Nada tão ameaçador como o equinoxio que retarda.
Ha no mar um phenomeno medonho que se póde chamar a chegada dos ventos do largo.
Em todas as estações, especialmente na época das syzygias, no momento em que menos se espera, o mar apresenta uma subita e estranha tranquillidade. Applaca-se aquelle prodigioso movimento continuo; cahe em madorna e languidez; parece que vai descançar: crer-se-hia que está fatigado. Todos os trapos marinhos, desde as flamulas de pesca, até ás insignias de guerra, pendem ao longo dos mastros. Os pavilhões almirantes, reaes, imperiaes, dormem todos.
De repente esses pannos começam a mexer-se discretamente.
É a hora, se ha nuvens, de espreitar a formação doscirrus; se o sol se põe, é a hora de examinar a côr da tarde; se é de noite e ha luar, é a hora de estudar as aureolas planetarias.
Nessa hora, o capitão ou chefe de esquadra que tem a fortuna de possuir um desses vidros de tempestade cujo inventor não se conhece, observa o vidro com o microscopio e toma as suas precauções contra o vento do sul, se a mistura tem aspecto de assucar fundido; e contra o vento do norte, se a mistura se esfolha em crystallisações semelhantes aos tuffos de hervas ou aos bosques de pinheiro. Nessa hora, depois de ter consultado o gnomon mysterioso gravado pelos romanos, ou pelos demonios, n'uma dessas estreitas pedras enigmaticas que na Bretanha se chama menhir, e na Irlanda cruach, o pobre pescador irlandez ou bretão retira a sua barça do mar.
Persiste entretanto a serenidade do céo e do oceano. A manhã rompe radiosa e a aurora sorri, o que enchia de religioso horror os antigos poetas e os antigos adevinhos, assustados de que se podesse crer na deslealdade do sol.Solem quis dicere falsum audeat.
A sombria visão do possivel latente é interceptada ao homem pela opacidade fatal das cousas. O mais temivel e o mais perfido aspecto é a mascara do abysmo.
Diz-se:anguis in herba; devia dizer-se:borrasca na calma.
Assim se passam horas, e ás vezes dias. Os pilotos assestam os seus oculos. O rosto dos velhos marinheiros tem um ar de severidade que se prende á colera secreta da expectação.
De subito ouve-se um grande murmurio confuso. Ha uma especie de dialogo mysterioso no ar.
Não se vê cousa alguma.
A extensão fica impassivel.
Entretanto o rumor cresce, engrossa, eleva-se. Accentua-se o dialogo.
Ha alguem por traz do horisonte.
Pessoa terrivel essa, é o vento.
O vento, isto é, a populaça de titães que chamamos Tufões.
Immensa plebe da sombra.
A India chamava-os Morouts, a Judéa Keroubins, a Grecia Aquilões. São os invisiveis passaros ferozes do infinito. Esses Boreas precipitam-se.
Donde vem elles? Do incomensuravel. Os seus grandes vôos exigem o diametro do golphão. As suas azas desmedidas precisam das solidões indefinidas. O Atlantico, o Pacifico, essas vastas aberturas azues, eis o que lhes convém. Fazem-n'as sombrias. Voam em bandos. O commandante Page vio de uma vez no mar alto, sete trombas a um tempo. Ahi são medonhas. Premeditam os desastres. Tem por trabalho delles o entumecimento ephemero e eterno dos vagalhões. Ignora-se o que elles podem, desconhece-se o que elles querem. São as sphynges do abysmo; e Vasco da Gama é o seu Œdipo. Faces de nuvens apparecem nessa obscuridade da extensão sempre em movimento. Quem descobre os seus lineamentos lividos nessa dispersão que é ohorisonte do mar sente-se em presença da força irreductivel. Dissera-se que a intelligencia humana os assusta, e eriçam-se contra ella. A intelligencia é invencivel, mas o elemento é indomavel. Que fazer contra a ubiquidade que se não sujeita? O vento faz-se massa e torna-se vento outra vez. Os ventos combatem esmagando e defendem-se esvaindo-se. Quem depara com elles só póde lançar mão de expedientes. Elles frustam-nos pelo assalto diverso e repercutido. Tanto atacam como fogem. São os impalpaveis tenazes. Como vence-los? A prôa do navio Argo, esculpida em um carvalho de Dodona, ao mesmo tempo prôa e piloto, costumava fallar-lhes. Elles maltratavam aquella prôa deosa. Christovão Colombo, vendo-os vir de encontro áPintasubio ao tombadilho e dirigio-lhes os primeiros versiculos do Evangelho de S. João. Surcouf insultava-os.Ahi vem a pandilha, dizia elle. Napier descarregava-lhes tiros em cima. Elles tem a dictadura do chaos.
Tem o chaos. Que fazem delle? Fazem uma cousa implacavel. A cova dos ventos é mais monstruosa que a cova dos leões. Quantos cadaveres debaixo dessas dobras sem fundo! Os ventos empurram sem piedade a grande massa obscura e amarga. A gente os ouve sempre, mas elles não ouvem a ninguem. Commettem cousas que parecem crimes. Não se sabe sobre quem atiram elles os punhados brancos de espuma. Que ferocidade impia no naufragio! Que affronta á Providencia! Ás vezes parecem que cospem em Deos. São os tyrannos dos lugares desconhecidos.Luoghi spaventosi, murmuravam os marinheiros de Veneza.
Os espaços tremulos supportam os seus ataques. É inesprimivel o que se passa nesses grandes abandonos. Mistura-se á sombra um elemento equestre. O ar faz um rumor de floresta. Não se vê nada, mas ouve-se um ruido de cavallos. É meio dia, de subito anoitece; passa umtornado; é meia noite, de repente esclarece, accende-se o effluvio polar. Alternam em sentido inverso os turbilhões, especie de dansa hedionda, tripudeo dos flagellos sobre o elemento. Quebra-se pelo meio uma pesada nuvem, e os pedaços vão precipitar-se no mar. Outras nuvens purpureadas, illuminam e roncam, depois escurecem lugubremente; a nuvem esvasiada de raio, é carvão apagado. Saccos de chuva rompem-se em bruma. Fornalha em que chove, onda que vomita luz. As alvuras do mar debaixo do aguaceiro illuminam sorprehendentes quadros; desfiguram-se espessuras onde se reproduzem as semelhanças. Monstruoso umbigo vai rompendo as nuvens. Volteam os vapores, saracoteam as vagas; rolam embriagadas as nayades; a perder de vista, o mar massiço e mole move-se sempre sem jamais deslocar-se; tudo é livido; desesperados gritos sobem desse palor.
No fundo da obscuridade inaccessivel tremem grandes germens de sombra. De quando em quando ha paroxismo. O rumor torna-se tumulto, do mesmo modo que a vaga se torna marulho. O horisonte, superposição confusa de vagas, oscillação sem fim, murmura continuamente; alli arrebentam extranhamente uns arremeços de fracaço; parece-se ouvir as hydras espirrando; sopram palitos frios, seguem-se halitos quentes. A trepidaçãodo mar annuncia um medo que tudo espera. Inquietação. Angustia. Terror profundo das aguas. Subitamente, o furacão, como uma besta, desce a beber no oceano; sorvo inaudito, a agua sóbe para a boca invisivel, fórma-se uma ventosa, incha o tumor; é a tromba, o Prester dos antigos, stalactite em cima, stalagmite em baixo, duplo cone inverso girante, uma ponta equilibrada em cima de outra, beijo de duas montanhas, uma montanha de espuma que se levanta, uma montanha de nuvem que desce; coito medonho da vaga e da sombra. A tromba, como a columna da Biblia, é tenebrosa de dia e luminosa de noite. Diante da tromba cala-se o trovão. Parece que tem medo.
Ha uma escala na vasta turvação das solidões; temivelcrescendo; a brisa, a lufada, a borrasca, o temporal, a tormenta, a tempestade, a tromba; as sete cordas da lyra do vento, as sete notas do abysmo. O céo é uma largura, o mar é um arredondado; passa um vento, já não ha nada disso, tudo é furia e confusão.
Taes são aquelles severos sitios.
Os ventos correm, voam, abatem-se expiram, revivem, pairam, assoviam, rugem, riem: freneticos, lascivos, desvairados, tomam conta da vaga irascivel. Tem harmonia esses berradores. Tornam sonoro todo o céo. Sopram nas nuvens como n'um metal; embocam o espaço, e cantam no infinito, com todas as vozes amalgamadas dos clarins, buzinas e trombetas, uma especie de tangeres prometheanos. Quem os ouve, ouve Pan.que mais assusta é vêl-os assim. Tem uma colossal alegria composta de sombra. Fazem nas solidões a batida dos navios. Sem tregoas, noite dia, em todas as estações, no tropico como no polo, tocando a trombeta delirante, vão elles, por meio do travamento da nuvem e da vaga, fazendo a grande caça negra dos naufragios. São os donos das matilhas. Divertem-se. Fazem ladrar as ondas, que são os seus cães, contra as rochas. Combinam e desunem as nuvens. Amassam como se tivessem milhões de mãos, a flexibilidade da agua immensa.
A agua é flexivel porque é incompressivel. Resvala debaixo do esforço. Apertada por um lado, escapa por outro. É assim que a agua se faz onda. A vaga é a sua liberdade.
A grande approximação dos ventos para a terra faz-se nos equinoxios. Nessas épocas o grande balanço do tropico e do polo, e a collossal maré atmospherica derrama o seu flux em um hemispherio, e o reflux em outro. Ha constellações que significam esses phenomenos. Libra e Aquario.
É a hora das tempestades.
O mar espera silencioso.
Ás vezes o céo tem feio aspecto. Fica baço, e como que coberto por um grande panno obscuro; os marinheiros contemplam anciosos o ar opprimido de sombra.
Mas o que elles mais temem é o ar alegre. Céo risonho no equinoxio é a tempestade com pés delã. Com céos desses, a Torre das Carpideiras de Amsterdão enchia-se de mulheres que examinavam o horizonte.
Quando se demora a tempestade invernal ou outonal é que está ajuntando uma massa ainda maior. Enthesoura para destruir. Desconfia da acumulação de juros. Ango dizia:O mar é bom pagador.
Quando a demora é demasiado longa, o mar trahe a sua impaciencia pela calma. Sómente a tenção magnetica se manifesta naquillo que se póde chamar a inflamação da agua. Rompem clarões da vaga. Ar electrico, agua phosphorica. Os marinheiros sentem-se estafados. É uma hora especialmente perigosa para os encouraçados; o casco de ferro póde produzir falsas indicações da bussola e perdel-os. Assim pereceu o paquete transatlanticoYowa.
Para os que estão familiarisados com o mar, o seu aspecto nesses momentos é extranho; dissera-se que o mar deseja e receia o cyclone. Certos hymeneus, aliás impostos pela natureza, são acolhidos assim. A leôa desejosa foge diante do leão. Tambem a agua tem o seu calor, e dahi lhe vem o estremecimento.
Vae realisar-se o immenso consorcio.
Este consorcio, como as nupcias dos antigos imperadores, celebra-se com exterminações. É uma festa temperada de desastres.
Attenção, ahi vem o facto equinoxial.
Conspira a tempestade. A velha mythologia entrevia essas personalidades indistinctas misturadas ágrande natureza diffusa. Eolo harmonisa-se com Boreas. O accordo do elemento com o elemento é necessario. Distribuem entre si a tarefa. Ha impulsões para a vaga, para a nuvem, para o effluvio; a noite é um auxiliar; deve ser empregada. Ha bussolas para desviar, pharóes para apagar, estrellas para esconder. É preciso que o mar coopere. Todas as tempestades são precedidas de um murmurio. Por traz do horisonte ha o cochicho prévio dos furacões.
É o que se ouve, na obscuridade, ao longe, por cima do silencio assustado do mar.
Gilliatt ouvio esse chochichar tremendo. A phosphorescencia foi a primeira advertencia; o rumor foi a segunda.
Se existe o demonio Legião, esse demonio é o Vento, com certeza.
O vento é multiplo, mas o mar é um.
Dahi esta consequencia: toda tempestade é mixta. A unidade de ar o exige.
Abismo implica tempestade. O oceano inteiro está n'uma borrasca. A totalidade das suas forças entra em linha e toma parte nella. Uma vaga é o golphão de baixo; um tufão é o golphão de cima. Lutar com uma tempestade é lutar com o mar inteiro e o céo inteiro.
Messier, o homem da marinha, o astronomo pensativo da choça de Clerny, dizia:O vento de toda a parte está em todas as partes.Elle não acreditava nos ventos presos, mesmo nos mares fechados. Para elle não haviam ventos mediterraneos. Dizia que os conhecia na passagem. Affirmava que em tal dia,a tal hora, o Fohn do lago de Constança, o antigo Favonio de Lucrecio, atravessara no horisonte de Paris; em outro dia era o Bora do Adriatico; em outro era o Noto giratorio que se pretende estar encerrado nas Cyclades. Especificava os effluvios. Não pensava que o vento que gira entre Malta e Tunis, e o vento que gira entre a Corsega e as Baleares, estivessem na impossibilidade de se libertarem. Não admittia os ventos, como ursos, fechados em jaula. Dizia: «Todas as chuvas vem do tropico, e todos os raios do polo.» O vento, com effeito, satura-se de electricidade na intercessão dos coluros, que marca as extremidades do eixo, e da agua no equador; traz-nos da linha o liquido e dos polos o fluido.
Ubiquidade é o vento.
Não quer isto dizer que não existam as zonas dos ventos. Nada mais demonstrado que as correntes continuas, e dia virá em que a navegação aérea, servida pelos navios do ar (air-navires) que chamamos, por mania de grego, aeroscaphos, utilisará as linhas principaes. A canalisação do ar pelo vento é incontestavel; ha rios de vento, ribeiros de vento, riachos de vento; sómente ao invez das ramificações da agua, são os riachos que sahem dos ribeiros, e os ribeiros que sahem dos rios, em vez de serem affluentes: em vez de concentração, dispersão.
Essa disposição é que faz a solidariedade dos ventos e a unidade da atmosphera. Uma molecula deslocada desloca outra molecula. Os ventos agitam todos juntos. A estas profundas causas do amalgama,acrescentai o relevo do globo, rasgando a atmosphera com todas as suas montanhas, fazendo nós e torções nas carreiras do vento e determinando em todos os sentidos as contra-correntes. Irradiação illimitada.
O phenomeno do vento é a oscilação de dous oceanos um sobre outro; o oceano do ar, sobreposto ao oceano de agua, apoia-se nessa fuga e vacilla nessa vacillação.
O indivisivel não usa compartimentos. Não ha tabique entre uma onda e outra. As ilhas da Mancha sentem o empurrão do Cabo de Boa Esperança. A navegação universal faz frente a um monstro unico. Todo o mar é uma só hydra. As vagas cobrem o mar de uma especie de escama. Oceano é Ceto.
Nessa unidade abate-se o inumeravel.
Para a bussola ha trinta e dous ventos, isto é, trinta e duas direcções; mas essas direcções podem subdividir-se indefinidamente. O vento classificado por direcções, é o incalculavel; classificado por especies, é o infinito.
Homero recuaria ante esse recenceamento.
A corrente polar roça na corrente tropical. Eis o frio e o calor combinados, o equilibrio começa pelo choque, sahe a onda dos ventos, inchada, esparsa e toda dilacerada em jorros medonhos. A dispersão dos tufões sacode nos quatro cantos do horisonte o prodigioso esgadelhado do ar.
Ahi estão todos os rumos; o vento de Gulf-Stream que despeja tanta nevoa na Terra Nova: o vento do Perú, região de céo mudo onde jamaisse ouviram trovoadas; o vento da Nova Escocia onde vôa o grande Auk,Alca impennis, de bico riscado; os turbilhões de Ferro dos mares da China; o vento de Moçambique que maltrata os juncos; o vento electrico do Japão denunciado pelo gong; o vento da Africa que habita entre a montanha da Mesa e a montanha do Diabo, e que se desencadea dahi; o vento do equador que passa por cima dos ventos regulares, e traça uma parabola cujo cimo fica a oeste; o vento plutonico que sahe das crateras e que é o temivel sopro das chammas; o extranho vento proprio do volcão Awa que faz sempre surgir do norte uma nuvem azeitonada; a monção de Java, contra a qual estão construidas aquellas casamatas chamadascasas do furacão; a brisa ramificada que os inglezes chamambusk, bebida; os grãos arqueados do estreito de Malaca observados por Horsfurgh; o possante vento de sudoeste, chamado Pampero no Chile, e Rebojo em Buenos-Ayres, que carrega o condor em pleno mar e o salva da cova onde o esperava, debaixo de uma pelle de boi arrancada de fresco, o selvagem deitado de costas e retesando o arco com os pés; o vento chimico que, segundo Lemery, faz nas nuvens pedras de trovoada; o hermatan do Caffres; o sopra-neves polar, que se prende aos eternos gelos e os arrasta; o vento do golpho de Bengala que vai até Nijni-Novogorod devastar o triangulo das barracas de pão onde se faz a feira da Asia; o vento das cordilheiras, agitador das grandes vagas e das grandes florestas; o vento dos archipelagos da Australia onde os caçadores de mel arrancamas colmêas silvestres escondidas nos galhos do eucalyptus gigante; o sirocco; o mistral; o hurricana; o vento de secca; os ventos de innundação; os diluvianos; os torridos; os que lançam nas ruas de Genova a poeira das planicies do Brazil; os que obedecem á rotação diurna; os que a contrariam e fazem dizer a Herrera:Malo viento torna contra el sol; os que vão aos pares, para destruir, desfazendo um o que o outro faz; e aquelles ventos antigos que assaltaram Colombo na costa de Veraguas; e os que durante quarenta dias, desde 21 de Outubro a 28 de Novembro de 1520, puzeram em questão Magalhães abordando o Pacifico, e os que desfizeram a Armada, e sopraram sobre Philippe II.
Outros ventos mais, e como achar-lhes o fim? Os ventos carregadores de sapos e gafanhotos que sopram nuvens e bichos por cima do oceano; os que operam o que se chamasalto de ventoe que tem por tarefa acabar com os naufragos; os que, com um sopro unico, deslocam a carga do navio e o obrigam a continuar viagem todo inclinado; os ventos que construem os circumcumuli; os ventos que construem os circumstrati; os pesados ventos cegos, tumidos de chuva; os ventos do graniso; os ventos da febre; os ventos cuja approximação faz ferver os salsos e os solfatarios de Calabria; os ventos que fazem brilhar o pello das pantheras de Africa andando nos espinheiros do cabo de Ferro; os que vem sacudindo fóra da sua nuvem, como uma lingoa trigonocephala, o temivel relampago de forquilha; os que trazem neves negras. Tal é o exercito.
O escolho Douvres, no momento em que Gilliatt construia o quebra-mar, ouvia-lhes o galopo longinquo.
Já o dissemos, o Vento compõe-se de todos os ventos.
Acercava-se toda aquella horda.
De um lado, essa legião.
Do outro, Gilliatt.
As mysteriosas forças escolheram bem o momento.
O acaso, se é que existe, é habil.
Emquanto apançaesteve guardada na angra do Homem, emquanto a machina esteve mettida no casco da Durande, Gilliatt foi inexpugnavel. Apançaestava em segurança, a machina estava abrigada; as Douvres, que sustentavam a machina, condemnavam-n'a a uma destruição lenta, mas protegiam-n'a contra uma surpreza. Em todos os casos, ficava a Gilliatt um recurso. A machina destruida não destruia a Gilliatt. Tinha apançapara salvar-se.
Mas esperar que apançaestivesse fóra do ancoradouro, onde era inaccessivel, deixal-a pôr entre as Douvres, esperar que ella lá estivesse presa tambem pelo escolho, consentir que Gilliatt operasse o salvamentoe o transporte da machina, não impedir esse maravilhoso trabalho, consentir nesse triumpho, esse era o laço. Via-se agora, como uma especie de lineamento sinistro, a sombria astucia do abysmo.
Agora, a machina, apança, Gilliatt, estavam todos reunidos na viela dos rochedos. Eram apenas um. Apançaesmigalhada no escolho, a machina mettida a pique, Gilliat, affogado, era negocio de um esforço unico num só ponto. Tudo podia ser desfeito de uma vez, ao mesmo tempo, e sem dispersão; tudo podia ser destruido de um lance.
Não ha situação mais critica do que a de Gilliatt.
A sphynge possivel, que os sonhadores suspeitam estar no fundo da sombra, parecia propor-lhe este dilemma.
Fica ou parte.
Partir era insensato, ficar era medonho.
Gilliatt trepou á grande Douvre.
Dahi via todo o mar.
Era sorprehendente o oeste. Sahia delle uma muralha. Muralha de nuvem, tapando a extenção, subia lentamente do horisonte para o zenith. Essa muralha rectilinea, vertical, sem um rombo no alto, sem um rasgão na orla, parecia feita a esquadro, e esticada a corda. Era nuvem semelhante a granito. O declive dessa nuvem, completamente perpendicular na estremidade sul, dobrava-se um pouco para o norte, como dobra uma folha, e offerecia o vago aspecto de um plano inclinado. Alargava e crescia sem que a cymalha deixasse um instante de ser paralella á linha do horisonte, quasi indistincta na obscuridade quese ia fazendo. Essa muralha do ar subia de uma só peça e silenciosamente. Nenhuma ondulação, nenhuma dobra, nenhuma saliencia. Era lugubre aquella immobilidade em movimento. O sol, livido por traz de uma certa transparencia morbida, alumiava aquelle lineamento de apocalipse. A nuvem invadia já quasi metade do espaço. Dissera-se o medonho talude do abysmo. Era uma como que levantar de montanha de sombra entre a terra e o céo.
Era em pleno dia a ascenção da noite.
Havia no ar um calor de fogão. Uma lixivia de estufa sahia daquelle amontoado mysterioso. O céo, que de azul tornára-se branco, de branco tornou-se cinzento. Dissera-se uma grande ardosia. Embaixo o mar escuro e de chumbo, era outra ardosia enorme. Nem um sopro, nem um rumor. Ao longe o mar deserto. Nenhuma vela. Os passaros tinham-se escondido. Sentia-se a traição do infinito.
O crescimento de toda aquella sombra amplificava-se insensivelmente.
A montanha movediça de vapores que se dirigia para as Douvres, era uma dessas nuvens que se podem chamar nuvens de combate. Nuvens vesgas. Atravez daquelles amontoados escuros, extranho estrabismo fita o homem.
Temivel era a approximação.
Gilliatt examinou firmemente a nuvem e murmurou entre dentes: «Tenho sede, vás dar-me agua.»
Ficou alguns momentos immovel com os olhos fitos na nuvem. Parecia medir a tempestade.
Tinha o barrete no bolso, tirou-o e pol-o na cabeça. Tirou do buraco, onde por tanto tempo dormira, o fato de reserva, e vestio tudo, grevas e capotão, como um cavalleiro veste a armadura para entrar em combate. Sabem que perdera os sapatos, mas os pés descalços tinham-se endurecido nos rochedos.
Preparado o vestuario de guerra, contemplou elle o quebra-mar, empunhou vivamente a corda de nós, desceu da platafórma das Douvres, tomou pé nas rochas debaixo, e correu ao deposito. Instantes depois trabalhava. A vasta nuvem muda pôde ouvir-lhe os sons do martello. Que fazia Gilliatt? Com o resto dos prégos, cordas e vigas, construia na abertura de leste uma segunda porta de dez a doze pés por traz da primeira.
Profundo era o silencio. Os talos de herva nas fendas do escolho nem mesmo tremiam.
Subitamente o sol desappareceu. Gilliatt levantou a cabeça.
A nuvem ascendente acabava de attingir o sol. Foi como que uma extinção da luz substituida por uma reverberação mesclada e pallida.
A muralha de nuvem mudara de aspecto. Já não tinha unidade. Encrespara-se horisontalmenle tocando o zenith, pendendo em todo o resto do céo. Tinha agora divisões. A formação da tempestade desenhava-se como em uma secção dividida. Distinguia-se as camadas da chuva e os jazigos do granito. Não havia relampago, mas um horrivel clarão espesso; porque a idéa do horror póde ligar-se á idéa da luz. Ouvia-se o vago respirar da tempestade.Aquelle silencio palpitava obscuramente. Gilliatt, tambem silencioso, via agruparem-se por cima delle todos aquelles montões de bruma e compôr-se a difformidade das nuvens. No horisonte pesava e estendia-se uma facha de nevoeiro côr de cinza, e no zenith uma facha côr de chumbo; lividos farrapos pendiam das nuvens de cima sobre os nevoeiros debaixo. O fundo, que era a parede de nuvens, estava baço, leitoso, terreo, livido, indescriptivel. Uma delgada e alvacenta nuvem transversal, vinda não se sabe donde, cortava obliquamente, de norte a sul, a alta muralha sombria. Uma das extremidades dessa nuvem arrastava no mar. No ponto em que tocava na compressão das nuvens, via-se na obscuridade, um abafamento de vapor vermelho. Por baixo da longa nuvem pallida, pequenas nuvens, mui baixas e pretas, voavam em sentido inverso umas das outras como se não soubessem para onde iriam. A possante nuvem do fundo crescia de todas as partes a um tempo, augmentava o eclipse, e continuava a sua interposição lugubre. A leste, por traz de Gilliatt, havia apenas um portal de céo claro que ia ser fechado. Sem a menor impressão de vento, passou uma extranha diffusão de penugem cinzenta, esparsa em migalhas, como se algum passaro gigantesco acabasse de ser depennado por traz daquelle muro de tenebras. Formou-se um tecto de negrume compacto que, no extremo horisonte tocava no mar e misturava-se na noite. Sentia-se alguma cousa que se avançava. Era vasta e pesada e medonha. A obscuridade lornava-se mais espessa. De subito roncou immenso trovão.
Gilliatt sentio o abalo. Ha sonho no trovão. Essa realidade brutal na região visionaria tem alguma cousa de terrifico. Acredita-se ouvir a queda de um movel no aposento dos gigantes.
Nenhum flammejar electrico acompanhara o som. Foi um trovão negro. Voltou o silencio. Houve uma especie de intervallo como quando se toma posição. Depois um após outro, e lentamente, romperam-se informes relampagos. Eram todos mudos. Nenhum rugido. Cada relampago illuminava. A muralha de nuvens era agora um antro. Havia nella abobadas, e arcarias. Viam-se traços. Esboçavam-se monstruosas cabeças; distendiam-se pescoços; entreviam-se e desappareciam elephantes carregados de torres. Uma columna de bruma, recta, redonda, com uma fumaça branca em cima, simulava o cimo de um vapor collossal, engolido, bufando debaixo da vaga fumegante. Ondulavam toalhas de nuvem. Acreditava-se vêr dobras de bandeiras. No centro, debaixo de vermelhas espessuras, mergulhava-se, immovel, um caroço de nevoeiro denso, inerte, impenetravel ás faiscas electricas, especie de feto hediondo no ventre da tempestade.
Gilliatt sentio subitamente que um vento lhe agitou os cabellos. Tres ou quatro largas aranhas de chuva despedaçaram-se em roda delle na rocha. Depois houve um segundo trovão. Começou o vento.
A espera da sombra chegara ao cumulo; o primeiro trovão agitara o mar, o segundo rachou a muralha de nuvens de alto abaixo, abrio-se uma fenda, toda a batega suspensa jorrou por esse lado,o buraco tornou-se uma boca aberta cheia de chuva, e o vomito da tempestade começou.
Tremendo foi o instante.
Aguaceiro, furacão, relampagos, raios, vagas até ás nuvens, espuma, detonações, torções freneticas, gritos, roncos, assovios, tudo a um tempo. Desencadear de monstros.
O vento fulminava. A chuva não cahia, desabava.
Para um pobre homem, mettido, como Gilliatt, com um barco carregado, no intervallo de dous rochedos, em pleno mar, não ha crise mais ameaçadora. O perigo da maré, de que Gilliatt triumphára, nada era ao pé do perigo da tempestade. Eis a situação:
Gilliatt, em volta de quem tudo era precipicio, descobrio, no ultimo momento, e diante do risco supremo, uma estrategia engenhosa, Fez ponto de apoio no proprio inimigo; associou-se ao escolho; o rochedo Douvres, outrora seu adversario, era agora o seu padrinho naquelle immenso duelo. Gilliatt tinha-o debaixo de si. Fez daquelle sepulchro uma fortaleza. Assestou-se naquelle pardieiro formidavel do mar. Estava bloqueado, mas entrincheirado. Estava, por assim dizer, aggregado ao escolho, face a face com o furacão. Pôr barricadas ao estreito, essa rua das vagas. Era a unica cousa que podia fazer. Parece que o oceano, que é um despota pode ser tambem vencido pelas barricadas. Apançapodia ser considerada segura por tres lados. Estreitamente apertada, entre as duas fachadas internas do escolho, triplicemente ancorada, estava abrigada ao norte pela pequena Douvre, ao sul pela grande,penedos selvagens, mais affeitos a produzir naufragios que a impedil-os. A oeste era protegida pelo tapamento de barrotes atados e pregados aos rochedos, tapamento já provado que vencera o rude flux do alto mar, verdadeira porta de cidadella tendo por hombreiras as proprias columnas do escolho, as duas Douvres. Nada havia que receiar por esse lado. O perigo estava a leste.
A leste havia apenas o quebra-mar. Um quebra-mar é um aparelho de pulverisação. Precisa ao menos duas lumieiras. Gilliatt teve apenas tempo de fazer uma. Construia a segunda mesmo com a tempestade.
Felizmente o vento chegava de nordeste. O mar tem descahidas. Aquelle vento, que era o galerno antigo, tinha pouco effeito nas Douvres. Assaltava o escolho de travez, e não impeilia a onda nem sobre uma e nem sobre outra das aberturas da garganta, de modo que em vez de entrar em uma rua, esbarrava-se n'uma muralha. A tempestade atacava mal.
Mas os attaques do vento são curvos, e devia esperar-se alguma viravolta subita. Se essa viravolta se fizesse a leste antes que a segunda claraboia do quebra-mar estivesse construida, o perigo seria grande. A invasão da viela de rochedos pela tempestade realizava-se e tudo estava perdido.
Crescia a vertigem da tempestade. A tempestade é golpe sobre golpe. Essa é a sua força, esse é o seu defeito. Á força de ser uma raiva, dá lugar á intelligencia, e o homem defende-se; mas debaixo de que destruição! Nada mais monstruoso queisso. Nenhuma dilação, nenhuma interrupção, nenhuma trégoa, nenhum descanço para tomar alento. Ha uma não sei que de covardia nessa prodigalidade do inexgotavel.
Toda a immensidade tumultuosa atirava-se sobre o escolho Douvres. Ouviam-se vozes sem numero. Quem gritava assim? Estava alli o antigo terror panico. De quando em quando, parecia que era alguem que fallava, como se fizesse um commando. Depois clamores, clarins, estranhas tremuras, e aquelle grande e magestoso urro que os marinheiros dizem ser achamada do oceano.
As espiraes indefinidas e fugazes do vento assoviavam torcendo a onda; as vagas, tornadas discos debaixo daquelles torneamentos, eram atiradas contra os parceis como chapas gigantescas por athletas invisiveis.
A enorme escuma eriçava todas as rochas. Torrentes em cima, saliva em baixo. Depois redobravam os mugidos. Nenhum rumor humano ou bestial poderia dar idéa dos fracassos misturados áquellas deslocações do mar. A nuvem canhoneava, a saraiva metralhava, o marulho escalava. Certos pontos pareciam immoveis, em outros o vento fazia vinte toesas por segundo. O mar ao longe estava todo branco; dez léguas de agua de sabão enchiam o horisonte. Abriam-se portas de fogo. Algumas nuvens pareciam queimadas por outras, e sobre montões de nuvens vermelhas semelhantes ás brasas, assemelhavam-se essas ao fumo.
Configurações flutuantes esbarravam-se e amalgamavam-se, desfazendo-se umas por outras. Escorriauma agua incommensuravel, ouviam-se fogos de pelotão no firmamento. Havia no meio do tecto de sombra uma especie de vasta alcofa virada, donde cahiam em confusão, a tromba, a chuva, as nuvens, as côres rubras, os relampagos, a noite, a luz, os raios, tão formidaveis são essas inclinações do golphão!
Gilliatt parecia não attender a nada. Tinha a cabeça inclinada no trabalho. A segunda claraboia começava a levantar-se. A cada trovão respondia elle com uma martellada. Ouvia-se essa cadencia naquelle cahos. Estava com a cabeça descoberta. Uma lufada levou-lhe o chapéo.
Tinha uma sêde ardente. Provavelmente estava com febre. Lagoinhas de chuva tinham-se formado á roda delle nas covas do rochedo. De quando em quando tirava agua com a palma da mão e bebia. Depois, sem examinar em que ia a tempestade, continuava a obra.
Tudo podia depender de um instante. Sabia o que o esperava se não terminasse a tempo o quebra-mar. Porque motivo perder um minuto para ver approvimar-se a face da morte?
A desordem em torno delle era como uma caldeira fervendo. Havia fracasso e motim. Ás vezes o raio parecia descer uma escada. As percursões electricas voltavam constantemente aos mesmos pontos do rochedo. Haviam pedras de chuva da grossura de uma mão fechada. Gilliatt era obrigado a sacudir as dobras da japona. Até as algibeiras tinham pedras.
O temporal estava já no oeste, e batia o tapamento das duas Douvres; mas Gilliatt tinha confiançanesse tapamento, e com rasão. Esse tapamento, feito do grande pedaço da prôa da Durande, recebia sem dureza o choque da onda; a elasticidade é uma resistencia; os calculos de Stevenson estabelecem que, contra a vaga, por si propria elastica, uma reunião de pãos, com a dimensão desejada, ligada e amarrada de certo modo, faz melhor obstaculo que um breack-water de madeira. O tapamento das Douvres preenchia essas condições; era além disso tão engenhosamente atado que a onda, batendo em cima, fazia como um martello que mette o prego apoiava-o ao rochedo e consolidava-o; para demolil-o, era preciso derrubar as Douvres. A lufada apenas conseguio atirar ápança, por cima do obstaculo, alguns jorros de espuma. Por esse lado, graças ao tapamento a tempestade tornava-se cuspo. Gilliatt voltava as costas a esse esforço. Sentia tranquillamente atraz de si essa raiva inutil.
Os frocos de espuma, sahindo de todos os lados, assemelhavam-se a lã. A agua vasta e irritada afogava os rochedos, trepava por elles, entrava dentro, penetrava na rede de fendas internas, e sahia das massas graniticas por fendas estreitas, especies de bocas inexgotaveis que faziam naquelle diluvio pequenas fontes placidas. Filetes de agua cahiam graciosamente daquelles buracos no mar.
A claraboia de reforço do tapamento de leste estava quasi concluida. Mais umas voltas de cordas e correntes, e approximava-se o momento de tambem lutar esse tapamento.
De subito, fez-se um grande clarão, a chuva e as nuvens separaram-se, era o vento que mudava,uma especie de janella grande crepuscular abrio-se no zenith, e apagaram-se os relampagos; pareceu que estava acabado. Era o começo.
O vento mudou de sudoeste para nordeste.
A tempestade ia recomeçar com uma nova matilha de furacões. Vinha do norte, violento assalto. Os marinheiros chamam a issoo vento de esboroar.O vento do sul tem mais agua, o vento do norte tem mais raios.
Vindo do nordeste, a aggressão ia dirigir-se ao ponto fraco.
Desta vez Gilliatt parou o trabalho, e olhou.
Collocou-se de pé sobre uma saliencia de rochedo inclinado por traz da segunda claraboia quasi terminada. Se a primeira chapa do quebra-mar fosse afundada, desabaria a segunda, ainda não consolidada, e debaixo dessa demolição, esmagaria Gilliatt, Gilliatt no lugar que escolhera, seria achatado antes de ver apançae a machina e toda a sua obra abysmar-se no golphão. Tal era a eventualidade. Gilliatt, acceitou-a, e, terrivel, elle a queria.
Nesse naufragio de todas as suas esperanças, morrer primeiro, convinha-lhe a elle; morrer primeiro, porque a machina fazia-lhe o effeito de uma pessoa. Levantou com a mão esquerda os cabellos collados aos olhos pela chuva, apertou o martello, inclinou-se para traz, ameaçante, e esperou.
Não esperou muito.
Um ribombo deu o signal, fechou-se a abertura pallida do zenith, precipitou-se uma rajada de chuva, tudo tomou-se escuro, e não houve outro facho mais que o relampago. Começava o sombrio ataque.
Possante vagalhão, visivel entre os relampagos, levantou-se a leste além do rochedo Homem. Parecia um grande rolo de vidro. Era verde e sem escuma nem ondas. Inchava aproximando-se; era um largo cylindro de trevas rolando no oceano. A trovoada roncava surdamente.
Esse vagalhão chegou ao rochedo Homem, partio-se em dous e continuou. Os dous pedaços juntos tornaram a ligar-se, e fizeram uma grande montanha de agua, e de parallela que estava ao quebra-mar, tornou-se perpendicular. Era uma vaga com a fórma de uma viga.
Atirou-se ao quebra-mar aquelle ariete. Rugia o choque. Tudo desappareceu em espuma.
Não se póde imaginar o que são essas avalanchas de neve que o mar ajunta, e debaixo das quaes engole rochedos de mais de cem pés de altura, taes, por exemplo, como o grande Anderlo, em Guernesey, e o Pinaculo, em Jersey. Em Santa Maria de Madagascar, saltam por cima da ponta de Pintingue.
Durante alguns instantes, o rolo de mar tapou tudo. Só ficou visivel um montão furioso, uma escuma immersa, a alvura de um sudario fluctuando no vento do sepulchro, uma mistura de ruido e de tempestade debaixo da qual trabalhava o exterminio.
Dissipou-se a escuma. Gilliatt estava de pé.
O tapamento resistira. Nenhuma corrente arrebentou, nenhum prégo sahio. O tapamento mostrou á prova as duas qualidades do quebra-mar; foi flexivel como um caniço e solido como uma parede. O vagalhão dissolveu-se em chuva.
A espuma escorrendo ao longo dos zig-zags do estreito foi morrer debaixo dapança.
O homem que fizera aquelle açamo ao oceano não repousou.
A tempestade divagou felizmente durante algum tempo. O encarniçamento das vagas voltou-se para as partes muradas do escolho. Foi uma tregoa. Gilliatt aproveitou-a para completar a claraboia de traz.
O dia expirou nesse trabalho. A tormenta continuava as suas violencias no flanco do escolho com uma solemnidade lugubre. A urna de agua e a uma de fogo que existem nas nuvens, esvasiava-se sem esgotar nunca. As ondulações altas e baixas do vento, pareciam movimentos de um dragão.
Quando a noite chegou já havia noite; não se pôde reparar nella.
Mas não era obscuridade completa. As tempestades illuminadas e cégas pelo relampago, têm intermittencias de visivel e invisivel. Tudo está claro, depois tudo fica escuro. Assiste-se á sahida das visões, e á entrada das trevas.
Uma zona de phosphoro, côr da aurora boreal, fluctuava como um farrapo de flamma spectral por traz das espessuras de nuvens. Resultava uma vasta pallidez. As chapas de chuva eram luminosas.
E esses clarões ajudavam Gilliatt e o dirigiam. Elle voltou-se para o relampago e disse: segura-me a vela!
Com o auxilio dessa claridade póde elle levantar a claraboia de traz, ainda mais acima da da frente. O quebra-mar estava quasi completo. Quando Gilliattamarrava ao ponto culminante um cabo de reforço, o vento soprou-lhe na cara em cheio. Isto fez-lhe levantar a cabeça. O vento voltára bruscamente para nordeste. O assalto da abertura de leste recomeçava. Gilliatt olhou para o mar. O quebra-mar ia ser atacado outra vez. Vinha um novo vagalhão.
Esse foi rudemente vibrado; depois veio outro, mais outro, mais outro, cinco ou seis em tumulto, quasi juntos; finalmente um ultimo e tremendo.
Este que era um como que total de forças, tinha a figura de uma cousa viva. Não era difficil imaginar naquella intumescencia e naquella transparencia, inauditos aspectos com escamas. Achatou-se e partio-se no quebra-mar. A sua forma quasi animada dilacerou-se num esguicho. Naquelle montão de rochedos e taboas, foi uma especie de esmagamento de hydra. A onda morrendo devastava. Profundo tremor agitou o escolho. Misturava-se a isso um grunhir de animal. A espuma assemelhava-se á saliva de um leviathan.
A espuma que cahia deixava vêr uma devastação. O vagalhão fez obra. Dessa vez o quebra-mar soffreu um pouco. Uma longa e pesada viga, arrancada da claraboia da frente, foi lançada por cima do tapamento de traz, sobre a rocha inclinada escolhida por Gilliatt para o lugar do combate. Felizmente desta vez não estava elle ahi. Ficaria morto.
Houve na queda da viga uma singularidade, que, impedindo qualquer movimento da prancha, salvou Gilliatt de qualquer sobresalto perigoso. Foi ainda util por outro modo como se vai vêr.
Entre a saliencia da rocha e o declive interno dagarganta, havia um intervallo, um grande hiato semelhante ao encaixe de um machado ou á alveola de um canto. Uma das extremidades da prancha atirada ao ar pela vaga, cahio no meio dessa abertura. A abertura alargou-se.
Gilliatt teve uma idéa.
Pesar na outra extremidade.
A prancha, presa por uma ponta na fenda do rochedo que alargara, sahia d'ahi como um braço estendido. Essa especie de braço alargava-se paralellamente á facha interna da garganta, e a extremidade livre da prancha afastava-se desse ponto de apoio cerca de dezoito ou vinte pollegadas. Boa distancia para fazer o exforço.
Gilliatt estreitou com os pés, os joelhos e os braços o rochedo e metteu hombros á enorme viga. A viga era comprida, o que augmentava a força do peso. A rocha já estava abalada. Comtudo Gilliatt teve de tentar a cousa quatro vezes. Cahia-lhe dos cabellos mais suor do que chuva. O quarto exforço foi frenetico. Houve um estalo na rocha, a abertura abriu-se como uma boca, e a pesada massa cahio no estreito intervallo com um ruido terrivel, replica aos trovões.
Cahio direita, se esta expressão é possivel, isto é sem quebrar-se.
Imaginae um menhir precipitado todo inteiro.
A viga acompanhou o rochedo, e Gilliatt cedendo ao mesmo tempo, escapou de cahir tambem.
O fundo estava muito atravancado, e tinha pouca agua. O monolitho, n'uma agitação de espuma, que foi respingar em Gilliatt, deitou-se entre as duasgrandes rochas paralellas da garganta e fez uma parede transversal, especie de linha de união dos dous rochedos. Tocavam as duas pontas; era um pouco mais longo, e o cume, que era de rocha macia, ficou esmigalhado. Resultou dessa queda uma especie de beco sem sahida que ainda hoje pode ser visto. A agua por detraz dessa barra de pedra, é quasi sempre tranquilla.
Era um baluarte aquelle ainda mais invencivel que a amurada da Durande ajustada entre as duas Douvres. Esse tapamento interveio a proposito.
Os vagalhões tinham continuado. A vaga teima sempre contra o obstaculo. A primeira claraboia começava a desarticular-se. Uma malha de quebra-mar desfeita é uma grande avaria. É inevitavel o alargamento do buraco, e nenhum meio póde remediar logo. A vaga carregaria o trabalhador.
Uma descarga electrica, que illuminou o escolho, descobrio a Gilliatt o estrago que se fazia no quebra-mar, as vigas soltas, as cordas e correntes começando a fluctuar ao vento, um rasgão no centro do aparelho. A segunda claraboia estava intacta.
O penedo, tão poderosamente lançado por Gilliatt no intervallo das rochas, por traz do quebra-mar, era a mais solida barreira, mas tinha um defeito; era demaziado baixo. As vagas não podiam rompel-o, mas podiam galgal-o.
Era impossivel faze-lo crescer. Só massas da rocha podiam ser utilmente sobrepostas áquelle tapamento de pedra; mas como arrancar essas massas, como arrastal-as, como levantal-as, como collocal-as, como fixal-as? Pregam-se taboas, não se pregam rochedos.
Gilliatt não era Encelado.
A pouca elevação daquelle pequeno isthmo de granito preocupava Gilliatt.
Breve fez-se sentir o defeito. Os ventos já não deixavam o quebra-mar; já se não encarniçavam, parecia que se applicavam. Ouvia-se naquella construcção abalada uma especie de escouceamento regular.
De repente um pedaço de peça de viga, destacado da dislocação, pulou por cima da segunda claraboia, voou por cima da rocha transversal, e foi cahir na garganta do rochedo, onde a agua a levou pelas sinuosidades da viella. É provavel que fosse esbarrar napança.Felizmente, no interior do escolho, a agua fechada por todos os lados, mal se resentia da agitação exterior. Havia pouco marulho, e o choque não devia ser forte. Gilliatt nem teve tempo de occupar-se com essa avaria, se avaria houve; todos os perigos se erguiam a um tempo, a tempestade concentrava-se no ponto vulneravel, a imminencia estava diante delle.
Profunda foi, por alguns instantes, a escuridão, interrompeu-se o relampago, connivencia sinistra; a nuvem e a vaga eram a mesma cousa! houve um golpe surdo.
Depois um fracasso.
Gilliatt adiantou a cabeça. A claraboia que tapava a frente estava deslocada. Viam-se as pontas de vigas saltar na vaga. O mar servia-se do primeiro quebra-mar para atacar o segundo.
Gilliatt sentio o que sentiria um general vendo voltar a vanguarda.
A segunda tapagem resistio ao choque. A armadura de traz estava fortemente ligada. Mas a claraboia despedaçada era pesada, estava á disposição das vagas que a atiravam e tomavam, as ligaduras que lhe restavam impediam-n'a de partir-se em pedaços, e mantinham-lhe todo o volume, e as qualidades que Gilliatt lhe dera como apparelho de defeza faziam agora d'aquillo uma excellente ferramenta de destruição. De broquel tornara-se massa. Além disso as fracturas herissavam-n'a, sahiam-lhe pontas em toda ella, cobriam-n'a de dentes esporas. Nenhuma arma contundente mais temivel e propria para ser manejada pela tempestade do que aquella.
Era o projectil, e o mar a catapulta.
Succediam-se os golpes com uma especie de regularidade tragica. Gilliatt, pensativo por traz daquella porta tapada por elle, ouvia esse bater da morte querendo entrar.
Elle refletio amargamente que, se não fosse o cano da Durande tão fatalmente retido no casco estaria áquella hora, e desde manhã, em Guernesey, e no porto, com apançaabrigada e a machina salva.
Realisou-se o tremendo perigo. Fez-se a effração. Foi como uma agonia de moribundo. Todo o madeiramento do quebra-mar, as duas armaduras confundidas e despedaçadas juntas, foi n'uma tromba d'agua rolar no tapamento de pedra como um cahos n'uma montanha, e parou. Foi um travamento informe de pãos embrenhados, penetravel ás vagas, mas pulverisando-as ainda.Aquelle baluarte vencido agonisava heroicamente. O mar quebrou-o, elle quebrava o mar. Derrubado ainda ficava um pouco efficaz. A rocha que senda de tapagem, obstaculo sem recurso possivel, retinha-o pelo pé. A garganta naquelle ponto, era muito estreita; a tempestade victoriosa tinha empurrado, misturado e empilhado todo o quebra-mar naquelle lugar angustioso; a violencia da impulsão, misturando a massa, e mettendo as fracturas umas nas outras, fez daquella demolição uma cousa solida. Estava destruido e inabalavel. Só algumas peças de páo ficaram destacadas. Dispersou-as a vaga. Uma passou no ar, perto de Gilliatt. Elle sentio o ar agitado pela taboa na fronte.
Mas algumas vagas, essas grossas vagas que nos temporaes voltam sempre, com uma periodicidade imperturbavel, saltavam por cima das ruinas do quebra-mar. Cahiam na garganta, e a despeito dos cotovellos que a viella tinha, chegavam a levantar a agua. A onda do estreito começava a agitar-se de um modo feio. Accentuava-se o beijo obscuro das vagas nas rochas.
Como impedir agora que essa agitação se propagasse até ápança?
Não precisava muito tempo para que toda a agua interior ficasse tempestuosa, e com algumas ondas, apançaseria estripada, e a machina a pique.
Gilliatt scismava tremulo.
Mas não se desconcertou. Para aquella alma havia derrota possivel.
O furacão engolphava-se agora entre as duas muralhas do estreito.
De subito resoou e prolongou-se a alguma distancia por traz de Gilliatt um estalo mais assustador, que tudo quanto Gilliatt até então ouvira.
Era do lado dapança.
Passava-se alli alguma cousa funesta.
Gilliatt correu.
Do lado de leste, onde se achava, não podia elle vêr apançapor causa dos zig-zags da viella. Na ultima volta parou e esperou o relampago.
Rompeu o relampago e mostrou-lhe a situação.
Á vaga da abertura de leste correspondeu um tufão na abertura de oeste. Esboçava-se um desastre.
Ápançanão tinha avaria visivel; ancorada como estava, dava pouco flanco, mas o casco da Durande estava em risco de cahir.
Aquella ruina, em semelhante tempestade, apresentava uma victima. Estava toda fora d'agua, no ar, offerecida ao temporal. O buraco que Gilliatt praticára para extrahir a machina enfraquecêra o casco. O barrote da quilha estava cortado. O esqueleto tinha columna vertebral despedaçada.
Soprára em cima o furacão.
Não precisou mais. A amurada dobrou-se como um livro que se abre. Fez-se o desmembramento. Foi estalo que, no meio da tempestade, chegára aos ouvidos de Gilliatt.
O que elle vio ao chegar parecia quasi irremediavel.
A incisão operada por elle tornára-se uma chaga. Dessa abertura fez o vento uma fratura. O córte transversal separava em duas a Durande. A parte posterior,a que ficava em frente de Gilhatt, vizinha dapança, ficára solida nos rochedos. A parte anterior, que fazia face a Gilliatt, estava pendurada. Uma fractura é um gonzo. Aquella massa oscillava sobre as suas fendas, e o vento balançava-a com um tremendo rumor.
Felizmente apançajá não estava em baixo.
Mas o balanço abalava a outra metade do casco, ainda presa e immovel entre as duas Douvres. Do abalo á queda, a distancia era pequena. Com a teima do vento, a parte deslocada podia subitamente arrastar a outra que tocava quasi napança, e tudo,pançae machina, ficaria engulido.
Gilliatt, tinha isso diante dos olhos.
Era a catastrophe.
Como desvial-a?
Gilliatt, era daquelles que tiram recurso do proprio perigo. Reflectio um momento.
Depois, foi ao deposito e tirou o machado.
O martello trabalhára muito; era chegada a vez do machado.
Gilliatt subio á Durande. Firmou-se na parte do navio, que ainda estava segura, e, inclinado sobre o precipicio do intervallo das Douvres, pôz-se a cortar as taboas quebradas, e tudo quanto ainda prendia o pedaço de casco pendente.
Consummar a separação dos dous pedaços do casco, libertar a metade solida, deitar ao mar aquillo que o vento destruira, dar o quinhão á tempestade, tal era a operação. Era mais perigosa que difficil. A metade pendente do casco, empuchada pelo vento e pelo peso, adheria apenas por alguns pontos. O conjuncto docasco assemelhava-se a um dyptico, partido em dous pedaços, e batendo ambos um no outro. Cinco ou seis peças apenas, vergadas e arrebatadas, mas não completamente soltas, ainda sustentavam o casco. As fracturas guinchavam e alargavam-se a cada sopro do vento, e o machado apenas ajudava. Esta circumstancia, que tornava facil o trabalho, tornava-o arriscado tambem. Tudo podia esboroar ao mesmo tempo debaixo Gilliatt.
A tempestade attingio ao paroxysmo. Até então fôra terrivel, agora fez-se horrivel. A convulsão do mar reproduzio-se no céo. A nuvem até então fôra soberana, parecia executar a sua vontade, dava o impulso, derramava ás vagas a loucura, conservando sempre uma lucidez sinistra. Em baixo havia demencia, em cima colera. O céo era o sopro, o oceano era apenas a espuma. Dahi vem a autoridade do vento. O furacão é genio. Entretanto a embriaguez de seu proprio horror tinha-o perturbado. Agora era o turbilhão. Era a cegueira produzindo a noite. Ha nos temporaes um momento insensato; é para o céo uma especie de sangue que sobe á cabeça. O abysmo já não sabe o que faz. Fulmina ás apalpadellas.
Nada mais horrendo. É a hora hedionda. Chegara ao cumulo o tremor do escolho. A tempestade tem um plano mysterioso; mas nesse instante perde-o. É a má hora da tempestade. Nesse instante, ovento, dizia Thomas Fuller,é um doido furioso.É nesse instante, que as tempestades fazem essa despeza continua de electricidade que Piddington chama acascata de relampagos.É nesse instante, que apparece nas nuvens mais negras, não se sabe porquee como que para espiar o terror universal aquelle circulo azul que os velhos marinheiros hespanhóes chamavam o olho da tempestade,el ojo de la tempestad.Esse olho lugubre fitava Gilliatt.
Gilliatt de seu lado contemplava a nuvem. Levantou a cabeça. Dava uma machadada e levantava-se altivo. Estava, ou parecia estar demasiado perdido, para que não tivesse orgulho. Desesperava? Não. Ante o supremo accesso de raiva do oceano, Gilliatt era tão prudente quanto audaz. Em cima do casco, só pisava o ponto solido. Arriscava-se e preservava-se. Tambem elle chegára ao paroxismo. Decuplou-se-lhe o vigor. Estava desvairado de intrepidez. Os golpes de machado soavam como desafios. Parecia ter ganho o que tinha perdido a tempesdade. Conflicto pathetico. De um lado o inesgotavel, do outro o infatigavel. Estavam a ver qual dos dous venceria. As nuvens terriveis modelavam na immensidade mascaras de gorgonas, produzia-se toda a intimidação possivel, a chuva surgia das vagas, a espuma tombava das nuvens, curvavam-se os fantasmas dos ventos, faces de meteóro avermelhavam-se e eclypsavam-se, e a obscuridade, apoz tantos desmaios, era monstruosa; havia um só derramamento, vindo por todos os lados ao mesmo tempo; tudo era ebulição; a sombra em massa transbordava; cumulus carregados de graniso, esfarelados, côr de cinza, pareciam andar num frenezim giratorio, havia no ar um rumor de grãos seccos, sacudidos n'uma peneira, as eletricidades inversas observadas por Volta faziam de nuvem em nuvem os fulminantes disparos, os prolongamentos do raioeram terrificos, os relampagos aproximava-se em torno de Gilliatt. O abysmo parecia espantado. Gilliatt andava na Durande fazendo tremer o tombadilho debaixo dos pés, batendo, cortando, rachando, machado em punho, livido diante dos relampagos, esguedelhado, descalço, rôto, com a face coberta dos escarros do mar, grande naquella sentina de trovões.
Contra o delirio das forças, só a destreza póde luctar. A destreza era o triumpho de Gilliatt. Elle queria uma queda de todo o destroço deslocado. Por isso enfraqueceu as fracturas sem rompel-as completamente, deixando algumas fibras que sustentavam o resto. Subitamente parou com o machado no ar, a operação estava acabada. Todo o pedaço destacou-se.
Essa metade do casco rolou entre as duas Douvres abaixo de Gilliatt, que ficou em pé n'outra metade inclinado e olhando; mergulhou-se perpendicularmente, arrombou os rochedos e parou na garganta antes de chegar ao fundo. Ficou uma parte fora d'agua, tanto quanto era sufficiente para dominar a onda mais de doze pés; foi mais uma barricada entre as duas Douvres; bem como a rocha atirada no estreito, deixava apenas filtrar um pouco de espuma nas suas extremidades, e foi essa a quinta barricada improvisada por Gilliatt, contra a tempestade, naquella rua do mar.
O furacão, cégo, trabalhava a ultima.
Foi uma felicidade que o angustiado das paredes internas impedisse de ir ao fundo aquella tapagem. Dava-lhe mais altura; demais a agua podia passar por baixo do obstaculo, o que affectava a força das ondas. Aquillo que passa por baixo não salta porcima. É esse em parte o segredo de quebra-mar fluctuante.
De ora ávante, houvesse o que houvesse, já não havia que receiar nem quanto ápança, nem quanto á machina. A agua já não podia agitar-se a roda dellas. Entre a tapagem das Douvres que as cobria a oeste, e o navio, tapamento que as protegia a leste, nenhuma onda, nenhum vento poderia attingil-as.
Gilliatt tirára da catastrophe a salvação. Ajudára-o a tempestade.
Feito isto apanhou um punhado de agua da chuva, bebeu e disse á nuvem: Cantaro!
É uma alegria ironica para a intelligencia combatente attestar a vasta estupidez das forças furiosas concluindo por prestar serviços, e Gilliatt sentio essa immemorial necessidade de insultar o inimigo, que remonta aos heróes de Homero.
Gilliatt desceu ápançae aproveitou os relampagos para examinal-a. Era tempo que a pobre barquinha fosse soccorrida; tinha sido muito sacudida e começava a arquear. Gilliatt, com aquelle olhar summario, não vio nenhuma avaria. Comtudo, era certo que ella devia ter recebido violentos choques. Acalmada a agua, endireitou o casco; as ancoras portaram-se bem; quanto á machina, as quatro correntes mantiveram-n'a admiravelmente.
Quando Gilliatt acabava a revista, uma cousa branca passou por elle e margulhou na sombra. Era uma gaivota.
Não ha melhor apparição nas tempestades. Quando os passaros chegam, é que a tempestade vae-se embora.
Outro signal excellente, o trovão redobrava.
As supremas violencias da tempestade desorganisam-n'a. Todos os marinheiros o sabem, a ultima prova é rude, mas curta. O excesso do raio annuncia-lhe o fim.
A chuva parou repentinamente. Depois houve apenas um ruido nas nuvens. O temporal cessou como uma prancha que cahe no chão. Quebrou-se por assim dizer. Desfez-se a immensa machina das nuvens. Uma fenda de céo claro disjungio as trevas. Gilliatt ficou espantado; era dia claro.
A tempestade durára quasi vinte horas.
O vento que a trouxera levou-a. Um desabamento de escuridão depressa encheu o horisonte. As brumas rotas e fugitivas amontoaram-se em tumulto, houve de uma ponta á outra da linha do horisonte um movimento de retirada, ouvio-se um longo rumor decrescente, cahiram algumas gotas ultimas de chuva, e toda aquella sombra cheia de trovões foi-se como uma turba de carros terriveis.
Bruscamente fez-se azul o céo.
Gilliatt reparou que estava cançado. O somno abate-se sobre a fadiga como uma ave de rapina. Gilliatt deixou-se cahir na barca sem escolher lugar e dormio. Ficou assim algumas horas inerte e estendido, pouco distincto das pranchas e barrotes entre os quaes adormecera.
Quando Gilliatt acordou teve fome.
Acalmava-se o mar. Havia porém alguma agitação ao largo, que impedia a partida immediata. Demais o dia já estava adiantado. Com o carregamento dapança, para chegar a Guernesey antes de meia noite, era preciso sahir de manhã.
Embora a fome urgisse, Gilliatt começou por despir-se, unico meio de aquecer-se.
As roupas estavam molhadas da chuva, mas a agua da chuva lavára a agua do mar, o que fez com que agora podessem sêccar as roupas.
Gilliatt apenas ficou com as calças, que arregaçou até os joelhos.
Estendeu, com pesos em cima, nas saliencias do rochedo, todo o resto da roupa.
Depois pensou em comer.
Gilliatt recorreu á faca que teve o cuidado de afiar e tel-a em bom estado, e arrancou do granito alguns mariscos. Comeu-os crús. Mas depois de tantos trabalhos, fraca era a pitança. Já não tinha biscouto. Quanto á agua, não lhe faltava. Estava mais que saciado, estava innundado.
Aproveitou a vasante para perlustrar os rochedos á cata de lagostas. Já havia muita rocha descoberta; podia apanhar boa caça.
Sómente não reflectia elle que já não podia cozer peixe algum. Se tivesse de ir ao deposito veria tudo derrubado pela chuva. O pão e o carvão estavam encharcados, e da provisão de estopa, que lhe servia de isca, não tinha um fio que não estivesse molhado. Não havia meio de saccar fogo.
De resto, o folles estava desorganisado; a tempestade saqueou-lhe o laboratorio. Com o resto da ferramenta, Gilliatt, a rigor, podia ainda trabalhar de carpinteiro, não de forja. Mas Gilliatt, naquelle momento não pensava na officina.
Empuxado pelo estomago, sem mais reflexão, entrou a procurar comida. Errava, não na garganta do escolho, mas fóra, nas dobras dos cachopos. Foi desse lado que a Durande, dez semanas antes, esbarrára nas pedras.
Para a caça que Gilliatt fazia, o exterior da viella valia mais que o interior. Os carangueijos, nas aguas baixas, tem costume de tomar ar. Aquecem-se ao sol. Amam o sol aquelles entes disformes. É uma cousa estranha a sahida delles em plena luz. Quasi indigna-se a gente com elles. Quando os vemos, com o seu aspectoobliquo, subir pesadamente, um por um, os andares inferiores dos rochedos como degráos de uma escada, acreditamos por força que o oceano tambem tem os seus piolhos.
Desses piolhos vivia Gilliatt ha dous mezes.
Comtudo nesse dia os carangueijos e as lagostas andavam escondidos. A tempestade empurrára aquelles solitarios para os seus esconderijos, e ainda não se animavam a sahir. Gilliatt tinha na mão a faca aberta, e arrancava de quando em quando uma concha debaixo do sargaço. Comia andando.
Não devia estar longe do lugar onde se perdera o Sr. Clubin.
Quando Gilliatt já se resignara aos ouriços e castanhas do mar, fez-se um movimento a seus pés. Um grande carangueijo, assustado com a presença delle tinha pulado na agua. O carangueijo não mergulhou tanto que Gilliatt não o visse.
Gilliatt começou a correr atraz do carangueijo no esvasamento da rocha. O carangueijo fugia.
De repente não vio mais nada.
O carangueijo mettera-se por algum buracco debaixo do rochedo.
Gilliatt atracou-se aos relevos da pedra e esticou o pescoço para ver se via alguma cousa.
Havia com effeito uma anfractuosidade. O carangueijo devia ter-se refugiado ahi.
Era mais que uma fenda, era um portico.
O mar entrava por baixo desse portico, mas não era profundo. Via-se o fundo coberto de pedrinhas. Essas pedrinhas eram esverdeadas e revestidas de filamentos, o que indicava que nunca estavam a secco.Assemelhavam-se a cabeças de criança com cabellos verdes.
Gilliatt pôz a faca nos dentes, desceu do alto da rocha e saltou na agua. Teve agua quasi até os hombros. Metteu-se pelo portico. Achou-se num corredor gasto, com um esboço de abobada ogiva por cima. As paredes eram polidas e lizas. Já não via o carangueijo. Tomára pé. Caminhava e dimimuia-se a luz. Começou a não vêr cousa alguma.
Depois de quinze passos, cessou a abobada. Estava fóra do corredor. Havia mais espaço, e por consequencia mais luz; as pupillas tinham-se-lhe dilatado; via bem. Teve uma surpresa.
Acabava de entrar naquella cava estranha visitada por elle um mez antes.
Sómente, desta vez entrou pelo mar.
Aquella arcaria que elle vira afogada, era a mesma por onde agora passou. Em certas marés baixas era praticavel.
Os olhos iam-se acostumando ao lugar. Via cada vez melhor. Estava estupefacto. Tornava achar aquelle extraordinario palacio da sombra, aquella abobada, aquelles pilares, aquelles rubros, aquella vegetação de pedras, e no fundo aquella crypta, quasi santuario, e aquella pedra, quasi altar.
Não se lhe despertavam muito os pormenores, mas tinha no espirito a idéa do todo, e reconheceu.
Via diante delle, em certa altura, na rocha, o buraco por onde penetrou a primeira vez, e que, do ponto onde estava agora, parecia inaccessivel.