Bem, aquelle primeiro anno. Por uma banda a Emilia a cuidar da casa, toda se desvelando nos minimos pormenores do interior, na cosinha, no amanho das roupas, no decorativo, mesmo, dos quartos e saletas que a mobilia, comprada de novo, tornava alegres e confortaveis. Elle, por outra banda, trazendo-lhe nos fins dos mezes intacto o seu ordenado, e trazendo-lhe, cada dia, uma caricia mais fresca e mais suave. E dada a homogeneidade dos seus temperamentos, a proveniencia commum das suas naturezas, originarias do mesmo solo, filhas da mesma raça, temperadas do mesmo sangue, ricas das mesmas infiltrações de seiva e de saude, explica-se logicamente esse parallelismo absoluto de vontades que os dois levavam na vida, sem um choque nas suas aspirações, sem um encontro avesso nos seus desejos, sem a minima divergencia no seu modo de vêr e de pensar. Educados em meios differentes, embora! o que nas suas naturezas havia de fundamental, e até de intensamente uniforme no raio visual das suas intelligencias, tornara podemos dizer nullo, sem consequencias no fio commum das suas vidas, esse largo periodo passado em latitudes differentes:—ella, onde ambos tinham nascido, debaixo do mesmo céo,á luz do mesmo sol, á sombra das mesmas arvores; elle, sequestrado de tudo isso, mas n'um meio sem côr para elle definida, pardo, estreito como uma gaiola, e onde, portanto, a sua natureza se conservara estagnada,—estagnada como uma pequena lagoa, dormente debaixo do luar melancolico...Vinha d'ahi, e do fundo ingenuo das suas almas, estrelladas das mesmas superstições, povoadas das mesmas imagens, embaladas, ao nascerem, ao rythmo da mesma canção, essa forte, dulcissima corrente de ternura espiritualisada que era o motor primeiro dos seus abraços, o mais vivo e fresco perfume dos seus beijos, a mais alta, a mais serena e orvalhada efflorescencia do seu profundo amor... E pois que havia tambem no sangue d'ambos—bem como no seio de um diamante as iriações mordentes—as rubras, incandescentes faulhas de uma animalidade impetuosa, adivinha-se quanto seria intensa nos dois a vida sexual,—casta a despeito de tudo, vivente como um largo pampano, nimbada, emfim, como certas telas classicas, por umas cabecitas loiras de creanças, frescas, ridentes, côr de rosa...D'ahi, como lhes disse no principio, esse pequenino e perfumado idyllio, côr de rosa, que fôra na vida de ambos, durante um anno, o seu mais vivo encanto...Em certo dia, porém, regressava o Joaquim do escriptorio, noite cerrada já, quando uma rapariguita que lhes servia de creada havia dois dias, vindo abrir a cancella, lhe desfechou estas palavras no accento beirão:—A minha madrinha está muito mal.—Muito mal?—Sim, parece que lhe deu pela cabeça não sei quê.Joaquim Seabra estacou, como que fulminado. E encostando-se á hombreira, para não cahir, sentiu passar-lhe pelo cerebro, como um tufão de peste, uma ideia que lhe fez vertigens. Teve um presentimento... E cobrando alentos, confuso deante da rapariguita que o olhava, disse-lhe com a voz trémula, no tom de quem procura, compromettido e humilde, esconder um pensamento:—Bem sei... Isso costuma-lhe dar... Uns ataques... Foi depois que veio da Beira.—Parece que lhe chamam flatos, volveu-lhe a pequena.—Fica-se como doida...—Sim... chamam-lhe flatos... fica-se como doida... É isso.E como se sentissem passos subindo a escada, inquilino ou pessoa do andar de baixo,—talvez alguem que o procurasse!—fechou a porta com força; e apagando a luz, com um sopro trémulo, coseu-se a um canto impondo silencio, com a mão sobre a bocca arquejante da rapariga.—Cala-te, ouviste? disse-lhe quasi com o bafo—Se te calares hei-de te dar dinheiro. Cala-te.A rapariga calou-se, aniquillada, toda enroscada a um canto, como um novello. E passados instantes, quando um grande silencio envolvia todo o predio, ouvindo-se apenas, de quando em quando, o rodar de algum trem nas ruas proximas, o Seabra tomou nos braços trémulosa pequena, e foi, cauteloso como um bandido, leval-a á cama.—Ouves, Luiza? Não faças bulha. Dorme.E fechando-lhe a porta á chave, respirou, hirto no meio do corredor em trevas. Devia de ser assim a sepultura: aquelle silencio, aquella escuridão impenetravel! E elle, como um cataleptico, alli encafuado vivo...—triturado pela magua, roido pela dôr, desfeito pela desgraça, como se milhões de larvas o triturassem, roessem, desfizessem, implacaveis e crueis, famelicas da ultima particula da sua carne, sedentas da ultima gotta do seu sangue, famelicas e sedentas até da sua propria alma... Vivo, ó Deus cruel! ó Deus desapiedado! Vivo e no emtanto... morto: vivo para a sensação esphaceladora da sua atroz desgraça, do seu cruel, cruciantissimo martyrio; morto, aniquillado, desfeito, para a visão auroreal das suas esperanças...—as suas esperanças! revoada alegre de pombas, candidas, serenas, immaculadas, que um tufão de desgraça varrera do ninho do seu peito, para longe e para sempre...E humilde como um rafeiro ou como um trapo, n'uma prostração de louco embriagado, dir-se-hia que o cerebro deixara de funccionar n'esse infeliz—como relogio subitamente parado, marcando um momento fatal!—e que tudo quanto elle sentia, e que tudo, oh Deus! quanto elle gosava! era essa impressão anniquilladora doNada, que o fundia na treva circumdante, com ella identificando-o, irmanando-o, confundindo-o, e tanto e tão intimamente, que elle proprio n'ella se sentia diluido, e no silencio...Subito, porém, a um gemido, a um grito, a um ranger, escoado alli de perto como um reptil, escoado alli deperto, como um verme, phosphorejante na treva á semelhança de um demonio, que agitasse umpierrotde cascaveis,—uma centelha de vida animou esse corpo aniquillado, e dentro d'aquelle cerebro fez repontar, como luz de lampada funerea allumiando um cenobio silencioso, a chamma de uma ideia... E teve então de si proprio a extranha, diabolica visão de um esqueleto carcomido, desossado, alquebrado, mirando pelo arco immovel das orbitas, d'onde dois feixes de luz escorriam—aquelle trapo miserando alli cahido, informe, esqualido, repellente, montão de gelo, e lagrimas, e trevas...—que era elle tambem!...Entretanto, e como por força mesmo d'essa allucinação desvairada e tragica, o cerebro perdera n'elle a recta, serena faculdade do raciocinio, elle continuava absorto, incomprehendido, estupido, deante da «sua desgraça»—como deante de um grande mar de negrume, profundo e estagnado, por uma noite sem lua e debaixo de um céo sem estrellas, torvo de um borel cerradissimo de nuvens, a sombra de um espectro... E assim em breve, retombou n'essa altitude que diremos irracional,—mudo, aniquillado, desfeito, no meio da treva silenciosa, como no lodo fundo de um poço um bloco inanimado...No escuro do seu cubiculo, a pequena soluçava a espaços. E era como se a propria treva soluçasse, esse chorar abafado da creança, espavorida das coisas que a cercavam, para ella mysteriosas e funebres. Era como se um alegre pintasilgo, vivo, irrequieto, palreiro, fosse do seu ramo florido de amendoeira, por uma tarde serena de abril, pousar, n'um vôo de acaso, na mansardatristonha de um morcego, em qualquer frincha desabrigada de velho muro, abandonado algures...E porque viera? E para que viera? Não sabia. No emtanto, ao contrario do que lhe tinham promettido, que saudade infinita, repassada de profunda nostalgia, da telha vã do seu humilde casebre, atravez do qual passavam os primeiros alvores da manhã, como um perfumado beijo de frescura! Dois dias, apenas! Entretanto, já dois dias! Tanto tempo em tão pouco tempo! E não tornara mais a vêr passaros! e não mais tornara a ouvir, de manhã, tocando á missa d'alva, tangendo á tarde a Ave-Marias, o seu querido e alegre sino d'aldeia...—além, n'aquella riba suave e pittoresca, prateada, beijada do luar áquella hora!... E o fio do seu pensamento, que outr'ora derivava limpido, sereno, crystallino, como pequenino arroio murmurante que vae entre duas alas de flores singelas, torvelinhava agora estupidamente, desnorteado, ao acaso, convertido n'um veio torvo, lodoso e borbulhante, soluçando, como se fôra de lagrimas, occulto sob a folhagem pallida...A dois passos, no corredor escuro, o outro continuava prostrado, junto da porta que dava para o quarto onde a mulher, deitada, devia talvez dormir, de borco sobre a roupa revolta, ou no chão talvez... Mas como acontece ás tempestades da natureza, tambem a tempestade d'aquella alma de homem entrou de se diluir em pranto, pouco a pouco, serenamente, gradualmente. Chorou. E como se fôra o véo das lagrimas que lhe não deixára vêr até então os pormenores do seu infortunio, d'este permittindo-lhe apenas uma sensação que diremosinforme, entrou de se fazer com a vasante mais lucido o raciocinio, mais precisa e mais esperta a ideia que se lhe accendeu no cerebro, como luz que pouco a pouco vae surgindo na lampada de um claustro, allumiando nitidamente, sob o docel frio das sombras, as arestas marmoreas de um sepulcro...Ah! mas então, sob a impressão raciocinada e fria da sua tragedia, cujas linhas contornaes pareciam feitas de gelo, uma nova tempestade rebentou,—como uma trovoada enorme em tarde secca de maio. E foram então as imprecações, os gritos estrangulados irrompendo, em surdina, por entre as maxillas ferradas, do fundo do peito em ancias. Então foi o arrancar convulsivo dos cabellos, ás guinadas, teimosamente, n'um duello de loucura com a dôr physica, desafiando-a, espicaçando-a, dando-lhe a beber o proprio sangue do peito, rasgado pelas dez unhas crispantes, lacerantes como se foram de abutre.—Ah! raios do céo, e não morro!E como o grito lhe sahiu mais alto, prestes levou ao chão, como beijando-o, os labios estranhamente rasgados pela colera. Veio-lhe então o pudor melindroso da sua desgraça, o medo horrivel de que se divulgasse, de que os outros a soubessem,—de que a pequenita, mesmo, a conhecesse... O que diriam? o que pensariam? E todo elle se encolhia, e todo elle se sentia gelado até ao mais intimo da sua alma, suppondo-se na rua, como outr'ora, ao vivo e claro sol, levando adherente ás costas, como um ferrete ou como um caustico o olhar de «toda a gente»... E com as unhas ferradas na testa, escondia da propria treva, com as mãos ambas, o rosto cobarde e arrepanhado.—Diabos do inferno! levae-me!A este novo grito, porém, subito se recolheu n'um grande pavor religioso. Do fundo da sua natureza alguma voz se elevou, serena, doce, harmoniosa, como na paz tranquilla do campo o fumo azul-claro de um casal... E teve a doce visão de um arco-iris, bonançoso e rutilante, repontando luminoso no borel asperrimo da sua alma, onde uma clareira se abria. E foi quasi a sorrir, chorando as primeiras lagrimas tranquillas, que dos seus labios quasi serenos voou como uma pomba alvinitente, que transporta no rosado bico um ramo de oliveira, esta palavra de amor:—Deus!E para logo sentiu sobre a sua fronte, de manso e manso erguida n'um como enlevo de visão, um ruflar de azas de pombas... á hora d'alva... sobre os campos... n'uma clara manhã de maio, perfumada...E como se mão invisivel o erguesse, de vagar, serenamente, enxugando-lhe da orla das palpebras a ultima lagrima de sangue deposta alli pela sua alma, o pobre foi submissamente escoando-se para o quarto contiguo, onde sua mulher estava, o seu anjo, o seu thesoiro, a sua vida... E foi submissamente, como um cão duramente batido que volta aos affagos do dono, que sobre os labios da adormecida esposa, seccos, pallidos, desbotados, ao claro luar vindo do céo, o triste uniu os seus labios frementes,—...n'um beijo suavissimo de perdão. Ao mesmo tempo que ella, n'um delirio, repetia a phrase cruel:—Mais vinho!NOTAS:[1]Sendo necessario completar o numero preestabelecido de paginas de cada volume d'estaCollecção, numero além do qual se não póde ir e aquem do qual se não deve ficar,—o editor pediu e obteve do auctor, em vez de novo conto, um excerpto do seu livro em preparação, livro provisoriamente baptisado com o titulo deBatalhas domesticas. O excerpto póde dizer-se que constitue só por si, como os leitores verão, um trabalho litterario, independente e uno, o que de certo modo lhe dá logar n'esta collecção, ao lado dos precedentes, estabelecendo, além disso, a transição do espirito do auctor para uma nova phase, litteraria e artistica.N. do E.INDICEIdyllio rustico1Sultão18Ultima dadiva41Preludios de festa55Typos da terra73Vae Victoribus101Maricas111Para a escola119Tragedia rustica131Abyssus abyssum153Mãe169Arrulhos179Batalhas domesticas195OS MEUS AMORES E A CRITICADa Revista Illustrada (extracto da chronica):—«...Os meus amores, de Trindade Coelho, é um volume de contos para toda a gente, em condições agradabilissimas ao paladar d'ambos os sexos, e com delicadas circumstancias a prazerem, principalmente, ao feminino. Porque uma das preoccupações litterarias mais evidentes d'este escriptor primoroso é fazer jus á amisade das leitoras, e como dispõe de pericia no ferir de certas notas emoventes e no tocar certas fragilidades de sentimento, consegue-o.—Alfredo Mesquita.Jornal da Noite:—«Trindade Coelho—Este illustre escriptor, nosso talentoso colega do «Portugal», brindou-nos com um exemplar do seu novo livro de contosOs meus amores.De entre a pleiade de prosadores, que por ahi mourejam no mundo das lettras, a individualidade de Trindade Coelho destaca-se distinctamente, e impõe-se á admiração dos que apreciam os talentos brilhantes privilegiados.Os trabalhos do illustre escriptor, se pela estructura original e encantadora são dignos do maior apreço, pela elegancia da fórma, burilada a primor n'um estylo finissimo e scintillante, despertam os mais francos, sinceros e enthusiasticos encomios dos que os lêem.Quem conhece o formoso talento de Trindade Coelho, e o seu bello caracter, avalia bem, por certo, como ambos estes seus característicos serão traduzidos no novo livro de contos do nosso distincto collega.»Diario Popular:—«Os meus amores.—Assim se chama um livro de graciosos contos, retratando aspectos da vida d'aldeia e do campo, que acaba de apparecer, firmado por Trindade Coelho.O escriptor, como verdadeiro artista que é, localisa todas as suas attenções, de ha muito, no trabalho de apprehender com fidelidade o viver campezino, sobretudo da vasta região transmontana, a qual lhe foi berço. Por isso o seu fabrico litterario se aprimora de dia para dia n'uma escala crescente de sinceridade, e por tanto merito:Os meus amoreso attestam, quando postos em parallelo com os primeiros contos publicados avulso.Trindade Coelho cultiva com cuidado especial o dialogo que busca e consegue photographar com particular exactidão. Em vez dos descriptivos, quasi despresados, são trechos successivos de conversas d'uma encantandora rudeza ingenua que formam o estofo principal de todas as suas producções. Isto e a felicidade com que sabe observar, dão o cunho pessoal da sua obra, que proporciona agradaveis e confortaveis momentos de leitura.»Diario Illustrado:—«AbremOs meus amores, de Trindade Coelho, com um admiravel soneto de Luiz Osorio, que depômos nas mãos da leitora, como o perfumado ramo de cravos valencianos, a flôr actual das suas predilecções femininas: (segue o soneto incial.)E pelo braço do poeta daAlma lyricasubimos ao doce convivio espiritual da alma de Trindade Coelho.O contoMãe, uma rica joia engastada n'este livro, brilhando ahi por todas as suas facetas cortadas em diamante, e buriladas com a fina arte de um joalheiro florentino, bastaria para autenticar-lhe o valor e para aferir os dotes mentaes de Trindade Coelho, que tem no seu brilhante estylo moderno, fluente e sobrio, incisivo e profundo, vibratil e melodico, o diploma do seu notavel talento.É principalmente pela sinceridade intuitiva e pela naturalidade espontanea que estes contos nos captivam.O auctor diz-nos, sem preoccupações de escola e sem pretenções a abrir caminho pela deslocação do vocabulo ou pela selva escura do escandalo, o que viu, analysou, observou e sentiu.As suas doces narrativas, penetradas da alma campestre, deslisam suavemente, tocadas a espaços de uma inegualavel melancolia contemplativa que lhes duplica o encanto.Mas n'esses singelos contos, artisticamente concretisados, Trindade Coelho revela o superior poder evocativo da visão intima, que o singularisa.A complexa natureza, para tantos inexpressiva e muda, tem para elle, como para todos os artistas de raça, attitudes, expressões, côres e sons, que o auctor vê, adivinha, sente e traduz com a fascinadora eloquencia dos iniciados, e o mysterioso enternecimento, que só nos transmitte a simples leitura dos poetas.Ha rapidos traços de analyse emotiva ou de commoção reflexa que valem poemas.E não serão oIdylio rustico, aMãee outros contos, soberbamente delineados e intimamente vividos, verdadeiros poemas em prosa?Felicitamos calorosamente Trindade Coelho, o nosso querido amigo, pelo seu primeiro livro, que embora glorifique o seu nome, não é de certo o seu primeiro triumpho.—Gabriel Claudio.»Jornal do Porto:—«Os meus amores.—A collecção Antonio Maria Pereira augmentou se d'um novo volume original. Intitula-seOs meus amorese está escripto pelo nosso illustre collega e litterato distincto o sr. Trindade Coelhho.D'este livro que, pelas suas destacadas qualidades litterarias, deve achar grande acceitação no nosso publico, escreveremos em breve as palavras apreciadoras que elle merece.»Correio Elvense:—Trindade Coelho.—Este nosso amigo e festejado escriptor, publicou agora o seu primeiro livro de contos e balladas a que deu o titulo:Os meus amores, editado pela acreditada livraria de Antonio Maria Pereira.Trindade Coelho, que hoje occupa um proeminente logar no jornalismo da capital, fez ainda ha pouco algumas das suas melhores armas na imprensa em Portalegre, onde creou dois jornaes, um dos quaes ainda vive, que tiveram vida gloriosa em quanto os animou o trabalho do distincto estylista.Não só nos seus escriptos passados, mas então, conhecemos o grande valor que indiscutivelmente possue. Não nos surprehendem pois os seus triumphos e rejubilamo-nos com elles com a alegria e sinceridade de bons e sinceros amigos.N'um dos proximos numeros falaremos da impressão colhida emOs meus amores, agradecendo desde já as expressões affectuosissimas que acompanham a dedicatoria do livro, que o seu auctor nos offertou.»Correio do Norte:—«Os meus amores.—Contos e balladas.—Trindade Coelho, o já conhecido e apreciadíssimo escriptor, acaba de publicar um livro de contos com o titulo acima indicado. É esta uma bella novidade para o nosso mundo litterario, onde Trindade Coelho de ha muito soube conquistar um logar dos mais distinctos, pelo seu bello talento e poderosas qualidades de escriptor.Limitamo-nos por agora a dar esta simples noticia do apparecimento do novo livro, para depois escrevermos mais detidamente sobre elle.Agradecemos ao nosso presadissimo amigo a delicadeza do seu offerecimento.»O Globo:—«Os meus amores.—Mais um livro editado pela livraria de Antonio Maria Pereira. Intitula-seOs meus amorese subscreve-o o nome de Trindade Coelho.Não o lemos ainda porque o recebemos agora; mas ha-de ser por certo trabalho de grande valor artistico, como invenção e como execução, porque Trindade Coelho é incapaz de produzir uma obra litteraria má. A sua educação litteraria está feita, e os seus numerosos trabalhos tão apreciados, tão portuguezmente escriptos, tão sentidos e tão espontaneos revelam qualidades de escriptor de raça. Elle tanto póde ser um jornalista eminente como é um contista original.Os meus amoresé uma collecção de contos e balladas. Conhecemos alguns capitulos, que são primorosos, mas carecemos de ler todo o livro para não errar na apreciação. Vamos lel-o com a convicção de que teremos de saborear um d'esses raros mimos litterarios que só os privilegiados de talento sabem offerecer aos seus leitores.»Diario de Noticias:—«Os meus amores.—Contos e balladas.—Anunciámos, em tempo, o proximo apparecimento d'este trabalho, com que o brilhante contista e nosso collega doPortugal, o sr. Trindade Coelho, ia augmentar a collecção, já tão valiosa, das edições do sr. Antonio Maria Pereira.O livro acha-se, emfim, publicado, e em nada desdiz do conceito que desde logo nos auctorisaram a emitir os elevados meritos litterarios do seu auctor, tantas vezes comprovados em numerosos escriptos anteriores.Com uma observação escrupulosa, e um pittoresco estylo, d'uma pujança e d'uma riqueza não vulgares, sem attentados contra o bom gosto, nem rebeldias contra o bom senso, os contos do sr. Trindade Coelho são, a todos os respeitos, um verdadeiro primor, uma obra que ha-de entrar, sem hesitações, na acceitação do publico, e que ha-de ficar longo tempo, a attestar, n'uma formosa prova, a riqueza de um espirito, superiormente educado, ductil e promptamente malleavel.Porque esses contos são a obra de um genuino artista, cujamaneira, simultaneamente facil e apuradissima, revelando a espontaneidade de uma fecunda phantasia, traduz e affirma a fina sensibilidade de uma alma delicadamente temperada, a viveza de um talento exuberante de vigor e de seiva.Não póde entrar nos curtos limites de uma simples noticia, a mais desenvolvida critica d'esse trabalho, que tem, na proprio nome do seu auctor, o melhor e o mais seguro titulo de recommendação para obter do publico a consagração de um largo e legitimo successo.Apenas acrescentaremos que abre o livro um encantador soneto de Luiz Osorio—preciosa chave de oiro, na realidade bem merecida por aquelle rico e primoroso escrinio de verdadeiras e puras joias litterarias.»A Actualidade:—«Os meus amores.—Este nome é o de um novo livro da collecção Antonio Maria Pereira. Pelo titulo presume-se um volume de versos; mas não é, o que não quer dizer que n'elle se não surprehendalegitima poesia. Trata-se de contos e balladas, originaes do sr. Trindade Coelho, um dos nossos mais apreciados e brilhantes escriptores.Eis, muito resumidamente, as prendas que distinguem este primoroso contista:Estylo correcto, elegante, vivo; descripções ricas de observação e attrahentes tanto pelo colorido como pelo esmerado da fórma; despidos de grandes artificios os entrechos, mas subjugantes pela muita naturalidade; o dialogo, em summa, admiravel pela singeleza e, sobre tudo, pela propriedade.Com estes predicados o livroOs meus amores, do sr. Trindade Coelho, deve incontestavelmente ser de valor. E é. São encantadoras todas as narrativas que contém. Logo ao abrir depara-se-nos umIdylio rustico, que embriaga e predispõe para a leitura de todo o volume, onde se encontram quadros soberbos, reproduzidos do natural com um notavel poder de observação e que deixam o espirito suavemente impressionado. Leiam, e verão que não exageramos na opinião que ahi deixamos rapidamente exposta.Ao auctor o nosso reconhecimento pelo mimo da offerenda.»Correio da Manhã:—«Registar o apparecimento de um livro bom, linguagem elevada e singella, desartificioso e artistico, repositorio vasto de observação, vibrado por uma grande impressão pessoal e subjectiva, é sempre agradavel á chronica, n'este tempo sobretudo de litteratura gafada, ou de arte ainda litteraria quasi pornographica.Os meus amoresque amavelmente acaba de nos offerecer sr. Trindade Coelho é um livro d'esses. Collecção primorosa de contos e balladas, em que no mais despretencioso dos estylos nos conta recordações e idylios e nos mostra uma galeria rica de typos e de figuras cuidadosamente observados e primorosamente expostos.O ultimo contoPara a escola, que d'essa bella collecção acabamos de ler, é encantador de verdade, de singeleza, de arte, e assimelha se notavelmente á maneira de Gustavo Droz.Não é o logar nem a accasião de fazermos a critica do livro e a apreciação d'este novo, d'este debutante, que ao primeiro assalto parece estar já senhor da batalha.É por isso que sinceramente o felicitamos.»Vanguarda:—«Os meus amores.—O nosso collega, o sr. Trindade Coelho, que quasi só conheciamos pelos seus libellos accusatorios, acaba de nos enviar um livro primoroso com este titulo, no qual a feição carregada e sombria do agente do ministerio publico desapparece por completo, para nos deixar apreciar só o espirito finalmente delicado do homem de lettras conhecedor dos melhores processos de arte e verdadeiramente sabedor do seu officio.Confessamos que nos apraz muito mais admirar este Trindade Coelho,que o outro que temos visto apertado dentro da negra vestimenta de agente do ministerio publico, que parece lhe oblitera ás vezes as suas excellentes faculdades.»Primeiro de Janeiro:—«Os meus amores.—Acabamos de receber o formosissimo livro de contos «Os meus amores», de Trindade Coelho.Não é ainda a occasião de pôrmos em relevo todas as qualidades litterarias, complexas e brilhantissimas, que se evidenciam n'este livro, demonstrando um dos talentos mais vivos e assignalaveis entre os mais illustres cultores da prosa portugueza.Os contos por onde «Os meus amores» se repartem não são apenas maravilhas de linguagem, onde tão sómente se destaquem dextrezas e fulgurações do estylo: a acção que os anima constitue uma deliciosa galeria de quadros, aspectos intimos e exteriores da vida, colhidos em flagrante com uma extraordinaria subtileza e lucidez de observação e trasladados a uma fórma superiormente artistica, onde ha firmemente accentuados todos os caracteres de uma esplendida organisação litteraria.É um livro vibrante e magnifico—adoraveis paginas intensamente ou delicadamente emocionadas e primorosamente escriptas, cuja leitura é um verdadeiro encanto.As nossas cordeaes felicitações a Trindade Coelho, a quem agradecemos a gentilissima offerta do seu livro.»Folha do Povo:—«Os meus amores.—Esta publicada em volume uma série decontos e balladascom que o sr. Trindade Coelho, o brilhante collaborador doPortugal, vem enriquecer a litteraturacontistaentre nós, hoje tão querida do publico, depois que os trabalhos de Fialho d'Almeida deram a esse genero litterario um valor até então mesquinho.A primeira qualidade que notamos logo noscontos e balladasdo sr. Trindade Coelho é um estylo muito seu, cheio de uma crystallina naturalidade,affastando-se completamente d'essas excrescencias de mau gosto, que ultimamente têm abastardado a lingua portugueza,—prova da superioridade intellectual do escriptor de que nos occupamos—, visto que não mira a uma falsa gloria, conquistada facilmenle pelas excentricidades de estylo, que são hoje uma verdadeira mania entre alguns escriptores da chamada geração moderna.O sr. Trindade Coelho escreveu a sua prosa obedecendo á espontaneidade das suas impressões, ao seu sentir, sem deixar de se revelar um artista, porque nunca a phrase lhe sae banal, nem tão pouco envolvida em ouropeis de mau gosto litterario.E no entanto encanta-nos,—prova de que está alli um primoroso escriptor, um espírito delicado, reproduzindo todos os cambiantes da natureza por uma fórma de observação, que não é d'esta nem d'aquella escola. É simplesmeate sua, individual.Notamos mesmo um progresso no livro do sr. Trindade Coelho; porqueas suas primeiras producções litterarias ressentiam-se de uma tal ou qual preoccupação deeffeitono modo de construir a phrase. Hoje, o escriptor adquire a independencia da sua maneira, do seu processo, e feito a tirar decorre fatalmente d'essa independencia, visto que os seus quadros obedecem apenas a uma rigorosa e fiel reproducção do que o artista observa em volta de si.Certamente que o publico lerá com encanto o novo livro do sr. Trindade Coelho, pelo que felicitamos o auctor, e—podemos mesmo dizer—a litteratura portugueza.—Silva Lisboa.»Diario Illustrado:—«De tempos a tempos chegava-nos do Atemtejo um periodico que não deixavamos nunca de lêr pelo fino gosto litterario, pittoresco e moderno, que se revelava em todos os seus artigos, incluindo os politicos. Esse periodico era redigido por Tindade Coelho, cujo talento conheciamos desde Coimbra, e cuja individualidade litteraria viamos agora accentuar-se com um vigor de originalidade verdadeiramente notavel.De quando em quando, Trindade Coelho obsequiava-nos com um artigo para oDiario Illustradoe, vindo establecer residencia em Lisboa, algumas vezes tivemos a honra de receber n'esta redacção a sua visita, sempre agradabillíssima para nós, porque a sua conversação scintillante aligeirava as nossas pesadas horas de trabalho.Pois bem, Trindade Coelho acaba de reunir n'um volume—que faz parte da collecçãoAntonio Maria Pereira—os seus deliciosos contos, cheios de observação, de verdade, de simplicidade artistisca, que é, a nosso vêr, suprema expressão de belleza n'este genero de composições litterarias.Os meus amoressão um bello livro, em que o estylo se não contorce atormentado, como em tantos outros, em que os rebuscados esplendores da forma litteraria denunciam uma carencia absoluta de espontaneidade. Tudo alli deriva naturalmente, tanto na sequencia logica dos caracteres e dos episodios, como na contextura facil, mas colorida, dos períodos.N'uma palavra,Os meus amoressão a obra de um artista, de um homem que sabe do seu officio, e que tem uma individualidade bem definida por traços profundos de verdadeira originalidade.»Voz Publica:—«Os meus amores.—Trindade Coelho, innegavelmente um talento de primeira agua, acaba de brindar a litteratura portugueza com um excellente livro de contos subordinado áquelle titulo e que constitue o duodecimo volume da elegantissimaCollecção Antonio Maria Pereira.Contos e balladasé o sub-titulo do livro, e muitos ao lêrem-n'o julgarão que se trata de versos; mas não, é em prosa, em prosa vernacula, correcta e vibrante que estão escriptos os bellos contos de que se compõe este livro, digno a todos os respeitos de ser lido.São todos elles uns contos ligeiros, encantadores pela espontaneidade e verdade dos seus typos e das suas situações, lembrando um tudo-nada os formosos typos de aldeia, tão magistralmente desenhados pelo mallogrado auctor daMorgadinha dos Canaviaese dosFidalgos da Casa Mourisca.Lemos d'um folego o magnifico livro, e ninguem que o comece a lêr deixará de o fazer como nós; tão attrahente é a fórma por que Trindade Coelho conduz todos os ligeiros contos de que elle se compõe, que sem querer, sem se sentir mesmo, chega-se ao fim e fica-se como triste d'elle ter acabado.Todos magnificos, dizemos, mas se alguns ha que mais nos prendessem, foram os que se intitulamTypos da terrauma galeria curiosa de typos, eA mãe, um conto de natureza, simples e commovente na sua simplicidade, e notavel pela sua originalidade.Recommendar o livro de Trindade Coelho é prestar um serviço aos nossos leitores.»Ordem do Dia:—«Os meus amores.—Este é o titulo do 12.º volume da collecção Antonio Maria Pereira, innegavelmente a publicação mais elegante, mais barata e mais interessante do paiz.Os meus amoressão uma serie de contos e balladas, em prosa, devidos á penna d'um moço talentosissímo, de ha muito conhecido nas lides do jornalismo, Trindade Coelho, mas que ainda não lançára ao mercado um livro; com este debuta o auctor, e é uma estreia auspiciosissima a sua.A leitura do volume, longe de fatigar, faz-se com agrado, e n'elle é cultivado um genero—o de contos, alguns á maneira de Gustave Droz, que prendem e interessam o leitor em todo o sentido.Foi gratissima a impressão que elle nos deixou no espirito e esperamos que Trindade Coelho continue a brindar o publico com as suas bellas producções, porque estamos certos de que quem lêrOs meus amoresserá com sofreguidão que esperará novo volume do distincto escriptor, tal é o encanto da sua escriptura».O Sorvete, (com o retrato do auctor):—«Dr. Trindade Coelho.—Mais uma prova do seu brilhantissimo talento! Mais uma vez justificada a alta competencia e finissimo espirito de escriptor disctinctissimo!O novo livro de Trindade Coelho,—Os meus amores—contos e balladas—editada pela casa Antonio Maria Pereira, de Lisboa, é, no dizer dos entendidos em litteratura,—uma verdadeira joia.»O Espozendense:—«Os meus amores(contos e balladas) por Trindade Coelho.—Faz parte este volume da interessantissima collecção Antonio Maria Pereira, tão bem acceite do publico, pela superior escolha das obras publicadas e pela modicidade extraordinaria dos seus preços.Os meus amoresé um precioso agrupamento de contos, alguns ineditos, outros já conhecidos, e que Trindade Coelho espalhara com applauso por differentes jornaes do paiz. Decorridos quasi todos em plena aldeia trasmontana, cujos costumes o auctor conhece de sobra, pois é natural de Traz-os-Montes, e foi durante alguns annos, delegado do procurador regio n'uma cidade de provincia—os contos d'esta collecção tornam-se sobretudo notaveis pela propriedade e pela fidelidade da acção, verdadeiros, nitidos, reais, palpitando da côr propria da paizagem, vivendo da vida natural, intima e intrinseca, dos personagens e das cousas.Entre as nossas obras litterarias originaes,Os meus amoresmerecem, pois, um logar á parte, não como uma estreia auspiciosa, que o nome de Trindade Coelho é já demasiado conhecido de todos quantos se interessam pela litteratura nacional, mas como a poderosa affirmação de um prosador elegante e de um contista distincto, no meio da grande maioria da chata vulgaridade indigena.Os meus amoresé, em summa, um livro de valor, bem cabido nas mais escolhidas bibliothecas.»O Portuguez:—«Os meus amores.—Delicioso titulo de um livro delicioso.O livro é uma collecção de graciosos contos, editorada pelo sr. Antonio Maria Pereira; e o auctor é o nosso collega do O livro é uma collecção de graciosos contos, editorada pelo sr. Antonio Maria Pereira; e o auctor é o nosso collega doPortugal, sr. Trindade Coelho, que, nos ocios da magistratura, de que é digno representante, cultiva as lettras com desvelado amor.Em Coimbra, estudante ainda, era já litterato apreciado, collaborando, com applauso dos mais doutos, em jornaes e revistas, que ha mais de dez annos tornaram o seu nome festejado e querido. Hoje, reune ao seu título de jornalista a invejavel nomeada de contista esmerado, e brinda as lettras portuguezas com um volume, que está tendo a mais justa e lisonjeira acolhida.O primeiro conto do livro,Idylio rustico, não obstante ser agora publicado pela primeira vez, cremos nós, é já nosso conhecido, porque appareceu manuscripto n'um concurso litterario da extintaAssociação dos jornalistas, sendo premiado. Depois da consagração de um jury, terá agora a consagração do publico.Depois doIdylio rustico, vem oSultão, um quadro magnifico da vida campesina, notavel de simplicidade e graça; e aUltima dadiva; e osPreludios de festa; e osTypos da terra; e asBalladas; e aTragedia rustica; e aMãe; e osArrulhos; e asBatalhas domesticas: outros tantos primores, que ás vezes nos fazem lembrar as deleitosas e serenas paizagens de Daudet.Agradecendo ao auctor a gentileza da sua offerta, congratulamo-nos por não haver ainda expirado entre nós a litteratura san, que, ou nos desperte o sorriso ou nos obrigue a lagrimas, não nos deixa no espirito a impressão doentia das nevroses litterarias...»Jornal da Manhã, Porto:—«Os meus amores.—Mais um volume acaba de ser publicado da collecção Antonio Maria Pereira, por sem duvida a mais elegante, a mais escolhida e a mais economica bibliotheca que se publica em Portugal.É o primeiro livro de Trindade Coelho,Os meus amores, contos e balladas, em que o talentosissimo escriptor acaba de reunir todos os seus contos dispersos por varios jornaes, e alguns ineditos.Do primeiro ao ultimo, os contos que compõemOs meus amoressão specimens no genero, porque, além de constituirem uma esplendida galeria de quadros intimos, de retratos, de typos, são a confirmação d'uma verdade já por nós ha muito acceite: que o seu auctor tem todos os requisitos d'um escriptor de primeira ordem; estylista vibrante, correcto e sempre elegante.E se formos a escolher o melhor d'hesses contos, ver-nos-hemos em serios embaraços, porque são todos por igual deliciosos, constituindo a sua leitura um verdadeiro encanto; entretanto, se ha que mostrar predilecções por algum d'elles parece-nos que os melhores serãoA MãeePara a escola, aquelle uma delicada e emocionante historia arrancada flagrantemente á natureza, e este saudosas recordações d'um passado que não volta.A edição, escusado é dizel-o, é nitidissima.»O Tempo:—«Os meus amores.—Este livro teria vindo melhor nas noites invernosas para serões ás lareiras crepítantes:—as faíscas d'ouro subindo no tecto, o vento zenindo fóra açoitando a chuva, e dentro, no conforto recolhido, gosar-se o contraste das paizagens alegrdas pelo sol, espelhadas na agua rumorosa, com gorgeios e trinados d'aves, paizagens que o sr. Trindade Coelho sabe encantar com a delicia suave e subtil d'illudidor ameno. Mas não se póde aconselhar o leitor a que se prive de saboreal-o desde já, tanto mais que os tempos vão agoureiros para a arte de manancial, e os que a cultívam teem de separar-se dos estragadores d'Ella e das cabeças quasi vasias que expremem e segregam o pus nauseabundo do sadismo mediocre.Estes estão agora entretendo o publico arrebanhado para saborear com prazer as estapafurdices atoleimadas, e que os eguala—o vingador—ao imbecil que escreveu oSenhor Duponte aos auctores dasPimentinhaseBerbigões Ardentes.Que o livro de glorificadora arte do sr. Trindade Coelho seja o perfumador dos excrementicios e appareça em plena luz nas mesas e nas familias dos que compravam os outros, é o voto que faz o alinhavador d'estas linhas corredias, na certeza de que recommenda á attenção um artista recolhido que sabe ter força nos traços tenues e meias tintas dos seus quadros, que capricha em suavisar idylicamente as dôres vulgares da vida acceite, da materialidade animal, dourando-as com recantos de natureza chilreante. Que me perdõem insistir na impertínencia: mas, o que no livromais particularisa o talento de quem o assigna é a comprehensão das paizagens, o sabel-as colorir, animar, pôl-as ante os olhos que lêem.As grandes dôres obscuras e sinceras, as brandas affeições, amisades arreigadas, a placidez do recanto habitado, os amores simples sustentados por ingenuas crenças s suavisada fé, tudo o que a aldeia tem de ameno, d'attraente, de pittoresco, de consolador, os seus ridiculos mesmo, vestindo atitudes de parodia em theatrinho de curiosos, tudo reveste bem o sr. Trindade Coelho, e aligeira com um optimismo de bom humor, sublinhando aqui e acolá umas notas reaes, bem apanhadas, como se diz, e que refrescam o rosto n'um aberto sorriso de ventaróla. O livro encanta porque traz todo o aroma da aldeia onde o auctor encerrou por annos a sua nostalgia—a peior de todas: nostalgia de delegado!—apertando os vôos do seu espírito d'artista que ama pairar com a fantasia para o longiquo, para o que se Imagina, para o Distante, o Inaccessivel, o Insaciavel. Sonhos e fantasias que morreram e se dispersaram como o fumo e as cinzas das fogueiras a que se aqueceria nas noites uivantes do inverno trasmontano; mas que deixaram sementes de recordação e de saudade d'onde brotou o livro, escripto decerto nas horas feriadas do trabalho arido, com a documentação da natureza que vivifica, com a elaboração pachorrenta de quem não tem pressa e se compraz na arte libertadora.Especificar um ou outro conto não é depreciar os não citados, mas dar preferencia pessoal—e talvez peccadora—aoIdylio rustico, áUltima dadiva, áMãe, ásBatalhas domesticas, que fecham o livro e deixam entrever no auctor um desejo de animar os personagens tanto como anima a natureza onde elles sentiram. Ha contos nosMeus amoresque fazem lembrar um Cladel menos retumbante e por isso mesmo livram quem lê da patada epica do que fezCréte-RougeeOmpdrailles.O sr. Trindade Coelho é um escriptor tão distincto quanto aclarado pelo jorro d'arte que vem de ha muito confundindo os convulsionarios do talento; os serenos no desdem; os enthusiastas; o que, despindo o metaphorico, quer significar que elle está em posição artistica onde decerto o seu talento e o seu trabalho continuarão a chamar attenção e respeito.—M. Caldas Cordeiro.»Antonio Maria, (com o retrato do auctor, desenho de Raphael Bordallo):—«Os meus amorespor Trindade Coelho.—A livraria portugueza tem tido uma enchente, como raramente lhe succede, na ultima quinzena. Depois do exito do romance de Abel Botelho e do livro de memorias de Luiz Palmeirim, veio o volume de contos de Trindade Coelho, com a amavel denominação deOs meus amores.Aqui o temos, já todo aberto, já todo lido... É originalissimo, agradabilissimo o modo de escrever, de descrever, de dizer, de contar, que usa o auctor d'este bello livro,—agradabilissimo contista, escriptor originalissimo, cujo nome a bibliographia regista hoje, tão notavelmente, como o jornalismo de ha muito o registara.A quem o lêr, garantimos, sob a palavra de honra do nosso gosto, algumas horas muito bem passadas, passeadas por aquellas paizagens e recantos provincianos que elle pinta, tão real e verdadeiramente como se lá se estivesse; em companhia d'aquelles typos que elle retrata, tão photographicos, tão nitidos, que é estar a gente a vêl-os, a ouvil-os, a falar-lhes...—Os meus amores, meus amores, que encanto!»O Tempo:—«Os meus amores.—É como Trindade Coelho intitula a collecção de formosos contos, publicados em volume, editado pela livraria do sr. Antonio Maria Pereira.Ha muito tempo que conhecemos e apreciamos o talento de escriptor de Trindade Coelho, desde quando lhe lêmos as suas producções litterarias n'um jornal de Coimbra, e que eram as primicias de trabalhos mais primorosos, como são hoje os contos a que nos vimos referindo.O livro de Trindade Coelho é dos raros que se lêem da primeira á ultima pagina sem um momento de cansaço ou de fastio. O espirito do leitor delicia-se seguindo todas aquellas scenas campezinas, d'uma singeleza tão commovente, e que nosMeus amoressão descriptas n'uma forma em que se revelam todas as qualidades d'um distincto e notavel escriptor. Só póde apreciar bem o merito d'aquelles contos quem souber quanto cuidado ha no labôr paciente do artista para conseguir dar ao estylo o tom de naturalidade e de espontaneidade, que se requer n'este genero de pequenas novellas, talvez o mais difficil de todos.Não nos demoraremos a falar dosMeus amores, que contém preciosas joias litterarias, e ao qual está, sem duvida, destinado um honroso logar na nossa litteratura contemporanea.»Correio Elvense:—«Trindade Coelho.—Este nosso amigo e festejado escriptor publicou agora o seu primeiro livro de contos e balladas que deu o titulo:Os meus amores, editado pela acreditada livraria de Antonio Maria Pereira.Trindade Coelho, que hoje occupa um proeminente logar no jornalismo da capital, fez ainda ha pouco algumas das suas melhores armas na imprensa de Portalegre, onde creou dois jornaes, um dos quaes ainda vive, que tiveram vida gloriosa em quanto os animou o trabalho do distincto estylista.Não só nos seus escriptos passados, mas então, conhecemos o grande valor que indiscutivelmente possue. Não nos surprehendem pois os seus triumphos e rejubilamo-nos com elles com a alegria e sinceridade de bons e sinceros amigos.N'um dos proximos numeros fallaremos da impressão colhida emOs meus amores.»O Dia:—«Os meus amores.—Se fosse no seculo passado, os fazedores de proemios, prologos e conversações preambulares com os pios leitores, á falta de jornalistas que noticiassem ou criticassem, por certo aproveitariam a occasião para sobre o nome do auctor glozarem varios elogios ao livro, visto que aquelle se chama Trindade e é ao mesmo tempo um poeta sincero, um escriptor de raça, e um observador attento, qualidades que se equilibram por tal sorte, que do conjuncto nasceu uma obra formosissima, animada de verdadeira commoção, sentida nas suas mais pequenas minucias, sempre elevada, sempre humana e sempre artista.A vida e a poesia trasmontana encontram-se a cada passo n'esta reunião de contos, que o sr. Trindade Coelho dialogou com um cuidado meticuloso, copiando do natural, e em que os personagens foram surprehendidos nos seus labores de cada dia ou nas suas intimas cogitações.Não temos espaço nem tempo para nos alongarmos na noticia d'este livro, e por isso nos limitamos a recommendal-o como leitura attrahente, como obra d'arte tratada com esmero, embora nem sempre com a mesma egualdade nem com o mesmo folego, como uma grande licção litteraria aos fazedores de naturalismo brutal.Ao auctor agradecemos a remessa do seu livro, ficando fazendo votos para que elles sejam tantos, que afoguem os autos e libellos em cujo meio o magistrado tem de viver, e d'onde sae amiudadas vezes para nos provar que quando se é artista lá de dentro, o contacto dos escrivães não prejudica a indole do escripior.»Novidades,(entrevista com João de Deus ácerca dosnovos):—«Litteratura nova.—Eu conheço limitadamente os novos, porque não leio jornaes, e não os leio porque os litterarios occupam-se na propaganda da immoralidade, e os politicos na propaganda do suicidio, e na do jogo das loterias, que seduz principalmente os engeitados da fortuna, mais sequiosos de domarem, n'um acaso da sorte, as agruras da sua vida. E emquanto o rico joga o superfluo, o pobre joga os trinta réis de tres quartos d'um pão.Mas aqui está o livro do Trindade Coelho, que me encheu de verdadeira alegria! É um rapaz de talento! O que é preciso é que elle dispa a toga, que lhe impede os movimentos. Não o conheço, mas dizem-me que trabalha muito. Já leu oSultão? Se ainda não leu, não o deixo sair de cá sem lh'o ler.—Li já todo o livro.—E depois, meu amigo, nós andavamos precisados d'uma coisa casta, onde fossemos purificar o espirito d'essas taes observações physiologicas, e não sei que mais, que por ahi apparecem todos os dias. O livro do Trindade Coelho tem o que eu chamo graça, e que não posso bem definir-lhe. Olhe: alli está aquelle quadro, em que os traços são correctos e a execução perfeita, mas não tem graça; e aqui, este, uma bella cabeça de rapariga, a physionomia dôce, o olhar abstracto: este tem graça. Até aVirgem Maria se chama cheia de graça, e foi mãe de Deus por ter graça. A graça na litteratura é tudo, mas é muito rara.»Novidades:—«Novellas rusticas.—Trindade Coelho.—Os meus amores(contos e balladas.)—Lisboa, livraria de Antonio Maria Pereira—1891.No seu penultimo artigo doTemps, dizia M. Anatole France, esse sceptico amavel e pirrhonico, que tem sido o terrivel sapador de todas as doutrinas axiomaticas da critica: «Il y a beaucoup moins de lecteurs pour les nouvelles que pour les romans, par cette raison suffisante que seuls les délicats savent goûter une nouvelle exquise, tandis que les gloutons dévorent indistinctement les romans bons, médiocres ou mauvais.»O conto moderno é como o romance, essencialmente analytico e psychologico, escripto em estylo technico, e destinado sobretudo a apresentar uma imagem precisa de qualquer meandro torcicolado da alma humana. A litteratura contemporanea tem procurado, quasi invariavelmente, os seus themas entre os vicios, as paixões e todas as energias depravadas do coração. A arte do sr. Trindade Coelho é muito differente d'isso, porém. O seu idylico livro de contos e balladas, aberto sobre um fundo de verdura reluzente, amorosamente evocado da paizagem trasmontana, e habitado por heroes simples, colhidos com intencional singeleza no meio do seu viver provinciano, não tem, decerto, parentesco nenhum com os volumes carimbados com a etiqueta actualmente em moda. É natural até que o leitor, habituado aos livros dos escriptores realistas, sinta uma profunda sensação de espanto ao emprehender a leitura dosMeus amores, duzentas paginas suaves e simples, sem pedantescas pretenções a passarem como tratado didactico de psychologia.Disse-se de Julio Diniz que elle era principalmente um paizagista, e que as suas figuras só serviam para dar expressão e vida á paizagem.O sr. Trindade Coelho possue, egualmente, a sensação visual particularmente desenvolvida, e as suas descripções são tambem, como as do auctor dasPupillas do sr. Reitor, magicamente poetisadas, como que apercebidas de longe n'um esbatido vago de sentimento e de saudade. Chega-se ás vezes a ter a illusão de que o artista está alli, paginas a dentro do seu livro, fazendo reviver no pensamento a alacre impressão das madrugadas lactescentes e dos poentes doirados da sua aldeia natal, cuja lembrança, elle conserva sempre viva, como nos versos de Salvador Rueda:
N. do E.