LIVRO TERCEIRO

Mess Lethierry tinha o coração nas mãos; mãos largas e coração grande. O defeito delle era a admiravel qualidade da confiança. Tinha uma maneira especial de contrahir uma obrigação; era solemne:Dou a minha palavra de honra a Deos.Dito isto, cumpria a promessa. Acreditava em Deos, e nada mais. Ia poucas vezes á igreja, e isso mesmo por cortezia. No mar, era supersticioso.

Nunca houve, porém, tempestade que o fizesse recuar; é que elle era pouco accessivel á contradicção. Não a tolerava, nem num homem, nem no occeano. Queria ser obedecido; tanto peor para o mar se resistia; tinha de luctar com elle. Mess Lethierry não cedia nunca. Vaga que se impinasse, visinho que contendesse, nada lhe detinha a mão. O que dizia estava dito, o que planeava estava feito. Não se curvava, nem diante de uma objecção, nem diante de uma tempestade.Não, para elle, era palavra que não existia, nem na bocca de um homem, nem no ribombo de uma nuvem. Passava adiante. Não consentia que se lhe recusasse nada. Dahi vinha a sua pertinacia na vida e a sua intrepidez no occeano.

Era elle proprio quem temperava a sua sopa de peixe; sabia que porção de sal, pimenta e hervas era preciso, e gostava tanto de fazel-a como de comel-a.

Creatura que um riso transfigura, e um casaco embrutece, assemelhando-se, com os cabellos soltos, a Jean Bart, e, com chapéo redondo, a Jocrisse, acanhado na cidade, estranho e temivel no mar, espadua de carregador, sem imprecações, quasi sem colera, voz doce e meiga que o porta-voz transforma em trovão, camponio que lêo a Encyclopedia, guernesiano que vio a revolução, ignorante, instruido, ermo de carolice, dado ás visões, mais fé na Dama Branca que na Santa Virgem, logica de ventoinha, vontade de Christovão Colombo, um tanto de touro e um tanto de criança, nariz quasi rombo, faces grossas, boca com todos os dentes, rosto enrugado, cara que parece ter sido feita pelo mar, beijada pelos ventos durante quarenta annos, ar de tempestade na fronte, carnação de rocha em pleno mar; põe agora um olhar bom neste rosto agreste, e terás mess Lethierry.

Mess Lethierry tinha dous amores: Durande e Deruchette.

O corpo humano é talvez uma simples apparencia, escondendo a nossa realidade, e condensando-se sobre a nossa luz ou sobre a nossa sombra. A realidade é a alma. A bem dizer, o rosto é uma mascara. O verdadeiro homem é o que está debaixo do homem. Mais de uma sorpreza haveria se se podesse vel-o agachado e escondido debaixo da illusão que se chama carne. O erro commum é ver no ente exterior um ente real. Tal creaturinha, por exemplo, se podessemos vel-a como realmente é, em vez de moça, mostrar-se-hia passaro.

Passaro com fórma de moça, que ha ahi de mais delicado? Imagina que a tens em casa. Suppõe que é Deruchette. Deliciosa creatura! Dá vontade de dizer: Bom dia, mademoiselle arveloa. Não se lhe veem as azas, mas ouve-se-lhe o gorgeio. Canta ás vezes. Na tagarellice, está abaixo do homem; no canto, está acima delle. Tem mysterios aquelle canto; uma virgem é o involucro de um anjo. Feita a mulher, desapparece o anjo; volta, porém, depois, trazendo uma alma de criança á mãe. Esperando a vida, aquella que hade ser mãe algum dia, conserva-se muito tempo criança, a menina persiste na moça; é uma calhandra. Pensa-se ao vel-a: que boa que ella é em não bater as azes para ir-se embora!

A meiga e familiar creatura acommoda-se em casa, de ramo em ramo, isto é, de quarto em quarto, entra, sahe, acerca-se, afasta-se, alisa as pennas ou pentea os cabellos, faz toda a especie de rumores delicados, murmura um não sei que de inneffavel aos teus ouvidos. Quando ella interroga, responde-se-lhe; interrogada, gorgeia. Tagarella-se com ella. A tagarellice serve para descançar de fallar. Ha uma porção celeste nessa menina. É um pensamento azul misturado ao teu pensamento negro. Alegras-te por vel-a tão esquiva, tão ligeira, tão fugitiva; agradeces-lhe a bondade de não ser invisivel, ella, que poderia, creio eu, ser impalpavel. Neste mundo o lindo, é o necessario. Ha mui poucas funcções tão importantes como esta de ser encantadora. Que desespero na floresta se não houvesse o colibri! Exhalar alegrias, irradiar venturas, possuir no meio das cousas sombrias unia transudação de luz, ser o doirado do destino, a harmonia, a gentilesa, a graça, é favorecer-te. A belleza basta ser bella para fazer bem. Ha creatura que tem comsigo a magia de fascinar tudo quanto a rodea; ás vezes nem ella mesma o sabe, e é quando o prestigio é mais poderoso; a sua presença illumina, o seu contacto aquece; se ella passa, ficas contente; se pára, és feliz; contemplal-a é viver; é a aurora com figura humana; não faz nada, nada que não seja estar presente, e é quanto basta para edenisar o lar domestico; de todos os poros sahe-lhe um paraiso; é um extase que ella distribue aos outros, sem mais trabalho que o de respirar ao pé delles. Ter um sorriso que,—ninguem sabe a razão,—diminue o peso da cadêa enorme arrastada em commum por todos os viventes, que queres que te diga? é divino. Deruchette tinha esse sorriso. Mais ainda, era o proprio sorriso. Ha alguma cousa mais parecida que o nosso rosto, é a nossa physionomia; e outra mais parecida que a nossa physionomia, é o nosso sorriso. Deruchette risonha, era Deruchette.

É particularmente seductor o sangue de Jersey e de Guernesey. As mulheres, as raparigas sobretudo, teem uma belleza florida e candida. É a combinação da alvura saxonia com a frescura normanda. Faces rosadas e olhos azues. Falta-lhes brilho nos olhos. A educação ingleza amortece-os. Serão irresistiveis aquelles olhos limpidos no dia em que tiverem a profundesa do olhar parisiense. A parisiense ainda não se fez ingleza, felizmente. Deruchette não era parisiense, mas tambem não era guernesiana. Nascera em Saint-Pierre Port, mas mess Lethierry foi quem a educou. Educou-a para ser mimosa, a menina o era.

Deruchette tinha o olhar indolente, e aggressivo sem que o soubesse. Não conhecia talvez o sentido da palavra amor, e fazia com que a gente se apaixonasse por ella. Mas era sem má intenção. Deruchette nem pensava em casamento. O velho fidalgo emigrado que fôra residir em Saint-Sampson, dizia:Esta rapariga seduz a matar.

Deruchette tinha as mais lindas mãosinhas deste mundo, e pés iguaes ás mãos,quatro pésinhos de mosca, dizia mess Lethierry. Tinha em si a bondade e a doçura: o tio Lethierry era toda a sua familia e riqueza: o trabalho della, era deixar-se viver; tinha por talento algumas canções, por sciencia a belleza, por espirito a innocencia, por coração a ignorancia; tinha a graciosa indolencia creoula, mesclada de travessura e de vivesa, a jovialidade traquinas da infancia com um pendor á melancolia, vestuarios um pouco insulares, elegantes, mas incorrectos, chapéos de flôres todo o anno, fronte ingenua, pescoço flexivel e tentador, cabellos castanhos, pelle branca com alguns toques arruivados no verão, bocca grande e sã, e nessa bocca o adoravel e perigoso explendor do sorriso. Eis o que era Deruchette.

Algumas vezes, á noite, após o pôr o sol, no momento em que a noite se mistura com o mar, á hora em que o crepusculo dá uma especie de terror as vagas, via-se entrar na barra de Saint-Sampson, ao tumulto sinistro das ondas uma certa massa informe, uma cousa monstruosa que silvava e cuspia, que roncava como uma besta e fumegava como um volcão, uma especie de hydra babando espuma e arrastando um nevoeiro, atirando-se sobre a cidade com um horrivel movimento de barbatanas e uma goela donde as chammas irrompiam. Era Durande.

Era uma prodigiosa novidade o apparecimento de um navio a vapor nas aguas da Mancha em 182... Toda a costa normanda esteve por muito tempo assombrada. Hoje dez ou doze vapores cruzam-se em sentido inverso no horisonte do mar, sem attrahir os olhos de ninguem! Quando muito, algum observador especialista distingue pela côr da fumaça, se o carvão que consome o navio é de Galles ou de Newcastle. Passam; é quanto basta. Se partem:—Boa viagem!se chegam:—Welcome!

Não era tão grande a calma a respeito de taes invenções no primeiro quarto do nosso seculo, e estas machinas fumegantes eram particularmente suspeitas entre os insulares da Mancha. Neste archipelago puritano, onde a rainha de Inglaterra foi censurada por violar a Biblia[1] narcotisando-se para dar á luz, o navio a vapor teve como primeiro comprimento, o ser baptisado com este nome:Devil Boat—Navio-Diabo.

A esses bons pescadores de então, outr'ora catholicos, agora calvinistas, e sempre beatos, pareceu-lhes aquillo o inferno fluctuante. Um pregador da terra tratou da questão:—Temos nós o direito de fazer trabalhar juntos o fogo e a agua que Deos separou?[2] Aquelle animal de ferro e fogo não era a imagem de Leviathan? não era isso refazer o homem, a seu modo, o primitivo cahos? Não é a primeira vez que acontece qualificar a ascensão do progresso de retrogradação ao cahos.

Idéa louca, erro grosseiro, absurdo: tal foi o veredicto da academia das sciencias consultada por Napoleão no começo deste seculo, acerca do vapor. Os pescadores de Saint-Sampson teem desculpa de se acharem, em materia scientifica, ao nivel dos geometras de Paris; e em materia religiosa, uma pequena ilha como Guernesey não tem obrigação de ser mais illustrada que um grande continente como a America. Em 1807 quando o primeiro navio de Fulton, patrocinado por Livingston, provido da machina de Wat mandada da Inglaterra, e tripulado, além da equipagem, por dous francezes sómente, André Michaux e outro, fez a sua primeira viagem de New-York a Albany, deu-se o caso de acontecer isso no dia 17 de Agosto. Esta coincidencia deu origem a que o methodismo tomasse a palavra, e em todas as capellas os pregadores amaldiçoaram a machina, declarando que o numero dezesete era o total das dez antenas e das sete cabeças da besta do Apocalipse. Na America invocava-se contra o vapor a besta do Apocalipse; na Europa a besta do Genesis. Nisto consistia toda a differença.

Os sabios havião rejeitado o vapor como impossivel; os padres, a seu turno, rejeitavão-n'o como impio. A sciencia condemnava; a religião anathematisava. Fulton era uma variante de Lucifer. Os habitantes simplorios das costas e dos campos adheriam á reprovação pelo incommodo que lhes causava a novidade. Na presença do vapor, o ponto de vista religioso era este:—a agua e o fogo são um divorcio. Este divorcio é ordenado por Deos. Não se deve desunir o que Deos unio, nem unir o que elle desunio. O ponto de vista do camponez era:—isto mette-me medo.

Para commetter, naquella época remota, a empreza de uma navegação a vapor entre Guernesey e S. Malo, nada menos era preciso que um homem como mess Lethierry. Só elle podia concebê-la na qualidade de livre pensador, e realiza-la na qualidade de marinheiro atrevido. O seueufrancez concebeu a idéa; o seueuinglez executou-a.

Em que occasião? Digamo-lo.

[1]Genesis, cap. 3.°, v. 16: Parirás com dôr.

[2]Genesis, cap. 1.°, v. 4.

Quarenta annos antes da época em que se passam os factos que narramos, havia em um arrabalde de Paris, entre aFosse-aux-Loupse aTombe-Issoire, um albergue suspeito. Era uma casinha isolada e baixa. Morava ahi com a mulher e o filho, uma especie de burguez bandido, antigo escrevente de tabellião no Chatelet, e ao depois ladrão descarado. Já havia figurado no tribunal criminal. O appellido da familia era Rantaine. No referido pardieiro, em cima de uma commoda de mogno, viam-se duas chicaras de porcelana pintada: em uma dellas lia-se em letras douradas o seguinte distico—lembrança de amizade; na outra—signal de estima.A criança vivia ali na lama de parceria com o crime. Como o pae e a mãe pertenciam á burguezia mediana, o menino aprendia a ler: educavam-no. A mãe pallida, quasi esfarrapada, dava machinalmente—educação—a seu filho: ensinava-o a soletrar; e interrompia o trabalho, ora para ajudar o marido em alguma emboscada, ora para entregar-se ao primeiro viandante. Durante esse tempo aCruz de Jesus, aberta no lugar em que a deixavam, ficava sobre a mesa, e ao pé do livro o menino pensativo.

O pae e a mãe presos em algum flagrante delicto, desappareceram na noite penal. A criança desappareceu tambem.

Lethierry, em suas excursões, encontrou um aventureiro como elle, livrou-o, não se sabe de que aperto, prestou-lhe serviços, affeiçoou-se-lhe, chamou-o a si, levou-o para Guernesey, achou-o intelligente para a navegação costeira, e deu-lhe sociedade. Era o pequeno Rantaine feito homem.

Rantaine, como Lethierry, tinha uma cabeça robusta, espaduas largas e possantes, e quadris de Hercules Farnese. Lethierry e elle tinham o mesmo ar e a mesma apparencia; Rantaine era mais alto. Quem os via, pelas costas, passear ao lado um do outro, dizia: lá estão os dous irmãos. De frente, o caso era diverso. Havia tanto de franco em Lethierry, como de reservado em Rantaine. Rantaine era circumspecto. Rantaine era esgrimista, tocava harmonica, espivitava uma vela com uma balla, a vinte passos, dava um soco magnifico, recitava versos daHenriada, e adivinhava os sonhos. Sabia de cór osTumulos de S. Diniz, por Treneuil; dizia ter tido amizade com o sultão de Calicut—a quem os portuguezes chamam Camorim. Se se podesse folhear a carteira de lembranças que andava sempre no bolso delle, ter-se-hia encontrado entre outras notas, algumas do genero desta:—em Lyão, n'uma das frestas da parede do calabouço de S. José, ha uma lima escondida.Fallava com uma lentidão discreta. Dizia-se filho de um cavalheiro de S. Luiz. A sua roupa era toda misturada e marcada com iniciaes differentes. Ninguem mais susceptivel em cousas de honra. Batia-se e matava.

A força servindo de envolucro á astucia, tal era Rantaine.

A belleza de um sôco applicado por elle, n'uma feira, sobre umaCabeza de moro, conquistara-lhe outr'ora a sympathia de Lethierry.

Suas aventuras eram completamente ignoradas em Guernesey. Variavam muito. Se os destinos teem um traje, o destino de Rantaine vestia á moda de arlequim. Tinha visto o mundo; tinha trabalhado muito. Era um circumnavegador. Teve innumeraveis officios. Foi cozinheiro em Madagascar, creador de passaros em Sumatra, general em Honolulu, jornalista religioso nas ilhas de Gallapagos, poeta em Oomrawuttee e pedreiro livre no Haiti. Neste ultimo emprego, pronunciara noGrande Goaveuma oração funebre de que os jornaes locaes conservaram este fragmento: ... «Adeus, pois, bella alma! na abobada azulada dos céos onde agora desferes o vôo, encontrarás sem duvida o bom padre Leandro Crameau doPequeno Goave.Dize-lhe que, graças a dez annnos de esforços gloriosos, terminaste a igreja deAnse-à-Veau!Adeos! genio transcendente, maçon modelo!» A mascara de pedreiro-livre não lhe impedia, como se vê, trazer o nariz catholico. A primeira conciliava-o com os homens do progresso; o segundo com os homens da ordem. Apregoava-se branco de raça pura, odiava os negros: apezar disso teria admirado a Soluque. Em Bordeaux, em 1815, foi elleverdet.Naquella época a fumaça do seu realismo sahia-lhe pela cabeça fora, na forma de um immenso penacho branco. Passava a vida a fazer eclipses, apparecendo, desapparecendo e tornando a apparecer. Era um velhaco a gyrar como uma rodinha de fogo. Sabio o turco: em vez deguilhotinadodizia:neboissé.Fora escravo em Tripoli, na casa de um thaleb e ahi aprendera o turco á força de bengaladas; tinha por obrigação ir á noite á porta das mesquitas ler em alta voz diante dos fieis o Alkorão, escripto em pranchas de madeira ou em omoplatas de camello. Provavelmente era renegado.

Era capaz de tudo e mais alguma cousa.

Ria a gargalhadas e enrugava as sobrancelhas, a um tempo. Dizia:Em politica, só estimo as pessoas inaccessiveis ás influencias.Dizia:Sou pelos costumes.Dizia:É preciso repor a piramide na base.Era mais alegre e cordial que outra cousa. A forma da bocca desmentia-lhe o sentido das palavras. As suas narinas eram antes ventas de animal. Tinha no canto dos olhos uma encrusilhada de rugas onde toda a sorte de pensamentos obscuros davam entrevista. Ahi é que se podia decifrar o segredo da physionomia delle. Assemelhavam-se as taes rugas a uma garra de abutre. O craneo era chato em cima e largo nas temporas. A orelha disforme e embrenhada de cabellos parecia dizer: não falles ao animal que está aqui neste antro.

Rantaine desappareceu um dia de Guernesey.

O socio de Lethierryraspou-sedeixando vasia a caixa da sociedade.

Havia dinheiro delle na caixa, é certo; mas havia tambem cincoenta mil francos de Lethierry.

Lethierry, ganhara uns cem mil francos em quarenta annos de industria e de probidade, no seu officio de navegador costeiro e carpinteiro de navio; Rantaine levou-lhe metade.

Lethierry, meio arruinado, não cedeu, e tratou immediatamente de levantar-se. Aos homens de boa tempera arruina-se a fortuna, não a coragem. Começava-se então a fallar do vapor. Lethierry teve a idéa de tentar a machina de Fulton, tão contestada, e ligar por meio de um vapor o archipelago normando á França. Jogou tudo nessa idéa. Applicou-lhe os restos da fortuna. Seis mezes depois da fuga de Rantaine a gente de Saint-Sampson vio estupefacta sahir daquelle porto um navio deitando fumo, e produzindo o effeito de um incendio no mar: foi o primeiro vapor que sulcou as aguas da Mancha.

Aquelle navio, alcunhadoGaleola de Lethierry, pelo desdem e odios de todos, foi annunciado para fazer a carreira de Guernesey a Saint-Malo.

Comprehende-se que a cousa fosse muito mal recebida. Todos os proprietarios de navios de carreira entre a ilha guernesiana e a costa francesa clamaram immediatamente. Denunciaram aquelle attentado feito ás Santas Escripturas e ao monopolio. Alguns templos fulminaram. Um reverendo, por nome Elihu, chamou ao vapor umalibertinagem.O barco á vela foi declarado orthodoxo. Vio-se distinctamente que eram pontas do diabo as pontas dos bois que o vapor trazia e desembarcava. Durou o protesto um bom par de dias. Mas a pouco e pouco foram vendo que os taes bois chegavam menos estafados, e vendiam-se melhor, por ser a carne mais tenra; que tambem para os homens eram menores os riscos do mar; que a passagem, menos dispendiosa, era segura e mais curta; que eram fixas as horas da sahida e da chegada; que o peixe, viajando mais depressa, chegava mais fresco, e que se podia levar aos mercados francezes as sobras das grandes pescas, tão frequentes em Guernesey; que a manteiga das admiraveis vaccas de Guernesey fazia mais rapidamente o trajecto no Devil-Boat que nas chalupas á vela, e não perdia na qualidade, de maneira que affluiam as encommendas de Dinan, de Saint-Brieuc e de Rennes; finalmente que, graças ao que se chamavaGaleota de Lethierry, havia segurança de viagem, regularidade de communicação, trafego facil e prompto, augmento de circulação, multiplicação de mercados, extensão de commercio; em summa que era preciso approveitar o Devil-Boat que violava a Biblia e enriquecia a ilha. Alguns espiritos fortes arriscaram-se a approvar o vapor com certa precaução. O Sr. Landoys, o escrevente, votou ao navio a sua estima. Era imparcialidade, porque elle não gostava de Lethierry: primeiro, porque, Lethierry eramess, e Landoys era apenassenhor; depois, porque, embora escrevente em Saint-Pierre Port, Landoys era parochiano de Saint-Sampson; ora, na parochia, só havia dous homens sem preconceitos, Lethierry e Landoys; o menos que podia acontecer era que um detestasse o outro. A bordo do mesmo navio, distanceam-se duas creaturas.

Comtudo o Sr. Landoys teve o cavalherismo de approvar o vapor. Outras pessoas o imitaram. Insensivelmente o facto foi subindo; os factos são como as marés; e com o tempo, com o successo continuado e crescente, com a evidencia do serviço prestado, o augmento da commodidade publica, lá veio um dia em que, á excepção de alguns homens de juizo, toda a gente admirou a Galeota de Lethierry.

Hoje seria menos admirada. Aquelle vapor de ha quarenta annos faria sorrir os nossos actuaes constructores. Era uma maravilha disforme, um prodigio rachitico.

Entre os nossos grandes paquetes transatlanticos de hoje e o navio de rodas e fogo que Dionysio Papin fez manobrar na Fulde em 1707, não ha menor distancia que entre a náoMontebello, de 200 pés de comprimento, 50 de largura, com uma verga de 115 pés, arqueando 2,000 toneladas, levando 1,100 homens, 120 peças, 10,000 balas e 160 volumes de metralha, deitando 3,300 litros de ferro por banda e desenrolando ao vento em viagem, 5,600 metros de lona, e o drouwn dinamarquez do 2.° seculo, que se achou cheio de pedras, arcos, e clavas, nos atoleiros de Wester-Satrup, e depositado na municipalidade de Flensburgo.

Cem annos justos, 1707—1807, separam o primeiro barco de Papin do primeiro navio de Fulton. A Galeota de Lethierry era de certo um progresso sobre aquelles dous esboços, mas era esboço tambem. Nem por isso deixava de ser uma obra prima. Todo embryão de sciencia tem este duplo aspecto; monstro, como fecto; maravilha, como germen.

A Galeota de Lethierry não era mastreada no ponto velico, e não era isso defeito, porque é uma das leis da construcção naval; demais, sendo o fogo o propulsor do navio, o velame era simplesmente accessorio; um navio de rodas é quasi insensivel ao velame que se lhe põe. A Galeota era demasiado curta e arredondada; grande bochecha e largos quadris; Lethierry não teve a ousadia de faze-la mais ligeira. A Galeota tinha alguns dos inconvenientes e das qualidades dapança: arfava pouco, mas rangia muito. A caixa das rodas era muito alta. A viga da coberta era maior de que comportava o comprimento. A machina, que era massuda, atravancava o navio, e para torna-lo capaz de um grande carregamento, foi preciso levantar muito a amurada, o que deu á Galeota, mais ou menos, o defeito das náos de 74, que, só arrasando-as, podem navegar e combater.

Sendo curta, devia gyrar depressa, visto que o tempo empregado em uma evolução está na razão do comprimento do navio; mas o peso tirava-lhe a vantagem que lhe provinha de ser curta. O pontal era muito largo, o que lhe atrazava a marcha, porque a resistencia da agua é proporcional á maior secção immergida e á velocidade do navio. A proa era vertical, o que não seria defeito hoje, mas naquelle tempo era uso inclina-la uns quarenta e cinco gráos. Todas as curvas do casco estavam bem emparelhadas, mas não eram sufficientemente longas para a obliquidade e parallelismo com o lume da agua, que deve ser rechassada lateralmente. No máo tempo, callava muita agua, ora na proa, ora na popa, o que mostrava ter vicio de construcção no centro de gravidade. Não estando o carregamento no lugar proprio, por causa do peso da machina, acontecia que o centro de gravidade passava ás vezes para traz do mastro grande, e então era preciso contar só com o vapor, e desconfiar da vela grande, porque o effeito da vela grande nesses casos fazia antes arribar que sustentar o vento. O recurso era, ao approximar-se do vento, soltar a grande escota; deste modo o vento fixava-se na proa, pela amurada, e a vela grande fazia o effeito de uma vela de popa. A manobra era difficil. O leme era o leme antigo, não de roda como hoje, mas de cana, voltando sobre os eixos firmados no cadaste, e movido por uma trave horisontal que passava por cima da cava da culatra.

Tinha duas falúas suspensas. O navio era de quatro ancoras, a ancora grande, a segunda ancora, que é a que trabalha,working-anchor, e duas ancoras de amarra. Essas quatro ancoras, atadas por correntes, eram manobradas, segundo as occasiões, pelo grande cabrestante da popa e o pequeno cabrestante da proa. Tendo apenas duas ancoras de amarra, uma a estibordo, outra a bombordo, o navio não podia ancorar em cruz, o que o desarmava quando sopravam certos ventos. Mas neste caso podia usar da segunda ancora. As boias eram normaes, e construidas da maneira a supportar um cabo de ancora, ficando sempre á flôr da agua. A chalupa tinha as dimensões uteis. A novidade do navio é que era, em parte, apparelhado com correntes; o que não lhe diminuia a mobilidade nem a tenção das manobras.

A mastreação, posto que secundaria, não era incorrecta; era facil o manejo dos ovens. As peças de madeira eram solidas, mas grosseiras, pois que o vapor não exige madeiras tão delicadas como exigem as velas. Tinha aquelle navio uma velocidade de duas leguas por hora. Quando pannejava affeiçoava-se bem ao vento. A Galeota de Lethierry supportava bem o mar, mas não tinha boa quilha para dividir o liquido, nem se podia dizer que fosse airosa. Via-se que em occasião de perigo, cachopo ou tromba, não poderia ser bem manobrada. Tinha o ranger de uma cousa informe. Fazia na agua o ruido que fazem as solas novas.

Era navio de commercio e não de guerra, e por isso mais exclusivamente disposto para a arrumação das cargas. Admittia poucos passageiros. O transporte do gado tornava difficil e especial a arrumação das cargas. Punham-se os bois no porão, o que complicava muito. Hoje os bois ficão no convés. As caixas das rodas do Devil-Boat Lethierry eram pintadas de branco, o casco até o lume d'agua de vermelho, e o resto de preto, segundo o uso, assaz feio, deste seculo.

Vasio calava sete pés; carregado, quatorze.

Quanto á machina era poderosa. Tinha a força de um cavallo por tres toneladas, o que é quasi a força de um rebocador. As rodas estavam bem collocadas, um pouco adiante do centro de gravidade do navio. A machina tinha a pressão maxima de duas athmospheras. Gastava muito carvão. O ponto de apoio era instavel, mas remediava-se como ainda hoje se faz, por meio de um duplo apparelho alternado de duas manivelas fixas nas extremidades da arvore de rotação, e disposta de maneira que uma estivesse no ponto forte quando a outra estava no ponto inerte: Toda a machina repousava em uma só placa fundida; de modo que mesmo em caso de grande avaria, nenhum lanço do mar lhe tirava o equilibrio, e o casco disforme não podia deslocar a machina. Para torna-la ainda mais solida, puzeram a redouça principal perto do cylindro, o que transportava do meio á extremidade o centro da oscilação do pendulo. Inventaram-se depois os cylindros oscilantes que suprimem a redouça antiga; mas naquelle tempo parecia que o systema usado era a ultima palavra da mecanica.

A caldeira era dividida, e tinha a bomba competente. As rodas eram grandes, o que diminuia a perda de força, e o cano alto, o que augmentava a extracção da fornalha; mas o tamanho das rodas dava azo ás vagas, e a altura do cano dava azo ao vento. Raios de páo, fateixas de ferro, cubos de metal; eis o que eram as rodas bem construidas, e (o que admira) podendo ser desmontadas. Haviam sempre tres rodisios mergulhados; a velocidade, do centro da roda não passava de um sexto da velocidade do navio, era esse o defeito. Além disso, a trave da manivela era muito comprida, e o vapor era distribuido no cylindro com demasiado atrito. Naquelle tempo a machina parecia e era admiravel.

Foi ella feita em França, nas forjas de Bercy. Mess Lethierry delineou-a; o machinista que a construio, morreu; de modo que aquella machina era unica e impossivel de ser substituida. Existia o desenhista, mas faltava o constructor.

Custou a machina quarenta mil francos.

Lethierry construio a Galeota ua grande estiva coberta que fica ao lado da primeira torre entre Saint-Pierre Port e Saint-Sampson. Empregou nessa construcção tudo o que sabia em carpintaria do mar, e mostrou os seus talentos na construcção do costado, cujas costuras eram estreitas e iguaes, untadas desarangousti, betume da India, melhor que alcatrão. O forro estava bem pregado. Para remediar a rotundidade do casco, ajustou elle um botaló ao gurupés, o que lhe permittia accrescentar á cevadeira uma cevadeira falsa. No dia do lançamento ao mar, disse Lethierry: estou na agua! E realmente a Galeota foi bem succedida.

Por acaso ou de proposito, a Galeota cahio ao mar no dia 14 de Julho. Nesse dia Lethierry, de pé sobre o convés, entre as duas caixas das rodas, olhou fixamente para o mar e exclamou: Agora tu! os parisienses tomaram a Bastilha; agora tomamos-te nós!

A Galeota de Lethierry fazia uma vez por semana a viagem de Guernesey a Saint-Malo. Partia na quinta-feira e voltava na sexta á tarde, vespera do mercado que era no sabbado. Era uma massa de madeira mais volumosa que as maiores chalupas costeiras do archipelago, e, sendo a sua capacidade na razão das dimensões, uma só das suas viagens valia por quatro viagens de um cuter ordinario. Tirava por isso grandes lucros. A reputação de um navio depende da sua arrumação de cargas, e Lethierry era admiravel neste mister. Quando ficou impossibilitado de trabalhar no mar, ensinou um marinheiro para substitui-lo. No fim de dous annos, o vapor dava liquidas umas setecentas e cinco libras sterlinas por anno. A libra sterlina de Guernesey vale vinte e quatro francos, a de Inglaterra vinte e cinco, e a de Jersey vinte e seis. Estas phantasmagorias são menos phantasmagoricas do que parecem; os bancos é que lucram com ellas.

Prosperava a Galeota. Mess Lethierry via chegar o dia em que elle seriagentleman.Em Guernesey não se pode ser gentleman da noite para o dia. Ha uma escala entre o homem e o gentleman; o primeiro degráo é o nome simplesmente, Pedro, supponhamos; depois, visinho Pedro; terceiro degráo, pai Pedro; quarto degráo, senhor (sieur) Pedro; quinto degráo, mess Pedro; ultimo degráo, gentleman (monsieur) Pedro.

Esta escada, que sahe da terra, interna-se pelo céo acima. Entra nella toda a hierarchia ingleza. Eis os degráos mais luminosos: acima de senhor (gentleman) ha esq., (escudeiro), acima de esq., o cavalheiro (sirvitalicio) depois o baronet (sirhereditario), depois o lord,lairdna Escocia, depois o barão, depois o visconde, depois o conde, (earlna Inglaterra,jarlna Noruega), depois o marquez, depois o duque, depois o par de Inglaterra, depois o principe de sangue real, depois o rei. Esta escada sobe do povo á burguesia, da burguesia ao baronato, do baronato ao pariato, do pariato a realesa.

Graças aos seus triumphos, ao vapor, ao Navio-Diabo, mess Lethierry já era alguem. Para construir a Galeota teve de pedir dinheiro emprestado; endividou-se em Bremen, e em Saint-Malo, mas ia amortisando a divida todos os annos.

Lethierry comprou fiado, na entrada do porto de Saint-Sampson, uma linda casa de pedra e cal, novasinha, entre o mar e o jardim; no angulo estava este nome:Bravées.A casa, cuja frente fazia parte da muralha do porto, era notavel por duas fileiras de janellas, ao norte, do lado de um cercado cheio de flôres, ao sul, do lado do mar; de modo que era uma casa com duas fachadas, dando uma para as tempestades, outra para as rosas.

As fachadas pareciam feitas para os dous moradores: mess Lethierry e miss Deruchette.

Era popular a casa de Lethierry, porque elle proprio acabou sendo popular. A popularidade nascia em parte da bondade, da educação e da coragem delle, parte dos homens que elle salvara de perigos imminentes, em grande parte do bom exito da Galeota, e tambem por ter dado ao porto de Saint-Sampson, o privilegio das partidas e chegadas do vapor. Vendo que decididamente o Devil-Boat era um bom negocio, Saint-Pierre, capital, reclamou o vapor para si, mas Lethierry conservou-o para Saint-Sampson. Era a sua cidade natal. Daqui é que eu fui lançado ao mar, dizia elle. Tinha por isso grande popularidade local.

A qualidade de proprietario e contribuinte fazia delle o que em Guernesey se chama umunhabitant.Deram-lhe um cargo. O pobre marinheiro galgou cinco degráos, dos seis que tem a ordem social guernesiana; era mess; estava quasigentleman, e quem sabe mesmo se não passaria dahi? Quem sabe se algum dia não se havia de ler no almanack de Guernesey, no capituloGentry and Nobilityesta inscripção inaudita e soberba:Lethierry, esq.

Mess Lethierry, porém, desdenhava ou antes ignorava o que era a vaidade das cousas. Sentia-se util, era a satisfação delle; ser popular commovia-o menos que ser necessario. Já o dissemos, tinha dous amores, e por consequencia, duas ambições: Durande e Deruchette.

Fosse como fosse, Lethierry arriscou-se na loteria do mar, e tirou a sorte grande.

A sorte grande, era Durande navegando.

Depois de crear o vapor, Lethierry baptisou-o, deu-lhe o nome deDurande.Não lhe daremos daqui em diante se não este nome. Seja-nos licito igualmente, qualquer que seja o uso typographico, escreverDurandesem ser em gripho, conformando-nos nisto ao pensamento de mess Lethierry para quem Durande era quasi uma pessoa.

Durande e Deruchette é o mesmo nome. Deruchette é o diminutivo. É muito usado esse diminutivo no oeste da França.

No campo, os santos têm muitas vezes o seu nome com todos os diminutivos e augmentativos. Parece que ha muitas pessoas e é só uma. Esta identidade de padroeiros e padroeiras com differentes nomes, não é rara, Lise, Lisette, Lisa, Elisa, Isabel, Lisbeth, Betsy, tudo isto é Elisabeth. É provavel que Mahout, Machut, Malo e Magloire sejam o mesmo santo. Mas não fazemos cabedal disso.

Santa Durande é uma santa de Angoumois e da Charente. Será correcta? Isso é lá com os bolandistas. Correcta ou não, esta santa tem muitas igrejas.

Estando em Rochefort, e sendo ainda rapaz, Lethierry tomou conhecimento com aquella santa, provavelmente na pessoa de alguma formosa Charenteza, talvez a rapariga das unhas bonitas. Restou-lhe recordação bastante para dar aquelle nome ás duas cousas que elle amava; Durande á Galeota, Deruchette á menina.

Lethierry era pae de uma e tio da outra.

Deruchette era filha de um irmão que elle teve. Morreram-lhe os paes. Lethierry adoptou a criança, e substituio o pae e a mãe.

Deruchette não era sómente sobrinha, era tambem afilhada de Lethierry. Foi elle quem a levou á pia, dando-lhe por padroeira Santa Durande, e por nome Deruchette.

Deruchette, já o dissemos, nasceu em Saint-Pierre Port. Estava inscripta no registro da parochia.

Emquanto a sobrinha foi criança e o tio pobre, ninguem se importou com o nomeDeruchette; mas quando a mocinha chegou a miss e o marinheiro a gentleman,Deruchettecomeçou a desagradar a todos. Perguntavam a mess Lethierry:

—Porque lhe dá esse nome?

—É um nome assim, respondia elle. Tentaram mudar-lhe o nome. Lethierry não quiz.

Uma senhora da alta sociedade de Saint-Sampson, mulher de um ferreiro abastado, e que já não trabalhava, disse um dia a mess Lethierry:

—Daqui em diante chamareiNancyá sua filha.

—Porque não lhe chamará Lons-le-Saulnier? disse elle.

A bella senhora não desistio, e no dia seguinte disse-lhe:

—Decididamente não queremos que ella se chame Deruchette. Achei um lindo nome:Marianne.

—Lindo nome realmente, disse mess Lethierry, mas composto de dous animaes bem ruins, ummari(marido) e umane(asno).

Lethierry manteve o nome de Deruchette.

Enganar-se-hia aquelle que concluisse pelas ultimas palavras de Lethierry que elle não queria casar a sobrinha. Queria casa-la, de certo, mas ao seu modo. Queria um marido da sua tempera, muito trabalhador, de maneira que Deruchette não fizesse nada. Gostava das mãos tostadas do homem e das mãos alvas da mulher. Para que Deruchette não estragasse as lindas mãos que tinha, dava-lhe occupações elegantes, mestre de musica, piano, bibliotheca e bem assim alguma linha e agulhas em uma cestinha de costura.

Deruchette lia mais do que cosia, cantava e tocava mais do que lia. Mess Lethierry queria isso mesmo. Não lhe pedia nada mais que o encanto a fascinação. Educou-a mais para ser flôr do que para ser mulher. Quem tiver estudado os marinheiros ha de comprehender isto. As rudezas amam as delicadezas. Para que a sobrinha realizasse o ideal do tio, era preciso que fosse opulenta. Era isso o que mess Lethierry comprehendia perfeitamente. A machina do mar trabalhava com esse fim. Durande devia dotar Deruchette.

Deruchette occupava o mais lindo quarto da casa, com duas janellas, mobilia de mogno, cama de cortinas riscadas de verde e branco, tendo vista para o jardim e para a coluna onde está o castello do Valle. Do outro lado desta collina é que estava o tutú da rua.

Deruchette tinha no quarto a musica e o piano. Acompanhava-se ao piano cantando a canção da sua preferencia, a melancolica melodia escossezaBonny Dundee; a noite encerra-se toda naquella aria, a aurora encerrava-se toda naquella voz; isto produzia insolito contraste. Dizia-se: miss Deruchette está ao piano; e os que passavam ao sopé da collina paravam algumas vezes diante do muro do jardim para ouvir aquelle canto tão fresco e aquella canção tão triste.

Deruchette era a alegria perpassando a casa toda, e fazendo alli uma eterna primavera. Era formosa, porém, mais linda que formosa, e mais gentil que linda. Fazia lembrar aos velhos pilotos amigos de mess Lethierry aquella princeza de uma canção de soldados e marujos, tão bella—que passava por tal no regimento.

—Deruchette tem um cabo de cabellos, dizia mess Lethierry.

Era lindissima desde a infancia. Receiou-se por muito tempo que o nariz fosse disforme, mas a pequena, provavelmente disposta a ficar bonita, manteve-se de modo que não adquirio deffeito algum até tornar-se moça; o nariz nem ficou comprido nem curto; e chegando á juventude, Deruchette conservou-se encantadora.

Dava o nome de pai ao tio.

Mess Lethierry concedia-lhe algumas funcções de jardineira e mesmo de dona de casa. A moça regava os canteiros de malvaisco, de verbasco, de phlox e herva benta; cultivava oxalida rosada; utilisava o clima da ilha de Guernesey, tão hospitaleira ás flores. Tinha, como toda a gente, aloes plantado no chão, e, o que é mais difficil, fazia pegar a potentilha de Nepaul. Tinha uma horta habilmente arranjada; plantava espinafres, rabanetes e ervilhas; sabia semear a couve flôr da Hollanda e a couve de Bruxellas; transplantava-as em Julho; nabos para Agosto, chicoria para Setembro, pastinaca para o outomno, e rapuncio para o inverno. Mess Lethierry consentia em tudo isso, comtanto que não trabalhasse muito com a pá e o ancinho, e sobretudo que não fosse ella propria quem estrumasse a terra. Deu-lhe duas criadas, uma chamada Graça, e a outra Doce, nomes usados em Guernesey. Graça e Doce faziam o serviço da casa e do jardim, e tinham o direito de andar com as mãos vermelhas.

O quarto de mess Lethierry era retirado, dava para o porto e era contiguo á sala grande do rez do chão, onde havia a porta de entrada e aonde iam ter as diversas escadas da casa. A mobilia do quarto compunha-se de uma maca de marujo, um chronometro, uma mesa, uma cadeira e um cachimbo. O tecto, construido com vigas, era caiado, bem como as paredes á direita da porta estava pregado o archipelago da Mancha, bella carta maritima onde se lia a seguinte inscripção:W. Faden,5,Churing Cross. Geographer to His Majesty; e á esquerda estava pendurado um desses grandes lenços de algodão que trazem figurados os signaes de todas as marinhas do globo, tendo nos quatro cantos os estandartes da França, da Russia, de Hespanha e dos Estados-Unidos da America, e no centro a Union-Jack da Inglaterra.

Doce e Graça eram duas creaturas ordinarias, devendo tomar-se esta palavra á boa parte. Doce não era má, e Graça não era feia. Não lhes ficavam mal tão perigosos nomes. Doce, que era solteira, tinha um amante. Nas ilhas da Mancha usa-se tanto a palavra como a cousa. As duas criadas faziam o serviço com uma especie de lentidão propria á domesticidade normanda no archipelago. Graça, faceira e bonita, contemplava constantemente o horisonte com uma inquietação de gato. Era porque, tendo tambem o seu amante, tinha de mais a mais, dizia-se, marido marinheiro, cuja volta receiava. Mas nós não temos nada com isto. A differença entre Graça e Doce é que, n'uma casa menos austera e menos innocente, Doce ficaria criada de servir e Graça subiria á posição de criada grave. Os talentos possiveis de Graça eram nullos para uma moça candida como Deruchette. Demais, os amores de Doce e Graça eram latentes. Nada chegava aos ouvidos de mess Lethierry, nada salpicava sobre Deruchette.

A sala baixa do rez do chão, com chaminé é rodeada de bancos e mesas, servira no seculo passado para as reuniões de um conventiculo de refugiados francezes protestantes. A parede de pedra núa não tinha ornamento algum a não ser um quadro de madeira preta com um cartaz de pergaminho ornado das proesas de Benigno Bossuet, bispo de Meaux. Alguns pobres diocesanos daquelle genio, perseguidos por elle na occasião da revocação do edito de Nantes, e abrigados em Guernesey, penduraram aquelle quadro na parede como um testemunho.

Quem podia decifrar a letra tosca e a tinta amarellada, lia naquelle cartaz os seguintes factos pouco conhecidos;—«A 29 de Outubro de 1685, demolição dos templos de Morcef e de Nanteuil, requerida ao rei pelo Sr. bispo de Meaux.»—«A 2 de Abril de 1686, prisão de Cochard pai e filho por motivo de religião, a requerimento do Sr. bispo de Meaux. Foram soltos por terem abjurado.»—«A 28 de Outubro de 1699 o Sr. bispo de Meaux envia ao Sr. de Pontchartrain uma memoria expondo a necessidade de transportar as Sras. de Chalandes e de Neuville, donzellas da religião reformada, para a casa das Novas-Catholicas de Paris.»—«A 7 de Julho de 1703 executou-se a ordem pedida ao rei pelo Sr. bispo de Meaux de encerrar no hospital um tal Beaudoin e sua mulher,mãos catholicos, de Fublaines.»

No fundo da sala, ao pé da porta do quarto de mess Lethierry, havia uma pequena divisão de taboas, que tinha sido tribuna huguenote, e era então graças a uma grade arranjada, oofficedo vapor, isto é, o escriptorio da Durande occupado por mess Lethierry em pessoa. Na velha estante de carvalho um registro com as paginas cotadas, Deve e Hade Haver—substituia a Biblia.

Mess Lethierry governou a Durande emquanto pode navegar, e nunca teve outro piloto nem outro capitão; mas lá chegou um dia em que elle foi obrigado a deixar o mar. Escolheu para substitui-lo o Sr. Clubin, de Torteval, homem silencioso. O Sr. Clubin tinha em toda a costa fama de severa probidade. Era oalter egoe o vigario de mess Lethierry.

O Sr. Clubin, embora desse mais ares de tabelião que de marinheiro, era um maritimo capaz e raro. Tinha todos os talentos que exige o perigo perpetuamente transformado. Era arrumador habil, gageiro meticuloso, contramestre desvelado e perito, timoneiro robusto, piloto instruido, e atrevido capitão. Era prudente e algumas vezes levava a prudencia ao ponto de ouzar, o que é uma grande qualidade na vida maritima. Tinha o receio do provavel temperado pelo instincto do possivel. Era um desses marinheiros que affrontam o perigo em uma proporção conhecida delles, sabendo triumphar em todas as aventuras. Toda a certeza que o mar póde deixar a um homem, elle a tinha. Era além disso nadador de fama; pertencia a essa raça de homens exercitados na gymnastica da vaga, que se conservam n'agua o tempo que se quer, e que partindo do Havre-des-Pas, dobram a Collete, fazem a volta da Ermitage e a do castello Elisabeth e voltam ao cabo de duas horas ao ponto de partida. Era de Torteval e dizia-se que fizera muitas vezes a nado, o temivel trajecto desde Manois até á ponta de Plaintmont.

Uma das cousas, que mais recommendaram o Sr. Clubin a mess Lethierry, foi que, conhecendo ou penetrando Rantaine, assignalou a mess Lethierry a improbidade daquelle homem, e disse-lhe:—Rantaine ha de roubal-o.Verificou-se a profecia. Mais de uma vez, em negocios pouco importantes, é verdade, mess Lethierry experimentou a escrupulosa honestidade do Sr. Clubin e descançava nelle. Mess Lethierry dizia: Consciencia quer confiança.

Mess Lethierry, que se não accomodava de outro modo, vestia sempre a sua roupa de bordo, preferindo mesmo a japona de marinheiro, á japona de piloto. Deruchette torcia o nariz por isso. Nada é tão bello como uma caretazinha da formosura em colera. Deruchette ralhava e ria—Bom paisinho, dizia ella,está cheirando a alcatrão.E dava uma palmadinha na larga espadua do marinheiro.

Aquelle velho heróe do mar trouxe das suas viagens, narrativas maravilhosas. Vio em Madagascar plumas de passaro das quaes bastavam tres para cobrir uma asa. Vio na India hastes de azedinhas, de nove pés de altura. Vio na Nova Hollanda bandos de perús e de patos dirigidos e guardados por um cão de pastor, que naquella terra é um passaro, e chama-se galinha silvestre. Vio cemiterios de elephantes. Vio em Africa uma especie de homens-tigres de sete pés de altura. Conhecia os costumes de todos os macacos, desde o macaco bravo até o macaco barbado. No Chile vio uma bugia commover os caçadores apresentando-lhes o filho.

Vio na California um tronco de arvore ouco, no interior do qual um homem a cavallo podia andar cento e cincoenta passos. Vio em Marrocos os mozabitas e os biskris baterem-se com matraks e barras de ferro, os biskris por terem sido tratados dekelb, que quer dizer cães, e os mozabitas por terem sido tratados dekhamsi, que quer dizer gente da quinta seita. Vio na China cortar em pedacinhos o pirata Chanh-thong-quan-harh-Quoi, por ter assassinado o Ap de uma aldêa. Ern Thudanmot, vio um leão arrebatar uma mulher velha do meio do mercado da cidade. Assistio á chegada da grande cobra mandada de Cantão a Saigon, para celebrar na pagode de Cho-len, a festa de Quan-nam, deosa dos navegantes. Contemplou na terra dos Moi, o grande Quan-Su.

No Rio de Janeiro, vio as senhoras brasileiras collocarem nos cabellos pequenas bollas de gaze contendo cada uma dellas um vagalume, o que lhes fazia uma coifa de estrellas. Destruio no Uruguay os formigueiros, e no Paraguay um certo bichinho, que occupa com as patas um diametro de um terço de vara, e ataca o homem, por meio dos proprios pellos, que lhe atira em cima, e que se cravam na carne produzindo pustulas. No rio Arinos, affluente do Tocantins, nas mattas virgens do norte da Diamantina, verificou a existencia do terrivel povo-morcego, os morcilagos, homens que nascem com os cabellos brancos e os olhos vermelhos, habitam os bosques sombrios, dormem de dia, accordam de noite, e pescam e caçam nas trevas, vendo melhor de que quando ha lua.

Perto de Beirouth, no acampamento de uma expedição de que fazia parte, foi roubado de uma tenda um pluviometro; então um feiticeiro vestido de duas ou tres fachas de couro, assemelhando-se a um homem vestido com os proprios suspensorios, agitou tão furiosamente uma campainha na ponta de um chifre que appareceu logo uma hyena trazendo o pluviometro. A hyena é que o tinha roubado.

Estas historias verdadeiras, assemelhavam-se tanto a historias da carochinha que divertiam Deruchette.

A boneca de Durande era o élo entre o vapor e a moça. Chama-se boneca nas ilhas normandas a figura talhada na prôa, estatua de madeira mais ou menos esculpida. Dahi vem que para dizernavegar, a gente das ilhas usa desta locução; estar entre popa e boneca (poupe et poupée.)

A boneca de Durande tinha as predilecções de mess Lethierry. Elle encommendára ao carpinteiro que a fizesse parecida com Deruchette. Parecia-se como obra feita a machado. Era uma acha de lenha esforçando-se por ser moça bonita.

Mas a cousa, embora disforme, illudia mess Lethierry. Contemplava-a como um crente. Estava de boa fé diante daquella figura. Reconhecia nella a imagem de Deruchette. É mais ou menos assim que o dogma se parece com a verdade, e o idolo com Deos.

Mess Lethierry tinha duas grandes alegrias por semana; uma na terça-feira e outra na sexta. Primeira alegria, ver partir Durande; segunda alegria, vê-la chegar. Encostava-se á janella, contemplava a sua obra, era feliz. Ha alguma cousa assim no Genesis.Et vidit quod esset tonum.

Na sexta-feira, a presença de mess Lethierry na janella era um signal. Quem o via chegar á janella da casa deBravées, acender o cachimbo, dizia logo: Ah! o vapor está a chegar.

Uma fumaça annunciava a outra.

A Durande, entrando no porto, atava a amarra debaixo das janellas de mess Lethierry, n'uma grande argola de ferro. Nessas noites Lethierry, gozava um admiravel somno na sua maca, sentindo de um lado Deruchette adormecida, do outro Durande amarrada.

O ancoradouro de Durande era perto do porto. Diante da casa de Lethierry havia um pequeno cáes.

O cáes, a casa, o jardim, as marinhas orladas de sebes, a maior parte das casas vizinhas, nada existe hoje. A exploração do granito de Guernesey fez vender os terrenos todos. Aquelle lugar está hoje occupado por estancias de quebradores de pedra.

Deruchette ia crescendo e não se casava.

Mess Lethierry fel-a uma moça de mãosinhas alvas, mas tornou-a exigente. Educações daquellas voltam-se sempre contra os pais.

Elle proprio era mais exigente ainda que a filha. Imaginava um marido para Deruchette que fosse tambem marido de Durande. Queria de um lance prover as duas filhas. Queria que o companheiro de uma fosse piloto da outra. Que é um marido? É o capitão de uma viagem. Porque motivo não dar um só capitão ao navio e á filha? O casal obedece ás marés. Quem sabe guiar uma barca sabe guiar uma mulher. Ambas são sujeitas á lua e ao vento. O Sr. Clubin, tendo apenas quinze annos menos que mess Lethierry, não podia ser para Durande senão um capitão provisorio; era preciso um piloto moço, um capitão definitivo, um verdadeiro successor do inventor, do creador. O piloto de Durande seria o genro de mess Lethierry. Porque motivo não fundir os dous genros em um só?

Lethierry affagava esta idéa. Via apparecer-lhe em sonhos um noivo. Um gageiro possante e tostado, athleta do mar, eis o seu ideal. Não era esse o ideal de Deruchette, o sonho da moça era mais côr de rosa.

Fôsse como fôsse, o tio e a sobrinha pareciam estar de accordo em não terem pressa. Qnando viram Deruchette tornar-se herdeira provavel, apresentaram-se pedidos aos centos. Estas sollicitudes nem sempre são de boas qualidade. Mess Lethierry sentia isso, e dizia entre dentes: moça de ouro, noivo de cobre. E despedia os pretendentes. Esperava. Ella tambem.

Cousa singular, Lethierry não fazia cabedal da aristocracia. Por esse lado era um inglez inverosimil. Difficilmente se acreditará que elle chegou a recusar um Ganduel, de Jersey, e um Bugnet-Necolin, de Serk. Houve mesmo quem ousasse affirmar, mas nós não acreditamos, que elle recusou uma proposta da aristocracia de Aurigny, indeferindo o pedido de um membro da familia Edou, que evidentemente descende de Edou-ard o Confessor.

Mess Lethierry tinha um defeito, e grande. Odiava, não uma pessoa, mas uma cousa, o padre. Lendo um lia, em Voltaire,—costumava ler e lia Voltaire,—estas palavras «os padres são gatos,» mess Lethierry poz o livro de parte, e ouviram-n'o murmurar baixinho:sinto-me cão.

Cumpre não esquecer que os padres lutheranos, calvinistas, e catholicos, atacaram-n'o vivamente, e pereguiram-n'o docemente, por causa da construcção do Devil-Boat local. Ser revolucionario em navegação, tentar introduzir um progresso no archipelago normando, impor à pobre ilha de Guernesey os esboços e uma invenção nova, era, conforme dissemos, uma temeridade condemnavel. Lethierry não escapou a uma certa condemnação. Não se esqueçam que fallamos do clero antigo differente do clero actual, que, em quasi todas as igrejas locaes, tem uma tendencia liberal para o progresso. Pearam-n'o de todos os modos; oppuzeram-lhe toda a somma de obstaculos que póde haver nas predicas e nos sermões. Odiado pelos homens da igreja, Lethierry aborrecia-os tambem. O odio dos outros era a circumstancia attenuante do odio delle.

Mas a sua aversão pelos padres era idiosyncratica. Para odial-os não precisava de ser odiado. Como elle proprio dizia, era o cão daquelles gatos. Era contra elles pela idéa, e, o que é mais irreductivel, pelo instincto. Sentia as garras latentes dos padres, e mostrava-lhes os dentes. A torto e a direito, confessemol-o, o nem sempre a proposito. É erro não distinguir. Não são bons os odios absolutos. Nem mesmo o vigario saboyano mereceria as sympathias de Lethierry. Não é certo que para elle houvesse um bom padre. Á força de philosophar ia perdendo a circumspecção. Existe a intolerancia dos tolerantes, como existe o furor dos moderados. Mas Lethierry era tão boa alma que não podia ser odiento. Antes repellia que atacava. Fugia dos homens da igreja. Tinham-lhe feito mal, Lethierry limitava-se a não querer-lhes bem. A differença entre o odio dos outros e o delle, é que o dos outros era animosidade, e o delle antipathia.

Guernesey, apezar de ilha pequena, tem lugar para duas religiões. Existem nella a religião catholica e a religião protestante. Devemos accrescentar que ahi não entram as duas religiões na mesma igreja. Cada culto tem a sua capella ou o seu templo. Na Allemanha, em Heidelberg, por exemplo, a cousa arranja-se menos escrupulosamente; divide-se uma igreja; metade para S. Pedro, metade para Calvino; entre as duas ha um tabique para prevenir os murros e pescoções; partes iguaes; os catholicos têm tres altares; os huguenotes tem tres altares; como as horas do officio são sempre as mesmas, o sino commum chama na mesma occasião para os dous serviços. Convoca a um tempo os fieis para Deos e para o diabo. Simplificação.

O fleugma allemão accommoda-se com estas propinquidades. Mas em Guernesey, cada religião tem casa propria. Ha parochia orthodoxa e parochia heretica. Póde-se escolher. Nem uma nem outra, foi a escolha de mess Lethierry.

Aquelle marinheiro, aquelle operario, aquelle philosopho, aquelleparvenudo trabalho, simples na apparencia, não n'o era em substancia. Tinha lá as suas contradições e pertinacias. Era inabalavel a respeito do padre. Daria quináos a Montlosier.

Costumava a dizer chufas muito descabidas. Tinha expressões proprias delle, extravagantes, mas sem eixar de ter um sentido. Ir a confessar-se era para elle:pentear a consciencia.Os poucos estudos que tinha, pouquissimos, feitos aqui e alli, entre duas borrascas, complicavam-se com erros de orthographia. Tinha tambem erros de pronuncia, nem sempre ingenuos. Quando se fez a paz entre a França de Luiz XVIII e a Inglaterra de Wellington, mess Lethierry disse:Bourmont foi o traitre d'union(traidor por traço)entre os dous campos.Lethierry escreveu uma vez a palavra papado (papauté) do seguinte modo:pape ôté(papa arrancado). Não acreditamos que elle fizesse isto de proposito.

Este antipapismo não o conciliava com os anglicanos. Os presbyteros protestantes não o estimavam mais que os curas catholicos. Ante os mais graves dogmas, ostentava-se quasi sem reserva a irreligião de Lethierry. Deu-se o acaso de ser levado a ouvir um sermão acerca do inferno pregado pelo reverendo Jaquemin Herodes, sermão magnifico, empachado de textos sagrados, que provavam as penas eternas, os supplicios, os tormentos, as condemnações, os castigos inexoraveis, os fogaréos sem fim, as maldições inextinguiveis, as coleras do Omnipotente, os furores celestes, as vinganças divinas, cousas incontestaveis. Lethierry ouvio o sermão e ao sahir com um dos fieis, disse-lhe baixinho: Ora, quer ver? eu cá tenho uma idéa ratona. Supponho que Deos é bom.

Adquirio este germen de atheismo quando residio em França.

Posto que fosse guernesiano, e de raça pura, chamavam-n'o na ilha—ofrancez, por causa do seu espiritoimproper.Nem elle o occultava; estava impregnado de ideas subversivas. A sanha de fazer o vapor, o Devil-Boat, provava bem isto.

Lethierry costumava dizer:eu mamei o leite89. Máo leite.

E que despropositos fazia! É difficil viver intacto nos lugares pequenos. Em França,guardar as apparencias, na Inglaterra,ser respeitavel, é quanto basta para passar a vida tranquilla. Ser respeitavel, é cousa que implica uma immensidade de observancias, desde o domingo bem santificado até á gravata bem atada. «Não te faças apontar com o dedo» eis uma lei terrivel. Ser apontado é o diminutivo do anathema. As pequenas cidades, charcos de mexeriqueiros, são eximias nesta malignidade isoladora, que é a maldição vista ao invez do oculo. Os mais intrepidos arreceiam-se disto. Affronta-se a metralha, affronta-se o furacão, recua-se diante da malignidade. Mess Lethierry era mais tenaz que logico. Mas debaixo dessa pressão dobrava-se-lhe a tenacidade. Deitavaagua no vinho, locução prenhe de concessões latentes e ás vezes inconfessaveis. Affastava-se dos homens do clero, mas não lhes fechava resolutamente a porta. Nas occasiões officiaes e nas épocas das visitas pastoraes, recebia attenciosamente tanto o presbytero lutherano como o capellão papista. Acontecia-lhe, de quando em quando acompanhar á parochia, anglicana a menina Deruchette, que aliás, só ia lá nas quatro grandes festas do anno.

Em resumo, esses compromissos, que lhe custavam muito, irritavam-n'o, e longe de inclinal-o para os homens da igreja, augmentavam o seu pendor interno. Aquella creatura sem azedume era acrimoniosa apenas nesse ponto. Não havia meio de emendal-a.

De facto, e sem remissão, era esse o temperamento de Lethierry.

Aborrecia todos os cleros. Tinha a irreverencia revolucionaria. Distinguia pouco entre duas fórmas de culto. Nem mesmo fazia justiça a este grande progresso: Não acreditar na presença real. A sua myopia nestas cousas chegava ao ponto de não ver a differença entre um ministro e um sacerdote. Confundia um reverendo doutor com um reverendo padre.Wesley não vale mais que Loyola, dizia elle. Quando via passar uni pastor protestante de braço com a mulher, desviava os olhos.Padre casado!dizia elle, com o accento absurdo que essas duas palavras tinham em França naquella época. Contava que na sua viagem á Inglaterra tinha visto abispa de Londres.A sua revolta contra essas uniões, iam até á colera.—Vestido não casa com vestido! exclamava elle. O sacerdote fazia-lhe effeito de um sexo. Não teria duvida em dizer: «Nem homem nem mulher; padre.» Applicava com máo gosto, tanto ao clero anglicano como ao papista os mesmos epithetos desdenhosos; enrolava as duas sotainas na mesma phraseologia; e não se dava ao trabalho de variar, a proposito de padres, quaesquer que fossem, catholicos ou lutheranos, as methonymias soldadescas usadas naquelle tempo.

—Casa-te com quem quizeres, dizia elle a Deruchette comtanto que não seja com algum padreco.

Dita uma cousa, mess Lethierry não a esquecia mais; dita uma cousa, miss Deruchette esquecia-a logo. Esta era a differença entre o tio e a sobrinha.

Deruchette, educada como os leitores viram, acostumou-se a pouca responsabilidade. Ha mais de um perigo latente n'uma educação tomada muito ao sério. Querer tornar felizes os filhos, antes do tempo, talvez uma imprudencia.

Deruchette acreditava, que, estando ella contente, tudo o mais ia muito bem. Via o tio alegre quando ella estava alegre. As suas idéas eram pouco mais ou menos as mesmas de mess Lethierry. Satisfazia os sentimentos religiosos indo á parochia quatro vezes por anno. Já a encontramos vestida para a festa do Natal. Da vida humana não sabia cousa alguma. Tinha disposições para amar um dia loucamente. Emquanto não chegava esse dia era menina folgazã.

Deruchette cantava ao acaso, tagarelava ao acaso, vivia sem esforço, soltava uma palavra e passava, fazia um gesto e fugia, era encantadora. Ajunte-se a isto a liberdadade ingleza. Na Inglaterra as crianças andam sós, as meninas são senhoras de si, a adolescencia vai á redéa solta. Taes são os costumes. Mas tarde, as moças livres fazem-se mulheres escravas. Tomem a boa parte estas duas expressões: livres no crescimento, escravas no dever.

Deruchette acordava todos os dias com a inconsciencia das suas acções da vespera. Bem embaraçado ficaria que lhe perguntasse o que ella havia feito na semana anterior. Isto, porém, não impedia que ella tivesse em certas horas turvas, uma indisposição mysteriosa, e sentisse uma tal ou qual passagem do sombrio da vida no seu desabrochamento e na sua jovialidade. Ha nuvens dessas nos céos como aquelle. Mas passavam depressa. Deruchette voltava a si com uma gargalhada, sem saber nem porque estivera triste, nem porque estava serena. Brincava com tudo. De travessa que era, bulia com quem passava. Caçoava com os rapazes. Não escaparia o proprio diabo se o encontrasse em caminho. Era gentil, e ao mesmo tempo tão innocente que abusava de si propria. Dava um sorriso como um gatinho dá um bofete. Tanto peior para quem ficasse arranhado. Nem pensava mais nisso. O dia de hontem não existia para ella; vivia na plenitude do dia de hoje. Eis o que é a excessiva felicidade. Naquella moça a lembrança dissipava-se como neve que se funde.

Gilliatt não trocara nunca uma palavra com Deruchette. Conheci-a por te-la visto de longe, como se conhece a estrella da manhã.

Na época em que Deruchette encontrou Gilliatt, no caminho de Saint-Pierre Port au Valle e fez-lhe a sorpreza de traçar na neve o nome delle, tinha 16 annos. Exactamente na vespera mess Lethierry disse-lhe as seguintes palavras:

—Deixa-te de seres travessa; estás moça feita.

O nomeGilliatt, escripto por aquella menina, cahio em uma profundidade desconhecida.

Que eram as mulheres para Gilliatt? nem mesmo elle poderia dize-lo. Quando encontrava alguma, causava-lhe medo e cobrava-lhe medo. Só na ultima extremidade fallava ás mulheres. Nunca foi amante de nenhuma camponeza. Quando se achava só em um caminho e ansiava alguma mulher ao longe, Gilliatt galgava um cercado, ou mettia-se em uma mouta e ia-se embora. Até das velhas fugia. Só tinha visto uma parisiense. Parisiense de arribação, estranho acontecimento em Guernesey naquelles tempos idos. E Gilliatt ouvira a parisiense contar nestes termos os seus infortunios: «Estou muito massada, cahiram-me uns choviscos no chapéo, esta côr é muito sujeita a ficar manchada.»

Tendo encontrado tempos depois entre as folhas de um livro uma antiga gravura de modas representando uma dama da calçada de Antin em grande toilette, pregou-a na parede como lembrança desta apparição. Nas noites de estio escondia-se atraz das rochas de Houmet-Paradis para ver as camponezas banharem-se no mar. Um dia, atravez de uma cerca, vio a feiticeira de Torteval atar a liga que lhe tinha cabido. Provavelmente, Gilliatt era virgem.

Naquella manhã de Natal em que Deruchette escrevera rindo o nome delle, Gilliatt voltou para casa não sabendo já porque motivo tinha sabido. Não dormio de noite. Pensou em mil cousas;—que faria bem se cultivasse rabanetes no jardim;—que não tinha visto passar o navio de Serk e talvez lhe houvesse acontecido alguma cousa;—que tinha visto erva pinheiro em flôr, cousa rara naquella estação.

Gilliatt nunca soubera com certeza que parentesco havia entre elle e a velha que morrera em casa; disse comsigo que devia ser sua mãe e pensou nella com redobrada ternura. Lembrou-se do enxoval de mulher que estava na mala de couro. Pensou que o Rev. Jaquemin Herodes seria provavelmente nomeado decano de Saint-Pierre Port, e que a parochia de Saint-Sampson ficaria vaga. Pensou que o dia seguinte ao de Natal, seria vigesimo setimo dia da lua, e que por consequencia a maré enchente seria ás 3 horas e 21 minutos, a média ás 7 horas e 15 minutos, a vasante ás 9 horas e 36 minutos. Recordou, até nas menores particularidades, o vestuario de highlander que lhe vendera obug-pipe(especie de sanfona), bonet enfeitado com um cardo a claymore, a casaca de ábas curtas e quadradas, o saiote, o scilt or philaberg, adornado com uma bolsa e uma boceta de chifre, o alfinete feito de uma pedra escosseza, os dous cintos, as sashwises, o belts, a espada, o swond, o sabre, o dirk e o skene dhu, faca preta de cabo preto ornada de dous cairgorums, e os joelhos nús do soldado, as meias, as polainas riscadas e os sapatos de borlas. Tudo aquillo tornou-se espectro, perseguio-o, deu-lhe febre até que elle adormeceu.

Gilliatt acordou quando o sol já ia alto, e o seu primeiro pensamento foi Deruchette.

Adormeceu no dia seguinte e sonhou toda a noite com o soldado escossez. Sonhou tambem com o velho cura Jaquemin Herodes. Quando acordou pensou outra vez em Deruchette e teve contra ella uma violenta colera; lamentou não ser criança para ir atirar pedras nas vidraças da moça.

Depois lembrou-se de que, se fosse criança, teria ainda sua mãe e entrou a chorar.

Projectou ir passar uns tres mezes em Chausey ou em Minquirs, mas não partio.

Não tornou a pôr os pés na estrada de Saint-Pierre Port au Valle.

Imaginava que o seu nome ficara gravado na terra, e que todos os viandantes deviam olhar para elle.

Gilliatt ia todos os dias ver a casa de Lethierry. Não o fazia de proposito, mas encaminhava-se para esse lado. Acontecia então passar sempre pelo caminho que costeava o muro do jardim de Deruchette.

Estando um dia naquetle caminho, ouvio a uma nulher do mercado, que fallava a outra, e vinha da casa de Lethierry:Miss Lethierry gosta muito de sea kales.

Gilliatt fez no jardim da casa mal assombrada uma fossa de sea kales. O Sea kale é uma couve que tem o sabor do espargo.

O muro do jardim da casa de Deruchette era baixinho; podia-se pular facilmente. Esta idéa pareceu terrivel a Gilliatt. Mas quem passava não podia deixar de ouvir as vozes das pessoas que fallavam nos quartos ou no jardim. Gilliatt não escutava, mas ouvia. De uma vez ouvio disputar as duas criadas, Graça e Doce. Como o rumor vinha daquella casa, soou-lhe como se fosse musica.

De outra vez, distinguiu uma voz que não era como as outras, e que lhe pareceu ser a voz de Deruchette. Deitou a correr.

As palavras que ouvio á moça ficaram para sempre gravadas no seu pensamento. Repetia-as a cada instante. Essas palavras eram:Faz favor de me dar a vassoura?

Gilliatt foi ousando a pouco e pouco. Já se atrevia a ficar parado. Aconteceu uma vez que Deruchette, que não podia ser vista de fora, embora estivesse a janella aberta, estava ao piano e cantava. Cantava a cançãoBonny Dundee.Gilliattt empallideceu, mas levou a firmeza até ouvir a canção toda.

Chegou a primavera. Gilliatt teve uma visão: abrio-se o céo. Gilliatt vio Deruchette regando uns pés de alface.

Dahi a pouco já elle fazia mais do que parar. Observava os habitos da moça, notava as horas em que ella aparecia, e esperava.

Tinha cuidado de não ser visto por ella.

A pouco e pouco, ao tempo em que as moutas se enchem de borboletas e de rosas, immovel e mudo horas inteiras, sem ser visto por ninguem, retendo a respiração, Gilliatt acostumou-se a ver Deruchette andar pelo jardim. É facil acostumar-se ao veneno.

Do lugar em que se escondia, Gilliatt ouvia Deruchette conversar com mess Lethierry, debaixo de um espesso caramanchão feito de caniço, dentro do qual havia um banco. As palavras chegavam-lhe distinctamente aos ouvidos.

Quanto já não tinha andado! Chegou até a espiar e prestar ouvido. Ah! o coração humano é um velho espião!

Havia outro banco visivel e proximo, no fim de uma alameda. Deruchette assentava-se alli algumas vezes.

Pelas flôres que elle via Deruchette colher e cheirar, adivinhou as preferencias da moça a respeito de perfumes.

A moça preferia antes de tudo a campanula, depois o cravo, depois a madresilva, depois o jasmim. A rosa estava em quarto lugar. Quanto aos lyrios, olhava para elles, mas não os cheirava.

Á vista da escolha dos perfumes, Gilliatt compunha-a no seu pensamento. Cada cheiro significava para elle uma perfeição.

Só a idéa de fallar a Deruchette fazia-lhe arripiar os cabellos.

Uma boa velha que mascateava, e por esse motivo ia algumas vezes á rua que costeava o muro do jardim de Deruchette, veio a notar confusamente a assiduidade de Gilliatt junto daquelle muro e a sua devoção por aquelle lugar deserto. Ligaria ella a presença daquelle homem á possibilidade de uma mulher que estivesse atraz do muro? Descobriria esse vago fio invisivel? Restava-lhe acaso na sua decrepitude mendicante, um pouco de mocidade para lembrar-se de alguma cousa dos bellos tempos, e saberia ella já no inverno e na noite, que cousa é o alvor da madrugada? Ignoramol-o, mas parece que, passando uma vez perto de Gilliatt, que estava de sentinella, dirigio para o lado delle toda a quantidade de sorriso de que ainda era capaz, e murmurou entre as gengivas:aquece, aquece!

Gilliatt ouvio a palavra que lhe fez impressão, e murmurou com um ponto de interrogação interior; Aquece? Que quer dizer a velha?

Repetio machinalmente a palavra durante todo o dia, mas não chegou a comprehendel-a.

Estando um dia á janella da casa mal assombrada, cinco ou seis raparigas de Ancresse foram banhar-se, por pagode na angra de Houmet Paradis. Brincavam ingenuamente na agua, a cem passos delle. Gilliatt fechou violentamente a janella. Reparou então que uma mulher núa causava-lhe horror.

Atraz do muro do jardim, em um angulo do muro coberto de azevinho e hera, empachado de ortigas, com um pé de malva sylvestre arborescente e um grande verbasco do mato que brotava do granito, passou Gilliatt quasi todo o verão. Ficava alli inexprimivelmente pensativo. As lagartixas que se iam acostumando a Gilliatt, aqueciam-se ao sol nas mesmas pedras. O verão foi luminoso e suave. Gilliatt tinha sobre a cabeça as nuvens que perpassavam no céo. Assentava-se na relva. Tudo estava cheio de um rumurejar de passaros. Punha a cabeça nas mãos e perguntava a si próprio: «Mas porque escreveu ella o meu nome na neve?


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