BALLADASA Luiz OsorioIMARICASVocêslembram-se da Maricas, aquella magrita de cabellos muito castanhos, quasi louros, que morava defronte da redacção, lembram-se? A boa da rapariga era nossa amiga, pois não era? Sempre benevola e complacente para as nossas balburdias e algazarras de todo o dia e de toda a noite. E vocês bem sabem que taes ellas eram, as nossas balburdias e algazarras...Eu, na Maricas, admirava uma virtude rara, toda original e encantadora—a de não mostrar jamais na sua amisade preferencia por algum de nós. Dir-se-hia que era nossa irmã, ou mesmo nossa mãe, pois que nos queria a todos por igual, a pobre Maricas de olhar azul e brando...Não sei se já vos disse: adivinho o interesse com que ella vos perguntaria por mim, nos meus dias de cabula, pela solicitude e interesse com que me perguntava por vocês, quando faziam gazeta ao escriptorio.—Então esses cabulas? então esses marotinhos? Doente, algum?—Na esturdia, Maricas. Andam todos por lá...—Ora vejam!—fazia ella quasi escandalisada.Ah, como eu me lembro n'este momento da vivacidade franca dos sorrisos que nos mandava, quando todos em pinha, furando pelos hombros uns dos outros, palreiros conversavamos com ella de janella para janella, n'umtête-à-têteque durava horas, muito familiares, muito dados, quasi que chamando-lhe por tu e ella a nós!Como eu me lembro!Ella tinha sempre uma resposta e um sorriso para cada uma das mil perguntas que lhe faziamos, e então uma grande paciencia inexhaurivel. Nós, os estroinas, quasi que chegavamos a adorar aquella ingenuidade singela do seu coração de vinte annos. A boa da Maricas era adoravel, toda ella bondade e paciencia para os nossos disturbios e para as nossas algazarras de toda a hora e de todo o instante.Mas como se familiarisou ella comnosco e nós com ella, é que me não lembra, e porventura a nenhum de vocês, acho eu. O que é certo, rapazes, é que nós como que a consideravamos uma companheira de redacção, especie de directora com casa áparte e viver independente pois que se entravamos no escriptorio (parece mesmoque estou a ver aquella barafunda d'escriptorio!) e, assomando á janella, a não viamos na sua, diziamos quasi sem querer, mas invariavelmente:—Mau! falta hoje a Maricas! Diacho! mas onde iria a Maricas?E passados instantes debandavamos todos, um agora, outro logo, á formiga, mal nos convenciamos de que ella passava a tarde fóra, em casa dafreirade Quebra-Costas—d'essa lembram-se vocês... No emtanto, deveis recordar-vos que ella, no dia seguinte...—coitada!—...a primeira cousa que fazia era justificar a sua falta, «estive aqui, estive alli, fui a umas compras com a mamã», um pouco ruborisada e confusa, como se na realidade a sua obrigação fosse estar alli a aturar-nos. Por pouco ella nos não pedia de mãos postas que lhe perdoassemos, a boa da rapariga.E nós então galhofeiros, brincalhões:—Sem maisaquellas, D. Maricas! A congregação risca-lhe a falta, ora essa!...E ella mais confusa, fazendo girar no dedo o seu annelzito de cobra:—Pois sim, mas é que ás vezes...—Ás vezes quê?...«Não! ora adeus! Ninguem desconfiava que ella estivesse zangada comnosco. Saíra, porque tinha de sair, essa é boa...»—Pois não era verdade—perguntavamos-lhe—que ella adorava aquellatroupede bohemios?—São todos muito bons rapazes—dizia já a sorrir.—Todos me tractam muito bem...E quando dizia isto, o seu rosto miudinho e muito pallido todo se illuminava de prazer e sorria de intima gratidão. Mas porque sympathisava ella comnosco, a pobre Maricas?Quando nos via em palestras interminaveis, nas libações docongnace do café, ouvia-se lá da janella umpschiu! muito sibilado.—Que manda a D. Maricas? É servida?E ella, levantando os olhos da costura, com ares de formalisada:—Mando que escrevam, que trabalhem! Já fizeram o jornal?O cuidado que lhe dava o jornal!—Ora faz favor de não fallar em coisas tristes? Olhem agora que lembrança, o jornal!Ella então, por unica resposta, dizia-nos ás vezes que na semana passada o typographo viera queixar-se de que havia falta de originaes, quantas vezes o garoto da imprensa viera pedir as provas emendadas.E por fallar em provas:—a Maricas sabia todos os signaes das emendas, todos.—Olhe lá, Maricas, está aqui uma letra a mais n'esta palavra.—Risco por cima, risco á margem, e umdcortado; é facil.—Ummde pernas para o ar, e esta?—Risca-se, e um tres cortado, á margem. Está farto de o saber...Quando via algum sentado á meza, a rabiscar, pedia sempre que lhe fosse mostrando as tiras, á medida que as escrevesse, talvez porque adivinhava que isso era um estimulo. A gente fazia-lhe então a vontade, e mal escrevia a derradeira lettra pegava da tira e dizia-lhe para a janella, acenando-lhe com o papel:—Maricas, cá está uma, vá contando. Veja: escripta d'alto a baixo.Á terceira que se lhe mostrava, ella saía-se de lá com umbravo! e recommendava, solicita, cinco minutos de folga, emquanto se fumava um cigarro.A Maricas era quem nos cortava as cintas para o jornal e quem nos fazia a gomma nos dias de expedição. Que ricas cintas e que bella gomma! Em paga, quando o jornal chegava da imprensa, quasi sempre nos sabbados á noite, o primeiro exemplar era para ella. Como a rua era estreita atirava-se-lhe da janella.—Maricas, ahi vae ainda fresquinho!—'stá bem, obrigada. Vou lêr, até ámanhã.Corriamos todos á janella, a dar as boas noites á nossa amiga.—Durma bem, ouviu?E no dia seguinte, a Maricas repetia a cada auctor phrases e phrases do artigo publicado, jurava que nos conheceria no estylo ainda que mudassemos de pseudonymo. De resto, sempre benevola: achava tudo muito bom, «escripto com muita graça e muito bem», como ella dizia.Nos serões que faziamos e que por via de regra não passavam de um interminavel cavaco, dizia-se mal das mulheres, discutiam-se escandalos, desvendavam-se segredos, tal e qual como em todas as redacções... Mas da Maricas ninguem tinha que dizer senão bem; era a privilegiada n'aquellas sessões de má lingua. Quasi sempre a conversa degenerava em algazarra—um que se lembrava de cantar, outro que ia pela guitarra e gemia fados com acompanhamento de violão. E era de vêr o Santos Mello, d'olhos cerrados e cabeça á banda, como cantava a sua quadra predilecta:Sei cantigas mysteriosas,Cantigas de endoidecer,Que os lirios dizem ás rosas,Que as rosas me vêm dizer.Mas no meio d'esta inferneira havia sempre um que recommendava silencio.«Com mil demonios! não viam que a Maricas não podia pregar olho...»Todavia...—ó suprema bondade!—...ella nunca se queixava quando no dia seguinte nos vinha dizer até que horas durara a estroinice, o que se tinha tocado, o que se cantara, quem tinha rido mais, e, até, as vezes que as cadeiras tinham caido.«Ora viam?! Não a tinhamos deixado dormir! A Maricas que desculpasse; palavra d'honra! d'óra ávante...»Ella então acudia logo, como a remediar uma grande desgraça:—Não, não, eu até gósto. Entretem-me vel-os alegres, faz-me bem, ora essa...Pois, meus amigos, a boa da Maricas—morreu! vocês não sabiam! E morreu tysica, a desgraçada Maricas! Só depois que o soube, é que eu comecei a pensar n'aquella tossesinha muito secca em que ás vezes a surprehendiamos, n'aquelle branco pallido das suas faces, no bistre das suas olheiras, n'aquella magresa transparente das suas mãositas de marfim...Pobre Maricas!Haverá tres mezes que ella me desappareceu da sua janella, onde continuei a vêl-a depois que o jornal acabou. Eu sabia lá para onde ella tinha ido?!...Mal diria eu que estavas no cemiterio, tão longe e tão só! porventura na valla commum, sem umas folhas de rosa sobre a tua sepultura humilde,—onde n'este instante cáe chuva e chuva! Ainda se as noites fossem todas de luar... Minha triste amiga! como eu agora relembro cheio de magua a tua phrase de infinita bondade e de infinita resignação:—...«Entretem-me vêl-os alegres, até me faz bem»...Comprehendo agora tudo: vivias da nossa alegria, já que a tua alma era triste... Mas porque foi que nos não disseste, pobresinha! que n'essa phrase singela ia a revelação do presentimento que tinhas da tua morte prematura?! Triste creança que nós não mais veremos!Olha, Maricas, escrevi quatro tiras. Já me não dizes—bravo!—ora não?......Bom Deus! bom Deus! para que a terra produza diamantes, e d'ella rebentem flôres, são talvez precisos estes corpos a avigorar-lhe as seivas...IIPARA A ESCOLANovelho casarão do convento é que era a aula. Aula de primeiras lettras. A porta lá estava, amarella com fortes pinceladas vermelhas, ao cima da grande escadaria de pedra, tão suave que era um regalo subil-a. Obra de frades, os senhores calculam... Já tinha principiado a aula quando a Helena entrou commigo pela mão. Fez-se um silencio nas bancadas, onde os rapazes mastigavam as suas lições e a sua taboada, n'um rithmo cadenciado e monotono, cantarolando. E ouviu-se então a voz da Helena dizer para o senhor professor, um d'oculos e cara rapada, falripas brancas por baixo do lenço vermelho, atado em nó sobre a testa:—Muito bons dias. Lá de casa mandam dizer que aqui está a encommendinha.Oh! oh! a encommendinha era eu, que ia pela primeira vez á escola. Ali estava a encommendinha!—Está bem, que fica entregue. E lá em casa como vão?E emquanto o velho professor me tomava sobre os joelhos, a Helena enfiava-me no braço o cordão da saquinha vermelha, com borlas, onde ia mettido nem eu sabia o quê. Meu pae é que lá sabia... E alli estava eu entre os joelhos do senhor professor, com obonnetn'uma das mãos e a saquinha vermelha na outra, muito compromettido. A Helena, que sorria contrafeita, baixou-se para me dar um beijo, e disse-me adeus.—Adeus, Josésinho, logo venho cá pelo menino.Choraminguei, quiz sair na companhia d'ella.—Não, agora o menino fica—disse-me a Helena.—Isto aqui é a escola, é onde se aprende a ler.—E agachando-se, deante de mim:—Olhe tanto menino, vê?—Mas fica tu tambem—disse-lhe eu então.Nas bancadas houve hilaridade geral. O mestre teve de intervir, iracundo:—Caluda, sua canalha! Não veem que está gente de fóra? Caluda, que vae tudo razo com bolaria!Foi então que reparei em toda aquella rapaziada. Ah, elles eram todos meus conhecidos! Vivam lá vocês! E estavam todos alegres, p'los modos. Reanimei-me. Então já eu podia ficar, estavam ali os meus amigalhotes, cheguei mesmo a rir das caretas que me faziam alguns, o Estevão principalmente.—Isto é preciso muita paciencia, senhora Helena, muita somma de paciencia. Um mestre precisa de ser um santo.—(Pausa. Olho duro sobre as bancadas.)—Mas está bem, diga lá que a encommendinha cá fica. Em boa hora entrasse...—Entrou, elle ha-de estudar. Ora ha-de, Josésinho?Das bancadas alguns acenavam-me que não, arregalando muito os olhos.—É verdade,—insistiu por sua vez o professor—o menino ha-de estudar as suas lições, não é assim?—Diga, sim senhor—ensinou-me então a Helena.—Hei-de estudar muito e ser socegadinho na aula, diga.—E a meia voz para o professor:—isto em casa é o vivo mafarrico; faz lá ideia?Elle riu, já sabia; as creanças são todas assim, emquanto estão no mimo das mães. Mas uma vez mettidas na escola, as cousas mudavam um pouco. E piscando o olho, designou a palmatoria. A Helena ficou transida.—Faz milagres, sr.aHelena. Digam lá o que disserem, olhe que faz milagres.Eu tinha percebido. Começava de novo aembezerrar, com vontade de sair quando a Helena saisse. Aquillo sabia eu para que servia, a palmatoria...—Mas para o nosso Zézito não ha de ser precisa, ora não?—Diga assim: não senhor, porque eu hei de cumprir com as minhas obrigações, diga.—Ora ahi é que está—atalhou o professor.—Vê, sr.aHelena? Aqui já os pequenos tem a sua obrigaçãosinha, os seus deveres a cumprir, as suas coisas...—Sim senhor, sim, emquanto que em casa...—Em casa é o que nós sabemos. Tudo são mimos, meu menino isto, meu menino aquillo. Vão assim creados á lei da natureza, sabe vossemecê? É mau isso, pessimo! Porque é que os rapazes são todos teimosos?—E bateu n'um «Monteverde» pousado sobre a mesa, dizendo:—Olhe, aqui está n'este livro: «de pequenino...—...é que se torce o pepino»—concluiu rapida a Helena, orgulhosa de saber o que estava no livro, coitada!—Nem mais. A modos que isto faz rir. Um pepino é uma cousa que se cria na horta...Risota dos rapazes!—Ora vê isto, sr.aHelena? vê estes brutinhos?—E com entono, de palmatoria alta, fazendo-se carrancudo:—Caluda, seus fedelhos! Caluda, porque se peço licença á sr.aHelena, começo n'uma ponta e levo tudo a eito, corro tudo a bolos, tudo, mas o que se chama tudo!E fitou-os altivo, sereno, minaz. Sob aquella ameaça, os rapazes ficaram transidos, cabisbaixos, olhos pregados nos livros. É verdade que elle podia pedir licença á sr.aHelena, e mesmo deante d'ellacascarde rijo... Uma sombra de terror passou por toda a sala, socegaram; até o Estevão deixou de me fazer caretas.—É o que vê, sr.aHelena—disse então victorioso, asorrir-se, o bom do professor.—É o que vê! Um mestre sem palmatoria é um artista sem ferramenta, não faz nada.Santa Luziamilagrosa! Aqui onde a vê tem feito muitos doutores.—Essa?—perguntou ingenuamente a Helena, disposta a venerar aquelle pedaço de pau de buxo, se na verdade elle tivesse feito muitos doutores.—Não, mulher, se não foi esta, outras como esta, essa é boa! Isso não faz ao caso.Pela resposta bem se vê que foi indiscreta a pergunta da pobre Helena. Tambem elle, velho n'aquelle officio, muitas vezes investigara com magua o motivo por que a sua palmatoria não fazia um unico doutor... Morreria sem ter essa «gloria,» decerto! Forte martyrio que a Helena veio recordar-lhe!...Houve uma interrupção, um rapaz que se levantou e de braço no ar pedia para ir lá fóra.—Licéte!—foi como elle disse, arremedando o latimlicet. Outros havia que diziam, por troça,Aniceto!—Ora já a mim me admirava,—tornou-lhe o professor.—Se tu não havias de pedir para ir lá fóra, tu...—E ficou-se a fital-o, meneando pausadamente a cabeça.—Ora vá você lá fóra.O rapaz saiu apressado, com grande estrupido de pés.—Olá?—chamou zangado o sr. professor.O outro assomou á porta, contrafeito.—Para a outra vez faz-se menos barulho com esses pés, ouviu? Não sei se percebes... Ora já que tem tanta pressa, eu não tenho nenhuma; faça favor de esperar um pouco.Poz-se então a correr a vista pelas bancadas, resmungando:—Tu não... tu não... tu não... Tu, olá, venha cá!Levantaram-se uns poucos, foi um barulho.—Canalha!—gritou-lhes então, batendo o pé.—Corja de atrevidos! Sentados, já!Grande silencio nas bancadas. Um perguntou de lá, humilde, se era elle, apontando para o peito.—Sim, és tu, p'ra que queres os olhos? Avance e perfile-se.Mediu-o d'alto a baixo. Depois:—Isso mesmo. Essa mão no bolso é que não é doregulamento, fóra com ella. Agora, sim senhor. Ora vês além aquelle sujeito? o tal das pressas?...—Vejo, sim senhor.—Bem sei que vês, se o não vissem é porque eras cego; que tal está o palerma? Ora acompanhe-o, já sabe p'ra que. E sempre quero ver se tenho de vos ir lá buscar pelas orelhas.Sairam. Mal tinham salvado a porta, gritou-lhes o sr. professor:—Olá?Elles assomaram, outra vez, atrapalhados.—Então, seus cabeças d'avelã, torres de vento, então não falta nada?Os dois pozeram-se a coçar a cabeça, muito compromettidos. Faltava com effeito alguma coisa...—Então é ahi?Elles avançaram até ao meio da sala, tropeçando um no outro.—Ora passa por esta vez, em attenção a estar aqui a sr.aHelena.—E enrugando o sobr'olho, commandou em tom marcial:—Ordinario! marche!Faltava aquillo. Em obediencia aos seus velhos habitos de militar, dava o sr. professor aquella voz, sempre que mandava algum alumno cumprir ordens suas:—Ordinario! marche!Sentou-me então no joelho e perguntou:—Olha lá, Josésinho, tu queres ser militar, queres? Assim como o sr. capitão do destacamento, que lá está aboletado em casa, queres?—Corneta, mais queria ser corneta. Ou então como o sr. prior, dizer missas.Riram-se. Quem sabia lá o que d'ali sairia? Mas o sr. professor fez notar que era bom que os pequenos tivessemjá assim uma tendencia qualquer. E poz-se a puxar-me o nariz, a dar-me palmadinhas nas bochechas.—Corneta ou prior, hein? Pois isso é que é preciso escolher.—E para a Helena:—Pois olhe que os tenho conhecido, sr.aHelena, que respondem a pés junctos que não querem ser nada. Mau signal, pessimo, sr.aHelena! Quando elles assim dizem, de ordinario assim fazem, depois. Nunca são gente.—E virando-se para mim:—Mas então, Josésinho, em que ficamos? Corneta ou prior?Preferia ser prior. Sempre me parecia melhor, mais bonito, especialmente em dias de festa, com aquella capa toda doirada...—Muito bem, escolheste bem. «Telha de egreja...—...sempre gotteja»—concluiu a Helena que ainda hoje é forte em adagios.O bom do professor tinha finalmente chegado onde queria.—Prior, então! Está muito bem, seu reverendo. Pois olha, Josésinho, para ser prior é preciso estudar, saber ler no missal, ora é?—É.—Ah!... Não é assim que se diz. É, sim senhor—emendou a Helena.O sr. professor teve um gesto de indulgencia.—Mas tu não sabes ainda, ora não?—Não senhor.Elle então, fingindo uma grande surpresa, perguntou se o que eu trazia na sacca era um livro.—Querem ver que é um livro?...—Diga—ensinou a Helena—é o meu livro para aprender a ler. Mostre-o lá ao sr. professor, tome.Houve na sala um murmurio, ao verem a capinha verde, toda lustrosa, do meu livro.—Muito bem! muito bem!—applaudiu o sr. professor.—Mas este livro é mesmo para aprender a prior... O menino já tinha dito lá em casa que queria ser prior, ora já?Fiz que sim com a cabeça. Era verdade aquillo; mas como é que elle o sabia?—Bem se vê por este livro. É livro para prior. Queres então principiar, não queres?—Quero, sim senhor,—ensinou ainda a Helena e eu repeti.—O que eu quero é dizer missa quanto mais cedo melhor, diga.—Primeiro do que aquelles?—perguntou voltando-me para as bancadas.Então fui eu mesmo que respondi:—«Sim senhor!»—contente com a lembrança de vir a dizer missa, e de a vir a dizer primeiro do que todos aquelles. Até podia acontecer que o Estevão das caretas me ajudasse a alguma...—Ora então está muito bem, estamos entendidos.—E com intenção, ferindo muito as palavras, para m'as gravar no espirito:—A primeira coisa que é precisa para prior é saber bem isto, vês?—E punha-me deante dos olhos o livro aberto na primeira pagina.—Isto aqui é já missa, chama-se oa b c, e é aquillo que os priores dizem quando vão para o altar.—Ito?—inquiri curioso, furando a pagina com o dedo.—Sim, isto. E amanha já me has-de trazer sabido d'aqui até ali. Hein? valeu?—Diga que sim, menino, diga. Valeu, sim senhor.Eram as seis primeiras lettras, ainda me lembro bem. A minha primeira lição!A B C D E F!A minha primeira lição!—Ora sabe vossemecê o que isto é, sr.aHelena? isto que eu tenho estado a fazer?—Sim senhor, sei... é assim... como quem diz... é...—Não sabe, não admira,—disse complacente o sr. professor.—Puxar o gosto, sr.aHelena, puxar o gosto é que isto é. Nem todos os mestres o fazem, todos o deviam fazer. O pequeno, assim, até já vae estudar com mais gosto, digo-lh'o eu; olé se vae!«Mas elle não a queria demorar mais, tinha lá em casa as suas obrigações, as suas voltas, e deviam ser horas.»—Pois isso é verdade, sr. professor; mas não sei que é, custa-me a separar do menino...—disse a boa da Helena, quasi a chorar.—Foi ama, deu-lhe o seu leite, ahi é que está a coisa. Pois tenha paciencia. Aprender é tão preciso como mamar—concluiu n'uma prosa que é mesmo poesia.—Pois é preciso, é!...E a pobre Helena beijou-me, para se ir embora. Quando me beijou, senti na minha cara as lagrimas d'aquella boa amiga. Retirava-se, deixando-me ainda sobre o joelho do meu velho professor, quando este a chamou:—sr.aHelena!—Meu senhor!—respondeu, levando aos olhos o avental.—Já agora, espere mais um instante.Percorreu com a vista, minuciosamente, as bancadas todas da aula. Depois, intimou:—Tu, Francisco, olá, chega acima. E tu do lado, como te chamas, abaixo um pouco.—E virando-se para a pobre mulher lacrimosa:—Ora é alli, sr.aHelena, alli é que é o logar do pequeno. Leve-o lá, ande, que lhe não deve pesar.E dos braços do meu professor passei para os braços da ama. Novo beijo, lagrimas mais quentes, e saiu a boa da Helena, deixando-me no meu logar...—o meu primeiro posto na arriscada milicia das lettras...Depois, só vi isto: o mestre a sorrir-se para a porta e a conversar por acenos com a pessoa que estava de fóra. Pequeno como era, percebi, no emtanto. O mestre vinha a dizer na sua mimica:—Bolos?... Não?!... Perdoe a sr.aHelena, mas isso, quando forem precisos... Pois sim... lá isso sim... pequeninos... Han? mesmo com a mão?... Está bem... Descance... Mesmo com a mão...E ella devia sorrir por entre lagrimas, porque foi tambem por entre lagrimas que o bom velho se sorriu, dizendo adeus......Helena, minha boa amiga! Acabo de chegar ao fim da viagem que principiei n'esse dia. Não volto mais á escola! Venho hoje restituir-te, querida amiga, aquelle beijo—dulcissimo beijo aquelle!—que tu então me déste. E afinal não fui prior, ora vê!... Mas ainda bem. Se o fosse, acho que parecia mal beijar-te, minha boa e santa amiga! Pois ainda bem que não fui prior, ainda bem... Não é verdade, Helena?Em Coimbra,no dia do meu acto de formatura.TRAGEDIA RUSTICAIMadrugada de segunda feira de entrudo, tapada dos Nobres, Alemtejo, á porta do José GrilloTruz! truz! truz!Os de casa acordaram, sobresaltados.—Schiu! nem pio!—fez o José Grillo para a mulher.—Moita!—Truz! truz! truz!Do seu cubiculo, a Anna, filha do José Grillo, poz-se a chamar pelo pae.—Bem ouvia, que deixasse bater. Algum bruto que se queria divertir...Mas logo outra vez na porta:—Truz! truz!—Arre que é bruto! vá bater ao inferno, quem é! gritoude dentro o José Grillo, zangado. E pois que se poz á cóca, de orelha fita, olhos cravados na telha-van do casebre, sentiu distinctamente os passos de alguem que fugia.—Eu não te disse? aquillo foi bruto que se quiz divertir—explicou elle para a mulher.Mas palavras não eram ditas, pareceu-lhe ouvir o vagir de um cachorrinho, mesmo rente á porta. Veio-lhe logo á ideia que lhe tinham vindo pôr zôrro...—Ó mulher, queres tu ver que ha novidade?De um pulo saltou da cama, embrulhou-se na manta e abriu a porta do casebre.—Elle que demonio de embrulho...?Pegou-lhe com muito geito. Era effectivamente uma creança, envolta em dois trapinhos muito velhos.—Coitadinho! fez o ganhão achegando ao peito a creancinha.—Grandes cadellas!—E poz-se logo a fazer uma algazarra, alarmando a gente da casa.—Andem! a pé! levantem-se! está aqui este innocentinho que vem dar os bons dias á gente!Correu a filha, veiu a mulher. Mas ao tempo, já o bom do José Grillo mettera a creança na cama, visto que a pobresinha estava gelada...—Elle quem diabo ha por ahi que tenha leite? A filhado Antonio das Varedas, é verdade, a Brites que lhe morreu o cachopo.Despediu immediatamente a filha, a Anna, á procura da Brites que chegasse o peito ao innocentinho. E da porta, gritando para a rapariga que ia correndo:—Que se não demore, ouves? que se lhe paga aquillo que fôr.Mas a mulher do José Grillo, a senhora Joanna, de pé no meio da casa, a saia amarella deitada pela cabeça, de braços cruzados, muito embezerrada, permanecia sem dizer palavra.—Ó mulher, nada de afflicções, é tal e qual como se fosse nosso, faz de conta...—observou-lhe logo o José Grillo que percebia o ar taciturno da femea.Ella só redarguiu quenossoera um modo de fallar. Seria d'elle, mais de qualquer desavergonhada...O José Grillo, que estava a enfiar as calças, parou no serviço e pregou-lhe uma gargalhada.—Ageita-me o pequeno, ouves? Vê lá que talvez esteja molhado. E deixa-te de cantigas, que hoje é dia de entrudo.A mulher ia reguingar; mas elle, pegando-lhe de um braço, levou-a ao pé da creança, affirmando-lhe ás risadas que sim, que o pequeno era filho d'elle.—O pequeno?... mas é que pode ser cachopa—disse o José Grillo para a mulher.—E certificando-se:—Nada! é rapaz.Seguiu-se uma altercação. A senhora Joanna, a chorar, ia jurando pela sua salvação que «o crianço» era filho do seu homem.—Ai Jesus que estou perdida! chamava ella muito comica, braços no ar, o balandrau da saia amarella enfiado pelo pescoço n'um geito de sobrepeliz.—Má hora em que me eu casei! ai Jesus que vae ser de mim!—Olha que é rapaz, ouves? anda cá ver que é rapaz—disse-lhe de lá o José Grillo, muito fleugmatico, debruçado sobre a creança.Mas como visse que a mulher continuava n'um estardalhaço, muito afflicta, desaustinada pelos cantos da casa, o José Grillo virou-se para ella e disse-lhe muito solemne:—Pois assim me Deus salve como não é meu o rapaz.Ao ouvir assim fallar o seu José, a senhora Joanna voltou-se logo para elle, olhos esbugalhados, muito suspensa.—Juras pelas cinco chagas, ó homem?—Juro pelas cinco chagas.—Assim te Deus dê saude, ó José?—Assim me Deus dê saude.—Preto sejas tu como o teu chapeu?—Preto seja eu como o meu chapeu.A senhora Joanna botou-se logo a correr para um canto da casa, e abrindo a arca de pinho, do bragal, entrou aos beijos a uma Nossa Senhora da Conceição, pegada na face interna da tampa, com boccadinhos d'hostia.Depois desabafou, muito aliviada:—Ai!O José Grillo poz-se a rir.—«O demonio da Joanna, com ciumes!»—Mas ciumes de quê, ó mulher? não farás favor de me dizer de que diabo tens tu ciumes?—perguntava muito casto o amigo José Grillo, serenissimo deante da mulher desconfiada.A outra, muito delambida, redarguiu com ironia—«que o seu homem era um santinho...»—O José Grillo ia defender-se. Mas ella, atalhando logo, reguingou d'alto:—Sabes tu que mais? estafermos é o que mais ha. Olha a cadella que engeitou este...Aqui, fez uma suspensão; depois perguntou, muito lampeira:—Mas quem seria a grande cadella?Poz-se então a mirar muito o pequeno, a ver se lhe dava ares de alguem, murmurando phrases d'odio, moralistas:—Precisava ser enforcada, a tua mãe; quem quer que é tem mesmo entranhas de lobo.O pequenino entrou a vagir, muito friorento, embrulhado n'uma camisa do José Grillo.—É fome, coitadinho! o infeliz inda não sabe que coisa é mamar—disse contristado o lavrador.Foi-se logo á porta, a ver se a Brites chegava. Mas quem vinha com a Anna era a outra, a Dorotheia do Antonio das Veredas.—Tua irmã, tua irmã é que se cá precisava. Que demonio vens tu cá fazer? Ouves? não me dirás que diabo vens tu cá fazer?—E deu um bofetão na filha, «para que soubesse dar o recado».A Dorotheia poz-se a explicar que a rapariga não tinha culpa. A irmã é que a mandara para levar a creança, porque ella, adoentada, fazia-lhe mal sair de casa assim cedo...—Só se lhe queres tu dar de mamar—insistiu ainda o José Grillo, virado para a Dorotheia, irreverente pelos seus dezenove annos inda virgens.A senhora Joanna fez-lhe de dentro que se calasse:—Credo, homem! essas coisas não se dizem, nem por graça.—Eu sei lá se não se dizem?—observou o lavrador, muito zangado.—Dá cá d'ahi o pequeno.Veio a senhora Joanna com o embrulhinho, que entregou ao José Grillo. O lavrador depol-o nos braços da Dorotheia, com mil cuidados, e depois elle mesmo ajudouas mulheres a ageitar o pequenino, em termos que fosse bem quente.—Roda forte, ouves? E diz lá a tua mãe que eu de tarde por lá appareço, p'ra ver isto do ajuste.A rapariga saiu. E como o lavrador désse fé que tinham alli ficado os farrapos, gritou para a rapariga:—Ó D'rotheia! espera que inda cá ficou isto.Então poz-lhe os farrapos ao hombro—uns pedaços miseraveis de velha chita—e a Dorotheia partiu onde á irmã.II
A Luiz Osorio
Sei cantigas mysteriosas,Cantigas de endoidecer,Que os lirios dizem ás rosas,Que as rosas me vêm dizer.
Em Coimbra,
Madrugada de segunda feira de entrudo, tapada dos Nobres, Alemtejo, á porta do José Grillo