VAE VICTORIBUS!

Vai alta a lua na mansão da mortecom umas tremuras na voz, que eram mesmo de o esbofetear. Estava antipathico, aborrecido, desde que andava de namoro com a Marques. Só tinha uma coisa boa—acaligraphia.—Um talhe de letra bonito,—confessavam.—E as calças, hein? reparem vocês n'aquellas calças, vae flammante. Casualmente, Fernandinho olhou de longe para os do estanco, disse-lhesadeuscom a mão, affavel. Corresponderam todos, muito risonhos, mas a chamar-lhe nomes por entre os dentes:—idiota, palerma, pechisbeque...Sósinho, n'uma lentidão moribunda, olhos nas botas, olhos no céo, o Telles escrivão passava ao largo, ruminando alguma poesia. Ás vezes quedava-se extatico, suspenso, o pollegar esquerdo entre os dentes, um olho cerrado fortemente, a meditar. Vinha um gesto e punha-se de novo em marcha, contrafeito.—Ó senhores! mas não me dirão em que anda a parafusar o Telles, aquelle telhudo? E isto:—e poz-se a imitar o escrivão.Riram. O Mello imitava-o bem, o alma do diabo, no andar especialmente. Mas aquillo era um logogripho. Ha uma semana ás turras a um logogripho em acrostico.—Isso é o Telles!—fez um que vinha da praça.—Aquillo é um intrujão. Na rua não é que se adivinham logogriphos. Ó Ernestinho, você ainda tem d'aquillo queferve?O Ernestinho deixou descair o labio, não percebia...—Homem! d'aquillo que vinha n'umas garraforias escuras, compridotas...—Quer dizer gazosas. Uma rolha segura com guitas...—Ora é isso mesmo, nem mais.—Bem sei.Mas não tinha já. Nem mesmo queria mais, p'ra que? Achavam caro um tostão...—Eram aos tres para beber uma garrafa...—Podera! Por um pataco, trinta réis levando o assucar, fazia oHervasuma sóda,—objectaram alguns. Ponha lá que em gosto é a mesma coisa.—E aquella porcaria, ó Ernestinho, e aquella porcaria amarella que sujava tudo de escuma?Alguns cuspiram, disseram ao Alves que se calasse, que vomitavam, com seiscentos diabos!—Cerveja!—disse o Ernestinho—cerveja! uma coisa que lá p'ra baixo toda a gente bebe por gosto, as senhoras mesmo.E com um sorriso de desdem, exclamou:—O que é ser do calcanhar do mundo! Em nome do Padre, e do Filho...Mas na praça um grupo altercava. Ouviu-se distinctamente a palavra—«pulha»—pronunciada com força. Sahiram em tropel, ficaram só tres.—O que pagava as limonadas exultou:—Homem! nem de proposito! Ficava exactamente quem elle queria, estava mesmo a ver que aquella sucia lhe chupava o refresco:—Tó Russa! já lá vae esse tempo.Precisamente, a senhora Emilia chegava, com os copos n'uma bandeja:—Que provassem, diriam se precisava mais assucar. Mas parecia-lhe que devia estar bom...Beberam d'um trago, estava optima. A senhora Emilia tinha dedo para aquellas coisas.—Obrigado, ó Mello!—Obrigado, ó menino!E os dois sairam de rompante, chamandopatoao Mello, rindo-se d'elle e limpando os beiços.Quando o Mello ia sahir,—a ver o que ia na praça,—o Ernestinho, muito cortez, objectou-lhe que faltavam trinta réis:—Se alli não tinha, depois. Isso era o mesmo...—Mas trinta réis?!... De que são os trinta réis?—perguntou desconfiado o Mello.—Do assucar, foi do refinado,—explicou o Ernestinho. O mascavado acabou-se. Amanhã ou depois já devo ter mais. O senhor Mello desculpe.Não tinha que desculpar; sómente notava que aquellas coisas diziam-se no principio.—E sahiu sem dar mais palavra, furioso:—Uma ladroeira! Tres vintens não valiam os dois que lhe tinham chupado o refresco...Na praça tinha cessado a altercação, os grupos, reunidos, formavam uma grande roda, commentava-se. O Mello quiz informar-se:—que lhe contassem—«o escandalo».Ora! não fôra nada: o Veiga que se tinha lembradoque as correspondencias naVoz do Districtoeram escriptas pelo Albano. Disse-lh'o na cara. O Albano negou, deu a palavra de honra. O Veiga que é casmurro, teimou:—que não acreditava, ainda assim!—Vae o outro chama-lhe pulha, iam-se pegando. Ora ahi está!—Mas afinal, quem diabo escreve aquillo?—quiz saber o Mello. Aquillo ha-de ser escripto por alguem, está claro.Dez réis pela novidade! Que havia de ser escripto por alguem sabiam elles...—Quem, então?Divergiam as opiniões. Podia ser Fulano, podia ser Beltrano. Um ou outro dava a sua palavra de honra que tambem não era elle, jurava-o. Houve um que se lembrou se aquillo seria do padre Mendonça.—Qual! Do padre Mendonça não é. Fazia coisa melhor, se se mettesse n'isso. Olha o padre Mendonça, o dagibreirade Braga...Mas o da idéa insistiu, renitente:—havia alli suas coisas que o faziam lembrar, certas facecias, como a de chamarFrei Asneiraao Reitor eCabeça de Comarcaao Felisberto.—Pois se é elle, que se regale, póde limpar as mãos á parede. Mente como um alarve, mente da primeira linha até á ultima!—disse firmemente o verdadeiro auctor das correspondencias. Olhem o que elle diz do juiz de direito, só calumnias! O juiz! um homem teso! Tem lá o seu fraco pelas saias, mas isso, que diabo! isso não é defeito.De resto, eram todos accordes em que as correspondencias eram uma infamia. O que se chama uma infamia pegada. Mexericos e mais nada, uma coisa de soalheiro. E depois, o dizer-se lá que entre os rapazes não havia duas amizades leaes, que era tudo uma impostura...Houve um silencio significativo, talvez de approvação.—Só de pulha!—rematou, por fim o Nunes da Fazenda, o tal que escrevia as correspondencias com o pseudonymo deAramis. Vejam vocês aquellas gallegadas ao commendador. Aquillo chama-se lá fazer politica?! Discuta-se o homem como presidente da camara, sim senhor, discuta-se o homem publico, o funccionario; mas deixe-se-lhe em paz amarreca, os fundilhos das calças; ninguem quer saber se os creados lhe param em casa ou se não. E depois, aquellas allusões á família, aquellas piadas á D. Engracia, pobre velha...—A quem?—interrogaram uns poucos. Á Dona quê?—Á D. Engracia, está bem de ver. Aquella beata que fazia piugas de lã aos missionarios é ella. Presumo eu que é ella—fazia o Nunes das correspondencias com um grande ar de supposição. Eu cá foi para onde deitei.Os outros não. E como o das correspondencias tinha promettido explorar a chronica beata, aguardariam mais informações. Suppunham, no emtanto, ser com a D. Joanna, a do—«chá de herva cidreira.»—Outra canalhice! A D. Joanna, para festejar os annos da filha, convidára tudo,lazarões e penicheiros, não fizera politica. Depois foi aquella tareia que se viu:—que o chá era herva cidreira, que tinham bolor os doces de ovos, que ella parecia a quaresma e a filha o entrudo. Ora isto não se diz, a pobre mulher doeu-se. Citavam-se de cór phrases inteirasda correspondencia. Por exemplo:—A deusa da festa dizem que recebeu telegrammas de... amor.—Uma facecia de mau gosto alludindo ao Proença telegraphista. Depois do que por ahi se diz, é forte... Que afinal, quem sabe lá? Entre os dois que diabo póde haver? Namoro?No grupo alguns tossiram forte, rindo. O Nunes interveio:—Não senhores! Isto agora alto lá. A Amelia é uma rapariga séria...Riram ás gargalhadas, foi um barulho com a tosse.—Quando digo uma rapariga séria... Mau! Accommodem-se lá com obanzé, vocês deixem fallar,—tornou o Nunes, formalisado. Quando digo uma rapariga séria, quero dizer... sim... quero dizer...—e procurava a phrase, entalado,—por exemplo, que ella não é capaz de receber ninguem, alta noite, lá pelos quintaes, como o tal das correspondencias quer fazer suspeitar.Iam replicar-lhe, mas elle atalhou:—Chama-se áquillo ser canalha ás direitas, arre! Isto agora é fallar franco.Saltaram-lhe:—E você jura, ó Nunes? você jura?—perguntou, com gesto perfurante, o Alves dos Pesos e Medidas.Não... isso agora...Jurar, não jurava, mas, c'os diabos! pelo que se via, pelo que se podia julgar...—Léria!—disseram todos.O Nunes parece que estava com os beiços com que mamára. Com que então, para elle era tudo uma récua desantas? Desenganasse-se, que era tudo uma canalha, uma corja de sonsas. Que diabo de ingenuidade!O Nunes observou modesto, quasi agradecido:—Ingenuidade, eu te digo... Não é bem isso... O que sou é prudente. Desconto sempre noventa por cento áquillo que vocês dizem, ahi é que está...—Vocês é um modo de fallar,—emendaram alguns.—Vocês, digo eu, vocês... quando escrevem correspondencias,—explicou sophisticamente o Nunes.Calaram-se, disfarçaram. Proximo d'elles, a Amelia toda de verde, com guarnições de fita preta, caminhava ao lado da mãe, solemnemente. Tiraram todos o chapeu, cortejando risonhos, respeitosos. O Nunes foi cumprimental-as, submisso.—Dar o seu passeio, não é verdade?—E apertando-lhes a mão:—Vosselencia como passou? A senhora D. Amelia? Obrigadissimo. Assim... assim...Então? que diziam áquelle calor?—Abafava-se, alli pelas duas. Que forno!—O Brazil tal e qual—reforçou o Nunes.Mas que fôra feito, que as não tornara a ver desde os annos? Uma noite de truz, aquillo sim!—Olhe, senhora D. Amelia, a flauta... a flauta é que nem por isso, foi pena! O Abelsito andava constipado.A D. Amelia explicou. A mãe ficara doente, já não era para aquellas noitadas.—E em voz mais baixa, quasi dolente:—Depois, veio aVoz do Districto, aquillo chocou-a muito.—Não ha tal!—fez a mãe. Metteu-se-te isso na cabeça. Deixe-a fallar, senhor Nunes.E por pouco que não chorava ao dizer isto.O Nunes affectou um sentimento profundo:—Era melhor não fallar n'isso, não pensar em tal; todos as conheciam, todos lhes faziam justiça. Tinham acabado de fallar na tal correspondencia, agora mesmo. Uma garotada!—resumiu o Nunes.—E em tom confidencial:—Anda-se na pista do garoto. Elle ha-de apparecer. E depois... e depois... Muito boa tarde, minhas senhoras! O que fôr soará. É preciso dar um exemplo,—concluiu terminantemente. Uma severa lição!Despediram-se, ellas agradeceram ao Nunes—«a parte que tomava no seu desgosto.»—E seguiram cumprimentando para as janellas, perguntando se vinham d'ahi, um boccadinho até á capella, espairecer.As Silvas pediram que subissem. Um boccadinho só. Ficava muito bem aquelle vestido á Amelia.Não podiam subir, talvez á volta.—Pois sim, has-de ver o meu bordado a missanga. O papagaio está quasi prompto, que trabalhão!Estava na duvida se lhe poria o bico assim, de gancho. Não gostava. O risco era do Fernandinho. Já lhes fizera outro, talvez mais bonito. Coisas de anjinhos:—Verás.Os grupos tinham-se reunido em volta do Pelourinho. Passava gente que vinha do trabalho, da labuta aspera da eira,—homens com malhos, e mulheres de cestas á cabeça. A tarde descahia n'uma serenidade calma. No degrau de cima, o Paula, official da administração, com fama de typo de chalaça, cantava em surdina umas cantigas de caserna, obscenas, zaranzando na barriga como se fosse uma guitarra. De volta, os outros formavam roda. Todos riam, pediambis.—Tu has-de conhecer isto, ó Chico,—dizia o Paula para o Francisco Maria, um cabo que estava de licença. Tu has-de conhecer isto.O administrador do concelho, um pobre diabo desmazeladão e philosopho, affirmava que lhe lembrava Coimbra, a pandega das viellas. Ao Paula valia-lhe a prenda, palavra de honra que lhe valia a prenda, senão já o tinha demittido, ás vezes que lhe entrava borracho pela repartição. E pedia a rir, boçalmente:—Ó Paula, aquella dobate-bate, canta lá.E trauteava as primeiras notas, castanholando com os dedos.—Se era preciso, o Fernandinho ia pelo violão.—É verdade, você que fez hoje que não me appareceu na repartição, ó Fernando?—Dormi, está claro. Ao senhor doutor acontece-lhe o mesmo ás vezes. Olhem que pergunta!Mas o Paula tinha-se calado, bocejava.—Então, ó Paula...—supplicava o administrador.—Está fechado o realejo... Depois.Quem lhe dera que fossem as nove para irem até ao «sitio». Ou perder ou ganhar; tinha alli seis tostões que eram para ummico.—Mas eu não lhe dizia, sr. doutor? eu não lhe dizia hontem que adamase negava? Eu estava mesmo a ver aquillo... Bem feito! «gramou» um entalão que se consolou.—Quatro corôas.—Na vespera tinha ganho um quartinho.N'esse momento passava o juiz, sósinho como sempre. Todos tiraram o chapeu, elle passou gravemente, cortejando.—Quem eu te quero á perna é oAramis...—rosnou o Telles escrivão que embirrava com o juiz desde que o suspendera uma vez.—E ainda elle não sabe tudo...—insinuava perfidamente.—Pois o resto diga-lh'o você, diga-lh'o noAlmanach de Lembranças, em verso—fez d'um lado o Rodrigues do Real d'agua.O Telles, com famas de litterato, redarguiu que não dava confiança a analphabetos.—E eu a brutos, sabe você?Mau! que elles lá começavam. Officiaes do mesmo officio... Ó senhores, lá porque ambos faziam versos não se seguia que devessem embirrar um com o outro. Pelo contrario.O Telles, furioso, disse que não embirrava com o outro, que nem lhe dava essa importancia, essa honra.O Rodrigues ia saltar-lhe, tiveram mão n'elle. Mas jurou que d'outra vez seria, que fizesse de conta que já lá tinha na cara quatro bofetadas tesas.—Tesas, hein? olá! quatro bofetadas tesas.Havia de dar-lh'as, tão certo como dois e dois serem quatro, só para ter o gosto de dizer depois, n'um communicado, que desaffrontara as lettras portuguezas,—elle, o Rodrigues, elle, um simples fiscal do Real d'Agua.Aquillo fez surpreza, convidaram-no a explicar-se.—Não senhores! dizia colerico o Rodrigues, com grandes gestos.—Bem sei que não valho nada. Escrevi, é verdade que escrevi; faço ainda o meu verso quando me dá na cabeça. Uma rapaziada! Estão maus? Concordo. Mas não ha de ser aquellenégalhéque o ha-de dizer. Não o julgo habilitado. Lá porque tem soletrado dois romances, não se segue. Mas o que mando para publico sim, o que entrego aos prelos—é meu!—E batia no peito com a larga mão espalmada, furioso, n'umas raivas, de orgulho triumphante.—Não roubo! nunca roubarei!—affirmoumais alto o Rodrigues, para que o Telles que se ia retirando, no meio de dois amigos, conciliadores, o ouvisse.—Repito: não roubo, não faço como elle!—E as palavras sahiam-lhe salivadas, violentas, por entre os labios espumantes, atiradas ao Telles como pedradas.Os outros escutavam agora com interesse. Estavam a dar razão ao Rodrigues, instinctivamente, sem comprehender bem o que elle queria dizer.—As provas...—e metteu a mão no bolso do seu casaco de lona, com impeto:—as provas, vel-as aqui estão!Mostrou no ar a brochura verde doAlmanach de Lembranças.—Era do anno que vem, tinha-lhe chegado hoje. Alli estava o Peres do correio que lh'o tinha entregado elle mesmo.—Sou testemunha—confirmou do lado não sei quem.O Rodrigues, então, affirmou que era preciso historiar, contaria a coisa em duas palavras. O sr. Telles, o borrabotas do sr. Telles, lembrara-se um dia de ser escriptor, de ser poeta. O alarve! Todos os annos—zás! versalhada para oLembranças...—Era collaborador—disse o Antunes da Camara que admirava o talento de Telles.—Era collaborador.—Era quê?—interrogou logo o Rodrigues, de mão atraz da orelha.—Massador, massador é que elle era. Nunca lhe admittiram as asneiras, se me faz favor, nunca! Nacorrespondenciatroçavam-no, chegaram a dizer-lhe que podia fazer fortuna pelas tombas, que o não chamava Deus para as lettras. AquelleSerei ousado? é elle, sei que é elle. Nunca o admittiram.—Lembro-lhe aFlor do Campo, sr. Rodrigues, lembro-lhe esses versos—insistiu o Antunes.O Rodrigues teve um risinho feroz, fitando o Escrivão da Camara. Não lhe respondeu. Subiu os tres degraus dopelourinho, pausadamente, com pompa, e chamou a attenção dos amigos. Ia ler. Abriu oAlmanach de Lembranças, onde trazia um papel, e rompeu:—«Indignidade».—Em lettras bem graúdas, queiram inspeccionar.E colou ao peito oAlmanach, voltando para fóra na pagina onde o seu dedo reboludo apontava a terrivel palavra, escripta ao alto em epigraphe.Houve um sussurro, alguns pediram silencio. O Rodrigues que lêsse.«Os versos intituladosFlor do Campo, que viram a luz noAlmanach de Lembrançasdo anno extincto, foram-nos remettidos pelo sr. José Maria Telles, escrivão.»—Copiados por mim, uma letra floreada—esclareceu o Fernandinho.—Elle depois assignou—e fez no ar, com o dedo, o traço complicado da firma complicada do Telles.Pediram silencio outra vez. O Rodrigues continuou:«Publicámol-os na convicção de que eram da lavra d'aquelle senhor, pois que elle os assignava.»—E então?—perguntaram uns poucos, sem comprehender ainda.—«Pura illusão!»—continuou solemnemente o Rodrigues.—«Escreve-noso mimoso e assaz conhecido poeta sr. Alfredo Mendonça, dizendo que os versos lhe pertencem, e que o sr. Telles os roubara (sic) do seu volumeLyra Matutina.»Foi uma estupefacção! O Rodrigues proseguiu mais alto, fugindo aos commentarios:«Averiguámos, e d'isso alfim nos convencemos. Os leitores avaliarão a probidade do sr. Telles, a quem mais de uma vez tinhamos fechado a nossa porta por incapaz. Hoje damos-lhe com ella na cara—por indigno.»E o Rodrigues fechou o livro com estrondo, como os outros fechariam a porta na cara do Telles escrivão; tomou praça fóra, o livro debaixo do braço, e foi-se para o estanco do Ernestinho, altivo, solemne,—vingado!Os da roda seguiram-no silenciosos, corridos de vergonha, desnorteados, porque além de sempre terem julgado o Telles muito superior ao Rodrigues—e o Rodrigues bem o sabia, olha elle!...—tinham dado uma sorte de mil demonios, agora é que elles viam! distribuindo no theatro, por occasião da festa de Santa Barbara, aFlor do Campoque elles tinham mandado imprimir avulso—para lisongear o Telles que tivera o trabalho de os ensaiar noSanto Antonio. Hein? quem diabo havia de dizer que aquelles papelinhos de côr, uns verdes, outros amarellos, chovendo sobre a plateia entre o segundo e o terceiro acto, e quasi disputados a murro, n'um alvoroço de seiscentos diabos, encerravam uma insidia,—um logro á boa-fé, á credulidade ingenua de toda a comarca!E relembravam episodios, particularidades quasi extinctas: o Fernandinho vestido da menino do côro, batina vermelha e roquete de rendas, cobrindo-se de teias de aranhalá pelo fôrro do theatro, de gatinhas e com um «tôco» de vela na mão, aos tropeções, só para ter o gosto de ser elle a despejar dooculoaquella papelada; o Mello da administração, vestido de Frei Antonio, sandalias e grande chinó de calva redonda, feita d'uma bexiga de porco, com o Telles em triumpho por entre os bastidores, seguido pela turbamulta dos companheiros, em habitos de frade e fardetas de galuchos, dando vivas aopoeta! ao grande Telles, ensaiador da rapaziada!Que desastre! Afinal tinha-lhes sahido um intrujão! E quasi se regalavam da sorte que tinham dado, pelo prazer que sentiam de o ver agora humilhado, corrido, esbofeteado pelo ridículo. Bem feito!O Antunes da Camara, sobretudo, estava furioso. Fôra elle o da lembrança de se mandar imprimir a versalhada. Escrevera para Coimbra ao Manuel Caetano, ao Manuel Caetano da Silva, Praça Velha n.º 11, que mandava os impressos para a camara, e pedira-lhe aquillo como especial favor. O homem—prompto. Duzentos exemplares, quinze tostões. Quinze tostões que se tinha combinado dividir por todos, contas do Porto, mas que desembolsara elle só, afinal. Bem feito! ninguem o mandava ser burro. Arre! cavalgadura!E dava patadas no chão, cada vez mais furioso, apopletico.—Mas a bem dizer, tudo isso é nada!—continuou commovido o Antunes.—Ó senhores! e a figura que eu fiz... sim, a figura que eu fiz n'aquelle intervallo do drama para a farça?...Todos desataram a rir, tinha sido fresca... Elle sempre acontece cada uma! E relembravam:—levantara-seo panno quando os ouvintes menos o esperavam. Os que tinham sabido lá fora, ás doceiras, voltaram apressadamente com os cartuchos na mão, ensacando os rebuçados. Ia um reboliço pela plateia. Na «galeria dos camarotes» para onde só iam senhoras, gente fina, começavam a apparecer caras barbadas de sujeitos que iam saber «que tal», perguntar se ia uma pinguinha de licôr, um docinho. Em cima, na galeria alta, creadas e raparigas do povo, debruçadas no parapeito, apontavam para o palco, d'olhar attonito.—Elle que dianho é?—perguntavam.De baixo, da plateia, todos faziamchut! voltados lá para cima:—Caluda, sua gentalha!No palco estavam todos perfilados, trajando como na peça. O Freitas da recebedoria com o seu fato de Marco Aurelio; o Paula de cardeal, baculo em punho e a cara mettida n'uma estriga; o Fernandinho de menino de côro, todo lépido; a Anna Pisca muito acanhada no seu fatinho de Olivia; a Margarida que tinha feito de anjo no quadro final daGloria, em que ella subira n'um cesto vindimo á «região sidéra dos astros»; o pae de Santo Antonio, em ceroilas e de saia branca pelo pescoço, livido como saira do tumulo; aquella canalha da tropa—todos emfim!N'isto, entra pelo fundo o Telles todo de preto, no meio do Mello vestido de Santo Antonio e do Proença telegraphista que fazia de Frei Ignacio. Avançaram. Em baixo, o Felisberto mandou tocar o Hymno da Carta á meia duzia de musicos que não entravam na peça. O hynmo rompeu com grande estampido de pratos, n'umacadencia funebre. No palco, tudo immovel. Ninguem sabia o que era aquillo, não estava no cartaz. Esquecimento do Fernandinho, talvez... pensavam.Mas ao acabar o hymno, o Antunes da camara, com farda de centurião, durindana e botas d'agua, irrompe furioso do buraco do ponto e préga um discurso na bochecha extatica do Telles:«Não era elle o mais competente, de certo, o mais... etc. Mas tinham-no encarregado, obedecia... e tal. Só sentia não ter phrases, oratoria, porque emfim estava falando a um poeta...—collaborador doAlmanach de Lembrançaspara Portugal e Brazil—accrescentou voltado para o publico, esclarecendo. Emfim, finalmente... vinha para aquillo: dar-lhe um abraço em nome de todos...—e abraçou-o commovido, emquanto os espectadores berravamapoiados, dando palmas—«... e para isto»—accrescentou fazendo com a mão que se calassem, que se calassem depressa.Houve um sussuro de applauso, dos camarotes creanças gritavam—«ó Emilinha!» Era com effeito a Emilinha, a filha do Alves dos Pesos e Medidas, que sahia tambem do buraco do ponto, vestida de anjo, tules verdes e muita lentejoula a brilhar.Ficou-se a olhar a plateia, immovel, muito fria, ensaiada, emquanto o Felisberto preludiava na flauta. Em certa altura, n'um requebro doce da «melodia», elle fez-lhe com a cabeça «que entrasse», e a Emilinha rompeu n'uns guinchos, cantando aFlor do Campo, com musica daMuchagateiraoriginal do Peres do correio.O Telles sorria, entre glorioso e modesto, fallando a Santo Antonio e a Frei Ignacio:—Era de mais, era demais, elle não merecia...—Ora essa! pareciam dizer-lhe os outros—seriamos ingratos se...A «cantoria» acabou, o theatro parecia desabar com palmas, tudo berrava, um ou outro cão latia. Se não quando, os do palco desataram a rir, cosendo-se uns aos outros, fingindo um grande medo de que as bambolinas do tecto desabassem.Todos olhavam, curiosos. E n'aquella espectação viram de repente descer do alto, sobre o palco, agarrado a uma corda, o Freixedas da Mercearia vestido de Lusbel, rubro e com chavelhos. Cuidaram de estoirar a rir. Da bocca muito inchada sahiam-lhe faulhas, do algodão a arder que lá trazia dentro. Fazia caretas horrendas, arremedando Satanaz nos impetos da colera. O panno começou a descer, obliquo, esfarrapado d'uma banda. O Freixedas, suspenso, atirou fóra o algodão e gritou, furibundo:—Alto! suas bestas! Inda não!...Voltou-se de costas para o publico, e um letreiro que trazia d'hombro a hombro dizia em caracteres amarellos—C'est fini! O panno desceu então, estabalhoadamente. Os espectadores olharam uns para os outros, não tinham percebido... Foi n'esse momento que o sr. Antoninho, que tinha estudado em Braga, traduziu d'um camarote, em voz alta:—É findo!VAE VICTORIBUS!A Maria Lucilla.Emdezembro, ás seis é noite cerrada. Mais boccado, menos boccado, a essa hora recolhia do monte o José Gaio, sósinho, sachola ao hombro, um pouco atarantado com a trovoada que rugia ao longe, em surdina. Por cima d'elle, o céo ia-se fazendo cada vez mais negro, d'essa negrura espessa de tempestade que infunde pavôr á gente, e da qual os proprios passaros teem medo. Cessara de chover. Mas o vento do sul principiava agora, agitando os grandes ramos despidos dos castanheiros, fazendo-os murmurar não sei que extranha elegia... A um relampago mais vivo, o JoséGaio apressou o passo, e, benzendo-se, rezou aMagnificat. O trovão chegou, depois, lugubre, cavernoso, alastrando-se em roldões na larga amplitude do céo. Debaixo dos pés, o José Gaio sentia o caminho lamacento, encharcado das enxurradas valentes de todo o dia. Mas a ponte já não ficava longe. Depois, a ladeira, e no meio da ladeira a casa.—Vamo' lá com Deus! fazia elle animando se.Um clarão subito de relampago deslumbrou-o. Deante d'elle surgiu de repente a paizagem, e de repente desappareceu, feericamente illuminada. Deitou então a correr, aterrado; mas tão forte veio em seguida o trovão, que elle instinctivamente parou e levou ao céo as mãos afflictas, n'um gesto de quem implora misericordia. N'aquella imminencia de perigo as proprias arvores lhe pareciam immobilisadas pelo terror, á beira do caminho. E atravez dos castanhaes, o surdo rumor do vento era como a voz implorativa da natureza, unindo-se á voz d'elle n'um longo côro de supplicas...O José Gaio ia transido. Mas peor ficou quando de repente, sem saber d'onde, alguem chamou por elle, lugubremente:—Ó José Gaio!O homem parou. E como perto d'elle apenas enxergasse os braços da cruz negra, que era o signal de alli terem matado o José Tendeiro, ha annos, apertou o passo e tomou por um atalho, direito á ponte. Mas então a mesma voz tornou-lhe mais de perto:—Ó José Gaio!Quiz fugir, mas o medo parece que lhe tolhia as pernas. N'isto veio um relampago que illuminou a mil côres a paizagem. Elle cerrou os olhos com força, nervosamente, ferido por aquelle deslumbramento que por milagreo não prostrou. E quando o trovão bramiu, rudemente, uma immobilidade de estatua prendia o camponez á terra. Foi então que veio de novo aquella voz, como um prolongamento do trovão:—Ó José Gaio!Ia avançar para ganhar a ponte. Parecia-lhe que, uma vez transposta, galgaria a ladeira n'um instante. Mas involuntariamente, cedendo a uma força violentissima, entrou de retroceder, cambaleando. Aquelle rugir da agua que logo abaixo da ponte fazia cachão, rugir violento mas monotono, infundiu-lhe um grande pavor. Teve medo e deixou-se retroceder... Senão quando, estacou ouvindo a mesma voz:—Ó José Gaio!E logo atraz da voz, com um rastro, um intensissimo relampago côr de sangue. Viu tudo vermelho, afogueado, tudo menos aquella cruz preta de longos braços, sempre abertos e sempre firmes, que pareciam desafiar a tempestade...Aquella serenidade da cruz estonteou-o. Dir-se-hia que esse nobre exemplo de altivez vinha agora humilhar mais a sua fraqueza. Desviou os olhos e cerrou violentamente as palpebras. Mas em vão! que fôra tão vivo o deslumbramento, e tanto lhe ferira o cerebro, que n'um fundo côr de sangue, como n'um transparente de magica, elle via nitidamente desenhada, sempre firme e sempre altiva, a cruz que o estonteara. Então deram-lhe impetos de fugir; uma onda de coragem parecia dilatar-lhe o peito impellindo-o. Precisamente n'esse momento, a voz tornou a chamar:—Ó José Gaio!Sentiu-se alquebrado, transido até ao mais intimo do seu ser. Um longo desfallecimento invadiu-o todo, quebrando-lhe a ultima fibra de energia, como se quebra um vime secco. Aquella paralysia atacou-lhe tambem o cerebro: não formava um só raciocinio nem elaborava sequer uma idéa, a mais simples. E foi preciso um grande trovão para todo elle tremer, abalado como a propria terra. Depois, outro relampago fez reviver n'elle a vida do espirito; sentiu um grande pavôr áquelle aspecto subito do campo que deante d'elle se perdia de vista, afogueado como se estivesse todo em chammas. Aqui, um pinhal, uma ermida além, para toda a banda casaes, surgiam de repente, nitidos nos seus contornos, definidos maravilhosamente nas suas attitudes. As grandes arvores despidas, sobretudo, tinham um ar phantastico, n'essa pureza nitida de recorte que traçava na luz as sinuosidades mais delicadas dos troncos e ramarias. No meio d'este scenario de magica, a um tempo magestoso e tetrico, o triste camponez sentia-se apavorado, jactitante e quasi inerte, alli chumbado á terra, hirto como a cruz que tinha deante. E nem um só gesto implorativo, e nem uma só palavra de supplica lhe sahia dos labios crispados. Porque uma vez que tentára uma palavra, o mais formidavel trovão cortara-lh'a na primeira syllaba. Depois, aquella voz não o largava, imperturbavel e monotona:—Ó José Gaio!E elle, não respondendo nem fallando, pensava esconjural-a, exorcismal-a como se fosse a voz d'um duende. E para esta evocação do sobrenatural muito concorria, como os senhores comprehendem, esse aspecto sereno da cruz negra, inabalavel sob a aza agitada da procella.N'isto veio a chuva, em grossas gottas a principio, em cordas d'agua depois. Ella varejava-o inclemente, impellida agora por um vento sul furioso. Não deu um passo para procurar um abrigo, não se mexeu sequer. Como todo elle ardia em febre, aquelle diluvio era quasi um celeste beneficio para a sua cabeça n'um vulcão. Mas quando os relampagos vieram, aquella reverberação da luz nas cordas d'agua fez-lhe um deslumbramento mais forte. E cahiu inerte sobre o caminho lamacento por onde a agua escorria impetuosa, ao mesmo tempo que a voz do costume, sobrelevando o trovão, repetia do lado da cruz:—Ó José Gaio!Cobarde, sujo como um sapo, encharcado até aos ossos, como cahiu assim ficou—de bôrco. Depois, quando abriu os olhos, na larga poça onde quasi tinha a cara, via reflectir-se a cruz, a cada relampago. Ella lá estava no seu posto, altiva, serena, intemerata, recta como um exemplo... E pois que parara o diluvio, dos seus braços abertos as gottas da chuva cahiam, vermelhas á luz, como grossas lagrimas de sangue...Cobarde! Nenhuma comparação póde dar idéa do estado de prostração d'esse miseravel, reduzido pelo terror a uma quasi inacção de besta morta. Dir-se-hia um immundo trapo alli cahido, abandonado alli na lama ignobil de um caminho, á espera da enxurrada que o levasse... Era abjecto!... E emquanto esse animal assim jazia, atordoado, como boi que uma malhoada prostrou, ao fundo do horizonte, para sul, o encastellamento phantastico das grandes nuvens plumbeas, listradas de negro e roxo, metralhando com furia o largo espaço, aos quatro ventos, era tudo quanto o nosso espirito póde conceberde mais grandioso e de mais sublime, epico e tragico a um tempo, soberbo, magestoso, imponente.Mas a voz sempre a ouvia, por cima do vento e por cima dos trovões, aquella voz:—Ó José Gaio!Assim largo tempo, horas talvez. O torpor do frio aggravava-lhe o outro, o do medo. Parecia colado á lama, preso ao caminho como se fosse uma rocha. No emtanto, a espaços, tinha a comprehensão clara da sua posição e do seu estado. E então uma raiva subita galvanisava-o: queria erguer-se, fugir, desapparecer—erguer-se como aquella cruz, fugir como aquelle vento, desapparecer como esses relampagos, que nem deixam rastro na treva...Taes rebates de coragem eram, porém, ephemeros, impotentes para lhe provocarem um movimento. Aquelle diabo tinha de morrer alli, miseravelmente, ignobilmente, como um cão a que houvessem amputado as quatro pernas. E esta idéa, que o instincto de viver lhe suggeriu, apavorou-o ainda mais que a propria tempestade. Morrer alli! Mas que duvida, se ninguem lhe vinha acudir, se não passava por alli viv'alma, a taes deshoras! Era horrivel! No meio de um caminho, n'uma noite medonha de tempestade, ao pé d'aquella cruz negra de longos braços hirtos—morrer alli!... Eram então já por elle as lagrimas que essa cruz parecia chorar?...Estava n'isto, quando n'um silencio de acaso ouviu passos a distancia. Vinha gente. Quem quer que era tinha de passar por alli, de tropeçar n'elle, talvez. Subitamente, sentiu-se reviver. Estava salvo. Em breve estaria de pé,—de pé como essa cruz que um relampago muito vivoacabava de lhe mostrar... No emtanto, a voz é que se não importava:—Ó José Gaio!Mas os passos vinham-se chegando; e então, como se receasse que o calcassem, reuniu n'um supremo esforço as maximas energias, e rebolou-se para um lado, até ficar detraz d'umas urzes. Coisa notavel foi, senhores, que esse miseravel em vez de gritar calou-se, e todo se recolheu n'uma absoluta quietação, com medo que o surprehendessem... E quem quer que era passou, cabeça nua, deante da cruz gottejante... Aos ouvidos do miseravel chegou um como murmurio de prece... Não ia só a rezar; ia tambem chorando, aquelle homem......Quem seria?Um clarão branco de relampago fez irromper da treva, livido como um espectro, o filho do José Tendeiro...O desgraçado ia a chorar pelo pae, alli assassinado havia annos, por uma noite como aquella...Passou, ladeira abaixo, na direcção da velha ponte. Só aquelle cobarde não se mexeu, prostrado sobre as urzes, quasi arrumado á cruz.E assim esteve horas e horas, até que, noite velha, cessou a tempestade, perdida n'um murmurio longiquo, lá na extrema fimbria do horizonte... Quando a lua rompeu, livida n'um céo de anil, nem a grande sombra da cruz, incidindo sobre aquelle corpo, como um beijo ou uma benção, logrou reanimal-o. Tinha morrido, o estafermo!Ao outro dia, está claro, foram lá os da justiça. O velho abbade foi depois, buscar o corpo. Os medicos nem lhe tinham mexido.—Sangue pelos olhos, sangue pela bocca, sangue pelo nariz, uma congestão muito linda—dissera um a rir.—E muito mal empregada—fizera o outro do lado, indifferente.Mas quando os da maca disseram a um tempo—Upa!—esse bom velho do abbade cahiu de joelhos deante da cruz, n'uma convulsão agudissima de choro. E elevando ao céo as mãos mirradas—ao céo que um divino azul fazia diaphano—elle exclamou, soluçando:—Senhor! Senhor! a vossa justiça é tremenda, como é infinita a vossa misericordia!...Segredo de confissão...—mas o abbade bem sabia quem tinha alli matado o José Tendeiro...

Vai alta a lua na mansão da morte

A Maria Lucilla.


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