LIVRO SEGUNDO

O que trouxera mess Lethierry ao sentimento da realidade, foi um abalo.

Digamos qual foi elle.

Uma tarde, a 15 ou 20 de Abril, ouvio-se na porta da sala baixa as duas pancadas que annunciavam o correio. Doce abrio a porta. Era uma carta.

Vinha do mar a carta. Era dirigida a mess Lethieny. Trazia o sello de Lisboa.

Doce levou a carta a mess Lethierry que estava fechado no quarto. Elle pegou na carta, pôl-a machinalmente na mesa, e nem olhou.

A carta ficou alli uma boa semana sem ser aberta.

Aconteceu, porém, que uma manhã Doce disse a mess Lethierry:

—Devo tirar a poeira de que está cheia a carta?

Lethierry pareceu accordar.

—Sim, disse elle.

E abrio a carta.

Leu isto:

«No mar, 10 de Março.

«Mess Lethierry, de Saint-Sampson.

«Receberá o senhor com prazer noticias minhas.

«Estou noTamaulipas, em viagem para não voltar. Ha na equipagem um marujo, Ahier-Tostevin, de Guernesey, que ha de voltar ahi, e que lhe ha de contar alguma cousa. Aproveito o encontro do navioHernan Cortez, com destino a Lisboa, para mandar-lhe esta carta.

«Espante-se. Sou um homem honesto.

«Tão honesto como o Sr. Clubin.

«Devo crer que já sabe o que aconteceu; comtudo não será máo que lhe lembre o caso.

«Eil-o:

«Restitui-lhe os seus capitaes.

«Tomei-lhe emprestados, um pouco incorrectamente, cincoenta mil francos. Antes de deixar Saint-Malo, entreguei, para o senhor, ao seu homem de confiança, o Sr. Clubin, tres notas do banco de mil libras cada uma, o que faz setenta e cinco mil francos. Creio que ha de achar esse reembolso sufficiente.

«O Sr. Clubin tratou dos seus interesses, e recebeu o seu dinheiro com energia. Parece-me um homem zeloso; é por isso que o advirto.

«O seu homem de confiança,

«Rantaine.»

«Post-scriptum.—O Sr. Clubin tinha um revolver, e foi por isso que não tive recibo.»

Tocai um torpedo, tocai uma garrafa de Leyde carregada, e sentireis o mesmo que sentio mess Lethierry lendo esta carta.

Debaixo daquella sobrecarta, naquella folha de papel dobrada em quatro, a que, no primeiro momento, dera pouca attenção, havia uma commoção.

Lethierry reconheceu a letra, reconheceu a assignatura. Quanto ao facto, nada comprehendeu ao principio.

A commoção foi tal que lhe poz, por assim dizer, o espirito em pé.

O phenomeno dos setenta e cinco mil francos que Rantaine confiára a Clubin, era um enigma, e era por isso o lado util do abalo, visto que obrigava Lethierry a reflectir. Fazer uma conjectura, é para opensamento uma occupação sã. Accorda, o raciocinio, convoca-se a logica.

Desde algum tempo, a opinião publica de Guernesey occupava-se em julgar Clubin, o honrado homem que por tantos annos foi unanimemente admittido na circulação da estima. Interrogavam-se uns aos outros, duvidava-se, apostava-se pró e contra. Appareceram singulares esclarecimentos. Clubin começava a apparecer em toda a luz, isto é, tornava-se negro.

Houve em Saint-Malo uma devassa judiciaria para saber onde parava o guarda-costa 619. A perspicacia legal enganara-se, o que lhe acontece muitas vezes. Partia da supposição de que o guarda-costa fôra attrahido por Zuella e embarcado noTamaulipaspara o Chile. Esta hypothese engenhosa trouxe comsigo muitas aberrações. A myopia da justiça não chegou a vêr Rantaine. Mas no decurso da pesquiza os magistrados descobriram outros rastos; complicara-se o negocio que já era obscuro. Clubin entrava no enigma. Havia uma coincidencia, alguma relação talvez, entre a partida doTamaulipase a perda da Durande. Na taverna da porta Dinan, onde Clubin acreditava não ser conhecido, foi conhecido; o taverneiro fallou; Clubin tinha comprado uma garrafa de aguardente. Para quem? O armeiro da rua Saint-Vicent tambem fallou; Clubin comprára um revolver. Contra quem? O dono da hospedaria João tambem fallou; Clubin costumava a ter ausencias inexplicaveis. O capitão Gestrais Gaboreau tambem fallou; Clubin quiz partir, apezar de avisado e sabendo que devia haver nevoeiro. A tripolação da Durande tambem fallou. O carregamento era falho e mal arranjado, negligencia facil de comprehender,se o capitão quer perder o navio. Tambem fallou o passageiro guernesiano; Clubin cuidou ter naufragado nos Hanois. Tambem fallou a gente do Torteval; Clubin foi alli alguns dias antes do naufragio e dirigio-se para Plainmont, vizinho dos Hanois. Levava uma mala, e não voltou com ella. Igualmente fallaram os furta-ninhos; a historia delles parecia prender-se ao desapparecimento de Clubin, comtanto que em vez de almas de outro mundo, fossem contrabandistas. Finalmente a propria casa mal assombrada de Plaimont fallou; algumas pessoas, resolvidas a se esclarecerem, tinham-na escalado, e o que acharam dentro? Exactamente a mala de Clubin.

Os magistrados de Torteval apprehenderam a mala e abriram-na. Continha provisões de bocca, um oculo, um chronometro, roupas de homem, e roupa branca marcada com as iniciaes de Clubin. Tudo isso, nas conversas de Saint-Malo e Guernesey, ia-se accumulando, e já roçava pela fraude. Comparavara-se symptomas confusos; averiguava-se o desdem singular pelos conselhos, a affronta do nevoeiro, a negligencia na arrumação das cargas, a garrafa d'aguardente, o timoneiro ébrio, a substituição do capitão ao timoneiro, o movimento do leme, ao menos desastrado. O heroismo em ficar no navio tornava-se velhacaria. Demais, Clubin enganou-se no escolho. Addmittida a intenção de fraude, comprehendeu-se a escolha dos Hanois, a facilidade de nadar para a costa, e a residencia na casa mal assombrada até chegar a occasião de fugir. A mala acabava a demonstração. Qual o élo que prendia esta aventura á do guarda-costa, ainda não se tinha descoberto. Adivinhava-se uma correlação; nada mais.Entrevia-se, quanto a esse homem, o guarda-costa 619, um drama tragico. Clubin talvez não representasse nelle, mas descobriam-no nos bastidores.

Nem tudo se explicava pela fraude. Havia um revolver sem emprego. O revolver entrou talvez no caso do guarda.

O faro do povo é fino e acertado. O instincto publico é habil nestas restaurações da verdade feitas de pedaços soltos. Sómente, nesses factos, de que resultava uma fraude verosimil, haviam sérias incertezas.

Tudo concordava; mas não havia base.

Não se perde um navio pelo gosto de perdel-o. Não se correm os riscos do nevoeiro, do escolho, do nadar, do refugio, e da fuga, sem um interesse. Qual seria o interesse de Clubin?

Via-se o acto, não se via o motivo.

Dahi vinha a duvida a muitos espiritos. Onde não ha motivo, parece que não ha acto.

A lacuna era grave.

Ora a carta de Rantaine vinha preencher a lacuna.

A carta dava o motivo de Clubin. Queria roubar setenta e cinco mil francos.

Rantaine era oDeus ex machina.Descia das nuvens com uma vela na mão.

A carta era o esclarecimento final.

Explicava tudo essa carta, e demais a mais annunciava uma testemunha, Ahier-Tostevin.

Cousa decisiva, sabia-se agora o emprego do revolver. Rantaine estava incontestavelmente informado de tudo. A sua carta fazia tocar tudo com o dedo.

Nenhuma attenuante possivel na malvadeza de Clubin. Premeditára o naufragio, e a prova era a malalevada para a casa Plainmont. E suppondoo innocente, admittindo o naufragio fortuito, não devia elle, no ultimo momento, decidido ao sacrificio, entregar os setenta e cinco mil francos aos homens que se salvaram na chalupa? Era evidente. Mas que era feito de Clubin? Foi provavelmente victima do seu erro. Pereceu sem duvida no escolho Douvres.

O andaime de conjecturas, todas conformes, na realidade, occupou durante muitos dias o espirito de mess Lethierry. A carta de Rantaine teve a utilidade de obrigal-o a pensar. Teve um primeiro abalo de sorpreza, depois fez esforço de reflectir. Fez outro esforço mais difficil ainda para informar-se. Acceitou e procurou mesmo as conversas. No fim de oito dias tornou-se pratico até certo ponto; o espirito fortaleceu-se e quasi ficou curado. Sahio do estado turvo.

A carta de Rantaine, admittindo que mess Lethierry tivesse algum dia a esperança do reembolso, fez desapparecer a ultima probabilidade.

Á catastrophe da Durande ajuntava-se o naufragio dos setenta e cinco mil francos. A carta empossava-o do dinheiro tanto quanto lhe bastava para sentir a perda. Mostrava-lhe o fundo da ruina.

Dahi veio um soffrimento novo, e agudissimo, que já indicámos. Começou, cousa que ha dous mezes não fazia, a preoccupar-se com a casa, do que havia, e que reformas devia fazer. Tédio eriçado de mil pontas, quasi peior que o desespero. Odiosa cousa é supportar a desgraça por miudo, disputar passo a passo ao facto realisado o terreno que elle vem tomar. Acceita-se a massa do infortunio, a poeira não. Oconjuncto acabrunha, o pormenor tortura. Ha pouco a catastrophe fulminava, agora mortifica.

Essa é a humilhação aggravante do infortunio. É uma segunda annullação que vem ajuntar-se á primeira, e feia. Desce-se um degráo no nada. Depois do sudario, o andrajo.

Nada mais triste do que pensar em decahir.

Parece simples estar arruinado. Golpe violento; brutalidade da sorte; é a catastrophe uma vez por todas. Seja. Aceita-se. Tudo está acabado. Fica-se arruinado. Está dito, morreu. Qual! vive-se. É o que no dia seguinte começa-se a sentir. Porque? Por alfinetadas. Passa um homem sem tirar o chapéo, chovem as contas das lojas, ri-se um inimigo. Ri-se talvez do ultimo trocadilho de Arnal, mas é o mesmo, o trocadilho pareceu-lhe mais engraçado, exactamente por que estás pobre. Lês a tua decadencia até nos olhares indifferentes; as pessoas que jantavam em tua casa, acham demasiado os tres pratos da tua mesa; os teus defeitos saltam aos olhos de todos; as ingratidões, não tendo que esperar mais nada, tiram a mascara; todos os imbecis predisseram o que te acontece; os máos dilaceram-te, os peiores lamentam-te. E mais cem pormenores mesquinhos. A nausea succede ás lagrimas. Bebeis vinho, beberás cidra. Duas criadas! Uma seria de mais. Devia-se despedir esta, sobrecarregar aquella. Ha flôres de mais no jardim; planta antes batatas. Davas flôres aos amigos, vende-as agora no mercado. Quanto aos pobres, já não deves pensar nelles; também não és pobre? Astoilettes, questão pungente. Diminuir uma fita a uma mulher, que supplicio! Recusar o enfeite, a quem tedá a belleza! Ter ares do avarento! Talvez que ella te diga:—Pois que! tiraste as flôres do meu jardim, e agora as tiras do meu chapéo!—Ai triste! condemnal-a aos vestidos velhos! A mesa de familia é silenciosa. Parece-te que te querem mal. Os rostos amados parecem preoccupados. Eis o que é a decadencia. Cumpre-te morrer todos os dias. Cahir, não é nada, é a fornalha. Decahir, é o fogo lento.

A quéda é Waterloo; a decadencia é Santa Helena. A sorte, encarnada em Wellington, tem ainda alguma dignidade; mas quando se faz Hudson Lowe, que vilania! O destino torna-se um bigorrilhas. Vê-se o homem de Campo-Formio querelando por um par de meias de seda. Agorentou-se a Inglaterra, agorentando Napoleão.

Essas duas phases, Waterloo e Santa Helena, reduzidas ás proporções burguezas, todos as atravessam.

Na noite de que fallámos e que era uma das primeiras noites de Maio, Lethierry deixando Deruchette passear ao luar, no jardim, deitou-se mais triste que nunca.

Rolavam-lhe no espirito todas essas minucias mesquinhas e desagradaveis, complicações de fortunas ardidas, todas essas preoccupações de terceira ordem, que começam por ser insipidas e acabam lugubres. Triste accumulação de miserias. Mess Lethierry sentia a sua queda irremediavel. Que devia fazer agora? Que seria delle? Que sacrificios devia impôr a Deruchette. Quem devia despedir, Doce ou Graça? Venderia a casa? Seria obrigado a abandonar a ilha? Não ser cousa alguma onde se foi tudo, é uma decadencia insuportavel.

E pensar que estava acabado! Recordar as viagens de França ao archipelago, a partida ás terças-feiras, a chegada ás sextas, a chusma no cáes, aquelles grandes carregamentos, aquella industria, aquella prosperidade, aquella navegação directa e altiva, aquella machina sugeita á vontade do homem, aquella caldeira omnipotente aquelle fumo, aquella realidade! O vapor é a bussola completa; a bussola indica o caminho, o vapor segue por elle. Uma propõe, a outra executa. Onde estava agora a sua Durande, aquella magnifica e soberana Durande, aquella senhora do mar, aquella rainha que o fazia rei? Ter sido o homem idéa, o homem triumpho, o homem revolução! e renunciar! abdicar! Não existir! fazer rir aos outros! ser um sacco onde já houve alguma cousa! Ser o passado quem foi o futuro! merecer a compaixão altiva dos idiotas! ver triumphar a rotina, a obstinação, o rammerrão, o egoismo, a ignorancia! ver começar outra vez as viagens dos cutters gothicos sacudidos pela vaga! ver a antigualha rejuvenecer! perder a vida! perder a luz e soffrer o eclypse! Ah! como era bello vêr sobre as vagas aquelle cano orgulhoso, aquelle prodigioso cylindro, aquelle pilar de um capitel de fumo, aquella columna maior que a de Vendome, porque havendo nesta apenas um homem, ostentava-se naquella o progresso! O oceano está por baixo; era a certeza em pleno mar. Vio-se aquillo, naquella pequena ilha, naquelle pequeno porto, naquelle pequeno Saint-Sampson? Sim, vio-se! Pois que! vio-se e não se verá mais!

Toda este obsessão da saudade mortificava Lethierry. Ha soluços no pensamento. Talvez nunca sentisse mais amargamente a sua perda. Depois de taes excessosagudos costuma vir um entorpecimento. Debaixo desse peso de tristeza Lethierry adormeceu.

Ficou cerca de duas horas com as palpebras fechadas, dormindo pouco, sonhando muito, febril. Esses torpores cobrem um obscuro e fatigante trabalho do cerebro. Pela meia noite, um pouco antes, ou um pouco depois, Lethierry sacudio o adormecimento. Acordou, abrio os olhos, a janella estava em frente á maca, vio uma cousa extraordinaria.

Havia uma forma diante da janella. Forma inaudita. O cano de um vapor.

Mess Lethierry levantou-se de um salto. A maca oscilou, como se fosse abalada pela tempestade. Lethierry olhou. Havia na janella uma visão. O porto illuminado pela lua reflectia-se nos vidros, e no meio do luar, e, proxima á casa, surgia uma soberba forma recta, redonda e negra.

Era um tubo de machina.

Lethierry precipitou-se para fora da maca, correu á janella, levantou a vidraça, inclinou-se e reconheceu.

O cano da Durande estava diante delle.

Estava no lugar do costume.

As quatro correntes prendiam o cano á borda de um barco dentro do qual distinguia-se uma massa de fórma complicada.

Lethierry recuou, voltou as costas á janella e cahio assentado na maca.

Voltou-se outra vez e vio a mesma visão.

Um momento depois, apenas o espaço de um relampago, estava elle no cáes com uma lanterna na mão.

Á velha argola onde se prendia a Durande estavaamarrada uma barca trazendo um pouco á ré um vulto massiço donde sahia o cano que ficava em frente á janella. A prôa da barca prolongava-se além do canto da parede da casa e encostada ao cáes.

Não havia ninguem na barca.

A barca tinha uma forma especial, conhecida por todos em Guernesey; era apança.

Lethierry pulou deutro. Correu á massa que ficava alem do mastro. Era a machina.

Era ella, inteira completa, intacta, sentada sobre o fundo de metal; a caldeira estava com todas as peças; a arvore das rodas estava arranjada e amarrada perto da caldeira; a bomba estava no seu lugar; nada faltava.

Lethierry examinou a machina.

A lanterna e a lua ajudaram-lhe o exame.

Passou em revista todo o machinismo.

Vio as duas caixas que estavam ao pé. Olhou para a arvore das rodas.

Foi ao camarote; estava vasio.

Voltou á machina e apalpou-a. Metteu a cabeça na caldeira. Ajoelhou-se para ver dentro.

Collocou na caldeira a lanterna que illuminava todo o mechanismo e produzia o effeito de uma machina acesa.

Depois deu uma gargalhada, e levantando-se, com o olhar fixo na machina e os braços estendidos para o cano, gritou: soccorro!

O sino do porto ficava perto. Lethierry correu a elle, segurou a corda, e começou a sacudir o sino impetuosamente.

Gilliatt, com effeito, depois de uma travessia sem incidente, mas um pouco demorada por causa do peso do carregamento, chegou a Saint-Sampson de noite, mais perto das 10 horas que das 9.

Gilliatt calculára a hora. A maré começava a encher. Havia luz e agua; podia-se entrar no porto.

O porto estava adormecido. Haviam alguns navios ancorados, cascos sem veigas, cestos de gavea recolhidos, e sem faróes. Descobria-se no fundo alguns navios em concerto postos no estaleiro. Grandes cascos desmastreados, levantando acima das amuradas furadas as pontas curvas de seus membros desnudos, semelhantes a escaravelhos mortos deitados de costas e com as pernas para o ar.

Gilliatt apenas entrou no porto examinou o caes. Não havia luz em parte alguma, nem na casa deLethierry, nem nas outras. Não havia ninguem na rua, excepto talvez um homem que acabava de entrar ou sahir do presbyterio. E ainda assim poderia ser que não fosse uma pessoa, porque a noite esfuma tudo quanto desenha e o luar faz tudo indeciso. A distancia ajudava a obscuridade. O presbyterio de então, era situado do outro lado do porto, no lugar onde outr'ora havia uma estiva coberta.

Gilliatt encostou-se silenciosamente ao muro e amarrou apançana argola da Durande, debaixo da janella de mess Lethierry.

Depois saltou para terra.

Gilliatt, deixando atraz de si apança, rodeou a casa, atravessou uma viela, depois outra, nem mesmo, olhou para o entroncamento do caminho que ia ter á casa delle, e no fim de alguns minutos parou no recanto da parede onde havia um pé de malva sylvestre com flôres côr de rosa em Junho, azevinho, hera e ortigas. Era dahi que, escondido no espinheiro, assentado numa pedra, tantas vezes, nos dias de verão e durante longas horas e mezes inteiros, tinha elle contemplado por cima do muro, tão baixinho que tentava um pulo, o jardim de Bravées, e atravez das arvores, duas janellas de um quarto da casa. Achou a pedra, o espinheiro, o muro baixo, o angulo obscuro, e como um animal que volta ao buraco, antes escorregando que andando, Gilliatt agachou-se. Depois de assentado não fez movimento algum. Olhou. Tornou a vêr o jardim, as alamedas, as grutas, os canteiros, a casa, as duas janellas do quarto. A lua mostrava-lho aquelle sonho. Era-lhe horrivel ter de respirar. Gilliatt forcejava por conter a respiração.

Parecia-lhe ver um paraiso fantasma. Tinha medo que lhe voasse tudo aquillo. Era quasi impossivel que aquellas cousas estivessem diante delle; e se estavam, era sem duvida prestes a esvair-se como acontece com as cousas divinas. Bastava um sopro para desapparecer tudo. Gilliatt tremia por isso.

Perto delle, e em frente, no jardim, á beira de uma alameda, havia um banco de páo pintado de verde. Os leitores lembram-se desse banco.

Gilliatt contemplava as duas janellas. Pensava em alguem que estivesse dormindo naquelle quarto. Quizera não estar onde estava. Preferia morrer a retirar-se. Pensava numa respiração levantando um seio. Ella, aquella miragem, aquella alvura dentro de uma nuvem, aquella obsessão de seu espirito, estava alli! Gilliatt pensava no inaccessivel que dormia, e tão perto, e ao alcance do seu extase; pensava na mulher impossivel adormecida e visitada tambem pelas chimeras; na creatura desejada, remota, esvaecente, fechando os olhos com a fronte na mão; no mysterio do somno da creatura idéal; nos sonhos que póde ter um sonho. Não ousava pensar além e pensava; arriscava-se nas faltas de respeito do devaneio; perturbava-o a quantidade de forma feminina que póde haver no anjo. A hora nocturna faz com que os olhos timidos lancem furtivos olhares; censurava-se por ir tão longe, receiava profanar com a reflexão; a seu pezar, constrangido, tremulo, Gilliatt olhava para o invisivel. Sentia a commoção e quasi o soffrimento, de imaginar uma saia numa cadeira, um manto atirado ao tapete, um cinto desenlaçado, um lenço de pescoço. Imaginava um collete, um atacador arrastandono chão, meias, ligas. Tinha a alma nas estrellas.

As estrellas são feitas tanto para o coração humano de um pobre, como para o coração de um millionario. Em certo grão de paixão todos os homens são sujeitos ás fascinações profundas. Se a natureza é aspera e primitiva, razão de mais. A condição selvagem augmenta o sonho.

A fascinação é uma plenitude que transborda como todas. Ver as janellas era quasi de mais para Gilliatt.

De repente vio elle a propria moça.

Dentre os ramos de uma mouta, já espessa pela primavera, sahio com ineffavel lentidão, phantastica e celeste, uma figura, um vestido, um rosto divino, quasi um clarão no meio do luar.

Gilliatt sentio-se desfallecer. Era Deruchette.

Deruchette approximou-se. Parou. Deu alguns passos para afastar-se, parou ainda, depois voltou e assentou-se no banco de páo. A lua batia nas arvores, algumas nuvens erravam por entre as estrellas pallidas, o mar fallava ás cousas da sombra, a meia voz, a cidade dormia, do horisonte subia uma neblina, a melancolia era profunda.

Deruchette inclinava a fronte com aquelle olhar pensativo que contempla attentamente o vácuo; estava sentada de perfil, com a cabeça quasi descoberta, tendo um barretinho desatado que lhe deixava ver na nuca delicada a origem dos cabellos, enrolava machinalmente nos dedos uma fita do barrete, a penumbra modulava as suas mãos de estatua, o vestido era de uma dessas côres que de noite se fazem brancas, as arvores moviam-se como se fossem susceptiveisao encanto que resumbrava della, via-se a pontinha de um de seus pés, havia nos seus cilios fechados aquella vaga contracção que annuncia uma lagrima represa ou um pensamento repellido, os seus braços tinham a indecisão fascinante de não achar onde encostar-se, misturava-se-lhe á postura alguma cousa fluctuante, era antes um clarão que uma luz, antes uma graça que uma deusa, as dobras da barra da saia eram delicadas, o seu admiravel rosto meditava virginalmente. Estava tão perto, que era terrivel. Gilliatt ouvia-a respirar.

Havia ao longe um rouxinol que cantava. A passagem do vento nos ramos punha em movimento o inefavel silencio nocturno. Deruchette, gentil e sagrada, apparecia naquelle crepusculo como o resultado daquelles raios e daquelles perfumes; o encanto immenso e esparso ia ter mysteriosamente a ella, nella condensava-se era a sua irradiação. Parecia a alma flôr de toda aquella sombra.

Toda aquella sombra, fluctuante em Deruchette, pesava sobre Gilliatt. Estava desvairado. O que elle sentia não cabe dize-lo em palavras; a commoção é sempre nova e as palavras já servirão muito; dahi vem a impossibilidade de exprimir a commoção. Existe o abatimento do encanto. Ver Deruchette, vêl-a ella propria, ver-lhe o vestido, ver-lhe o barrete, ver-lhe a fita que ella enrolava nos dedos, póde-se acaso imaginar semelhante cousa? Estar perto della, era acaso possivel? Ouvi-la respirar; respirava pois! então os astros respiram. Gilliatt estremecia. Era o mais miseravel e o mais inebriado dos homens. Não sabia que fazer. O delirio de ve-la esmagava-o. Pois que! Era ellaquem alli estava, era elle quem estava alli! As suas idéas, deslumbradas e fixas, paravam naquella creatura como se fora um rubi. Contemplava aquella nuca e aquelles cabellos. Gilliatt nem mesmo pensava que tudo aquillo lhe pertencia, que em pouco tempo, talvez amanhã, elle teria o direito de tirar-lhe aquella coifa e deslaçar aquella fita. Sonhar até esse ponto era um excesso de audacia que elle não poderia conceber um momento. Tocar com o pensamento e quasi tocar com a mão. O amor era para Gilliatt como mel para o urso, o sonho eximio e delicado. Pensava confusarnente. Não sabia o que tinha. O rouxinol cantava. Elle sentia-se expirar.

Levantar-se, galgar o muro, approximar-se, dizer sou eu, fallar a Deruchette, foi idéa que não teve. Se ativesse, fugiria. Se alguma cousa semelhante a um pensamento chegou a despontar no seu espirito, era que Deruchette estava alli, que elle não tinha necessidade de mais cousa alguma, e que a eternidade começava.

Um rumor arrancou a ambos, ella do devaneio, elle do extasis.

Andava alguem no jardim. Não se via quem era por causa das arvores. Era um passo de homem.

Deruchette levantou os olhos.

Os passos aproximaram-se e cessaram. Quem quer que era parou. Devia estar perto. O caminho onde estava o banco, perdia-se entre duas moutas. Era ahi que estava essa pessoa, nesse intervallo, a poucos passos do banco.

O acaso tinha disposto a espessura dos ramos, de tal modo, que Deruchette via, a pessoa, sem que Gilliatt a visse.

O luar projectava no chão, fóra das moutas, e ate ao banco, uma sombra.

Gilliatt vio essa sombra.

Olhou para Deruchette.

Ella estava pallida. A boca entre aberta esboçava um grito de surpreza. Levantou-se um pouco do banco, tornou a sentar-se; havia na sua attitude, uma mistura de fuga e de fascinação. O seu pasmo era um encanto cheio de receio. Tinha nos labios quasi a irradiação do sorriso, e um reflexo de lagrimas nos olhos. Estava como que transfigurada por aquella presença. Não parecia que a creatura alli chegada fosse da terra. Havia no olhar de Deruchette a reverberação de um anjo.

A pessoa, que era apenas um sombra para Gilliatt, fallou em fim. Sahio das moutas uma voz, mais doce que uma voz de mulher, e voz de homem comtudo. Gilliatt ouvio estas palavras:

Vejo-a todos os domingos e quintas-feiras; disseram-me que outr'ora a senhora não ia lá tantas vezes. Fizeram este reparo, peço-lhe perdão. Nunca lhe fallei, era o meu dever; fallo-lhe hoje, é meu dever. Antes de tudo devo dirigir-me á senhora. OCashmereparte amanhã; foi por isso que eu vim. A senhora passeia todas as noites neste jardim. Eu fazia mal em conhecer tanto os seus habitos se não tivesse o pensamento que tenho. A senhora é pobre. Eu sou rico desde esta manhã. Quer-me por seu marido?

Deruchette ajuntou as duas mãos como uma supplicante, e olhou para aquelle que fallava, muda, olhar lixo, tremula da cabeça aos pés.

A voz continuou:

—Amo-a, Deos não fez o coração do homem para que se cale. Se elle promette a eternidade, é porque quer o consorcio. Ha para mim na terra uma mulher, é a senhora. Penso na senhora como n'uma oração. A minha fé está em Deos, na senhora a minha esperança. As azas que tenho é a senhora quem as traz. A senhora é a minha vida, e já o meu céo.

—Senhor, disse Deruchette, não ha na casa ninguem para responder-lhe.

A voz soou de novo:

—Tive este lindo sonho. Deos não prohibe os sonhos. A senhora faz-me o effeito de uma gloria. Amo-a apaixonadamente. A santa innocencia é a senhora. Sei que esta é a hora em que todos estão dormindo, mas eu não tinha outra occasião á minha escolha. Lembra-se daquelle passo da Biblia que nos leram? Genesis, capitulo vinte e cinco. Muitas vezes pensei nelle. Reli-o muitas vezes. O reverendo Herodes dizia-me:—É-lhe preciso uma mulher rica. Eu respondi:—Não, preciso de uma mulher pobre. Fallo-lhe de longe, e recuarei mesmo se a senhora não quizer que a minha sombra toque em seus pés. É a senhora a soberana; virá a mim se quizer. Assim o espero. A senhora é a forma viva da benção.

—Senhor, balbuciou Deruchette, eu não sabia que reparavam em mim aos domingos e quintas-feiras.

A voz continuou:

—Nada se pode contra as cousas angelicas. Toda a lei é amor. O casamento é Chanaam. A senhora é a belleza promettida. Ave, cheia de graça!

Deruchette respondeu:

Eu pensava que não fazia mal indo como as outras pessoas á igreja.

—A voz continuou:

—Deos pôz as suas intenções nas flôres, na aurora, na primavera, e elle quer que se ame. A senhora é bella nesta sacra obscuridade da noite. Este jardim foi cultivado pela senhora, e no perfume ha alguma cousa de seu halito. Os encontros das almas não dependem dellas. Não é culpa nossa. A senhora ia á igreja, nada de mais; eu estava lá, nada de mais. Nada fiz senão sentir que a amava. Algumas vezes os meus olhos levantaram-se para a senhora. Fiz mal, mas como não? Foi contemplando-a que eu fiquei assim. Não podia impedil-o. Ha vontades mysteriosas acima de nós. O primeiro templo é o coração. Ter a sua alma em minha casa, tal é o paraiso terrestre a que eu aspiro. Aceita? Emquanto fui pobre nada disse. Eu sei a sua idade. Tem vinte annos, eu tenho vinte e seis. Parto amanhã, se me recusa não voltarei. Quer ser minha noiva? Os meus olhos já lhe fizeram esta pergunta mais de uma vez e a meu pesar. Amo-a, responda-me. Fallarei a seu tio quando elle puder receber-me, mas em primeiro lugar á senhora. É a Rebecca que se pede Rebecca. Só se me não ama.

Deruchette inclinou a fronte e murmurou.

—Oh! eu o adoro!

Isto foi dito em voz tão baixa que só Gilliatt ouvio. Ella abaixou a fronte, como se o rosto na sombra puzesse na sombra o pensamento.

Houve uma pausa. As folhas das arvores não se mechiam. Era esse momento severo e aprazixel em que o somno das cousas a junta-se ao somno das creaturase em que a noite parece escutar as palpitações da natureza. Neste recolhimento eleva-se, como uma harmonia que completa um silencio, o ruido immenso do mar.

A voz continuou:

—Senhora.

Deruchette estremeceu.

A voz continuou:

—Estou esperando.

—O que espera?

—A sua resposta.

Deos a ouviu—disse Deruchette.

Então a voz tornou-se sonora e ao mesmo tempo mais doce que nunca. Estas palavras sahiram da moita como de uma sarça ardente.

—Tu és minha noiva. Levante-te e vem. Que o teto azul, onde estão os astros, assista a esta aceitação da minha alma pela tua alma, e que o nosso primeiro beijo se misture ao firmamento!

Deruchette levantou-se e ficou um instante immovel e com o olhar fixo diante de si, fitando, sem duvida, outro olhar. Depois, a passos lentos, com a cabeça erguida, os braços pendentes e os dedos das mãos abertos, como quando se caminha para um amparao desconhecido, ela dirigio-se para a moita e desappareceu.

Um instante depois, em vez de uma sombra na areia, havia, duas, confundiam-se ambas, e Gilliatt via a seus pés o abraço daquellas duas sombras.

O tempo corre de nós como de uma ampulheta, e nós não temos o sentimento dessa fuga, sobretudo em certos instantes supremos. De um lado aquellepar, que ignorava a testemunha e não a via, do outro aquella testemunha que não via os dous, mas que sabia que elles alli estavam, quantos minutos ficaram assim nessa mysteriosa suspensão? Seria impossivel dizel-o. De subido echoou um ruido longinquo e uma voz gritou: Soccorro! E o sino do porto começou a soar. É provavel que a felicidade ebria e celeste não ouvisse o tumulto.

O sino continuou a soar. Quem procurasse Gilliatt no angulo do muro já o não encontraria.

Mess Lethierry agitava o sino com soffreguidão. De subito parou. Vio um homem voltar a esquina do cáes. Era Gilliatt.

Mess Lethierry correu a elle, ou para melhor dizer atirou-se a elle, tomou-lhe a mão entre as suas, e olhou-o fitamente em silencio; um desses silencios da explosão, não sabendo por onde irromper.

Depois com violencia, saccudindo, e puxando, e apertando-o nos braços, fez entrar Gilliatt na sala baixa de Bravées, empurrou a porta com o tacão, e ficou entre-aberta, assentou-se ou cahio, em uma cadeira ao lado de uma grande mesa illuminada pela lua, cujo reflexo eubranquecia vagamente o rosto do Gilliatt, e com uma voz onde haviam gargalhadas e soluços misturados, gritou:

—Ah! meu filho! homem do bug-pipe! Gilliatt! eu bem sabia que eras tu! Apança!que diabo! conta-me isso! Pois foste! Ha cem annos queimavam-te. É feitiçaria. Não falta nada. Já examinei, reconheci, apalpei. Adevinho que as rodas estão nas duas caixas. Então chegaste! Fui procurar-te napança.Toquei o sino. Procurava-te. Eu dizia comigo: onde está elle? Quero devoral-o. É preciso convir que se passam cousas extraordinarias. Aquelle animal volta do escolho Douvres. Traz-me a vida. Com os diabos! tu és um anjo. Sim, sim, sim, é a minha machina. Ninguem acredita. Hão de vêl-a e dizer: Não falta nem uma serpentina. O tubo d'agua não se deslocou. É incrivel que não houvesse avaria. Falta só pôr um pouco de azeite. Mas como foi? E a Durande vai agora navegar! A arvore das rodas está desmontada como se fosse feito por um ourives. Dá-me a tua palavra de honra que eu não estou doudo.

Levantou-se, respirou e proseguio:

—Jura-me. Que revolução! Dou beliscões em mim mesmo, vejo que não sonho. Tu és meu filho, és meu rapaz, és Deos. Ah! meu filho. Ir buscar a minha pobre machina! No mar alto! Naquella emboscada do escolho! Tenho visto muita cousa espantosa em minha vida. Nunca vi cousa assim. Vi os parisienses que são uns satanazes. Boas! não faziam isto. É peior que a Bastilha. Vi os gaúchos lavrar nas pampas, tendo por charrua um galho de arvore, do comprimento de um covado, e por grade um feixe de espinhos puxado por corda de couro; colhem com isto grãos de trigo do tamanho de avelãs.Não valem dous caracoes ao pé de ti. Fizeste um milagre, um verdadeiro milagre. Ah! tratante! Salta-me ao pescoço. Como vai rosnar a gente de Saint-Sampson! Vou tratar já e já de fazer o navio. E, admiravel não ter quebrado a vara da redouça. Meus senhores, elle foi ás Douvres. As Douvres! um penedo que não tem rival. Já sabes, está provado que a cousa foi feita de proposito. Clubin perdeu a Durande para furtar-me o dinheiro que devia trazer-me. Embriagou Tangrouille. É longo, depois te contarei a pirataria delle. Eu era um bruto, tinha confiança em Clubin. Mas o malvado não pôde naturalmente sahir de lá. Ha um Deos, canalha! Olha, Gilliatt, quanto antes, ferro na forja, vamos reconstruir a Durande. Dar-lhe-hemos vinte pés mais. Agora fazem-se os navios mais compridos. Hei de comprar madeira em Dantzick e Bremen. Agora que tenho a machina hão de emprestar-me dinheiro. A confiança voltará.

Mess Lcthierry deteve-se, levantou os olhos com aquelle olhar que vê o céo atravéz do tecto, e disse entre os dentes: Ha um meio.

Depois poz o dedo medio da mão direita entre as sobrancelhas, com a unha apoiada no alto do nariz, o que indica a passagem de um projecto no cerebro, e continuou:

—É o mesmo, para começar em grande escala, algum dinheiro basta. Ah! se eu tivesse as minhas tres notas de banco que o tratante de Rautaine me restituio e que o tratante de Clubin me roubou!

Gilliatt, em silencio, procurou na algibeira alguma cousa, que collocou diante de si. Era o cinto deClubin. Abrio e pôz na mesa o cinto, no interior do qual a lua deixava ler a palavra:Clubin; tirou da abertura uma caixinha, e da caixinha tres pedaços de papel que desenrolou e estendeu a mess Lethierry.

Mess Lethierry examinou os tres pedaços de papel. Havia bastante claridade para que o algarismo 1,000 e a palavrathousandfossem perfeitamente visiveis. Mess Lethierry pegou nos tres bilhetes, pol-os na mesa um ao lado do outro, olhou para elles, olhou para Gilliatt, ficou um momento calado, depois foi como que uma erupção depois de uma explosão.

—Tambem isto! Tu és prodigioso. As minhas notas do banco! todas tres! mil cada umal os meus sessenta mil francos! Então foste ao inferno? É o cinto de Clubin. Por Deos: leio-lhe o nojento nome. Gilliatt traz a machina, e mais o dinheiro! Isto deve ser contado nos diarios publicos. Vou comprar madeira de primeira qualidade. Adevinho, achaste o esqueleto. Clubin apodreceu lá em algum canto. Compraremos pinho em Dantzick e carvalho em Bremen, faremos um bom casco, carvalho por dentro, pinho por fora. Em outro tempo fabricavam-se navios menos perfeitos e elles duravam mais; é que a madeira era mais secca porque não se construia tanto. Faremos talvez a quilha de olmo. O olmo é bom para estar sempre na agua: andando ora molhado, ora secco, apodrece: o olmo alimenta-se de agua. Que bella Durande vamos fazer! Não me hão de impôr. Já não preciso credito. Tenho dinheiro. Já se vio cousa assim como Gilliatt? Eu estava prostrado, abatido, morto. Chega elle e pôe-me de pé.E eu que não pensava nelle! Já nem me lembrava. Agora lembra-me tudo. Pobre rapaz! Ah! bem, sabes, tu casas com Deruchette.

Gilliatt encostou-se á parede como se vacillasse e baixinho, mas distintamente, disse.

—Não.

Mess Lethierry teve um sobresalto.

—Como, não?

Gilliatt respondeu.

—Não a amo.

Mess Lethierry foi á janella, abrio-a e fechou-a, pegou nas tres notas do banco, dobrou-as, pôz a caixa cm cima, coçou a cabeça, pegou no cinto de Clubin, atirou-o violentamente contra a parede, e disse:

—Ha alguma cousa!

Metteu as mãos nos bolsos, e continuou:

—Não amas Deruchette! Era então por minha causa que tocavas bug-pipe?

Gilliatt, sempre encostado á parede empallidecia como um homem que está prestes a não respirar. Á proporção que se tornava pallido, Lethierry tornava-se vermelho.

—Vejam este parvo! Não ama Deruchette! Pois trata de ama-la, porque ella não ha de casar se não contigo. Que historias são essas? Cuidas que te acredito? Estás doente? pois bem, manda chamar um medico, mas não digas estravagancias, é impossivel que tivesses tempo de brigar com ella e ficares arrufado. É verdade que os namorados são uns tolos! Vamos, tens alguma razão? Se tens, falla; ninguem é tolo sem ter razão. Demais, eu tenho algodãonos ouvidos, talvez ouvisse mal, repete o que disseste.

Gilliatt replicou:

—Disse que não.

—Disseste que não. E teima o bruto! Tens alguma cousa, é claro! Disseste que não! É uma estupidez que passa os limites do mundo conhecido. Por muito menos dão-se banhos medicinaes a uma creatura. Ah! tu não amas Deruchette! Então foi por amor do velhote que fizeste tudo isto! Foi pelos bonitos olhos do papá que foste ás Douvres, que tiveste frio, que tives calor, que tiveste fome e sede, que comeste bichos do rochedo, que tiveste por quarto de dormir o nevoeiro, a chuva e o vento, e que me trouxeste a machina como se traz a uma mulher bonita o canario que fugio? E a tempestade de ha tres dias! Se tu imaginas que eu não faço idéa do que passaste! Estiveste em boas! Foi então com o pensamento em mim que cortaste, rachaste, viraste, arrastaste, limaste, serraste, inventaste, e fizeste tantos milagres, tu só, mais que todos os santos do paraiso? Ah! idiota! Pois olha que me aborreceste com a tua sanphona! Na Bretanha chama-sebiniou.Sempre a mesma toada, animal! Ah! tu não amas Deruchette! Não sei o que tens. Lembra-me agora, eu estava neste canto, Deruchette disse: Casava-me. E hade casar comtigo. Ah! não a amas! Feitas as reflexões, eu não comprehendo nada. Ou tu estaes doudo ou eu! E não diz palavra! Não é licito fazer o que fizeste e dizer no fim: não amo Deruchette. Não se faz um obzequio á gente para obrigal-a a ficar com raiva. Pois bem, se não te casas com ella,Deruchette não se casa com pessoa alguma, fica para tia. Em primeiro lugar, preciso de ti. Serás piloto da Durande. Se cuidas que vou deixar-te ir assim! Ta, ta, ta, nada, meu amigo, já te não largo. És meu. Nem te quero ouvir. Onde ha um marinheiro como tu? És o meu homem. Mas falla, com os diabos!

O sino tinha accordado a gente da casa e da visinhança. Doce e Graça tinham-se levantado e acabavam de entrar na sala baixa, espantadas, sem dizer palavra. Graça trazia uma vela. Um grupo de vizinhos, burguezes, marinheiros e aldeãos, sabidos á pressa, estava fora no cáes, contemplando com pasmo e susto o cano da Durande napança.

Alguns, ouvindo a voz de Lethierry na sala baixa, começavam a entrar silenciosamente pela porta entre-aberta. Entre duas caras de comadres, passava a cabeça do Sr. Landoys que por acaso costumava sempre estar presente nos lugares onde sentiria se não estivesse.

As grandes alegrias querem sempre um publico. Agrada-lhes o ponto de apoio um pouco esparso que offerece uma multidão; partem dahi. Mess Lethierry descobrio repentinamente que tinha gente a roda de si. Aceitou logo o auditorio.

—Ah! vocês estão ahi? Que felicidade. Já sabem a noticia. Este homem lá foi e de lá trouxe aquillo. Bom dia, Sr. Landoys. Ainda ha pouco quando accordei vi o cano. Estava debaixo da minha janella. Não falta nem um prego. Fizeram-se gravuras de Napoleão; eu prefiro isto á batalha de Austerlitz. Sabem vocês da cousa. A Durande chegou emquantodormiam. Emquanto se mettiam nos lençóes e apagavam as velas, ha pessoas que são heróes. Uns são covardes, vadios, aquecem os seus rheumatismos; felizmente isso não impede que hajam espiritos fogosos. Esses vão onde é preciso ir, fazem o que é preciso fazer. O homem da casa mal assombrada chegou do rochedo Douvres. Pescou a Durande do fundo do mar, pescou o dinheiro da algibeira de Clubin, abysmo mais profundo que o outro. Mas como fizeste isto? Tinhas todos os diabos contra ti, o vento e a maré, a maré e o vento. É verdade que tu és feiticeiro. Os que dizem isso já não são tão pascacios. Voltou a Durande! em vão se enfurecem as tempestades, este estrangula-as. Meus amigos, annuncio-lhes que já não ha naufragios. Já examinei a machina. Está como nova, está completa! Movem-se os cylindros tão facilmente como dantes. Parecia novinha em folha. Sabem que a agua que sahe é levada para fora do navio por um tubo colocado em outro tubo por onde passa agua que entra, para utilisar o calor; pois bem, os dous tubos estão salvos. A machina toda! as rodas tambem! Ah! has de casar com ella!

—Com quem? com a machina? perguntou o Sr. Landoys.

—Não, a pequena. Sim, a machina. Ambas. Ha de ser duas vezes meu genro. Good bye, capitão Gilliatt. Vamos ter Durande! Vamos fazer negocio, vai haver circulação e commercio, e transporte de bois e carneiros! Não troco Saint-Sampson por Londres. E aqui está o autor. Digo-lhes que é uma aventura. Ha de ler-se isto sabbado na gazeta de Mauger. O engenhosoGilliatt é um finorio. Que dinheiro é este em ouro?

Mess Lethierry acabava de ver, pela fresta da tampa, que havia ouro na caixinha posta sobre as notas de banco. Pegou nella, abrio-a, esvasiou-a na palma da mão, e pôz o punhado de guinéos sobre a mesa.

—Para os pobres. Sr. Landoys, dê estes pounds da minha parte ao condestavel de Saint-Sampson. Sabe da carta de Rantaine? Mostrei-lh'a outro dia; pois bem; aqui estão as notas do banco. Com isto posso comprar carvalho e pinho, e fazer a carpintaria. Veja. Lembra-se do tempo que houve ha tres dias? Que ataque de vento e de chuva! O céo disparava tiros de canhão. Gilliatt recebeu tudo isso nas Douvres, sem que lhe obstasse o desaferrar o navio como eu tiro o meu relogio da parede. Graças a Gilliatt, já sou alguem. A galeota do pai Lethierry vai continuar o serviço, senhores e senhoras. Uma casca do noz com duas rodas, e um tubo de cachimbo, foi sempre a minha mania. Disse sempre comigo: Hei de fazer uma machina destas! Data de longe; foi uma idéa que tive em Pariz, no café que faz a esquina da rua Christina e da rua Delphina, lendo um jornal que fallava do invento. Sabem que Gilliatt era capaz de metter a machina de Marly na algibeira e passear com ella? Este homem é de ferro batido, é aço de tempera, é diamante, um marujo de polpa, um ferreiro, um rapazola extraordinario, mais espantoso que o principe Hohenlohe. A isto chamo eu um homem de engenho. Nós não valemos nada. Os lobos do mar somos nós; o leão de mar é elle. Hurrah,Gilliatt! Não sei o que elle fez, mas certamente fez o diabo, e como é que não lhe hei dar Deruchette!

Desde alguns instantes Deruchette entrara na sala. Não dissera palavra, não fizera rumor. Entrou como uma sombra. Assentára-se, quasi desapercebida, em uma cadeira por traz de mess Lethierry de pé, loquaz, tempestuoso, alegre, abundante de gestos, e fallando em voz alta. Um pouco atraz della, veio outra apparição muda. Um homem vestido de preto, de gravata branca, com o chapéo na mão, parára na abertura da porta. Havia agora muitas velas no grupo lentamente engrossado. As luzes batiam de lado no homem vestido de preto; o seu perfil, de alvura joven e deliciosa, desenhava-se no fundo obscuro com urna pureza do medalha; apoiava o cotovello n'uma almofada da porta, e tinha a fronte na mão esquerda, attitude que lhe era graciosa, sem ser meditada, e que fazia valer a grandeza da fronte na pequenez da mão. Havia uma ruga de angustia no centro de seus labios contrahidos. Examinava e ouvia com attenção profunda. Os assistentes, tendo reconhecido o reverendo Ebeneser Caudray, cura da parochia, tinham-se affastado para deixal-o passar, mas elle ficou na soleira. Havia hesitação na sua postura e decisão no seu olhar. O olhar de quando em quando encontrava o de Deruchette. Quanto a Gilliatt, ou por acaso ou de proposito, estava na sombra, e mal se podia vêl-o.

Mess Lethierry não vio ao principio o Sr. Ebeneser, mas vio Deruchette. Foi a ella, e beijou-acom toda a soffreguidão que póde ter um beijo na fronte. Ao mesmo tempo estendia o braço para o canto escuro onde estava Gilliatt.

—Deruchette, disse elle, estás outra vez rica, e o teu marido é aquelle.

Deruchette levantou a cabeça desvairada e olhou para a sombra.

Mess Lethierry continuou:

—Ha de se fazer o casamento quanto antes, amanhã se fôr possivel, hão de haver dispensas, mas as formalidades são simples, o decano faz o que quer, casa-se a gente antes de gritar: guarda de baixo! não é como em França, onde se precisam banhos, publicações, dilações, um chuveiro de formalidades, e tu serás mulher de um homem valente, e não ha que dizer, é um marinheiro, sempre o pensei desde o dia em que o vi voltar de Herm com a peça de artilheria. Agora volta das Douvres, com a sua fortuna, e a minha, e a fortuna da terra; é um homem que hade dar que fallar; tu disseste: caso-me com elle; pois has de casar; e hão de ter filhos, e eu serei avô, e terás fortuna de ser a lady de um rapagão sério, que trabalha, que é util, que é sorprehendente, que vale por cem, que salva as invenções dos outros, que é uma providencia, e ao menos não casarás, como todas as raparigas ricas deste lugar, com um soldado ou um padre, isto é o homem que mata e o homem que mente. Mas que fazes ahi mettido no canto, Gilliatt? Ninguem te vê. Dôce! graça! todos! luzes! Illuminem o meu genro a giorno. Caso-os, meus filhos, e eis teu marido, e eis o meu genro, o Gilliatt da casa malassombrada, o grande marinheiro, e eu não terei outro genro, e não terás outro marido, torno a dar a minha palavra de honra a Deos. Ah! Ah! é Vossa Reverendissima, senhor cura, ha de casar-me estes pequenos.

O olhar de mess Lethierry acabava de cahir no reverendo Ebeneser.

Doce e graça tinham obedecido. Duas velas postas na mesa illuminavam Gilliatt da cabeça aos pés.

—Como está bonito! gritou Lethierry.

Gilliatt estava hediondo.

Estava tal qual sahira, naquella manhã, do escolho Douvres, em frangalhos, os cotovellos rotos, a barba longa, os cabellos eriçados, os olhos queimados e vermelhos, a face esfolada, as mãos sangrentas; tinha os pés descalços. Algumas das pustulas da pieuvre estavam visiveis nos braços cabeludos.

Lethierry contemplava-o.

—É o meu verdadeiro genro. Como se bateu com o mar! está em frangalhos! Que hombros! que pés! Como és bello!

Graça correu a Deruchette, amparou-lhe a cabeça. Deruchette tinha desmaiado.

Desde madrugada Saint-Sampson estava de pé e Saint-Pierre Port começava a chegar. A ressurreição de Durande fazia na ilha um rumor comparavel ao que fez no meio dia da França a Salette. Havia multidão no caes para contemplar o cano que sabia dapança.Tinham vontade de ver e tocar na machina, mas Lethierry, depois de repetir, e á luz do dia, a inspecção triumphante da mecanica, tinha posto napançadous marinheiros encarregados de impedir que ninguem se approximasse. O cano, porém, bastava á contemplação. A multidão pasmava. Só se fallava de Gilliatt. Commentava-se e acceitava-se a alcunha de engenhoso, a admiração acabava sempre por esta phrase: «Nem sempre é agradavel ter na ilha gente capaz de fazer cousas destas.»

De fóra via-se mess Lethierry assentado á mesa diante da janella e escrevendo, com um olho no papel, e outro na machina. Estava de tal modo absorto que apenas uma vez interrompeu-se para gritar: Doce! e para pedir noticias de Deruchette. Doce respondeu: «A menina levantou-se e sahio.» Mess Lethierry disse: «Faz bem em tomar ar. Esteve incommodada de noite por causa do calor. Havia muita gente na sala. E depois a sorpreza, a alegria e as janellas fechadas. Vai ter um marido soberbo!» E tornou a escrever. Já tinha escripto e fechado duas cartas dirigidas aos mais notaveis constructores de Bremen. Acabava de fechar a terceira.

O rumor de uma roda no caes fez-lhe levantar a cabeça. Inclinou-se á janella, e vio desembocar do atalho que ia ter á casa de Gilliatt um rapaz empurrando um carrinho de mão. O rapaz dirigia-se para o lado de Saint-Pierre Port. Havia no carrinho uma mala de couro amarella com pregos de cobre e estanho.

Mess Lethierry fallou ao rapaz.

—Onde vás?

O rapaz parou, e respondeu:

—AoCashmere.

—Para que?

—Levar esta mala.

—Pois bem, levarás tambem estas tres cartas.

Mess Lethierry abrio a gaveta da mesa, e pegou num pedaço de barbante, enlaçou as tres cartas que acabava de escrever, e atirou o embrulho ao rapaz que o recebeu no ar entre as duas mãos.

—Dirás ao capitão doCashmereque sou eu quemescrevo, e que elle tenha cuidado com ellas. É para a Allemanha. Bremen via London.

—Nào fallarei ao capitão, mess Lethierry.

—Porque?

—OCashmerenão está no cáes.

—Ah!

—Está na barra.

—É justo, por causa do mar.

—Só posso fallar ao patrão do escaler.

—Recommenda-lhe as minhas cartas.

—Sim, mess Lethierry.

—A que horas parte oCashmere?

—Ao meio-dia.

—Ao meio-dia hoje, é a enchente da maré. Tem contra si a maré.

—Mas tem vento de feição.

—Rapaz, disse mess Lethierry pondo o dedo index no cano da machina, vês isto? isto zomba do vento e da maré.

O rapaz pôz as cartas na algibeira, pegou outra vez no carrinho, e continuou a viagem para a cidade.

Mess Lethierry chamou:—Doce! Graça! Graça entreabrio a porta.

—Que ha, mess?

—Entra e espera.

Mess Lethierry pegou n'uma folha de papel e começou a escrever; se Graça, de pé atraz delle, fosse curiosa e esticasse o pescoço, poderia ler por cima do hombro, isto:

«Escrevo a Bremen para ver madeira. Tenho de fallar durante o dia aos carpinteiros para a avaliação. Vai ter á casa do decano para arranjar as dispensas.Desejo que o casamento se faça o mais cedo possivel, e já, será melhor. Estou tratando de Durande, trata tu de Deruchette.»

Datou e assignou Lethierry.

Não se deu ao trabalho de fechar a carta, dobrou-a simplesmente em quatro e deu-a a Graça.

—Leva isto a Gilliatt.

Saint-Sampson não póde estar apinhado de gente sem que Saint-Pierre Port fique deserto. Uma cousa curiosa n'um ponto dado é uma bomba aspirante. As noticias correm depressa nas terras pequenas; ir ver o cano da Durande debaixo da janella de mess Lethierry foi desde o romper do dia a grande occupação de Guernesey. Qualquer outro acontecimento desapparecia diante desse. Eclypse da morte do decano de Saint-Asaph; já ninguem curava do reverendo Ebeneser Caudray, nem da sua repentina riqueza, nem da sua partida noCashmere.A machina da Durande trazida das Douvres estava na ordem do dia. Ninguem acreditava. O naufragio parecera extraordinario, mas o salvamento parecia impossivel. Todos queriam ver com os seus proprios olhos. Todasas occupações ficaram suspensas. Longas fileiras de burguezes em familia, desde ovesinaté o mess, homens, mulheres, gentlemen, mais com filhos e filhos com bonecas, dirigiam-se por todas as estradas paraver a cousa, em Bravées, e davam-se as costas a Saint-Pierre Port. Muitas lojas de Saint-Pierre Port estavam fechadas; noCommercial Arcade, estagnação absoluta de venda e de negocio; toda a attenção estava voltada para a Durande; nenhum mercador estreou, excepto um ourives que se maravilhava de ter vendido um anel de ouro para casamento—«a uma especie de homem que parecia muito appressado e que lhe perguntou onde morava o Sr. decano.» As lojas que ficaram abertas eram os lugares de conversa onde se commentava ruidosamente o milagroso salvamento da machina. Ninguem passeava na Hyvresse, que se chama hoje, não se sabe por que, Cambridge-Park; ninguem em High-Street, que se chamava então a Rua Grande, nem era Smith Street, que se chamava a Rua das Forjas; ninguem em Hauteville; a propria Esplanada estava deserta. Dissera-se um domingo. Uma alteza real, que alli fosse de visita, e passasse em revista a milicia de Ancrese não despovoaria melhor a cidade. Todo aquelle abalo a proposito de uma cousa á tôa como Gilliatt fazia erguer os hombros aos homens graves e ás pessoas correctas.

A igreja de Saint-Pierre Port, triplice carreta sobreposta com trancepto e flecha, fica situada á beira da praia no fundo do porto quasi sobre o desembarque. Dá a saudação aos que chegam e o adeus aos que sabem. Aquella igreja é a maiuscula de uma longa linha que faz a fachada da cidade sobre o oceano.

É ao mesmo tempo a parochia de Saint-Pierre Port o chefe de toda a ilha. Tem por parocho o subrogado do bispo, clergyman com plenos poderes.

O ancoradouro de Saint-Pierre Port, hoje largo e magnifico porto, era naquella época, e ainda ha dez annos, menos consideravel que o ancoradouro de Saint-Sampson. Eram duas grossas paredes cyclopicas curvas partindo da praia a estibordo e bombordo e ligando-se quasi na extremidade, onde havia um pharolsinho branco. Debaixo daquelle pharol uma garganta, que ainda tinha as duas argolas da corrente que a fechava na idade média, dava passagem aos navios. Imaginem uma unha de lagosta aberta, era o ancoradouro de Saint-Pierre Port. Aquella tenaz tomava ao mar um pouco de agua que obrigava a ficar tranquilla. Mas com vento d'Este, havia marulho na entrada, o porto ficava agitado, e era acertado não penetrar lá. Foi o que fez nesse dia oCashmere, que ficou fóra.

Os navios, quando soprava o Este, faziam isso que, no fim das contas, economisava as despezas do porto. Nesses casos, os bateleiros da cidade, tribu valente de marinheiros que o novo porto destituira, iam tomar em seus barcos os viajantes, ou no cáes, ou nas estações da praia, e os transportavam, a elles e ás bagagens, muitas vezes com marés agitadas e sempre sem accidente, aos navios que deviam sahir. O vento d'Este é um vento de flanco muito bom para ir á Inglaterra; o mar é agitado sem que o navio estremeça.

Quando o navio ficava no porto, todos embarcavam no porto; quando estava fóra, podia-se escolheruma das costas visinhas do ancoradouro do navio. Achava-se em todas as angras bateleiros á vontade.

A Angrazinha era dessas. Aquelle cáes ficava proximo á cidade, mas tão solitario, que parecia longe. Devia a solidão ás duas grandes penedias do forte de S. Jorge que dominavam aquelle sitio discreto. Chegava-se á Angrazinha por caminhos diversos. O mais directo ia pela praia; tinha a vantagem de ir dar á cidade e á igreja em cinco minutos, e o inconveniente de ser coberto pela maré duas vezes por dia.

Outros caminhos, mais ou menos abruptos, mergulhavam nas anfractuosidades dos rochedos. A Angrazinha, mesmo em pleno dia, ficava numa penumbra. Grandes pedras amontoadas pendiam de todos os lados. Haviam espessuras de espinhos, fazendo uma especie de noite suave naquella desordem de rochas e vagas; nada mais aprazivel do que aquella angra em tempo calmo, nada mais tumultuoso nas grossas aguas. Haviam pontas de galhos perpetuamente molhados pela escuma. Na primavera ficava cheia de flôres, ninhos, perfumes, aves borboletas e abelhas. Graças aos trabalhos recentes, essa selvageria já não existe; foi substituida por bellas linhas rectas; ha obras de pedreiro, cáes, jardins; tudo foi derrubado; o gosto destruio as extravaganeias da montanha e a incorrecção dos rochedos.

Era pouco menos de dez horas da manhã: o quarto de hora antes, como se diz em Guernesey.

O povo, segundo todas as apparencias, ia engrossando em Saint-Sampson. A população febricitante de curiosidade, ia toda para o norte da ilha, de maneira que a Angrazinha, que fica ao sul, estava mais deserta que nunca.

Comtudo, via-se ahi um bote e um remador. No bote havia um sacco de viagem. O bateleiro parecia esperar.

Via-se ao largo oCashmereancorado, que devendo partir lá para o meio dia, não fazia nenhum movimento de apparelho.

O viandante que, do qualquer dos caminhos-escadas tivesse prestado o ouvido, ouviria um murmurio depalavras na Angrazinha, e inclinando-se por cima, veria, a alguma distancia do bote, n'um recanto de pedra e galhos onde não podia penetrar o olhar do bateleiro, duas pessoas, um homem e uma mulher, Ebeneser e Deruchette.

Esses asylos obscuros das praias, que tentam as banhistas, não são tão solitarios como se pensa. Ás vezes espreita-se e ouve-se de fóra. Os que se refugiam podem ser facilmente acompanhados atravez das espessuras das vegetações, e graças á multiplicidade e entravamento dos atalhos. Os granitos e arvores que escondem o refugiado, podem esconder tambem uma testemunha.

Deruchette e Ebeneser estavam de pé diante um do outro, com o olhar no olhar; tinham as mãos presas. Ebeneser estava calado. Uma lagrima engrossada e presa entre os seus cilios hesitava em cahir, e não cahia.

A desolação e a paixão estavam impressas na fronte religiosa de Ebeneser. Havia tambem uma resignação pungente, hostil á fé, embora derivasse della. Naquelle rosto, simplesmente angelico até então, havia um começo de expressão fatal. Aquelle que até então só meditara sobre o dogma, entrava a meditar sobre a sorte, meditação nociva ao padre. Nessa meditação decompõe-se a fé. Nada perturba tanto o espirito como curvar-se ao peso do ignoto. O homem é o paciente dos acontecimentos. A vida é um perpetuo successo, imposto ao homem. O homem não sabe de que lado virá a brusca descida do acaso. As catastrophes e as felicidades, entram e sahern como personagens inesperadas. Tem a sua fé, a sua orbita, asua gravitação fóra do homem. A virtude não traz a felicidade, o crime não traz a desgraça; a consciencia tem uma logica, a sorte tem outra; nenhuma coincidencia. Nada pode ser previsto. Vivemos de atropello. A consciencia é a linha recta, a vida é o turbilhão. O turbilhão atira á cabeça do homem cachos negros e céos azues. A sorte não tem a arte das transições. Ás vezes a vida anda tão depressa que o homem mal distingue o intervallo de uma peripecia á outra e o laço de hontem a hoje. Ebenezer era um crente mesclado de raciocinio e um padre mesclado de paixão. As religiões celibatarias sabem o que fazem. Nada desfaz tanto o padre como amar uma mulher. Todas as especies de nuvens ensombravam Ebeneser.

Contemplava demasiado Deruchette.

Aquellas duas creaturas idolatravam-se.

Havia na palpebra de Ebeneser a muda adoração do desespero.

Deruchette dizia:

—Não hade partir. Não tenho força para vêl-o ir-se embora. Eu acreditava poder despedir-me, e não posso. Ninguem é obrigado a poder. Porque foi hontem ao jardim? Não devia ir, se queria ir-se embora. Nunca lhe fallei. Amava-o, mas não o sabia. Somente, quando o Sr. Herodes leu a historia de Rebecca, e que os seus olhos encontraram os meus, senti as faces em fogo, e disse comigo: Oh! como Rebecca devia ter corado! Hontem se me dissessem que eu amaria o cura, ria-me. É o que ha de terrivel neste amor. Foi uma especie do traição. Não me acautelei. Ia á igreja, via-o, acreditei que todos eram como eu. Não lhe faço censura alguma, nadafez para que eu o ame, não se deu a nenhum trabalho, olhava-me, não é culpa sua se olha para as outras pessoas, e o resultado é que eu o adoro. Eu nem reparava. Quando as suas mãos pegavam n'um livro, era uma luz; quando os outros pegavam nelle, era apenas um livro. Ás vezes levantava os olhos para mim. Fallava dos archanjos, e era o archanjo. O que dizia, pensava-o eu logo. Antes de vêl-o não sei se acreditava em Deos. Depois que o vi, tornei-me uma mulher que faz as suas orações. Eu dizia a Doce: veste-me depressa, não quero faltar ao officio. E corria á igreja. Estar apaixonada por um homem, é isto. Eu não o sabia. Dizia comigo: Como estou devota! Depois de vêl-o é que soube que eu não ia á igreja por causa de Deos. Ia vêl-o é verdade. É formoso, falla bem, quando levanta os braços para o céo parece que tem o meu coração entre as suas duas mãos brancas. Eu estava louca. Ignorava-o. Quer que lhe diga a sua culpa? foi entrar hontem no jardim e fallar-me. Se nada me dissesse, eu nada saberia. Partiria, eu ficava triste, mas agora morrerei. Agora que eu sei que o amor não é possivel que se vá embora. Em que pensa? Parece que não me ouve.

Ebeneser respondeu:

—A senhora ouvio o que se disse hontem.

—Ai, sim!

—Que posso fazer?

Calaram-se um momento. Ebeneser continuou:

—Só uma cousa devo fazer agora. Partir.

—E eu, morrer. Oh! eu quizera qne não houvesse mar, e só houvesse o céo! Parece-me que isto arranjariatudo, e a nossa partida seria a mesma. Não devia fallar-me. Porque me fallou? Que será agora de mim? Digo-lhe que hei de morrer. Ha de ter ganho muito quando eu estiver no cemiterio. Oh! tenho o coração despedaçado. Desventurada que sou! E meu tio não é máo, comtudo.

Era a primeira vez na sua vida que Deruchette dizia fallando de mess Lethierry,meu tio.Até então sempre diziameu pai.

Ebeneser recuou um pouco e fez um signal ao bateleiro. Ouvio-se o ruido de um croque nas pedras e o passo de um homem no bote.

—Não! não! gritou Deruchette.

Ebeneser approximou-se della.

—É preciso, Deruchette.

—Não, nunca! Por uma machina! Será possivel? Vio hontem aquelle homem horrivel? Não deve abandonar-ine. Tem intelligencia, ha de achar um meio. Não é possivel que me dissesse para vir aqui hoje, com a idéa de partir. Não lhe fiz nada. Não tem motivos de queixa de mim. É naquelle navio que quer ir? Não quero. Não me deixe. Não se abre o céo para tornal-o a fechar. Digo-lhe que ha de ficar. Demais ainda não bateu a hora. Oh! eu te amo!


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