos estos guarda-costas, disse Clubin, quasi todos antigos maritimos.

Notei que em geral deixam mulher e cinco filhos. Clubin continuou:

—Advinhe quanto me custou este revolver.

—É um lindo instrumento, respondeu Rantaine.

—Quanto vale?

—Vale muito.

—Custou-me cento e quarenta e quatro francos.

—Comprou naturalmente na loja de armas da rua Contanchez.

Clubin continuou:

—O guarda-costa nem gritou. A queda corta a voz.

—Sr. Clubin, hade ventar esta noite.

—Eu sou o unico que sei do segredo.

—Continúa a morar na pousada João?

—Sim. Vive-se bem alli.

—Já lá comi muito boa couve fermentada.

—Rantaine, o senhor deve ser excessivamente forte. Tem cada espadua! Não seria eu quem lhe levaria um piparote. Era tão rachitico quando vim ao mundo, que nem se sabia se me poderiam criar.

—Felizmente, criou-se.

—Sim, e continúo a morar na pousada João.

—Sabe porque motivo eu o reconheci, Sr. Clubin? Porque o senhor me tinha reconhecido. Disse comigo: Só Clubin póde reconhecer-me.

E adiantou um passo.

—Fique onde estava, Rantaine.

Rantaine recuou e disse aparte:

—A gente torna-se criança diante destes instrumentos.

O Sr. Clubin continuou.

—Situação. Temos aqui á direita, do lado de Saint-Enogat, a trezentos passos, outro guarda-costa, numero 618, que está vivo, e á esquerda, do lado de Saint-Lunaire, um posto de alfandega. Sete homens armados que podem estar aqui dentro em cinco minutos. O rochedo ficará cercado. O desfiladeiro ficará guardado. Impossivel fugir. Ha um cadaver ao pé da rocha.

Rantaine deitou um olhar obliquo ao revolver.

—Como diz, Rantaine. É um lindo instrumento. Talvez esteja carregado com polvora secca. Mas que importa? Basta um tiro para fazer correr a força armada. Tenho seis tiros.

O choque alternativo dos remos tornava-se mais distincto. A barcaça não estava longe.

O homem alto olhava estranhamente para o homem baixo. O Sr. Clubin fallava com um ar cada vez mais tranquillo e doce.

—Rantaine, os homens da barcaça que vai chegar, sabendo o que fez ha pouco, ajudar-me-hiam a prende-lo. O senhor paga 10,000 francos de passagem ao capitão Zuela. Entre parenthesis, a passagem ficaria mais barata se tratasse com os contrabandistas de Plainmont, mas estes só o levariam para Inglaterra, e demais o senhor não póde arriscar-se a ir a Guernesey onde ha quem tenha a honra de conhecel-o. Volto á situação. Se eu disparar prendem-n'o. Nesse caso pagará a Zuela 10,000 francos de fuga. Já lhe deu 5,000 mil francos; Zuela guardará esses 5,000 trancos e vai-se embora. É isto. Rantaine acho-o bem rebuçado. Esse chapéo, esse casaco, e essas polahias disfarçam-n'o. Esqueceram-lhe os oculos. Fez bem em deixar erescer as suisas.

Rantaine sorrio como quem range os dentes. Clubin continuou:

—Rantaine, o senhor tem uma calça americana com duas algibeiras. N'uma dellas tem o seu relogio. Guarde-o.

—Obrigado, Sr. Clubin.

—Na outra ha uma caixinha de ferro batido, que abre e fecha por molas. É uma velha boceta de marinheiro. Tire-a do bolso, e atire-a para cá.

—Mas isto é um roubo!

—Póde chamar a guarda.

E Clubin fixou os olhos em Rantaine.

—Olhe, mess Clubin.... disse Rantaine dando um passo e estendendo a mão aberta.

Messera uma lisonja.

—Fique onde está, Rantaine.

—Mess Clubin, arranjemos as cousas. Offereço-lhe metade.

Clubin executou um crusar de braços, mostrando a bocca do revolver.

—Rantaine, quem pensa que eu sou? Sou um homem honrado.

E acrescentou depois de uma pausa.

—Quero tudo.

Rantaine disse entre dentes:

—É temivel este.

Entretanto acenderam-se os olhos de Clubin. A voz tornou-se cortante como o aço. Disse elle:

—Creio que se engana. O seu nome é que é Roubo, o meu é Restituição. Ouça, Rantaine. Ha dez annos, sahio o senhor de Guernesey á noite tomando da caixa de uma sociedade cincoenta mil francos que lhe pertenciam, e esquecendo de lá deixar cincoenta mil francos que pertenciam a outro. Esses cincoenta mil francos roubados ao seu socio, o excellente e digno mess Lettierry, fazem hoje com os juros accumulados de dez annos oitenta mil seiscentos e sessenta e seis francos e sessenta e seis centimos. O senhor entrou hontem na casa de um cambista. Reluchet, chama-se elle, rua de S. Vicente. Deu-lhe setenta e seis mil francos em bilhetes de banco francezes, e em troca deu-lhe elle tres bank-notes de Inglaterra de mil libras esterlinas cada uma, e mais uns trocos. O senhor poz essas bank-notes na boceta de ferro, e a boceta de ferro na algibeira direita. As tres mil libras esterlinas fazem setenta e cinco mil francos. Em nome de mess Lethierry, contento-me com isso. Parto amanhã para Guernesey, e vou levar-lh'os. Rantaine, a galera que alli está á capa é oTamaulipas.O senhor embarcou alli esta noite as malas misturadas com os saccos e canastras da equipagem. Quer sabir de França. Tem suas razões para isso. Vai a Arequipa. A barcaça vem buscal-o. Está á espera della. Ella ahi vem. Já a estamos ouvindo. Depende de mim deixal-o partir ou obrigal-o a ficar. Basta de palavras. Atire cá a boceta de ferro.

Rantaine abrio o bolso, tirou uma caixinha de ferro e atirou-a a Clubin. A caixinha foi rolar aos pés de Clubin.

Clubin inclinou-se sem abaixar a cabeça, e apanhou a boceta, tendo dirigidos contra Rantaine os dous olhos e os seis canos do revolver.

Depois disse:

—Meu amigo, volte as costas.

Rantaine voltou as costas.

O Sr. Clubin poz o revolver debaixo do braço, e apertou a mola da caixinha. A caixinha abrio-se.

Havia dentro quatro bank-notes, tres de mil libras, e uma de dez libras.

Clubin dobrou as tres notas de mil libras, pol-as outra vez na caixinha, fechou-a, e metteo-a no bolso.

Depois apanhou no chão uma pedra. Embrulhou a pedra no bilhete de dez libras e disse:

—Volte para cá.

Rantaine voltou-se.

O Sr. Clubin continuou;

—Disse-lhe que me contentava com as tres mil libras. Aqui vão as dez libras.

E atirou a Rantaine o bilhete e mais o lastro de pedra.

Rantaine com um pontapé deitou o bilhete e a pedra ao mar.

—Como queira, disse Clubin. Vamos lá, o senhor hade estar rico. Estou tranquillo.

O rumor dos remos que se tinha approximado durante o dialogo, cessou. Indicava isto que a barcaça estava ao pé das rochas.

—Está embaixo o seu carro. Pode ir, Rantaine.

Rantaine dirigio-se para a escada e desceu.

Clubin foi com precaução até a borda do rochedo, e adiantando a cabeça, vio descer Rantaine.

A barcaça tinha parado ao pé do ultimo degráo do rochedo, no mesmo lugar em que tinha cahido o guarda-costa.

Vendo descer Rantaine, Clubin murmurou:

—Bom numero seiscentos e desenove! Pensava que estava só. Rantaine pensava que eram apenas dous. Só eu sabia que eramos tres.

Clubin vio no chão o oculo do guarda-costa; apanhou-o.

Começou o ruido dos remos. Rantaine acabou de pular na barcaça, e esta tomava o largo.

Quando Rantaine achou-se na barca, indo-se já afastando dos rochedos, levantou-se bruscamente, a face tornou-se-lhe monstruosa; mostrou o punho e gritou:

—Ah! o proprio diabo é um canalha!

Instantes depois, Clubin do alto das rochas, e fixando o oculo na barcaça, ouvio distinctamente estas palavras, articuladas por uma voz grossa, meio do rumor do mar:

—O Sr. Clubin é um homem honrado, mas consinta que eu escreva a Lethierry para participar-lhe o facto, e aqui vai nesta barcaça um marinheiro de Guernesey que é da equipagem doTamaulipas, que se chama Ahier Tortevin, o que ha de voltar a Saint-Malo, na proxima viagem de Zuela, e que será testemunha de que eu lhe entreguei para mess Lethierry a somma de tres mil libras esterlinas.

Era a voz de Rantaine.

Clubin era o homem das cousas bem feitas. Immovel como estivera o guarda-costa, e no mesmo lugar, com o oculo no olho, não perdeu de vista a barcaça. Vio diminuir-se os remos, desapparecer, reapparecer, approximar-se a barcaça do navio; e pôde reconhecer a alta corpulencia de Rantaine no tombadilho doTamaulipas.

Quando a barcaça foi içada, oTamaulipasentrou a preparar-se. A brisa soprava de terra, o navio abrio as velas todas, o oculo de Clubin continuava fixo no lineamento cada vez mais simplificado, e, meia hora depois oTamaulipasera apenas um ponto negro que ia a diminuir-se, a diminuir-se, a diminuir-se no céo amarello do crepusculo.

Nessa noite, o Sr. Clubin recolheu-se tarde.

Uma das causas da sua demora, é que antes de recolher-se, foi elle até á porta Dinan onde haviam tavernas. Tinha comprado em uma dessas tavernas onde não era conhecido, uma garrafa de aguardente que pôz em uma larga algibeira da japona como se quizesse escondel-a; depois, devendo a Durande sahir no dia seguinte de manhã, foi a bordo para ver se tudo estava em ordem.

Quando o Sr. Clubin entrou ua pousada João, já não havia na sala baixa senão o velho capitão de longo curso, Gertrais-Gaboureau, bebendo e fumando cachimbo.

O capitão Gertrais-Gaboureau cumprimentou o Sr. Clubin entre um gole e uma baforada.

—Good bye, capitão Clubin.

—Boa noite, capitão Gertrais.

—Com que então, lá se foi oTamaulipas.

—Ah! disse Clubin, não reparei.

O capitão Gertrais-Gaboureau cuspio e disse:

—Raspou-se o Zuela.

—Quando?

—Esta noite.

—Onde vai?

—Vai ao diabo.

—Sim; mas onde?

—A Arequipa.

—Não sabia, disse Clubin.

Accrescentou:

—Vou dormir.

Accendeu a vela, caminhou para a porta e voltou.

—Já foi a Arequipa, capitão Gertrais?

—Sim. Ha annos.

—Onde se costuma a arribar?

—Em diversos portos. Mas oTamaulipasnão arribará em parte alguma.

O Sr. Gertrais-Gaboureau deitou na borda de um prato a cinza do cachimbo, e continuou:

—Conhece oCheval-de-Troiee oTrentemousinque foram a Cardiff. Não opinei a favor da partida por causa do tempo. Voltaram em bello estado.Cheval-de-Troielevava therebentina e abrio agua, e fazendo trabalhar as bombas, perdeu no meio da agua todo o carregamento. Quanto aoTrentemousin, ficou bem estragado; quebrou-se-lhe o cepo da ancora, o botalós, ovens; não soffreu o mastro de mesena, mas teve um forte abalo. Cahio o ferro do gurupés que aliás só ficou machucado, mas completamente nú. Veja o que resulta de não ouvir conselhos.

Clubin tinha posto a vela na mesa, e pôz-se a pregar de novo uma porção de alfinetes que tinha na japona. Disse:

—Não dizia, capitão, que oTamaulipasnão arriba em porto algum?

—Não. Vai direito ao Chile.

—Neste caso não pode mandar noticia alguma em caminho.

—Perdão, capitão Clubin. Primeiramente póde entregar despachos a todos os navios que encontrar em caminho para a Europa.

—É justo.

—Depois, tem a caixa de cartas do mar.

—A que chama o Sr. caixa de cartas do mar?

—Não sabe, capitão Clubin?

—Não.

—É quando se passa pelo estreito de Magalhães.

—Que ha então?

—Neva em toda a parte, temporal sempre, ruins ventos, mar de tresentos diabos.

—Depois?

—Quando se dobra o cabo Monmouth.

—Bem. Depois?

—Depois dobra-se o cabo Valentin.

—E depois?

—Depois dobra-so o cabo Izidoro.

—E depois?

—Dobra-se a ponta Anna.

—Bem. Mas o que é que chama caixa das cartas do mar?

—Chegamos á caixa. Montanhas á direita, montanhas á esquerda. De todos os lados aves marinhas. Terrivel sitio! Ah! com um milhão de diabos! que chusma, e que matinada! A borrasca alli não precisa de auxilio. Toca a vigiar a cinta da popa! toca a diminuir as velas! Da vela grande passava ao juanete! Lufada sobre lufada! Quatro, cinco, seis dias de capa. Quantas vezes de um vellame novinho em folha não nos fica senão o fio. Que dansa! furacões capazes de fazer saltar uma galera como se fosse uma pulga. Já vi n'um brigue inglez, oTrue Blue, um grumette occupado com o páo da giba ser levado por um milheiro de ventos, com páo e tudo. Anda-se no ar como borboletas! Vi o contra-mestre daRevenue, ser arrancado do navio e morrer. A cinta do meu navio quebrou-se, e todas as peças de madeira do convez ficaram despedaçadas. A gente sahe dalli com as velas comidas, até fragatas de cincoenta fazem agua como se fossem cestos. E a endiabrada costa! É o que ha de mais damnado. Rochedos retalhados como por criancice. Approxima-se a gente do Porto Fome. Ahi é peor que peor. São as laminas mais agudas que tenho visto. Paragens do inferno. De repente vê-se estas duas palavras escriptas com tinta vermelha:Post-Office.

—Que quer dizer, capitão Gertrais?

—Quero dizer, capitão Clubin, que logo depois de dobrar o cabo Anna vê-se em uma pedra de cem pés de altura um grande páo. É um poste com uma barrica no alto. Essa barrica é a caixa das cartas. Os inglezes escreveram em cima:Post-Office.Porque se metteram elles nisto? Aquillo é o correio do oceano; não pertence a esse honrado gentleman, o rei de Inglaterra. A caixa das cartas é commum. Pertence a todas as bandeiras.Post-Office, ha nada mais chinez! parece uma chicara de chá que o diabo offerece em pleno oceano. Eis como se faz o serviço. Todos os navios que passam expedem ao poste um escaler com os seus despachos. O navio que vem do Atlantico envia cartas para Europa, e o navio que vem do Pacifico manda cartas para a America. O official que commanda o escaler põe na barrica o maço de cartas e tira o maço que lá encontra. Toma-se conta dessas á espera que o proximo navio tome conta das cartas que se deixam. Como se navega em sentido contrario, o continente d'onde o senhor vem é aquelle para onde eu vou. Levo as suas cartas, o senhor leva as minhas. A barrica está presa ao poste por uma corrente de ferro. E chove! E neva! Mar dos diabos! OTamoulipasficará ahi. A barrica tem uma tampa, mas sem fechadura nem cadeado. Bem vê que se póde escrever aos amigos. As cartas chegam ao seu destino.

—É esquisito, murmurou Clubin pensativo.

O capitão Gertrais-Gaboureau voltou-se para a bebida.

—Supponhamos que o bregeiro do Zuela me escreva, mette as suas garatujas na barrica de Magalhães, e dentro de quatro mezes tenho as cartas do patife. Diga-me lá, capitão Clubin, sahe amanhã?

Clubin absorto em uma especie de somnambulismo, não ouvio. O capitão Gertrais repetio a pergunta. Clubin despertou.

—Sem duvida, capitão Gertrais. É o dia marcado. Devo sahir amanhã de manhã.

—Pois olhe, eu não sahia. Capitão Clubin, os cães tem o pello molhado. As aves marinhas andam ha duas noites á roda do pharol. Máo signal. Tenho um storm-glass que faz das suas. Estamos no segundo, quarto da lua; é o maximum da humidade. Vi ha pouco pimpinellas que fechavam as folhas e um campo de trevo cujas hastes estavam retezadas. Os vermes sabem do chão, as moscas mordem, as abelhas não se affastam dos cortiços, os pardaes consultam-se. Ouve-se o som dos sinos de longe. Eu ouvi hoje o sino de Saint-Lunaire dar ave-marias. E ao pôr do sol havia muitas nuvens no horisonte. Amanhã hade haver grande nevoeiro. Não lhe digo que parta. Receio mais o nevoeiro que o furacão. Grande sonso é o nevoeiro.


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