LIVRO SETIMO

Mas uma figura humana desenhando-se na alvura crepuscular, de pé na planura do rochedo Homem, e fazendo signaes de perigo, seria vista, sem duvida alguma. Mandariam um escaler para recolher o naufrago.

O rochedo Homem ficava a duzentas braças. Era simples attingil-o a nado, facil trepar por elle.

Não havia tempo a perder.

Estando a prôa da Durande sobre a rocha, era do alto da pôpa e do ponto em que estava, que Clubin devia atirar-se ao mar.

Começou por deitar um sonda, e reconheceu que havia ao pé da pôpa muito fundo. As conchas microscopicas de foraminiferos e de polydistineas que a sonda trouxe comsigo estavam intactas, o que indicava que havia alli profundas cavas de rocha, onde a agua, qualquer que fosse a agitação da superficie, era sempre tranquilla.

Despio-se, deixando as roupas no tombadilho. Acharia roupa no cuter.

Conservou apenas o cinto de couro.

Depois de despir-se, levou a mão ao cinto, apertou-o bem, apalpou a caixinha de ferro, estudou rapidamente com o olhar a direcção que devia seguir no meio dos parceis e das vagas para alcançar o rochedo Homem; depois, precipitou-se de cabeça para baixo.

Como cahio de alto mergulhou muito.

Chegou ao fundo do mar, tocou-o. Costeou alguns instantes as rochas submarinhas, depois fez um movimento para subir á superficie.

Nesse momento sentio-se aggarrado pelo pé.

Minutos depois do curto colloquio com o Sr. Landoys, Gilliatt estava em Saint-Sampson.

Gilliatt ia inquieto até á anciedade. Que teria acontecido?

Saint-Sampson tinha um rumor de colmêa assustada. Toda a gente estava ás portas. As mulheres exclamavam. Muitas pessoas contavam alguma cousa, fazendo gestos; as outras agrupavam-se á roda dessas. Ouviam-se estas palavras: que desgraça! Alguns sorriam.

Gilliatt não interrogou ninguem. Não era proprio delle fazer perguntas. Demais, ia demasiado commovido para fallar a indifferentes. Desconfiava das narrações, preferia saber logo tudo; foi á casa de Lethierry.

A sua anciedade era tal que nem mesmo teve medo de entrar naquella casa.

Demais, a porta da sala baixa estava escancarada. Na soleira havia um formigueiro de homens e mulheres. Todos entravam; elle entrou.

Entrando, achou encostado á porta o Sr. Landoys que lhe disse a meia voz:

—Então, já sabe do successo?

—Não.

—Eu não quiz dizer-lh'o ha pouco do meio da rua. Pareceria correio de desgraças.

—Que foi então?

—Perdeu-se a Durande.

Havia muita gente na sala.

Os grupos fallavam baixo, como no quarto de um doente.

Os assistentes, que eram os visinhos, os viandantes, os curiosos, estavam amontoados ao pé da porta, com uma especie de receio, e deixavam vasio o fundo da sala onde estava, ao lado de Deruchette lacrimosa e assentada, mess Lethierry de pé.

Lethierry estava encostado ao tabique do fundo. O bonet de marujo cahia-lhe nas sombrancelhas; uma mecha de cabellos grisalhos prendia-se-lhe na face. Não dizia nada. Os braços não tinham movimento, a boca parecia não ter alento. Parecia uma cousa encostada á parede.

Ao vê-lo, sentia-se um homem dentro de quem se extinguira a vida. Deixando de existir a Durande, Lethierry já não tinha razão de ser. Tinha uma alma no mar, e essa alma acabava de perecer. Que faria elle agora? Levantar-se de manhã, deitar-se de noite. Já não podia esperar a Durande, nem vê-la partir, nem voltar. O que é um resto de existencia sem objecto? Beber, comer, e depois? Aquelle homem tinha corôado os seus trabalhos com uma obra prima, e as dedicações com um progresso. Abolira-se-lhe o progresso, morrera-lhe a obra prima. Para que viver ainda alguns annos vasios? Não tinha mais nada que fazer. Naquella idade não é possivel recomeçar; de mais a mais estava arruinado. Pobre velho!

Deruchette, assentada ao pé delle, e chorando, tinha entre as suas duas mãos a mão de mess Lethierry. As della estavam postas, a de Lethierry apertada. Via-se nisso a differença daquelles dous abatimentos. As mãos postas ainda tem esperança: a apertada, nenhuma.

Mess Lethierry abandonava-lhe o braço sem resistencia. Estava passivo. Tinha em si apenas aquella porção de vida que póde haver depois do raio.

Ha certas descidas ao fundo do abysmo que retiram um homem do meio dos vivos. As pessoas que andam em roda são confusas e indistinctas; acotovelam-n'o e não lhe chegam. De parte a parte ficam inacessiveis. A ventura e o desespero não são os mesmos centros respiraveis; o desesperado assiste á vida dos outros, mas de muito longe; ignora quasi a sua presença; perde o sentimento da propria existencia; que importa ser de carne e osso, o desesperado já se não sente real; já não é elle proprio, é apenas um sonho.

Mess Lethierry tinha o olhar dessa situação.

Cochichavam os grupos.

Cada qual dizia o que sabia.

Eis as noticias:

A Durande perdera-se na vespera nos rochedos Douvres, com o nevoeiro, uma hora antes do pôr do sol. Á excepção do capitão, que não quiz deixar o navio, toda a gente salvou-se na chalupa. Uma borrasca, vinda do sudueste, depois do nevoeiro, quasi fez naufragar a chalupa, e carregou-a para o mar largo além de Guernesey. De noite tiveram os naufragos a boa fortuna de encontrar oCashmere, que os recolheu elevou a Saint-Pierre Port. O culpado de tudo foi o timoneiro Tangrouille, que já estava preso. Clubin mostrou-se magnanimo.

Os pilotos que abundavam nos grupos, pronunciavam estas palavrasescolho Douvres, de um modo particular.—Má hospedaria aquella! dizia um delles.

Via-se na mesa uma bussola e um masso de registros e notas; eram sem duvida a bussola de Durande e os papeis de bordo entregues por Clubin a Imbrancam e a Tangrouille no momento de partir a chalupa; magnifica abnegação desse homem, salvando até os papeis no momento em que ia morrer; minuciasinha cheia de grandeza, esquecimento sublime de si proprio.

Todos eram unanimes em admirar Clubin, e igualmente unanimes em julga-lo salvo. O cuterShealtielchegára poucas horas depois doCashmere, e esse cuter trazia as ultimas informações. Esteve vinte o quatro horas nas mesmas aguas da Durande. Parou e bordejou durante o nevoeiro e a tempestade. O patrão doShealtielestava tambem na sala do Lethierry.

No momento em que Gilliatt entrou, acabava elle de fazer a sua narração a mess Lethierry. Era um verdadeiro relatorio. De manhã, tendo cessado a borrasca o acalmado o vento, o patrão doShealtielouvio mugido de bois em pleno mar. Este rumor proprio das campinas, ouvido alli nas vagas, surprendeu o patrão. Descobrio a Durande nos rochedos Douvres. A calma era sufficiente para que elle podesse acercar-se dos rochedos. Chamou o navio á falla. Só lhe respondeu o mugido dos bois que se afogavam no porão. O patrão doShealtielestava certo de que não havia ninguem á bordo da Durande. O casco estava completamente preso; e por mais violenta que fosse a borrasca; devia ter passado a noite á bordo. Não era homem de desanimar facilmente. Não estava á bordo, logo estava salvo.

Muitos sloops e lugars de Granville e Saint-Malo, desprendendo-se do nevoeiro, era fóra de duvida que deviam ter costeado as Douvres. Evidentemente algum delles recolheu o capitão Clubin. Devem lembrar-se que a chalupa da Durande estava cheia ao deixar o navio, ia correr perigos, mais um homem poderia fazel-a sossobrar, e foi isso sobretudo o que resolveu Clubin a ficar na Durande: mas, cumprido esse dever, se apparecesse um navio salvador, Clubin, não teria difficuldade de aproveitar-se delle. Deve-se ser heróe, não se deve ser pascacio. Um suicidio seria tanto mais absurdo quanto que Clubin portára-se com dignidade. O culpado era Tangrouille, não Clubin. Tudo isto era consequente; o patrão doShealtieltinha razão, e toda a gente esperava vêr Clubin de um momento para outro. Premeditava-se recebel-o em triumpho.

Da narração do mestre resultavam duas certezas: Clubin salvo e a Durande perdida.

Quanto a Durande estava decidido que a catastrophe era irremediavel. O patrão doShealtielassistira á ultima phase do naufragio. O grandissimo rochedo em que naufragara a Durande, resistira ao choque da tempestade, como se quizesse guardar comsigo o navio; mas de manhã, no momento em que oShealtiel, verificando que não havia ninguem para salvar affastava-se da Durande, houve um desses movimentos de mar que são como os ultimos arrancos da colera das tempestades. Essa onda levantou furiosamente a Durande, arrancou-a do cachopo, e com a rapidez e a rectidão de uma flexa disparada, atirou-a entre as duas rochas Douvres. Ouvio-se um estalo «diabolico» dizia o patrão. A Durande, levada pela vaga a uma certa altura, metteu-se entre as rochas. Estava outra vez pregada, mas desta vez mais solidamente que no escolho submarino. Ficou ahi deploravelmente suspensa, exposta a todo o vento e a todo mar.

A Durande, no dizer da equipagem doShealtieljá estava quasi toda despedaçada. Teria sossobrado, com certeza, de noite, se o cachopo não a sustivesse. O patrão doShealtielcom o seu oculo estudou o casco. Descreveu o desastre com precisão maritima; o lado de estibordo estava roto; os mastros truncados, o velame sem tralhas, as correntes dos ovens quasi todas cortadas, as sangadilhas cortadas o mais rente possivel desde o meio do mastro até acima; o lugar dos viveres arrombado, os cavaletes da chalupa destruidos, a arvore do leme rôta, os cabos despregados, os pavezes arrasados, as abitas levadas pelo vento, a antena do mesmo modo, o cadaste quebrado. Era a devastação frenetica da tempestade. Quanto ao guindaste do carregamento, preso ao mastro de prôa, já não existia, não havia noticia delle, completamente limpo, levaram-n'o os diabos, com todas as roldanas, polés e correntes. A Durande estava deslocada; a agua começava agora a sargal-a. Dentro de alguns dias nada mais restaria della.

E comtudo a machina, cousa notavel, e que provava a sua perfeição, soffreu pouco com a tempestade. O patrão doShealtielaffirmava que a manivella não teve avaria grave. Os mastros do navio cederam, mas o cano da machina resistio. Os baluartes de ferro do lugar do com mando estavam apenas torcidos; as caixas das rodas soffreram, mas as rodas pareciam não ter um só raio de menos. A machina estava intacta. Era a convicção do patrão doShealtiel.O machinista Imbrancam, que estava entre os grupos, partilhava esta convicção. Aquelle negro, mais intelligente que muitos brancos, era o admirador da machina. Levantava os braços abrindo os dez dedos das suas mãos negras, e dizia a Lethierry mudo: meu amo, a machina está viva.

O salvamento de Clubin parecia cousa segura; o casco da Durande estava sacrificado; a conversação dos grupos recahio sobre a machina. Interessavam-se por ella, como se fosse uma pessoa. Todos admiravam o bom procedimento da machina.—Solida comadre aquella, dizia um marinheiro francez.—É magnifica! exclamava um pescador guernesiano.—Deve ter sido muito astuciosa, accrescentava o patrão, para escapar apenas com alguns arranhões.

A pouco e pouco tornou-se a machina a preoccupação unica. Animou as opiniões pró e contra. Tinha amigos e inimigos. Mais de um, que tinha algum velho cuter de vela, e esperava apanhar a freguezia da Durande, alegrou-se por vêr o escolho Douvres fazer justiça á nova invenção. O cochicho tornou-se algazarra. Discutia-se com barulho. Era com tudo um rumor discreto, que de quando em quando se calava sob a pressão do silencio sepulcral de Lethierry.

Do colloquio havido em todos os pontos resultava isto:

A machina era o essencial. Refazer o navio era possivel, não a machina. Era unica. Para fabricar outra faltava o dinheiro e o fabricante. Lembram-se que o constructor tinha morrido. Custou quarenta mil francos. Ninguem arriscaria agora aquelle capital naquella eventualidade; tanto mais quando acabava de provar-se que os vapores naufragam como navios de vela; o accidente actual da Durande mettia á pique o seu passado succedimento. E era doloroso pensar que naquelle momento a machina ainda estava em bom estado, e que, antes de cinco ou seis dias, ficaria despedaçada como o navio. Emquanto existia a machina, podia dizer-se que não havia naufragio. Só a perda da machina era irremediavel. Salvar a machina era reparar o desastre.

Salvar a machina, é facil dizel-o. Mas quem ousaria? era acaso possivel? Fazer e executar, são cousas differentes, e a prova é que é facilformular uma aspiraçãoe difficil executal-a. Ora, se houve jámais um sonho impraticavel e insensato era este; salvar a machina encalhada nas Douvres. Mandar trabalhar naquellas rochas um navio e uma equipagem seria absurdo; não se devia pensar nisso. Era a estação dos temporaes: ao primeiro que houvesse, rasgavam-se as correntes das amarras nos pontos submarinhos e o navio despedaçava-se. Era mandar um naufragio em soccorro do primeiro. Na especie de buraco da planura superior onde se abrigára o naufrago legendario morto de fome, mal havia lugar para um homem. Era preciso pois que, para salvar essa machina, fosse um homem aos rochedos Douvres, e que fosse sozinho, só naquelle mar, só naquelle deserto, só a cinco leguas da costa, naquelle medo, só durante semanas inteiras, só diante do previsto e do imprevisto, sem vitualhas nas angustias da privação, sem soccorro nos incidentes da desgraça, sem outro vestigio humano que o do antigo naufrago morto alli, sem outro companheiro além daquelle finado.

E como salvaria elle a machina? Era preciso que fosse, não sómente marujo, senão tambem ferreiro. E quantas difficuldades! O homem que o tentasse seria mais que um heróe. Seria um louco. Porquanto, em certos commettimentos desproporcionados, onde parece necessario o sobrehumano, a bravura tem acima de si a demencia. E com effeito, sacrificar-se por um pouco de ferro não era estravagante? Não, ninguem iria aos rochedos Douvres. Devia-se renunciar á machina do mesmo modo que ao navio. O salvador que era preciso não apparecia. Onde encontrar esse homem?

Isto, dito de outro modo, era o fundo das conversas murmuradas daquella multidão.

O patrão doShealtielque era um antigo piloto, resumio o pensamento de todos, exclamando em alta voz:

—Não! está acabado. Não existe um homem capaz de ir buscar a machina!

—Se eu não vou, disse Imbrancam, é que é impossivel ir.

O patrão doShealtielsacudio a mão esquerda com aquelle arrebatamento que exprime a convicção do impossivel, e repetio:

—Se existisse...

Deruchette voltou a cabeça.

—Casava-me com elle.

Houve um silencio.

Um homem pallido sahio do meio dos grupos e disse:

—A senhora casava-se com elle, miss Deruchette?

Era Gilliatt.

Entretanto todos levantaram os olhos. Mess Lethierry endireitou-se. Tinha nos olhos uma luz estranha.

Tirou o boné e lançou-o ao chão, depois olhou solemnemente para a frente sem vêr pessoa alguma e disse:

—Deruchette casava-se com esse homem. Dou a minha palavra de honra a Deos.

A noite desse dia, das 10 horas em diante, devia ser noite de luar. Todavia, qualquer que fosse a boa apparencia da noite, do vento e do mar, nenhum pescador estava disposto a sahir nem de Hongue la Perre, nem do Bordeaux, nem de Houmet Benet, nem de Platon, nem de Port Grat, nem da bahia Vason, nem de Perrelle Bay, nem de Pezeris, nem de Tielles, nem da bahia dos Santos, nem de Petit Bô, nem de nenhum outro porto ou angra de Guernesey. E isto por uma razão simples; o gallo tinha cantado ao meio dia.

Quando o gallo canta a uma hora extraordinaria não ha peixe.

Nesse dia, pois, ao cahir da tarde, um pescador que voltava a Omptolle teve uma sorpreza. Na altura de Houmet Paradis, além de Brayges e Gunes, tendo á esquerda a balisa de Plattes Fougères, que representa um funil virado, e á direita a balisa de Saint-Sampson, que representa uma figura de homem, o pescador acreditou ver uma terceira balisa. Que balisa era essa? quando foi posta alli? que banco indicava ella? A balisa respondeu logo a estas interrogações; mexeu-se; era um mastro. Não diminui o o espanto do pescador. Balisa era para admirar; mastro ainda mais. Não havia pesca possivel. Quando todos voltavam, porque sahia aquelle? Quem era? porque?

Dez minutos depois, o mastro caminhando lentamente, chegou a pouca distancia do pescador de Omptolle. Este não pôde reconhecer o barco. Ouvio remar. O ruido era de dous remos. Provavelmente era um homem só. O vento era norte; o homem navegava evidentemente para ir tomar o vento além da ponta Fontenelle. Ahi era natural que abrisse a vela. Contava pois dobrar o Ancresse e o monte Crevel. Que queria dizer aquillo?

O mastro passou; o pescador foi para terra.

Nessa mesma noite, na costa oeste de Guernesey, observadores de occasião, disseminados e isolados fizeram alguns reparos a horas diversas e em diversos pontos.

O pescador de Omptolle acabava de amarrar o barco, quando um conductor de sargaço, a meia milha distante, chicoteando os animaes na estrada deserta de Clotures, perto do Cromleche, nos arredores dos martellos 6 e 7, vio no mar, um tanto longe, em lugar pouco frequentado, porque é preciso conhece-lo bem, do lado da Roque-Nord e da Sablonneuse, um barco içando uma vela. Deu pouca attenção, pois que era homem de carro e não de barco.

Meia hora depois, um estucador que voltava da cidade e contornava a lagôa de Pelée, achou-se repentinamente quasi em face de um barco que penetrara audaciosamente entre as rochas do Quenon, da Roune de Mer, e da Gripe de Roune. A noite era negra, mas o mar estava claro; effeito que se produz muitas vezes, e podia-se distinguir ao largo os navegantes. Só havia no mar aquelle barco.

Mais abaixo e mais tarde, um pescador de lagostas, dispondo as suas tendas no areal que separa o Port Soif do Port Enfer, não comprehendeu o que faria um barco que passava entre a Boue Cornelle e a Moncrette. Era preciso ser bom piloto e ter pressa de chegar a algum lugar para arriscar-se a passar alli.

Sendo oito horas no Catel, o taverneiro de Cobo Bay observou, com algum espanto, uma vela além da Boue do Jardin e das Grunettes, mui perto da Susanna, e dos Grunes do Oeste.

Não longe de Cobo Bay, na ponta solitaria do Houmet da bahia Vason, estavam dous namorados a despedir-se e a reter-se um ao outro; foram distrahidos do ultimo beijo por um vasto barco que passou por perto delles e dirigia-se para as Menellettes.

O Sr. Le Peyre des Norgiots, morador em Catellon Pipet, estava examinando, ás 9 horas da noite, um buraco feito por larapios na cerca da sua horta, e ao mesmo tempo que averiguava os estragos, não pode deixar de observar um barco dobrando temerariamente o Croce-Point áquella hora.

No dia seguinte ao de uma tempestade, com o resto de agitarão que sempre fica no mar, aquelle itinerario era pouco seguro, a menos que se não saiba de cór todos os passos.

Ás nove horas e meia, no Equerrier, um pescador levando a rede, parou algum tempo para ver entre Colombellee Soufleresse alguma cousa que devia ser um barco, e que se expunha muito ao tempo. Ha ventos perigosos nesse lugar. A rocha Soufleresse é assim chamada porque sopra constantemente os barcos que passam.

Ao levantar da lua, estando a maré cheia, e havendo pleno mar no estreito de Li-Hou, o guarda solitario da ilha de Li-Hou, assustou-se ao ver passar entre a lua e elle uma longa forma negra. Esta forma ia resvalando lentamente por cima das especies de paredes que formam os bancos da rocha. O guarda de Li-Hou pensou ver a Dama Negra.

A Dama Branca habita o Tau de Pez d'Amont, a Dama Cinzenta habita o Tau de Pez d'Aval, a Dama Vermelha habita a Lilleuse ao norte do Banc-Marquis, e a Dama Negra habita o Grand-Etacré ao este de Li-Houmet. Ao clarão da lua todas essas damas sahem e encontram-se ás vezes.

Rigorosamente essa forma negra podia ser uma vela. As longas fileiras de rochas sobre as quaes parecia que a vela andava podiam com effeito esconder o casco de um barco vogando a traz de si, deixando ver apenas a vela. Mas o guarda perguntou á si proprio que barco ousaria arriscar-se aquellas horas entre Li-Hou e a Pecheresse, e as Angullieres e Lerée Point. E com que fim? Pareceu-lhe mais provavel que fosse a Dama Negra.

Estando a lua já acima da torre de Saint-Pierre du Bois, o sargento de Rocquaine levantou metade da escada da ponte levadiça, e distinguio na foz da bahia, mais perto que a Sambule, um barco á vela que parecia descer do norte a sul.

Existe na costa sul de Guernesey, atraz do Plainmont, no fundo de uma bahia, toda precipicios e muralhas, cortada a pique na onda, um porto singular que um francez residente na ilha desde 1844, talvez o mesmo que escreve agora estas linhas, baptisou com o nome deporto do quarto andar, nome geralmente adoptado hoje. Esse porto que então se chamava a Moie, é uma planura de rocha meio natural, meio talhada, de quarenta pés de altura acima d'agua, e communicando com as vagas por duas grandes pranchas parallelas em plano inclinado. Os barcos, içados á força de braços por correntes e roldanas, sahem ao mar e descem ao longo dessas pranchas que são dous trilhos. Para os homens ha uma escada. Esse porto era então muito frequentado pelos contrabandistas. Sendo pouco praticavel, era lhes commodo.

Pelas onze horas, alguns trapaceiros, talvez os mesmos com quem Clubin contava, estavam com os seus fardos na Moie. Quem trapaceia, espia; elles espiavam. Admiraram-se de ver uma vela desembocando repentinamente além das linhas negras do Cabo Plainmont. O luar estava claro. Os contrabandistas espreitavam a vela, receiando que fosse algum guarda-costa collocar-se de emboscada atraz do grande Hanois, mas a vela passou os Hanois, deixou atraz de si a noroeste a Boue Blondi, e mergulhou-se ao largo nas brumas lividas do horisonte.

Onde diabo vai aquella barca? disseram os contrabandistas?

Na mesma noite, pouco depois de pôr o sol, ouvio-se alguem bater na porta da casa mal assombrada em que morava Gilliatt. Era um rapaz vestido de escuro, com meias amarellas, o que indicava ser sacristão. A casa estava fechada, porta e postigos. Uma velha pescadora de fructas do mar, passeando pelo banco, com uma lanterna na mão, chamou o rapaz, e trocaram-se estas palavras entre elles:

—Que quer você?

—O homem d'aqui.

—Não está em casa.

—Onde está?

—Não sei.

—Virá amanhã?

—Não sei.

—Foi-se embora d'aqui?

—Não sei.

—É que o novo cura da parochia, o reverendo Ebenezer Caudray, queria fazer-lhe uma visita.

—Não sei.

—O reverendo mandou-me saber se o homem estava em casa amanhã de manhã.

—Não sei.

Nas vinte e quatro horas que se seguiram, mess Lethierry não dormio, nem comeu, nem bebeu, beijou a testa de Deruchette, informou-se de Clubin do qual ainda não havia noticias, assignou um papel declarando que não pretendia dar queixa, e fez soltar Tangrouille.

Ficou todo o dia seguinte, meio encostado a mesa do escriptorio da Durande, nem assentado nem de pé, respondendo com brandura a quem lhe fallava. Demais, estando satisfeita a curiosidade, ficou solitaria a casa de Lethierry. Ha muito desejo de observar na solicitude de lamentar. Fechara-se a porta; deixava-se Lethierry com Deruchette. O relampago que passára nos olhos de Lethierry estava extincto; voltara-lhe o olhar lugubre do começo da catastrophe.

Deruchette assustada, foi calladinha, a conselho de Graça e Doce, collocar ao lado delle, na mesa, um par de meias que Lethierry tecia quando a triste noticia chegou.

Lethierry sorrio amargamente e disse:

—Então pensam que não tenho juizo?

Depois de um quarto de hora de silencio, accrescentou:

—Estas manias são boas quando a gente é feliz.

Deruchette tirou o par de meias, e aproveitou a occasião para tirar tambem a bussola e os papeis de bordo, que mess Lethierry contemplava demasiadamente.

De tarde, um pouco antes da hora do chá, a porta abrio-se, e entraram dous homens, vestidos de preto, um velho, e outro moço.

O moço já foi visto no curso desta narração.

Tinham ambos um ar grave, mas de gravidade differente; o velho tinha aquillo que se póde chamar gravidade de profissão; o mancebo tinha a gravidade da natureza. A primeira vem do habito, a segunda nasce do pensamento.

Eram, como indicava o traje, dous padres, pertencendo ambos á religião estabelecida.

O que se notava desde logo no mancebo, era que a gravidade, profunda no olhar, e resultando do espirito, não nascia absolutamente da pessoa. A gravidade admitte a paixão, exalta-a purificando-a, mas aquelle mancebo era, antes de tudo, lindo. Sendo padre devia ter ao menos vinte e cinco annos; parecia ter desoito. Apresentava uma harmonia e um contraste, isto é, tinha uma alma que parecia feita para a paixão o um corpo que parecia feito para o amor. Era loiro, rosado, fresco, delicado e flexivel, apezar do vestuario severo, com faces de donzella e mãos delicadas; embora reprimido, tinha o gesto vivo e natural. Tudo nelle era encanto, elegancia, e quasi volupia. A belleza do seu olhar corrigia esse excesso de graça. O sorriso sincero, que deixava ver uns dentes de criança, era pensativo e religioso. Era a gentileza de um pagem e a dignidade de um bispo.

Debaixo dos espessos cabellos louros, tão dourados que pareciam garridos, tinha elle um craneo elevado, candido e bem feito. Uma leve ruga de inflexão dupla, entre as duas sobrancelhas, despertava confusamente a idéa da ave do pensamento pairando, com as azas abertas, no meio daquella fronte.

Sentia-se ao vel-o, uma dessas creaturas benevolas, innocentes e puras, que progridem em sentido inverso da humanidade vulgar, a quem a illusão torna sabios e a experiencia enthusiastas.

A mocidade transparente deixava vêr a maturidade interior. Comparado ao padre dos cabellos grisalhos que o acompanhava, á primeira vista, parecia filho, reparando-se bem, parecia pai.

Era este o Dr. Jaquemin Herodes. O Dr. Jaquemin Herodes pertencia á alta igreja, que é pouco mais ou menos um papismo sem papa. O anglicanismo nessa época era agitado pelas tendencias que depois se affirmaram e condensaram no puleysmo. O Dr. Jaquemin Herodes era desse matiz anglicano, que é quasi uma variação romana. Era alto, correcto, delgado e superior. O raio visual interior mal se distinguia de fóra. O seu espinto era cingir-se á letra. Demais a mais era altivo. Enchia com a sua pessoa o lugar que occupava. Parecia menos um reverendo que um monsenhor. A casaca era talhada a moda de sotaina. Em Roma é que elle estaria bem. Nascera para ser prelado da camara. Parecia ter sido creado expressamente para ser ornamento do papa, e ir atraz da cadeira gestatoria, com toda a côrte pontificia,in abitto paonazzo.O accidente de ter nascido inglez, e uma educação theologica mais voltada para o Antigo Testamento que para o Novo, fizera com que lhe falhasse esse destino. Todos os seus explendores resumimiu-se nisto: ser cura de Saint-Pierre Port, decano da ilha de Guernesey e subrogado do bispo de Winchester. Não ha duvida que era gloria tudo isso.

Essa gloria não impedia que o Sr. Jaquemin Herodes fosse um bom homem.

Como theologo, dispunha da estima dos conhecedores, e fazia quasi autoridade em Arches, que é a Sorbonna da Inglaterra.

Tinha um ar douto, um piscar d'olhos apto e exagerado, narinas cabelludas, dentes visiveis, o labio inferior fino e o labio superior expesso, muitos diplomas, uma gorda prebenda, amigos barões, a confiança do bispo, e continuamente trazia uma biblia na algibeira.

Mess Lethierry estava tão completamente absorto que tudo quanto pôde produzir nelle a entrada dos dous padres, foi um imperceptivel enrugar de sobrancelhas.

O Sr. Jaquemin Herodes approximou-se, cumprimentou, recordou em poucas palavras sobriamente altivas, a sua recente promoção, e disse que vinha, segundo o uso, apresentar aos notaveis, e a mess Lethierry especialmente, o seu successor na parochia, o novo cura de Saint-Sampson, o reverendo Joe Ebenezer Caudray, que dahi em diante seria o pastor de mess Lethierry.

Deruchette levantou-se.

O padre moço, que era o reverendo Ebenezer, inclinou-se.

Mess Lethierry olhou para o Sr. Ebenezer Caudray, e mastigou entre dentes estas palavras: mão marinheiro.

Graça apresentou cadeiras. Os dous reverendos assentaram-se perto da mesa.

O Dr. Herodes começou um speech. Tinha sabido de um acontecimento. Naufragara o Durande. Vinha, como pastor, trazer consolação e conselho. O naufragio era uma desgraça, mas era tambem uma felicidade. Sondemo-nos; não nos inchava a prosperidade? As aguas da felicidade são perigosas. Não se deve tomar as desgraças á má parte. Os caminhos do Senhor são desconhecidos. Mess Lethierry estava arruinado. Pois ser oppulento, é estar em perigo. Apparecem amigos falsos. A pobresa affasta-os. Fica-se isolado.Solus eris.A Durande dizem que dava mil libras esterlinas por anno. Era demais para um philosopho. Fujamos ás tentações, desdenhemos o ouro. Aceitemos com reconhecimento à ruina e o abandono. O isolamento dá fructos. Ganha-se nelle as graças do Senhor. Foi na solidão que Aia achou as aguas quentes, conduzindo os asnos de Sebeão, seu pai. Não nos revoltemos contra os impenetraveis decretos da providencia. O santo homem Job, depois da sua miseria, cresceu em riquezas. Quem sabe se a perda de Durande não teria compensações, mesmo temporaes? Tambem elle, Herodes, empregára capitaes em uma magnifica operação que se realizava em Sheffleld; se mess Lethierry, com os fundos que lhe restavam, quizesse entrar nessse negocio, podia refazer a fortuna; era um grande fornecimento de armas ao czar para reprimir a Polonia. Ganharia trezentos por cento.

A palavra czar pareceu despertar Lethierry, que interrompeu o Dr. Herodes:

—Não quero nada com o czar.

O reverendo Herodes respondeu:

—Mess Lethierry, os principes são acceitos por Deos. Deos escreveu: Dai a Cesar o que é de Cesar. O czar é Cesar.

Lethierry, meio absorto na scisma, murmurou:

—Quem é Cesar? Não conheço.

O reverendo Herodes continuou a exhortação. Não insistio por Sheffield. Não aceitar Cesar era ser republicano. O reverendo comprehendia que um homem fosse republicano. Nesse caso, comprehendia que mess Lethierry se voltasse para uma republica. Mess Lethierry podia estabelecer a fortuna nos Estados-Unidos, melhor do que em Inglaterra. Se quizesse desculpar o que lhe restava, bastava-lhe tomar acções na grande companhia de exploração das plantações do Texas, que empregava mais de vinte mil negros.

—Não quero nada com a escravidão, disse Lethierry.

—A escravidão, replicou o reverendo Herodes, é de instituição sagrada. Está escripto: «Se o senhor bater o escravo, nada lhe será feito, porque bate o seu dinheiro.»

Graça e Doce, na soleira da porta, ou viam com uma especie de extase as palavras do reverendo doutor.

O reverendo continuou. Era, em summa, como dissemos um bom homem; e quaesquer que podessem ser os seus dissentimentos de casta ou de pessoa com mess Lethierry, vinha-lhe sinceramente dar o auxilio espiritual, e mesmo temporal, de que dispunha.

Se mess Lethierry estava arruinado ao ponto de não poder cooperar, com fructo, numa especulação qualquer, russa ou americana, porque não entrava no governo e nas funcções assalariadas? São nobres empregos esses, e o reverendo estava prompto a introduzir mess Lethierry. Vagára em Jersey o lugar de deputado-visconde. Mess Lethierry era amado e estimado, e o reverendo Herodes, decano de Guernesey, podia obter para mess Lethierry o emprego de deputado-visconde de Jersey. O deputado visconde é um funccionario consideravel; assiste, como representante de Sua Magestade aos actos juridicos, aos debates da plebe, e ás execuções de sentenças.

Lethierry fixou os olhos no Dr. Herodes.

—Não gosto de enforcamentos, disse elle.

O Dr. Herodes, que até então pronunciára todas as palavras com a mesma inflexão, teve um assento de severidade e uma inflexão nova:

—Mess Lethierry, a pena de morte é ordenada por Deus. Deus entregou a espada ao homem. Está escripto: olho por olho, dente por dente.

O reverendo Ebenezer approximou imperceptivelmente a sua cadeira da cadeira do reverendo Jaquemin, e disse-lhe de modo que não fosse ouvido senão por elle:

—O que este homem diz é-lhe dictado.

—Por quem? perguntou no mesmo tom o reverendo Herodes.

—Pela consciencia.

O reverendo Herodes metteu a mão no bolso, tirou um grosso volume em 18° encadernado com fechos, pô-lo na mesa e disse em voz alta:

—A consciencia é isto.

O livro era a Biblia.

Depois foi-se abrandando o Dr. Jaquemin. O seu desejo era ser util a mess Lethierry, que considerava ser um homem forte. Como pastor, tinha elle direito e dever de aconselhar; todavia mess Lethierry tinha a liberdade de acceitar ou recusar o conselho.

Mess Lethierry, cahindo outra vez na absorpção e no abatimento, já não ouvia. Deruchette, assentada ao pé delle, e pensativa tambem, não levantava os olhos, e dava áquella pratica pouco animada a porção de acanhamento que resulta de uma presença silenciosa. Uma testemunha que não diz palavra é uma especie de peso indefinivel. Mas o Dr. Herodes não parecia sentil-o.

Como Lethierry não respondia, o Dr. Herodes deu largas á palavra. O conselho vem do homem, a inspiração vem de Deus. Ha inspiração no conselho do padre. É bom aceitar os conselhos, e perigoso regeita-los. Sochoth foi agarrado por onze diabos por ter desdenhado das exhortações de Nathaniel. Tiburiano foi atacado de lepra por ter posto fóra de casa o apostolo André. Barjesus, apezar de magico, ficou cégo por ter zombado das palavras de S. Paulo. Elxai, e suas irmãs Martha a Marthena estão no inferno a esta hora por terem desprezado as advertencias de Valencianus que lhes provava claro como o dia, que o Jesus Christo delles, de trinta e oito leguas de comprimento, era um demonio. Rolibana, que tambem se chama Judith, obedecia aos conselhos. Ruben e Theniel, ouviam os conselhos do céo; basta os nomes delles para indica-los; Ruben significafilho da visão, e Theniel significaface de Deus.

Mess Lethierry deu um socco na mesa.

—Mas a culpa é minha!

—Que quer dizer? perguntou Jaquemin Herodes.

—Digo que a culpa é minha.

—Culpa de que?

—Por ter mandado vir a Durande á sexta-feira.

O Sr. Jaquemin Herodes murmurou ao ouvido do Sr. Ebenezer Caudray:

—Este homem é supersticioso.

Continuou depois, e em tom de mestre:

—Mess Lethierry, é pueril acreditar na sexta-feira. Não se deve acreditar em fabulas. A sexta-feira é um dia, como qualquer outro. Ás vezes é data feliz. Melendez fundou a cidade de Santo Agostinho em sexta-feira; foi n'uma sexta-feira que Henrique VII deu a sua commissão a John Cabot; os perigrinos de Mayflower chegaram a Province-Town em sexta-feira. Washington nasceu na sexta-feira, 22 de Fevereiro de 1732; Christovão Colombo descobrio a America na sexta-feira 12 de Outubro de 1492.

Dizendo isto levantou-se.

Ebenezer, que tinha ido com elle, levantou-se tambem.

Graça e Doce advinhando que os reverendos iam despedir-se, abriram as portas.

Mess Lethierry não via nem ouvia nada.

O Sr. Jaquemin Herodes disse em aparte ao Sr. Ebenerez Caudray:

—Nem nos comprimenta. Não é tristeza, é embrutecimento. Devemos crer que elle está doudo.

Entretanto pegou naBiblia, e collocou-a entre as mãos abertas, como quem segura um passaro com receio que fuja. Esta attitude creou entre os personagens presentes uma certa espera. Graça e Doce esticaram a cabeça.

A voz de Herodes fez quanto pede para ser magestosa.

—Mess Lethierry, não nos separemos sem ler uma pagina do livro santo. As situações da vida são esclarecidas pelos livros; os profanos tem as sortes virgilianas, os crentes tem as advertencias biblicas. O primeiro livro, apanhado ao acaso, aberto ao acaso, dá um conselho; a Biblia, aberta ao acaso, faz uma revelação. É sobretudo boa para os afflictos. O que a Santa Escriptura respira indubitavelmente é um lenitivo ás dôres. Diante dos afflictos, deve-se consultar o santo livro sem escolher o lugar, e ler com candura o passo encontrado. O que o homem não escolhe, escolhe-o Deus. Deus sabe o que precisamos. O seu dedo invisivel aponta o passo inesperado que nós lemos. Qualquer que seja a pagina, rebenta-lhe luz. Não busquemos outra. É a palavra do céo. O nosso destino é revelado mysteriosamente no texto evocado com confiança e respeito. Ouçamos e obedeçamos. Mess Lethierry, o senhor tem uma afflicção, este é o livro da consolação; está enfermo, este é o livro da saude.

O reverendo Jaquemin Herodes abrio a mola do fecho, metteu o dedo ao acaso entre duas paginas, poz a mão no livro aberto, e concentrou-se; depois abaixando os olhos com autoridade leu em alta voz.

Eis o que elle leu:

«Isaac passeava no caminho que vai ter ao poço chamado Poço daquelle que vive e vê.

«Rebecca, vendo Isaac, disse: Quem é este homem que vem andando para mim.

«Então Isaac fel-a entrar na sua tenda, e tomou-a por mulher, e grande foi o amor que lhe teve».

Ebenezer e Deruchette olharam um para o outro.

Já os leitores terão adivinhado que o barco, visto em muitos pontos da costa de Guernesey, na noite anterior, em horas diversas, era apança.Gilliatt escolheu ao longo da costa o canal que se abre entre os rochedos; era a rota perigosa, mas era o caminho directo. Tomar o mais curto foi o cuidado delle. Os naufragos não esperara. O mar é cousa urgente, uma hora de demora podia ser irreparavel. Queria chegar depressa para soccorrer a machina.

Sahindo de Guernesey, uma das preoccupações de Gilliatt era não despertar a attenção. Sahio como quem fugia. Tinha ares de pessoa que se esconde. Evitou a costa d'Este como se achasse inutil passar á vista de Saint-Sampson e Saint-Pierre Port; resvalou silenciosamente ao longo da costa opposta que é relativamente inhabitada. Nos bancos teve de remar: mas Gilliatt manejava o remo segundo a lei hydraulica: tomar a agua sem choque e impeli-la devagar; desse modo pôde nadar, na obscuridade com a maior força e o menor rumor possiveis. Parecia que ia commetter uma acção feia.

A verdade é que, atirando-se de olhos fechados a um commettimento que parecia impossivel, e arriscando a vida com todas as probabilidades contra elle, receiava a concurrencia.

Como o dia começava a despontar, os olhos ignotos que estão talvez abertos no espaço, puderam ver no meio do mar, num ponto em que ha mais solidão e ameaça, duas cousas entre as quaes ia diminuindo o intervallo, sendo que uma approximava-se da outra. Uma, quasi imperceptivel no largo movimento das vagas, era um barco de vela; nessa barca havia um homem; era apançalevando Gilliatt. A outra immovel, collossal, negra, tinha, sobranceira ás vagas, uma sorprehendente figura. Dous altos pilares amparavam acima d'agua, no vacuo, uma especie de travessão horisontal que era como que uma ponte entre as duas cumiadas. O travessão, tão informe de longe que seria impossivel advinhar o que era, fazia corpo com os dous pilares. Parecia uma porta. Porque, haveria uma porta naquella abertura de todos os lados do mar? Dissera-se um dolmen titanico plantado alli, em pleno oceano, por uma phantasia magistral, e construido por mãos que leem o habito de apropriar ao abysmo as suas construcções. Aquella medonha forma levantava-se na claridade do céo.

A luz da manhã ia crescendo a leste; a alvura do horisonte augmentava a negridão do mar. Do lado opposto, declinava a lua.

Os dous pilares eram as Douvres. A especie de massa apertada entre elles como uma architrave era a Durande.

Apertando assim a sua victima, e deixando-a ver, o escolho era horrivel. A atitude daquelles rochedos era uma especie de repto. Parecia esperar.

Nada mais altivo e arrogante como tudo aquillo; o navio vencido, o abysmo victorioso. Os dous rochedos, ainda gotejantes da tempestade da vespera, pareciam dous combatentes em suor. Tinha acalmado o vento, o mar dobrava-se placidamente; advinhava-se que havia á flôr d'agua alguns bancos onde os penachos de escuma cahiam com graça; de longe vinha um murmurio semelhante ao zumbido das abelhas. Tudo era um nivel, menos as duas Douvres, levantadas e tezas como duas collunas negras. Os flancos escarpados tinham reflexos de armaduras. Pareciam prestes a encetar de novo a luta. Comprehendia-se que ellas nasciam de montanhas submarinas. Havia em tudo aquillo uma especie de omnipotencia tragica.

De ordinario, o mar occulta os seus lances. Conserva-se voluntariamente obscuro. A incommensuravel sombra guarda tudo para elle. É raro que o mysterio renuncie ao segredo. Ha um quê de monstro na catastrophe, mas em quantidade ignota. 0 mar é patente e secreto; esconde-se, não quer divulgar as suas acções. Produz um naufragio, e abafa-o; engolir é o seu pudor. A vaga é hypocrita; mata, rouba, sonega, ignora e sorri. Ruge, depois abranda-se.

Nada semelhante nas Douvres. Os dous rochedos, levantando acima das ondas o cadaver da Durande, tinham um ar de triumpho. Dissera-se dous braços sahindo do golphão, e mostrando ás tempestades, o cadaver daquelle navio. Era uma cousa igual ao assassino que se vangloria do crime.

A isto acrescentava-se o horror sagrado da hora. A madrugada tem uma grandeza mysteriosa que se compõe de um resto de sonho e de um começo de pensamento. Nesse momento turvado, como que fluctua ainda um pouco de espectro. A especie de immenso H maiusculo formado pela duas Douvres com a Durande no centro, apparecia no horisonte no meio de uma certa magestade crepuscular.

Gilliatt vestia a roupa do mar, camisa de lã, meias de lã, sapatos taixeados, japona de lã, calça de panno grosso mal tecido, com bolsos, e na cabeça um daquelles barretes de lã vermelha usados então na marinha, e que se chamavam no seculo passadogaleriennes.

Reconheceu o escolho e avançou.

A Durande estava ao contrario de um navio deitado a pique; era um navio pendurado no ar.

Não havia mais estranho commettimento que o de salvar a machina daquelle navio.

Era dia claro quando Gilliatt chegou ás aguas do escolho.

Como dissemos, havia pouco mar. A agua tinha apenas a quantidade de agitação que lhe dava a estreiteza entre os rochedos. Ha sempre marulho nos espaços d'agua como aquelle, quer sejam grandes, quer pequenos. O interior de um estreito espuma sempre.

Gilliatt não abordou ao Douvres sem precaução.

Deitou a sonda muitas vezes.

Gilliatt tinha de fazer um pequeno desembarque de matalotagem.

Affeito ás ausencias, tinha sempre prompta em casa a matalotagem. Era um sacco de biscouto, um sacco de farinha de centeio, uma cesta de stok-fisch e de carne fumada, um grande pichel de agua doce, uma caixa norueguense com ramagens pintadas, contendo algumas camisas de lã, grevas alcatroadas, e uma pelle de carneiro que elle punha de noite em cima da japona. Tinha posto tudo isso, ás carreiras, napança, e mais um bocado de pão fresco. Com a pressa, não levou outra ferramenta mais que o martello da forja, o machado e a picareta, uma serra, e uma corda de nós armada de fateixa. Com uma escada desta ordem, e a maneira de servir della, as subidas escabrosas tornam-se praticaveis nos mais rudes declives.

Póde-se ver na ilha de Serk a vantagem que os pescadores do Havre Gosselin tiram de semelhante corda.

As rêdes e as linhas e todo o arsenal de pescaria estavam na barca. Pôl-os dentro por costume, e machinalmente, porquanto, tendo de tentar até o ultimo esforço, talvez se demorasse algum tempo no archipelago de cachopos, e o apparelho da pescaria é inutil em taes sitios.

No momento em que Gilliatt abordou o escolho, o mar baixava, circumstancia favoravel. As vagas decrescentes descobriam ao pé da pequena Douvre, algumas pedras chatas ou pouco inclinadas, á semelhança de harpéos carregando um pavimento. Essas superficies, umas estreitas, outras largas, encadeando e elevando-se, com espaços desiguaes, ao longo do monolitho vertical, prolongava-se em cornija até debaixo da Durande, que abarcava o espaço entre os dous rochedos. Estava apertada ali como n'um tomilho.

Eram commodas aquellas plataformas para desembarcar e observar. Podia-se desembarcar ali, provisoriamente, o carregamento dapança.Mas era preciso apressar-se, porque ellas estariam fóra d'agua pouco tempo. Quando a maré enchesse ficariam outra vez cobertas.

Foi para essas rochas, umas chatas, outras declives, que Gilliatt impellio e fez parar apança.

Uma espessura de sargaço, humida e escorregadia cobria essas rochas, e a obliquidade de algumas dellas mais escorregadias as tornava.

Gilliatt descalçou-se, saltou sobre o limo, e amarrou apançaem uma ponta de rochedo.

Depois approximou-se o mais devagar que pôde sobre a estreita cornija de granito, chegou debaixo da Durande levantou os olhos e contemplou-a.

A Durande estava preza, suspensa, e como que ajustada entre os dous penedos, vinte pés acima das vagas. Era preciso que fosse atirada ali por uma furiosa violencia do mar.

Tão impetuoso empurrão não faz pasmar a gente do mar. Para citar apenas um exemplo, a 25 de Janeiro de 1840, no golpho de Itora, uma tempestade, já espirante, fez saltar um brigue, de um só pulo, por cima do casco naufragado da corvetaLa Marne, e incrustou-o com o gurupés á frente, entre dous penedios.

Demais, nas Douvres apenas havia um resto da Durande.

O navio arrancado ás vagas foi de algum modo desenraisado da agua pelo furacão. O turbilhão do vento tinha-o torcido, o turbilhão do mar tinha-o preso, e o navio, seguro em sentido inverso pelas duas mãos da tempestade, quebrou-se como se fôra uma ripa. O pedaço da popa, com a machina e as rodas, arrebatado das aguas e impellido por toda a furia do cyclone para a garganta das Douvres, lá ficou. O vento foi acertado; para metter aquelle casco entre os dous rochedos o furacão transformou-se em massa. A proa, levada e rolada pelo vento, deslocou-se nos bancos de pedra.

O porão, que estava arrombado, esvasiara no mar os bois, mortos.

Um grande pedaço da amurada da proa, ainda estava preso ao casco, mas pendurada nas caixas das rodas por algumas lascas, faceis de quebrar com um machado.

Via-se aqui e ali, nas anfractuosidades longinquas do escolho, barrotes, taboas, pedaços de vela, pedaços de correntes, todos os destroços, tranquillos nos rochedos.

Gilliatt comtemplava com attenção a Durande. A quilha era o tecto que lhe ficava sobre a cabeça.

O horisonte, onde a agua illuminada apenas se mechia, estava sereno. O sol sahia explendidamente daquella vasta massa azul.

De tempos a tempos uma gota de agua destacava-se do navio e cahia no mar.

As Douvres eram differentes de fórma como de altura.

Na pequena Douvre, recurvada e aguda, via-se ramificar-se, da base ao cimo, longas veias de uma rocha côr de tijolo, relativamente tenra, que fechava com as suas laminas o interior do granito. Nessas laminas avermelhadas havia, de espaço a espaço, fendas próprias para subir. Uma dessas fendas, um pouco acima do navio, foi tão bem trabalhada pelos arremeços do mar, que tornou-se uma especie de nicho, onde podia guardar-se uma estatua. O granito da pequena Douvre era arredondado na superficie e macio como pedra de toque, o que não lhe tirava a dureza que tinha. A pequena Douvre terminava om ponta como um chifre. A grande Douvre, polida, unida, lisa, perpendicular, e feita como por desenho, era de um só jacto e parecia feita de marfim preto. Nem um buraquinho, nem um relevo. Trepar por ella era impossivel: não podia servir nem á fuga de um criminoso, nem ao ninho de um passaro. No cume havia como no rochedo Homem, uma plata-fórma; era porém inaccessivel.

Podia-se trepar pela pequena Douvre, mas não ficar lá, podia-se ficar na grande Douvre, mas não se podia subir.

Gilliatt, depois de lançar os olhos por tudo aquillo voltou ápança, descarregou-a na mais larga das cornijas á flôr d'agua, fez de todo o carregamento, aliás pequeno, uma especie de pacote, atou-o n'um panno alcatroado, depois içou-o por meio de um cabo até um ponto da rocha onde o mar não podia chegar; feito isto, abraçou-se á pequena Douvre, e com pés e mãos, de fenda em fenda, trepou por ella até a Durande que estava no ar.

Chegando a altura das caixas das rodas saltou dentro.

O interior do navio era lugubre.

A Durande apresentava todos os vestigios de um arrombamento medonho. Era a violação tremenda da tempestade. A tempestade comporta-se como um pirata. Nada assemelha-se mais a um attentado que um naufragio. Nuvens, trovão, chuva, vagas, tufões, rochedos, horrivel multidão de cumplices é esta.

No meio daquelles destroços, pensava-se em alguma cousa semelhante ao tripudio furioso dos espiritos do mar. Tudo eram vestigios de raiva. As torções estranhas de certos ferros, indicavam a acção impectuosa dos ventos. O convéz assemelhava-se á célula de um louco; tudo estava despedaçado.

Nenhum animal estrangula uma pedra como o mar. A agua regorgita das garras. O vento morde, o mar devora, a vaga é um queixo. É um sacar e um esmigalhar ao mesmo tempo. O oceano tem um golpe igual á pata do leão.

O descalabro da Durande apresentava esta particularidade: era minucioso. Era uma especie de terrivel descascamento. Muitas cousas pareciam feitas de proposito. Que maldade! podia dizer-se. As fracturas das amuradas eram feitas com arte. Este genero de destruição é proprio do cyclone. Retalhar e adelgaçar tal é o capricho desse desvastador enorme. O cyclone usa das averiguações do carrasco. Os seus desastres parecem supplicios. Dissera-se que algum rancor o anima; é requintado como um selvagem. Disseca examinando. Tortura o naufragio, vinga-se, diverte-se; é mesquinhamente cruel.

Raros são os cyclones em nossos climas, e tanto mais terriveis quanto que são inesperados. Um rochedo encontrado póde fazer andar á roda a tempestade. É provavel que a borrasca tivesse feito espiral sobre as Douvres, voltando-se subitamente em tromba ao choque do escolho, o que esplicava o salto do navio a tamanha altura naquellas rochas. Quando o cyclone sopra, um navio peza tanto como a pedra de uma funda.

A Durande tinha a chaga que fica ao homem cortado pelo meio; era um tronco aberto deixando ver um molho de destroços semelhante a entranhas. O cordoame fluctuava e estremecia; as correntes balançavam e tiritavam; as fibras e os nervos do navio estavam nús e pendiam no ar. O que não estava quebrado estava desarticulado; a pregadura do casco assemelhava-se a uma almofada eriçada de pregos; em tudo havia a fórma de ruina; uma barra de pé de cabra não era menos que um simples pedaço de ferro; uma sonda era apenas um pedaço de chumbo; uma drissa era apenas uma ponta de canhamo; uma tralha era apenas um fio de debrum; por toda a parte a inutilidade lamentavel da destruição; nada havia que não estivesse despregado, desenganchado, rachado, roido, recurvado, aniquilado; nenhuma adhesão naquelle feio montão de destroços; em tudo o deslocamento e a ruptura, esse aspecto de inconsistente e liquido que caracteriza todas as confusões, desde as refregas dos homens que se chamam batalhas, até ás refregas dos elementos que se chamara cahos. Tudo esboroava, tudo cahia, e uma torrente de taboas, de lonas, de ferro, de cabos e de vigas tinha parado na grande fratura da quilha, donde o menor choque podia precipitar tudo ao mar. O que restava daquella poderosa carena tão triumphante outr'ora, toda aquella parte suspensa entre as duas Douvres e talvez prestes a cahir, tudo estava roto e dilacerado, deixando ver pelos buracos o interior sombrio do navio.

Debaixo cuspia a espuma sobre aquella cousa miseravel.

Gilliatt não esperava achar sómente metade do navio. Nas indicações, aliás tão precisas, do capitão doShealtiel, nada fazia presentir aquella divisão do casco pelo meio. Foi talvez na occasião em que o navio partio-se, debaixo da immensa espessura da espuma, que houve aquelleestallo diabolicoouvido pelo capitão doShealtiel.O capitão affastava-se sem duvida no momento do ultimo sopro do vento, e não vio que era uma tromba que impellia o navio. Mais tarde, approximando-se para observar o desastre, vio apenas a parte anterior do casco, ficando-lhe escondido pelo rochedo o lado fracturado donde se rompera metade do navio.

Excepto isto, o patrão doShealtieldisse tudo exacto. O casco estava perdido, a machina estava intacta.

São frequentes estes acasos nos naufragios como nos incendios. Não se pode comprehender a logica do desastre.

Os mastros quebrados tinham cahido; o cano nem mesmo envergou; a grande placa de ferro que amparava o mecanismo manteve-o intacto e completo. O revestimento de taboas das rodas estava destruido como as laminas de uma persiana; mas atravez das fendas viam-se as rodas em bom estado. Apenas faltavam alguns raios.

Além da machina, tinha resistido o grande cabrestante da popa. Tinha ainda a corrente, e graças ao seu robusto encaixe em um quadro de tabuões, ainda podia prestar serviços, uma vez que se não rompesse a prancha. O pedaço do casco mettido entre as Douvres estava firme, já o dissemos, e parecia solido.

A conservação da machina tinha um que de irrisorio e acrescentava a ironia á catastrophe. A sombria malicia do desconhecido mostra-se ás vezes nessas especies de zombarias amargas. A machina estava salva, o que não impedia que estivesse perdida.

O oceano guardava-a para demolil-a aos poucos. Divertimento de gato.

A machina ia agonisar e desfazer-se peça por peça. Ia diminuir dia a dia, e por assim dizer, derreter-se. Ia servir de brinco ás selvajarias de espuma. Que fazer? Que aquelle pesado montão de mecanismos e encaixes, massiço e delicado a um tempo, condemnado á immobilidade por seu peso, entregue na solidão ás forças demolidoras, posto pelo cachopo a discrição do vento e do mar, podesse, sob a pressão daquelle lugar, implacavel, escapar á destruição lenta, era até loucura imaginal-o.

A Durande estava prisioneira das Douvres.

Como tiral-a dali?

Como libertal-a?

A evasão de um homem é difficil; mas que problema não é este: a evasão de uma machina!

Gilliatt estava cercado de urgencias. O mais urgente era achar ancoradouro para apança, e depois abrigo para si.

A Durande, estava mais carregada a bombordo que a estibordo, e por isso a roda da direita ficava mais elevada que a da esquerda.

Gilliatt subiu á caixa das rodas da direita. Dahi dominava a parte baixa dos bancos, e embora a rede de rochas alinhadas em angulos por traz das Douvres, fizesse muitos cotovellos, Gilliatt pôde estudar o plano geometrico do escolho.

Começou por ahi.

As Douvres, como indicámos, eram duas altas pilastras marcando a entrada estreita de uma viela de penedos perpendiculares na frente. Não é raro achar nas formações submarinhas primitivas, esses corredores singulares feitos como que a machado.

Aquelle, que era tortuoso, nunca estava a secco, mesmo nas marés baixas. Uma corrente agitada atravessava-o sempre. A impetuosidade do rodomoinho era boa ou má, segundo o rumo do vento reinante; ora quebrava a onda, e fazia-a cahir; ora exasperava-a. Este ultimo caso era o mais frequente; o obstaculo encolerisa a vaga eleva-a aos excessos; a espuma é a exageração da vaga.

O vento da tempestade, naquelles estrangulamentos entre duas rochas, soffre a mesma compressão e adquire a mesma malignidade. É a tempestade no estado de estranguria. O sopro immenso fica immenso, mas faz-se agudo. É ao mesmo tempo massa e dardo. Fura e esmaga. Imaginai o furacão fazendo-se vento coado.

As duas cadeias de rochedos, deixando entre si, essa especie de rua do mar, terminava em degráos mais baixos que as Douvres, gradualmente decrescentes, e mergulhavam juntas no mar a uma certa distancia. Havia ahi outra foz menos elevada que a das Douvres, porém mais estreita ainda e que era a entrada, a Este, daquella garganta. Advinhava-se que o duplo prolongamento das duas arestas de rocha continuava a rua debaixo da agua até o rochedo Homem collocado como uma cidadella quadrada na outra extremidade do escolho.

Nas marés baixas, e era nessa occasião que Gilliatt observava, as duas fileiras de bancos mostravam os seus dorsos, alguns a secco, todos visiveis, e coordenando-se sem interrupção.

O Homem limitava e resguardava no levante a massa inteira do escolho, que era limitado, ao poente, pelas duas Douvres.

Todo o escolho, visto a vôo de passaro, apresentava um rosario recurvado de rochedos, tendo em uma ponta as Douvres e na outra o Homem.

O escolho Douvres, visto em seu conjuncto, era apenas a immersão de duas gigantescas laminas de granito tocando-se quasi e cahindo verticalmente, como uma crista de montes que estão no fundo do oceano. Ha fora do abysmo essas exfoliações immensas. A lufada e a onda tinham recortado essa cristã como uma serra. Via-se apenas o cimo, era o escolho. O que a onda escondia devia ser enorme. A viela onde a tempestade tinha atirado a Durande, era o centro dessas duas laminas collossaes.

Essa viela, em zig-zag como o relampago, tinha quasi em todos os pontos a mesma largura. O oceano fel-a assim. O eterno tumulto produz suas regularidades estranhas. Sobe d'agua uma geometria.

De um cabo a outro da garganta, as duas muralhas da rocha faziam-se face paralellamente a uma distancia que a Durande media quasi com exactidão entre as duas Douvres; o esvasamento da pequena Douvre, recurvada e voltada, dera lugar ás caixas das rodas. Em qualquer outro lugar as caixas ficariam quebradas.

A dupla fachada interna do escolho era hedionda. Quando na exploração do deserto de agua chamado Oceano, chega-se ás cousas ignotas do mar, torna-se tudo surprehendente e disforme. Aquillo que Gilliatt, do alto do casco, podia vêr na garganta fazia horror. Ha muitas vezes nas gargantas graniticas do oceano uma estranha imagem permanente do naufragio. A garganta das rochas Douvres tinha a sua, que era assustadora. Os oxydos da rocha davam-lhes aqui e alli umas vermelhidões imitando placas de sangue coalhado. Era uma especie de transudação sangrenta de um matadouro. Havia um ar de açougue naquelles parceis. A rude pedra marinha, diversamente colorida, aqui pela decomposição dos amalgamas metalicos misturados á rocha, alli pelo bolor, ostentava vermelhidões hediondas, esverdeamentos suspeitos, despertando uma idéa de morte e de exterminio. Acreditava-se vêr uma parede ainda não enxuta do quarto de um assassinato. Dissera-se que eram aquelles os vestigios de um despedaçamento de homens; a rocha ingreme tinha um cunho de agonias accumuladas. Em certos lugares a carnagem parecia escorrer ainda, a muralha estava molhada e parecia impossivel apoiar o dedo sem tiral-o sangrento. Por toda a parte apparecia uma ferrugem de morticinio. Ao pé do duplo declivio paralello, esparso á flôr d'agua ou debaixo da vaga, ou a secco nas excavações, monstruosos seixos redondos, uns escarlates, outros negros ou roxos, tinham semelhanças de visceras; acreditava-se vêr pulmões frescos ou figados putridos. Dissera-se que alli se tinham esvasiado ventres de gigantes. Longos fios vermelhos, que se poderiam tomar por distillações funebres, riscavam o granito de alto a baixo.

Esses aspectos são frequentes nas cavernas do mar.

A fórma de um escolho não é cousa indifferente para os que, nos riscos das viagens, podem ser condemnados á habitação temporaria de um escolho no oceano.

Ha o escolho pyramide, um cimo fóra da agua; ha o escolho circulo, cousa semelhante a uma roda de pedras grandes; ha o escolho corredor. O escolho corredor é o peior de todos. Não somente por causa da angustia das ondas entre as rochas e do tumulto das aguas apertadas, mas tambem por causa das propriedades meteorologicas que parecem desprender-se do paralellismo das duas rochas em pleno mar. As duas paredes rectas são um verdadeiro aparelho de Volta.

Orienta-se o escolho corredor, e isso é importante. Resulta dahi uma primeira acção sobre o ar e a agua. O escolho corredor actua na agua e no vento mecanicamente, pela forma, galvanicamente, pela attração diversa dos seus planos verticaes, massas sobrepostas e contrariadas umas pelas outras.

Esta especie de escolhos atrahe todas as forças furiosas esparsas no furação, e tem sobre a borrasca uma singular força de concentração.

Donde resulta que nas paragens desses cachopos, ha uma certa accentuação da tempestade.

Cumpre saber que o vento é composito. Acredita-se que o vento é simples; engano. Essa força não é sómente dynamica, é chimica; não é sómente chimica, é magnetica. Tem alguma cousa que é inexplicavel.

O vento é tão eletrico como aereo. Certos ventos coincidem com auroras boreaes. O vento do banco das Arguilles, rola vagas de cem pés de altura, espanto de Dumont d'Urville.A corveta, disse elle,não sabia a quem havia de attender.

Debaixo das lufadas austraes, verdadeiros tumores doentios sopram no oceano, e o mar torna-se tão horrivel que os selvagens fogem para não vêl-o.

As lufadas boreaes são outras; misturam-se de pontas de gelo, e esses furações irrespiraveis impellem para a neve os trenós dos esquimós. Outros ventos queimam. É o simoun da Africa, é o typhon da China e o samiel da India. Simoun, Typhon, Samiel; parece que são demonios estes nomes. Fundem o cimo das montanhas; uma tempestade vitrificou o vulcão de Tulucea. Este vento quente, turbilhão côr de tinta atirando-se sobre as nuvens encarnadas fez dizer aos Vedas:Eis ahi o Deos negro que vem roubar as vaccas encarnadas.Sente-se em tudo isto a pressão do mysterio eletrico.

O vento é cheio desse mysterio. Do mesmo modo o mar. Tambem elle é complicado; debaixo das suas vagas de aguas, que se veem, ha outras vagas de forças, que se não veem. Compõe-se de tudo. De todas as misturas, a do oceano é a mais invisivel e a mais profunda.

Tentai conhecer esse cahos, tão enorme que vai ter ao nada. É o recepiente universal, reservatorio para as fecundações, cadinho para as transformações. Amassa, depois dispersa; accumula, depois semêa; devora, depois produz. Recebe todos os esgotos da terra, e aferrolha-os. É solido no banco, liquido na agua, fluido no eflluvio. Como materia é massa, e como força é abstracção. Iguala e consorcia os phenomenos. Simplifica-se no infinito pela combinação. É a força da mescla e da turvação que chega á transparencia. A diversidade soluvel prende-se na sua unidade. Tem tantos elementos diversos que é identico. Uma das suas gottas é todo elle. Como é cheio de tempestades, torna-se equilibrio. Platão via dansar espheras; cousa estranha, mas real na collossal evolução terrestre á roda do sol, o oceano, com o seu fluxo e refluxo, é o pendulo do globo.

No phenomeno do mar, todos os phenomenos estão presentes. O mar é aspirado pelo turbilhão como um siphon; uma tempestade é um corpo de bomba; o raio vem da agua como do ar; nos navios sentem-se abalos surdos, depois um cheiro de enxofre sahe do poço das correntes. O oceano ferve.O diabo poz o mar na sua caldeira, dizia Ruyter.

Em certas tempestades que caractensam os movimentos das estações e as entradas em equilibrio das forças genesiacas, os navios battidos de escuma parecem evaporar uma luz, e flammas de phosphoro corrêm pelo cordoame, tão misturadas aos cabos que os marinheiros estendem a mão e procuram apanhar esses passaros de fogo. Depois do terremoto de Lisboa, um halito de fornulha impellio para a cidade uma vaga de sessenta pés de altura. A oscillação liga-se ao estremecimento terrestre.

Essas energias incommensuraveis tornam possiveis todos os cataclysmas.

No fim de 1864, a cem leguas das costas de Malabar, sossobrou uma ilha, como se fôsse um navio. Os pescadores que tinhão sahido de manhã voltaram á noite e não acharam nada; apenas puderam ver as suas aldêas de baixo de agua; e desta vez foram os barcos que assistiram ao naufragio das casas.

Na Europa onde parece que a naturesa sente-se constrangida em respeito à civilisação, taes acontecimentos são raros até á impossibilidade presumivel.

Todavia, Jersey e Guernesey fizeram parte da Gallia; e, no momento em que escrevemos, um vento equinocio acaba de demolir na fronteira da Inglaterra e de Escossia o penedio da praia chamado Primeiro dos Quatro,First of the Fourth.

Em parte alguma essas forças panicas apparecem mais formidavelmente amalgamadas do que no sorprehendente estreito boreal chamado Lyse-Fiord. O Lyse-Fiord é o mais temivel dos escolhos-boreaes do oceano. Ahi a demonstração é completa. É o mar da Noruega, a visinhança do tremendo golpho Stavanger, o quinquagesimo nono gráo de latittude. A agua é pesada e negra com uma febre de tempestatade intermittente.

Nessa agua, no meio da solidão, ha uma grande rua sombria. Não é rua para pessoa alguma. Ninguem passa alli; nenhum navio se arrisca nesse lugar. Um corredor de dez leguas de comprido, entre duas muralhas de tres mil pés de altura: eis a entrada. Esse estreito tem cotovellos e angulos como todas as ruas do mar, que nunca são rectas pois que são feitas pela torção da vaga.

No Lyse-Fiord, a vaga é quasi sempre tranquilla; o céo é sereno; lugar terrivel. Onde está o vento? Não está em cima. Onde está o trovão? Não está no céo. O vento está debaixo do mar; o trovão está debaixo da rocha.

De tempos a tempos ha um estremecimento debaixo da agua. Em certas horas, sem que haja uma nuvem sequer no ar, no meio da altura do penedio vertical, a mil ou mil e quinhentos pés acima das vagas, mais do lado do sul, que do norte, o rochedo rebôa subitamente, rompe dahi um relampago, que fende o ar, e recolhe-se logo, como esses brinquedos que se alongam e contrahem nas mãos das crianças; tem contracções e ampliações esse relampago, fere a rocha opposta, entra outra vez, torna apparecer, recomeça, multiplica as suas cabeças e as as linguas, erriça-se, fere onde póde, recomeça ainda, até que se apaga sinistramente. Fogem os bandos de passaros. Nada é tão mysterioso como essa artilharia sahindo do invisivel. Um rochedo attaca outro. Fulminam entre si os cachopos. É uma guerra que nada tem com os homens. Odio de dous penedos no golphão.

No Lyse-Fiord o vento torna-se effluvio, a rocha desempenha as funcções de nuvem, e o trovão tem arrojos de volcão. É uma pilha aquelle estranho estreito; tem por elementos as suas duas fllas de rochas.


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