O vento do mar soprava ao longe grandes lufadas. De quando em quando, nas pedreiras longinquas de Vaudue, troava bruscamente a trombeta dos pedreiros, advertindo os passantes de que ia rebentar uma mina. Não se via o porto de Saint-Sampson; mas via-se a ponta dos mastros por cima das arvores. As gaivotas voavam esparsas. Gilliatt ouvira dizer a sua mãe que as mulheres podem amar os homens, e que isso acontecia algumas vezes. Lembrava-se, e respondia a si mesmo; «É isso. Comprehendo. Deruchette ama-me.» Sentia-se profundamente triste. Dizia elle: «Mas tambem ella pensa em mim; faz bem.» Pensava em que Deruchette era rica, e elle pobre. Pensava que o vapor era uma invenção execravel. Não podia lembrar nunca em que dia do mez estava. Contemplava vagamente os grandes zangãos negros, de lombo amarello e azas curtas, que penetram zumbindo nos buracos das paredes.
Deruchette recolhia-se uma noite ao quarto. Approximou-se da janella para fechal-a. A noite estava escura. De repente, Deruchette applicou o ouvido. Havia uma musica no meio daquella noite profundo. Alguem que provavelmente estava na vertente da collina, ou ao pé das torres do castello do Valle, ou talvez mais longe, executava uma canção n'um instrumento. Deruchette raconheceu a sua melodia favoritaBonny Dundeetocada em bug-pipe. Não comprehendeu nada.
Desde então, ouvio ella muitas vezes a mesma cousa, á mesma hora, especialmente nas noites escuras.
Deruchette não gostava muito daquillo.
Pour l'oncle et le tuteur, bons hommes taciturnes,Les sérénades sont des tapages nocturnes.(Verso de uma comedia inedita.)
Passaram quatro annos.
Deruchette approximava-se dos vinte e um annos e conservava-se solteira.
Já alguem escreveu algures:—Uma idéa fixa é uma veruma. Vai-se enterrando de anno para anno. Para extirpal-a no primeiro anno é preciso arrancar os cabellos; no segundo rasga-se a pelle; no terceiro anno quebra o osso; no quarto sahem os miolos.
Gilliatt estava no quatro anno.
Não tinha trocado uma só palavra com Deruchette. Pensava nella; era tudo.
Aconteceu-lhe uma vez, estando por acaso em Saint-Sampson, ver Deruchette conversando com mess Lethierry diante da porta da casa que dava para a calçada do porto. Gilliatt arriscou-se a approximar-se della. Cuidava estar certo de que sorrira quando elle passou. Não era cousa impossivel.
Deruchette continuava a ouvir de tempos em tempos o bug-pipe.
Tambem mess Lethierry ouvia o bug-pipe, e notou a persistencia desta musica perto da janella de Deruchette. Musica terna, circumstancia aggravante. Não lhe agradavam namorados nocturnos. Queria casar Deruchette com dia claro, quando ella e elle quizessem, e simplesmente, sem romance e sem musica. Exasperado, procurou descobrir o amador e pareceu-lhe entrever Gilliatt. Metteu as unhas na barba em signal de colera, e disse: por que motivo vem aquelle animal samphonear-me á porta? Ama Deruchette, é claro. Perdes o tempo. Quem quizer Deruchette deve vir fallar-me, e sem musica.
Previsto desde muito, veio a realisar-se um acontecimento importante. Annunciou-se que o reverendo Jacquemin Herodes fôra nomeado delegado do bispo de Winchester, décano da ilha e cura de Saint-Pierre Port, e que partiria de Saint-Sampson logo depois de installar o seu successor.
Estava a chegar o novo cura. Era elle gentleman de origem normanda, e chamava-se Joe Ebenezer Caudray.
A respeito delle havia circumstancias que a benevolencia e a malevolencia commentavam em sentido inverso. Diziam qua era moço e pobre, mas a mocidade era temperada por muita doutrina, e a pobreza por muita esperança. Na lingua especial creada para a herança e a riqueza, a morte chama-se esperança. Era sobrinho e herdeiro do velho e opulento decano de Saint-Asaph. Morto este, ficava o outro rico. O Sr. Ebenezer de Caudray era bem aparentado; tinha quasi direito á qualidade dehonorable.Quanto á sua doutrina, era julgada diversamente. Era anglicano, mas, segundo a expressão do bispo Tilleston, eramuito libertino, isto é, muito severo. Repudiava o pharisaismo; ligava-se antes ao presbyterio que ao episcopado. Sonhava com a igreja primitiva, onde Adão tinha o direito de escolher Eva, e Frumentanus, bispo de Hieropolis, raptava uma moça para ser mulher delle, dizendo aos paes:Ella quer e eu quero, já não sois nem pae nem mãe, eu sou o anjo de Hieropolis, e esta é minha esposa. O pae é Deos.A dar credito aos boatos, o Sr. Ebenezer Caudray subordinava o texto:Honrai pae e mãe, ao texto, segundo elle superior:A mulher é a carne do homem. A mulher deixará pae e mãe para acompanhar o marido.Mas a final de contas, esta tendencia para circumscrever a autoridade paternal e favorecer religiosamente todos os modos de formar o vinculo conjugal, é propria a todo o protestantismo, particularmente na Inglaterra, e singularmente na America.
Eis o balanço de mess Lethierry no tempo em que occorria isto. Durande comprio o que promettera. Mess Lethierry pagou as dividas, reparou os prejuizos, satisfez as letras de Bremen, fez face aos vencimentos de Saint-Malo. Exonerou a casa em que morava das hypothecas, comprou todas as rendas locaes inscriptas sobre a casa. Era possuidor de um grande capital productivo, a Durande. O rendimento liquido do navio era então de mil libras esterlinas e ia crescendo. A bem dizer, Durande era toda a fortuna delle. Era tambem a fortuna da terra. O transporte dos bois era dos que davam mais lucro; assim, para melhorar a arrumação a bordo, e facilitar a entrada e sahida do gado, supprimiram-se as malas e as faluas. Foi talvez imprudencia. A Durande veio a ter apenas a chalupa. É verdade que a chalupa era excellente.
—Já havia dez annos que Rantaine tinha roubado mess Lethierry.
A prosperidade da Durande tinha um lado fraco, é que não inspirava confiança; acreditava-se que era puro acaso. A situação de mess Lethierry era aceita como excepção. Dizia-se que elle fizera uma loucura feliz. Quiz alguem fazer o mesmo em Cowes, na ilha de Wight, e teve máo exito na tentativa. A tentativa arruinou os accionistas. Dizia Lethierry: É que a machina foi mal construida. Mas os outros abanavam a testa. As novidades tem contra si o odio de todos; o menor erro compromette-as.
Consultado ácerca de um negocio de vapores, disse o banqueiro Jauge, de Paris, um dos oraculos commerciaes do archipelago normando:É uma conversão o que me propondes. Conversão de dinheiro em fumo.Entretanto os navios de vela achavam sempre quantas commanditas fossem precisas. Os capitães teimavam em estar do lado da lona contra a caldeira. Em Guernesey a Durande era um facto, mas o vapor não era um principio. Tal era a pertinacia da negação diante do progresso. Dizia-se de Lethierry:Fez cousa boa, mas não ha de metter-se em outra.Longe de animar, o exemplo delle causava medo. Ninguem ousaria arriscar segunda Durande.
Cedo annuncia-se o equinoxio na Mancha. É um mar estreito, tolhe o vento e irrita-o. Desde Fevereiro começam ali os ventos do Oeste saccudindo as aguas em todos os sentidos. A navegação torna-se inquieta; a gente da costa contempla o mastro de signal; a todos preocupam os navios que podem estar em perigo. O mar apparece como uma emboscada; invisivel clarim trôa para uma estranha guerra. Longas e furiosas lufadas abalam o horizonte; é terrivel o vento. A sombra silva e sopra. Na profundeza das nuvens o rosto negro da tempestade entumece as bochechas.
O vento é um perigo; o nevoeiro outro.
Os nevoeiros causam sempre medo aos navegadores. Ha nevoeiros que trazem suspensos prismas microscopicos de gelo, aos quaes Mariotti attribue as auréolas, os parhelios e os paraselenes. Os nevoeiros tempestuosos são compositos; vapores diversos de peso especifico desigual combinam-se com o vapor da agua e superpõem-se em uma ordem que devide a bruma em zonas e faz do nevoeiro uma verdadeira formação.
Em baixo fica o iodo, acima do iodo o enxofre, acima do enxofre o bromo, acima do bromo o phosphoro.
Isto, em certa proporção, deduzindo a tensão electrica e magnetica, explica muitos phenomenos, o santelmo de Colombo e de Magalhães, as estrellas volantes de que falla Seneca, as duas chammas, Castor e Pollux, de que falla Plutarcho, a legião romana que a Cesar pareceu ver arderem os dardos, a lança do castello do Duino no Frioul, que a sentinella acendia tocando com o ferro da sua lança, e talvez mesmo as fulgurações que os antigos chamavam relampagos terrestres de Saturno.
No equador, immensa bruma permanente parece cingir o globo, é oCloud-ring, annel de nuvens.
O Cloud-ring resfria o tropico, do mesmo modo que o Gulf-Stream aquece o polo. Debaixo do Cloud-ring o nevoeiro é fatal. São essas as latitudes dos cavallos,Horse latitude; os navegadores dos ultimos seculos quando passavam ali atiravam os cavallos ao mar, em occasião de temporal para alijar o navio, em tempo de calma para economisar a agua.
Dizia Colombo:Nube abaxo es muerte.«Nuvem baixa, morte certa.» Os Etruscos, que são para a metereologia o que os Chaldeos são para a astronomia, tinham dous pontificados—o pontificado do trovão e o pontificado da nuvem: uns observavam o relampago, outros o nevoeiro. O collegio dos augures de Tarquinas era consultado pelos Tyrios, Phenicios e Pelasgios, e de todos os navegadores primitivos da antiga Marinterne. O modo de geração das tempestades era entrevisto; ligava-se intimamente ao modo de geração dos nevoeiros, e a bem dizer, é o mesmo phenomeno. Existem no mesmo oceano tres regiões de brumas, uma equatorial, duas polares; os marinheiros dão-lhe um só nome—le pot au noir.
Em todas as paragens, e sobretudo na Mancha, os nevoeiros de equinoxio são mui perigosos. Fazem anoitecer de subito. Um dos perigos do nevoeiro, mesmo quando não é muito cerrado, é impedir que se reconheça a mudança de fundo pela mudança da côr da agua resulta daqui ficarem dissimulados os cachopos e parceis. O navegador approxima-se de um escolho sem ser advertido.
Muitas vezes os nevoeiros não deixam ao navio em marcha outro recurso que não seja pôr-se á capa ou ancorar. Ha tantos naufragios causados pelo nevoeiro como pelo vento.
Entretanto após uma violentissima borrasca que succedeu a um dia de nevoeiro, a chalupaCashmerechegou perfeitamente da Inglaterra. Entrou em Saint-Pierre Port aos primeiros raios dos dia no momento em que o castello Cornet salvava o sol com um tiro. Illuminava-se o horisonte. A chalupaCashmereera esperada como devendo trazer o novo cura de Saint-Sampson. Pouco depois de chegar a chalupa espalhou-se o boato de que encontrara á noite no mar outra chalupa com uma equipagem naufragada.
Naquella noite Gilliatt, quando o vento amainou, sahio a pescar, sem affastar-se muito da costa.
Na volta, estando a maré a encher, pelas duas horas da tarde, e fazendo um sol esplendido, quando Gilliatt passou por diante da Corne de la Bette para entrar na angra, em que ficava apança, pareceu-lhe ver na projecção da cadeira Gild-Holm'Ur uma sombra que não era a do rochedo. Deixou apançachegar até alli, e reconheceu que um homem estava assentado na cadeira Gild-Holm'Ur. O mar já estava alto, a rocha estava cercada pela agua, não era possivel ao homem voltar para terra. Gilliatt gesticulou para o homem, o homem ficou immovel. Gilliatt approximou-se. O homem estava adormecido.
Tinha elle vestuario preto. Parece padre, pensou Gilliatt. Approximou-se ainda mais e vio um rosto de adolescente.
Não conheceu quem era.
A rocha felizmente era a pique; havia muito fundo; Gilliatt costeou a muralha. A maré levantava a barca quanto bastava para que Gilliatt pondo-se de pé, sobre apança, pudesse tocar os pés do homem. Gilliatt levantou-se sobre a borda e ergueu os braços. Se cahisse naquelle momento, é duvidoso que tornasse a apparecer. A vaga batia entre apançae o rochedo era inevitavel ser esmagado.
Gilliatt puchou o pé do homem adormecido.
—Olá! que faz ahi?
O homem acordou.
—Estou olhando, disse elle.
Depois acordando de todo, continuou:
—Cheguei ha pouco á terra, vim passeiar aqui; passei a noite no mar, achei a vista bonita, estava cançado, adormeci.
—Dez minutos mais, afogar-se-hia, disse Gilliatt.
—Ah!
—Salte para a barca.
Gilliatt susteve a barca com o pé, pôz uma das mãos no rochedo, e estendeu a outra ao homem que pulou lestamente na barca. Era um bonito rapaz.
Gilliatt tomou o leme; em dous minutos, apançachegou á angra da casa mal assombrada.
O moço tinha chapéo redondo e gravata branca. Trazia abotoada até o pescoço a comprida sobrecasaca preta. Tinha cabellos louros, rosto feminino, olhar puro, ar grave.
Entretanto apançatocou em terra. Gilliatt passou o cabo na argola da amarra, depois voltou-se, e vio a mão do moço que lhe apresentou um soberano de ouro.
Gilliatt repellio docemente a mão.
Houve um silencio. O moço fallou:
—Salvou-me a vida, disse elle.
—Talvez, respondeu Gilliatt.
Apançaestava amarrada. Sahiram da barca.
O moço continuou:
Devo-lhe a vida, senhor.
—Que importa isso?
Esta resposta de Gilliatt foi acompanhada de novo silencio.
—É desta parochia o senhor? perguntou o mancebo.
—Não, respondeu Gilliatt.
—De que parochia é então?
Gilliatt levantou a mão direita, mostrou o céo e disse:
—Daquella.
O moço comprimentou e foi caminho.
Depois de alguns passos voltou, metteu a mão no bolso, tirou um livro, e voltou-se para Gilliatt.
—Consinta que lhe offereça isto.
Gilliatt tomou o livro
Era uma Biblia.
Instantes depois, Gilliatt encostado ao parapeito, olhava para o moço que voltava o angulo do caminho que ia ter a Saint-Sampson.
A pouco e pouco abateu a cabeça, esqueceu o mancebo, não soube mais se existia a cadeira Gild-Holm'Ur, e tudo desappareceu na immersão sem fundo o scismar. Gilliatt tinha um abysmo, Deruchette. Tirou-o daquelle abysmo uma voz que lhe gritou:
—Olá, Gilliatt!
Reconheceu a voz e ergueu os olhos.
—Que ha, Sr. Landoys?
Era com effeito o Sr. Landoys que passava na estrada a cem passos da casa, no seu phaeton, com um pequeno cavallo. Parou afim de chamar Gilliatt á falla, mas parecia atarefado e apressado:
—Ha novidade, Gilliatt.
—Onde?
—Na casa de mess Lethierry.
—O que ha?
—Estou longe para lhe contar o caso.
Gilliatt estremeceu.
—Casa-se miss Deruchette?
—Não. Mas ...
—Que quer dizer?
—Vá lá a casa delle, que ha de saber.
E o Sr. Landoys chicoteou o cavallo.
O Sr. Clubin era o homem que espera a occasião.
Era baixo e amarello, com a força de um touro. O mar não podia com elle. Tinha uma carne que parecia cera. Era da côr de uma tocha e tinha nos olhos uma luz discreta. A sua memoria tinha um quê de imperturbavel e especial. Vêr um homem uma vez era conserval-o como se fosse uma nota em um registro. O olhar laconico apunhalava. A palpebra tirava a prova de um rosto, e conservava-o; não importava que o rosto envelhecesse depois, o Sr. Clubin não deixava de reconhecel-o. Era impossivel fugir áquella memoria tenaz. O Sr. Clubin era breve, sóbrio, e frio; não fazia gesto algum. Tinha uns ares de candura que prendiam logo. Muitas pessoas acreditavam-n'o simplorio; trazia no rosto uma certa, ruga que indicava uma espantosa estupidez. Não havia melhor marinheiro do que elle. Não havia reputação de religiosidade e integridade maior que a sua. Quem o suspeitasse é que era suspeito. Travara amizade com o Sr. Rebuchet, cambista em S. Malo, rua de S. Vicente, ao lado do armeiro, e o Sr. Rebuchet costumava dizer que confiaria a sua fabrica a Clubin. O Sr. Clubin era viuvo. A mulher foi tão honesta como elle. Morreu com a fama de uma virtude invencivel. Se o bailio lhe fizesse uma declaração ella iria conta-lo ao rei, e se Nosso Senhor se apaixonasse por ella iria contal-o ao padre vigario. O casal Clubin realizou em Torteval o ideal do epitheto inglezrespectable.A Sra. Clubin era o cysne; o Sr. Clubin era o arminho. Morreria se lhe puzessem uma nodoa. Nunca achou um alfinete que não fosse logo á cata do proprietario. Era capaz de pôr em almoeda uma caixa de phosphoros se acaso a tivesse achado na rua. Entrou uma vez em uma taberna em Saint-Servan e disse ao taberneiro: almocei aqui ha tres annos e você enganou-se na conta; e dizendo isto restituio ao taberneiro 75 centimos. Era uma grande probidade, mordendo attentamente os beiços.
Parecia estar sempre á espera. De quem? Provavelmente dos velhacos.
Todas as terças-feiras levava a Durande de Guernesey a S. Malo. Chegava a S. Malo na terça-feira á noite, demorava-se dous dias para fazer o carregamento, e voltava a Guernesey na sexta-feira de manhã. Havia então em S. Malo uma pequena hospedaria, situada no porto, que se chamava a pousada João.
A construcção dos cáes actuaes fez demolir a pousada. Naquella época vinha o mar até a porta S. Vicente e a porta de Dinan; S. Malo e S. Servan communicavam-se nas marés baixas por meio de carrinhos que rolavam e circulavam entre os navios em secco, evitando as boias, as ancoras e os maçames, e arriscando-se às vezes a rasgar a coberta de couro em alguma verga baixa. No intervallo de duas marés, os cocheiros fustigavam os cavallos, naquella mesma arêa, onde, seis horas depois, vinha o vento chicotear as vagas. Na mesma praia andavam outr'ora os vinte e quatro cães, porteiros de S. Malo, que devoraram um official de marinha em 1770. Tamanho zelo fez suprimir os cães. Já não se ouve agora latidos nocturnos entre o pequeno e o grande Tallard.
O Sr. Clubin ia á pousada João. Era alli o escriptorio francez da Durande. Os guardas da alfandega e os guardas da costa ião comer e beber na pousada João. Faziam rancho á parte. Os guardas da alfandega de Binic encontravam-se, vantajosamente para o serviço, com os guardas da alfandega de S. Malo.
Também lá iam os mestres de navio, mas comiam em outra mesa.
O Sr. Clubin assentava-se ora n'uma, ora n'outra, mas preferia a dos guardas á dos mestres. Era bem recebido em ambas.
As mesas eram bem servidas. Haviam as mais apuradas bebidas estrangeiras para os maritimos expatriados. Um marinheiro gamenho de Bilbáo acharia alli um copo dehelada.Bebia-sestuolcomo em Greenwich, egueuse, como em Anvers.
Capitães de longo curso e armadores tomavam ás vezes lugar na mesa dos mestres de navio. Trocavam-se ahi noticias:
—Como vai o assucar?
—Pequenos lotes. Vende-se bem o assucar bruto; tres mil saccas de Bombay e quinhentas barricas de Sagua.
—Ha de ver que o partido da direita ainda derruba o ministerio Villele.
—E o anil?
—Venderam-se apenas uns sete surrões de Guatemala.
—ANanine Julieancorou. Lindo navio de Bretanha.
—As duas cidades do Rio da Prata estão outra vez desavindas.
—Quando Montevidéo engorda, Buenos-Ayres emmagrece.
—Foi preciso deitar ao mar a carga doRegina Coelicondemnado em Calháo.
—O cacáo vai andando; os saccos Caracas são cotados a 234, e os saccos Trindade a 73.
—Parece que na revista do Campo de Marte ouvio-se gritar: abaixo os ministros.
—Os couros salgados saladeros vendem-se, os dos bois a 60 frs. e o das vaccas a 48.
—Já passaram o Balkan? O que faz Diebitsch?
—Em S. Francisco ha falta de anisette. O azeite Plagniol está calmo. O queijo de Gruyére está a 32 frs. o quintal.
—Com que então Leão XII morreu?
—Etc., etc., etc.
Todas estas cousas eram ditas e commentadas no meio de grande barulho. Á mesa dos guardas da alfandega e dos guardas da costa fallava-se menos.
A policia das costas e dos portos quer menos sonoridade e menos clareza no dialogo.
A mesa dos mestres de navio era presidida por um velho capitão de longo curso, o Sr. Gertrais-Gaboureau. Não era um homem, era um barometro. Os habitos do mar deram-lhe uma espantosa infallibilidade de prognostico. Elle decretava o tempo que devia haver no dia seguinte; ascultava o vento; tomava o pulso á maré. Dizia á nuvem; mostra-me a tua lingua. A lingua era o relampago. Era o doutor da vaga, da brisa e da lufada. O oceano era o seu doente; fez uma viagem á roda do mundo como quem faz uma clinica, examinando todos os climas na sua boa e má saude; sabia a fundo a pathologia das estações. Enunciava factos como este:—o barometro desceu uma vez em 1796 a tres linhas abaixo da tempestade. Era marinheiro por amor. Odiava a Inglaterra tanto quanto estimava o mar. Estudou cuidadosamente a marinha ingleza para conhecer os seus lados fracos. Explicava em que ponto oSovereignde 1637 differia doRoyal Williamde 1670 e deVictoryde 1755. Comparava os castellos de pôpa. Lamentava as torres no tombadilho e os cestos de gavea afunilados doGreat Harryde 1514, provavelmente no ponto de vista da bala franceza que se aninhava perfeitamente naquellas superficies. Para elle as nações só existião por suas instituições maritimas; fazia synonymias extravagantes. Chamava a InglaterraTrinity House, a EscossiaNorthern Commissioners, e a IrlandaBallast Board.Abundava de informações; era alphabeto e almanack. Sabia de cór a portagem dos pharoes, principalmente inglezes; umpennypor tonelada ao passar diante deste, umfarthingao passar diante daquelle. Dizia: o pharol deSmalt Rock, que consumia apenas duzentos galões de azeite, consome agora quinhentos. Achando-se muito doente um dia, a bordo, a tripulação que já o tinha por defunto, estava á roda de sua maca, quando elle interrompeu os soluços da agonia para dar ao mestre carpinteiro uma ordem relativa a um concerto do navio.
Era raro que o assumpto de conversa fosse sempre o mesmo na mesa dos capitães e na mesa dos guardas. Apresentou-se, porém, o seguinte caso nos primeiros dias do mez de Fevereiro, em que se passam os factos que estamos contando. A galleraTamaulipas, capitão Zuela, vinda do Chile, e prestes a voltar, chamava a attenção das duas mesas. Na mesa dos mestres fallou-se do carregamento, e na mesa dos guardas fallou-se dos ares suspeitos do navio.
O capitão Zuela, de Copiapó, era chileno, um pouco columbiano; tinha feito com independencia as guerras da independencia, acompanhando, ora Bulivar, ora Morillo, conforme os lucros a haver. Tinha-se enriquecido obsequiando a toda a gente. Não havia homem mais bourbonico, mais bonapartista, mais absolutista, mais liberal, mais atheu e mais catholico. Elle pertencia a este grande partido que se póde chamar o partido Lucrativo. De tempos a tempos fazia apparições commerciaes em França; e, a acreditar-se nos boatos, dava passagem a bordo aos fugitivos, bancarroteiros ou proscriptos politicos, fossem quem fossem, com tanto que pagassem. O meio de embarcal-os era simples. O fugitivo esperava n'um ponto deserto da costa, e no momento de apparelhar, Zuela destacava um escaler que ia buscal-o. Foi deste modo que na sua precedente viagem fez evadir um homem implicado no processo Berthon, e desta vez contava levar pessoas compromettidas na questão da Bidassoa. A policia, já avisada, estava com o olho n'elle.
Era um tempo de fugas aquelle. A restauração era uma reacção; ora as revoluções trazem emigrações, e as restaurações arrastam proscripções. Durante os sete ou oito primeiros annos, depois da entrada dos Bourbons, espalhou-se o terror em tudo, nas finanças, na industria, no commercio, que sentiam tremer a terra e viam multiplicar-se as falencias. Havia umsalve-se quem puderna politica. Lavalette fugira; Lefebvre Desnouettes fugira; Delon fugira. Os tribunaes de excepção trabalhavam; depois veio Trestaillon. Fugia-se á ponte de Saumur, á explanada de Reole, ao muro do observatorio de Paris, á torre de Taurias d'Avignon, tudo isso que se conserva de pé na historia, vestigios da reacção, aonde se distingue ainda a sua mão sanguinolenta.
Em Londres, o processo Thisthewood, ramificado em França, em Paris o processo Trogoff, ramificado na Belgica, na Suissa e na Italia, multiplicaram os motivos da inquietação e desapparecimento, e augmentaram essa profunda derrota subterranea, que deixava vasios os mais altos lugares da ordem social de então. Pôr-se em segurança, era a preoccupação universal. O espirito dos tribunaes prebostaes sobrevivera á instituição. As condemnações eram feitas por complacencia. Fugiam para o Texas, para o Perú, para o Mexico. Os homens da Loire, salteadores então, paladinos hoje, tinham fundado o campo de Asylo. Dizia uma canção de Beranger:
Sauvages, nous sommes français;Prenez pitié de notre gloire.
Expatriar-se era o recurso; porém, nada menos simples que fugir; este monosyllabo encerra abysmos. Tudo é obstaculo para quem se esquiva. Fugir é disfarçar-se. Pessoas importantes, e até illustres, viram-se reduzidas aos expedientes dos malfeitores. E ainda assim sahiam-se mal. Eram inverosimeis. Os seus habitos de franqueza tornava-lhes difficil resvalar pelas malhas da evasão. Um gatuno fugitivo mostrava-se mais correcto aos olhos da policia do que um general. Imaginem a innocencia constrangida a disfarçar-se, a virtude contrafazendo a voz, a gloria mascarando o rosto. Algum individuo que passasse com ar suspeito, era uma reputação á cata de um passaporte falso. O ar embaraçado de um fugitivo, não provava que elle deixasse de ser um heróe. Traços fugazes e caracteristicos dos tempos, que a historia regular esquece, mas que o verdadeiro pintor de um seculo deve rememorar. Atraz dos homens honestos, fugiam os tratantes, menos vigiados, menos suspeitos. Um tratante obrigado a eclipsar-se aproveitava-se da confusão, fazia parte dos proscriptos, e muitas vezes, graças a uma arte apurada, parecia naquelle crepusculo mais honesto que o honesto. Que ha ahi mais acanhado que a probidade diante da justiça? Nada entende, nada finge. Um falsario escapa-se mais facilmente que um convencional.
Cousa estranha! especialmente em relação aos tratantes, quasi se póde dizer, que a evasão fazia subir o individuo. A quantidade de civilisação que um velhaco levava de Paris ou de Londres valia-lhe por dote nos paizes primitivos ou barbaros, recommendava-o e fazia delle um iniciador. Era facil que um aventureiro, escapando ao codigo, chegasse depois ao sacerdocio. Havia phantasmagoria na desapparição, e mais de uma evasão tinha os resultados de um sonho. Uma fuga deste genero levava ao desconhecido e ao chimerico. Tal bancarroteiro sahia de Europa e apparecia mais tarde grão-visir em Mogol ou rei na Tasmania.
Ajudar as evasões era uma industria, e, visto a frequencia do facto, uma industria lucrativa. Esta especulação completava certos generos de commercio. Quem queria fugir para Inglaterra dirigia-se aos contrabandistas quem queria fugir para a America dirigia-se aos trapaceiros de longo curso, taes como Zuela.
Zuela ia comer algumas vezes á pousada João. O Sr. Clubin conhecia-o de vista.
E o Sr. Clubin não era soberbo; não se desprezava conhecer de vista um tratante. Ás vezes chegava mesmo a conhecel-os de facto, dando-lhes a mão em plena rua. Fallava inglez com o smogler e engrolava hespanhol com o contrabandista.
A este respeito tinha elle as seguintes maximas:
—Póde-se adquirir o bem, pelo conhecimento do mal.—O monteiro conversa proveitosamente com o ladrão de caça.—O piloto deve sondar o pirata; o pirata é um escolho.—Trato de provar um velhaco como o medico prova o veneno.
Não tinha replica. Todos davam razão ao capitão Clubin. Era approvado por não ter escrupulos tolos. Quem ousaria dizer mal delle? Tudo quanto fazia erapara bem do serviço.Nelle tudo era simples. Nada podia compromettel-o. O crystal querendo manchar-se não pode. Esta confiança era a justa recompensa de uma longa honestidade e é essa a excellencia das reputações firmes. Fizesse o que fizesse o Sr. Clubin, todos lhe viam malicia no sentido da virtude; tinha adquirido a impecabilidade; e de mais a mais dizia-se que era muito esperto; deste ou daquelle encontro que com outra pessoa seria suspeito, a sua probidade sahia sempre com um relevo de habilidade. A fama de habilidade combinava-se harmoniosamente com a fama de ingenuidade, sem contradicção alguma. Ingenuo habil é cousa que existe. É uma das variedades do homem honesto e das mais apreciadas. O Sr. Clubin era desses homens que, encontrados em conversa intima com um larapio, ou um bandido, são recebidos, comprehendidos, e mais respeitados, e têm ainda por si o piscar de olhos satisfeito da estima publica.
OTamaulipastinha completado o carregamento. Estava proximo a partir e ia aparelhar.
Em uma terça-feira á tarde, ainda com sol, chegou a Durande a Saint-Malo. O Sr. Clubin de pé no passadiço e dirigindo a manobra da entrada, descobriu perto de Petit Bey, na praia, entre dous rochedos, em um lugar muito solitario, dous homens conversando. Deitou-lhes o oculo e reconheceu um dos homens. Era o capitão Zuela. Parece que reconheceu tambem o outro.
O outro era alto, um pouco grizalho. Trazia o chapéo largo e o vestuario grave dos Amigos. Era provavelmente um quaker. Baixava os olhos com modestia.
Chegando á pousada João, o Sr. Clubin soube que oTamaulipasia aparelhar dentro de 10 dias.
Soube-se depois que elle tomara outras informações.
Á noite, entrou em casa do armeiro da rua de S. Vicente, e disse-lhe:
—Sabe o que é um revolver?
—Sei, respondeu elle, é americano.
—É uma pistolla que renova sempre a conversação.
—Na verdade, ella tem pergunta e resposta.
—E replica.
—É justo, Sr. Clubin. O cano é gyrante.
—E cinco ou seis balas.
O armeiro levantou o cantinho do beiço e fez ouvir aquelle estalo de lingua, que, acompanhado de um movimento de cabeça, exprime a admiração.
—A arma é boa, Sr. Clubin. Creia que ha de vir a ser universal.
—Eu queria um revolver de seis tiros.
—Não tenho desses.
—Pois que, o Sr. não é armeiro?
—Mas ainda não tenho disso. Bem vê que é cousa nova. Em França só se fazem pistolas.
—Diabo!
—É cousa que ainda não está no commercio.
—Diabo!
—Tenho pistolas excellentes.
—Quero um revolver.
—Convenho que é melhor. Mas, espere Sr. Clubin.
—O que é?
—Creio que ha um em Saint-Malo.
—Revolver?
—Sim.
—Para vender?
—Sim.
—Onde?
—Creio que sei. Hei de informar-me.
—Quando me dá a resposta?
—O revolver é bom.
—Quando devo voltar?
—Se eu lhe arranjo um revolver, é porque é bom.
—Quando me dá a resposta?
—Na sua primeira viagem.
—Não diga que é para mim.
O Sr. Clubin fez o carregamento da Durande, embarcou o gado e alguns passageiros, e, como de costume, sahio de Saint Malo para Guernesey na sexta-feira de manhã.
Nesse mesmo dia quando o navio já estava ao largo o que permitte ao capitão ausentar-se do tombadilho alguns momentos, Clubin entrou no seu camarote, fechou-se, pegou em um saco de viagem que tinha, metteu alguma roupa no compartimento elastico, biscoutos, latas de conserva, algumas libras de cacáo, um chronometro e um oculo no compartimento solido, e passou pelas argolas uma maroma preparada para içal-o se fosse preciso. Depois desceu ao porão, entrou no deposito dos cabos e viram-n'o subir com uma dessas cordas armadas de um gancho que servem aos calafates no mar e aos ladrões em terra. Essas cordas facilitam a escalada.
Chegando a Guernesey, Clubin foi a Torteval. Passou ahi trinta e seis horas. Levou o saco e a corda, mas não voltou com elles.
Diga-mol-o uma vez por todas, o Guernesey de que se trata neste livro é o antigo Guernesey que já não existe e seria impossivel achal-o hoje, a não ser no campo. É ahi que elle existe vivo, mas nas cidades morreu. A observação que fazemos a respeito de Guernesey deve ser feita a respeito de Jersey. St. Helier vale Dieppe; St. Pierre Port vale Lorient. Graças ao progresso, graças ao admiravel espirito de iniciativa daquelle valente povo insular, tranformou-se tudo em quarenta annos no archipelago da Mancha. Onde havia sombra ha luz. Dito isto, continuemos. Naquelles tempos que, pelo affastado, já são historicos, o contrabando activava-se no mar da Mancha. Abundavam os navios trapaceiros, principalmente na costa de oeste de Guernesey. As pessoas demasiado informadas e que sabem em todas as minucias o que se passava ha quasi meio seculo, chegam a citar os nomes de muitos desses navios quasi todos asturianos. O que é fora de duvida é que não se passava semana, sem que apparecesse um ou dous, ora na bahia dos Santos, ora em Plainmont. Parecia um serviço regular. Havia uma cava de mar em Serk que se chamava e ainda se chama aloja, porque era nessa gruta que a gente da terra ia comprar aos contrabandistas as suas mercadorias de importação. Para as necessidades desse commercio fallava-se na Mancha uma especie de lingua contrabandista, esquecida hoje, e que estava para o hespanhol como o levantino para o italiano.
Em muitos pontos do littoral inglez e francez o contrabando estava em boa harmonia com o negocio licito. Entrava na casa de mais de um financeiro de alta classe, ás escondidas, é verdade; e dilatava-se subterraneamente na circulação commercial e por todas vias de industria. Negociante em publico, contrabandista ás escondidas, eis a historia de muitas fortunas. Seguin dizia isto de Bourguin. Bourguin dizia isto de Seguin. Não garantimos o dito de ambos. Talvez se calumniassem um ao outro. Fosse como fosse, o contrabando perseguido pela lei estava sem contestação muito aparentado no commercio. Carteava-se com a gema da sociedade. A caverna onde Maudrin acotovelava outr'ora o conde de Charolais, era honesta exteriormente e tinha uma fachada irreprehensivel para o lado da sociedade.
Daqui resultaram muitas connivencias necessariamente mascaradas. Taes mysterios exigiam sombra impenetravel. Um contrabandista sabia de muitas cousas e devia guardar segredo; a sua lei era uma fé inviolavel e rigida. A primeira qualidade de um trapaceiro era a lealdade. Sem discrição não ha contrabando. Havia o segredo da fraude como ha o Segredo da confissão.
Esse segredo era imperturbavelmente guardado. O contrabandista jurava não dizer nada e mantinha a sua palavra. Ninguem inspirava mais confiança do que um contrabandista. O juiz alcaide de Oyarzun apanhou um dia um contrabandista e poz-lhe a questão para obrigal-o a declarar quem era o seu caixa de fundos. O contrabandista não confessou quem era o caixa de fundos. O caixa de fundos era o juiz alcaide. Dos dous cumplices, juiz e contrabandista, o primeiro devia para cumprir a lei aos olhos de todos ordenar a tortura, á qual o segundo resistia para cumprir o juramento.
Os dous mais famosos contrabandistas que andavam em Plainmont naquella época, eram Blasco e Blasquito. Eram tocayos. Parentesco hespanhol e catholico que consiste em ter o mesmo patrão no paraiso, cousa não menos digna de consideração que ter o mesmo pae na terra.
Quem estava pouco mais ou menos ao facto do furtivo itinerario do contrabando e queria fallar a esses homens, era isso a cousa mais facil e mais difficil. Bastava não ter preconceitos nocturnos, ir a Plainmont, e affrontar o mysterioso ponto de interrogação que alli se levanta.
Plainmont, perto de Torteval, é um dos tres angulos de Guernesey. Ha, na extremidade do cabo, uma corôa de relva que domina o mar.
O cume é deserto.
Tanto mais deserto quanto ha alli uma casa.
Aquella casa augmenta o horror da solidão.
Dizem que é mal assombrada.
Assombrada ou não, o aspecto é medonho.
É feita de granito, tem um só andar, e está no meio da relva. Não tem aspecto de ruina. É perfeitamente habitavel. As paredes são grossas e o tecto solido. Não falta uma só pedra ás paredes, nem uma só telha ao telhado. Tem uma chaminé de tijolo. A casa está de costas para o mar. A fachada do lado do mar é apenas uma parede. Examinando bem essa parede vê-se uma janella murada. Ha tres trapeiras, uma a leste, duas a oeste, muradas todas. A frente da casa tem uma só porta e janellas. A porta é murada e as duas janellas de baixo tambem. No primeiro andar, e é isso que espanta logo ao principio, ha duas janellas abertas; mas as janellas tapadas são menos assustadoras que as janellas abertas. Por estarem abertas, apparecem negras em pleno dia. Não tem vidros nem caixilhos. Abrem para as trevas do interior. Dissera-se umas orbitas vasias de olhos arrancados. Nada ha naquella casa. Vê-se pelas janellas abertas o descalabro de dentro. Nem retabulos, nem entalhos de madeira, pedra núa. Parece um sepulchro com janellas para deixar que os espectros olhem para fóra. As chuvas alluem os alicerces do lado do mar. Algumas ortigas agitadas pelo vento beijam a barra das paredes. No horisonte, nenhuma habitação humana. Aquella casa é uma cousa vasia e silenciosa. Mas quem pára e põe o ouvido á parede ouve confusamente um bater de azas assustadas. Por cima da porta tapada, na pedra que faz a architrava, estão gravadas estas letras; ELM—PBILG, e esta data 1780.
De noite o luar lugubre penetra na casa.
Todo o mar está em roda da casa. A situação é magnifica, e por consequencia, sinistra. A belleza do lugar torna-se um enigma. Por que motivo aquella casa não é habitada por nenhuma familia humana? O lugar é bonito, a casa é boa. Donde procede esse abandono? Ás perguntas da razão ajuntam-se as perguntas da superstição. O campo é cultivavel, por que motivo está inculto? Não ha dono. A porta murada. Que tem pois este lugar? porque foge o homem? que se faz aqui? Se não ha nada, porque é que não ha ninguem? Quando todos dormem ha alguem acordado? A lufada tenebrosa, o vento, as aves de rapina, os animaes escondidos, os entes ignorados, apparecem ao pensamento e misturam-se aquella casa. A que passageiros serve ella de hospedaria? a gente imagina trevas de graniso e de chuva mettendo-se pela janella dentro. Ha na parte interior uns vagos signaes de chuva que gotejou: Os quartos fechados e abertos são visitados pelo furacão.
Commetter-se-hia algum crime alli? Parece que aquella casa, á noite, entregue ás trevas, deve chamar por soccorro. Será muda? Sahem vozes de dentro? Que faz ella na solidão? O mysterio das horas negras existe alli facilmente. A casa assusta ao meio dia: que será ella á meia noite? Contemplando-a, contempla-se um segredo. Pergunta-se,—porque a superstição tem a sua logica e o possivel a sua inclinação,—o que será aquella casa entre o crepusculo da noite e o crepusculo da manhã. A immensa dispersão da vida extra-humana tem acaso naquelle cume deserto um vinculo em que ella pára, e que a obriga a fazer-se visivel e a descer? O esparso vai redomoinhar alli? o impalpavel vai alli condensar-se? Enigmas. Sahe daquellas pedras o horror sagrado. A treva que está nesses quartos defesos é mais do que treva; é o desconhecido. Depois do sol posto voltam barcos de pescadores para terra, calam-se os passaros, o cabreiro que está atraz do rochedo vai-se com as suas cabras, as fendas das pedras darão passagem aos reptis mais animados, as estrellas começarão a olhar, soprará o vento, far-se-ha plena escuridão, as duas janellas estarão alli escancaradas. Abrem-se para o sonho; e é por apparições, larvas, phantasmas mal distinctos, sombras cobrindo luzes, mystenosos tumultos de almas e espectros, que a crença popular, estupida e profunda, traduz as sombrias intimidades daquella casa com a noite.
A casa é mal assombrada, esta palavra explica tudo.
Os espiritos credulos dão a sua explicação; mas os espiritos positivos dão outra. Nada mais simples do que essa casa, dizem elles. É um antigo posto de observação, do tempo das guerras da revolução e do imperio, e dos contrabandos. Foi construida para isso. Acabada a guerra, foi abandonado o posto. Não se demolio a casa por que pode tornar-se util. Taparam-se as portas e as janellas do rez do chão contra os stercorarios humanos, e para que ninguem podesse entrar; taparam-se as janellas do lado do mar, por causa do vento do sul e do vento de oeste. Eis tudo.
Os ignorantes e os credulos insistem. Em primeiro lugar a casa não foi construida no tempo das guerras da revolução. Traz a data de 1780, anterior á revolução. Depois, não foi construida para ser posto; tem as letras ELM-PBILG que são o duplo monogramma de duas familias, e que indicam, segundo o uso, que a casa foi construida para algum joven casal. Portanto foi habitada. Porque não o é agora? Se se tapou a porta e as janellas para que ninguem entrasse, porque motivo deixaram-se abertas duas janellas? Deviam tapar tudo ou nada. Porque não ha vidros nem caixilhos, nem postigos? Porque fecha-las de um lado, sem fecha-las de outro? A chuva não entra pelo sul, mas entra pelo norte.
Os credulos não têm razão, e certo; mas os positivos também não a tem. O problema persiste.
O que é certo é que a casa, dizem ter sido mais util que nociva aos contrabandistas.
Quando o medo cresce os factos perdem a verdadeira proporção. Não ha duvida que muitos phenomenos nocturnos, entre aquelles de que a pouco e pouco se compoz oassombramentoda casa, poderia explicar-se por presenças fugitivas e obscuras, curtas estações de homens logo embarcados, já pelas precauções, já pela ousadia de certos commerciantes suspeitos, escondendo-se para fazer mal, e deixando-se entrever para causar medo.
Naquella época já remota, muitas audacias eram possiveis. A policia, sobretudo, nos lugares pequenos, não era o que é hoje.
Ajunte-se a isto que se a casa era commoda aos contrabandistas, as suas entrevistas alli deviam ser francas, exactamente porque a casa era mal vista. O ser mal vista impedia que fosse denunciada. Ninguem pede á policia soccorro contra os espectros. Os supersticiosos persignam-se, mas não fazem processos. Vêem ou acreditam vêr, fogem e calam. Existe uma convivencia tacita involuntaria, mas real, entre os que fazem medo e os que tem medo. Os assustados sentem que fizeram mal em se assustarem, imaginam ter sorprehendido um segredo, receiam aggravar a posição mysteriosa para elles, e enfadar as apparições. Isto fal-os discretos. E ainda fóra deste calculo, o instincto dos credulos é o silencio; o medo é mudo; os atterrorisados fallam pouco; parece que o horror diz:silencio!
Devem recordar-se que isto remonta á época em que os camponezes guernesianos acreditavam que o mysterio do presepio era repetido todos os annos pelos bois e pelos asnos; época em que ninguem, na noite de Natal, ousaria penetrar em uma estrebaria com receio de encontrar os animaes ajoelhados.
Se se deve acreditar nas legendas locaes e narrativas dos camponezes a superstição chegou a suspender nas paredes da casa de Plainmont, em pregos de que ainda existem vestigios, ratos sem pés, morcegos sem azas, arcabouços de animaes mortos, sapos esmagados entre as paginas de uma Biblia, febras de tremoços amarellos, estranhos ex-voto pendurados por viandantes imprudentes que acreditavam ver alguma cousa, e por meio desses presente contavam obter perdão e conjurar o máo humor das stryges, das larvas e dos duendes. Houve sempre quem acreditasse em congressos de feitiçaria, e alguns desses credulos altamente collocados. Cesar consultava Sagana, e Napoleão mademoiselle Lenormand. Ha consciencias tão inquietas que chegam a procurar indulgencias de diabo.Faça-o Deos, mas não o desfaça Satanaz, era uma das orações de Carlos V.
Ha espiritos mais timoratos ainda. Esses chegam a persuadir-se de que o mal pode ter razão contra elles. Ser irreprehensivel para com o demonio é uma das suas preoccupações. Dahi vem as praticas religiosas voltadas para a immensa malicia obscura. É uma carolice como qual quer outra. Os crimes contra o demonio existe ein certas imaginações doentias; violar a lei do inimigo é uma cousa que faz soffrer os estranhos casuitas da ignorancia; ha escrupulos para com as regiões das trevas. Crer na efficacia da devoção aos mysterios do Brocken e de Armuyr, imaginar que se pecca contra o inferno recorrendo a penitencias chimericas por infracções chimericas, confessar a verdade ao espirito da mentira, fazer omea culpadiante do pai da Culpa, confessar-se em sentido inverso, tudo isto existe ou existio. Os processos de magia provam-no em cada uma de suas paginas. Vai até esse ponto o sonho humano. Quando o homem começa a assustar-se não pára mais. Sonha culpas imaginarias, sonha purificações imaginarias, e faz limpar a sua consciencia com a vassoura das feiticeiras.
Fosse como fosse, se aquella casa teve aventuras, é cousa que lá ficou; pondo de parte alguns acasos e algumas excepções, ninguem subio a ver o que era; a casa ficou só; ninguem gosta de arriscar-se aos encontros infernaes.
Graças ao terror que a cerca e affasta dalli todo aquelle que pudesse observar e testemunhar, facil foi em todos os tempos entrar de noite naquella casa por meio de uma escada de corda ou simplesmente por meio da primeira tranqueira que se achasse nas hortas visinhas. Levava-se um rancho de viveres, o que dava lugar a esperar alli com toda a segurança a eventualidade de um embarque furtivo. Conta a tradição que ha 40 annos um fugitivo, dizem uns que da politica, outros que do commercio, lá esteve algum tempo escondido, e dalli embarcou n'um barco de pesca para Inglaterra. De Inglaterra é facil passar á America.
A mesma tradição affirma que as provisões depositadas naquelle albergue lá se conservam sem que ninguem as toque, visto como Lucifer e os contrabandistas têm interesse em que a pessoa que lá as põem, vá buscal-as.
Do lugar em que existe aquella casa, vê-se ao sudueste, a uma milha da costa, o escolho de Hanois.
É celebre aquelle escolho. Fez todas as más acções que um rochedo pode fazer. Era um dos mais temiveis assassinos do mar. Esperava perfidamente os navios á noite. Entulhou os cemiterios de Torteval e de Rocquaine.
Em 1862 pôz-se alli um pharol.
Hoje o escolho de Hanois allumia a navegação que elle proprio extraviava outr'ora; a emboscada traz agora um archote na mão. Procura-se hoje como protector e guia o rochedo do qual fugia-se outr'ora como de um malfeitor. O escolho tranquilisa aquelles vastos espaços nocturnos onde outr'ora inspirava o medo. Assemelha-se a um salteador feito soldado de policia.
Ha tres Hanois: o grande Hanois, o pequeno Hanois e a Mauve. No pequeno Hanois é que existe hoje o Light Red.
O escolho faz parte de um grupo de picos, uns submarinhos, outros acima d'agua. Domina-os. Como se fôra uma fortaleza, tem baterias avançadas; do lado do mar alto, um cordão de treze rochas; ao norte dous cachopos, Hautes-Fourquies e Aiguillons, e um banco d'arêa; Heronée; ao sul tres rochedos, Cat-Rock, Percée e Roque-Herpin; depois a South Boue e a Boue Mouet, e além disso em frente de Plainmont, á flor d'agua o Tas de Pois d'Aval.
Atravessar a nado o estreito de Hanois a Plainmont é cousa incommoda, mas não impossivel. O leitor lembra-se que era essa uma das proezas do Sr. Clubin. O nadador que conhece os baixios tem duas estações em que pode descançar, a Roque redonda, e mais longe obliquando um pouco á esquerda, a Roque vermelha.
Pouco mais ou menos naquelle dia de sabbado em que o Sr. Clubin esteve em Torteval, deu-se um facto singular, pouco assoalhado em principio e que só transpirou muito depois. Como dissemos, ha muitas cousas que ficam desconhecidas, mesmo por causa do medo que inspira ás suas proprias testemunhas.
Na noite de sabbado ao domingo, (precisamos o dia e cremol-o exacto) tres meninos escalaram o rochedo de Plainmont. Voltavam á villa. Vinham do mar. Eram o que na lingua local chamamdeniquoi-oiseaux; lêa-sedeniche-oiseaux(furta-ninhos). Onde quer que haja penhascos na praia e fendas de rochedos acima do mar ha furta-ninhos em abundancia. Já fallamos delles. O leitor lembra-se que Gilliatt preoccupava-se com isto, por causa dos passaros e por causa das crianças.
Os furta-ninhos, são especies degaiatosdo occeano, pouco timidos.
A noite era escura. Espessas superposições de nuvens escondiam o zenith. Tres horas da manhã soavam no sino de Torteval que é redondo e pontudo, semelhante a um chapéo de magico.
Porque voltavam tão tarde aquelles pequenos? Nada mais simples. Tinham ido á caça dos ninhos de cotovias no Tas de Pois d'Aval. Como a estação tinha sido amena, começaram cedo os amores dos passaros. Os pequenos, espreitando os machos e as femeas á roda dos ninhos, e distrahidos pela tenacidade da empreza tinham esquecido as horas. Foram cercados pela maré. Não poderam voltar a tempo para a canoa e tiveram de esperar que o mar se retirasse, assentados em uma das pontas do Tas de Pois. Tal foi o motivo da volta nocturna. Estas voltas são esperadas sempre pela febril inquietação das mães que, uma vez tranquillas, manifestam a alegria por meio da colera, e lacrimosas dissipam o terror a cachações. Por isso os pequenos apressavam-se, mas iam assustados. Apressavam-se, mas de boa vontade se demorariam, era um certo desejo de não chegar nunca. Tinham em perspectiva um beijo complicado de sopapo.
Só um dos meninos nada receiava; era um orphão. Era francez e ia bem contente de não ter naquelle dia nem pae nem mãe. Não tendo ninguem que se interessasse por elle, escapava á bordoada. Os outros dous eram guernezianos e da parochia de Torteval.
Escaladas as rochas, os tres furta-ninhos, chegaram á planura onde estava a casa mal assombrada.
Começaram por ter medo, dever de todo o viandante, sobretudo crianças, aquella hora e naquelle lugar.
Quizeram fugir e quizeram parar afim de contemplar a casa.
Pararam.
Contemplaram a casa.
Era negra e formidavel.
Era, naquelle deserto, um montão escuro, uma escrescencia symetrica e hedionda, uma alta massa quadrada de angulos rectilinios, uma cousa semelhante a um enorme altar de trevas.
O primeiro pensamento dos meninos tinha sido fugir; o segundo foi approximar-se. Nunca tinham visto aquella casa áquella hora. A curiosidade de ter medo existe. Havia entre elles um francez, donde resultou que os pequenos approximaram-se da casa.
É sabido que os francezes não acreditam em cousa alguma.
Demais, quando são muitos todos se tranquillisam; o medo dividido por tres dá animação.
E depois, eram curiosos; eram crianças, sommada a idade dos tres não dava trinta annos; era a idade de prescrutar, de escavar, esquadrinhar as cousas occultas; deve-se acaso parar no meio? Mette-se a cabeça neste buraco, porque não mette-la no outro? a caça arrasta; andar em uma descoberta é o mesmo que metter-se em um moinho. Ter olhado para o ninho dos passaros dá vontade de olhar um pouco para o ninho dos espectros. Investigar o inferno, porque não?
De caça em caça, chega-se ao demonio. Depois dos pardáes os diabretes. Ha vontade de saber o que é esse medo inspirado pelos paes. Andar na pista dos contos de carocha é o que ha mais resvaladiço. Saber tanto como as contadeiras de historias é cousa que tenta.
Todo este amalgama de idéas no estado de confusão e instincto, na cabeça dos rapazes, deu em resultado a temeridade delles. Caminharam para a casa.
Demais, o pequeno que lhes servia de apoio nesta bravura, era digno disso. Era um rapaz resoluto, aprendiz de calafate, uma dessas crianças que já são homens, dormindo no estaleiro em cama de palha, ganhando a vida, tendo uma voz grossa, trepando ás arvores e ás paredes sem escrupulos a respeito das fructas que encontrava, tendo trabalhado em concertos de navios de guerra, filho do acaso e do bamburrio, orphão alegre, nascido em França, sem se saber em que ponto, duas razões para ser atrevido, dando sem reparar aos pobres, muito máo, muito bom, louro rastejando a ruivo, tendo já fallado aos parisienses. Agora ganhava um scheling por dia calafetando os barcos dos pescadores. Dando-lhe a veneta punha-se em férias e ia tirar os ninhos dos passaros. Tal era o francez.
A solidão do lugar tinha um não sei quê de funebre. Sentia-se a inviolabilidade ameaçadora. Era medonho. Aquella planura silenciosa e nua escondia no precipicio a sua curva declive. Embaixo callava-se o mar. Não havia vento. As ervas não se mechiam.
Os furta-ninhos avançavam de vagar com o francez á frente, contemplando a casa.
Um delles contando depois o facto ou o pouco que lhe restava na memoria, acerescentava: a casa não dizia nada.
Approximavam-se retendo a respiração, como quem se approxima de um animal feroz.
Tinham subido o comoro que fica atraz da casa, e que vai ter a um pequeno isthmo de rochedos pouco praticavel; estavam perto da casa; mas viam apenas a fachada do sul, que é toda murada; não tinham ousado voltar á esquerda, o que os teria exposto a ver a outra fachada em queha apenas duas janellas, o que é terrivel. Entretanto atreveram-se, por que o aprendiz de callafate disse-lhes baixinho: viremos de bombordo; daquelle lado é que é bonito; é preciso ver ás duas janellas negras.
Viraram de bombordo e chegaram ao outro lado da casa.
As duas janellas estavam illuminadas.
Os meninos fugiram.
Qando estavam longe, voltou-se o francez.
—Olhem, disse elle, já não ha luz.
Com effeito, não havia luz nas janellas. A casa desenhava-se na lividez diffusa do céo.
O medo não se foi, mas a curiosidade voltou. Os furta-ninhos approximaram-se.
De repente appareceram as luzes outra vez.
Os dous rapazes de Torteval tornaram a pôr sebo ás canellas. O pequeno Satanaz francez, não avançou, mas não reccuou.
Ficou immovel, em frente da casa, olhando para ella.
Extinguio-se a luz, depois brilhou de novo. Nada mais horrivel. O reflexo fazia um vago rastilho de fogo na relva humida pelo orvalho. Em certo momento, o clarão desenhou na parede interior da casa grandes perfis negros que se mechiam e sombras de cabeças enormes.
Demais, a casa não tinha tecto nem tabiques, e tendo apenas as quatro paredes e o telhado, uma janella não pode ser illuminada sem que a outra o seja.
Vendo que o aprendiz de calafate ficava, os outros dous voltaram tremulos, curiosos. O aprendiz de calafate, disse-lhes baixinho:—Ha almas do outro mundo na casa. Vi o nariz de uma dellas.—Os dous pequenos agruparam-se atraz do francez, e levantando-se sobre a ponta dos pés, por cima do hombro, abrigados por elle, fazendo delle um escudo, oppondo-o á casa, tranquillisados por tel-o entre si e a visão, olharam tambem.
A casa a seu turno parecia olhar para elles. Tinha naquella vasta obscuridade muda, duas orbitas vermelhas. Eram as janellas. A luz eclipsava-se, reapparecia, eclipsava-se ainda, como essas luzes costumam fazer. Estas intermittencias sinistras representavam provavelmente as alternativas do inferno. Abre-se, fecha-se. O respiradouro do sepulchro tem effeitos de lanterna surda.
De repente uma escuridão opaca com forma humana levantou-se em uma das janellas, como se viesse de fora, depois mergulhou no interior da casa. Parece que alguem chegava.
Entrar pela janella era o habito dos visitantes.
O clarão appareceu um momento mais vivo, depois apagou-se e não reappareceu mais. A casa tornou-se escura. Então ouviram-se rumores. Esses rumores pareciam vozes. É sempre assim. Quando se vê, não se ouve; quando não se vê, ouve-se.
O mar tem á noite uma taciturnidade particular. O silencio da sombra é ahi mais profundo que em qualquer outra parte. Quando não ha nem vento nem marulho, naquella agitada extensão de aguas, onde de ordinario não se ouvem as aguias voar, ouvir-se-hia voar uma mosca. Aquella paz sepulchral dava um relevo lugubre aos rumores que sahiam da casa.
—Vejamos, disse o francez.
—E deu um passo para a casa.
Os outros dous tinham tal medo que decidiram-se a acompanhal-o. Não ousavam fugir sós. Acabavam de passar um grande montão de lenha que, sem que o saibamos, os animava naquella solidão, quando de uma mouta voou uma coruja. As corujas tem uns vôos tortos, de assustadora obliquidade. Aquella passou de travez pelos rapazes, fixando nelles os olhos claros no meio da treva.
Houve um certo estremecimento no grupo atraz do francez.
O francez clamou contra a coruja.
—Tarde vens, coruja. Já não é tempo. Quero ver. E avançou.
O ranger dos seus sapatos grossos e ferrados não lhes impedia ouvir os rumores da casa que se elevavam e baixavam, com a accentuação calma e a continuidade de um dialogo.
Momentos depois accrescentou o francez:
—Demais, só os tolos podem crer em almas do outro mundo.
A insolencia no perigo reune os retardados e impelle-os para a frente.
Os dous rapazes de Torteval puzeram-se a caminho atraz do aprendiz de calafate.
A casa mal assombrada fazia-lhes o effeito de crescer desmesuradamente. Nesta illusão de optica do medo, havia realidade. A casa crescia realmente por que elles approximavam-se della.
Entretanto, as vozes que estavam na casa tornavam-se mais distinctas. Os rapazes ouviam. O ouvido tem os seus augmentos. Não era murmurio, era mais que um cochichar, menos que um alarido. De quando em quando destacava-se uma ou duas palavras claramente articuladas. Essas palavras, impossiveis de comprehender, soavam estranhamente. Os rapazes paravam, ouviam e depois continuavam a andar.
—É a conversa das almas do outro mundo, mas eu não creio em almas do outro mundo, disse o aprendiz de calafate.
Os pequenos de Torteval tinham vontade de esconder-se atraz da lenha; mas já estavam longe, e o amigo francez continuava a andar para a casa. Temiam ir com elle, e não ousavam deixal-o.
Acompanhavam-n'o, a passo e passo e perplexos.
O aprendiz de calafate voltou-se para elles e disse-lhes:
—Bem sabem que não é verdade. Não existe nenhuma.
A casa tornava-se cada vez mais alta.
Approximavam-se.
Approximando-se, reconheciam que havia na casa uma luz abafada. Era um clarão vago, um desses effeitos de lanterna surda, indicados ha pouco, e que abundam na illuminação das feitiçarias.
Quando se acharam ao pé da casa pararam de todo.
Um dos rapazes de Torteval arriscou esta observação:
—Não são almas do outro mundo, são fantasmas.
—Que é aquillo que pende alli á janella? perguntou o outro.
—Parece uma corda.
—É uma serpente.
—É corda de enforcado, disse o francez com autoridade. Serve-lhes. Mas eu não creio.
E mais em tres pulos que em tres passos, o francez estava ao pé da parede da casa. Havia febre naquelle atrevimento.
Os outros, tremulos, imitaram-n'o, e foram collocar-se ao pé delle, encostando-se um á direita, outro á esquerda. Os rapazes applicaram o ouvido á parede. Continuava-se a fallar dentro de casa.
Eis o que diziam os phantasmas: [1]
—Assim pois, está entendido?
—Entendido.
—Dito?
—Dito.
—Aqui esperará nm homem e partirá depois para a America com Blasquito?
—Pagando.
—Pagando.
—Blasquito tomará o homem na barca.
—Sem indagar de que terra elle é?
—Não temos nada com isso.
—Sem lhe perguntar o nome?
—Não se pede o nome, pede-se a bolsa.
—Bem. O homem esperará nesta casa.
—Tendo que comer.
—Terá.
—Onde?
—Neste sacco que trago.
—Muito bem.
—Posso deixar o sacco aqui?
—Os contrabandistas não são ladrões.
—E os senhores quando vão?
—Amanhã de manhã. Se o seu homem está prompto poderá vir comnosco.
—Não está prompto.
—É lá com elle.
—Quantos dias esperará aqui?
—Dous, tres, quatro, dias. Mais ou menos.
—É certo que Blasquito virá?
—Certo.
—Aqui? a Plainmont.
—A Plainmont:
—Em que semana?
—Na proxima.
—Em que dia?
—Sexta, sabbado ou domingo.
—Não pode faltar?
—É meu tocayo.
—Virá com qualquer tempo?
—Qualquer. Não tem medo. Eu sou Blasco, elle é Blasquito.
—Assim não deixará de ir a Guernesey?
—Eu venho n'um mez, elle virá n'outro.
—Entendo.
—A contar de sabbado proximo, de hoje a oito dias, não se passará cinco dias sem que venha Blasquito.
—Mas se o mar estiver muito máo?
—Máo tempo?
—Sim.
—Não virá tão depressa, mas virá.
—Donde virá?
—De Bilbao.
—Para onde irá?
—Para Portland.
—Bem.
—Ou para Tor Bay.
—Melhor.
—O seu homem póde ficar tranquillo.
—Blasquito não será traidor?
—Os covardes são traidores. Somos valentes. O mar é a igreja do inverno. A traição é a igreja do inferno.
—Ninguem nos ouve?
—É impossivel ouvir-nos ou ver-nos. O medo faz isto deserto.
—Sei.
—Quem se atreveria a escutar?
—É verdade.
—Mesmo que escutassem não poderiam entender. Fallamos uma lingua que ninguem conhece. Desde que você a sabe, é dos nossos.
—Eu vim para arranjarmos os negocios.
—Bom.
—E agora vou-me embora.
—Pois sim.
—Diga-me cá, homem. Se o passageiro quizer que Blasquito vá a outro lugar que não Portland ou Tor Bay?
—Traga onças.
—Blasquito fará o que o homem quizer?
—Blasquito fará o que as onças quizerem.
—É preciso muito tempo para ir a Tor Bay?
—Depende do vento.
—Oito horas?
—Mais ou menos.
—Blasquito obedecerá ao passageiro?
—Se o mar obedecer ao Blasquito.
—Ha de ser bem pago.
—Ouro é ouro. Vento é vento.
—É justo.
—O homem faz o que pode com o ouro. Deos com o vento faz o que quer.
—O homem que quer ir com Blasquito aqui virá sexta-feira.
—Bem.
—A que horas chega Blasquito.
—Á noite. Chega-se á noite, sahe-se á noite. Temos uma mulher que se chama agua salgada, e uma irmã que se chama noite. A mulher pode enganar, a irmã nunca.
—Está dito tudo. Adeos, homens.
—Boas tardes. Um gole de aguardente?
—Obrigado.
—É melhor que xarope.
—Tenho a sua palavra.
—O meu nome é Pundonor.
—Deos seja comvosco.
—Se é fidalgo, eu sou cavalheiro.
Era claro que só diabos podiam fallar assim. Os rapazes não ouviram mais, e desta vez fugiram deveras, até o francez, que convencido então, corria mais depressa que os outros.
Na seguinte terça-feira, o Sr. Clubin estava de volta a Saint-Malo trazendo a Durande.
OTamaulipascontinuava ancorado.
O Sr. Clubin, entre duas baforadas de fumo, perguntou ao dono da pousada João:
—Então, quando sahe oTamaulipas?
—Depois de amanhã, quinta-feira, respondeu o estalajadeiro.
Nessa noite, Clubin ceou á mesa dos guardas das costas, e, contra o costume, sahio logo depois de cear. Resultou desta sahida que não pôde estar presente no escriptorio da Durande, e faltou ao carregamento. Foi isto reparado por ser elle um homem tão exacto.
Parece que elle conversou alguns instantes com o seu amigo cambista.
Voltou duas horas depois que Noguette tocou a recolher. O sino brasileiro sôa ás dez horas. Era, pois, meia-noite.