Chapter 10

Por donde voy me sigue como memoria tiernatu imagen que en mi pecho conduzco en un altar;¡y mi cerebro canta como una estrofa eternael coro que tus árboles entonan á la mar!Ahi teem, para prova, esse trecho d'um descriptivo de manhã aldeã, quando o sol começa a subir na linha ainda indecisa do horisonte:A esse tempo, no ceu alto e lavado a estrella de alva fenecera por fim, e o horisonte começava de carminar-se ao de leve. Por todo o ceu em cupula, a luz fresca e viva da manhã vibrava harmonias estranhas que iam despertar tudo, a côr da paizagem e a musica dos ninhos, cantigas de perdizes e rumor de gente por moinhos e atalhos. Manhã de verão, serena, tranquilla, dulcissima. Ia pelo ar um movimento extraordinario de azas—passarada alegre que saía agora dos ninhos e voava a matar a sede á borda das ribeiras, andorinhas que deixavam as suas casinholas em reconcavos de rocha e tomavam para hortejos convísinhos onde a vegetação era mais rica de seivas e mais facil a presa dos insectos, perdizes gralhadoras que iam de monte em monte, tordos, poupas, melros. Nos vinhedos das encostas, por entre os renques verdejantes, gente em mangas de camisa ia fazendo as vindimas. Pelos caminhos em torcicollos, viam-se os que desciam aos moinhos, tangendo machos carregados de taleigos, e berrando-lhes cadacho! que se ouvia na outra ladeira. Já nas povoações proximas, sinos chamavam para a missa de alva ou tocavam a Ave-Marias. Nas quintas casaes fumegavam os tectos, dizendo horas de almoço. De modo que o sol quando rompeu, solemne e triumphante no ceu immaculado, encontrou muita vida pelos campos, toda a Natureza accordada para a labuta interminavel do dia.»«No notavel estudo de psychologia litteraria de M. Fr. Paulhan sobre a descripção pittoresca, então habilmente apreciados os elementos constitutivos da pintura do meio, em todas as suas maneiras diversas na qualidade e na intensidade.«Chama-se imaginação sensivel», diz o distincto observador, «o acto pelo qual nós nos representamos um objecto ausente, e esta representação, como tem sido ha bastante tempo notada, não é,—principalmente se considerarmos só certas classes de imagens,—senão uma copia enfraquecida d'uma sensação. Por exemplo, se eu trato de me representar um momento, um quadro, uma estatua, qualquer coisa que imagino, se as minhas recordações são bastante nitidas, é uma especie de copia enfraquecida da sensação que eu terei, se vi realmente o monumento, o quadro ou a estatua. A imaginação, tomada até no sentido restricto que lhe damos aqui, varia muito d'uma pessoa para outra, quer em intensidade, quer em qualidade. Por um lado, certas pessoas teem as imagens, as representações muito mais enfraquecidas, mais vivas, mais concretas; em uma palavra, as suas imagens approximam-se muito da sensação; outras, pelo contrario, são inclinadas para as idéas abstractas e teem necessidade d'um esforço para se representarem as sensações d'uma maneira um pouco nitidas. Tem-se reparado que a visão mental, nitidissima em geral nas creanças e nas mulheres, torna-se muito fraca e por vezes desapparece nas pessoas preoccupadas sobretudo de ideias abstractas, ou habituadas a não exercer a sua imaginação visual. Eis uma pequena experiencia indicada por Wundt, que, mostrando as analogias entre a imagem e a sensação,parece pôr em relevo tambem as differenças individuaes com relação á intensidade com que a imagem concreta é percebida. Sabe-se que quando fixamos o olhar por algum tempo n'um objecto corado, se voltamos os olhos para uma superficie parda, vemos uma mancha corada da côr complementar da primeira. Se o objecto era vermelho, a mancha será verde, e reciprocamente; se o objecto azul indigo, a mancha será amarella, etc. Ora é possivel, mas isto não succede a toda a gente, perceber esta côr complementar não só depois de ter fixado um objecto corado, mas simplesmente depois de o ter imaginado. Póde-se, por exemplo, pensar n'uma cruz vermelha: lançando em seguida os olhos para um papel pardo, deve-se ver uma cruz verde, se ha uma boa imaginação visual.»«Essa imaginação parece tel-a o sr. Trindade Coelho. A vivacidade, tonificada quiçá por um poucochinho de nostalgia, do seu descriptivo, que nos dá conjunctamente a impressão da forma, da côr, do som, e até ás vezes do aroma, representa um phenomeno especial de evocação sensacional. E o maior encanto da sua obra é esse, e, depois d'esse, a intima satisfação que faz aflorar, aos labios do leitor inteligente, um sorriso de doce commoção, a cada singelo episodio das suas narrativas, todas frescas e sadias, e cujo menor merito não é, decerto, o de serem escriptas n'uma linguagem airosa e despreoccupada, mas tersa e legitimamente portugueza.O livro do sr. Trindade Coelho não é para ser sujeito a longas analyses introspectivas, o papel da critica peranteOs meus amoresé bem facil, porque ella deve quasi cingir-se á affirmação do seu applauso incondicional, ou ao registo da repulsão do processo do escriptor, o que póde muito bem representar uma livre depravação de gosto.Por mim confesso sinceramente que me deixou no espirito a mais amavel recordação, para a oxygenada, a leitura d'essas bellas novellas rusticas, todas impregnadas d'uma ideal graça campesina, tilintando d'um ecco amoravel de arroio murmurante, que discorre mansamente por entre margens baixas, bordadas de sécias e papoilas: e, para a minha sympathia, desejo mencionar eapecialmente o conto que abre o livro e o caso doSultão.—Armando da Silva.»Tim Tim Por Tim Tim:—«Um grande poder d'observação e uma enorme justeza d'expressão, constituem, quanto a mim, as duas essenciaes qualidades litterarias de Trindade Coelho, puras auxiliares da sua alma de verdadeiro artista, aberta á comprehensão ampla da natureza, e fundindo os phenomenos, as coisas e as creaturas n'um conjuncto nitido que se desata em descripções opulentas de vida e de calor, fulgurantes d'energias dominadoras, prodigas d'imagens que o melhor crystal de Veneza não teria reflectido tão bem, avigoradas em onomatopeias possantes que prendem o espirito mais inculto e o obrigam, alli, a fixar e a comprehender o objecto que o auctor quiz frisar.E essas qualidades resaltam brilhantemente de todos os contos quecompõemOs meus amores, realçadas ainda pela fina emotividade que o delicado sentir do auctor transmittiu a cada scena onde o coração tem parte, ou seja o coração de qualquer d'aquelles dois pequenos doIdylio rustico, ou o daRussa, a bella cabra que no meio de mil angustias de mãe morre junto ao filhinho. E se o querem surprehender a elle proprio, a Trindade Coelho, em flagrante de uma ternura honesta, viva e sentida, vejam o affecto que irradia d'aquellePara a escola, quando falla da velha e boa criada que o levou ao mestre das primeiras lettras.Se das coisas affectivas, que mais o namoram, e das descripções naturaes, que mais o apaixonam, Trindade Coelho desce a brincar um pedaço caricaturando uns typos com tanta sobriedade dechargeque mais nos parece estar fazendo retratos, saem-nos então figurões como os da villoria daComedia na provincia, que entreteem a tarde na praça a dizer mal uns dos outros. Tão verdadeiro noscroquiscomo nos habitos. E quando aos typos pode juntar um estudo de costumes, aquellaVespera da festaexemplifica vantajosamente o que elle sabe fazer.No fim do livro, foi para mim surpreza aquelle excerpto dasBatalhas domesticas, onde me pareceu descobrir uma novissima orientação do auctor, inspirada porventura n'uma atmosphera densa d'innovações que vae por ahi. Claro que o seu talento adapta-se mais essa fórma com a malleabilidade com que a tudo se sujeita, mas se eu tivesse a caracteristica litteraria de Trindade Coelho, evidenciada em tantos escriptos, não a sacrificaria a coisa alguma.O que o livro é, em summa, é um conjuncto de bellezas que tem sido largamente apreciado pelos fanaticos da Arte; e oxalá seja apenas a promessa de muitos outros, que pennas como aquella não devem calotear-nos na contribuição que nos devem.—Mas,—perguntou-me um dia d'estes alguem—porqueOs meus amores, e não qualquer outro titulo?Não respondi. E demais eu sei porque deu Trindade Coelho esse nome ao livro onde ha tantos trabalhos de tempos que lhe são saudosos e em que lhe foi grande parte da alma, da sua bella alma de rapaz que nenhuma lama d'este mundo é capaz de conspurcar.—Santos Gonçalves.»Revolução de Setembro:—«Os meus amores, contos e balladas por Trindade Coelho.—Um livro peregrino, que se lê com encanto e que nunca mais se esquece. É um talento e é um artista quem escreve assim. Uns contos singelos, attrahentes, delicadissimos, admiraveis de observação e de honesto realismo. Esbocetos apenas; mas que admiravel simplicidade de colorido em alguns delles e que tons inapagaveis de verdade!Uma bella obra d'arte e uma altiva lição.Alli está como se póde chegar ao naturalismo na litteratura, sem estropear a lingua e sem chegar ás torpezas da pornographia. Para attrahir, para ser original, para impôr a supremacia do seu talento, para conquistar o applauso sincero dos que lêem, Trindade Coelho não precisou de escreverextravagancias, nem de escalavrar pustulas, nem de escancarar bordeis.Ahí fica uma rapida noticia do livro. Voltaremos a fallar d'elle, se o tempo nos chegar para a homenagem que desejamos prestar ao seu auctor.»Correio Elvense:—«Os meus amores.—Com poucos dias d'intervallo as lettras portuguezas contaram dois ruidosos successos de livraria.Depois de apreciar oBarão de Lavos, obra de analyse, de profunda observação, resentida do exaggero do naturalismo e do caracter quasi scientifico que actualmente se pretende imprimir aos livros, que devem ser exclusivamente litterarios, mas que, não obstante este pequeno senão, confirmou plenamente todas as esperanças que o nome de Abel Botelho creára com os seus livros anteriores, a critica tem de render respeitosa homenagem ao trabalho d'um outro escriptor novo como aquelle e como elle egualmente distincto pelos brilhantes dotes do seu espirito, pela sua notavel orientação litteraria e pelo esplendor de fórma que caracteriza todos os seus escriptos, mesmo os mais despreoccupadamente feitos.Sinto um delicioso prazer de consciencia ao traçar estas linhas. Momentos como este são mesmo os unicos oasis em que se reconfortam os que, dia a dia, esgotam o melhor das suas faculdades na faina improductiva e ingloria do jornal.Tracto de apreciar o trabalho d'um amigo, d'alguem a quem me unem intimas relações de confraternidade e sympathia e ao ter de formular o meu juizo conheço que posso manifestar o mais incondicional louvor e applauso sem que se suspeite que as minhas palavras são reflexo d'um sentimento pessoal, mas sim a expressão exacta e verdadeira d'uma admiração justamente sentida, solidamente baseada.O livro a que me refiro intitula-se:Os meus amores. E em tudo corresponde ao encanto d'este titulo.Com que saudade li as ultimas paginas!Por vezes desejava espaçar essa leitura para demorar o delicado prazer que sentia, n'outras precipitava-a soffrego de admirar a naturalidade das descripções, a limpidez e o crystallino do estylo emocionante e simples, tão delicado e ao mesmo tempo tão poderoso que dá vida aos mais diversos sentimentos desde o pavor do remorso do assassino José Gaio, até á recordação saudosa e terna que o auctor sente do primeiro dia em que entrou na aula d'instrução primaria da sua modesta aldeia.Dando a impressão singela e despretenciosa que me cansaramOs meus amores, não vou referir-me demorada e especialmente a cada um dos pequenos quadros que formam esse livro verdadeiramente consolador. Na epoca actual quando os vicios da sociedade e a decadencia dos nossos dias nos gravam no espirito, a cada hora, um carimbo de desanimo e descrença, quando a litteratura, obedecendo á vertigem mais do que nervosa,allucinada, que caracterisa ofin de siècle, cria as escolas mais extravagantes que se comprazem em baralhar todas as ideias, em apedrejar as normas mais impeccaveis e até agora consagradas da arte, e em descrever todos os aspectos da natureza com as palhetas mais escuras e muitas vezes asquerosas, sente-se conforto, adquire-se animo, desannuvia-se o espirito ao vêr que ainda ha alguem, a quem sobeja talento e tenacidade, que escreve 200 paginas de prosa sã, eminentemente sentida, deliciando-se na descripção das scenas mais simples e tocantes, na apotheose da natureza em toda a sua magnificencia e no convívio da vida campesina, tão cheia de sinceridade e de encantos, tão livre das convenções e pretenciosidades que dão um tom falso e mentido aos sentimentos da sociedade em que vivemos.Disse em cima que não me alongaria no esmiuçar de perfeições de cada um dos contos e balladas que formamOs meus amores. Não representa este proposito ideia de menos consideração pelo livro ou por quem com tanto amor o escreveu. Ao contrario, sinto que não posso, a não transformar este artigo n'um hymno laudatorio, referir-me especialmente a cada um d'aquelles contos e balladas. Mais do que este motivo domina-me o de não poder alongar demasiadamente a apreciação que estou fazendo.Muitas das paginas que Trindade Coelho reuniu no seu livro já as haviamos lido e simultaneamente admirado, publicadas em differentes jornaes. Como escriptor conheciamos tambem o primoroso estylista dosMeus amorespelos seus trabalhos jornalisticos, já na bohemia coimbrã, já em pequenas folhas de provincia e ultimamente nos jornaes da capital, trabalhos em que elle empregava o escrupulo e a correcção que nunca abandonam os verdadeiros artistas.Pelos seus trabalhos litterarios ha muito que formára a opinião de que elle se podia alistar sem desdouro ao lado do Conde de Ficalho, de Fialho d'Almeida e de Teixeira de Queiroz que, no meu parecer, são, em Portugal, os mais distinctos escriptores contemporaneos d'este genero, na apparencia tão ligeiro, mas no fundo tão complexo e difficil, a que se denomina:Contos.A leitura do recente livro enraizou-me mais a opinião formada.Pelo sentimento descriptivo, pela verdade dostypos, pela naturalidade do dialogo, e pela modalidade do estylo que se apropria sem o minimo esforço a todas as impressões que pretende transmittir, o auctor dosMeus amoresprova que não desconhece nenhum dos segredos do genero de litteratura que tão brilhantemente cultiva, e que não é inspirada na amizade a opinião dos que, não obstante elle terçar agora quasi as primeiras armas, o consideram já como um escriptor distinctissimo e n'um futuro muito proximo um mestre consagrado.O livro abre com um soneto formosissimo e nem podia deixar de ser assim desde que se saiba que o firma Luiz Osorio. Portico apropriado ás bellezas que nas paginas que se seguem se accummulam com uma riqueza oriental.Não obstante o meu proposito de não me referir nomeadamente a nenhum dos pequenos quadros, não posso deixar de dizer rapidamente da impressão que me causou aUltima dadiva, um primor de sentimento, uma pagina emotiva arrancada em flagrante a uma das scenas em que tão variadamente se divide a tragedia em que se debate a humanidade; oVae victoribus, onde passa um folego de epopeia, em que o estylo attinge alturas quasi desconhecidas, casando se com uma verdade admiravel a grandiosa ideia em que se inspira o conto;Para a escola, quadro delicioso a cuja leitura cada um de nos sente accordar uma recordação muito querida de infancia descuidada e alegre, e por ultimo: osArrulhos, em que Trindade Coelho ostenta gloriosamente todas as qualidades do seu estylo tão malleavel e tão justo.Além d'estes contos, que especialmente destaco pela admiração que me inspiraram, são modelos de humorismo e de verdade os doisPreludios de festaeTypos da terra.Quem escreveu osPreludios de festae especialmente osTypos da terra, é porque estudou com muita attenção, com muito cuidado, os personagens que mais avultam na vida das nossas aldeias e terras pequenas. São typos tirados do natural, com uma perfeição photographica em que Trindade Coelho denota o mesmo rigor de execução que demonstra na descripção da natureza nos seus mais variados aspectos.Por ultimo, e para não se dizer que eu n'este paiz de má lingua realisei o cumulo de escrever um artigo só de palavras encomiasticas e sem a minima censura ou reparo, devo dizer que não gostei doSultão, lastimando que Trindade Coelho gastasse tantas paginas d'um estylo formosissimo n'um assumpto que sem duvida é verdadeiro, mas que não commove o leitor, nem lhe imprime, pelo menos assim o julgamos, a minima impressão duradoura. Para Trindade Coelho manifestar todos os seus recursos d'estylista, não precisava realmente doSultão.O livro faz parte da edição mensal d'obras portuguezas, editada por Antonio Maria Pereira, um trabalhador incansavel a quem as lettras portuguezas devem assignalados serviços.Está impresso com o maior escrupulo e revisto com um cuidado e esmero a que nem sempre estamos habituados.Terminando estas linhas tão despretensiosas como sinceras, fazemos votos para que Trindade Coelho possa continuar a furtar algumas horas á semsaboria dos autos e a deliciar-nos com novos livros, tão perfeitos como este, para honra do seu nome de escriptor já tão justamente laureado, e agradecemos ao amigo a offerta do seu livro, archivando a dedicatoria que elle contem como nova prova d'uma amisade a que somos profundamente gratos, e devotadamente retribuidores.—Lourenço Cayola.»Tribuno Popular:—«Os meus amores.—Recebemos o volume daCollecção Antonio Maria Pereira, que sob aquelle titulo contém alguns contos do apreciado contista Trindade Coelho.Pela rapida leitura de dois d'elles—O SultãoeTypos da terra, parece nos que a collecção é estimavel, e que os contos são joias de grande preço da nossa litteratura, pela linguagem pura genuínamente portugueza, e pela graça da contextura originalissima, nacional, sem laivos d'imitação estrangeira, em que se pintam scenas e episodios, cheios de verdade e de encantadoras descripções, da vida portugueza nas provincias.»O Seculo:—«Os meus amores, por Trindade Coelho.—É um livro de contos, editado pela casa editorial do Antonio Maria Pereira, a publicação recente que mais tem emocionado, com justo motivo, o nosso meio litterario, bem pouco acaroavel e mazorro no fundo, sobresaltando-se com tudo quanto perpetra o escandalo de não ser rotineiro, ou vulgar, e bem pouco emocionavel tambem—diga-se a verdade.Parece uma contradicção; mas não é. Se o nosso bom publico fosse dado a esbanjamentos de emoção artistica, não o sobresaltaria tanto a pessoalidade, e o imprevisto.O sr. Trindade Coelho accumula com o seu cargo official de magistrado severo, a profissão, ou antes o desenfastio espiritual de ser homem de lettras, nas suas horas de remanso.É só, porém, como homem de lettras, que nos compete em tal logar aquilatar-lhe a esthésia, e as faculdades de emoção, ou de attenção artistica.Ambas estas possue o sr. Trindade Coelho, em subido grau. A fórma adapta-se perfeitamento ao fundo, e é sempre fluente, vernacula, concisa, e precisa. É sóbrio no descriptivo, e não raras vezes enternece. Não commette a velharia de desenterrar obsoletos termos classicos, sem incisão, sem propriedade, e sem côr, muito parecidos com o latim, mas que no fundo não são nem latinos, nem portuguezes, nem onomatopaicos, e que fizeram a delicia de Filynto. Nem perpetra tambem o mau gosto de empregar neologismos inuteis, e risiveis, possuindo na linguagem patria instrumentos magnificos d'expressão. Sabe a sua lingua, como raros: e o conto, que é, quanto a nós, a forma mais perfeita, mais completa, e mais delicada da prosa, e tambem a mais transcendente e lapidar, achou n'elle um habil e equilibrado interpetre. Os contosSultão,Maricas,Typos da terra,Mãee sobretudoPara a escola, não contam muitos rivaes na lingua portugueza nem nas estranhas.O seu pequeno livro ha-de ficar na litteratura nacional, quando de centenas de romances em seiscentos volumes já ninguem rememorar o titulo sequer.—Gomes Leal.»Revista Illustrada:—«Os meus amores, de Trindade Coelho.—Que deliciosa impressão me deixou aquelle livro, tão adoravelmente simples e sentido!Antes, porém, de começar a analysar, conto por conto, esse fino trabalhode Trindade Coelho, preciso dizer duas palavras explicando a razão porque me merece tanta sympathia o seu auctor, que de nome conheço só.Li pela primeira vez o seu nome em umas correspondencias de Portalegre, notavelmente bem feitas, e em que elle elogiava muito um pequenito, distincto em todos os exames.Aquelles adjectivos de amigo bom e enthsiasta fizeram-me convencer de que—o delegado de Portalegre—era um excellente rapaz.E digo rapaz, porque todos nós temos o habito de considerar sempre muito novos aquelles que são da nossa edade... Depois, graças a uma amiga minha, escriptora de grande talento soube que Trindade Coalho era um grande admirador de Loti—o meu preferido romancista!—admiração enthsiasta que elle descrevia em cartas deliciosas de uma vibração que fazia pena não ser repercutida mais longe... Fazia pena ser indiscrição publical-as!Traduzia elle então o «Pescador de Islandia»; tradução esplendida que aGazeta de Portalegrepublicou e que o traziaempoigné. Para elle era já uma suggestão, aquelle trabalho primoroso.E desde então, Trindade Coelho ficou sendo para mim um artista. Dava a Loti todo o valor que elle tinha e que ultimamente alguem se comprazia em querer negar ao academico gentil.Em seguida li uma suavissima elegia escripta á memoria de Antonio Fogaça—uma flor ceifada ao desabrochar!—Eram meia duzia de palavras cortadas por soluços:—eu sei, infelizmente, quando se escreve assim!...Finalmente, o seu nome vibrou de novo aos meus ouvidos, quando os jornaes annunciaram que elle arrancára um preso á cadeia de Portalegre. Um preso que era um innocente, e que, como tantos outros, estava condemnado a ouvir soar, em vida, a hora da justiça... Publicavam tambem o effusivo telegramma em que Trindade Coelho agradecia ao nosso magnanimo rei o seu perdão.E eu d'essa vez chorei! Como me succede sempre que um homem põe a lucidez do seu talento e o enthusiasmo do seu coração ao serviço da humanidade que soffre...O nome do dr. Trindade Coelho gravou-se então indelevelmente na minha alma.Eu só fixo o nome dos bons.E pensei em que devia ser uma grande mulher a mãe d'aquelle homem! Os filhos herdam, geralmente, o coração das mães...Ultimamente a imprensa annunciou o livro que acabei de lêr. Pedi-o rapidamente para Lisboa, e li-o de um folego.Abre com um soneto delicioso, escripto pelo espirito gentil de Luiz Osorio—uma alma luminosa, que brilha na transparencia dos seus versos filigranados e vibrantes...Segue se oIdylio rustico—um amor—atravez do qual nós vêmos subir lentamente a estrella d'alva que illuminava, coando a sua dôce luz pelo colmo da cabana, duas cabecinhas gentis, adormecidas junto uma da outra...Depois oSultãoum conto singelíssimo cheio de naturalidade, em que o Thomé nos communica a sua alegria contagiosa levada á loucura com a volta do... amigo—bem mais fiel do que muitos outros!AUltima dadiva, um braçado de goivos atirados por «um simples» a uma sepultura onde lhe ficára preso o coração para sahir de lá no dia em que teve de se diluir, na esteira do barco que lhe levara o filho para o Brazil.AComedia da provincia, magnifica de côr local. Magnífica, principalmente para quem conhece typos semelhantes e já tem visto aMorgadinha de Valflôr—essa perola!—representada pelo Marques do correio... vestido de saias! Para quem dá todo o valôr a esse esplendido estudo de costumes provincianos.Vae victoribus, uma sugestão de remorso primorosamente traçada...Maricas, uma adoravel poesia escripta em prosa.Para a escola, um beijo de gratidão de uma singelesa adoravel.Tragedia rustica, um vibrantissimo estudo das miserias humanas.Abyssus abyssum, o agonisar de dois anjos, sob o olhar de uma estrella...Mãe, a flôr mais linda do ramo, enlevo e agonia de todas as mães que eram capazes de morrer assim—sem abandonarem os filhos... E, finalmente, asBatalhas domesticas.Repito, deixou-me uma impressão deliciosa o livro de Trindade Coelho, que é, a par de um primor de delicadeza, sentimento e arte, um livro honesto, que não fatiga os homens nem faz córar as mulheres. Por isso aconselho a todos que o leiam.—Margarida de Sequeira.»Portugal:—«Livros Novos.—A acolhida feita ao notabilísissimo livroOs meus amores, do nosso querido amigo e illustre confrade, Trindade Coelho, tem sido a que em tempo lhe vaticinámos: em toda a linha o mais legitimo, o mais espontaneo, o mais unanime e o mais carinhoso triumpho.Bem o merece o crystallino talento, e a ineluctavel tenacidade no trabalho, do brilhante escriptor, que em meio dos violentos paroxismos que na caça de sensações e effeitos novos hoje pavorosamente desarticulam omeiolitterario europeu, tem uma força de restringir-se a soltar suavemente, com uma sobriedade campesina e tranquilla, a melodia emocionante, ingenua e simples do viver aldeão; e que por entre o estridulohallalide obscenidades, imprecações, blasphemias, dôres, gemidos, que doloridamente rebôam pelas soturnas naves d'este immenso hospital, que é o mundo, ainda encontra a suprema arte de fazer escutar, enternecedoramente, um docetrillosentimental, uma ou outra ligeira nota affectiva, algum limpo e captivante movimento do coração.Bem haja.Do côro unisono de quasi incondicional applauso com que a imprensa tem celebrado a apparição d'Os meus amorestranscrevemos hoje um magnifico artigo doCorreio Elvense, devido à penna d'um dos mais lucidos e impetuosos engenhos da novissima geração.» (Seguia-se a transcripção.)Diario Illustrado:—«Os meus amores, contos e balladas, por Trindade Coelho.—A forja do tempo caldeia-nos o espirito á proporção que envelhecemos. É por isso que os rapazes se desdoiram ás vezes de ouvir os velhos, e parece-me que teem razão, porque nem sempre o são juizo de uma experiencia larga, sabe limar as arestas da caturrice no estudo circumspecto... Eu tenho acompanhado, cantarolando e um pouco a rir com singular scepticismo, este meu seculo, que está no fim, e com elle tenho vindo estudando e aprendendo. Ruiram as theocracias litterarias, revoluteou-se a philosophia, crearam-se novos processos de estylo, arrancou-se o chiró ás velhas phrases, e todo um mundo novo, extravagante e phantastico tem surgido,—mau grado as furias rabídas de escriptores paleontologicos, apparafusados á Arte e á Critica de ha 50 annos e cheios de amor e melancolia... Ora essa aprendizagem do meu seculo tem-me custado amarguras aterrantes, desequilibrios de espirito e um desfolhar de verdes illusões, que eu tenho visto irem-me fugindo n'ummarche-marchetriumphal, para nunca mais voltarem,—ai! para nunca mais voltarem!...A vida do escriptor moderno, toda torturante e nevrotica, dá-me a impressão tenebrosa dos contos de Poe, postos palpitantemente na vida real de nossos dias. E lembro Camillo pedindo ao pedaço de chumbo de uma capsula o ponto final redemptor de agonias crudelissimas; Julio Machado, de pulsos cortados, fitando com olhar sangrento o retrato bem amado do filho,—a alegria ruidosa dos olhos da sua alma,... e quantos outros, bom Deus! Dir-se-hia que umamá sinapersegue os homens de lettras:—quando não é a navalha de barba, é o rewolver, é a consumpção, é a tisica, é o retrahimento amargo, é o abandono proprio e alheio! Por isso o meu visinho Gervasio todo se ufana, com certo profundo bom senso pratico, da insistencia com que quer fazer do filho umartistapintor—de portas, e de fóra de portas...Natroupede escriptores em flôr do meu tempo,—parece-me que já lá vão 30 annos, e tudo isto é apenas de hontem!—havia, joeirados com singular amor de arte pura, uma duzia de rapazes de incontestavel valor litterario, desabrochando esbanjamentos de talento pelas gazetas e revistas mundanas. Poetas e prosadores, contistas e dramaturgos, miniaturistas da poesia, do romance e da chronica, d'essa pleiade de rapazes, um tanto insubmissos e um tanto bohemios, alguns treparam triumphantes,—poucos; outros, quasi o resto, ou foram ainda verdes da vida para os cemiterios das suas aldeias, ou, o que é quasi o mesmo, deram-se a callejar as mãos, dissolvendo as suas aptidões de plumitivos incipientes, nas minasde oiro e de ferro da lucta pela vida. Dosfelizes, dos que triumpharam,—como quem diz, dos vencidos da vida,—me sorria eu ás vezes em horas de bom humor, lembrando-me como elles com um livro de versos foram nomeados consules; com um tratado sobre a cultura do repolho abriram oBanco Mineral do Douro, por acções; com um drama emD. Mariaforam eleitos deputados; ou como com uma critica doSalonde S. Francisco, se guindaram a bibliothecarios das bellas artes e hortaliças correlativas... Dos outros, dosperdidospouco me lembra! Eduardo Salamonde foi-se a espantar os philisteus do Pará, applicando-lhes aos figados hypertrophicos a vermelha caudal da sua prosa mirabolante; Xavier de Carvalho desappareceu em Paris pelo alçapão macabro dacorrespondenciabarata; Gualdino Gomes anda ahi amparando o seu rheumatismo a uma certamaneirade má lingua e a uma bengala de canna; Leopoldino Gonçalves viaja como medico da armada; e Fortunato, quando as saudades lhe são mais amargas, abandona o Alemtejo, onde toma pulsos a doentes pela tabella da camara, e apparece ás vezes nedio, côr de fiambre, cheio de barbas, a olhar com tedio os copinhos de cognac doLeão...De todos os rapazes do tempo das minhas alegrias côr de rosa, o que me traz mais doces recordações é Trindade Coelho,—porque eu ligara á minha a alma d'elle, n'um tempo em que dos salgueiraes de Coimbra elle me fazia para uma folha alegre de que eu era director, umas chronicas soberbas, vivas, rendilhadas, cheias de colorido e de affirmações de uma personalidade litteraria. A sua prosa, a um tempo humana e lyrica, dava-me a impressão de um romantismo degenerado... De Coimbra, como sabem, além de bachareis anonymos, tem-nos vindo aelitedas letras. É da tradição universitaria, fazerem os doutores as suas primeiras armas de litteratos e de poetas, na academia, a intervallos do pesado estudo do Lobão e do direito publico, esvurmado ás cavalleiras do nariz de Pedro Penedo... Toda a nossa legião distinctissima de poetas e prosadores modernos deriva litterariamente da bohemia coimbrã:—Theophilo, Eça, Junqueiro, João de Deus, Anthero, etc. É a affirmação do bom Antonio Ferreira feita axioma:Não fazem mal as musas aos doutoures.E não fazem. Tem-se visto. Vão lá inquerir a Junqueiro das bellezas do Codigo Civil, meio metaphysicamente original e meio copiado dos codigos de Napoleão! Ah, mas em compensação que appareça ahi o primeiro advogado a escrever aMorte de D. Joãoe aMusa em ferias!Os cantos de Trindade Coelho são narrativas ligeiras, descripções n'uma bella prosa colorida e transparente, trechos de psychologia trasmontana, e um ou outro caso humano superiormente observado. Sobretudo amaneirado proceder litterario d'este escriptor é deliciosa de côre de verdade, sem grandes esmerilhamentos de phrase, nem deslumbramentos de imagens na apparencia côr de oiro, que, em regra, não fascinam senão os saloios ingenuos dos cordões de latão... Tem-se chegado ahi, no abuso da originalidade do estylo, a fazer uma prosa estrelicada, engommada, cabellinho á banda, com risca, como os caixeiros de modas ao domingo! O burguez já conhece os processos dachinoiserie, e d'ahi não ha espantal-o com nephelibatismos doentios, de importação barata; bem sabe elle que debaixo d'essas bellezas está a oleographia reles de porta de escada, da sultana escarlate que apara as unhas, ou do frade que enxota a mosca do nariz,—muito de apreciar nos covis da municipal em Alcantara...O livro de Trindade Coelho tem um certo resaibo de saudavel trabalho, feito com honestidade e sem as preoccupações deploraveis que levam os corypheus da escola modernissima, mais que zolaista, á descripção e estudo de pathologias e casos sporadicos, ou não vivos, ou pouco vívidos. Este livro á quasi um parenthesis aberto como uma clareira consoladora na torrente ultra-realista dos ultimos trabalhos apparecidos, dosujetde um dos quaes, que é em todo o caso a monographia de um caracter, assombrosamente executada, oGil Blasdizia,—qu'on ne peut lui serrer la main que par derrière...A feição litteraria de Trindade Coelho parece-me que se define na parte do livro sub-tituladaBalladas. OsArrulhos, principalmente, são uma duzia de paginas encantadoras, que lembram Droz e Daudet. É uma elegia... tragica,encadréen'uma linguagem côr de opala, em que a gente parece estar vendo Hoffman braço dado a... João de Deus! É uma obra prima. Assim aTragedia rusticae aMãe. Doscontosdestaco eu osPreludios de festa,Idylio rustico, osTypos da terra, onde ha paginas soberbamente observadas, suggestivas,d'après nature. Magnifico o assasinoJosé Gaio.Trindade Coelho é inquestionavelmente um lyrico. E nem eu sei como elle chegou até aqui sem trazer na mala um volume de versos—Florinhas de Luar, por exemplo! Devemos-lhe o grande favor de não conhecer os diccionarios de rimas, senão a estas horas era uma vez um contista encantador... sossobrado!—Ignacio da Silva.»Nova Alvorada:—«Meu caro Trindade Coelho.—Sabe você, amigo Trindade, que as palavras affectuosas que me endereçou no offerecimento do seu livroOs meus amores, vislumbraram no meu espirito um mundo de saudosas recordações, como se foram fugazes emanações balsamicas d'uma quadra primaveril que não volta mais—a vida coimbrã?Parece-me que tenho ainda presente na retina a sua figura um pouco baixa mas robusta, assuas feições masculas e energicas, e a suaallureum pouco receiosa ao dobrar a soleira da legendaria Porta Ferrea.Com o seu olhar penetrante e incisivo, mas velado por umas lunetas de grau apurado, sob a pasta d'um quintannista, mirando á direita e á esquerda,entrou você nosGeraesresignado a um diluvio de troças, martyrios, horrores...Os segundannistas, de cuja respeitavel corporação eu fazia orgulhosamente parte, não o arreliaram logo, talvez porque lhe não encontrassem uma physionomia de chuchadeira, como a d'um Armelim, nem um rosto gretado, empedernido, de homem terciario, como o do bom Raphael do Ranhados.Mas em que diabo foram elles depois embicar, os malvados!Em uma medalha d'oiro que você trazia, á guiza de berloque, na corrente!O amigo arrancou pressuroso apedra de escandalo, de forma que a tempestade de piada desannuviou-se a tempo no seu horisonte de novato.Depois, um ou dois annos, apparece o amigo com accentuações de academico fallado, o seu nome a salientar-se das vulgaridades escolasticas, a sua individualidade a destacar-se, como se fôra umurso. E assim se fallava do Trindade, como do Luiz Osorio ou Feijó por causa dos versos, do Passaro pela fina chalaça, do Saraiva pela força, do Miguel Baptista—pobre amigo!—pelo talento e pelas abstracções, do Banalidades pela gralhadora loquacidade, e tutti-quanti.Você desencubou o seu nome, pol-o em evidencia—o Trindade—, mas foi por causa d'um excellente resumo das lições de direito romano, d'um bello discurso no centenario pombalino, e sobretudo das suas graciosas chronicas noDiario Illustrado.Ah! e lembra-se você d'aquelle anno em que formámos «republica» na rua da Trindade, tendo por creada a sr.aMaria de qualquer coisa, que denominavamos aGorda, matrona muito caroavel e de enxundiosas formas?Eramos uns poucos:O Souza, que já tem o galão branco dos tribunaes administrativos, espirito facil, perspicaz e alegre, nada para massadas, que tinha orientações definidas em politica partidaria e expedientes reservados de galopim graúdo contra os progressistas da Barca.O Manoel Nunes, hoje em Barcellos, muito lucianista, devorando o evangelho doCorreio da Noite, sempre em questiunculas com aquelle por causa dos seus ideaes politicos encontrados, grande passeador e jogador de manilha, um tanto lambaz porque sahia mais cedo e sorrateiramente dos theatros, dizia-se, para comer a ceia dos retardatarios, guardada pelaGordan'um cantinho do fogão.E o Figueiredo que se ria pelos olhos e pelo hirsuto bigode quando lhe chamavamos o Pêgas, o Covarruvias, e lhe liamos um imaginario plano, rigoroso e draconiano, de reforma dos Estatutos da Universidade? Muito desconfiado e estudioso, só não encavacava quando lhe diziamos que elle se applicava... 25 horas por dia!Depois o Rocha Peixoto, o Bicho, d'aspectosournois, olhos á bufo,que não fallava ainda que o esmurrassem, pobre caloiro silencioso e contumaz!Em seguida o Sergio Carneiro, o Grillo, seu comprovinciano e hoje conservador algures, com cara de cera, esboçada, sem feições lavradas, muito guitarrista e risonho, se bem que intelligente e applicado.Eramos mais—você e eu. Você que se mettia muito com a litteratura, fechado no quarto, lendo... lendo... escrevendo...; e eu, que por signal dediquei um fado aos membros da republica, o qual nas vesperas de feriado se cantava, em algazarra tonitroante, quando o Grillo condescendia em o acompanhar na guitarra.Depois de 1883 creio que nunca mais nos vimos. O amigo marchou mais tarde para Sabugal e eu para Cuba, e hoje está nos tribanaes de Lisboa e eu no berço da monarchia.Agora vejo-o, litterato conhecido e conceituado, a publicar os seus bellos contos em um elefante volume—Os meus amores.E bellos na verdade, como todos dizem.AMãe, aquella cruciante tragedia da pobreRussa, morta de terror e de amor, é para mim o mais apreciavel e sentido conto da sua collecção.Costuma-se dizer d'uma mãe descaroavel, d'uma Francisca Fortunata—é uma cabra!—; mas o amigo teve artes de desmentir o erro grosseiro, vingando as calumniadas affeições dos pobres ruminantes.Quem ler as angustias da miseraRussa, na espectactiva do filhito devorado pelo esfaimado lobo circumvagante, restituirá áquelle inoffensivo animal o sentimento d'amor maternal, a natural comprehensão das suas obrigações de mãe e protectora.E osArrulhos? Se me não engano você escreveu esse conto em Coimbra. Creio até que um dia, estando a jantar, o amigo recebeu um jornal qualquer de Vigo, Corunha ou Pontevedra, em que a sua bella producção vinha traduzida no idioma de Cervantes com o titulo dePalomas.Nos restantes contos, entre os quaes me não agradaram menosVae Victoribus, oAbyssus abyssume oSultão, revela o amigo a força da sua educada phantasia, moderada por um largo peculio de observação; a sua poderosa intuição artistica; o seu dialogo curto, vibrante e natural; o seu estylo já caracteristico pela feição franca,saccadèe, de dizer e narrar; a propriedade das locuções; o bom emprego dos termos; a verdade das suas descripções e pinturas, que, ao contrario de muitos, não repete, tinta para aqui, tinta para acolá e vice-versa, n'uma pobreza reles de palheta, que faz lembrar casacos virados ou coisa similhante.Olhe, amigo. Eu careço de geito para a critica litteraria; mas, emquanto me é licito exprimir a minha humilima opinião, dir-lhe-hei que você alarga cada vez mais e com mais rapidez a sua reputação de litterato distincto e de contista precioso; e que este conceito é merecido, attestam-no os seus valiosos escriptos dispersos e a sua elegante brochura recem-editada.Resta-me felicital-o cordealmente, amigo Trindade, a agradecer-lhe a sua fineza com um abraço de—Velho amigo—Eduardo Carvalho.»Nova Alvorada:—«Os meus amores.—Acabamos de ser distinguidos com a offerenda do novo livro de Trindade Coelho,—o sympathico e distincto escriptor que de ha tempos se vae honrosamente evidenciando no certamen das lettras patrias, onde já agora a sua individualidade tem uma reputação firmada.Os meus amoresé o titulo que o sr. Trindade Coelho escolheu para o seu livro de contos e balladas, e se assim lhe chama, segundo cremos, não é porque estas 200 paginas sejam um auto-historiographico dos idylios romanescos do auctor, n'quella aurea quadra da sua vida academica, ou um repositorio de alheias aventuras amorosas com acompanhamento obrigado ao bandolim do trovador lendario.Não. A razão do titulo parece-nos antes proceder da affectividade psychologica do auctor para com a sua obra, e induzimos isto do soneto com que Luiz Osorio prefacia o livro, e cuja primeira quadra diz:

Por donde voy me sigue como memoria tiernatu imagen que en mi pecho conduzco en un altar;¡y mi cerebro canta como una estrofa eternael coro que tus árboles entonan á la mar!

Não fazem mal as musas aos doutoures.


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