TERCEIRA PARTE

Tornava a ver perto da arcaria ogiva as grotas baixas e obscuras, especie de cavas na cava, quejá observára de longe. A que ficava mais perto delle estava a secco e era facil de se lhe chegar.

Mais perto ainda que essa descobrio elle, ao alcance da mão, uma fenda horisontal no granito. Provavelmente estava alli o caranguejo. Metteu a mão o mais que pôde, e procurou ás apalpadellas naquelle buraco de trevas.

De repente sentio que lhe agarravam no braço.

O que elle experimentou nesse momento foi o horror indescriptivel.

Uma cousa que era delgada, aspera, chata, gelada, pegajosa e viva torcia-se na sombra á roda de seu braço nú, e subia-lhe para o peito. Era a pressão de uma corrêa, e o impulso de uma verruma. Em menos de um segundo, uma especie de espiral tinha-lhe invadido o punho e o cotovello e tocava-lhe o hombro. A ponta mettia-se-lhe no sovaco.

Gilliatt atirou-se para traz, e mal pôde fazel-o. Estava como que pregado. Com a mão esquerda que ficava livre pegou na faca que tinha entre os dentes, e com essa mão, que segurava a faca, apoiou-se no rochedo com um esforço desesperado para saccar o braço. Só conseguio inquietar a ligadura, que se apertou mais. Era flexivel como o couro, solida como o aço, fria como a noite.

Outra corrêa, estreita e pontuda, sahio do buraco da rocha. Era uma especie de lingua sahindo de uma goela. Lambeu medonhamente o corpo nú de Gilliatt, e de repente, esticando-se, desmedida e fina, applicou-se-lhe na pelle e enrolou-se no corpo. Ao mesmo tempo um soffrimento inaudito, sem comparação neste mundo, levantava os musculos de Gilliatt.Sentia que lhe abriam a pelle em muitos pontos, de um modo horrivel. Parecia-lhe que innumeros labios, pregados á carne, procuravam beber-lhe o sangue.

Terceira corrêa sahio fóra do rochedo, apalpou Gilliatt, e chicoteou-lhe os lados como uma corda. Afinal fixou-se como as outras.

A angustia, no paroxysmo, é muda. Gilliatt não soltou um grito. Havia bastante luz para que elle podesse ver as fórmas repellentes applicadas ao corpo delle.

Quarta ligadura, esta rapida como uma flecha, saltou-lhe em roda do ventre e enrolou-se-lhe.

Era impossivel cortar nem arrancar aquellas corrêas viscosas que adheriam estreitamente ao corpo de Gilliatt e por muitissimos pontos. Cada um desses pontos era um fogo de terrivel e estranha dôr. Era o que sentiria quem fosse engolido ao mesmo tempo por uma porção de bocas pequeninas.

Quinta ligadura rompeu do tronco. Sobrepôz-se aos outros e foi enroscar-se no diaphragma de Gilliatt. A compressão ajuntava-se á anxiedade. Gilliatt mal podia respirar.

Aquellas ligaduras, pontudas na extremidade, iam alargando como laminas de espada para o punho. Todas cinco pertenciam evidentemente ao mesmo centro. Caminhavam e arrastavam-se para Gilliatt. Elle sentia deslocar-se essas pressões obscuras que lhe pareciam bocas.

Bruscamente uma larga viscosidade redonda e chata sahio de dentro da rocha. Era o centro; as cinco ligaduras prendiam-se a elle, como raios a um eixo;ditistinguiam-se do lado opposto daquelle disco immundo o começo de outros tres tentaculos, presos no fundo do buraco. No meio dessa viscosidade haviam dous olhos.

Olhavam elles para Gilliatt.

Gilliatt reconheceu que era uma pieuvre.

Para acreditar na pieuvre é preciso tel-a visto.

Comparadas á pieuvre, as velhas hydras fazem sorrir.

Em certos momentos parece que o elemento fugitivo que fluctua em nossos sonhos, encontra na realidade imans aos quaes esses lineamentos se prendem, e dessas obscuras ficções do sonho surgem creaturas. O ignoto dispõe do prodigio e serve-se delle para compôr o monstro. Orpheu, Homero e Hesiodo só poderam fazer a chimera; Deos fez a pieuvre.

Quando Deos quer excede no execravel.

A razão desta vontade é o medo do pensador religioso.

Admittidos todos os ideaes, se o terror é um fim, a pieuvre é uma obra prima.

A baleia é enorme, a pieuvre é pequena; o hypopotamotem uma couraça, a pieuvre é núa: a jararaca tem um silvo, a pieuvre é muda; o rhinoceronte tem um chifre, a pieuvre não tem chifre; o scorpião tem um dardo, a pieuvre não tem dardo; o macaco tem uma cauda, a pieuvre não tem cauda; o tubarão tem barbatanas cortantes, a pieuvre não tem barbatanas; o vespertilio-vampiro tem azas com unhas, a pieuvre não tem azas; o porco espinho tem espinhos, a pieuvre não tem espinhos; o espadarte tem um gladio, a pieuvre não tem gladio; o torpedo tem um raio, pieuvre não tem raio; o sapo tem um virus, a pieuvre não tem virus; a vibora tem um veneno, a pieuvre não tem veneno; o leão tem garras, a pieuvre não tem garras; o gypoéte tem um bico, a pieuvre não tem bico; o crocodilo tem uma guela, a pieuvre não tem dentes.

A pieuvre não tem massa muscular, nem grito ameaçador, nem couraça, nem chifre, nem dardo, nem cauda, nem barbatanas, nem azas, nem espinhos, nem espada, nem descarga electrica, nem virus, nem veneno, nem garras, nem bico, nem dentes. A pieuvre é de todos os animaes o mais formidavelmente armado.

O que é então a pieuvre? É a ventosa.

Nos escolhos em pleno mar, onde a agua mostra e esconde todos os seus esplendores, nas cavas de rochedos não visitadas, nas cavas desconhecidas aonde abundam as vegetações, os crustaceos e as conchas, debaixo dos profundos porticos do occeano, o nadador que se arrisca, arrastado pela belleza do lugar, corre o risco de um encontro. Se tiveres esse encontro não sejas curioso, foge. Entra-se fascinado, sahe-se apavorado.

Eis o que é esse encontro sempre possivel nas rochas do mar alto.

Uma fórma cinzenta oscilla n'agua, da grossura de uma braça e de meia vara de comprido; é um trapo; essa fórma assemelha-se a um guarda-chuva sem capa; a pouco e pouco o trapo caminha para o homem. De repente abre-se, oito raios sahem bruscamente da roda de uma face que tem dous olhos; esses raios vivem; flammejam ondeando; é uma especie de roda desenrolada, tem quatro ou cinco pés de diametro. Desentolamento medonho. Atira-se ao infeliz.

A hydra harpôa o homem.

Este animal applica-se á sua presa, cobre-a, envolve-a com os seus longos braços. Por baixo é amarelada, por cima é terrea; nada póde imitar esse inexplicavel matiz de poeira; dissera-se um animal feito de cinza, e morando n'agua. É arachnida pela fórma, e cameleão pelo colorido. Irritada, torna-se roxa. Cousa horrivel, é flacida.

Os seus nós garroteara; o seu contacto paralysa.

Tem um aspecto de escorbuto e de gangrena. É a molestia feita monstruosidade.

Não se póde arrancal-a; agarra-se estreitamente á sua presa; como? Pelo vacuo.

As oito antenas largas na origem, vão estreitando-se e terminam como agulhas: debaixo de cada uma dellas alongam-se parallelamente duas filas de pustulas decrescentes, as grossas perto da cabeça, as pequenas na ponta, e cada fila tem vinte e cinco. Ha cincoenta pustulas em cada antenna, e todo o animal tem quatrocentas. Essas pustulas são ventosas.

As ventosas são cartilagens cilyndricas e lividas. Na grande especie vão diminuindo de diametro—desde uma moeda de cinco francos até á grossura de uma lentilha. Esses pedaços de tubos sahem e entram no animal. Podem metter-se no corpo de um homem mais de uma pollegada.

Este apparelho de sucção tem a delicadeza de um teclado. Levanta-se, esconde-se. Obedece á menor intensão do animal. As sensibilidades mais delicadas não igualam á contractibilidade dessas ventosas, sempre proporcionadas aos movimentos internos do bicho e aos incidentes externos. Este dragão é uma sensitiva.

Este monstro é aquelle que os marinheiros chamam polvo, que a sciencia chama cephalopode, e a que a legenda chama kraken. Os marinheiros inglezes chamam-nodevil-fish, o peixe diabo. Chamam-no tambemblood-sucker, chupador de sangue. Nas ilhas da Mancha chamam-na pieuvre.

É muito rara em Guernesey, muito pequena em Jersey, muito grande e frequente em Serk.

Uma estampa da edição de Buffon por Sonnini representa um cephalopode estreitanto uma fragata. Dionizio Monfort pensa que na verdade o polvo das altas latitudes póde metter um navio a pique. Bory Saint-Vincent nega-o, mas attesta que nas nossas regiões o polvo attaca o homem. Quem for a Serk verá perto de Brecq-Hou o buraco do rochedo onde uma pieuvre ha annos agarrou, reteve e affogou um pescador de lagostas. Peron e Lamarck, enganam-se quando duvidam que o polvo não tendo barbatanas possa nadar. Aquelle queescreve estas linhas, vio com seus proprios olhos em Serk, na cova das Lojas, uma pieuvre perseguir a nado um homem que tomava banho. Foi morta e medida; tinha quatro pés inglezes de largura e pôde-se contar quatrocentos chupadores. O bicho agonisante atirava-os para longe de si convulsamente.

Segundo Dionizio Montfort, um desses observadores, cuja alta intuição faz descer ou subir até o magismo, o polvo tem quasi as paixões de homem; o polvo odeia. E no absoluto ser hediondo é odiar.

O disforme debate-se debaixo de uma necessidade de eliminação que o torna hostil.

A pieuvre nadando conserva-se por assim dizer na bainha. Nada com as antennas fechadas. Imaginem uma manga cozida com um punho dentro. Esso punho, que é a cabeça, impelle o liquido e avança com um vago movimento ondulatorio; os dous olhos, embora grandes, são pouco distinctos por serem da côr da agua.

A pieuvre quando espreita caça esquiva-se; diminue-se, condensa-se; reduz-se á mais simples expressão. Confunde-se com a penumbra. Parece uma dobra de vaga. Assemelha-se a tudo, excepto a cousa viva.

A pieuvre é o hypocrita. Não se rapara nella; repentinamente abre-se.

Que ha ahi de mais medonho que isso; uma viscosidade com uma vontade! O viscoso amaçado de odio.

É no mais bello azul d'agua limpida, quesurge essa hedionda estrella voraz do mar. O que é terrivel, é que não se sente de longe. Quando a gente a vê, já está agarrada.

Comtudo á noite, e particularmente na estação do desejo, a pieuvre é phosphorica; aquelle pavor tem os seus amores. Aguarda o hymeneu. Faz-se bella, illumina-se, e do alto de algum rochedo, póde-se vel-a nas profundas trevas aberta n'uma irradiação, sol espectro.

A pieuvre anda; tambem nada. É um tanto peixe e um tanto reptil. Arrasta-se no fundo do mar. Utilisa as suas oito pernas. Roja-se como a lagarta.

Não tem osso, nem sangue e nem carne. É flacida. Não tem nada dentro. É uma pelle. Póde-se virar-lhe os tentaculos de dentro para fóra, como dedos de uma luva.

Tem um só orificio no centro dos oito raios.

É fria toda ella.

Repelente bicho, é um do mediterraneo. É um contacto hediondo, essa gelatina animada que envolve o nadador, onde as mãos mergulham, onde as unhas trabalham, bicho que se rasga sem matar, e que se pucha sem tirar, especie de creatura resvaladiça e tenaz, que escorrega entre os dedos; mas nada iguala a subita apparição da pieuvre, Medusa servida por oito serpentes.

Não ha aperto igual ao do cephalopode.

É uma machina pneumatica que ataca. Luta-se com o nada ornado de patas. Nem unhas nem dentes; uma scarificação indisivel. Uma mordeduraé temivel; é menos ainda que uma sucção. A garra não iguala a ventosa. A garra, é o animal que entra na carne; a ventosa é o homem que entra no bicho. Incham-se os musculos, torcem-se as fibras, rebenta a pelle, debaixo de um peso immundo, jorra o sangue, mistura-se horrivelmente á limpha do mollusco. O bicho sobrepõe-se ao homem por mil bocas infames; a hydra iucorpora-se ao homem; o homem amalgama-se á hydra. Ficam sendo um só. Pesa aquelle sonho. O tigre póde apenas devorar; o polvo (horror!) aspira. Pucha o homem a si e em si, e, atado, enviscado, impotente, o homem sente-se lentamente esvasiado naquelle terrivel sacco, que é um monstro.

Além do terrivel, que é ser comido vivo, ha o inexprimivel, que é ser bebido vivo.

Essas estranhas animações são ao principio regeitadas pela sciencia, segundo o habito de sua excessiva prudencia; depois estuda-os, descreve-os, classifica-os, inscreve-os, põe-lhes rotulos, procura exemplares; expõe-nos em museos; elles entram na nomenclatura; ella os qualifica molluscos, invertebrados, raiados; verifica-lhes as fronteiras; um pouco além os calmares, um pouco aquem os depiarios; para estas hydras da agua salgada acham um analogo na agua doce, o argyronete; divide-as em grande, media e pequena especie; admitte mais facilmente a pequena especie que a grande, o que é, em todas as regiões, a tendencia da sciencia, a qual é mais microscopica que telescopica; olha a sua construcção e chama-os cephalopodes; contam-seas suas antennas e chama-os octopedes. Feito isto, deixa-os assim. Onde a sciencia os larga, a philosophia os retoma.

A philosophia estuda por sua vez esses entes. Ella vae menos longe e mais longe que a sciencia. Não os disseca, medita-os. Onde o scalpello trabalhou, immerge a hypothese. Procura a causa final. Profundo tormento de pensador. Essas creaturas o inquietam quasi sobre o creador. São as sorprezas hediondas. São os perturbadores do contemplativo. Elle as verifica desvairado. São as formas intencionaes do mal. Que fazer diante dessas blasphemias da creação contra si propria? A quem deve elle queixar-se?

O possivel é uma matriz formidavel. O mysterio concreta-se em monstros. Lanhos de sombra sahem deste penedo,—a imminencia,—rasgam-se, destacam-se, rolam, fluctuam, condensam-se, enchem-se do negrume ambiente, recebem as polarisações desconhecidas, tomam vida, compõem uma forma com a obscuridade e uma alma com o miasma, e vão-se, larvas, atravez da vitalidade. É alguma cousa semelhante ás trevas feitas animaes. Porque? para que? Volta a questão eterna.

Esses animaes são fantasmas e monstros, a um tempo. São provados e improvaveis. Ser, é o facto, não ser, é o direito. São os amphibios da morte. A sua inverosimilhança complica a sua existencia. Tocam a fronteira humana e povoam o limite chimerico. Negaes o vampiro, apparece a pieuvre. É uma certeza que desconcerta a nossa segurança. O optimismo, que é a verdade, perde-se quasi diantedelles. São a extremidade visivel dos circulos negros. Marcam a transição da nossa realidade a outra. Parecem pertencer a esse começo de entes terriveis que o sonhador entrevê confusamente na noite.

Esses prolongamentos de monstros, no invisivel, no principio, no possivel depois, foram suspeitados, vistos talvez, pelo extasis severo, e pelo olhar fixo dos magos e dos philosophos. Dahi a conjectura de um inferno. O demonio é o tigre do invisivel. A besta feroz das almas foi denunciada ao genero humano por dous visionarios, um que se chama João, outro que se chama Dante.

Se com offeito os circulos da sombra continuam indefinidamente, se depois de um annel ha outro, se isto vai em progressão illimitada, se existe a cadêa, de que estamos resolvidos a duvidar, é certo que a pieuvre numa extremidade prova Satanaz na outra.

É certo que o mal n'um limite prova a maldade no outro.

Todo o animal feroz, como toda intelligencia perversa, é sphynge.

Sphynge terrivel, propondo o enigma terrivel. O enigma do mal.

Essa perfeição do mal é que faz inclinar ás vezes os grandes espiritos para a crença do Deos duplo, para o tremendo bifronte dos manicheos.

Uma rede chineza, roubada na ultima guerra, no palacio do imperio da China, representa o tubarão comendo o crocodilo, o qual come a serpente, a qual come a aguia, a qual come a andorinha, a qual come a lagarta.

Toda a natureza devora ou é devorada. As prezas mastigam-se umas ás outras.

Entretanto os sabios que tambem são philosophos, e por consequencia benevolos para a creação acham ou acreditam achar a explicação disto. O fim destas cousas apparece, entre outros, a Bonnet de Genebra, aquelle mysterioso espirito exacto, que foi opposto a Buffon, como mais tarde Geoffroy Saint-Hilaire o foi a Cuvier. A explicação dizem ser esta: a morte exige a inhumação. Esses vorazes são coveiros.

Todas as creaturas entram umas nas outras. Podridão é alimentação. Assustadora limpeza do globo. O homem, carnivoro, tambem é a lei terrifica. Somos sepulchros.

No nosso mundo crepuscular, esta fatalidade da ordem produz monstros. Perguntais: Porque? É por isto.

Será isto a explicação? Será esta a resposta? Mas então porque não será outra a ordem? Reapparece a questão.

Vivamos, seja.

Mas façamos com que a morte nos seja progresso. Aspiremos aos mundos menos tenebrosos.

Sigamos a consciencia que nos leva para lá.

Porquanto, não o esqueçamos nunca, o preferivel só é achado pelo melhor.

Tal era o animal a quem, desde alguns instantes, Gilliatt pertencia.

Aquelle monstro era o habitante daquella grota. Era o medonho genio do lugar. Especie de sombrio demonio da agua.

Todas essas magnificencias tinham por centro o horror.

Um mez antes, no dia em que pela primeira vez Gilliatt penetrou na caverna, a fórma escura, entrevista por este nas dobras da agua secreta, era aquella pieuvre.

Estava ella em sua casa.

Quando Gilliatt entrando pela segunda vez na caverna, em busca do carangueijo, vio o buracoonde pensou que o carangueijo se tivesse refugiado, a pieuvre estava no seu buraco á espreita.

Póde-se imaginar esta espera?

Nenhum passaro ousaria chocar, nenhum ovo ousaria abrir, nenhuma flôr ousaria desabrochar, nenhum seio ousaria aleitar, nenhum coração ousaria amar, nenhum espirito ousaria voar, se se pensasse nas sinistras emboscadas do abysmo.

Gilliatt mettêra o braço no buraco; a pieuvre agarrou-o.

Gilliatt estava preso.

Era a mosca daquella aranha.

Gilliatt tinha agua até á cintura, os pés agarrados nos seixos arredondados e resvaladiços, com o braço direito atado pelas corrêas da pieuvre, e o tronco do corpo desapparecendo quasi debaixo das dobras e crusamentos daquella atadura horrivel.

Dos oito braços da pieuvre, tres adheriam á rocha, cinco adheriam a Gilliatt. Deste modo agarrados ao granito por um lado e ao homem pelo outro, encadeava Gilliatt ao rochedo. Gilliatt tinha em si duzentos e cincoenta chupadores. Complicação de angustia e de enjôo. Estava apertado dentro de uma grande mão, cujos dedos elasticos e do comprimento de um metro, são inteiramente cheios de pustulas vivas que lhe foçavam na carne.

Já o dissemos, não se pode arrancar a pieuvre. Quem o tenta, fica mais fortemente amarrado. Ella aperta-se mais. O seu esforço cresce na razão do esforço do homem. Quanto maior é a sacudidella, maior é a constricção.

Gilliatt só tinha um recurso, a faca.

Tinha a mão esquerda livre; é sabido que elle usava della poderosamente. Podia dizer-se que tinha duas mãos direitas.

Nessa mão, tinha elle a faca aberta.

Não se cortam as antennas da pieuvre; é um couro impossivel de cortar, resvala debaixo da lamina; demais a superposição é tal que um córte nessas corrêas iria até á carne.

O polvo é formidavel, ha comtudo uma maneira de vencê-lo. Os pescadores de Serk o sabem; quem os vio executar no mar certos movimentos bruscos, tambem o sabe. Os ouriços do mar tambem conhecem esse modo; têm uma maneira de morder a siba que lhe córta a cabeça. Dahi vem que se encontram muitas sibas e pieuvres sem cabeça no mar alto.

O polvo, na verdade, só é vulneravel na cabeça.

Gilliatt não o ignorava.

Nunca tinha visto uma pieuvre daquelle tamanho. Logo da primeira vez, achava-se agarrado pela grande especie. Qualquer outro ter-se-hia perturbado.

Ha um momento para vencer a pieuvre, como o touro; é o instante em que o touro curva o pescoço, é o instante em que a pieuvre estica a cabeça; instante rapido. Quem o deixa escapar está perdido.

Tudo o que acabamos de dizer passou-se em alguns minutos. Gilliatt sentia crescer a sucção das duzentas e cincoenta ventosas.

A pieuvre é traidora. Procura apavorar a presa. Agarra, e espera o mais que póde.

Gilliatt tinha a faca na mão. As sucções augmentavam.

Elle olhava para a pieuvre, a pieuvre olhava para elle.

De repente o bicho desprendeu do rochedo a sexta antenna e atirando-a sobre Gilliatt procurou agarra-lhe o braço esquerdo.

Ao mesmo tempo esticou vivamente a cabeça. Mais um segundo, e a sua boca applicar-se-hia sobre o peito de Gilliatt. Gilliatt sangrado no corpo e preso pelos braços, estava morto.

Mas Gilliatt vigiava. Espreitado, espreitava.

Evitou a antenna, e no momento em que o bicho ia agarrar-lhe o peito, a sua mão armada abateu-se sobre o bicho.

Houve duas convulsões em sentido inverso, a da pieuvre e a de Gilliatt.

Foi luta de dous relampagos.

Gilliatt mergulhou a ponta da faca na viscosidade chata e com um movimento giratorio semelhante á torção de uma chicotada, fazendo um circulo á roda dos dous olhos arrancou a cabeça como quem arranca um dente.

Estava acabado.

O bicho cahio.

Parecia uma roupa que se desprende. Destruida a bomba aspirante, desfez-se o vacuo. As quatrocentas ventosas largaram ao mesmo tempo o rochedo e o homem. Aquelle andrajo foi ao fundo d'agua.

Gilliatt, offegante da luta, pôde vêr a seus pés em cima das pedras do fundo dous montes gelatinosos e informes, a cabeça de um lado, o resto de outro. Dizemos resto, porque não se poderia dizer corpo.

Gilliatt, com tudo, receiando algum ataque convulsivo da agonia collocou-se fóra do alcance dos tentaculos.

Mas o animal estava bem morto. Gilliatt fechou a faca.

Era tempo de matar a pieuvre. Gilliatt estava quasi sem folego; tinha o braço direito e o corpo rôxos; esboçavam-se nelles mais de duzentos tumores; alguns vertiam sangue. O remedio para essas lesões é a agua salgada; Gilliatt mergulhou n'agua. Ao mesmo tempo esfregava-se com a palma da mão e os tumores desappareciam.

Recuando e mergulhando n'agua, achou-se elle proximo da especie de cava que ficava ao pé do buraco onde a pieuvre o agarrou.

A cava prolongava-se obliquamente, e a secco, debaixo das grandes paredes da caverna. Os seixos que alli se tinham ajuntado levantavam o fundo acima das marés ordinarias. Essa anfractuosidade, era um largo cimbrio abatido, um homem podiaentrar curvando-se. A claridade verde da caverna penetrava ahi e illuminava-a fracamente.

Aconteceu que, esfregando a pelle entumecida, Gilliatt levantou machinalmente os olhos.

Olhou para dentro da cava.

Estremeceu.

Pareceu-lhe vêr no fundo desse buraco, na sombra, uma especie de cara rindo.

Gilliatt ignorava a palavra allucinação, mas conhecia a cousa. Os mysteriosos encontros com o inverosimil que chamamos allucinações, existem na natureza. Illusões ou realidades, as visões apparecem. Quem está presente, vê-as passar. Gilliatt, como dissemos, era um pensativo. Tinha a grandeza de ser ás vezes allucinado como um propheta. Não se é impunemente sonhador dos lugares solitarios.

Acreditou em uma dessa miragens das quaes, homem nocturno como era, mais de uma vez teve medo.

A anfractuosidade figurava exactamente um forno de cal. Era um nicho baixo, em fórma de asa de cesto, cujas curvaturas abruptas iam extreitando-se até á extremidade da crypta onde os seixos e a abobada se juntavam e fechavam.

Gilliatt entrou, e inclinando a cabeça, dirigio-se para o que estava no fundo.

Era com effeito alguma cousa que ria.

Era uma caveira.

Só havia a cabeça, havia o esqueleto.

Um esqueleto humano estava deitado na cava.

O olhar de um homem audaz, em taes occasiões, quer saber das cousas a fundo.

Gilliatt olhou em roda de si.

Estava cercado de uma porção de carangueijos.

Não se mexiam elles. Era o aspecto de um formigueiro morto. Todos os carangueijos estavam mortos. Estavam vasios.

Os grupos, semeados, faziam no chão de seixos que enchiam a cava, constellações disformes.

Gilliatt, com o olhar fito em outra parte, caminhára por cima sem reparar.

Na extremidade da crypta onde chegára Gilliatt, havia maior espessura. Era um montão immovel de antennas, de patas, e de mandibulas. Pinças abertas conservavam-se direitas, e já se não fechavam. As caixas de ossos não se mechiam debaixo da sua crosta de espinhos; algumas viradas mostravam o interior livido. Este amontoado parecia uma multidão de sitiantes e tinha o entravamento de um espinheiro.

Debaixo desse montão estava o esqueleto.

Via-se debaixo dessa porção de tentaculos e escamas, o craneo com as estrias, as vertebras, os femures, os tibias, os longos dedos nodosos, com unhas. As costellas estavam cheias de caranguejos. Tinha palpitado alli algum coração. Os buracos dos olhos estavam atopetados de bolor marinho. Algumas conchas tinham deixado a sua baba nas fossas nasaes. Não havia nesse recanto da caverna nem sargaços, nem hervas, nem sopro de ar. Nenhum movimento. Os dentes riam.

O lado assustador do riso, é a imitação que faz delle uma caveira.

Aquelle maravilhoso palacio do abysmo, bordado e incrustado de todas as pedrarias do mar, revellava por fim o seu segredo. Era um covil, a pieuvre morava ahi; e era uma tumba, ahi jazia um homem.

A immobilidade espectral do esquelleto, e dos molluscos oscilavam vagamente, por causa da reverberação das aguas subterraneas que tremia naquella petrificação. Os carangueijos, mistura medonha, pareciam ter acabado a sua refeição. Aquellas cascas pareciam comer aquelle esqueleto. Nada mais estranho do que aquella bicharia morta, sobre aquelle homem finado Sombrias continuações da morte.

Gilliatt tinha diante de si, o armario da pieuvre.

Visão lugubre, donde surgia o horror profundo das cousas. Os carangueijos tinham comido o homem, a pieuvre tinha comido os carangueijos.

Não havia nenhum resto de roupa ao pé do cadaver. O homem devia ter sido agarrado nú.

Gilliatt attento e examinando, começou a tirar os carangueijos de cima do homem. Quem era esse homem? O cadaver estava admiravelmente dissecado. Dissera-se uma preparação de anatomia; toda a carne estava eliminada; já não restava nenhum musculo. Se Gilliatt fosse do officio reconheceria isso. Os periostios estavam brancos, polidos e como que lustrados. Sem alguns filamentos verdes que apareciam aqui e alli, seria marfim puro. As divisões cartilaginosas, estavam delicadamente affiladas. A tumba faz essas joalherias sinistras.

O cadaver estava como que enterrado debaixo de carangueijos mortos. Gilliatt desenterrava-o.

De repente inclinou-se vivamente.

Acabava de vêr á roda da columna vertebral, uma especie de atilho.

Era um cinto de couro, que evidentemente fôra atado ao ventre do homem antes de morrer.

O couro estava cheio de mofo. A fivella estava enferrujada.

Gilliatt puchou o cinto; as vertebras resistiram, e Gilliatt teve de quebral-as, para tirar o cinto. O cinto estava intacto. Começava a formar-se nelle uma crosta de conchas.

Gilliatt apalpou o cinto, e sentio um objecto duro de fórma quadrada no interior. Não era possivel abrir a fivella. Gilliatt cortou o couro com a faca.

O cinto continha uma caixinha de ferro, e algumas moedas de ouro. Gilliatt contou vinte guinéos.

A caixinha era uma velha boceta de marinheiro, abrindo-se por mola. Estava muito enferrujada. A mola completamente oxidada já não funccionava.

A faca veio em auxilio de Gilliatt. Com a ponta da lamina, fez elle pular a tampa da boceta.

A boceta abrio-se.

Só havia papel dentro della.

Um macinho de folhas finas, dobradas em quatro, estava no fundo da boceta. Estavam humidos, mas não alterados. A boceta hermeticamente fechada preservou-as. Gilliatt abrio-as.

Eram tres notas do banco de mil libras esterlinas cada uma, formando uma somma de setenta e cinco mil francos.

Gilliatt dobrou-as, pol-as na caixinha, aproveitou o pouco lugar que restava para deitar dentro os vinte guinéos, e fechou a caixinha o melhor que pôde.

Depois examinou o cinto.

O couro, outr'ora envernisado pela parte de fora, não o era no interior. Ahi estavam traçadas algumas letras com tinta gordurosa. Gilliatt decifrou as letras e leu:Sr. Clubin.

Gilliatt metteu outra vez a caixinha no cinto, e poz o cinto na algibeira da calça.

Deixou o esqueleto aos carangueijos com a pieuvre morta ao pé.

Emquanto Gilliat esteve com a pieuvre e o esqueleto, a maré enchente tinha tapado o bocal da entrada. Gilliatt só pôde sahir mergulhando por baixo do arco. Foi-lhe facil; conhecia a sahida, e era mestre nessas gymnasticas do mar.

Advinha-se o drama que se passára alli dez semanas antes. Um monstro agarrára o outro. A pieuvre agarrára Clubin.

Foi isso, na sombra inexoravel, o que se poderiachamar o encontro das hypocrisias. Houve no fundo do abysmo, um embate dessas duas existencias feitas de emboscada e de trevas, e uma, que era a besta, executou a outra, que era a alma. Sinistras justiças.

O carangueijo alimenta-se da carne morta, a pieuvre alimenta-se de carangueijos. A pieuvre apanha um animal que nada, uma lontra, um cão, um homem se póde, bebe-lhe o sangue, e deixa no fundo d'agua o corpo morto. Os carangueijos são os escaravelhos necrophoros do mar. Attrahe-os a carne putrida; elles approximam-se, comem o cadaver; a pieuvre os come depois. As cousas mortas desapparecem no carangueijo, o carangueijo desapparece na pieuvre. Já indicamos esta lei.

Clubin foi o engodo da pieuvre.

A pieuvre reteve-o e affogou-o; os carangueijos o devoraram. Alguma vaga o levou para aquella cava, no fundo da anfractuosidade onde Gilliatt o achou.

Gilliatt voltou, procurando nos rochedos outra cousa que não fosse carangueijos. Parecer-lhe-hia comer carne humana.

Demais, elle tratava de cear o melhor possivel antes de partir. Já nada o retinha no rochedo. As grandes tempestades são sempre seguidas de uma calma que dura muitos dias ás vezes. Nenhum perigo havia ainda quanto ao mar. Gilliatt estava resolvido a partir no dia seguinte de manhã. Era conveniente conservar durante a noite, por causa da maré, o tapamento ajustado entre as Douvres; mas Gilliatt contava desfazer de madrugada essa tapagem, empurrar apançapara fora, e abrir vela para Saint-Sampson. A brisa de calmaque soprava, e que era sudoeste, era exactamente o vento que lhe era preciso.

Entrava o primeiro quarto de lua de Maio; os dias eram longos.

Quando Gilliatt, terminada a pesquiza dos rochedos e mais ou menos satisfeito do estomago, voltou para a garganta das Douvres, onde estava apança, já o sol cahira no poente, e o crepusculo redobrava com aquelle meio luar que se póde chamar o luar do crescente; a maré, que tinha enchido completamente, começava a vasar. O cano da machina de pé acima dapançaestava coberto pela espuma da tempestade de uma camada de sal que a lua embranquecia.

Isto lembrou a Gilliatt que a tempestade deitára dentro dapançamuita agua de chuva e do mar, e que, se quizesse partir no dia seguinte, era preciso esvasiar a barca.

Tinha verificado, ao deixar apançapara ir procurar carangueijos que havia cerca de seis pollegadas de agua no porão. A pá de esgoto bastaria para deitar essa agua fóra.

Chegando ápança, Gilliatt teve um movimento de terror. Havia napançaperto de dous pés de agua.

Incidente terrivel, apançafazia agua.

Enchera-se pouco a pouco durante a ausencia de Gilliatt. Carregada como estava, vinte polegadas de agua era sobre posse. Mais um pouco e apançairia a pique. Se Gilliatt chegasse uma hora mais tarde, só acharia fóra d'agua o casco e o mastro.

Não podia perder um minuto em deliberação.

Era preciso procurar o buraco, tapa-lo, depois esvasiar a barca, ou ao menos allivia-la. As bombasda Durande tinham-se perdido no naufragio; Gilliat estava reduzido á pá de esgoto.

Procurar o buraco, antes de tudo. Era o mais urgente.

Gilliatt poz mãos á obra, sem mesmo dar-se tempo de vestir, e todo tremulo. Já não sentia fome, nem frio.

Apançacontinuava a encher. Felizmente não havia vento. O menor abalo da onda metteria apançaa pique.

A lua desapparecera.

Gilliatt, ás apalpadelas, curvado, mergulhado mais de metade na agua, levou muito tempo na pesquisa. Afinal encontrou a avaria.

Durante a tempestade, no momento critico em que apançase arqueára, robusta barca tinha batido violentamente contra o rochedo. Um dos relevos da pequena Douvre fizera-lhe uma fractura no casco, a estibordo.

Este buraco estava infelizmente, podia-se quasi dizer perfidamente, situado perto do ponto do encontro das duas porcas, o que, junto ao aturdimento da tempestade, impedira Gilliatt, na revista obscura e rapida que fizera, com o temporal, de descobrir o estrago.

A fractura assustava, porque era larga, e tranquillisava porque, embora immersa neste momento pela enchente interna da agua, ficava acima do lume d'agua.

No momento em que rompeu o buraco, a vaga era loucamente sacudida no estreito, e já não havia nivel de fluctuação, a onda penetrára pela effracçãonapança; apançacom mais essa carga mergulhou algumas polegadas, e, mesmo depois do apaziguamento das vagas, o peso do liquido filtrado, fazendo levantar a linha de fluctuação, manteve o buraco debaixo d'agua. Dahi vinha a imminencia do perigo. A cheia augmentára de seis pollegadas a vinte. Mas conseguindo tapar o buraco, podia-se esvasiar apança; esvasiada apança, voltaria á fluctuação normal, a fractura sahiria d'agua, e a secco, a reparação seria facil, ou ao menos possivel. Gilliatt, como dissemos, tinha ainda a ferramenta de carpinteria em bom estado.

Mas quantas incertezas antes de chegar a isso! Quantos perigos! Quantas más probabilidades! Gilliatt ouvia a agua correr inexoravelmente. Um empuchão e tudo iria a pique. Que desgraça! Talvez já não fosse tempo.

Gilliatt accusou-se amargamente. Deveria ter visto a avaria. As seis polegadas d'agua no porão deviam têl-o advertido. Foi estupidez attribuir as seis pollegadas d'agua á chuva e á espuma. Exprobrou-se o ter dormido e o ter comido; exprobrou-se a fadiga, e quasi também a tempestade e a noite. Tudo era culpa delle.

Essas cousas duras, que elle dizia a si proprio, iam de envolta com o vai-vem do trabalho e não o impediam de observar.

Achar o buraco ora o primeiro passo; tapal-o era o segundo. Não se podia mais agora. Não se faz carpintaria debaixo d'agua.

Havia uma circumstancia favoravel, era que o buraco do casco foi aberto no espaço comprehendidoentre as duas correntes que prendiam a estibordo o cano da machina. A estopa podia prender-se a essas correntes.

Entretanto a agua subia. Já passava de dous pés.

Gilliatt tinha agua acima dos joelhos.

Gilliatt tinha á sua disposição, na reserva do apparelho dapança, um grande panno alcatroado com as competentes cordas longas nas quatro pontas.

Pegou nesse panno, amarrou dous cantos pelos cabos ás duas argolas das correntes do cano do lado do buraco, e atirou o panno por cima da borda. O panno cahio como uma toalha entre a pequena Douvre e a barca, e mergulhou. A agua querendo entrar na pança applicou o panno ao casco sobre o buraco. Quanto mais a agua batia, mas adheria o panno. Foi collocado pela vaga sobre a fractura. A chaga da barca estava pençada.

A lona alcatroada interpunha-se entre o interior do porão e as vagas de fóra. Jã não entrava nem gotta d'agua se quer.

O buraco estava tapado, mas não estopado.

Era uma espera.

Gilliatt começou a esvasiar apança.Era tempo de allivia-la. O trabalho aqueceu-o um pouco, mas extrema era a fadiga. Gilliatt confessava que não iria ao fim, e não chegaria a estancar o porão. Gilliatt comera muito pouco, e tinha a humilhação de sentir-se extenuado.

Media o progresso dos trabalhos pela baixa do nivel da agua nos seus joelhos. A descida era lenta.

Além disso a entrada da agua estava apenas interrompida. O mal estava palliado, mas não reparado. O panno, empurrado na fractura pela vaga, começava a fazer um tumor pelo lado de dentro. Parecia que havia uma mão fechada debaixo do panno, procurando romper o buraco. A lona, solida e alcatroada, resistia; mas o inchamento e a tensão iam augmentando; não era certo que o panno não cedesse, e de um momento para outro o tumor poderia romper. Recomeçaria então a irrupção da agua.

Em tal caso, as equipagens em perigo o sabem, não ha outro recurso mais que um batoque. Apanham-se trapos de toda a especie, o que se acha á mão, tudo quanto a lingua especial chamaforro, e mete-se o mais que se póde na fenda do tumor da lona.

DesseforroGilliatt não tinha nenhum. Todos os pannos e estopas armazenados foram empregados no trabalho ou dispersos pelo vento.

Podia achar alguns restos no rochedo, quando muito. Apançajá estava bastante alliviada, e elle podia ausentar-se um quarto de hora; mas como procurar sem luz? Completa era a escuridão. Já nãohavia lua; apenas o sombrio céo estrellado. Gilliatt não tinha fios seccos para fazer uma mecha, nem sebo para fazer uma vela, nem fogo para accendêl-a, nem lanterna para abrigal-a. Tudo estava confuso e indistincto na barca e no escolho. Ouvia a agua romurejar á roda do casco ferido, e nem se quer podia vêr o buraco; foi com as mãos que Gilliatt pôde averiguar a tensão crescente do panno. Era impossivel fazer naquella obscuridade uma pesquiza util de pedaços de lona e maçame esparsos nos cachopos. Como colher esses andrajos, sem luz? Gilliatt contemplava tristemente a noite. Todas as estrellas e nem uma vela.

A massa liquida diminuira na barca, a pressão externa augmentára. Crescia o inchamento do panno. Entumescia-se cada vez mais. Era um abcesso prestes a abrir. A situação, um momento melhorada, tornava-se ameaçadora.

Era imperiosamente necessario um batoque.

Gilliatt apenas tinha as suas roupas.

Tinha-as posto a seccar nas saliencias do rochedo da pequena Douvre.

Foi buscal-as, e depositou-as na borda dapança.

Pegou no capote alcatroado e ajoelhando-se na agua, metteu-o no buraco, empurrando o tumor do panno para fóra, e portanto esvasiando-o. Depois metteu a pelle de carneiro, depois a camisa de lã, depois a japona. Tudo.

Tinha apenas uma roupa, tirou-a, e com a calça engrossou e apertou o batoque. Estava prompto e não parecia insufficiente.

O batoque sahia pelo buraco tendo o panno porenvolucro. A agua, querendo entrar, apertava o obstaculo, alargava-o utilmente na fractura, e consolidava-o. Era uma especie de compressa exterior.

No interior, tendo sido empurrado apenas o centro da lona, ficava á roda do buraco e do batoque um rolete circular do pau no tanto inais adherente quanto que as desigualdades da fractura o retinham. A via d'agua estava tapada.

Mas nada mais precario do que aquillo. Os relevos agudos da fractura que fixavam o panno, podiam fura-lo e por esses buracos entraria a agua. Gilliatt na obscuridade, não descobria isso. Era pouco provavel que o batoque durasse até de manhã. A anxiedade de Gilliatt mudou de forma, mas elle sentia a crescer ao mesmo tempo que sentia quebrarem-se-lhe as forças.

Continuou a esvasiar o porão, mas os seus braços, no extremo esforço, apenas podiam levantar a pá d'agua. Estava nú e tremia.

Gilliatt sentia a approximação sinistrada extremidade. Talvez houvesse uma vela ao largo, um pescador que por acaso passase nas aguas de Douvres podia ajudal-o. Era chegado o momento em que se tornava necessario um collaborador. Um homem e uma lanterna, e tudo estaria salvo. Sendo dous, esvasiava-se facilmente a barca; uma vez estancada, sem aquella sobrecarga liquida, voltaria ao nivel de fluctuação, o buraco sahiria d'agua, o reparo seria exequivel, podia-se immediatamente substituir o batoque por uma peça de madeira, e o aparelho provisorio por um concerto difinitivo. Senão, era preciso esperar até de manhã, esperar a noite toda! Funesta demora que podia ser a perdição. Gilliatt tinha a febre da urgencia. Se poracaso algum pharol de navio estava a vista, Gilliatt poderia fazer signaes, do alto da grande Douvre. O tempo estava calmo, não havia vento, não havia mar, um homem agitando-se no fundo estrellado do céo tinha a possibilidade de ser visto. Um capitão de navio, e mesmo um patrão de lancha, não anda de noite nas aguas das Douvres sem pôr o oculo no escolho; é a precaução.

Gilliatt esperava que o vissem.

Escalou o casco da Durande, empunhou a corda e subio á grande Douvre.

Nenhuma vella no horisonte. Nenhum pharol.

A agua estava deserta a perder de vista.

Nenhuma assistencia possivel e nenhuma resistencia possivel.

Gilliatt, cousa que até então não sentira, sentio-se desarmado.

A fatalidade obscura assenhoreára-se delle. Elle, com a barca, com a machina da Durande, com o trabalho, com o bom exito, com a coragem, tudo isso pertencia ao golphão. Já não tinha recurso de luta; tornava-se passivo. Como impedir a maré e a noite? O batoque era o unico ponto de apoio. Gilliatt exhaurira-se em compol-o e completal-o; fortifical-o é que já não podia; o batoque devia ficar assim e fatalmenle tinha acabado todo o esforço. O mar tinha á sua discrição aquelle apparelho prematuro applicado ao buraco. Como resistiria aquelle obstaculo inerte? Chegára-lhe a vez de combater, depois de Gilliatt. Entrava o trapo, retirava-se o espirito. O entumecimento de uma onda bastava para abrir a fractura. Maior ou menor pressão, a questão era essa.

O desfecho ia nascer por uma luta machinal entre duas quantidades mechanicas. Gilliatt não podia agora, nem ajudar o auxiliar, nem impedir o inimigo. Era apenas o espectador da sua vida ou da sua morte. Aquelle Gilliatt que tinha sido uma providencia foi substituido no supremo instante por uma resistencia inconsciente.

Nenhuma das provas e dos pavores que Gilliatt atravessára era igual a esta.

Chegando ao escolho Douvres, vio-se cercado, como que agarrado pela solidão. A solidão fazia mais que cercal-o, envolvia-o. A um tempo mais de mil ameaças o desafiavam. O vento estava alli, prestes a soprar; alli estava ornar; prestes a rugir. Era impossivel amordaçar a guela ao vento, era impossivel desarmar a bocca do mar. E comtudo tinha elle combatido; homem, lutara corpo a corpo com o oceano, engalfinhára-se com a tempestade.

Tinha affrontado outras anciedades e necessidades. Pelejou contra outros perigos. Foi-lhe preciso trabalhar sem ferramenta, carregar fardos sem auxilio, resolver problemas sem sciencia, comer e beber sem provisões, dormir sem leito e sem tecto.

Naquelle rochedo, eculeo tragico, pozeram-lhe a questão as diversas fatalidades iniquas da natureza, mãe quando quer, algoz quando lhe apraz.

Venceu o isolamento, venceu a fome, venceu a sêde, venceu o frio, venceu a febre, venceu o trabalho, venceu o somno. Encontrou no caminho os obstaculos coalisados. Depois da nudez, o elemento; depois da maré, a tempestade; depois da tempestade, a pieuvre; depois do monstro, o espectro.

Lugubre ironia final. Naquelle escolho d'onde Gilliatt contava sahir triumphante, Clubin morto olhára rindo para elle.

Tinha razão o riso do espectro. Gilliatt via-se perdido. Via-se tão morto como Clubin.

O inverno, a fome, a fadiga, o desapparelhar do casco, o transporte da machina, o equinoxio, o vento, o trovão, a pieuvre, tudo isso nada era ao pé do arrombamento dapança.Podia-se ter, e Gilliatt os teve, contra o frio, o fogo; contra a fome, as conchas; contra a sêde, a chuva; contra as difficuldades, a industria e a energia; contra a maré e a tempestade, o quebra-mar; contra a pieuvre, a faca. Contra o arrombamento, nada.

O furacão deixava-lhe aquelle adeus sinistro. Ultima repetição, perfida estocada, ataque sorrateiro do vencido ao vencedor. A tempestade fugitiva lançava-lhe aquella flecha. A derrota olhava para traz e feria. Era ocoup de jarnacdo abysmo.

Combate-se a tempestade; mas como combater um esgoto?

Se o batoque cedesse nada podia impedir que apançafosse a pique. Era a ligadura da arteria que se rompe. E apenas fosse ao fundo d'agua,com a machina dentro, não havia meio de arranca-la. O magnanimo exforço de dous mezes titanicos acabava por um anniquilamento. Recomeçar era impossivel. Gilliatt já não tinha nem forja, nem materiaes. Talvez tivesse elle de ver, ao romper do dia, mergulhar-se lentamente e irremediavelmente toda a sua obra no golphão.

Cousa assustadora é sentir debaixo de si a força sombria.

O golphão attrahia-o.

Engulida a barca, restava-lhe morrer de fome e de frio como o naufrago do rochedo Homem.

Durante dous longos mezes, as consciencias e as providencias que existem no invisivel, tinham assistido a isto: de um lado a extensão, as vagas, os ventos, os relampagos, os meteoros, do outro lado um homem; de um lado o mar, do outro uma alma; de um lado o infinito, do outro um atomo.

E houve batalha.

E abortava talvez aquelle prodigio.

Assim chegou á impotencia o inaudito heroismo, acabava-se pelo desespero aquelle formidavel combate, aquella luta do Nada contra Tudo, aquella Illiada de um.

Gilliatt desvairado contemplava o espaço.

Nem mesmo tinha roupa, estava nú diante da immensidade.

Então, no acabrunhamento de toda aquella enormidade desconhecida, não sabendo já o que queriam delle, confrontando-se com a sombra, em presença daquella obscuridade irreductivel, no rumor das aguas, das ondas, dos marulhos, das espumas, das lufadas, debaixo das nuvens, debaixo dos ventos, debaixo da vasta força esparsa, debaixo daquelle mysterioso firmamento das azas, dos astros e das tumbas, debaixo da intenção possivel das cousas desmesuradas, tendo á roda de si e era baixo de si o oceano, e acima as constellações, debaixo do insondavel, Gilliatt abateu-se, desistio, deitou-se ao comprido sobre a rocha, voltado para as estrellas, vencido, e pondo as mãos diante da profundeza terrivel, bradou ao infinito: piedade!

Abatido pela immensidade, Gilliatt implorou.

Estava só naquella noite, em cima daquelle rochedo, no meio daquelle mar, cahido de cansaço, semelhante a um fulminado, nú como o gladiador no circo, tendo em vez do circo o abysmo, em vez das feras as trevas, era vez dos olhos do povo o olhar do ignoto, em vez das vestaes as estrellas, em vez de Cezar, Deos.

Pareceu-lhe que se dissolvia no frio, no cansaço, na impotencia, na oração, na sombra e fecharam-se-lhe os olhos.

Correram algumas horas.

O sol levantava-se deslumbrante.

O seu primeiro raio illuminou na plataforma da grande Douvre, uma forma immovel. Era Gilliatt. Continuava estendido em cima do rochedo.

Já não estremecia aquella nudez gelada e endurecida. Estavam lividas as palpebras fechadas. Era difficil dizer que não era um cadaver.

O sol parecia contempla-lo.

Se aquelle homem nú não estava morto, devia estar tão perto disso que bastaria o menor vento frio para acaba-lo.

Começou a soprar o vento, tepido e vivificante; era o halito vernal de Maio.

Entretanto o sol subia no profundo céo azul; oseu raio menos horisontal ia-se purpureando. A luz fez-se calor. Cingio Gilliatt.

Gilliatt não se mexia. Se respirava, era uma respiração quasi extincta que mal poderia embaciar um espelho.

O sol continuava a sua ascenção cada vez menos obliqua sobre Gilliatt. O vento que era tepido ao principio, tornou-se callido.

Aquelle corpo rigido e nú continuava sem movimento; entretanto a pelle parecia menos livida.

O sol, acercando-se do zenith, cahia a prumo sobre a plataforma da Douvre. Vertia do alto do céo uma prodigalidade de luz; juntava-se a ella a vasta reverberação do mar tranquillo, o rochedo começava a ficar tepido e aquecia o homem.

O peito de Gilliatt levantou-se com um suspiro.

Vivia.

O sol continuava as suas caricias, quasi ardentes. O vento, que já era o vento do meio dia, e o vento de verão, approximava-se de Gilliatt como uma boca, soprando mollemente.

Gilliatt fez um movimento.

Era inexprimivel a tranquillidade do mar, tinha um murmurio de ama ao pé do filho. As vagas pareciam embalar o escolho.

As aves marinhas que conheciam Gilliatt, voavam inquietas por sobre elle. Já não era o medo selvagem do principio. Era um quê de terno e fraternal. Soltavam pequenos guinchos. Pareciam chamal-o. Uma gaivota que o amava sem duvida, teve a familiaridade de descer para junto delle. Começou a fallar-lhe. Elle não parecia ouvil-a.

Ella saltou-lhe sobre o hombro e começou a brincar docemente com o bico nos seus labios.

Gilliatt abrio os olhos.

Os passaros, alegres e ariscos, voaram.

Gilliatt levantou-se e espreguiçou-se como o leão acordando, correu á bordo da plataforma e olhou para o intervallo das Douvres.

Apançaestava intacta. O batoque resistira; provavelmente o mar maltratara-o pouco.

Tudo estava salvo.

Gilliatt já não estava cansado. Refizeram-se-lhe as forças. O desmaio foi um somno.

Esvasiou apança, poz a avaria fora da fluctuação, vestio-se, bebeu, comeu, tornou-se alegre.

O buraco examinado de dia demandava mais trabalho de que Gilliatt pensou. Era uma grande avaria. Gilliatt gastou o dia inteiro em reparal-o.

No dia seguinte, de madrugada, depois de desfazer a tapagem e abrir a sahida do estreito, vestido com os andrajos que tinham vencido a avaria, tendo comsigo o cinto de Clubin e os setenta e cinco mil francos, em pé napançaconcertada, ao lado da machina salva, com um vento de feição e mar admiravel, Gilliatt sahia do escolho Douvres.

Aproou sobre Guernesey.

No momento em que se a affastava do escolho, alguem que lá estivesse tel-o-hia ouvido entoar a meia voz a canção Bonny Dundee.

O Saint-Sampson de hoje é quasi uma cidade; o Saint-Sampson de ha quarenta annos era quasi uma aldêa.

Chegando á primavera, e acabadas as vigilias de inverno, deitavam-se todos cedo. Saint-Sampson era uma antiga parochia de tocar a recolher, tendo conservado o habito de apagar cedo as luzes. Os habitantes deitavam-se e levantavam-se com o dia. As velhas aldêas normandas são voluntariamente gallinheiros.

Digamos além disso que Saint-Sampson, á excepção de algumas ricas familias burguezas, é uma população de pedreiros e carpinteiros. O porto é um lugar de concertar navios. Durante o dia extrahem-se pedras du trabalham-se pranchas; aqui a picareta,além o martello. Perpetuo meneio de páu e granito. Á tarde tudo cahe de cançasso e dorme como chumbo. Os rudes trabalhos fazem os duros somnos.

Uma noite dos principios de Maio, depois de ter por alguns instantes contemplado o crescente da lua nas arvores e ouvido o passo de Deruchette passeiando sozinha, ao fresco da noite, no jardim de Bravées, mess Lethierry entrou para seu quarto situado sobre o porto e deitou-se. Doce e Graça estavam na cama. Excepto Deruchette, tudo dormia na casa. Portas e postigos estavam fechados. Ninguem andava nas ruas. Raras luzes semelhantes ao piscar de olhos que vão fechar-se, brilhavam aqui e alli nas janellas dos sotãos, annuncio do deitar dos criados. Já nove horas tinham batido na velha torre romana, coberta de hera, que partilha com a igreja de Saint-Brelade de Jersey, a singularidade de ter por data quatro uns: 1111; o que significamil cento e onze.

A popularidade de mess Lethierry em Saint-Sampson vinha do bom exito da Durande. Acabado este, fez-se o vacuo. Parece que o enguiço pega, e que as pessoas infelizes tem a peste comsigo, tão rapida é a quarentena em que as mettem. Os lindos filhos-familias evitavam Deruchette. O isolamento em roda da casa de Lethierry era tal que nem mesmo se soube ahi o pequeno grande acontecimento local que nesse dia agitou Saint-Sampson. O cura da parochia, o reverendo Joe Ebeneser Caudray estava rico. O tio delle, o magnifico decano de Saint-Asaph, morrera em Londres. A noticia foi trazida pelo sloop de postaCashmerechegado de Inglaterra nessa manhã, e cujo mastro via-se no porto de Saint-Sampson. OCashmeredevia voltar para Southampton no dia seguinte ao meio dia, e dizia-se que devia levar o reverendo cura, chamado á Inglaterra sem demora para a abertura official do testamento, sem contar as outras urgencias de uma grande herança para recolher. Durante o dia Saint-Sampson dialogou coufusamente. OCashmere, o reverendo Ebeneser, o tio morto, a riqueza, a partida, as promoções possiveis no futuro, foram o fundo do borborinho. Só uma casa, que nada sabia, ficara silenciosa, a de Lettierry.

Mess Lethierry atirou-se á maca vestido.

Depois da catastrophe da Durande, atirar-se á maca, era o recurso delle. Deitar-se no grabato é o recurso do prisioneiro, e mess Lethierry era prisioneiro da tristeza. Deitava-se; era uma tregoa, um descanço, uma suspensão de idéas. Dormia? Não. Vellava? Não. Propriamente fallando, havia dous mezes e meio,—já dous mezes e meio,—mess Lethierry estava em somnambulismo. Não era ainda senhor de si. Andava nesse estado mixto e diffuso que costumam ter os que soffreram grandes abatimentos. As suas reflexões não eram pensamentos, o seu somno não era repouso. De dia não era um homem acordado, de noite não era um homem adormecido. Estava em pé, estava deitado, eis tudo. Quando estava na maca, esquecia-se um pouco; a isso chamava elle dormir; as chimeras flutuavam nelle e por sobre elle, a nuvem nocturna, cheia de faces confusas, atravessava-lhe o cerebro; o imperador Napoleão dictava-lhe as suas memorias, haviam muitas Deruchettes, extranhos passaros pousavam nasarvores, as ruas de Lons-le-Saulnier toruavam-se serpentes. O pesadelo era o descanço do desespero. Passava as noites a sonhar e os dias a scismar.

Ás vezes ficava uma tarde inteira, immovel á janella do quarto que dava para o porto, com a cabeça baixa, os cotovellos sobro o peitoril de pedra, as orelhas nas mãos, as costas voltadas para o mundo inteiro, o olhar fito na velha argola de ferro pregada no muro da casa a alguns pés da janella, onde outrora amarrava a Durande. Contemplava a ferrugem que invadia a argola.

Mess Lethierry estava reduzido á funcção machinal de viver.

Os homens mais valentes, privados da sua idéa realisavel, attingem a isto. É esse o effeito das existencias esvasiadas. A vida é a viagem, a idéa é o itinerario. Sem itinerario, pára-se. Perdido a alvo, morre a força. A sorte é um obscuro poder descricionario. Póde bater com as suas vergastas o nosso ser moral. O desespero é quasi a destituição da alma. Só os grandes espiritos resistem. E ainda assim...

Mess Lethierry meditava contiuamente, se a absorpção pode chamar-se meditação, no fundo de uma especie de precipicio turvo. Escapavam-lhe palavras desoladas como estas: só me resta pedir ao céo o meu bilhete de sahida.

Notemos uma contradição nesta natureza, complexa como o mar, de que mess Lethierry era, por assim dizer, o producto; mess Lethierry não resava.

Ser impotente é uma força. Diante das nossas duas grandes cegueiras, o destino e a natureza, é na sua impotencia que o homem acha o ponto de apoio, a oração.

O homem soccorre-se do proprio medo; pede auxilio ao pavor; a anciedade aconselha o ajoelhar.

A oração, enorme força propria da alma, é da mesma especie que o mysterio. A oração dirige-se á magnanimidade das trevas; a oração contempla o mysterio com os olhos da sombra, e diante da fixidez poderosa desse olhar supplice, sente-se um desarmamento possivel no ignoto.

Essa possibilidade entrevista é já uma consolação.

Mas Lethierry não orava.

No tempo em que era feliz, Deos existia para elle, póde dizer-se que em carne e osso; Lethierry fallava-lhe, dava-lhe a sua palavra, dava-lhe quasi, de quando em quando, um aperto de mão. Mas no infortunio de Lethierry, phenomeno aliás frequente, Deos eclypsava-se. Isto acontece a quem imagina um Deos bonachão.

Não havia para Lethierry, no estado a que chegára, mais que uma visão pura, o sorriso de Deruchette. Fora desse sorriso, tudo era negro.

Desde algum tempo, sem duvida por causa da perda da Durande, cujo choque ella sentia, tornou-se raro o delicioso riso de Deruchette. Parecia preoccupado. Extinguia-se-lhe a gentileza de passaro e de criança. Já ninguem a via, ao tiro de peça da manhã, fazer uma cortezia e dizer ao sol: «bum!... jour!... queira entrar.» Tinha ás vezes um ar sério, cousa triste naquella doce creatura. Entretanto fazia esforço para rir a mess Lethierry, e para distrahil-o, mas a sua alegria apagava-se dia a dia, e cobria-se de poeira, como a aza de uma borboleta que um alfinete atravessou. Accrescentemos que, seja porquea tristeza do tio a fizesse triste, e ha dôres de reflexo, seja por outras razões, ella parecia agora inclinar-se muito para a religião. No tempo do antigo cura, Jaquemin Herodes, ella ia apenas quatro vezes á igreja. Agora era muito assidua. Não faltava a officio algum, nem aos domingos, nem ás quintas-feiras. As almas piedosas da parochia viam com satisfação esta emenda. Porquanto, é uma grande ventura para uma moça, que corre tantos perigos entre os homens, voltar-se para Deos.

Ao menos isto faz com que os paes fiquem tranquillos a respeito de namoricos.

De noite, sempre que o tempo permittia, passeava no jardim, uma ou duas horas. Andava quasi tão pensativa com mess Lethierry, e sempre só. Deruchette deitava-se por ultimo. Mas isto não impedia que Graça e Doce não a perdessem de vista, por esse instincto de espionar que anda ligado á domesticidade; espionar desenfada de servir.

Quanto a mess Lethierry, no estado obscurecido em que se achava o seu espirito, não percebia essas pequenas alterações nos habitos de Deruchette. Demais, elle não nascera aio. Nem mesmo notava a pontualidade de Deruchette aos officios da parochia. Tenaz no seu preconceito contra as cousas e os homens do clero, teria visto sem prazer essas frequencias á igreja.

Não é que a sua situação moral não estivesse em caminho de modificar-se. O pesar é nuvem e muda de forma.

As almas robustas, como dissemos, são ás vezes, em certas desgraças, distituidas quasi, mas não detodo. Os caracteres viris, taes como Lethierry, reagem n'um tempo dado. O desespero tem grãos ascendentes. Do acabrunhamento sobe-se ao abatimento, do abatimento á afflição, da afllição á melancolia. A melancolia é um crepusculo. Ahi o soffrimento funde-se em sombria alegria.

A melancolia é a ventura de ser triste.

Essas attenuações elegiacas não eram feitas para Lethierry; nem a natureza do seu temperamento, nem o genero da sua desgraça, comportavam essas variações. Sómente, no momento em que o encontramos, a scisma do seu primeiro desespero tendia a dissipar-se; sem estar menos triste, Lethierry estava menos inerte; continuava a estar sombrio, mas já não estava amortecido; voltava-lhe uma certa percepção dos factos e dos acontecimentos; e começava a sentir alguma cousa desse phenomeno que se poderia chamar a entrada na realidade.

Assim que, de dia, na sala baixa, não escutava as palavras, mas ouvia-as. Graça veio uma manhã triumphante dizer a Deruchette que mess Lethierry rasgára o envolucro do seu jornal.

Esta meia aceitação da realidade é em si um bom symptoma. É a convalescença. As grandes desgraças aturdem. Sahe-se do aturdimento por aquelle modo. Mas essa melhora parece ao principio um aggravo. O estado do sonho anterior embotava a dôr; antes via-se turvo, sentia-se pouco; agora a vista é clara, não se escapa a cousa alguma, sangra-se por tudo. Aviva-se a chaga. A dôr accentua-se com todos os pormenores que se vêem. Revê-se tudo na memoria. Achar tudo, é lamentar tudo. Ha nesta volta á realidade todasas provas amargas. Fica-se melhor e peior. É o que Lethierry sentia. Soffria mais distinctamente.


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