O Diario do Rio de Janeiro obteve do editor Lacroix (de Pariz e Bruxellas), por meio de um contracto celebrado entre esse editor e o correspondente doDiario do Rio, em Pariz, o direito de publicar a tradução portugueza deste romance, nas suas collumnas, começando mesmo antes que o 1° volume apparecesse em Pariz. O romance começou a ter a publicidade noDiario do Riono dia 16 de Março de 1866.
Cerca de cinco leguas, em pleno mar, ao sul de Guernesey, em face da ponta de Plainmont, entre as ilhas da Mancha e Saint-Malo, ha um grupo de cabeços chamados rochedos Douvres. Funesto lugar esse.
Esta denominação, Douvre,Dover, pertence a muitos cachopos e rochedos. Ha especialmente perto das costas do Norte uma rocha Douvre na qual se construe agora mesmo um pharol, escolho perigoso, mas que não deve ser confundido com este.
O ponto de França mais proximo do rochedo Douvres é o cabo Brehant. O rochedo Douvres é um pouco mais longe da costa da França que a primeira ilha do archipelago normando. A distancia deste escolho a Jersey mede-se pouco mais ou menos pela grande diagonal de Jersey. Se a ilha de Jersey se voltasse sobre a Corbière tomo sobre um eixo, a ponta de Santa Catharina iria quasi bater nos Douvres. É uma distancia de quasi quatro leguas.
Nesses mares da civilisação os rochedos mais selvagens são raramente desertos. Encontram-se contrabandistas em Hagot, guardas da alfandega em Binic, cultivadores de ostras em Cancale, caçadores de coelhos em Cesambre, ilha de Cesar, apanhadores de caraguejos em Brecqhou, pescadores de rêde em Minquiers e Ecrehou. Nos rochedos Douvres, ninguem.
As aves marinhas estão alli em sua casa.
Não ha peor encontro. Os Casquets, onde dizem que se perdeu aBlanche Nef, o banco Calvados, as pontas da ilha de Wight, a Ronesse que faz a costa de Beaulieu tão perigosa, os baixios de Preel que torna tão angustiosa a entrada de Merquel e que obriga a deitar a umas vinte braças a balisa vermelha, as proximidades perfidas de Étables e de Plouha, as duas druidas de granito do Sul ds Guernesey, o velho Anderlo e o pequeno Anderlo, a Corbière, os Hanois, a ilha de Ras, recommendada ao medo por este proverbio:—Quando passares o Ras, se não morreres, tremerás;—as Mortes-Femmes, a passagem do Boue e de Frouquie, a Deroute entre Guernesey e Jersey, a Hardent entre os Minquiers e Chausey, o Mauvais-Cheval entre o Boulay-Bay e Berneville, são mal afamados. Vale mais affrontar todos os cachopos do que o Douvres uma só vez.
Em todo o perigoso mar da Mancha que é o mar Egeo do occidente, o rochedo Douvres só tem um rochedo igual no terror que inspira, é o escolho Pater Noster, entre Guernesey e Serk.
E ainda no Pater Noster póde-se fazer um signal: quem está ali em perigo póde ser soccorrido. Vê-se ao Norte a ponta Dicard ou de Icaro, ao Sul, o Gros-Nez. Do rochedo Douvres não se vê nada.
O vento, a agua, a nuvem, o illimitado, o inhabitado. Só se passa ali perdido. Os granitos são de uma estatura brutal e hedionda. Avultam as rochas escarpadas. Severa inhospitalidade do abysmo.
É mar alto. A agua é profunda. Um escolho absolutamente isolado, como o rochedo Douvres, attrahe e abriga os animaes que precisam affastar-se dos homens. É uma especie de vasta madrepora submarinha. É um labyrintho afogado. Ha alli, em profundezas que difficilmente alcançam os mergulhadores, antros, cavas, cavernas, cruzamentos de ruas tenebrosas. Pollulam as especies monstruosas. Devoram-se umas ás outras. Os carangueijos comem os peixes, e são devorados tambem. Formas medonhas, feitas para não serem vistas por olhos humanos, andam vivas naquella obscuridade. Vagos lineamentos de guellas, antennas, tentaculos, barbatanas, bocas abertas, escamas, garras, unhas, fluctuam, tremem, engrossam, decompõe-se, e desfazem-se na transparencia sinistra. Tremendos nadadores andam alli na labutação. É uma colmêa de hydras.
Alli o horrivel é ideal.
Imagina, se podes, um formigueiro de holothurias.
Vêr o interior do mar, é vêr a imaginação do Ignoto. É vêl-a do lado terrivel. O golphão é analogo á noite. Tambem ahi ha somno, somno apparente ao menos, da consciencia da creação. Commettem-se alli em plena segurança os crimes da irresponsabilidade. Os esboços da vida, phantasmas quasi, completos demonios, vagam alli, em medonha paz, nas sombrias occupações da sombra.
Ha quarenta annos, duas rochas de forma extraordinaria assignalavam de longe o escolho Douvres aos viandantes do oceano. Eram duas pontas verticaes e recurvadas, tocando-se quasi no cume. Parecia vêr-se irrompendo do mar dous dentes de um elephante engulido. Mas eram dentes do tamanho de torres que só poderiam pertencer a elephantes do tamanho de uma montanha. Essas duas torres naturaes da obscura cidade dos monstros não deixavam entre si mais que uma passagem estreita onde a vaga se atirava. Essa passagem, tortuosa e de alguns covados de comprimento, parecia ura pedaço de rua entre duas paredes. A essas duas rochas gemeas chamava-se as duas Douvres. Havia a grande Douvre e a pequena Douvre, uma tinha sessenta pés de altura, a outra quarenta. O vai-vem das ondas fez na base dessas torres um aspecto de serra, e o violento furacão do equinocio de 26 de Outubro de 1859, derrubou uma dellas. A que ficou, a pequena, está mutilada e gasta.
Um dos mais estranhos rochedos do grupo Douvres chama-se o Homem. Esse ainda existe. No seculo passado alguns pescadores, perdidos naquelles cachopos, acharam um cadaver. Ao pé do cadaver havia uma porção de conchas vazias. Tinha naufragado alli um homem, refugiou-se naquelles rochedos, alimentou-se algum tempo de conchas, até que morreu. Veio dahi chamar-se Homem ao rochedo.
São singulares as solidões da agua. É o tumulto e o silencio. O que ahi se faz já nada tem com o genero humano. É a utilidade desconhecida. Tal é o isolamento do rochedo Douvres. Em derredor, a perder de vista, o immenso tormento das vagas.
Na sexta-feira de manhã, um dia depois da partida doTamaulipas, a Durande partio para Guernesey.
Deixou Saint-Malo ás 9 horas.
Claro estava o tempo, não havia nevoeiro; parece que o velho capitão Gertrais-Gaboureau tinha delirado.
As preocupações do Sr. Clubin fez com que embarcasse pouco carregamento. Apenas metteu a bordo alguns fardos de Paris para as lojas de Saint-Pierre Port, tres caixas para o hospital de Guernesey, uma de sabão amarello, outra de velas e a terceira de couro de sola e cordavão fino. Levava tambem, da precedente viagem, uma caixa de assucar Arushed e tres caixas de chá conjou, que a alfandega franceza não quiz receber. O Sr. Clubin embarcou pouco gado; alguns bois apenas. Os bois foram postos no porão e bem mal arranjados.
Haviam a bordo seis passageiros: um guernesiano, dous maloenses vendedores de animaes, umtourista, como já se dizia nesse tempo, um parisiense meio burguez, provavelmente tourista do commercio, e um americano distribuidor de Biblias.
A Durande, sem contar Clubin, tinha sete homens de tripolação; um timoneiro, um carvoeiro, um marinheiro carpinteiro, um cozinheiro, manobrista quando era preciso, dous trabalhadores da machina e um grumete. Um dos penultimos era tambem mecanico. Era um valente e intelligente negro hollandez, evadido das fabricas de assucar de Surinam; chama-se Imbrancam. O negro Imbrancam comprehendia e servia admiravelmente a machina. Nos primeiros tempos, contribuio elle não pouco, quando apparecia na fornalha, para dar um ar diabolico á Durande.
O timoneiro, jerseyano de nascimento, originario da costa, chamava-se Tangrouille. Tangrouille era de alta nobreza.
É verdade isto. As ilhas da Mancha são, como a Inglaterra, paizes hierarchicos. Ainda existem castas nessas ilhas. As castas tem as suas idéas, que são os seus dentes. Essas idéas são as mesmas em toda a parte, na India, como na Allemanha. A nobreza conquista-se pela espada e perde-se pelo trabalho. Conserva-se pela ociosidade. Não fazer cousa alguma, é viver fidalgamente; quem não trabalha é reverenciado. Officio faz decahir. Na França de outr'ora só se exceptuavam os operarios de vidro. Sendo gloria para os fidalgos esvasiar garrafas, fazel-as não era deshonra alguma.
Nas ilhas da Mancha, assim como na Grã-Bretanha, quem quizer ser nobre deve conservar-se opulento. Um workman não pode ser gentleman. Inda que o tenha sido, já não o é mais. Tal marujo descende do cavalheiros e é apenas marujo. Ha trinta annos, em Aurigny, um Gorges authentico que, ao que parece tinha direitos á senhoria de Gorges confiscada por Philippe Augusto, apanhava sargaço com os pés nús. Ha em Serk um Carteret que é carreiro. Existe em Jersey um mercador de pannos, e em Guernesey um sapateiro, que tem o nome de Gruchy, que se declaram Grouchy e primos do marechal de Waterloo. Os antigos registros do bispado de Contances, mencionam uma senhoria de Tangroville, parenta evidente de Tancarville no Baixo-Sena, que é Montmorency. No decimo quinto seculo Johan de Heroudeville, bésteiro e afim do Sr. de Tangroville, levava sempre comsigo justilhos e arnezes. Em Maio de 1371, em Tontorson, o Sr. Tangroville fez o seu dever como cavalheiro. Nas ilhas normandas quem cabe em pobreza é logo eliminado da fidalguia. Basta uma mudança de nome. DeTangrovillefaz Taugouille, e tudo se arranja.
Foi o que aconteceu ao timoueiro da Durande.
Ha em Saint-Pierre Port, no Bordage, um mercador de ferros velhos chamado Ingrouille, que é provavelmente Ingroville. No reinado de Luiz o Gordo, os Ingroville possuiam tres parochias em Valognes. Fez um padre Trigan aHistoria ecclesiastica da Normandia.Este chronisla Trigan era cura de Digoville. O Sr. de Digoville, se cahisse no populacho, chamar-se-haDigouille.
Tangrouille, Tancarville provavel e Montmorency possivel, tinha esta antiga qualidade de fidalgo, defeito grave n'um timoneiro; embriagava-se.
O Sr. Clubin teimava em conserval-o. Respondia por elle a mess Lethierry.
O timoneiro Tangrouille não sahia nunca do navio e dormia a bordo.
Na vespera da partida, quando o Sr. Clubin foi, já a horas mortas, visitar o navio, Tangrouille estava na sua maca e dormia. Acordou de noite. Era-lhe isso costume antigo. Quando o bebado não é senhor de si tem um esconderijo. Tangrouille tinha o seu, a que chamava dispensa. A dispensa secreta de Tangrouille era no porão onde se guardava a agua. Pol-a ahi para tornal-a inverosimil. Estava certo de que só elle conhecia aquelle esconderijo. O capitão Clubin era severo, porque era sobrio. O pouco rhum e gin que o timoneiro podia subtrahir á vigilancia do capitão, punha de reserva naquelle mysterioso cantinho, no fundo de uma celha de sonda, e quasi todas as noites tinha entrevista amorosa com aquella dispensa. Era rigorosa, a vigilancia, pobre devia ser a orgia, e de ordinario os excessos nocturnos de Tangrouille limitavam-se a dous ou tres goles furtivamente bebidos. Muitas vezes a dispensa estava vasia. Nessa noite Tangrouille achou lá uma garrafa de aguardente inesperada. Alegrou-se muito, e espantou-se ainda mais. De que céos lhe cahio aquella garrafa? Não pôde lembrar-se nem quando nem como levou-a para o navio. Bebeu-a immediatamente. Em parte fêl-o por prudencia: tinha medo que a aguardente fosse descoberta e confiscada. Atirou a garrafa ao mar. No dia seguinte quando tomou a cana do leme Tangrouille tinha certa oscillação.
Todavia governou o barco quasi como nos outros dias.
Quanto a Clubin, sabe-se que voltou a dormir na pousada João.
Clubin trazia sempre debaixo da camisa um cinto de couro, de viagem, onde guardava uns vinte guinéos, e que só tirava á noite. No interior do cinto estava escripto o nome delle, escripto por elle mesmo no couro bruto com tinta lithographica, que é indelevel.
Ao levantar, antes de partir, poz no cinto a caixinha de ferro contendo os setenta e cinco mil francos em notas do banco, depois atou o cinto, como costumava, á roda do corpo.
Foi alegre a partida. Os passageiros, apenas arranjadas as malas por baixo e em cima dos bancos, passaram, ao navio, essa revista que nunca falta, e que parece obrigatoria, tal é o costume. Dous passageiros, o tourista e o parisiense, nunca tinham visto vapores, e desde os primeiros movimentos da roda, contemplaram a espuma, depois o fumo. Examinaram peça por peça, e quasi fio por fio, na coberta e entreponte, todos os apparelhos maritimos, argolas, ganchos, fateixas, cylindros, que á força de precisão e justeza são uma especie de colossal ourivesaria; ourivesaria de ferro dourada com ferrugem pela tempestade. Circularam o pequeno canhão de rebate atado na coberta, «com uma corrente de cão de sentinella,» observou o tourista, e «coberto com blusa de linho alcatroado para impedir as constipações» accrescentou o parisiense. Affastando-se de terra, trocaram-se as observações do costume acerca da perspectiva de Saint-Malo; um passageiro emittio o axioma de que as perspectivas do mar illudem, e que, a uma legua da costa, nada se parece mais com Ostende como Dunkerque. Completou-se o que havia a dizer de Dunkerque, observando-se que os seus navios de vigia, pintados de vermelho, chamam-se,—umRuyttnguee o outroMardyck.
Saint-Malo foi diminuindo até que desvaneceu-se de todo.
O aspecto do mar era o vasto calmo. O rasto do navio fazia no oceano uma rua franjada de espuma que se prolongava quasi sem torsão a perder de vista.
Guernesey está no centro de uma linha recta tirada de Saint-Malo em França, e Exeter em Inglaterra. A linha recta no mar nem sempre é a linha logica. Entretanto os vapores tem, até certo ponto, o poder de seguir a linha recta que não podem seguir os navios de vela.
O mar e o vento formam um composto de forças. O navio é um composto de machinas. As forças são machinas infinitas, as machinas são forças limitadas. Entre os dous organismos, um inexgotavel, outro intelligente, trava-se o combate que se chama navegação.
Uma vontade no mecanismo faz contrapeso ao infinito. Tambem o infinito encerra um mecanismo. Os elementos sabem o que fazem e para onde vão. Não ha força cega. Cabe ao homem espreitar as forças e descobrir-lhes o itinerario.
Emquanto se não descobre a lei, prosegue a luta, e nessa luta a navegação a vapor é uma especie de victoria perpetua que o genio humano vai ganhando a todas as horas do dia em todos os pontos do mar. A navegação a vapor é admiravel porque disciplina o navio. Diminue a obdiencia ao vento e augmenta a obdiencia ao homem.
Nunca a Durande trabalhou no mar como naquelle dia. Andava maravilhosamente.
Pelas 11 horas, soprando uma fresca brisa de nor-nordeste, achou-se a Durande do lado de Minquiers, trabalhando com pouco vapor, navegando a oeste e conchegada ao vento. Claro e bello estava o céo. Todavia iam voltando para terra todos os pescadores.
A pouco e pouco, como se todos pensassem em ancorar nos portos, ia-se o mar limpando de navios.
Não se podia dizer que a Durande estivesse no caminho do costume. A tripulação não se preoccupava com isso, era absoluta a confiança no capitão; entretanto, talvez por culpa do timoneiro, havia algum desvio. A Durande parecia antes ir para Jersey que para Guernesey. Pouco depois das onze horas, o capitão rectificou a direcção e aproou para o lado de Guernesey. Perdeu-se algum tempo. Nos dias curtos o tempo perdido tem inconvenientes. Fazia um bello sol de Fevereiro.
Tangrouille, no estado em que estava, já não tinha nem pés nem braços firmes. Resultava dahi que o bravo timoneiro desviava-se da costa e atrazava a marcha.
O vento ia amainando.
O passageiro guernesiano, que tinha um oculo na mão, firmava-o de tempos a tempos para um froco de espuma coada pelo vento no extremo horisonte de oeste, assemelhando-se a um pouco de algodão, empoeirado em roda.
O capitão Clubin tinha o aspecto puritano do costume. Parecia redobrar de attenção.
Tudo estava calmo e quasi risonho a bordo da Durande; os passageiros conversavam.
Fechando os olhos, no meio de uma viagem, pode-se avaliar do estado do mar pelo tremolo da conversa. A plena liberdade de espirito dos passageiros corresponde á perfeita tranquillidade da agua.
É impossivel, por exemplo, que houvesse uma conversa, como esta que se segue, em mar que não fosse calmo.
—Veja aquella bonita mosca verde e encarnada.
—Perdeu-se no mar e descança no navio.
—As moscas não se cançam muito.
—Pudera! são tão leves. Carrega-as o proprio vento.
—Já se pezou uma onça de moscas, e contadas depois vio-se que eram seis mil duzentas e sessenta e oito.
O guernesiano do oculo tinha-se chegado aos maloenses mercadores de gado, e a conversa delles era pouco mais ou menos esta:
—O boi de Aubrac tom o tronco redondo e bojudo, as pernas curtas, o pello amarello. É demorado no trabalho por causa da pequenez das pernas.
—Neste ponto, o Salers vale mais que o Aubrac.
—Vi dous magnificos bois em minha vida. O primeiro tinha as pernas curtas, o joelho espesso, alcatra grossa, as nadegas largas, bom comprimento da nuca á garupa, boa altura no garrote, manejo facil, pelle boa de arrancar-se. O segundo apresentava todos os signaes da um engordamento judicioso, tronco reforçado, pescoço robusto, pernas leves, pelle branca e vermelha, alcatra cahida.
—Isso é raça da costa.
—Sim, mas com certa semelhança com o touro angus ou o touro suffolk.
—Acredite se quer, no meio-dia ha concurso de bestas.
—De bestas?
—De bestas. Como tenho a honra de lhe dizer. E as feias é que são bonitas.
—Então são como as jumentas. As feias é que são boas.
—Justamente. A jumenta deve ter barriga grossa e pernas grossas.
—A melhor jumenta deste mundo é uma barrica sobre quatro estacas.
—A belleza dos animaes não é como a belleza dos homens.
—É sobretudo das mulheres.
—Justo.
—Eu cá quero que a mulher seja bonita.
—Prefiro-a bem trajada.
—Sim, limpa, asseiada, esticadinha.
—Ares de mocidade. Uma rapariga deve parecer que sahe do joalheiro.
—Volto aos bois. Vi vender os taes bois no mercado de Thouars.
—Conheço o mercado. Os Boniau de la Rochelle, e os Babu, os mercadores de trigo de Marans, não sei se ouvio fallar delles, devem ter ido a esse mercado.
O tourista e o parisiense conversavam com o americano das Biblias; a conversação ahi era como nos outros grupos.
Dizia o tourista:
—Eis a tonellagem fluctuante do mundo civilisado; França, sete centas e dezeseis mil tonelladas; Allemanha, um milhão; Estados-Unidos, cinco milhões; Inglaterra, cinco milhões e quinhentos mil. Acrescente-se o contingente das pequenas bandeiras. Total; doze milhões nove centos e quatro mil tonelladas distribuidas por cento e quarenta e cinco mil navios na agua do globo.
O americano interrompeu.
—Os Estados-Unidos é que tem cinco milhões e quinhentos mil.
—Convenho, disse o tourista. O senhor é americano?
—Sim, senhor.
Houve um silencio; o americano missionario perguntou a si mesmo se era occasião de offerecer uma Biblia.
—Será verdade, continuou o tourista, que os senhores lá na America gostam tanto das alcunhas, a ponto de as pôr em todos os seus homens celebres? Será verdade que chamaram ao famoso banqueiro do Missouri, Thomaz Benton,a velha barra de ouro?
—Do mesmo modo que chamamos ao Zacharias Taylor,o velho Zach?
—E o general Harrison,o velho Tip?e o general Jacksono velho Hickory?
—Sim, porque Jackson é duro como pão hickory, e Harrison bateu os Pelles Vermelhas em Tippecauve.
—É um costume bysantino esse.
—É costume nosso. Chamamos Van Buren ofeiticeirinho, Seward, que mandou fazer bilhetes miudos do banco,o bilhete miudo, e Douglas, o senador democrata do Illinois, que tem quatro pés de altura e uma grande eloquencia, ogigantinho.Percorra do Texas ao Maine, não encontrará ninguem que diga este nome: Cass; todos dizem:o grande Michigantier; nem este nome: Clay; dizem todos: orapaz do moinho acutilado.Clay é filho de um moleiro.
—Eu prefiro, Clay ou Cass, observou o parisiense, é mais curto.
—Pois estaria fóra do uso. Nós chamamos Corwin, que é secretario do thesouroo rapaz da carreta.Daniel Webster é onegro Dan.Quanto a Winfield Scott, como a sua primeira idéa, depois de bater os inglezes em Chippeway, foi assentar-se á mesa, chamamo-loDa-cá-um-prato-de-sopa-depressa.
Tinha-se agigantado o froco de neve. Occupava no horisonte um segmento de cerca de 15 gráos. Dissera-se uma nuvem arrastada á flôr d'agua por falta de vento. Não havia um sopro de brisa se quer. Embora fosse apenas meio dia, o sol ia empallidecendo. Allumiava, mas já não aquecia.
—Creio, disse o tourista, que o tempo vai mudar.
—Talvez haja chuva, disse o parisiense.
—Ou nevoeiro, disse o americano.
—Na Italia, continuou o tourista, o lugar em que cahe menos chuva é Molfetta, e onde cahe mais é em Tolmezzo.
Ao meio-dia, segundo o uso do archipelago, tocou a sineta para jantar. Jantou quem quiz. Alguns passageiros levavam comida comsigo e comeram no convez. Clubin não jantou.
Ao jantar, a palestra continuou.
O guernesiano, tendo o faro das Biblias, approximou-se do americano. O americano disse-lhe:
—Conhece este mar?
—Sem duvida, sou filho delle.
—E tambem eu, disse um dos maloenses.
O guernesiano adherio com um comprimento, e continuou:
—Agora estamos ao largo, mas não me agradava nada ter nevoeiro emquanto estavamos ao pé dos Minquiers.
O americano disse ao maloense.
—Os insulares são mais homens do mar que a gente da costa.
—É exacto, nós os filhos da costa, temos apenas metade do mar.
—Que cousa é essa dos Minquiers? continuou o americano.
O maloense respondeu:
—São umas pedras ruins.
—Ha tambem os Grelets, disse o guernesiano.
—Ora! disse o maloense.
—E os Chouas, accrescentou o guernesiano.
O maloense deu uma gargalhada.
—Dessa fórma, disse elle, temos tambem os Sauvages.
—E os Maine, observou o guernesiano.
—E o Canard, disse o maloense.
—O senhor tem resposta para tudo, disse o guernisiano com rapidez.
—Maloense, malicioso.
Dando esta resposta, o maloense piscou o olho.
O tourista interpoz uma pergunta.
—Dar-se-ha caso que vamos atravessar toda essa pedraria de que os senhores fallam?
—Qual! Deixamol-a a sudoeste. Já ficou atraz de nós.
E o guernesiano continuou:
—Entre grandes e pequenos, os Grelets têm cincoenta e sete pontas de rocha.
—E os Minquiers quarenta e oito, disse o maloense.
Aqui o dialogo concentrou-se entre o maloense e o guernesiano.
—Parece-me, Sr. de Saint-Malo, que ha tres rochedos que o Sr. deixou de contar.
—Contei tudo.
—A Derée da Maitre-Ile?
—Sim.
—E Maisons tambem?
—Que são sete rochas no meio dos Minquiers. Sim.
—Já vejo que conhece os cachopos.
—Quem não os conhece não é de Saint-Malo.
—Causa gosto ouvir o raciocinio dos francezes.
O maloense comprimentou, e disse:
—Sauvages são tres rochedos.
—E Maines são dous.
—Canard é um.
—Basta dizer Canard; já se sabe que é um.
—Não, por que a Suarde são quatro rochedos.
—Que é a Suarde? perguntou o guernesiano.
—Chamamos Suarde ao que o senhor chama Chouas.
—Não é bom passar entre Chouas e Canard.
—Só os passaros podem passar ahi.
—E os peixes.
—Nem sempre. Quando ha máo tempo, os peixes esbarram-se nas rochas.
—Ha arêa em Minquiers.
—Á roda de Maisons.
—Veem-se oito rochedos de Jersey.
—Da praia de Asette, é justo. Náo são oito, são sete.
—Nas vasantes póde-se passear entre os Minquiers.
—Sem duvida, ha espaço.
—E Dirouilles?
—Dirouilles não tem nada com Minquiers.
—Quero dizer que é perigoso.
—É do lado de Granville.
—Vê-se que, como nós, os senhores de Saint-Malo gostam de navegar nestes mares.
—Sim, disse o maloense, com a differença de que nós dizemos: estamos acostumados, e os senhores dizem: gostamos.
—São bons marinheiros os senhores.
—Eu sou mercador de gado.
—Quem é que foi tambem de Saint-Malo?
—Surcouf.
—Não, outro.
—Duguay-Trouin.
Aqui o viajante parisiense interrompeu.
—Duguay-Trouin? foi apanhado pelos inglezes. Era tão amavel quão valente. Agradou a uma joven ingleza. Foi ella quem lhe quebrou os ferros.
Neste momento uma voz tremenda gritou:
—Estás bebado!
Voltaram-se todos.
Era o capitão Clubin que interpellava o timoneiro.
O Sr. Clubin não tratava ninguem por tú. Para que elle atirasse a Tangrouille semelhante apostrophe, era preciso que estivesse colerico ou quizesse mostrar-se assim.
Uma expressão de colera, vindo a proposito, demitte a responsabilidade, e algumas vezes deita-a para as costas de outrem.
O capitão, de pé no lugar do commando, entre as caixas, das rodas, olhava fixamente para o timoneiro. Repetio entre dentes: Beberrão! O honesto Tangrouille abaixou a cabeça.
Desenvolvia-se o nevoeiro. Já occupava metade do horisonte. Avançava em todos os sentidos ao mesmo tempo; o nevoeiro parece-se com a gota de óleo. A bruma alargava-se insensivelmente. O vento soprava-a sem pressa e sem rumor. A pouco e pouco ia elle apoderando-se do oceano. Vinha de nordeste e o navio estava com ella pela prôa. Era um vasto penedio movediço e vago. Cortava-se no mar como se fosse uma muralha. Havia um ponto preciso em que a agua immensa entrava por baixo do nevoeiro e desapparecia.
Este ponto de entrada no nevoeiro estava ainda a meia legua de distancia. Se o vento mudasse, podia-se evitar a immersão na bruma; mas era preciso que mudasse logo. A meia legua de intervallo enchia-se e diminuia a olhos vistos; a Durande caminhava, o nevoeiro tambem. O nevoeiro ia para o navio, o navio para o nevoeiro.
Clubin mandou augmentar o vapor e obliquar a leste.
Deste modo costeou-se algum tempo o nevoeiro, mas elle avançava sempre. Todavia o navio continuava a andar em pleno sol.
Perdia-se o tempo naquellas manobras que difficilmente podiam dar bom resultado. Anoitece cedo em Fevereiro.
O guernesiano comtemplava a bruma. Disse aos maloenses:
—É atrevido este nevoeiro.
—Desaceio do mar, observou um dos maloenses.
O outro accrescentou:
—Isto atraza a viagem.
O guernesiano aproximou-se de Clubin.
—Capitão Clubin, receio que sejamos envolvidos pelo nevoeiro.
Clubin respondeu:
—Eu queria ficar em Saint-Malo, mas aconselharam-me que partisse.
—Quem?
—Veteranos do mar.
—Fez bem em partir, continuou o guernesiano. Quem sabe senão haverá tempestade amanhã? Nesta estação espera-se o peior.
Alguns minutos depois a Durande entrava no nevoeiro.
Foi singular esse momento. Toda a gente que estava na pôpa ficou de repente sem ver a gente que ia na prôa. Tenue tabique cinzento cortou o navio ao meio.
Depois todo o navio mergulhou na bruma. O sol parecia uma lua. Subito todos começaram a tiritar. Os passageiros vestiram as capas, e os marinheiros as japonas. O mar, quasi sem uma dobra, tinha a fria ameaça da tranquillidade. Parece que ha conluio neste excesso da calma. Tudo estava pallido e enfiado. O negro cano e a fumaça negra lutavam contra a lividez que cercava o navio.
A derivação a leste já não tinha razão de ser. O capitão aproou de novo sobre Guernesey e augmentou o vapor.
O passageiro guernesiano, andando á roda da machina, ouvio o negro Imbrancam que fallava a um dos companheiros. O passageiro prestou ouvidos. Dizia o negro:
—Quando havia sol iamos devagar; agora que ha nevoeiro, vamos depressa.
O guernesiano foi ter com o Sr. Clubin.
—Capitão Clubin, não ha cuidado; mas não acha que vamos depressa demais?
—Que quer senhor? É preciso ganhar o tempo perdido por culpa daquelle bebado.
—É verdade, capitão Clubin.
E Clubin accrescentou.
—Quero chegar quanto antes. Já basta o nevoeiro; com a noite ficariamos aceiados.
O guernesiano foi ter com os maloenses e disse-lhes:
—Temos um excellente capitão.
De quando em quando ondas grandes de bruma, que pareciam cardadas, passavam e escondiam o sol. Depois o sol reapparecia mais pallido, e como que enfermo. O pouco céo que se via assemelhava-se ás fachas de ar sujas e manchadas de uma velha decoração de theatro.
A Durande passou junto de um cuter que tinha ancorado por prudencia. Era oShealtiel, de Guernesey. O patrão do cuter notou a rapidez com que ia a Durande. Pareceu-lhe que não estava no caminho exacto; affigurou-se-lhe que obliquava a oeste. Vendo aquelle navio, andando a todo o vapor no meio do novoeiro, o homem pasmou.
Pelas duas horas a bruma era tão espessa, que o capitão foi obrigado a deixar o lugar do costume, e a aproximar-se do timoneiro. O sol desmaiára; tudo era nevoeiro. Havia na Durande uma especie de escuridão branca. Navegava-se na pallidez diffusa. Já se não via nem o céo nem o mar.
Não ventava.
A ancoreta da therebentina suspensa em uma argola ao pé da caixa das rodas já não tinha oscillação.
Os passageiros tornaram-se silenciosos.
Comtudo o parisiense cantarolava entre dentes a canção de BérangerUn jour le bon Dieu s'éveillant.
Um dos maloenses dirigio-lhe a palavra.
—O senhor vem de Paris?
—Sim senhor.II mit la tête à la fenêtre.
—Que se faz por lá?
—Leur planète a péri peut-être.Lá em Paris tudo anda mal.
—Então é tanto lá em terra como aqui no mar.
—Realmente, este nevoeiro é o diabo.
—E póde causar desgraças.
O parisiense exclamou:
—Mas, porque desgraças! a proposito de que? de que servem desgraças? É o caso do incendio do Odeon! Ficou uma porção de familias reduzidas á miseria! É justo isto? Olhe cá, eu não sei qual é a sua religião, mas digo-lhe que não estou contente.
—Nem eu, disse o maloense.
—Tudo o que se passa neste mundo, continuou o parisiense, parece um desconcerto. Creio que Deos não entra nisto.
O maloense coçou o alto da cabeça, como quem procura comprehender. O parisiense continuou.
—Deos está ausente. Devia-se lavrar um decreto para obriga-lo a residir aqui. Anda lá na sua casa de campo e não se importa comnosco. E tudo vai torto e mal encaminhado. É evidente, meu bom senhor, que Deos já não está no governo, está em ferias, e é o vigario, algum anjo seminarista, algum bocio com azas de pardal, quem dirige os negocios.
O capitão Clubin, que se aproximara, pôz a mão no hombro do parisiense.
—Silencio, disse elle. Cuidado nas palavras. Estamos no mar.
Ninguem mais fallou.
No fim de cinco minutos, o guernesiano, que tudo ouvira, murmurou aos ouvintes.
—É um capitão religioso.
Não chovia e todos estavam molhados. Só se reparava no caminho que o navio descrevia por uma especie de máo-estar. Parecia que se entrava na tristeza. O nevoeiro emmudece o oceano, adormenta a vaga e supita o vento. Naquelle silencio, o rumor da Durande tinha um não sei que de inquieto e lamentoso.
Já se não encontravem navios. Só ao longe, quer do lado de Guernesey, quer do lado de Saint-Malo, alguns navios estavam no mar, fóra do nevoeiro; para esses a Durande, submergida na bruma, não era visivel, e a sua longa fumaça, presa a cousa nenhuma, parecia-lhes um cometa negro no céo branco.
De repente Clubin exclamou:
—Com seiscentos! estás dirigindo mal. Olha que me avarias o barco! Mereces bem que te ponha a ferros. Vai-te, bebado!
E tomou a canna do leme.
O timoneiro humilhado refugiou-se na cordoalha da prôa.
Disse o guernesiano:
—Estamos salvos.
A marcha continuou rapida.
Pelas tres horas, a orla inferior do nevoeiro começou a levantar-se e vio-se o mar.
—Máo! disse o guernesiano.
Só o sol ou o vento deve levantar a bruma. Quando é o sol é bom signal; quando é o vento, não é tão bom signal. Era tarde já para ser o sol. Ás tres horas, em Fevereiro, o sol está fraco. Não era cousa desejavel a volta do vento naquella situação critica. Muitas vezes annuncia o furacão.
Verdade seja, que, se havia brisa, mal se sentia.
Clubin, com o olhar na bitacula, governando o leme, mastigava algumas palavras que chegavam aos passageiros; era isto mais ou menos:
—Não ha tempo a perder. Aquelle bebado demorou a viagem.
O seu rosto, porém, não tinha expressão alguma.
O mar estava menos adormecido. Já se enxergavam algumas vagas. Luzes geladas fluctuavam na agua. Essas placas de clarão nas ondas preocupam os marinheiros. Indicam que o vento faz buracos por cima do nevoeiro. A bruma levantava-se e tornava a cahir mais densa. As vezes a opacidade era completa. O navio estava numa verdadeira montanha de nevoeiro. De quando em quando aquelle circulo tremendo abria-se como uma tenaz, deixava ver o horisonte, e fechava-se depois.
O guernesiano, armado de um oculo, estava como uma vedeta, na frente do navio.
Clareou, depois escureceu outra vez.
O guernesiano voltou-se assustado:
—Capitão Clubin!
—Que é?
—Vamos direito aos cachopos de Hanois.
—É engano, disse Clubin friamente.
O guernesiano insistio:
—Estou certo.
—Impossivel.
—Vi uma pedra no horisonte.
—Onde?
—Alli?
—É ao largo. Impossivel.
E Clubin continuou a pôr o navio no ponto indicado pelo passageiro.
O guernesiano travou do oculo.
Minutos depois correu para o capitão.
—Capitão!
—Que é?
—Vire de bordo.
—Por que?
—Vi uma rocha muito alta e muito perto. É o grande Hanois.
—Ha de ser algum nevoeiro mais escuro.
—É o grande Hanois. Vire de bordo, em nome do céo!
Clubin deu uma volta á canna do leme.
Ouvio-se um estalo. O rasgamento do flanco de um navio, em um cachopo, em mar alto, é um dos sons mais lugubres que se póde imaginar. A Durande parou.
Com o choque muitos passageiros cahiram e rolaram no tombadilho.
O guernesiano levantou as mãos para o céo.
—Nos Hanois! eu bem dizia!
Longo grito soou no navio.
—Estamos perdidos.
A voz de Clubin, secca e breve, dominou o grito.
—Ninguem está perdido! E silencio!
O corpo negro de Imbrancam, nú até a cintura, sahio do espaço da machina.
O negro disse com calma:
—Capitão, a agua está entrando. A machina vai apagar-se.
Terrivel foi o momento.
O choque assemelhava-se a um suicidio. Se fosse de proposito não seria mais terrivel. A Durande atirou-se como se atacasse o rochedo. Uma pontada rocha penetrou no navio como um prego. Mais de uma toesa quadrada de vergas rebentou, rompeu-se a roda de prôa, fracassou a quilha, partio-se o gurupés, o casco aberto bebia agua aos borbotões. Era uma chaga por onde entrava o naufragio. A reacção foi tão violenta que quebrou na pôpa a caixa do leme que ficou solto e oscillante. O cachopo arrancara o fundo, e á roda do navio, não se via nada, além do nevoeiro espesso e compacto e agora quasi negro. Chegava a noite.
A Durande mergulhava pela prôa. Era o cavallo que tem nas entranhas a ponta do touro. Estava morta.
Sentia-se no mar a hora da maré.
Tangrouille estava desperto da embriaguez; ninguem fica bebado em um naufragio; desceu abaixo, subio e disse:
—Capitão, a agua enche o porão. Dentro de dez minutos está nos embornaes.
Os passageiros corriam no tombadilho fóra de si, torcendo os braços, inclinando-se na amurada, olhando para a machina, fazendo todos os movimentos inuteis do terror. O tourista desmaiou.
Clubin fez um signal com a mão, calaram-se todos. Interrogou Imbrancam:
—Quanto tempo pode a machina trabalhar ainda?
—Cinco ou seis minutos.
Depois interrogou o passageiro guernesiano:
—Eu estava ao leme. O senhor observou o rochedo. Em qual dos Hanois estamos nós?
—Na Mauve. Reconheci ainda agora, com um pouco de claridade.
—Sendo a Mauve, continuou Clubin, temos o grande Hanois a bombordo e o pequeno Hanois a estibordo. Estamos a uma milha de terra.
A equipagem e os passageiros escutavam, tremulos de anciedade e de attenção, com os olhos fixos no capitão.
Allijar o navio era inutil, e demais, impossivel. Para pôr a carga ao mar, era preciso abrir as portinholas e augmentar as probabilidades de entrar agua. Atirar a ancora era inutil; estavam pregados. Demais podia ficar presa. Não estava avariada a machina, e continuando á disposição do navio emquanto o fogo não estava apagado, isto é, por alguns minutos, podia-se á força de rodas e de vapor, recuar e arrancar o navio do escolho. Nesse caso iria ao fundo immediatamente. O rochedo até certo ponto tapava o rombo e tolhia a passagem da agua. Servia de obstaculo. Desobstruida a abertura, seria impossivel impedir a entrada da agua. Quem retira o punhal de uma ferida no coração, mata logo o ferido. Sahir do cachopo era ir ao fundo.
Os bois, atacados pela agua, começavam a mugir.
Clubin ordenou.
—A chalupa ao mar.
Imbrancam e Tangrouille precipitaram-se e desataram as amarras. O resto da tripulação olhava petrificado.
—Todos á obra, gritou Clubin.
Desta vez obdeceram todos.
Clubiu, impassivel, continuou a dar ordens, naquella velha lingua do mar, que os marinheiros de hoje não comprehenderiam.
A chalupa estava no mar.
No mesmo instante, as rodas da Durande pararam, cessou o fumo, a fornalha estava cheia de agua.
Os passageiros, resvalando ao longo da escada ou pendurando-se nas enxarcias, deixavam-se antes cahir que descer na chalupa. Imbrancam apanhou o tourista desmaiado, levou-o para a chalupa, depois subio ao navio.
Os marinheiros atiravam-se apoz os passageiros. O grumete rolou; elles pisavam o rapaz.
—Ninguem antes do moço, disse elle.
Afastou com os braços negros os marinheiros, apanhou o grumete, e estendeu-o ao passageiro guernesiano, que, de pé na chalupa, recebeu o rapaz.
O grumete salvo, Imbrancam deu caminho e disse:
—Passem.
Entretanto, o Sr. Clubin, foi ao seu camarote e fez um embrulho dos papeis de bordo e dos instrumentos. Tirou a bussola da bitacula. Entregou os papeis e os instrumentos a Imbrancam e a bussola a Tangrouille, e disse-lhes:
—Desçam á chalupa.
Elles desceram. A tripulação tinha-os precedido. A chalupa estava cheia. Estava quasi rasa.
—Agora, disse Clubin, vão embora.
—E o senhor, capitão?
—Fico.
As pessoas que naufragam tem pouco tempo de deliberar e ainda menos de internecer-se. Entretanto os que estavam na chalupa, e relativamente com segurança, tiveram uma commoção que não era por elles. Todas as vozes insistiram ao mesmo tempo.
—Venha comnosco, capitão.
—Fico.
O guernesiano, que conhecia o mar, replicou:
—Ouça, capitão. O senhor naufragou nos Hanois. A nado ha apenas uma milha até Plainmont. Mas na chalupa só se póde abordar na Roquaine, e são duas milhas. Ha cachopos e nevoeiro. Esta chalupa não chega á Roquaine antes de duas horas. Não tarda a anoitecer. Enchendo á maré refresca o vento. Está proxima a borrasca. É nosso desejo vir buscal-o depois, mas se romper o temporal, não será possivel. Se fica está perdido. Venha.
O parisiense interveio:
—A chalupa está cheia, e cheia de mais, é verdade, e um homem de mais seria ainda peior. Mas nós somos treze, é máo numero para a barça, e é melhor sobrecarregal-a de um homem que de um algarismo.
Trangouille accrescentou:
—A culpa é minha, não é sua. Não é justo que o senhor fique.
—Fico, disse Clubin. O navio será despedaçado pela tempestade hoje de noite. Não o deixarei. Quando o navio se perde, morre o capitão. Dir-se-ha de mim que eu cumpri o meu dever. Perdôo-te, Tangrouille.
E crusando os braços gritou:
—Attenção ás ordens. Larguem a banda da amarra. Partam!
Abalou-se a chalupa. Imbrancam tomou o leme. Todas as mãos que não remavam voltaram-se para o capitão. Todas as bocas gritaram: Hourrah para o capitão Clubin!
—Eis um homem admiravel, disse o americano.
—É o mais honrado homem do mar, respondeu o guernesiano.
Trangouille chorava.
—Eu devia ter ficado com elle.
A chalupa internou-se por entre o nevoeiro, e desappareceu.
Não se vio mais nada.
O rumor dos remos diminuio e perdeu-se.
Clubin estava só.
Quando aquelle homem achou-se naquelle rochedo, debaixo daquella nuvem, no meio daquella agua, longe do contacto humano, deixado por morto, sósinho entre o mar que subia e a noite que descia, teve profundo jubilo.
Alcançara o que queria.
Realisara-se-lhe o sonho. Estava paga a letra de longo praso que elle saccou sobre o destino.
Para elle, ficar abandonado, era ficar livre. Estava no Hanois, a uma milha de terra; tinha setenta e cinco mil francos. Nunca se realisou mais acertado naufragio. Nada falhou; é verdade que tudo estava previsto. Desde a juventude Clubin teve uma idéa; fazer da honestidade uma parada no jogo darouletteda vida, passar por homem probo, e partir dahi, esperando que a sorte corresse; não apalpar, segurar; fazer um lance, mas só um, agarrar tudo, e deixar atraz os papalvos. Assentava que devia alcançar de uma vez aquillo que os larapios tolos deixam de agarrar vinte vezes, e, emquanto estes vão ter á forca, elle iria á fortuna. O encontro de Rantaine foi o raio de luz. Construio immediatamente o plano: obrigar Rantaine á restituição; quanto ás suas revelações possiveis, annulal-as desapparecendo; passar por morto, que é a melhor desapparição do mundo; para isso fazer naufragar a Durande. O naufragio era necessario. Além de tudo, ir-se embora deixando boa fama, era fazer da sua existencia uma obra prima. Quem podesse ver Clubin naquelle naufragio acreditaria ver um demonio feliz.
Viveu toda a sua vida naquelle minuto.
Toda a sua pessoa exprimia esta palavra; Emfim! Tremenda serenidade empallideceu aquella fronte obscura. Os olhos embaciados, no fundo dos quaes parecia haver um tabique, tornou-se profundo e terrivel. O abrasamento interno daquella alma reverberou-se nelles.
O foro intimo, como a natureza externa, tem a sua tensão elastica. Uma idéa é um meteóro; no momento do triumpho, entreabrem-se as meditações acumuladas que o preparam, e jorra uma faisca; ter em si uma garra do mal, e sentir nella uma presa, ventura é esta que tem a sua irradiação; máo pensamento que triumpha illumina o rosto daquelle que o concebeu; certas combinações triumphantes, certos desejos realisados, certas felicidades ferozes, fazem apparecer e desapparecer nos olhos dos homens, lugubres e luminosas dilatações. É a tempestade jubilosa, é a aurora ameaçadora. Tudo isso sahe da consciencia, que se faz sombria e ennevoada.
Foi esse fulgor que illuminou aquelles olhos.
Relampago que não se parecia com cousa alguma do que se póde ver no céo e na terra.
O velhaco comprimido que havia em Clubin fez explosão.
Clubin fitou a immensa obscuridade, e não pôde reter uma gargalhada baixa e sinistra.
Estava livre! estava rico!
Achara a incognita. Resolvera o problema.
Clubin tinha tempo de cuidar de si. A maré enchia e por conseguinte sustentava a Durande, e afinal devia pol-a a nado. Mas o navio adheria solidamente ao rochedo; não havia perigo de sossobrar. Além disso, era preciso deixar á chalupa o tempo de affastar-se, perder-se talvez; Clubin contava com isso.
De pé sobre a Durande naufragada, cruzou os braços, saboreando aquelle abandono nas trevas.
A hypocrisia pesou áquelle homem durante trinta annos. Era o mal, e consorciou-se com a probidade. Odiava a virtude com um odio de mal casado. Teve sempre uma premeditação malvada; desde que se fizera homem, trazia aquella armadura rigida, a apparencia. Era monstro internamente; vivia em uma pelle de homem de bem, com um coração de bandido. Era o pirata ameno. Era prisioneiro da honestidade; estava fechado naquelle caixão de mumia, a innocencia; tinha nas costas azas de anjo, esmagadoras para um velhaco. Pesava-lhe de mais a estima publica. Passar por homem honrado é duro! Manter constante equilibrio, pensar mal e fallar bem, que labutação! Clubin era o phantasma da rectidão, sendo o espectro do crime. Este contra-senso foi o destino delle. Era-lhe preciso mostrar ares apresentaveis, escumar por baixo do nivel, sorrir em vez de ranger. A virtude para elle, era cousa que esmagava. Passou a vida a ter vontade de morder aquella mão que lhe tapava a boca.
E querendo mordel-a, foi obrigado a beijal-a.
Ter mentido, é ter soffrido. O hypocrita é um paciente na dupla accepção de palavra; calcula um triumpho e soffre um supplicio. A premeditação indefinida de uma acção ruim acompanhada por dóses de austeridade, a infamia interior temperada de excellente reputação, enganar continuadamente, não ser jámais quem é, fazer illusão, é uma fadiga. Compôr a candura com todos os elementos negros que trabalham no cerebro, querer devorar os que o veneram, acariciar, reter-se, reprimir-se, estar sempre alerta, espiar constantemente, compôr o rosto do crime latente, fazer da disformidade uma belleza, fabricar uma perfeição com a perversidade, fazer cocegas com o punhal, pôr assucar no veneno, velar na franqueza do gesto e na musica da voz, não ter o proprio olhar, nada mais difficil, nada mais doloroso. O odioso da hypocrisia começa obscuramente no hypocrita. Causa nauseas beber perpetuamente a impostura. A meiguice com que a astucia disfarça a malvadeza repugna ao malvado, continuamente obrigado a trazer essa mistura na boca, e ha momentos de enjôo em que o hypocrita vomita quasi o seu pensamento. Engulir essa saliva é cousa horrivel. Ajuntai a isto o profundo orgulho. Existem horas estranhas em que o hypocrita se estima. Ha umeudesmedido ao impostor. O verme resvala como o dragão e como elle retesa-se e levanta-se. O traidor não é mais que um despota tolhido que não póde fazer a sua vontade senão resignando-se ao segundo papel. É a mesquinhez capaz da enormidade. O hypocrita é um titão-anão.
Clubin imaginava de boa fé que tinha sido opprimido. Porque razão não nascèra rico? O que elle queria era que os paes lhe houvessem deixado cem mil libras de renda. Por que não as tinha? Não era culpa delle. Porque motivo, não lhe dando todos os gosos da vida, forçaram-n'o a trabalhar, isto é, a enganar, a trahir, a destruir? Porque motivo condemnaram-n'o assim a essa tortura de adular, de rastejar, de comprazer, de fazer-se amar e respeitar, e trazer dia e noite no rosto um rosto que não ere delle? Dissimular é uma violencia imposta. Odeia-se diante de quem se mente. Soára emfim a hora. Clubin vingava-se.
De quem? De todos e de tudo.
Lethierry não lhe fez senão bem: queixa de mais; vingava-se de Lethierry.
Vingava-se de todos aquelles ante quem foi obrigado a constranger-se. Desforrava-se. Quem quer que pensasse bem delle, era seu inimigo, porque elle foi captivo desse homem.
Clubin achava-se livre. Realisára-se a fuga. Estava fóra dos homens. O que se tinha por morte, era vida; elle ia começar agora. O verdadeiro Clubin despojava-se do falso Clubin. De um lance dissolveu tudo. Empurrou com o pé, Rantaine ao espaço, Lethierry á ruina, a justiça humana ás trevas, a opinião ao erro, a humanidade inteira para longe de si. Tinha eliminado o mundo.
Quanto a Deos, Clubin curava pouco dessa palavra de quatro letras.
Passou como religioso. Que importa?
Ha cavernas no hypocrita ou antes, o hypocrita é uma caverna.
Quando Clubin ficou só, abrio-se-lhe o antro. Teve um instante de delicias; arejou a alma.
Respirou largamente o seu crime.
O fundo do mal tornou-se visivel naquelle rosto. Clubin abrio-se. Nesse momento, o olhar de Rantaine ao pé daquelles olhos pareceria um olhar de recem-nado.
Arrancar a mascara, que livramento! A consciencia de Clubin alegrou-se por ver-se hediondamente nua, e por tomar livremente um banho ignobil no mal. O constrangimento de um longo respeito humano acaba por inspirar um gosto violento á impudencia. Chega-se a uma certa lascivia na perversidade. Existe nessas tremendas profundezas moraes tão pouco sondadas, uma não sei que ostentação atroz e agradavel que é a obscenidade do crime. A insipidez da falsa reputação dá appetite de vergonha. Desdenha-se os homens a ponto tal que se deseja o despreso delles. Ser estimado, aborrece. Admira-se a franquesa da degradação. Olha-se cobiçosamente a torpeza que se mostra tão a seu gosto na ignominia. Os olhos obrigados a baixar-se, tem muitas vezes destes olhares obliquos. Nada se approxima tanto de Messalina como Maria Alacope. Vede Capiere e a religiosa de Louviers.
Clubin vivera debaixo do véo. O descaramento foi sempre a sua ambição. Invejava a mulher publica e a fronte de bronze do opprobrio aceito; sentia-se mais mulher publica do que ella e tinha desgosto em passar por virgem. Foi o Tantalo do cynismo. Emfim naquella solidão, podia ser franco; era-o. Que volupia não é sentir-se sinceramente abominavel! Todos os extasis possiveis no inferno, teve-os Clubin naquelle momento; foram-lhe pagos todos os atrasados da dissimulação; a hypocrisia é um adiantamento; Satanaz embolsou-o, Clubin embriagou-se de desfaçamento, pois que os homens tinham desapparecido e apenas ficara o céo. Disse comsigo: Sou um picaro! e ficou satisfeito.
Jamais houve cousa igual em uma consciencia humana.
Erupção de um hypocrita, não ha rompimento de cratera igual a esse.
Achava-se feliz por não haver ali ninguem, e não desgostaria que alguem o visse. Teria prazer em ser medonho á vista de uma testemunha.
Teria prazer em dizer ao espirito humano: és idiota!
A ausencia de homens assegurava-lhe o triunpho, mas diminuia-o.
Só elle era o espectador da sua gloria.
Ha certo encanto em estar de golilha. Toda a gente vê que és infame.
Obrigar a multidão a examinar-te é reconhecer a tua força. Um galé, sobre um estrado, com uma coleira de ferro ao pescoço, é o despota de todos os olhares que elle obriga a voltarem-se para si. Aquelle cadafalso é ao mesmo tempo pedestal. Que mais bello triumpho do que esse de ficar no centro de convergencia para a attenção geral? Obrigar o olhar publico é uma das formas da supremacia. Os que tem o mal por ideal acham no opprobrio uma auréola. Domina-se dahi. Olha-se de cima de alguma cousa. Mostra-se com soberania. Um poste, á vista de todo o universo, tem alguma analogia com um throno.
Estar exposto, é ser contemplado.
Um máo reinado tem evidentemente jubilos do pelourinho. Nero incendiando Roma, Luiz XIV tomando traiçoeiramente o Palatinado, o regente Jorge matando lentamente Napoleão, Nicoláu assassinando a Polonia em face da civilisação, deviam sentir um pouco daquella volupia sonhada por Clubin. A immensidade do despreso parece grandesa ao despresado.
Ser desmascarado é uma derrota, mas desmascarar-se é uma victoria. É a ebridade, é a impudencia insolente e satisfeita, é uma nudez transportada que insulta tudo diante de si. Suprema felicidade.
Estas ideas em um hypocrita parecem contradição, e não são. Toda a infamia é consequente. O mel é fel. Escobar confina no marquez de Sade. Prova: Leotade. O hypocrita, sendo o perverso completo, tem em si os dous polos da perversidade. De um lado é padre, do outro cortezão. O seu sexo de demonio é duplo. O hypocrita é o horrivel hermaphrodita do mal. Fecunda-se a si proprio; gera-se, transforma-se. Queres vel-o formoso? olha-o; queres vel-o horrivel? vira-o.
Clubin tinha em si toda esta sombra de idéas confusas. Pouco as percebia, mas gozava-as muito.
Uma porção de faiscas do inferno attravessando a noite, era a successão dos pensamentos naquella alma.
Clubin conservou-se pensativo algum tempo; olhava para a sua honestidade com o ar com que a serpente contempla a pelle que despio.
Toda a gente acreditou naquella honestidade, elle proprio acreditou um bocadinho nella.
Deu segunda gargalhada.
Iam pensar que elle estava morto, e estava vivo. Pensavam que estava perdido, e estava salvo. Que boa caçoada á tolice universal!
E nessa tolice universal contava-se Rantaine. Clubin pensava em Rantaine com um desdem sem limites. Desdem da fuinha para com o tigre. Tinha conseguido o que falhára a Rantaine. Rantaine retirara-se enfiado, e Clubin triumphante. Tomou o lugar de Rantaine no leito da sua má acção, e foi elle quem teve a boa fortuna.
Quanto ao fucturo, Clubin não tinha plano. Possuia os bilhetes do banco na boceta de ferro atada á cintura; bastava-lhe esta certeza. Mudaria de nome. Ha paizes onde sessenta mil francos valem seiscentos mil. Não seria má solução ir para um desses lugares viver honestamente com o dinheiro apanhado ao ladrão Rantaine. Especular, entrar em um grande negocio, engrossar o capital, tornar-se seriamente millionario, também não era máo.
Por exemplo, em Costa Rica, como era o começo do grande commercio do café, podia ganhar toneis de ouro. Veria isso.
Demais, pouco importava. Clubin tinha tempo de pensar nessas cousas. O mais difficil estava feito. Despojar Rantaine, desaparecer com a Durande era o mais importante. Estava feito. O resto era simples. Não havia obstaculo possivel. Nada de temer. Não podia acontecer nada. Nadaria para a costa, abordaria a Plainmont, de noite, galgaria as rochas da praia, iria á casa mal assombrada, entraria facilmente por meio da corda de nós escondida de antemão no buraco do rochedo; acharia na casa a mala contendo roupa e viveres, dentro de oito dias lá estavam os contrabandistas de Hespanha, Blasquito provavelmente; por alguns guineos, far-se-hia transportar, não a Tor Bay, como disse a Blasco para illudir, mas a Pasages ou a Bilbáo. Dahi iria a Vera-Cruz ou a Nova-Orleans. Já era tempo de atirar-se ao mar, a chalupa estava longe, uma hora a nado era cousa nenhuma para Clubin, só uma milha o separava de terra, pois que estava no Hanois.
Neste ponto dos seus calculos, rasgou-se uma fresta do nevoeiro. O formidavel rochedo Douvres surgio aos seus olhos.
Clubin olhou espantado.
Era o medonho escolho isolado.
Não era possivel a illusão a respeito daquella configuração disforme. As duas Douvres gemeas campeavam horriveis deixando ver entre si, como uma armadilha, a garganta de que fallámos. Dissera-se um quebra-costas do oceano.
Estavam perto delle as rochas Douvres; o nevoeiro, como cumplice, escondera-as.
Clubin errara o caminho por causa do nevoeiro. Apezar de toda a attenção, aconteceu-lhe o mesmo que a dous grandes navegadores, a Gonzalez que descobrio o Cabo Branco, e a Fernandez que descobrio o Cabo Verde. A bruma desencaminhou-o. Pareceu-lhe excellente para a execução do projecto, mas tinha os seus perigos. Clubin desviou-se para o oeste e enganou-se. O passageiro guernesiano, acreditando ver o Hanois, determinou o movimento do leme final; Clubin cuidou que se atirava ao Hanois.
A Durande arrombada por um dos bancos do escolho, estava separada das duas Douvres apenas por algumas centenas de braças.
A duzentas braças mais longe via-se um massiço cubo de granito. Descobria-se nas faces escarpadas desta rocha algumas estrias e relevos apropriados para galgal-a.
Os cantos rectilinios dessas rudes muralhas de angulo recto faziam presentir no cume uma planura.
Era o Homem.
A rocha Homem era mais alta ainda que as Douvres. A sua plataforma dominava as pontas inacessiveis das duas rochas. Essa plataforma, abatendo-se pelas bordas, tinha uma cimalha e mostrava uma certa regularidade architectural. Não se podia imaginar nada mais triste e funesto. As vagas iam dobrar as suas tranquillas toalhas, nas faces quadradas daquelle enorme rochedo negro, especie de pedestal para os espectros immensos do mar e da noite.
Tudo aquillo estava mudo e morto. Havia apenas um sopro no ar e uma ruga nas ondas. Debaixo daquella superficie muda da agua advinhava-se a vasta vida afogada das profundezas.
Clubin vira muitas vezes de longe o escolho Douvres.
Convenceu-se bem que era ali as Douvres.
Não podia duvidar.
Subita e terrivel mudança. As Douvres em vez dos Hanois. Em vez de uma milha, cinco leguas do mar! o impossivel. A rocha Douvres, para o naufrago solitario, é a presença, visivel e palpavel dos ultimos momentos. É impossivel chegar á terra.
Clubin estremeceu. Tinha se mettido no goela da sombra. Não havia outro refugio além do rochedo Homem. Era provavel que a tempestade sobreviesse de noite, e que a chalupa de Durande sobrecarregada sossobrasse. Nenhum aviso do naufragio chegaria a terra. Não se saberia mesmo que Clubin ficara no rochedo Douvres. Não havia outra perspectiva senão a morte por frio e fome. Os seus setenta e cinco mil francos nem mesmo lhe davam um bocado de pão. Tudo quanto elle construira deu em resultado aquella cilada; foi elle proprio o architecto laborioso de sua emboscada. Nenhum recurso. Nenhuma solução possivel. O triumpho fazia-se precipicio. Em vez da liberdade, a captura. Em vez de um futuro prospero e longo, a agonia. De um relance esboroou-se-lhe o edificio. O paraizo sonhado por aquelle demonio retomou a sua verdadeira figura; o sepulchro.
Entretanto soprava o vento. O nevoeiro, saccudido, furado, repuxado, desfazia-se no horisonte em grandes lanhos informes. Reappareceu o mar.
Os bois cada vez mais invadidos pela agua, continuavam a berrar no porão.
Approximava-se a noite; provavelmente a tempestade.
A Durande a pouco e pouco levantada pelo mar, oscilava da direita para a esquerda, degois da esquerda para a direita, e começava a girar sobre o escolho como sobre um eixo.
Podia-se pressentir o momento em que uma vaga arrancaria o navio, e o levaria agua abaixo.
Havia menos obscuridade do que no momento do naufragio. Apezar da hora ser já avançada, estava mais claro. O nevoeiro levou comsigo uma parte da escuridão. O oeste limpou-se de nuvens. O crepusculo é um vasto céo branco. Essa vasta claridade allumiava o mar.
A Durande naufragara em plano inclinado de pôpa a prôa. Clubin trepou á prôa que estava quasi fóra da agua. Fitou no horisonte os olhos.
É proprio da hypocrisia ater-se á esperança. O hypocrita é o homem que espera. A hypocrisia é uma esperança horrivel: o fundo dessa mentira é feito desta virtude, tornada vicio.
Cousa estranha de dizer, ha confiança na hypocrisia. O hypocrita confia-se a certa indifferença do desconhecido, que consente no mal.
Clubin olhava para a extensão.
A situação era desesperada: aquella alma sinistra não desesperou.
Dizia comsigo que depois daquelle longo nevoeiro os navios conservados na bruma, á capa ou ancorados; iam continuar viagem, e algum passaria no horisonte.
E com effeito appareceu uma véla.
Vinha de leste e ia para oeste.
Appoximando-se desenhava-se o navio; tinha apenas um mastro, e estava armado em goleta. O gurupés era quasi horisontal.
Antes de meia hora devia passar por perto do escolho Douvres.
Clubiu disse comsigo: estou salvo.
Em momentos semelhantes, pensa-se primeiro na vida.
O cuter era quasi estrangeiro. Quem sabe se não era um dos contrabandistas que iam a Plainmont? Quem sabe se não era Blasquito? Nesse caso, não sómente salvava a vida como a fortuna; e o encontro do rochedo Douvres, appressando a conclusão, supprimindo a espera na casa mal assombrada, dando desfecho á aventura em pleno mar, seria um incidente feliz.
Toda a certeza do bom exito entrou freneticamente naquelle espirito sombrio.
Extranha cousa é ver com que facilidade os tratantes acreditam que devem ser bem succedidos.
Cumpria fazer apenas uma cousa.
A Durande, mettida nos rochedos, misturava a sua configuração á delles; confundia-se com os seus recortes, sobre os quaes parecia apenas um lineamento, ficava indistincta e perdida, e não bastava, com o pouco dia que havia, para attrahir a attenção da embarcação que ia passar.