De mais, abreviemos a explicação. Comprehender-se-ha que ommittimos muitos pormenores que tornariam a cousa clara para as pessoas do officio, e obscura para as outras.
O cimo do cano da machina passava por entre as duas pranchas do meio.
Gilliatt, sem dar por isso, plagiario inconsciente do desconhecido, refez, a tres seculos de distancia, o mechanismo do carpinteiro de Salbris, mechanismo rudimentario e incorrecto, assustador para quem ousasse manobral-o.
Digamos aqui que os defeitos mais grosseiros não impedem que um mechanismo funccione. O obelisco da praça de S. Pedro de Roma foi levantado contra todas as regras da statica. O coche do czar Pedro era construido de tal modo que parecia tombar a cada passo; entretanto andava. Quantas difformidades na machina de Marly. Tudo alli era mal feito. Nem por isso deixou de dar de beber a Luiz XIV.
Fosse como fosse, Gilliatt tinha confiança. Contava até com o successo ao ponto de fixar na borda dapança, no dia em que lá foi, dous pares de argolas de ferro, diante um do outro, nos dous lados da barca, nos mesmos espaços que as quatro argolas da Durande ás quaes se prendiam as quatro correntes do cano.
Gilliatt tinha evidentemente um plano muito completo e definitivo. Tendo contra si todas as probabilidades, queria pôr todas as precauções do seu lado.
Fazia cousas que pareciam inuteis, signal de uma premeditação attenta.
A sua maneira de proceder desviava um observador, e mesmo um conhecedor.
Uma pessoa que o visse, por exemplo, com exforços inauditos e em risco de quebrar o pescoço, pregar com um martello oito ou dez grandes pregos que elle forjou, no esvasamento das duas Douvres, na entrada da garganta do escolho, comprehenderia difficilmente o motivo desses pregos, e perguntaria provavelmente porque razão fazia todo aquelle trabalho.
Se visse Gilliatt medir o pedaço da amurada da prôa que ficára pendurada, depois prender uma forte corda na borda superior desta peça, cortar com um machado as madeiras deslocadas que a retinham, arrastal-as fora da garganta, com auxilio da maré que descia, e emfim prender laboriosamente com a corda essa pesada massa de taboas e vigas, mais larga que a entrada da garganta, aos prégos mettidos na base da pequena Douvre, o observador comprehenderia menos ainda, e diria que, se Gilliatt quizesse para facilidade da manobra, desempedir o intervallo das Douvres, bastava deixar cahir aquelle pedaço de taboas na maré que o levaria á flor d'agua.
Gilliatt provavelmente tinha lá as suas razões.
Gilliatt, para fixar os prégos na base das Douvres, tirava partido de todas as fendas do granito, alargava-as quando era preciso, e mettia ao principio tocos de páos, nos quaes introduzia depois os prégos. Emboçou a mesma preparação nas duas rochas que se levantavam n'outra extremidade do escolho, do lado de leste; guarneceu de cavilhas de páo todos os buracos, como se as quizesse ter promptas para receber ganchos; mas isso pareceu ser uma simples reserva, porque Gilliatt não metteu prégos nessas fendas. Comprehende-se que, por prudencia na sua penuria, elle não podia gastar materiaes senão á proporção que tivesse necessidade, e no momento em que a necessidade se manifestasse. Era mais uma complicação no meio de tantas difficuldades.
Acabado um primeiro trabalho, surgia um segundo, Gilliatt passava sem hesitar de um a outro e dava resolutamente esse pulo de gigante.
O homem que fazia estas cousas tornára-se medonho.
Gilliatt, naquelle trabalho multiplo, gastava todas as suas forças; difficilmente as refazia.
Privações de uma parte, cançasso de outra, Gilliatt tinha emmagrecido. Cresceram-lhe as barbas e cabellos. Excepto uma camisa, todas as mais estavam em frangalhos. Tinha os pés nús, por que o vento levára-lhe um sapato, e o mar o outro. Pedaços da bigorna rudimentaria, e mui perigosa, de que se servia, tinham-lhe feito nas mãos e nos braços pequenas chagas, salpicos de trabalho. Essas chagas, mais esfoladuras que feridas, eram superficiaes, mas irritadas pelo ar vivo e pela agua salgada.
Tinha fome, tinha sede, tinha frio.
O pichel de agua doce estava vasio. A farinha de centeio fôra já comida ou empregada no trabalho. Restava-lhe um pouco de biscouto.
Não tendo agua para molhal-o, Gilliatt quebrava-o com os dentes.
Dia a dia iam-lhe escasseando as forças.
Aquelle temivel rochedo esgotava-lhe a vida.
Beber, era uma questão; comer, era uma questão; dormir, era uma questão.
Gilliatt comia quando apanhava algum marisco ou outro bichinho do mar; bebia quando via um passaro descer a alguma ponta da rocha. Trepava então e achava n'uma cava um pouco de agua doce. Bebia depois do passaro, ás vezes ao mesmo tempo; porque as gaivotas já estavam acostumadas a elle, e não fugiam quando elle se approximava. Gilliatt, mesmo na maior fome não lhes fazia mal. Sabemos que elle tinha a superstição dos passaros. Os passaros, como os cabellos de Gilliatt estivessem eriçados e horriveis, e a barba longa, já lhe não cobravam medo; a mudança do aspecto tranquillisava-os; já não viam naquillo um homem, acreditavam-n'o bicho.
Os passaros e Gilliatt eram agora bons amigos. Todos aquelles pobres ajudavam-se uns aos outros. Emquanto Gilliatt teve centeio, deu-lhes algumas migalhas dos bolos que fazia; agora os passaros indicavam-lhe em que lugar havia agua.
Comia as conchas cruas; as conchas, em certa proporção, são refrigerantes. Quanto aos caranguejos cosia-os; não tendo vasilha propria, cosia-os entre duas pedras abrasadas ao fogo, como os selvagens das ilhas Feroe.
Declarou-se entretanto um pouco de equinoxio; veio a chuva; mas chuva hostil. Nem ondas, nem aguaceiros, mas longos choviscos, finos, gelados, que, atravessavam-lhe a roupa até á pelle, e a pelle até os ossos. Era chuva que dava pouco de beber e molhava muito.
Avara de auxilio, prodiga de miseria, tal era aquella chuva, indigna do céo. Gilliatt apanhou-a toda, durante uma semana, de noite e de dia. Era uma má acção lá de cima.
De noite, no seu buraco do rochedo, só dormia por cançasso. Os grandes mosquitos do mar iam morde-lo. Acordava coberto de pustulas.
Tinha febre, que o sustentava; a febre é um amparo, que mata. Mastigava, por instincto, o musgo ou chupava as folhas de cochlearia selvagem, magras producções das fendas seccas do rochedo. Mas occupava-se bem pouco com o soffrimento. Não tinha tempo de distrahir-se do trabalho para cuidar de si. A machina da Durande estava de saude. Era o que bastava.
A cada momento, para as necessidades do trabalho, Gilliatt atirava-se ao mar, depois tomava pé. Entrava na agua e sahia, como se passa de um quarto a outro.
As roupas já lhe não seccavam. Estavam embebidas da agua da chuva que não parava, e da agua do mar que não secca nunca. Gilliatt vivia molhado.
Viver molhado é um habito que se adquire. Os pobres grupos irlandezes, velhos, mães, raparigas quasi nuas, crianças, que passara o inverno debaixo de aguaceiros e neve, apertados uns contra os outros nos angulos das casas nas ruas de Londres, vivem e morrem molhados.
Estar molhado e ter sede; Gilliatt supportava essa tortura extranha. De quando em quando mordia a manga da japona.
O fogo que elle accendia não o aquecia; o fogo no meio de um grande espaço arejado é um meio soccorro; secca-se de um lado, humedece-se de outro.
Gilliatt suava e tiritava.
Tudo lhe resistia em roda delle numa especie de silencio terrivel. Elle sentia o inimigo.
As cousas tem um sombrioNon possumus.
A inercia dellas é uma lugubre advertencia.
Immensa má, vontade cercava Gilliatt. Estava cheio de queimaduras e tinha arrepios de frio. Queimava-o o fogo, gelava-o a agua, a sêde causava-lhe febre, o vento rasgava-lhe a roupa, a fome minava-lhe o estomago. Elle supportava a oppressão era um conjuncto fatigante. O obstaculo, tranquillo, vasto, tendo a irresponsabilidade apparente da fatalidade, mas cheio de uma unanimidade feroz, convergia de todas as partes sobre Gilliatt. Gilliatt sentia-o apoiado inexoravelmente sobre elle. Nenhum meio de escapar-lhe. Era quasi uma entidade. Gilliatt tinha consciencia de um desprezo sombrio e de um odio que fazia esforço por diminui-lo. Dependia delle fugir, mas, pois que ficava, tinha de lutar com a hostilidade impenetravel. Não podendo po-lo fóra d'alli, punham-n'o debaixo dos pés. Quem? O Ignoto. Apertavam-n'o, comprimiam-n'o, tiravam-lhe lugar e alento. Estava abatido pelo invisivel. Cada dia, a mysteriosa verruma entrava um pedaço.
A situação de Gilliatt naquelle medonho lugar assemelhava-se a um duelo equivoco com um traidor.
Cercava-o a coalição das forças obscuras. Elle sentia uma resolução de alguem para expulsal-o dalli. É assim que a geleira expelle a massa erratica.
Quasi sem parecer que o tocava, essa coalição latente punha-o em farrapos, cheio de sangue, falho de recursos, e por assim dizer, fóra de combate antes do combate. Nem por isso deixava elle de trabalhar, e sem cessar, mas á proporção que a obra se fazia, ia-se desfazendo o operario, Dissera-se que aquella feroz natureza, receiando a alma, resolvera-se a extenuar o homem. Gilliatt affrontava, e esperava. O abysmo começava por cançalo. Que faria depois o abysmo?
A dupla Douvres, dragão de granito e emboscado em pleno mar, admitira Gilliatt. Deixou-o entrar e trabalhar. A admissão assemelhava-se á hospitalidade de um sorvedouro aberto.
O deserto, a extenção, o espaço onde ha para o homem tantos recursos, a inclemencia muda dos phenomenos seguindo o seu curso, a grande lei geral implacavel e passiva, o flux e o reflux, o escolho, pleiada negra onde cada ponto é uma estrella de turbilhões, centro de uma irradiação e correntes, a conspiração da indifferença das cousas contra a tenacidade de um ente, o inferno, as nuvens, o mar sitiante, cercavam Gilliatt, apertavam-n'o lentamente, fechavam-se sobre elle, e o separavam dos vivos, como um carcere que fosse subindo á roda de um homem. Tudo contra elle, nada a favor delle; estava isolado, abandonado, minado, esquecido.
Gilliatt tinha esgotado as provisões, as ferramentas já estavam usadas, a sede e a fome de dia, o frio de noite, feridas e andrajos, vestidos rotos cobrindo suppurações, buracos nas roupas e na carne, mãos dilaceradas; pés sangrentos, membros magros, rosto livido, uma flamma nos olhos.
Flamma soberba essa, era a vontade visivel. O olho do homem é feito de modo que se lhe vê por elle a virtude. A nossa pupilla diz que quantidade de homens ha dentro de nós. Affirmamo-nos pela luz que fica debaixo da sobrancelha. As pequenas consciencias piscam o olho, as grandes lançam raios. Se não ha nada que brilhe debaixo da palpebra, é que nada ha que pense no cerebro, é que nada ha que ame no coração. Quem ama quer, e aquelle que quer relampeja e scintilla. A resolução enche os olhos de fogo; admiravel fogo que se compõe da combustão dos pensamentos timidos.
Os teimosos são os sublimes. Quem é apenas bravo tem só um assomo, quem é apenas valente tem só um temperamento, quem é apenas corajoso tem só uma virtude; o obstinado na verdade tem a grandeza. Quasi todo o segredo dos grandes corações está nesta palavra:—Perseverando. A perseverança está para a coragem como a roda para a alavanca; é a renovação perpetua do ponto de apoio. Esteja na terra ou no céo o alvo da vontade, a questão é ir a esse alvo; no primeiro caso, é Colombo, no segundo caso, é Jesus. Insensata é a cruz; vem dahi a sua gloria. Não deixar discutir a consciencia, nem desarmar a vontade, é assim que se obtem o soffrimento e o triumpho. Na ordem dos factos moraes o cahir não exclue o pairar. Da queda sabe a ascenção. Os mediocres deixam-se perder pelo obstaculo especioso; não assim os fortes. Parecer é otalvezdos fortes, conquistar é a certeza delles. Pódes dar a Estevão todas as boas razões para que elle não se faça apedrejar. O desdem das objecções razoaveis crêa a sublime victoria vencida que se chama o martyrio.
Todos os esforços de Gilliatt pareciam agarrados ao impossivel, o exito era mesquinho ou lento, e cumpria gastar muito para obter pouco; isso é que o fazia magnanimo, isso é que o fazia pathetico.
Que para fazer um andaime de quatro pranchas acima de um navio naufragado, para cortar nesse navio a parte que se podia salvar, para ajustar a esse resto dos restos quatro guindastes com os seus cabos, fossem precisos tantos preparativos, tantos trabalhos, tantas apalpadellas, tantas noites mal dormidas, tantos dias afadigados, essa era a miseria do trabalho solitario. Fatalidade na causa, necessidade no effeito. Gilliatt fez mais do que aceitar essa miseria; quil-a. Temendo um concurrente, porque um concurrente poderia ser um rival, não procurou auxiliar. A esmagadora empreza, o risco, o perigo, o trabalho multiplicado por si mesmo, o engolimento possivel do salvador no salvamento, a fome, a febre, a nudez, o abandono, tudo isso tomou elle para si só. Teve este egoismo.
Gilliatt estava debaixo de uma especie de machina pneumatica. A vitalidade ia-se retirando delle a pouco e pouco. E elle mal o sentia.
A perda das forças não esgota a vontade. Crer é apenas a segunda potencia; a primeira é querer; as montanhas proverbiaes que a fé transporta nada valem ao lado do que a vontade produz. O que Gilliatt perdia em vigor, rehavia em tenacidade. A diminuição do homem physico debaixo da acção repellente daquella natureza selvagem produzia o engrandecimento do homem moral.
Gilliatt não sentia a fadiga, ou para melhor dizer, não consentia nella. O consentimento da alma recusado ao desfalecimento do corpo é uma força immensa.
Gilliatt via os progressos do trabalho, e não via nada mais. Era miseravel sem sabel-o. O seu alvo, que elle tocava quasi, allucinava-o, soffria todos os soffrimentos sem ter outra idéa que não fosse esta: Avante! A sua obra subia-lhe á cabeça. Vontade embriagada. O homem póde embriagar-se com a propria alma. Essa embriaguez chama-se heroismo.
Gilliatt era uma especie de Job do Oceano.
Mas um Job que lutava, um Job que combatia e affrontava os flagellos, um Job que conquistava, e se taes palavras não são demasiado grandes para um pobre marinheiro pescador de carangueijos A de lagostas, um Job Prometheu.
Ás vezes, alta noite, Gilliatt abria os olhos e olhava para a sombra.
Sentia-se extremamente commovido.
Olhar aberto sobre trevas. Situação lugubre: anciedade.
Existe a pressão da sombra.
Inexprimivel tecto de tenebras; alta obscuridade sem mergulhador possivel; luz mesclada á obscuridade, mas uma luz vencida e sombria; claridade reduzida a pó; é semente? é cinza? milhões de fachos, claridade nulla; vasta ignição que não diz o seu segredo, uma diffusão de fogo em poeira que parece um bando de faiscas paradas, a desordem do turbilhão e a immobilidade do sepulchro, o problema offerecendo uma abertura de precipicio, o enigma desvendando e escondendo a sua face, o infinito mascarado com a escuridão, eis a noite. Pesa no homem esta superposição.
Esse amalgama de todos os mysterios a um tempo, do mysterio cosmico e do mysterio fatal, abate a cabeça humana.
A pressão da sombra actúa em sentido inverso nas differentes especies de almas. O homem diante da noite reconhece-se incompleto. Vê a obscuridade e sente a enfermidade. O céo negro é o homem cégo. Entretanto com a noite, o homem abate-se, ajoelha-se, prostorna-se, roja-se, arrasta-se para um buraco, ou procura azas. Quasi sempre quer fugir a essa presença informe do desconhecido. Pergunta o que é; treme, curva-se, ignora; ás vezes quer ir lá.
Aonde?
Lá.
Lá? O que é? Que ha lá?
Essa curiosidade é evidentemente a das cousas defezas, porque para aquelle lado todas as pontes á roda do homem estão cortadas. Mas o desejo attrahe, porque é golphão. Onde não vae o pé, vae o olhar, onde o olhar pára, póde continuar o espirito. Não ha homem qne não tente, por mais fraco e insufficiente que seja. O homem, segundo a sua natureza, investiga ou espera diante da noite. Para uns é um rechaçamento, para outros é uma dilatação. O espectaculo é sombrio. Mescla-se a elle o indefinivel.
Vai a noite serena? É um fundo de sombra. Vai tempestuosa? É um fundo de fumaça. O illimitado recusa-se e offerece-se ao mesmo tempo, fechado à experiencia, aberto á conjectura. Infinitas picadas de luz tornam mais negra a obscuridade sem fundo. Carbunculos, scintillações, astros. Presenças verificadas no Ignorado; tremendos reptos para ir tocar esses clarões. São estacas da creação no absoluto; são marcos de distancia lá onde já não ha distancia; é uma especie de numeração impossivel, e todavia real, do canal das profundezas. Um ponto microscopico que fulge, depois outro, mais outro, mais outro; é o imperceptivel, é o enorme. Essa luz é um fóco, esse fóco é uma estrella, essa estrella é um sol, esse sol é um universo, esse universo é nada. Todo o numero é zero diante do infinito.
Esses universos, que nada são, existem. Verificando-os, sente-se a diferença que vai entre ser nada, e não ser.
O inaccessivel ligado ao inexplicavel, eis o céo.
Dessa contemplação solta-se um phenomeno sublime: o crescimento da alma pelo assombro. O medo sagrado é proprio do homem; a besta ignora esse medo. A intelligencia acha nesse terror augusto o seu eclipse e a sua prova.
A sombra é una: vem dahi o seu horror, É ao mesmo tempo complexa: vem dahi o terror. A sua unidade pesa no nosso espirito e sacca-lhe a vontade de resistir.
A complexidade faz com que se olhe para todos os lados; parece que se devem receiar assaltos subitos. O homem rende-se, e defende-se, Fica em presença de Tudo, dahi vem a submissão, e de Muitos, dahi vem a desconfiança. A unidade da sombra contém um multiplo. Multiplo mysterioso, visivel na materia, sensivel no pensamento. Faz silencio, razão de mais para espreitar.
A noite,—já o disse algures quem escreve estas linhas,—é o estado proprio, normal da creação especial de que fazemos parte. O dia, breve na duração como no espaço, é apenas uma proximidade de estrella.
O prodigio nocturno universal não se realiza sem attritos, e os attritos de uma tal machina são as contusões da vida. Os attritos da machina, é o que chamamos o Mal. Sentimos nessa obscuridade o mal, desmentido latente da ordem divina, blasphemia implicita do facto rebelde ao ideal. O mal accrescenta uma teratologia de mil cabeças ao vasto conjunto cosmico. O mal está presente em tudo para protestar. É furacão, e atormenta a marcha de um navio, é cahos e entrava o desabrochar de um mundo. O Bem tem a unidade, o Mal tem a ubiquidade. O mal desconcerta a vida, que é uma logica. Faz devorar a mosca pelo passaro, e o planeta pelo cometa. O mal é um borrão na natureza.
A obscuridade nocturna peja-se de uma vertigem. Quem a aprofunda, submerge-se e debate-se. Não ha fadiga comparavel a esse exame de trevas. É o estudo de um apagamento.
Não ha lugar definitivo para pousar o espirito. Pontos de partida sem ponto de chegada. O cruzamento das soluções contradictorias, todos os ramos da duvida a um tempo, a ramificação dos phenomenos esfoliando-se sem limite sob uma impulsão indefinida, mistura de todas as leis, uma promiscuidade insondavel que faz com que a mineralisação vegete, com que a vegetação viva, com que o pensamento pese, com que o amor irradie, e a gravitação ame; a immensa fronte de ataque de todas as questões desenvolvendo-se na obscuridade sem limites; o entrevisto esboçando o ignorado; a simultaneidade cosmica em plena apparição, não para o olhar, mas para a intelligencia, no espaço indistincto; o invisivel tornado visão. É a Sombra. O homem está embaixo. Não conhece os pormenores, mas supporta, em qualidade proporcionada ao seu espirito, o peso monstruoso do conjunto. Esta obsessão impelia os pastores chaldeus á astronomia. Sahem dos poros da creação revelações involuntarias; faz-se por si mesma uma transudação de sciencia e invade o ignorante. Debaixo dessa impregnação mysteriosa torna-se o solitario, muitas vezes sem ter consciencia, um philosopho natural.
A obscuridade é indivisivel. É habitada. Habitada sem deslocação pelo absoluto; habitada tambem com deslocação. Move-se alli dentro alguma cousa, o que é para assustar. Uma formação sagrada desenvolve alli as suas phazes. Premeditações, potencias, destinos intencionaes, laboram ahi em commum uma obra desmedida. Vida terrivel e horrivel é o que existe alli dentro. Ha vastas evoluções de astros, a familia stellaria, a familia platenaria, o pollen Zodiacal, o Quid divinum das correntes, dos effluvios, das polarisações e das alterações; ha o amplexo e o antagonismo, um magnifico flux e reflux da antithese universal, o imponderavel em liberdade no meio dos centros; ha a seiva nos globos, a luz fora dos globos, o atomo errante, o germen esparso, curvas de fecundação, encontros de ajuntamento e de combate, profusões inauditas, distancias que parecem sonhos, circulações vertiginosas, mergulhos de mundos no incalculavel, prodigios perseguindo-se nas trevas, um machinismo definitivo, sopro de espheras em fuga, rodas que se sente andarem; existe e esconde-se; é inexpugnavel, fora de alcance. Fica-se convencido até á oppressão. Tem-se em si uma evidencia negra. Nada se póde agarrar. Esmaga-nos o impalpavel.
Por toda a parte o incomprehensivel: em parte alguma o intelligivel.
E a tudo isto accrescentai a terrivel questão: esta Immanencia é um Ser?
Está-se debaixo da sombra. Olha-se. Escuta-se.
Entretanto a terra sombria caminha e rola, as flôres tem consciencia desse movimento enorme; a silena abre-se ás onze horas da noite e a emerocala ás cinco horas da manhã. Impressivel regularidade.
Em outros profundidades a gotta d'agua faz-se mundo, o infusorio pulula, a fecundidade gigante sahe do animaculo, o imperceptivel ostenta a sua grandeza, o sentido inverso da immensidade manifesta-se; uma diatoméa produz em uma hora um milhar e trezentos milhões de diatoméas.
Que proposição de todos os enigmas ao mesmo tempo!
Está ahi o irreductivel.
Constrange-se-nos á fé. Crer por força, eis o resultado. Mas para estar tranquillo não basta ter fé. A fé tem uma estranha necessidade de forma. Dahi vem as religiões. Nada é tão oppressivo como uma crença sem delineamento.
Qualquer que seja o pensamento e a vontade, qualquer que seja a resistencia interior, olhar a sombra, não é olhar, é contemplar.
Que fazer desses phenomenos? Como mover-se debaixo de sua convergencia? É impossivel decompôr esta pressão. Que devaneio se deve ajuntar a todos esses confinantes mysteriosos? Quantas revelações abstrusas, simultaneas, obscurecendo-se em sua propria multidão, especie de balbuciar do verbo! A sombra é um silencio: mas esse silencio diz tudo. Surge magestosamente um resultado: Deos. Deos é a noção incomprehensivel. Essa noção está no homem. Os syllogismos, as querellas, as negações, os systemas, as religiões, passam por cima sem diminuil-a. A sombra inteira affirma aquella noção. Mas turva-se tudo o mais. Immanencia formidavel. A inexprimivel harmonia das forças manifesta-se pelo equilibrio dessa obscuridade. O universo pende; nada tomba. O deslocamento incessante e desmedido opera-se sem accidente e sem fractura. O homem participa deste movimento de translação e á quantidade de oscilação que supporta, chama elle destino. Onde começa o destino? Onde acaba a natureza? Que differença ha entre um acontecimento e uma estação, entre um pezar e uma chuva, entre uma virtude e uma estrella? Uma hora não é uma onda? Continúa o movimento da roda, sem responder ao homem, em sua revolução impassivel. O céo estrellado é uma visão de rodas, de pendulas e de contra pesos. É a contemplação suprema, forrada da suprema meditação. É toda a realidade e mais a abstracção. Nada além dahi. O homem sente-se preso. Fica á discrição da sombra. Não ha evasão possivel. Vê-se elle naquelle composto de rodas, é parte integrante de um Todo ignorado, sente o desconhecido que está fora delle. Isto é o annuncio sublime da morte. Que angustia e ao mesmo tempo que fascinação! Adherir ao infinito, e por essa adherencia attribuir-se uma immortalidade necessaria, quem sabe? uma eternidade possivel, sentir na prodigiosa vaga desse silencio universal a obstinação insubmersivel do eu! contemplar os astros, e dizer: Sou uma alma como vós! contemplar a obscuridade e dizer: sou um abysmo com tú.
Essas enormidades são a noite.
Tudo isso augmentado, pela solidão, pesava em Gilliatt.
Comprehendia-o elle? Não. Sentia-o? Sim.
Gilliatt era um grande espirito turvado e um grande coração selvagem.
O salvamento da machina, meditado por Gilliatt, era, como dissemos, uma verdadeira evasão, e são conhecidas as paciencias da evasão. Tambem se conhecem as suas industrias. A industria chega ao milagre; a paciencia attinge á agonia. Tal prisioneiro, Thomas, por exemplo, no monte S. Miguel, achou meio de esconder metade de uma parede dentro da palha em que dormia. Outro, em Tulle, em 1820, cortou o chumbo na plataforma de passeio da prisão, não se sabe com que faca, fundio-o não se sabe com que fogo, vasou-o numa fôrma feita de migalhas de pão; com esse chumbo e essa fôrma fez uma chave e com essa chave abrio uma fechadura que elle apenas conhecia por ter-lhe visto o buraco. Gilliatt tinha estas habilidades inauditas. Era capaz de subir e descer o penedio Boisrosé. Era o Trenck de um destroço e o Latude de uma machina.
O mar, que era o carcereiro, vigiava-o.
Demais, por ingrata e má que fosse a chuva, Gilliatt aproveitou-a. Refez com ella a sua provisão de agua doce; mas a sede era inextinguivel e Gilliatt esvasiava o pichel quasi tão rapidamente como o enchia.
Um dia, o ultimo de Abril creio, ou o 1.° de Maio, tudo estava prompto. O assoalho da machina estava como que mettido entre os oito cabos das polés, quatro de um lado, quatro de outro. As dezeseis aberturas, por onde passavam esses cabos, estavam ligadas ao tombadilho e á carena. A madeira foi cortada com o machado, o ferro com a lima, o forro com a faca e, o resto com a serra. A parte da quilha onde estava a machina, foi cortada em quadro e estava prompta para resvalar com a machina sustentando-a. Todo esse grupo assustador só estava preso por uma corrente, a qual dependia só de um golpe de lima. Tão perto do remate, a pressa era prudencia.
A maré estava baixa, o momento era bom.
Gilliatt, tinha conseguido desmontar a arvore das rodas, cujas extremidades podiam fazer obstaculo e impedir, aquelle levantar de ancora. Tinha conseguido amarrar vertical mente a pesada peça na propria machina.
Era tempo de acabar. Gilliatt, como dissemos, não estava cançado porque não queria, mas as suas ferramentas estavam. A forja tornava-se impossivel a pouco e pouco. A pedra que servia de bigorna tinha-se quebrado. O folles começava a trabalhar mal. Como a pequena queda hydraulica era de agua marinha, formaram-se depositos salinos nas junturas do apparelho e impediam-lhe o jogo.
Gilliatt foi á angra do Homem, passou revista ápançaassegurou-se de que tudo estava bom, particularmente as quatro argolas pregadas a bombordo e a estibordo, levantou a ancora e remando voltou com apançaás duas Douvres.
O intervallo das Douvres podia admittir apança.Havia bastante fundo e bastante largura. Gilliatt reconheceu, desde o primeiro dia, que podia-se levar apançaaté debaixo da Durande.
A manobra era comtudo excessiva, exigia uma precisão de joalheiro e esta inserção do barco no escolho era tanto mais delicada quanto que, para o que Gilliatt queria fazer, era necessario entrar pela pôpa com o leme na prôa. Era necessario que o mastro e os apparelhos dapançaficassem áquem do casco do vapor, do lado da entrada.
Este aggravo na manobra, tornou a operação difficil ao proprio Gilliatt. Já não era, como na angra do Homem, uma questão de movimento de leme; era preciso ao mesmo tempo entrar, puchar, remar e sondar. Gilliatt empregou nisso nada menos de um quarto de hora, mas conseguio.
Em quinze ou vinte minutos apançaficou collocada debaixo da Durande. Ficou quasi atravessada. Gilliatt por meio de duas ancoras, segurou apança.A maior ficou collocada de modo a trabalhar com o vento mais forte, que era o vento de oeste, depois por meio de uma alavanca e de um cabrestante, Gilliatt passou para apançaas duas caixas contendo as rodas desmontadas cujos cabos de guindar estavam promptos. As duas caixas fizeram lastro.
Desembaraçado das duas caixas, Gilliatt prendeu ao gancho da corrente do cabrestante o cabo regulador destinado a conter os guindastes.
Para a obra de Gilliatt os defeitos dapançatornavam-se qualidades; não tinha coberta, o carregamento achava mais fundo e podia pousar no porão. Era mastreada na prôa, muito na prôa talvez, o carregamento achava mais facilidade e o mastro ficava fóra da machina, de modo que nada impedia a sahida; era uma especie de concha, e nada mais estavel e solido no mar como uma concha.
De repente Gilliatt vio que a maré enchia. Tratou de ver donde soprava o vento.
Havia pouca brisa, mais vinha do oeste. É um máo costume de vento no equinoxio.
A maré enchente, conforme o vento que sopra, comporta-se diversamente no escolho Douvres. Conforme o vento, a onda entra naquelle corredor ou por leste ou por oeste. Se o mar entra por leste a agua é boa e molle, se entra por oeste é furiosa. A razão disto é que o vento de leste, vindo de terra tem pouco alento, emquanto que o vento de oeste, que atravessa o Atlantico, traz comsigo todo o sopro da immensidade. Mesmo quando a brisa é fraca assusta quando vem do oeste. Róla largas ondas da extençáo illimitada e cospe grossas vagas no estreito.
A agua que se engolpha é sempre terrivel. A agua é como a multidão; uma multidão é um liquido; quando a quantidade que póde entrar é menor que a quantidade que deseja entrar, a multidão machuca-se e a agua convulsiona-se. Emquanto sopra o vento do poente, ainda a mais fraca brisa, ha nas Douvres este assalto, duas vezes por dia. A maré levanta-se, a rocha resiste, a abertura é pequena, a onda entrando á força salta e ruge, e um marulho enraivecido bate as duas fachadas internas da viéla. De modo que as Douvres ao menor vento do oeste, offerecem este espectaculo singular: no mar, calma, no escolho, tempestade. Esse tumulto local e circumscripto, não é uma tormenta; é apenas uma revolta de vagas, mas terrivel. Quanto aos ventos do norte e do sul, esses fazem pouca ressaca na garganta do escolho. A entrada por leste, é preciso lembra-lo, confina com o rochedo Homem; a abertura temivel do oeste fica na extremidade opposta exactamente entre as duas Douvres.
Nessa abertura de oeste é que se achava Gilliatt com a Durande naufragada e apançaancorada.
Parecia inevitavel uma catastrophe, esta catastrophe imminente, tinha, embora pouco, o vento de que precisava.
Dentro de poucas horas o inchamento do mar que subia, ia naturalmente entrar em grande luta no estreito das Douvres. As primeiras vagas já começavam a rugir. Inchamento esse, refluxo impetuoso de todo o Atlantico que teria atraz de si a totalidade do mar. Nenhuma borrasca, nenhuma cólera; mas uma simples onda soberana, contendo em si uma força de impulsão que, partindo da America para chegar á Europa, tinha duas mil leguas de jacto. Essa onda, barra gigantesca do oceano, encontraria o hiate do escolho, e, apertada nas duas Douvres, torres de entrada, pilares do estreito, inchada pela maré, inchada pelo obstaculo, repellida pelo rochedo, castigada pelo vento, faria violencia ao escolho, penetraria, com todos os torções do obstaculo encontrado, e todos os frenesis da vaga entravada, entre as duas muralhas, encontraria apançae a Durande, e as estrangularia.
Era preciso um broquel contra essa eventualidade. Gilliatt tinha-o.
Cumpria impedir que a maré entrasse toda, impedir que esbarrasse embora enchesse, tapar-lhe a passagem sem recusar-lhe a entrada, resistir-lhe e ceder-lhe, previnir a compressão da onda na boca do rochedo, que era o perigo, substituir a irrupção pela introducção, conter a raiva e a brutalidade da vaga, obrigar aquella furia a ser tranquilla. Era preciso substituir ao obstaculo que irrita, o obstaculo que applaca.
Gilliatt, com a destreza que tinha, mais forte que a força, executando uma manobra de camello na montanha ou de macaco na floresta, utilisando com saltos oscilantes e vertiginosos a menor saliencia de pedra, pulando na agua, nadando nos rodomoinhos, trepando ao rochedo, com uma corda nos dentes, um martello na mão, desatou o cabo que prendia á pequena Douvre o pedaço da amurada de prôa da Durande, fez com as pontas da maroma uma especie de gonzos prendendo aquelle pedaço de madeira aos grandes pregos mettidos no granito, fez voltar naquelles gonzos aquella armadura de taboas semelhante ao alçapão de um dique, expôl-o em flanco, como se faz com um leme, á onda que impellia, e applicou essa extremidade á grande Douvre, emquanto os gonzos de cordas retinham na pequena Douvre a outra extremidade; operou na grande Douvre, por meio de prégos, postos do antemão, a mesma fixação que na pequena, amarrou solidamente essa vasta placa de madeira ao duplo pilar da abertura, travou nessa barra uma corrente como um talabarte n'uma couraça, e em menos de uma hora, levantou-se o obstaculo contra a maré, e a viella do escolho ficou fechada como por uma porta.
Este robusto tapamento, pesada massa de pranchas, que deitado seria uma jangada, e de pé era uma parede, foi, com auxilio da vaga, trabalhado por Gilliatt com uma agilidade de saltimbanco. Podia-se dizer quasi que a cousa foi feita antes que o mar se apercebesse disso.
Era um desses casos em que Jean Bart dizia o famoso dito que elle dirigia á vaga do mar, cada vez que esquivava um naufragio:Apanhei-te, inglez!Sabe-se que Jean Bart quando queria insultar o oceano chamava-oinglez.
Tapado o estreito, Gilliatt cuidou dapança.Dividio o cabo nas duas ancoras para que ella podesse subir com a maré. Operação analoga a que os antigos maritimos chamavam:mouiller avec des embossures.
Em tudo isto Gilliatt não foi sorprehendido, o caso estava previsto; um homem do officio reconhecel-o-hia vendo as duas roldanas de guindar mettidas por traz da pança, nas quaes passavam dous pequenos cabos cujas pontas estavam presas ás argolas das duas ancoras.
Entretanto crescia a maré; já subira metade; é nesse momento que os choques das ondas, mesmo placidos, podem ser rudes. O que Gilliatt combinára realisou-se. A onda rolava violentamente para a porta, encontrava-a, inchava epassava por cima. Fóra era o marulho. Dentro a infiltração. Gilliatt imaginou alguma cousa semelhante ás forcas caudinas do mar. A maré estava vencida.
Chegára o tremendo instante.
Tratava-se agora de pôr a machina napança.
Gilliatt ficou pensativo alguns momentos, tendo o cotovello do braço esquerdo na mão direita, e a fronte na mão esquerda.
Depois subio á Durande cuja metade, que era a machina, devia sahir e cujo casco devia ficar.
Cortou os quatro cabos que prendiam a estibordo e a bombordo as quatro correntes do cano. Como era corda bastou-lhe a faca.
As quatro correntes, livres, ficaram pendentes ao longo do cano.
Do navio subio elle ao apparelho que construira, bateu com o pé em todas as pranchas, examinou as roldanas, vio as polés, apalpou os cabos, verificou as emendas, assegurou-se de que o massame não estava profundamente molhado, certificou-se de que nada faltava, nem estava bambo, depois, pulando do alto das peças sobre o tombadilho, tomou posição, ao pé do cabrestante, na parte da Durande que devia ficar nas Douvres. Era esse o seu posto de trabalho.
Grave, sentindo sómente a commoção util, lançou um ultimo olhar ao apparelho, depois tomou uma lima e pôz-se a cortar a corrente que sustentava tudo.
Ouvia-se o ranger da lima no meio do murmurio do mar.
A corrente do cabrestante presa ao cabo regulador, ficava ao alcance da mão de Gilliatt.
De repente houve um estalo. A argola que a lima cortava, já limada por metade, tinha-se quebrado; todo o apparelho estava solto. Gilliatt teve apenas tempo de agarrar o grande cabo.
A corrente quebrada bateu no rochedo, os oito cabos retezaram-se, toda a massa cerrada e cortada desprendeu-se do navio, abrio-se o ventre da Durande, o assoalho de ferro da machina, pesando sobre os cabos, appareceu debaixo da quilha.
Se Gilliatt não tivesse chegado a tempo ao cabo regulador, havia uma queda. Mas a sua mão terrivel estava lá; foi apenas uma descida.
Quando o irmão de Jean Bart, Pieter Bart, aquelle bebado possante e sagaz, aquelle pobre pescador de Dunkerque que tratava o grande almirante por tu, salvou a galeraLangeronperdida na bahia de Ambleteuse, quando para tirar aquella pesada massa fluctuante dos cachopos da bahia furiosa amarrou a vella grande com juncos marinhos, quando elle quiz que os juncos, quebrando-se por si, abrissem a vella ao vento, fiou-se na rotura dos juncos, como Gilliatt na fractura da corrente, e foi a mesma estranha audacia coroada pela mesma victoria surprehendente.
A corda motora segura por Gilliatt operou admiravelmente. Devem lembrar-se que essa corda tinha por fim diminuir as forças convertidas em uma só e reduzidas a um movimento de conjuncto. Aquella corda tinha alguma relação com uma bolina; sómente em vez de onentar uma vela, equilibrava um machinismo.
Gilliatt de pé, e com a mão no cabrestante, tinha por assim dizer a mão no pulso do aparelho.
Aqui a invenção de Gilliatt, manifestou-se toda.
Produzio-se uma notavel coincidencia de forças.
Emquanto a machina da Durande, separada em massa, descia para apança, apançasubia para a machina. O navio naufragado e o barco salvador, ajudando-se em sentido inverso, iam encontrando-se. Poupavam-se deste modo metade do trabalho.
A maré enchendo sem rumor entre as duas Douvres, levantava a embarcação e aproximava-a da Durande. A maré estava mais que vencida, estava domesticada. O oceano fazia parte do machinismo.
A vaga subindo, levantava apançasem choque, brandamente, quasi com precaução e como se ella fosse de porcellana.
Gilliatt, combinava e proporcionava os dous trabalhos, o da agua e o do apparelho, e, immovel no cabrestante, especie de estatua temivel obedecida por todos os movimentos ao mesmo tempo, regulava a lentidão da descida pela lentidão da subida.
Nenhum abalo na agua, nenhum balanço nas pranchas. Era uma estranha collaboração de todas as forças naturaes dominadas. De um lado a gravitação levava a machina; do outro a maré trazia o barco. A attracção dos astros, que é o flux, e a attracção do globo, que é a gravidade, pareciam harmonisar-se para servir a Gilliatt. A sua subordinação, não tinha hesitação nem parada, e, debaixo da pressão de uma alma, aquellas duas potencias passivas, tornavam-se activos auxiliares. A obra caminhava de minuto a minuto; o intervallo entre apançae a Duraude diminuia insensivelmente. Fazia-se a aproximação em silencio e com uma especie de terror pelo homem que estava alli. O elemento recebia uma ordem e executava-a.
Quasi no momento em que a maré cessou de subir, os cabos cessaram de correr subitamente, mas sem commoção; as roldanas pararam. A machina, como se fosse collocada á mão assentou-se no fundo dapança.Estava direita, de pé, immovel, solida. A placa que a sustentava apoiava-se com os seus quatro angulos e aprumo no porão.
Estava prompto.
Gilliatt olhou attonito.
A pobre creatura não tinha tido muitas alegrias em sua vida. Sentio o alquebramento de uma immensa felicidade. Dobravam-se-lhe os membros; e diante do seu triumpho, elle que não se perturbara até então, começou a tremer.
Contemplou apançadebaixo do navio e a machina dentro dapança.Parecia não acreditar. Dissera-se que elle não contava com aquillo. Sahira-lhe um prodigio das mãos, e elle contemplava-o com espanto.
Mas esse espanto durou pouco.
Gilliatt teve o movimento de um homem que desperta, travou da serra, cortou os oito cabos, depois, separado agora dapançaapenas uns dez pés, deu um salto, cahio dentro, pegou em um rolo de fio, fez quatro cabos, passou-os nas argolas preparadas de antemão, e prendeu por ambos os lados dapança, as quatro correntes do cano que uma hora antes ainda estavam presas na amurada da Durande.
Amarrado o cano, Gilliatt desembaraçou a parte superior da machina. Um pedaço do tombadilho da Durande ainda alli estava preso. Gilliatt, despregou-o e limpou apançadaquella porção de taboas e vergas que atirou sobre os rochedos. Util allivio.
Demais, como é de prever apançasustentou com firmeza a carga da machina. Mergulhou muito pouca cousa. A machina da Durande, embora massiça, era menos pesada que o montão de pedras e o canhão trazidos outrora de Herm pelapança.
Tudo estava acabado. Só restava ir-se embora.
Nem tudo estava acabado.
Abrir a entrada das Douvres, fechada pelo pedaço da amurada da Durande, e levar immediatamente apançapara fóra do escolho, nada mais claro do que isto.
No mar todos os minutos são urgentes. Pouco vento, apenas uma ruga ao longe; a bella tarde promettia uma bella noite. O mar era de rosas, mas o reflux começava; excellente momento para partir. Gilliatt teria a vasanto para sahir das Douvres, e a enchente para entrar era Guernesey. Podia estar em Saint-Sampson de madrugada.
Mas apresentou-se um obstaculo inesperado, Houve uma lacuna na providencia de Gilliatt.
A machina estava livre, o cano estava preso.
A maré approximando apançada Durande, tinha diminuido os perigos da descida; mas essa diminuição de intervallo deixou a parte superior do cano mettida na especie de quadro que apresentava o bojo aberto da Durande. O cano estava preso como entre quatro paredes.
O serviço prestado pelo mar complicava-se com esta dissimulação. Parece que o mar, obrigado a obedecer, teve uma segunda tenção.
É verdade que aquillo que a enchente fizera, ia desfazel-o a vasante.
O cano, tendo mais de tres toezas de altura, tinha uns oito pés mettidos na Durande; o nivel d'agua abi baixaria doze pés; o cano descendo com apança, teria quatro pés de espaço acima de si, e poderia sahir.
Mas quanto tempo era preciso para isto? Seis horas.
D'ahi a seis horas seria meia-noite. Que meio tentaria Gilliatt para sahir áquella hora, que canal tomaria atravez daquelles cachopos, já tão inextrincaveis de dia, e como arriscar-se no meio da noite em semelhante emboscada de bancos de pedras?
Era força esperar até o dia seguinte. Aquellas seis horas perdidas faziam perder ao menos doze horas.
Era mesmo necessario não adiantar trabalho abrindo a entrada ao cachopo. O tapamento era preciso até a maré proxima.
Gilliatt devia repousar.
Cruzar os braços, era a unica cousa que elle não tinha feito desde que estava no escolho Douvres.
Irritou-o, indignou-o quasi, como se fosse culpa delle, aquelle descanso. Disse comsigo: Que pensaria de mim Deruchette se me visse aqui sem fazer nada?
Comtudo não lhe era inutil refazer as forças.
Estando apançaá sua disposição, Gilliatt resolveu passar a noite á bordo.
Foi buscar a pelle de carneiro no alto da grande Douvre, desceu, comeu algumas conchas e duas ou tres castanhas do mar, bebeu por ter muita sede os ultimos goles da agua doce do pichel quasi vasio, embrulhou-se na pelle cuja lã deu-lhe prazer ao corpo, deitou-se como um cão de guarda ao pé da machina, abaixou o chapéo sobre os olhos e adormeceu.
Dormio profundamente. Tem-se daquelles somnos depois das obras acabadas.
No meio da noite, bruscamente, e como por mola, Gilliatt acordou.
Abrio os olhos.
As Douvres, acima da cabeça delle, estavam illuminadas como pela reverberação de uma grande brasa branca. Havia em toda a fachada negra do escolho um reflexo de fogo.
D'onde vinha o fogo?
Da agua.
O mar estava extraordinario.
Parecia que a agua incendiava-se. Aonde os olhos alcançavam, no escolho e fora do escolho, flammejava o oceano. Não era uma flamma vermelha; não se parecia com a grande flamma viva das crateras e das fornalhas. Nenhuma crepitação, nenhum ardor, nenhum avermelhado, nenhum ruido. Rastilhos azulados imitavam n'agua as dobras de uma mortalha. Um grande clarão livido, estremecia n'agua. Não era incendio; era o espectro delle.
Era uma cousa semelhante ao abrazamento livido do interior de um sepulchro por uma chamma ideal.
Imaginai trevas accesas.
A noite, a vasta noite turva e diffusa, parecia ser um combustivel daquelle fogo gelado. Era uma claridade feita de cegueira. A sombra entrava como elemento naquella luz phantasma.
Os marinheiros da Mancha, conhecem todas essas indescriptiveis phosphorescencias, que advertem o navegante. Em parte alguma são mais surprehendentes, do que no Grande V, perto de Isigny.
Diante desta luz as cousas perdem a realidade. Uma penetração phantastica toma-as como que transparentes. Os rochedos são apenas lineamentos. Os cabos das ancoras parecem barras de ferro ardentes. As redes dos pescadores parecem um crivo de fogo debaixo d'agua. Metade do remo é de ebano, a outra metade debaixo d'agua é de prata. Os pingos d'agua que cahem dos remos fazem estrellas no mar. Todos os barcos arrastam um cometa. Os marinheiros molhados e luminosos parecem homens que ardem. Mergulha-se a mão no mar e sahe calçada de chamma: é uma chamma morta, não se sente. O braço parece um tição aceso. Vê-se as formas que estão no mar rolarem debaixo das vagas alumiadas. A espuma scintilla. Os peixes são linguas de fogo, e uns pedaços de relampago serpenteam n'aquella pallida profundidade.
Gilliatt acordou porque o clarão atravessou-lhe as palpebras fechadas.
Acordou a tempo.
A maré tinha descido; começava a encher de novo.
O cano da machina, solto durante o somno de Gilliatt, ficou outra vez preso no casco do navio.
Subia lentamente.
Mais palmo e meio e o cano estaria dentro da Durande.
Para isso ainda havia meia hora. Gilliatt se quizesse aproveitar a occasião tinha essa meia hora diante de si.
Levantou-se sobresaltado.
Por mais urgente que fosse a situação, elle não pôde deixar de ficar alguns instantes de pé, contemplando a phosphorescencia e meditando.
Gilliatt conhecia o mar a fundo. Embora tivesse sido muito maltratado por elle, o mar era já de muito tempo companheiro de Gilliatt. Aquelle ente mysterioso que se chama oceano, não podia ter nenhuma idéa que Gilliatt não a adevinhasse. Gilliatt, á força de observação, de scisma e de solidão, tornára-se um vidente do tempo, aquillo que se chama em inglez umwheater wise.
Gilliatt correu ás amarras e guindou-as; depois já não estando retido pelas ancoras, travou do croque dapança, e apoiando-se nas rochas affastou-a para fóra algumas braças distante da Durande perto do tapamento de taboas. Haviarang, como dizem os maritimos de Guernesey. Em menos de dez minutos apançaestava fóra do casco. Já não havia receio de que o cano podesse ficar preso.
Entretanto Gilliatt, não se mostrava disposto a partir.
Contemplou ainda a phosphorescencia e levantou as ancoras; mas não era para navegar, era para ancorar de novo apança, e muito solidamente; é verdade que o barco ficou junto da porta.
Até então só tinha usado das duas ancoras dapança, e não tinha ainda empregado a pequena ancora da Durande, achada como se sabe nos cachopos. Essa collocou-a elle, prompta para as urgencias, num canto dapançaentre maromas e polés, e juntamente o cabo guarnecido de boças. Gilliatt deitou ao mar essa terceira ancora tendo cuidado de prender o cabo a outro cabo pequeno, cuja ponta passava na argola da ancora ficando a outra ponta no ferro de guindar. Deste modo amarrou apançacom tres ancoras o que era mui forte. Indicava isto uma viva preoccupação e um redobrar de cautelas. Qualquer marinheiro reconheceria nessa operação, alguma cousa semelhante a um deitar ferros obrigado, quando ha a receiar uma corrente que possa fazer garrar o navio.
A phosphorescencia sobre a qual Gilliatt tinha os olhos fixos, ameaçava-o talvez, mas ao mesmo tempo servia-o. Se não fosse ella, Gilliatt era prisioneiro do somno e victima da morte. Ella não só o dispertou, senão que o alumiava tambem.
Havia no escolho uma luz opaca. Mas esse clarão, por mais assustador que parecesse a Gilliatt, foi-lhe util porque tornou-lhe o perigo visivel e a manobra possivel.
Agora quando Gilliatt quizesse abrir vella, apança, carregando a machina, estava livre.
Sómente, Gilliatt parecia pensar cada vez menos em partir. Ancorada a pança, foi elle buscar a mais forte corrente que tinha no deposito e prendeu-a nos pregos mettidos nas duas Douvres, fortificou com ella o baluarte de vergas e barrotes já protegido pela lado de fora pela outra corrente. Longe de abrir caminho, Gilliatt tapava-o.
A phosphorescencia ainda illuminava, mais ia diminuindo. É verdade que o dia começava a romper.
De repente Gilliatt prestou ouvidos.
Pareceu-lhe ouvir, immensamente longe, um quê fraco e indistincto.
As profundezas, em certas horas, tem um certo rugido.
Gilliatt attentou pela segunda vez. O rumor longiquo recomeçou. Gilliatt sacudio a cabeia como quem sabia o que era.
Momentos depois, estava elle na outra extremidade da viella do escolho, na entrada de leste, livre até alli, e com grandes martelladas, metteu grossos prégos no granito dos portaes daquella abertura visinha do rochedo Homem.
Os buracos desses rochedos estavam preparados e guarnecidos de cavilhas de madeira, quasi tudo carvalho. O escolho desse lado estava escalavrado, tinha muitas fendas, e Gilliatt pôde metter ahi mais pregos ainda que no esvasamento das Douvres.
N'um momento dado, e como se lhe soprassem de cima, a phosphorescencia apagou-se; o crepusculo, cada vez mais luminoso, substituia-a.
Mettidos os pregos, Gilliatt arrastou umas pranchas, depois cordas, depois correntes, e sem desviar os olhos do trabalho, sem se distrahir um momento, começou a construir na abertura do Homem, com taboas fixadas horisontalmente e presas por cabos, um desses tapamentos de claraboia, que a sciencia já adoptou, e qualifica de quebra-mar.
Os que viram, por exemplo, na Rocquaine em Guernesey, ou no Boury-d'eau em França, o effeito que fazem algumas estacas pregadas no rochedo, comprehendem a força desses trabalhos simplices. O quebra-mar é a combinação daquillo que em França se chamaepi, e daquillo que na Inglaterra se chamadick.O quebra-mar são os cavallos de frisa das fortificações contra as tempestades. Não se póde lutar contra o mar senão aproveitando a divisibilidade dessa força.
Entretanto levantara-se o sol, perfeitamente puro. O dia estava claro, o mar calmo.
Gilliatt apressava o trabalho. Tambem elle estava calmo, mas na sua pressa havia anciedade.
Passava, em grandes pulos de rocha em rocha, do tapamento ao deposito e do deposito ao tapamento. Voltava puxando apressadamente, ora um gancho, ora um cabo. Manifestou-se então a necessidade daquelle deposito de destroços. Era evidente que Gilliatt estava diante de uma eventualidade prevista.
Uma forte barra de ferro servia-lhe de alavanca para mover os barrotes.
O trabalho executava-se tão depressa que mais parecia um crescimento que uma construcção. Quem não vio trabalhar um postageiro militar não póde fazer idéa daquella rapidez.
A abertura de leste era ainda mais estreita que a de oeste. Tinha apenas cinco ou seis pés de largura. A estreiteza ajudava Gilliatt. Sendo estreito o espaço que tinha de fortificar e fechar, a armadura seria mais solida e podia ser mais simples. Bastavam pois vigas horisontaes; as peças verticaes eram inuteis.
Postos os primeiros travessões do quebra-mar, Gilliatt trepou em cima e escutou.
O rugido tornava-se expressivo.
Gilliatt continuou a construcção. Accrescentou-lhe dous cepos da Durande ligados ás pontas das vigas com adrissas passadas nas tres rodas das polés. Ligou tudo com correntes.
Essa construcção era nada menos que uma especie de grade collossal; as pranchas eram as tenazes e as correntes eram os vimes.
Parecia entrançado como parecia construido.
Gilliatt multiplicou os laços e pôz mais prégos onde era preciso.
Tendo muito ferro redondo na Durande, pôde fazer uma grande provisão desses pregos.
Ao mesmo tempo que trabalhava ia mastigando biscouto. Tinha sede, mas não podia beber, por já não ter agua doce. Esgotára o pichel na noite anterior.
Accrescentou ainda quatro ou cinco taboas, depois trepou em cima de tudo. Escutou.
Cessou o rumor ao longe e calava-se tudo.
O mar estava manso e soberbo; merecia todos os madrigaes que lhe dirigem os burguezes quando estão contentes com elle,—um espelho,—um mar de rosas,—um tanque,—um mar de leite.—O azul profundo do céo correspondia ao verde profundo do oceano. Aquella saphira e aquella esmeralda podiam admirar-se ambas. Não tinham de que exprobrar-se. Nenhuma nuvem em cima, nenhuma espuma em baixo. No meio desse esplendor subia magnificamente o sol de Abril. Era impossivel ver mais bello dia.
No extremo horisonte uma fila negra de aves de arribação atravessava o céo. Iam depressa. Dirigiam-se para a terra. Parecia uma fuga.
Gilliatt continuou a levantar o quebra-mar.
Levantou-o o mais que pôde, tão alto como lhe permittio a curvatura dos rochedos.
Ao meio-dia o sol pareceu-lhe mais quente do que devia estar. Meio-dia é a hora critica do dia. Gilliatt, de pé na robusta clara-boia que acabava de construir, entrou a contemplar a extensão.
O mar estava mais que tranquillo, estava estagnado. Não se via uma vela. O céo estava limpido; somente o azul tornara-se mais branco. Era um branco singular. No horisonte, a oeste, havia uma manchasinha de apparencia ruim. Essa mancha estava immovel, mas crescia. Junto dos cachopos o mar palpitava brandamente.
Gilliatt fizera bem em construir o quebra-mar.
Approximava-se uma tempestade.
O abysmo resolvera dar batalha.