LIVRO SEGUNDO

Gilliatt era sabedor de cachopos e não tomava as Douvres ao serio. Antes de tudo, já o dissemos, tratou elle de pôr apançaem segurança.

A dupla fileira de arrecifes que se prolongava sinuosamente por traz das Douvres, fazia grupo com os outros rochedos, e advinhava-se cavas e saccos sahindo da viela, e prendendo-se á garganta principal como ramos a um tronco.

A parte inferior dos escolhos estava tapetado de sargaço e a parte superior delichen.O nivel uniforme do sargaço em todas as rochas marcava a linha da flutuação da maré cheia. As pontas que a agua não attingia tinha o prateado e o dourado que dá aos granitos marinhos o lichen branco e o lichen amarello.

Cobria a rocha em certos pontos uma lepra de conchas corroidas.

Em outros pontos, nos angulos reentrantes, onde se accumulára uma arêa fina, ondeada na superficie antes pelo vento que pela vaga, havia tufas de cardo azul.

Nos redentes pouco batidos pela espuma, reconhecia-se as pequenas covas furadas pelos ursos do mar. Este urso-concha, que anda, bola viva, rolando-se nas pontas, e cuja couraça compõe-se de mais de dez mil peças artisticamente ajustadas e soldadas, o urso marinho, cuja boca se chama, ninguem sabe porque,lanterna de Aristoteles, cava o granito com os cinco dentes que tem e aloja-se nos buracos. Nessas alveolas é que os pescadores de fructas do mar dão com elle. Cortam-n'o em quatro partes e comem-n'o crú como ostra. Alguns metem o pão naquella carne mólle. Dahi o nome deovo do mar.

As cumiadas dos bancos descobertas pela maré que vasava iam ter mesmo debaixo do rochedo Homem a uma especie de angra murada quasi por todos os lados. Havia alli evidentemente um ancouradouro possivel. Gilliatt observou a angra a forma de uma ferradura, e abria-se de um ao vento Este, que é o menos máo daquellas paragens. O vento alli estava preso e quasi adormecido. Era segura aquella bahiazinha. Nem Gilliatt tinha muito onde escolher.

Se Gilliatt quizesse aproveitar a maré vasante devia apressar-se.

O tempo continuava a ser magnifico. Estava de humor aquelle insolente mar.

Gilliatt tornou a descer, calçou os sapatos, desatou a amarra, entrou na barea, e navegou para fóra. Costeava com o remo a parte externa do cachopo.

Chegando perto do Homem examinou a entrada da angra.

Um certo ondeado na mobilidade da agua, ruga imperceptivel a qualquer que não fosse marinheiro, desenhava aquelle passo.

Gilliatt estudou alguns instantes a curva, lineamento quasi indistincto na vaga, depois tomou ao largo, afim de virar a gosto, e entrar bem, e vivamente, de um só movimento de remo, entrou na angra.

Sondou.

Era excellente o ancouradouro.

Apançaestaria protegida alli quasi contra todas as eventualidades da estação.

Os mais temiveis arrecifes teem desses recantos tranquillos. Os portos que se acham nos escolhos assemelhara-se á hospitalidade do beduino; são honestos e seguros.

Gilliatt arranjou apançao mais perto do Homem que lhe foi possivel, em ponto que não podesse perder-se, e poz ao mar as duas ancoras.

Feito isto, cruzou os braços e reflectio.

Apançaestava abrigada; era um problema resolvido; mas apresentava-se o segundo. Onde abrigar-se Gilliatt?

Offereciam-se dous pontos; o primeiro era a propriapança, com o seu camarote mais ou menos habitavel; o segundo era o cimo do rochedo Homem, facil de escalar.

De qualquer destes dous angulos podia-se ir a pé nas vasantes, saltando-se de rocha em rocha, até ás Douvres, onde estava a Durande.

Mas a vasante dura apenas um momento, e no resto do tempo ficava elle separado, ou do asylo, ou da Durande, por umas duzentas braças. Nadar no mar de um escolho é difficil; com qualquer agiatação é impossivel.

Era preciso desistir dapançae do Homem.

Nenhuma estação possivel nos rochedos visinhos.

Os cimos inferiores dasapparecem duas vezes por dia debaixo da enchente da maré.

Os cimos superiores eram constantemente cuspidos pelos saltos da espuma. Inhospita lavagem.

Restava o casco da Durande.

Podia-se viver alli?

Gilliatt teve essa esperança.

Meia hora depois, Gilliatt, de volta á Durande, subia e descia no interior, do tombadilho ao porão, aprofundando o exame summario de sua pequena visita.

Com auxilio do cabrestante, tinha elle içado á Durande o pacote que fez do carregamento dapança.O cabrestante comportára-se bem. Não faltava onde metter o carregamento, Gilliatt tinha, no meio daquelles destroços, muito onde escolher.

Achou entre as ruinas um escopro cahido sem duvida da celha do carpinteiro e com o qual augmentou elle a ferramenta.

Além disso, como tudo serve onde não ha abundancia, tinha comsigo a faca.

Gilliatt trabalhou todo o dia no casco, limpando, consolidando, simplificando.

Á tardinha se conheceu isto:

Todo o casco tiritava ao vento, tremia a cada passo de Gilliatt. Só era estavel e firme a parte do casco metida entre os rochedos, que continha a machina, e ficava poderosamente presa ao granito.

Instalar-se na Durande era imprudente. Era sobre posse; e, longe de dar pezo ao navio, cumpria tornal-o mais leve.

Carregar sobre o casco era o contrario do que cumpria fazer.

Aquella ruina queria melhores tratos. Era uma especie de doente que expira. Havia bastante vento para maltratal-a.

Já era máo ter de trabalhar nella. A porção de trabalho que o casco devia supportar naturalmente talvez o fatigasse mais do que comportavam as suas forças.

Além disso, se sobreviesse algum accidente nocturno durante o somno de Gilliatt, estar no navio era sossobrar com elle. Nenhum auxilio possivel: tudo ficava perdido. Para soccorrer o navio, era precizo estar fora delle.

Fóra delle e junto delle, tal era o problema.

Complicava-se a difficuldade.

Onde achar um abrigo em taes condições?

Gilliatt pensou.

Só restavam as duas Douvres. Pareciam pouco habitaveis.

Via-se debaixo, noplateausuperior da grande Douvre uma especie de excrescencia.

As rochas em pé, com a parte superior chata, como a grande Douvre e o Homem, são penedos decapitados, abundam nas montanhas e no oceano. Certos rochedos, principalmente os que se encontram em mar largo, teem entranhas como se foram arvores golpeadas. Parecem ter recebido um golpe de machado. Com effeito, essas rochas andam sujeitas ao vae-vem do furacão, que é o lenhador do mar.

Existem outras causas de cataclysma mais profundas ainda. Dahi vem que ha tantas feridas em todos esses velhos granitos. Alguns desses collossos teem a cabeça cortada.

Ás vezes a cabeça, sem que se possa explicar, não cahe e fica mutilada, no cume do rochedo. Não é rara essa singularidade. A Roque-au-Diable, em Guernesey, e a Fable, no valle de Anweiler, apresentam nas mais sorprehendentes condicções esse estranho enigma geologico.

Provavelmente tinha acontecido á grande Douvre alguma cousa semelhante.

Se a tumescencia que havia noplateaunão era natural, era necessariamente algum fragmento que ficaria da decapitação.

Talvez houvesse alguma exacavação nesse pedaço de rocha.

Buraco para metter-se um homem; era o que Gilliatt queria.

Mas como chegar até lá? como trepar por aquella columna vertical, densa e polida como um seixo, meio coberta de uns filamentos viscosos, tendo o aspecto escorregadio de uma superficie ensaboada?

Gilliatt tirou da caixa da ferramenta a corda de nós, prendeu-a á cintura, e poz-se a escalar a pequena Douvre. Á proporção que ia subindo, tornava-se mais difficil a ascenção. Esquecera-se de tirar os sapatos, o que augmentava a difficuldade. Não sem custo chegou á ponta. Chegando á ponta poz-se de pé sobre ella. Havia apenas lugar para os pés. Fazer disso um lugar para descançar e dormir era difficil. Um stylicte contentara-se, Gilliatt mais exigente queria cousa melhor.

A pequena Douvre curvava-se para grande, e de longe parecia comprimental-a, e o intervallo das duas Douvres, que era de uns vinte pés em baixo, era apenas de oito ou dez pés em cima.

Da ponta, onde trepara, Gilliatt vio mais distintamente a entumescencia que cobria a plataforma da grande Douvre.

Essa plataforma elevava-se umas tres toezas acima da cabeça delle.

Separava-o della um precipicio.

O declive da pequena Douvre desapparecia debaixo delle.

Gilliatt desprendeu da cintura a corda de nós, tomou rapidamente com o olhar as dimenções, e atirou a ponta da corda sobre a plataforma.

O gancho arranhou a rocha e resvalou. A corda de nós que tinha o gancho na extremidade, cahio aos pés de Gilliatt ao longo da pequena Douvre.

Gilliatt recomeçou, lançando, a corda mais longe e visando a protuberancia granitica onde via buracos.

O lanço foi tão destro e tão firme que o gancho segurou.

Gilliatt puxou.

Desprendeu-se a corda, e veio bater na columna abaixo de Gilliatt.

Gilliatt lançou a corda pela terceira vez.

Desta vez não cahio.

Gilliatt puxou a corda. Acorda resistio. O gancho estava seguro.

Ficara seguro em alguma anfractuosidade da plataforma que Gilliatt não podia ver.

Tratava-se de confiar a vida aquella desconhecida prisão do gancho.

Gilliatt não hesitou.

Urgia tudo. Era preciso ir quanto antes.

Além de que, descer ao tombadilho da Durande para procurar qualquer outro meio, era cousa impossivel. O resvalamento era provavel e a queda quasi certa. Sobe-se, não se desce.

Tinha Gilliatt, como todos os bons marinheiros, movimento de previsão. Nunca perdia força. Vinham dahi os prodigios de vigor que elle executava com musculos ordinarios; tinha as forças communs, mas uma grande coragem. Ao lado da força, que é physica, tinha a energia, que é moral.

Devia praticar alli um acto tremendo.

Galgar, suspenso áquelle fio, o intervallo das duas Douvres; tal era a questão.

São frequentes nos actos de dedicação ou de dever esses pontos de interrogação que parecem postos pela morte.

Farás isto? diz a sombra.

Gilliatt executou uma segunda tracção de ensaio sobre o gancho; o gancho resistio.

Gilliatt embrulhou a mão esquerda no lenço, apertou a corda com a mão direita coberta pela mão esquerda, depois tendo um pé adiante, e empurrando com o outro pé a rocha afim de que o vigor do impulso impedisse a rotação da corda, precipitou-se do do alto da pequena Douvre sobre a columna da grande.

Duro foi o choque.

Apezar da precaução tomada por Gilliatt, a corda volteou, e foi o hombro delle que bateu no rochedo.

Por sua vez os punhos bateram na rocha. Desatara-se o lenço. As mãos ficaram arranhadas; admirou que não ficassem esmagadas.

Gilliatt conservou-se algum tempo aturdido e suspenso.

Mas ainda assim bastante senhor de si para não largar a corda.

Decorreu algum tempo em oscilação e sobresaltos antes que pudesse agarrar a corda com os pés mas conseguio afinal.

Voltando a si e conservando a corda entre as mãos, Gilliatt olhou para baixo.

Não se assustava a respeito do comprimento da corda, que mais de uma vez lhe servira a maiores alturas. A corda com effeito arrastava na Durande.

Gilliatt, certo de poder descer, começou a trepar.

Em poucos momentos chegou ao cume.

Ninguem, a não serem os passaros, tinha posto alli o pé. A plataforma estava coberta de esterco de passaros. Era um trapezio irregular, lasca daquelle collosal granito chamado grande Douvre. No meio havia uma cava como uma bacia. Trabalho das chuvas.

Gilliatt conjecturara com exatidão. Via-se no angulo meridional do trapesio uma superposição de rochedos, de troços provaveis do descalabro do cimo. Esses rochedos, especie de monte de pedras desmedidas, deixavam lugar a um animal feroz que alli tivesse trepado para passar. Equilibravam-se no meio da confusão; tinha os intersticios de um montão de grabatos. Não havia grota nem antro, mas buracos como uma esponja. Um desses podia admittir Gilliatt.

O fundo desse buraco era de relva e musgo. Gilliatt estaria alli como se fosse em casa.

A alcova na entrada tinha dous pés de altura. Estreitava-se para o fundo. Ha tumulos de pedra que tem essa fórma. O monte de rochedos estava encostado ao sudoeste, de modo que a casinhola de Gilliatt ficava garantida das aguas, mas aberta ao vento do norte.

Gilliatt achou que isso era bom.

Os dous problemas estavam resolvidos, apançatinha um porto, elle tinha casa.

A excellencia da casa era ficar perto da Durande.

O gancho da corda tinha cahido entre dous pedaços de rocha e ficou solidamente preso. Gilliatt immobilisou-o pondo em cima uma grossa pedra.

Depois entrou immediatamente em livre pratica com a Durande.

Já estava em casa.

A grande Douvre era a casa, e Durande era a officina.

Ir e vir, subir e descer, nada mais simples.

Atirou-se vivamente pela corda abaixo até o tombadilho.

O dia foi bom, a cousa começava bem, Gilliatt estava satisfeito, reparou que tinha fome.

Desatou o cesto de provisões, abrio a faca, cortou um pedaço de carne fumada, trincou o pão de rala, bebeu um gole do pichel de agua doce, e ceou admiravelmente.

Trabalhar bem e comer bem, são duas alegrias. O estomago cheio assemelha-se a uma consciencia satisfeita.

Acabada a ceia, ainda havia sol. Gilliatt aproveitou a claridade para começar a alliviar o navio, que era urgente.

Tinha passado uma parte do dia a separar os destroços. Poz de lado, no compartimento solido, onde estava a machina, tudo o que podia servir, madeira, ferro, cordoame, velame. O que era inutil deitou ao mar.

O carregamento dapança, içado pelo cabrestante até o tombadilho, era, embora summario, um estorvo. Gilliatt vio a especie de nicho cavado na pequena Douvre, a uma altura que elle podia tocar com a mão. Vê-se muitas vezes nos rochedos esses armarios naturaes, não fechados, é verdade. Pensou que era possivel confiar o deposito aquelle nicho. Poz no fundo as duas caixas, a da ferramenta e a do vestuario, os dous saccos, o centeio e o biscouto, e na frente, demasiado chegado a borda, por não haver mais lugar, o cesto das provisões.

Teve cuidado de retirar da caixa das roupas a pelle dc carneiro, a japona e as grevas alcatroadas.

Para impedir que o vento desse na corda de nós prendeu a ponta em uma porca da Durande.

A porca era muito curva, e prendia a corda tão bem como se fôsse uma mão fechada.

Restava a parte superior da corda. Prender a extremidade de baixo era facil, mas no cimo da columna, no lugar onde a corda encontrava a borda da plataforma, era de esperar que fôsse a pouco e pouco gasta pelo angulo do rochedo.

Gilliatt investigou o montão de destroços que reservara, apanhou alguns pedaços de lona, e alguns fios de carreta achados entre os cabos, e meteu tudo nas algibeiras.

Qualquer marujo advinhava logo que elle ia forrar com a lona e os fios o pedaço da corda na altura do angulo do rochedo, de modo a preveni-lo de qualquer avaria.

Feita a provisão dos trapos, poz as grevas nas pernas, vestio a japona, prendeu ao pescoço a pelle de carneiro, e assim vestido, com essa panoplia completa, agarrou a corda, rubustamente presa ao flanco da grande Douvre, e subio por aquella sombria torre do mar.

Gilliatt, apezar de ter as mãos arranhadas, chegou rapidamente á plataforma.

Os ultimos clarões do poente iam-se apagando. Fazia noite no mar. O alto da Douvre conservava alguma claridade.

Gilliatt aproveitou o resto da claridade para forrar a corda. Applicou-lhe no cotovello que ella fazia no rochedo, uma ligadura de muitos pedaços de vela, fortemente atada em cada pedaço. Era pouco mais ou menos o forro que costumam a pôr nos joelhos aa actrizes para as agonias e supplicas do 5° acto.

Terminado o forro, Gilliatt levantou-se.

Desde alguns instantes, emquanto esteve forrando a corda, ouvia elle confusamente no ar um extrecimento singular.

Assemelhava-se, no silencio da noite, ao rumor que fizesse o bater das azas de um morcego.

Gilliatt levantou os olhos.

Um grande circulo negro volteava-lhe por cima da cabeça no céo profundo e alvo do crepusculo.

Costuma-se a vêr, nos velhos quadros, circulos iguaes sobre a cabeça dos santos. A differença é que são de ouro em fundo sombrio; este era tenebroso em fundo claro. Nada mais extranho. Dissera-se a aureola nocturna da grande Douvre.

O circulo abaixava-se e levantava-se; estreitava-se e alargava-se.

Eram gaivotas, goelanos, corvos, cotovias, uma nuvem de passaros do mar, espantados.

É provavel que a grande Douvre fosse a hospedaria delles, e que elles fossem buscar ahi o repouso. Gilliatt tinha-lhe tomado um quarto. Assustou-os o inesperado inquilino.

Nunca tinham visto esse homem alli.

Durou algum tempo aquelle voar assustado.

Os passaros pareciam esperar que Gilliatt se fosse embora.

Gilliatt, vagamente pensativo, acompanhava-os com os olhos.

O turbilhão volante acabou por tomar uma resolução, o circulo desfez-se em espiral, e a nuvem de passaros foi cahir do outro lado do escolho, no rochedo Homem.

Ahi pareceram consultar e deliberar. Gilliatt estendendo-se no seu buraco de granito, e pondo debaixo da cabeça uma pedra, como travesseiro, ouvio por muito tempo a conversa dos passaros, que guinchavam cada um por sua vez.

Depois calaram-se, e tudo dormio, os passaros em uma rocha e Gilliatt em outra.

Gilliatt dormio bem. Mas sentio frio, e por isso acordou varias vezes. Tinha naturalmente os pés collocados no fundo do buraco, e a cabeça á borda. Não teve o cuidado de tirar daquelle leito uma porção de seixos agudos que não lhe davam melhor somno.

De quando em quando entreabria os olhos.

Ouvia em certos instantes detonações profundas. Era o mar que enchia e entrava nas cavas do escolho com um ruido de canhão.

Tudo alli em roda apresentava o extraordinario da visão; Gilliatt tinha a chimera á roda de si. O meio espanto da noite contribuia para que elle se visse mergulhado no impossivel. Gilliatt dizia comsigo: Estou sonhando.

Depois tornava a dormir, e sonhando então, achava-se na casa delle, na de Lethierry, em Saint-Sampson; ouvia cantar Deruchette; estava no real. Emquanto dormia acreditava estar acordado e viver; quando acordava, pensava dormir.

Com effeito, era um sonho aquillo.

Lá pelo meio da noite, ouvio-se um vasto rumor no céo. Gilliatt teve confusamente consciencia disso atravez do somno. Era provavel que fosse o vento.

De uma vez que elle acordou, com um estremecimento de frio, abrio as palpebras mais do que ate então. Havia largas nuvens no zenith; a lua fugia e uma grande estrella ia atraz della.

Gilliatt tinha o espirito cheio da diffusão dos sonhos, e esse crescimento do sonho complicava as medonhas paisagens da noite.

De madrugada estava gelado e dormia profundamente.

A aurora tirou-o daquelle somno talvez perigoso. A alcova de Gilliatt estava em frente ao sol nascente. Gilliatt bocejou, espreguiçou-se, e levantou-se do buraco.

Dormiria tão bem que não comprehendeu nada.

A pouco e pouco foi-lhe voltando o sentimento da realidade, e elle exclamou: Almocemos!

O tempo estava calmo, o céo estava frio e sereno, não havia nuvens, a vassoura da noite limpára o horisonte, o sol levanta-se bem. Era um segundo dia bonito que começava. Gilliatt sentio-se alegre.

Tirou a japona, envolveu-a na pelle de carneiro, atou tudo, e metteu o embrulho no fundo do buraco ao abrigo de alguma chuva eventual.

Depois fez a cama, isto é, poz fóra os seixos agudos.

Feita a cama, deixou-se rolar ao longo da corda sobre o tombadilho da Durande, e correu para o nicho onde puzera o cesto de provisões.

Não achou o cesto; como estava muito á beira, o vento da noite atirou-o ao mar.

Isto annunciava uma intenção de luta.

Era preciso que houvesse no vento uma certa vontade e malicia para ir buscar o cesto.

Era um começo de hostilidades. Gilliatt comprehendeu isso.

É difficil, quando se vive em familiaridade com o mar não vêr no vento e nas rochas creaturas e personagens.

Só restava a Gilliatt, além do biscouto e da farinha de centeio, o recurso das conchas com que se alimentou o naufrago morto de fome no rochedo Homem.

A pesca era impossivel. O peixe, inimigo dos choques, evita os escolhos; as redes perdem o seu tempo nos recifes; as pontas da rocha só servem para rasgar as redes.

Gilliatt almoçou alguns mariscos que arrancou da pedra com difficuldade escapando-se-lhe de quebrar a faca; feito este guapolunchouvio um estranho tumulto no mar. Olhou.

Era o bando de goelanos e gaivotas que cahia sobre uma das rochas baixas, batendo as azas, empurrando-se, gritando. Formigavam no mesmo ponto. Aquella horda de bicos e unhas saqueava alguma cousa.

Essa cousa era o cesto de Gilliatt.

O cesto lançado sobre um banco pelo vento, rasgou-se. Os passaros correram logo. Levaram no bico toda a especie de pedaços de comida. Gilliatt reconheceu de longe a sua carne fumada e o seu stockfisch.

Era a vez de entrarem tambem em luta os passaros. Faziam represalias. Gilliatt tomara-lhes a casa; elles tomavam-lhe a comida.

Passou-se uma semana.

Embora fosse a estação das chuvas, não chovia, o que alegrava Gilliatt.

Mas o que elle emprehendia estava acima da força humana, em apparencia ao menos. O successo era de tal modo inverosimil que a tentativa parecia louca.

As operações encaradas de perto mostram os seus impecilhos e perigos. Basta começar para ver como é difficil concluir. Todo começo resiste. O primeiro passo que se dá é um revelador inexoravel. A difficuldade que se toca fere como um espinho.

Gilliatt teve logo de contar com o obstaculo.

Para salvar a machina da Durande, para tentar com alguma probabilidade um tal salvamento naquelle lugar e naquella estação, parecia que seria necessario uma grande porção de homens. Gilliatt era só; precisava ter uma ferramenta completa de carpinteiro e machinista, e Gilliatt apenas tinha uma serra, um machado, uma faca e um martello; precisava ter uma boa officina e um bom telheiro, Gilliatt não tinha nada disso; precisava ter provisões e viveres, Gilliatt não tinha pão.

Alguem que, durante essa primeira semana, visse Gilliatt trabalhando no escolho, não saberia o que pretendia elle. Parecia não pensar nem na Durande nem nas Douvres. Estava occupado com o que havia nos bancos; parecia absorto no salvamento dos pequenos destroços do naufragio. Aproveitava as marés baixas, para limpar os recifes de tudo o que o naufragio lhes tinha dado. Andou de rocha em rocha apanhando o que o mar ahi depuzera, pedaços de velame, pedaços do corda, pedaços de ferro, taboas rasgadas, vergas destruidas, aqui um barrete, alli uma corrente, além uma roldana.

Ao mesmo tempo estudava todas as anfractuosidades do escolho. Nenhum delles era habitavel, com grande decepção de Gilliatt que sentia frio de noite no buraco arranjado na grande Douvre, e desejaria achar melhor pousada.

Duas dessas anfractuosidades eram assaz espaçosas posto que o chão de rocha natural fosse quasi geralmente obliquo e desigual, podia-se andar alli de pé. A chuva e o vento entravam alli a gosto, as altas marés não lhes chegavam. Eram visinhas da pequena Douvre, e faceis de trepar á qualquer hora. Gilliatt decidio que uma seria um deposito e a outra uma forja.

Com todos os cabos que pôde recolher, fez pacotes dos restos do naufragio, ligando os destroços em molhos e as lonas em embrulhos. Apertou tudo cuidadosamente. Á proporção que a maré enchente batia nesses pacotes, Gilliat arrastava-os atravez dos recifes até o deposito. Achou na cava de uma rocha um cabo de guindar, por meio do qual podia levantar mesmo os grossos pedaços de madeira. Do mesmo modo arrancou ao mar os numerosos pedaços de corrente esparsos nos escolhos.

Gilliatt era tenaz e admiravel nesse trabalho. Fazia quanto queria. Nada resiste a um encarniçamento de formiga.

No fim da semana, Gilliatt tinha nesse deposito de granito todo o arsenal de objectos destruidos pela tempestade. Havia o lugar dos cabos e o das escotas; as bolinas não estavam misturadas com as adrissas; as bigotas estavam arranjadas conforme a quantidade de buracos que tinham; as roldanas estavam classificadas separadamente; as cavilhas do papafigos, as machadinhas, os cabos, e mil outros objectos, occupavam, urna vez que não estivessem completamente desfigurados pela avaria, compartimentos differentes; tudo quanto era de carpintaria estava á parte; de cada vez que era possivel, as taboas dos fragmentos do casco eram ajustadas umas ás outras; não havia confusão de rises com viradores, nem pateraces, com enxarcias, nem amuradas com precintas; um dos recantos era reservado á tabuiga da Durande, que apoiava os ovens do cesto de gavea e as gabundonas. Cada destroço tinha o seu lugar. Todo o naufragio estava alli classificado e com o rotulo competente. Era uma cousa semelhante ao cahos armazenado.

Uma vela de estaes, presa por pedras, cobria, aliás rota, o que a chuva podia estragar.

Por mais quebrada que estivesse a prôa da Durande, Gilliatt conseguio salvar os dous cêpos da ancora, com as tres rodas de polé.

Achou o gurupés, e teve muito trabalho em desvencilhal-o das cordas; estavam seguras, e foram postas em tempo secco. Gilliatt, porém, tirou-as, porque o maçame podia ser-lhe util.

Recolheu igualmente a pequena ancora que ficara pendurada em uma cava do banco onde o mar encalhara.

Achou no que fôra camarote de Tangrouille um pedaço de giz e guardou-o cuidadosamente. Podia ter necessidade de fazer algumas marcas.

Uma celha de couro para incendio e algumas tinas em bom estado completavam a ferramenta de trabalho.

O resto do carvão que havia na Durande foi levado para o armazem.

Em oito dias o salvamento dos destroços estava acabado; o escolho estava limpo, e a Durande alliviada. No casco só restava a machina.

O pedaço da amurada que ainda adheria ao resto não fatigava o casco. Pendia sem peso, pois que era sustentado embaixo por uma saliencia de pedra; demais era largo e vasto, e pesado, e não podia ficar no armazem. Parecia uma jangada aquelle pedaço de madeira. Gilliatt deixou-o onde estava.

Gilliatt profundamente pensativo neste labor, procurou em vão abonecada Durande. Era uma dessas cousas que a onda tinha levado para sempre, Gillatt para achal-a daria os seus dous braços, se não precisasse tanto delles.

Na entrada do armazem, e fóra, viam-se dous montes de rebutalho, um de ferro, para fundir, outro de páo, para queimar.

Gilliatt trabalhava desde madrugada. Fóra do tempo do somno, não descançava nunca.

Os corvos marinhos, voando aqui e alli, contemplavam-n'o a trabalhar.

Feito o deposito, Gilliatt fez a forja.

A segunda anfractuosidade escolhida por Gilliatt offerecia ura refugio, especie de garganta, assaz profunda. Gilliatt teve ao principio a idéa de dormir ahi, mas o vento, renovando-se constantemente, era tão continuo e teimoso nesse corredor que elle teve de renunciar á morada. O vento deu-lhe idéa de fazer forja. Se a caverna não podia ser quarto, podia ser officina. Utilisar o obstaculo é um grande passo para o triumpho. O vento era o inimigo do Gilliatt, Gilliatt resolveu fazer delle o seu lacaio.

O que se diz de certos homens:—proprios para tudo, bons para nada,—póde-se dizer das cavas de rochedo. Não dão o que offerecem. Tal cava de rochedo é uma banheira, mas deixa escapar a agua; outra é um leito de musgo, porém molhado; outra é uma cadeira, mas de pedra.

A forja que Gilliatt queria estabelecer estava esboçada pela natureza; mas domar esse esboço, até torna-lo appropriado, e transformar a caverna em laboratorio, nada mais áspero e difficil. Com tres ou quatro rochas largas, abertas como funil, e abrindo para uma fenda estreita, o acaso fizera alli um vasto foles informe, muito melhor que os antigos foles de quatorze pés de comprimento, que davam por cada vez, noventa e oito mil polegadas de ar. Aquillo era outra cousa. As proporções de operação não se calculam.

O excesso de força era incommodo; era difficil regularisar aquelle sopro.

A caverna tinha dous inconvenientes; o ar e a agua atravessavam de um lado para o outro.

Não era a onda, era um pequeno esgoto perpetuo, mais semelhante a uma distillação que a uma torrente.

A espuma, continuamente lançada pela ressaca sobre o escolho, algumas vezes a mais de cem pés no ar, acabara por encher de agua do mar uma bacia natural situada nas altas rochas que dominavam a excavação. A abundancia de agua nesse reservatorio fazia, um pouco atraz, no declive, uma pequena quéda d'agua, de cerca de uma polegada, cahindo de quatro a cinco toezas. Ajuntava-se a isso um contingente de chuva. De tempos a tempos, uma nuvem de passagem derramava algumas gotas naquelle reservatorio inexgotavel, e sempre transbordando.

A agua era salobra, não potavel, mas limpida, embora salgada. A quéda escorria graciosamente nas extremidades dos filamentos verdes como nas pontas de uma cabelleira.

Gilliatt pensou em servir-se dessa agua para disciplinar o vento. Por meio de um funil de dous ou tres tubos de taboas, arranjados á pressa, sendo um de torneira, e de uma larga tina disposta como reservatorio inferior, sem contrapeso, Gilliatt que era, como dissemos, um pouco ferreiro e um pouco mecanico, conseguio compor, para substituir o folle da forja, que não tinha, um apparelho menos perfeito do que aquelle que se chama hojecagniardelle, porém menos rudimentario do que o que se chamava outrora nos Pyreneos uma trompa.

Tinha farinha de centeio, fez cola, tinha corda branca, fez estopa. Com essa estopa e essa cola, e alguns pedacinhos de pão, tapou elle todas as fendas do rochedo, deixando apenas um bico, feito com um pedaço de espoleta que achou na Durande e que servira á pedra de signal. O bico ficava horisontalmente dirigido contra uma larga pedra onde Gilliatt poz a lareira da forja. Gilliatt fez uma rolha para tapar o bico quando fosse preciso.

Depois disto, Gilliatt ajuntou carvão e lenha na lareira, arranjou a pedra de ferir fogo no proprio rochedo, fez cahir a faisca em um punhado de estopa, com a estopa acesa acendeu a lenha e o carvão.

Experimentou o folle. Era admiravel.

Gilliatt sentio essa altivez de cyclope, senhor do ar, da agua e do fogo.

Senhor do ar, deu ao vento uma especie de pulmão, creou no granito um apparelho respiratorio, e fez um folle; senhor da agua, da pequena cascata fez um tubo; senhor do fogo, tirou a flamma daquelle rochedo inundado.

Estando a escavação quasi toda aberta, o fumo sahia livremente, enegrecendo o rochedo. Aquelle rochedo que parecia feito para a espuma, conheceu a ferrugem.

Gilliatt tomou por bigorna um seixo multicor offerecendo a forma e as dimensões que se quizesse. Era uma perigosa base para bater, e podia acontecer que rebentasse. Uma das extremidades do seixo, arredondada, e acabando em ponta, podia a rigor figurar de bigorna conoide, mas faltava a bigorna pyramidal. Era a antiga bigorna de pedra dos Troglodytas. A superficie polida pela agua, tinha a rigidez do aço.

Gilliatt lastimava não ter trazido a sua bigorna. Como ignorava que a Durande estivesse partida pelo meio, esperava achar toda a ferramenta de carpintaria, ordinariamente collocada no porão da prôa. Ora, era exactamente a prôa que faltava.

As duas escavações, conquistadas no escolho por Gilliatt, eram visinhas uma da outra. O deposito e a forja communicavam-se.

Todas as noites, acabado o trabalho, Gilliatt ceava um pedaço de biscouto molhado em agua, um ursosinho d'agua, ou algumas castanhas do mar, caça unica daquelle rochedo, e tiritando como a corda, trepava para ir dormir na grande Douvre.

A especie de abstracção em que Gilliatt vivia, augmentava-se pela materialidade das suas occupações. A realidade era em alta doze. O trabalho corporal com os seus pormenores innumeraveis não diminuia a estupefacção que sentia de achar-se alli, e de fazer o que estava fazendo. Ordinariamente o cançasso material é um fio que puxa para terra; mas a propria singularidade do trabalho emprehendido por Gilliatt, mantinha-o em um trabalho de região ideal e crepuscular. Parecia-lhe ás vezes estar dando martelladas nas nuvens. Outras vezes parecia-lhe que as suas ferramentas eram armas. Tinha o singular sentimento de um ataque latente que elle repellia ou prevenia. Tecer maçame, desfiar uma vela, escorar duas pranchas, era fabricar machinas de guerra. Os mil cuidados minuciosos deste salvamento acabavam por assemelhar-se a precauções contra as aggressões intelligentes, mui pouco dissimuladas e muito transparentes. Gilliatt não sabia as palavras que exprimem as idéas, mas percebia as idéas. Sentia-se cada vez menos operario e cada vez mais pelejador.

Entrou alli como um domador. Comprehendia isso quasi. Estranha ampliação para o seu espirito.

Além disso, tinha á roda de si, a perder de vista, o immenso sonho do trabalho perdido. Nada mais perturbador do que vêr manobrar a diffusão das forças no insondavel e no illimitado. Procuram-se os fins. O espaço sempre em movimento, a agua infatigavel, as nuvens que parecem affadigadas, o vasto esforço obscuro, toda essa convulsão é um problema. Que faz este perpetuo tremor? que construem estes ventos? que levantam estes abalos? Em que se occupam os choques, os soluços, os gritos? que faz todo esse tumulto? O flux e reflux dessas questões é eterno como a maré. Gilliatt sabia o que fazia; mas a agitação da extenção era um enigma que o aturdia confusamente. Sem querer, mecanicamente, imperiosamente, por pressão e penetração, sem outro resultado mais que uma fascinação inconsciente, e quasi feroz, Gilliatt pensativo ajuntava ao seu trabalho, o prodigioso trabalho inutil do mar. Na verdade, como não impressionar-se e sondar alli á vista, o mysterio da tremenda vaga laboriosa? Como não meditar, na proporção, da meditação que se tem, a oscilação da onda, a impetuosidade da espuma, a usura imperceptivel do rochedo, o esfalfamento insensato dos quatro ventos? Que terror para o pensamento não é o recomeçar perpetuo, o oceano poço, as nuvens Danaydes, todo esse trabalho para cousa nenhuma!

Para cousa nenhuma, não; só o Ignoto o sabe!

Um escolho proximo da costa é algumas vezes visitado pelos homens; um escolho em mar largo, nunca. Que se iria buscar ahi? não é uma ilha. Não se pode contar com vitualhas, nem arvores com fruta, nem pastos, nem animaes, nem fontes de agua potavel. É uma nueza n'uma solidão. É uma rocha, com declives fóra d'agua, e pontas debaixo d'agua. Nada se encontra ahi a não ser o naufragio.

Essa especie de escolhos que a velha lingua marinha chama os Isolados, são, como dissemos, lugares estranhos. Só ha o mar. O mar faz alli o que lhe parece. Nenhuma apparição terrestre o perturba. O homem assusta o mar; o mar desconfia delle; esconde-lhe o que é e o que faz. No escolho, está seguro; lá não vai o homem. Não será perturbado o monologo da onda. A agua trabalha no escolho, repara-lhe as avarias, aguça-lhe as pontas, eriça-o, concerta-o. Emprehende a abertura do rochedo, desconjunta a pedra mole, desnuda a pedra dura, tira a carne, deixa o osso, remeche, fura, esboraca, canalisa, põe os intestinos em communicação, enche o escolho de cellulas, imita a esponja em grande, cava o interior, esculpe o exterior.

Nessa montanha, que lhe pertence, o mar faz para si antros, sanctuarios, palacios; tem uma vegetação hedionda e esplendida; compõe-se de hervas fluctuantes que mordem e monstros que se enraizam; mette na sombra da agua essa horrivel magnificencia. No escolho isolado, ninguem o espreita, nem o incommoda; o mar desenvolve ahi a gosto o seu lado mysteriosa inaccessivel ao homem. Depõe ahi as secreções vivas e horriveis. Acha-se alli todo o ignorado do mar.

Os promontorios, os cabos, os cachopos, os arrecifes, são verdadeiras construcções. A formação geologica é pouca cousa, comparada á formação oceanica. Os escolhos, casas da vaga, pyramides da espuma, pertencem á arte mysteriosa que o autor deste livro chamou algures a Arte da Natureza, e tem uma especie de estylo enorme. Alli o fortuito parece intencional. Essas construcções são multiformes. Tem o embaraçado do polypo, a sublimidade da cathedral, a extravagancia do pagode, a amplidão da montanha, a delicadeza da joia, o horror do sepulchro. Tem velaolas como uma colmêa, latibulo como um páteo de bichos, tuneis como um combro de toupeiras, carceres como uma bastilha, emboscadas como um campo. Tem portas, mas tapadas columnas, mas truncadas, torres, mas inclinadas, pontes, mas despedaçadas. Os seus compartimentos são inextrincaveis; isto é só para os passaros; aquillo é só para os peixes. Não se passa. A figura architectural transforma-se, desconcerta-se, affirma e nega a estatica, quebra-se, detem-se, começa em archivolta, acaba em architrave; seixo sobre seixo. Encelado é o pedreiro. Uma dynamica extraordinaria ostenta alli os seus problemas resolvidos. Terriveis abobadas pendentes ameaçam cahir, mas não cahem. Ninguem sabe como se seguram estes edificios vertiginosos. Declives, lacunas, suspensões insensatas; desconhece-se a lei desse babelismo. O Ignoto, immenso architecto, nada calcula e tudo consegue; os rochedos, construidos confusamente, compõem um monumento monstro; nenhuma logica, um vasto equilibrio. É mais do que a solidez, é a eternidade. É a desordem ao mesmo tempo. O tumulto da vaga parece ter passado no granito. Um escolho é a tempestade petrificada. Nada mais impressivel para o espirito do que essa medonha architectura, sempre esboroante, sempre de pé. Tudo alli se ajuda e se contraria. É um combate de linhas donde resulta um edificio. Reconhece-se a collaboração dessas duas querellas, o oceano e o furacão.

Architectura que tem terriveis obras primas. O escolho Douvres era uma dellas.

Esse foi construido e aperfeiçoado pelo mar com um amor formidavel. Lambia-o a agua rabugenta. Era hediondo, perfido, obscuro; cheio de cavas.

Tinha um systema de veias que eram fendas submarinas, ramificando-se em profundezas insondaveis. Muitos orificios desse rasgão inextrincavel ficavam a secco nas vasantes.

Podia-se entrar então, com risco.

Gilliatt, pela necessidade do trabalho, teve de explorar todas essas grotas. Nenhuma dellas deixava de ser temivel. Em todas as cavas, reproduzia-se, com as dimensões exageradas do oceano, aquelle aspecto de matadouro e açougue extranhamente imitado do centro das Douvres. Quem não vio as excavações desse genero, na parede do eterno granito, esses horriveisfrescosda natureza, não póde fazer uma idéa do que é.

Eram dissimuladas essas grotas ferozes, era inconveniente demorar-se nellas. A maré enchente invadia-as até o tecto.

Abundavam os mariscos e os fructos do mar.

Estavam cheias de seixos rolados e amontoados no fundo. Muitos pesavam mais de uma tonelada. Eram de todas as proporções e de todas as côres, a maior parte pareciam ensanguentados, alguns cobertos de filamentos pelludos e viscosos, pareciam grossas toupeiras verdes focinhando no rochedo.

Muitas dessas cavas terminavam como um forno. Outras, arterias de uma circulação mysteriosa, prolongavam-se no rochedo em fendas tortuosas e negras. Eram as ruas do golphão. Essas fendas estreitavam-se constantemente de modo a não deixar passar um homem. Um brandão aceso deixava ver obscuridades gotejantes.

Gilliatt aventurou-se uma vez numa dessas fendas. A hora da maré prestava-se a isso. Era bello dia de calma e de sol. Não havia que temer nenhum accidente do mar que pudesse complicar o perigo.

Duas necessidades como dissemos, levavam Gilliatt a essas explorações: procurar os destroços uteis, e achar lagostas para comer. Já lhe faltavam conchas nas Douvres.

A fenda era estreita e a passagem quasi impossivel. Gilliatt via claridade do outro lado. Fez esforço, espremeu-se como pôde, e entrou até onde lhe foi possivel.

Achou-se, sem pensar, no interior do rochedo da ponta do qual Clubin atirára-se da Durande. Gilliatt estava debaixo dessa ponta. O rochedo, abrupto exteriormente, e inaccessivel, era vasio no interior. Tinha galerias, poços e quartos como o tumulo de um rei do Egypto. Aquelle dedalo era dos mais complicados, trabalho da agua, infatigavel solapa do mar. As divisões daquelle subterraneo submarinho, communicavam provavelmente com a agua immensa do exterior por mais de uma sahida, umas abertas ao nivel da agua, outras profundos funis invisiveis. Perto dalli, Gilliatt nem o sabia, foi que Clubin atirou-se ao mar.

Gilliatt, naquella fisga de crocodillos, onde na verdade não havia medo de achal-os, serpenteava, arrastava-se, esbarrava, curvava-se, levantava-se, perdia o pé, encontrava o chão, avançava penosamente. A pouco e pouco alargou-se o bocal, appareceu uma meia luz, e de repente Gilliatt entrou em uma caverna extraordinaria.

A luz vinha a proposito.

Um passo mais, e Gilliatt estaria em uma agua talvez sem fundo. As aguas das cavas tem um tal resfriamento e uma paralysia tão subita, que lá ficam muitas vezes os mais fortes nadadores.

Demais, não havia meio de subir e agarrar ás rochas entre as quaes ficaria preso.

Gilliatt parou.

Á grota, donde elle sahira, ia ter a mesma saliencia estreita e viscosa, especie de vulcão na muralha a pique. Gilliatt encostou-se á muralha e olhou.

Estava n'uma grande cava. Tinha acima de si alguma cousa semelhante ao interior de um craneo dissecado. E parecia dissecado de fresco. As nervuras gotejantes das strias do rochedo imitavam na abobada as fibras dentadas de uma bola. Por tecto, a pedra; por assoalho, o mar; as ondas apertadas entre as quatro paredes da grota, pareciam vastos ladrilhos fluctuantes. A grota estava fechada por todos os lados. Nenhuma trapeira, nenhum respiradouro, nenhuma fenda na parede. À luz vinha debaixo atravez da agua. Era um resplendor tenebroso.

Gilliatt cujas pupillas se dilataram durante o trajecto obscuro do corredor, distinguia tudo naquelle crepusculo.

Conhecia, por lá ter ido mais de uma vez, as cavas de Plenmont em Jersey, o Croux-Maillé em Guernesey, as Boutiques em Jerk, assim chamadas por causa dos contrabandistas que alli depunham as suas mercadorias; nenhum desses maravilhosos antros era comparavel ao quarto subterraneo e submarinho onde penetrára.

Gilliatt via diante delle, debaixo da vaga, uma especie de arcada afogada. Essa arcada, ogiva natural, trabalhada pela onda, era brilhante entre as suas duas columnas profundas e negras. Era por aquelle portico submergido que entrava na caverna claridade do alto mar. Luz estranha que vinha por um buraco na agua.

Essa claridade esvasava-se debaixo da agua como um largo leque e repercutia no rochedo. Os raios rectilineos, cortados em longas fitas negras, sobre a opacidade do fundo, clareando ou escurecendo de uma anfractuosidade a outra, immilavam interposicões de laminas de vidro. Havia luz, mas luz desconhecida. Já não era a nossa luz. Podia-se crer que se estava em outro planeta. A luz era um enigma; dissera-se o verde clarão da pupilla de uma sphynge. A cava figura o interior de uma caverna enorme; a esplendida abobada era o craneo, e a arcada era a bocca; não havia buracos dos olhos. A boca engulindo e vomitando o flux e o reflux, aberta em pleno meio dia exterior, bebia a luz e vomitava o amargor.

Certos entes, intelligentes e máos, assemelham-se a isto. O raio do sol, atravessando aquelle portico obstruido de uma espessura vidrenta da agua do mar, tornava-se verde como um raio de Aldebaran. A agua, cheia dessa luz molhada, parecia esmeralda em fusão. Um reflexo de agua-marinha de incrivel delicadeza tingia brandamente toda a caverna.

A abobada com os seus lobulos quasi cerebraes e as suas ramificações semelhantes a nervos, tinha um fraco reflexo de chrysopraso. O chamalote da onda, reverberado no tecto, decompunha-se e recompunha-se constantemente, alargando e estreitando as suas rodas de ouro com um movimento de dansa mysteriosa. Sahia dalli uma impressão espectral; o espirito podia perguntar que preza ou que espera era aquella que fazia tão alegremente aquelle magnifico filete de fogo vivo. Nos relevos da abobada e nas asperidades da rocha pendiam longas e finas vegetações banhando provavelmente as raizes atravez do granito em alguma toalha de agua superior, e desbagando, nas pontas, uma gota d'agua, uma perola. Essas perolas cahiarn no golphão com um pequeno rumor. Todo esse conjuuto era inexprimivel. Não se podia imaginar nada mais lindo nem mais lngubre.

Era alli o palacio da Morte, alegre.

Sombra que deslumbra, tal era aquelle sitio sorprehendente.

A palpitação do mar fazia-se sentir naquella cava. A oscillação externa inchava e depremia a toalha de agua interior com a regularidade de uma respiração. Cuidava-se vêr uma alma mysteriosa naquelle grande diaphragma verde elevando-se e abaixando-se em silencio.

A agua era magicamente limpida, e Gilliatt distinguia, em profundezas diversas, estações immersas, superficie de rochas de um verde carregado a mais e mais. Certas cavas obscuras eram provavelmente insondaveis.

Dos dous lados do portico sub-marinho, esboços de cimbrios abatidos, cheios de trevas, indicavam pequenas cavas lateraes, pontos inferiores da caverna central, accessiveis talvez na época das marés extremamente baixas.

Essas anfractuosidades tinham tectos em plano inclinado, em angulos mais ou menos abertos. Pequenas plagas, descobertas pelas excavações do mar, mergulhavam-se e perdiam-se debaixo dessas obliquidades.

Longas hervas expessas, de mais de uma toeza, ondulavam debaixo d'agua como um balancear de cabellos ao vento. Entreviam-se florestas de sargaço.

Fóra d'agua, e dentro d'agua, toda a muralha da cava, de alto abaixo, desde a abobada até ao desapparecimento no invisivel, era tapetada dessas prodigiosas florescencias do oceano, tão raramente viaveis ao olho humano, que os velhos navegadores hespanhóes, chamarampraderias del mar.Expesso musgo, com todos os matizes da azeitona, escondia e ampliava as exostosis de granito. De todos os declives rompiam os delgados lóros lavrados do sargaço com que os pescadores fazem barometros. O halito obscuro da caverna agitava essas correas luzentes.

Debaixo dessas vegetações escondiam-se e mostravam-se ao mesmo tempo, as mais raras joias do escrinio do oceano, os marfins, as mitras, os elmos, as purpuras, os buzios, os strultiolarios, as conchas univalvulas. As campanas de lapas, semelhantes a barracas microscopicas, adheriam ao rochedo e grupavam-se em aldèas, em cujas ruas rolavam as multivalvulas, esses escarabeos da vaga. Não podendo os seixos de marisco entrar facilmente nessa grota, ahi se refugiavam as conchas. As conchas são grandes fidalgos que, bordados e paramentados, evitam o rude e incivil contacto do populacho das pedras. A fulgida reunião das conchas fazia debaixo d'agua, em certos lugares, ineffaveis irradiações atravez das quaes entrevia-se um grupo de azues e vermelhos, e todos os reflexos da agua.

Na parede da caverna, um pouco ácima da linha de flutuação da maré, uma planta magnifica e singular, prendia-se como um debrum á tapeçaria do sargaço, continuava-o e terminava-o. Essa planta, fibrosa, vasta, inextrincavelmente dobrada, e quasi negra, offerecia ao olhar largas toalhas embaraçadas e obscuras, ornadas em toda a extensão de numerosas florinhas côr de lapiz lazuli. Na agua parecia que essas flôres accendiam-se, e cuidava-se vêr brazas azues. Fóra da agua eram flôres, dentro da agua eram saphyras, de modo que a onda, subindo e innundando o esvazamenlo da grota, revestia essas plantas e cobria o rochedo de carbunculos.

A cada enchimento da vaga tumida como um pulmão, essas flôres banhadas, resplandeciam, a cada abaixamento apagavam-se; melancolica semelhança com o destino. Era a aspiração, que é a vida; era a expiração que é a morte.

Uma das maravilhas daquella caverna era a rocha. Essa tocha, ora muralha, ora cymbrio, ora pilastra, era em alguns lugares bruta e nua, em outros trabalhada pelos mais delicados lavores naturaes. Um não sei quê, aliás de espirito, misturava-se á estupidez massiça da pedra. Que artista não é o abysmo! Tal pedaço de parede, cortado em quadro e cheio de altos e baixos, representando attitudes, figurava um vago baixo-relevo; ante essa esculptura, em que havia um tanto de nuvem, podia-se sonhar com Prometteo esboçando para Miguel Angelo. Parecia que com alguns toques de cinzel o genio poderia acabar o que o gigante começara. Em outros lugares a rocha era embutida como um broquel sarraceno ou traçada como uma florentina. Tinham almofadas que pareciam bronze de Corintho, arabescos como uma porta de mesquita; como uma pedra runica tinha signaes de unha obscuros e improvaveis. Plantas com ramos torcidos em forma do verruma, cruzando-se no dourado do musgo, cobriam-na filagranas. Era um antro e uma alhambra. Era o encontro da selvageria e da ourivesaria na augusta e disforme architectura do acaso.

O magnifico bolor do mar avelludava os angulos do granito. As pedras estavam adornadas de lianas grandi-flôres, tão destras que não cahiam, e pareciam intelligentes tão bem adornavam ellas.

Parietarias com estranhos ramalhetes mostravam os seus tuffos a proposito e com gosto. Havia alli a casquilhice possivel numa caverna. A sorprehendente luz edenica que vinha debaixo d'agua, a um tempo penumbra marinha e radiação paradisiaca, esfumava todos os lineamentos em uma especie de diffusão visionaria. Cada vaga era um prisma. O contorno das cousas debaixo desses ondeamentos iriados tinha o chrosmatismo das lentes d'optica demasiado convexas; spetros solares fluctuavam debaixo da agua.

Acreditar-se-hia ver torcer-se nessa diaphaneidade auroreal pedaços de arco-iris afogados. Em outros lugares havia nagua um certo luar. Todos os esplendores pareciam amalgamados alli para fazer um quê de cego e de nocturno. Nada mais impossivel e enigmatico do que aquelle fasto naquella cava. O que dominava alli era o encanto. A vegetação phantastica e a stratificação informe acordavam-se e compunham uma harmonia. Era de bello effeito aquelle consorcio de cousas medonhas. Penduravam-se as ramificações parecendo apenas tocar de leve. Era profundo o affago da rocha selvagem e da flôr ruiva.

Pilares massiços tinham por capiteis e por ligaduras, frageis e tremulas grinaldas; parecia ver-se dedos de fada fazendo cocegas nas patas de um hypopotamo, e o rochedo sustentava a planta e a planta abraçava o rochedo com uma graça monstruosa.

Resultava dessa difformidade mysteriosamente ajustada uma belleza soberana. As obras da natureza, não menos supremas que as obras do genio, contém o absoluto e impoem-se. O inesperado dellas faz-se obedecer imperiosamente pelo espirito; sente-se uma premeditação que fica fora do homem, e ellas não são mais sorprehendentes do que quando fazem subitamente sahir o delicado do terrivel.

Aquella grota estava por assim dizer, e se tal expressão é admissivel, sederalisada. Sentia-se alli o imprevisto do espanto. O que enchia aquella crypta, era luz do apocalypse. Não havia certeza de que aquillo existisse. Tinha-se diante dos olhos uma realidade cheia de impossivel. Olhava-se isto, tocava-se, presenciava-se; mas era difficil crer.

Era luz aquillo que jorrava daquella janella debaixo d'agua? Era agua aquillo que tremia naquella bacia obscura? Aquelles cimbrios e porticos não eram nuvem celeste imitando uma caverna? Que pedra era aquella que se pisava? Aquelle apoio não ia desconjuntar-se e tornar-se fumo? Que joalheria de conchas era aquella que se entrevia? Que distancia havia dalli á vida, á terra, aos homens? Que encanto era aquelle misturado áquellas trevas? Commoção inaudita, quasi sagrada, á qual misturava-se a doce inquietação das hervas no fundo d'agua.

Na extremidade da cava, que era oblonga, debaixo de uma archivolta cyclopica singularmente correcta, em um buraco quasi indistinto, especie de antro no antro, especie de tabernaculo no sanctuario, atraz de uma toalha de luz verde, interposta como um véo de templo, descobria-se fora d'agua uma pedra de angulos cortados em quadro com uma parecença de altar. A agua circumdava essa pedra. Parecia que uma deusa tinha descido d'alli. Era impossivel deixar de pensar, debaixo d'aquella crypta, em cima daquelle altar, em alguma nueza celeste eternamente pensativa, que a entrada de um homem tinha feito fugir. Era difficil conceber aquella celula augusta sem uma visão dentro della; a apparição, evocada pelo devaneio, recompunha-se por si; um rorejar de casta luz sobre espaduas apenas entrevistas, uma fronte banhada de alvores, um oval de rosto olympico, uns mysteriosos seios arredondados, uns braços pudicos, uma coma esparra em uma aurora, uns quadris ineffaveis modelados em luz pallida, no meio da sagrada bruma, umas fórmas de nympha, um olhar de virgem, uma Venus sahindo do mar, uma Eva sahindo do cahos; tal era o sonho que forçosamente assaltava a imaginação. Era inverosimil que não estivesse antes um phantasma naquelle lugar. Uma mulher nua, com um astro em si, devia provavelmente ter occupado aquelle altar. Sobre aquelle pedestal, d'onde emanava um estasis inexprimivel, imaginava-se uma alvura, viva e de pé. O espirito creava, no meio da adoração muda daquella caverna, uma Amphitrite, uma Tethys, alguma Diana que podesse amar, estatua do ideal formada de um raio e contemplando a sombra com meiguice. Foi ella quem, ao esquivar-se, deixou na caverna aquella claridade, especie de perfume—luz sahido daquelle corpo-estrella. A fascinação daquelle fantasma já não estava alli; já se não via a figura, feita para ser vista sómente pelo invisivel, mas sentia-se; recebia-se aquelle estremecimento que é uma volupia. A deosa estava ausente, mas a divindade estava presente.

A bellesa do antro parecia feita para aquella presença. Era por causa dessa deidade, dessa fada dos nacares, dessa rainha das brisas, dessa graça nascida das vagas, era por causa delia, ao menos suppunha-se isto, que o subterraneo estava religiosamente murado, afim de que nada perturbasse nunca, em derredor daquelle divino fantasma, a obscuridade que é um respeito, o silencio que é uma magestade.

Gilliatt, que era uma especie de vidente da naturesa, scismava, confusamente commovido.

De subito, alguns palmos abaixo delle, na transparencia encantadora daquella agua, que eram pedras preciosas dissolvidas, Gilliatt vio alguma cousa inexprimivel. Uma especie de longo andrajo movia-se na oscillação das vagas. Esse andrajo não fluctuava, vogava; tinha a fórma de um sceptro de truão com pontas; essas pontas tinham reflexos; parecia que uma poeira impossivel de molhar-se cobria aquelle todo. Era mais que horrivel, era nojento. Tinha um quê de chimerico; era um ente, a menos que não fosse uma apparencia. Parecia dirigir-se para o obscuro da cava e mergulhava-se alli. As espessuras da agua tornaram-se sombrias sobre aquella cousa que resvalou e desappareceu, sinistra.

A cava não soltava facilmente quem lá ia. A entrada era pouco commoda, a sahida foi ainda peior. Gilliatt entretanto safou-se, mas não voltou lá. Nada encontrou do que procurava, e não tinha tempo para ser curioso.

Poz immediatamente a forja em actividade. Faltava ferramenta, Gilliatt fabricou-a.

Tinha por combustivel os destroços, a agua por motor, o vento por folles, uma pedra por bigorna, por arte o instincto, por força a vontade.

Gilliatt entrou ardentemente nesse trabalho sombrio.

O tempo mostrava-se complacente. Continuava bello, e o menos equinoxial possivel. Chegára o mez de Março, mas tranquillamente. Os dias tornavam-se compridos. O azul do céo, a vasta doçura dos movimentos da extensão, a serenidade do meio dia, pareciam excluir qualquer intensão má. Alegrava-se o mar debaixo do sol. Um affago previo tempera as traições. A agoa marinha não é avara desses affagos. Com aquella mulher é preciso desconfiar do sorriso.

Havia pouco vento; a hydraulica soprava bem. O excesso do vento tolheria em vez de ajudar.

Gilliatt tinha uma serra; fabricou uma lima; com a serra attacou a madeira, com a lima, o metal; depois ajuntou as duas mãos do ferreiro, uma tenaz e uma pinça: a tenaz agarra, a pinça maneja; uma trabalha como a mão, a outra como o dedo. A ferramenta é um organismo. A pouco e pouco Gilliatt arranjava auxiliares, e construia as suas armaduras. Com um pedaço de ferro em folha fez uma anteparo na forja.

Um dos seus primeiros cuidados foi a separação e a reparação das roldanas. Concertou as caixas e as rodas das polés. Cortou a exfoliação de todos os barrotes quebrados e aplainou as extremidades; como dissemos, tinha para as necessidades da carpintaria, grande cópia de peças de madeira armazenadas, e apparelhadas, segundo as formas, as dimensões e as essencias, o carvalho de um lado, o pinheiro do outro, as peças curvas, como as porcas, separadas das peças direitas, como as que ligam as escotilhas. Era uma reserva de pontos de apoio e alavancas, de que podia precisar em um momento dado.

Quem quer construir um guindaste deve munir-se de traves e polés mas não basta isso, é preciso corda. Gilliatt restaurou os cabos e as cordas. Estendeu as vellas rasgadas, e conseguio extrahir excellente fio com que compoz uma sarja, e cirzio o cordoame. Mas essas costuras eram sujeitas a apodrecer, era preciso empregar as cordas e os cabos, Gilliatt apenas pôde fazer o massame sem ter alcatrão.

Concertou as cordas, concertou as correntes.

Pôde, graças á ponta lateral da bigorna, fazer aneis grosseiros, mas solidos; com esses aneis, prendeu uns aos outros os pedaços de corrente quebrados, e fez correntes compridas.

Forjar só, e sem auxilio, é mais do que incommodo. Comtudo Gilliatt conseguio fazêl-o. É certo que só teve de trabalhar na forja, peças de pequeno volume; podia meneal-as com uma mão, e martellar com a outra.

Cortou em pedaços as barras de ferro redondas do lugar do commando; forjou nas duas extremidades de cada pedaço, de um lado uma ponta, do outro uma larga cabeça chata, e desse modo fez grandes prégos de palmo e meio. Esses prégos, muito usados em trabalhos maritimos, são uteis para fixar os páos nas pedras.

Porque motivo Gilliatt tomava todo este trabalho? Vêr-se-ha.

Teve de refazer muitas vezes o fio da machadinha e os dentes da serra. Para a serra fabricou uma lima triangular.

Servia-se tambem do cabrestante da Durande. Quebrou-se a fateixa da corrente. Gilliat fez outra.

Com ajuda da pinça e da tenaz, e servindo-se da faca como de um virador emprehendeu desmontar as duas rodas do navio; conseguio. É preciso não esquecer que isso era exequivel; essa era a particularidade da construcção das rodas. As caixas que as tinham coberto, serviram-lhes de capas; com as taboas das caixas, Gilliatt arranjou dous caixotes onde metteu peça por peça, as duas rodas cuidadosamente numeradas.

O pedaço de giz servio-lhe para essa numeração.

Arranjou os dous caixotes na parte mais solida do convez da Durande.

Terminados estes preliminares, Gilliatt achou-se diante da difficuldade suprema. Surgio a questão da machina.

Desmontar as rodas foi possivel; desmontar a machina, não.

Primeiramente, Gilliatt conhecia mal aquelle mecanismo. Trabalhando ao acaso, podia produzir algum desconcerto irreparavel. Depois, mesmo para tentar desmontal-a peça por peça, se tivesse esta imprudencia, eram-lhe precisas outras ferramentas do que as que elle podia fazer n'uma caverna por officina, com o vento por folles, e uma pedra por bigorna. Tentando desmontar a machina arriscava-se a despedaçal-a.

Aqui podia-se crêr que estava diante do impraticavel.

Affigurou-se-lhe que estava ao pé deste muro: o impossivel.

Que fazer?

Gilliatt tinha uma idéa.

Desde aquelle carpinteiro de Salbris que, no VI seculo, na infancia da sciencia, muito antes que Amoutons tivesse achado a primeira fricção, Labire a segunda, e Coulomb a terceira, sem conselho, sem guia, sem mais auxiliar que um menino, filho delle, com uma ferramenta informe, resolveu em massa, arreando o grande relogio da igreja de Charité-Sur-Loire, cinco ou seis problemas de statica e de dynamica, todos juntos, como as rodas de carros embaraçados; desde esse trabalhador extravagante que achou meio de, sem quebrar um fio de latão e sem desfazer um encaixe, arrear de uma só vez, por uma simplificação prodigiosa, do segundo andar da torre ao primeiro, aquella massiça gaiola de horas, toda de ferro e cobre, grande como uma guarita, com o seu movimento, cylindros, tambores, ganchos, mostrador, pendula horisontal, ancoras de escapamento, meada de corda, pesos de pedra dos quaes um pesava quinhentas libras, tympano, carrilhão; desde esse homem que fez esse milagre, e cujo nome já se não sabe, jámais houve nada igual á empreza que Gilliatt commettia.

A operação de Gilliatt era talvez peior, isto é, mais bella ainda que a outra.

O peso, a delicadeza, o conjuncto das difficuldades, não eram menores na machina da Durande que no relogio de Charité-Sur-Loire.

O carpinteiro gothico tinha um auxiliar, o filho; Gilliatt era só.

Havia uma população, vinda de Menug-Sur-Loire, de Nevers, e mesmo de Orleans, a qual podia, em caso de necessidade, ajudar o carpinteiro de Salbris, e animal-o com os seus rumores benevolos; Gilliatt só tinha á roda de si o rumor do vento e a multidão das ondas.

Nada se compara á timidez da ignorancia, a não ser a sua temeridade. Quando a ignorancia começa a ousar é que tem uma bussola comsigo. Essa bussola é a intuição da verdade, mais clara ás vezes num espirito simples que n'um espirito complicado.

Ignorar convida a tentar. A ignorancia é um devaneio, e o devaneio curioso é uma força. Saber, desconcerta ás vezes, e desaconselha muitas. Se Vasco da Gama soubesse recuára ante o Cabo das Tormentas. Se Christovão Colombo fosse bom cosmographo não teria descoberto a America.

O segundo que subio ao Monte Branco foi um sabio, Saussure; o primeiro foi um pastor, Balmat.

Taes casos, digamol-o de passagem, são a excepção, e tudo isto não tira nada á sciencia, que fica sendo a regra. O ignorante póde achar, só o sabio inventa.

Apançacontinuava a estar ancorada na angra do Homem, onde o mar a deixava tranquilla. Gilliatt, como se sabe, arranjou tudo de modo a ficar em livre pratica com a barca. Foi alli e mediu-a em diversos pontos. Depois voltou á Durande e mediu o grande diametro da machina. O grande diametro, sem as rodas, bem entendido, era mais curto dous pés que o espaço da pança. Portanto, a machina podia entrar na barca.

Mas como metel-a ahi?

Alguns dias depois, o pescador que fosse assaz tonto para ir perlustrar aquellas paragens, em semelhante estação, teria pago a sua ousadia com a visão de uma cousa singular entre as Douvres.

Veria isto o pescador: quatro roubustas pranchas com espaços iguaes entre si, indo de uma Douvre á outra, e como que forçadas entre os rochedos, o que é a melhor solidez deste mundo. Do lado da pequena Douvre as suas extremidades pousavam e fincavam-se nas fendas da rocha; do lado da grande Douvre, essas extremidades deviam ter sido violentamente espetadas na columna com um martello por um robusto trabalhador trepado na propria prancha. Essas pranchas eram um pouco mais longas que o intervallo das Douvres; dahi, a segurança e o plano inclinado em que estavam, formando uma ladeira. Tocavam a grande Douvre em angulo agudo e a pequena em angulo obtuso. Era suave o declive, mas desigual, o que se tornava defeito. A essas quatro pranchas prendiam-se quatro polés guarnecidas todas de corda e boça, e tendo esta singularidade e ousadia, que a polé de rodas estava em uma extremidade da prancha e a polé simples na extremidade opposta. Este desvio de arte, tamanho que era perigoso, era provavelmente exigido pela necessidade da operação. As polés compostas eram fortes e as siraplices eram solidas. A essas prendiam-se cabos que de longe pareciam fios, e por baixo desse aparelho aereo de guindastes e taboas, o massiço casco da Durande parecia suspenso a esses fios.

Ainda não estava suspensa. Perpendicularmente por baixo das pranchas, oito aberturas foram praticadas no casco, quatro a bombordo e quatro a estibordo da machina, e mais oito debaixo dessas, na carena. Os cabos desciam verticalmente, entravam no convez, depois sahiam pela carena, pelas aberturas de estibordo, passavam por baixo da quilha e da machina, entravam outra vez no navio pelas aberturas de bombordo e subindo, atravessando, o convez, voltavam a prender-se nos quatros guindastes das pranchas, onde um guincho prendia-os e fazia um rolo de um cabo unico podendo ser dirigido por um só braço. Um gancho e um carretel por cujo centro passava e dividia-se o cabo unico completavam o apparelho, e em caso de necessidade, continham-no. Esta combinação obrigava as quatro polés a trabalharem juntas, e, verdadeiro freio de forças pendentes, leme de dynamica na mão do piloto da operação, mantinha a manobra em equilibrio. O ajustamento engenhoso do guincho tinha alguma das qualidades simplificadoras do guindaste Werton de hoje, e do antigo polypastono de Vitruvio. Gilliatt descobrio isso, sem conhecer Vitruvio, que já não existe, nem Werton, que não existia ainda. O comprimento dos cabos variava segundo o desigual declive das pranchas, e corrigia um pouco a desigualdade. As cordas eram perigosas, o maçame branco podia quebrar; era melhor empregar correntes, finas as correntes não poderiam passar com facilidade nas polés.

Tudo isso, cheio de defeitos, mas feito por um só homem, era sorprehendente.


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