IlustraçãoRACHELFoi n'esse mesmo andar queJorge Castello Branco, o infeliz primogenito de Camillo, passou os ultimos tempos da sua curta existencia.Contou a sr.ª D. Anna Corrêa que elle tinha horror a vêr os criados da casa. Postas as refeições sobre a mesa, os criados sahiam; e o Jorge entrava depois. Algumas noites prestava-se a tocar piano—esse piano que era de sua mãe e que ella havia levado para a Cadea da Relação do Porto—mas exigia que ninguem estivesse presente. A musica foi uma das muitas aptidões artisticas do Jorge. Eu já disse algures que elle, em noites de luar, se empoleirava nas arvores de Seide a tocar flauta.Queria viver isolado no seio da propria familia. Não consentia que lhe fizessem limpeza no quarto. Se alguem se quizesse aproximar, cuspia-lhe.No dia 2 de setembro de 1900, o Jorge não se levantou para ir almoçar. A porta do seu quarto estava fechada por dentro, como era costume.A sr.ª D. Anna Corrêa chamou-o:—Sr. Jorge, são horas do almoço.Elle respondeu:—Já vou.Mas passou tempo sem que se levantasse.Tornaram a chamal-o.—Já vou, repetiu elle.Mas, como não apparecesse, a sr.ª D. Anna resolveu entrar no quarto pela janella, o que foi empreza difficil.Achou o Jorge doente, apathico, n'um estado gastrico{38}que, n'esse momento, lhe pareceu não offerecer maior gravidade.** *D'aqui por deante, a narrativa da sr.ª D. Anna Corrêa conforma-se inteiramente com a versão que o sr. José de Azevedo e Menezes, da illustre casa do Vinhal, em Famalicão, me communicou n'uma carta, por mim já publicada.Vou reproduzil-a, para que não fique perdida na volumosa collecção de uma folha diaria:«Em resposta á estimada carta de v. , tenho a dizer-lhe que o infeliz Jorge de Castello Branco falleceu em casa de D. Anna Corrêa, a companheira do Nuno, no dia 10 do corrente mez, ás 6 horas da tarde, e enterrou-se no dia 12, assistindo alguns visinhos.«Tratou-o nos ultimos quinze dias de vida o medico Dias de Sá, de Landim, que logo previu o desenlace fatal.«No dia 2 d'este mez o Jorge sentiu-se mal do estomago, talvez por ter debicado as primeiras uvas e pêras do quintal da casa. Um ligeiro laxante deu-lhe melhoras, que infelizmente se não mantiveram, cahindo com desmaios e não podendo conciliar o somno.«A final veiu a paralysia cerebral que o matou sem agonia. De vez em quando gemia e invocava a{39}Deus! Durante um desmaio na manhã do dia em que morreu, foi ungido.«Não se lhe notou á hora da morte o intervallo lucido, que ás vezes apparece nas doenças mentaes.«Tinha, porém, amor á vida, esperando obter melhoras dos remedios, que só tomava nos caldos e leite pela mão da sua desvelada enfermeira D. Anna Corrêa, que foi para o infeliz louco uma carinhosa mãe.«Fui visitar essa bondosa mulher, e fiquei agradavelmente impressionado da sua apresentação e do bom senso, que mostrou em alguns pontos da nossa conversa. A rudeza da sua origem poliu-se no trabalho e soffrimento, que lhe deram os desgraçados com quem viveu. A mulher só se engrandece pela bondade, que é a sua belleza moral.«O grande desejo de D. Anna é educar bem os seus filhos, mas como poderá desempenhar-se d'esta nobre tarefa sem recursos? É urgente abrir uma campanha a favor d'ella, para que lhe acuda o governo ou as almas bemfazejas. Inicie v. na imprensa periodica esta nobilissima missão. Os dois filhos mais velhos são intelligentes, principalmente o Camillo, que eu fixei com attenção e descobri-lhe traços physionomicos do glorioso avô. O rapaz é triste e concentrado e quer ser Padre... Até n'isto se parece com o grande escriptor, que no verdor dos annos pensou em se prender á Egreja. A sua ultima assignatura foi no assento do baptismo d'este seu neto e afilhado,{40}feita em casa de Nuno e sobre um piano, por lhe ficar mais a geito.«Ao sahir da casa de D. Anna Corrêa olhei para a outra proxima, aonde viveu e morreu o incomparavel prosador portuguez. Está agora mal pintada de amarello e triste como a tragedia que a fechou. N'aquelle gabinete de Camillo apagaram-se os ultimos lampejos da sua conversa encantadora, esmaltada sempre de ironias, cortantes como o nordeste.«Que tristeza e que lição para todos nós! Creia-me sempreDe V. etc.José de Azevedo e Meneses.S/C do Vinhal, 16-9-900.»** *Os jornaes do norte do paiz, noticiando a morte de Jorge Castello Branco, logo fizeram sentir que, tendo cessado com a sua vida a pensão, os netos de Camillo ficavam quasi reduzidos á miseria.Dizia o correspondente de Famalicão paraO Commercio do Porto:«FAMALICÃO, 12.—Em S. Miguel de Seide sepultou-se hoje Jorge Castello Branco, ultimo filho do finado romancista Camillo Castello Branco.{41}«De ha muito que o seu viver era o de um verdadeiro louco, temendo todos e passando os dias n'um aposento sem o convivio de pessoa alguma. O seu fallecimenio foi um verdadeiro desastre para seis netos do grande romancista, pois que a pensão que o governo dava ao finado custeava tambem a educação das creanças, que agora ficam ao desamparo.—(M. G.)»Escrevia oLusitano, de Famalicão, no mesmo dia 12:«Acaba de fallecer em Seide o filho mais velho de Camillo Castello Branco, o pobre louco tão amado pelo immortal auctor doAmor de Perdiçãoe tantas outras joias que hão de fulgurar seculos em fóra, na litteratura nacional.«Ha muito que o Jorge, doido, doido desde tenra idade, fugia completamente do convivio social.«Vimol-o ha semanas, pela ultima vez que veio á villa, causando immensa pena a precocidade da sua velhice e, mais nos commovemos ao attentarmos no seu perfil, que muito se parecia com o de seu pae.«Como é sabido, o filho mais novo de Camillo deixou bastantes filhos na miseria, servindo-lhes de amparo a pensão que o governo dava ao Jorge.«Morto este, ficam os netos de Camillo sem recursos de qualidade alguma.«Pois quando mais não seja se não para honrar a memoria de Camillo, deve o governo continuar a{42}dar a seus netos a pequena quantia que deu ao Jorge durante alguns annos.«O pequeno Camillo Castello Branco e seus irmãos não devem ficar ao desamparo.«Quem sabe até se, educados os netos do genialSolitario de Seide, algum d'elles não será ainda muito util ás letras patrias, continuando a honral-as como honradas foram mais de meio seculo por seu avô o querido Mestre?»** *A pensão ao primogenito de Camillo havia sido concedida por um decreto depois sanccionado pelo parlamento nos seguintes termos:«Artigo 1.º É approvado o decreto de 23 de maio de 1889, pelo qual, em reconhecimento publico dos relevantissimos serviços prestados ás letras patrias pelo visconde de Correia Botelho (Camillo Castello Branco), é concedida a seu filho Jorge Camillo Castello Branco a pensão annual e vitalicia de 1:000$000 réis.«§ unico. A pensão de que trata esta lei é isenta do pagamento de quaesquer impostos, e será abonada desde a data do decreto que a concedeu, ao visconde de Correia Botelho, em quanto vivo fôr.Art. 2.º Fica revogada a legislação contraria a esta.»{43}Os filhos do visconde de S. Miguel de Seide, netos de Camillo, aos quaes faltou o amparo da pensão que o tio recebia, são, pela ordem chronologica do nascimento:Flora, nascida a 11 de janeiro de 1886.Camillo, nascido a 16 de março de 1888, no mesmo dia e mez em que nasceu o avô, que era seu padrinho.Nuno Placido, nascido a 4 de março de 1889.Rachel, nascida a 21 de fevereiro de 1890.Simão, nascido a 6 de julho de 1891.Manuel, nascido a 23 de abril de 1893.Um motivo especial, que logo referirei, leva-me a fazer duas transcripções do jornal de Famalicão,O Lusitano, apezar de em qualquer d'ellas se encontrar o meu nome acompanhado de adjectivos que eu considero apenas um amavel cumprimento de quem os escreveu.Agradeço-os, mas declino-os por immerecidos.Não me assiste, porém, o direito de mutilar as transcripções.DiziaO Lusitanono seu numero de 29 de agosto do corrente anno:«Noticiámos, ligeiramente, a semana passada, a estada, em S. Miguel de Seide, de visita aos netos de Camillo, do illustre escriptor sr. Alberto Pimentel.«Não conhecemos as impressões, que a sua ex.ª resultaram da volta, passados tantos annos, á casa do grande escriptor seu amigo. Mas não nos seria desagradavel{44}saber se o nosso estimado confrade doPopulartomou, ou não, a resolução de contar no jornal, que redige, como é justo que o governo tome a iniciativa de proteger, de algum modo, os malaventurados netos do grandioso estylista.«Tem-nos contado pessoas, que privam com a familia de Seide, que ha, entre aquellas seis creanças, uma—o Camillo—possuidora de intelligencia rara.«Se assim é, não faz pena que a falta de recursos constitua embaraço ao aproveitamento d'aquelle rapaz?«Não ha duas opiniões divergentes sobre a justiça de continuar, em favor dos descendentes do eminente romancista, o subsidio, que este primeiro aproveitou e que se extinguiu pela morte do Jorge. Vão os rendimentos do Estado, dia a dia, para applicações muito menos comprehensiveis.«O sr. Alberto Pimentel, que foi á casa de Seide, decerto viu o que aquillo é, comparativamente com outros tempos.«Ponha, por conseguinte, s. ex.ª todo o enorme merecimento da sua penna e das suas relações ao serviço d'esta causa. É o maior testemunho de amizade que póde prestar á memoria do extraordinario escriptor. E evita que se reedite aquella tão conhecida e fustigante phrase de Garrett, que constitue, com motivo, um castigo severissimo á contumaz ingratidão do nosso meio.»{45}IlustraçãoSIMÃOEu tinha necessidade de commentar esta transcripção para explicar o meu procedimento.Se, immediatamente á minha visita á familia de Seide, não publiquei noPopularas impressões que ali recebêra ao observar de perto a vida dos netos de Camillo e, portanto, a justiça da sua causa, foi porque logo fiz tenção de me occupar do assumpto com maior desenvolvimento do que aquelle que poderia dar-lhe n'um ou dois artigos de jornal.Desobrigo-me agora do compromisso que tomei comigo mesmo.** *Poucos dias depois de ter lido a noticia doLusitano, acima transcripta, recebi do sr. Rodrigo Terroso, jornalista distincto e escrivão-notario na comarca de Famalicão, uma carta relativa ás impressões que eu teria trazido de Seide e ao que eu estaria disposto a fazer em favor da pensão.Respondi na volta do correio, e o teor da minha resposta resalta da seguinte noticia queO Lusitanopublicou no dia 3 de setembro:«Ao director politico d'esta folha que acompanhou, particularmente, perante o sr. Alberto Pimentel o pedido feito aqui ha oito dias em favor dos netos de Camillo, respondeu, de prompto, o apreciavel escriptor e jornalista com uma carta, que é a promessa solemne de intervir no sentido rogado.{46}«... fui expressamente a Seide para me orientar na questão da pensão aos netos de Camillo.«Na proxima legislatura trabalharei por conseguil-o, no que espero ter o auxilio de Antonio e José de Azevedo.«Não farei parte do parlamento, mas envidarei os maiores esforços possiveis junto do parlamento e do governo.»«É solemnissima a promessa. Fiamos de que será cumprida. Sobre dar-se com o sr. Alberto Pimentel a circumstancia de haver sido dos amigos mais sisudos de Camillo, accresce que o distincto escriptor lisbonense conhece, ao presente, em pessoa, a justiça da causa, que tanto tem merecido as nossas sympathias. E dizemos assim porque ainda ninguem a advogou com tão fervente empenho como nós, que fomos, até, o primeiro a patrocinal-a. Consta isso de correspondencias que oPrimeiro de Janeiropublicou logo a seguir á morte do Jorge, sem falar no pedido directo que, immediatamente, apresentamos ao sr. conselheiro Antonio de Azevedo, sobrinho de Camillo, muito apreciado por este. E que o notavel homem publico trabalhou n'esse sentido, mais seu irmão sr. conselheiro José de Azevedo, disse-o, poucos dias decorridos, um telegramma para oDiario da Tarde, confirmado, simultaneamente, por algumas gazetas de Lisboa.«O sr. Alberto Pimentel affiança-nos a intervenção d'estes dois auxilios. Pois é caso para nos julgarmos felizes com a felicidade certa dos netos de Camillo.{47}P. S.—O Regeneradorrefere-se, sobre o mesmo motivo, a uma carta antiga do sr. José de Menezes ao sr. Alberto Pimentel. Era o sr. Menezes um dos amigos de Camillo. Não sabiamos que tinha intervindo. Fel-o e procedeu cavalheirosamente. Está na reconhecida correcção de s. ex.ª».Trabalhemos todos—todos os que veneramos a memoria de Camillo—sem excepção de ninguem, no empenho de vencer esta causa santa, que a Justiça inspira e que o Patriotismo recommenda.É uma divida nacional, que tem de ser paga. Somos todos devedores; honremo-nos pagando.** *A Sr.ª D. Anna Corrêa cumulou-me de amaveis deferencias logo que o meu disfarce cahiu. Uma d'ellas, a que mais encantado me deixou, foi a gentileza de me obzequiar com os dois quadrinhos, os retratos de Gautier e Karr, que estavam na saleta contigua á alcova de Camillo.Se bem que um pouco damnificados pela acção do tempo, como se póde vêr na reproducção, elles representam para mim um valor inestimavel.Fil-os authenticar com a seguinte declaração, que mandei imprimir e collar no tampo da moldura:«ESTE QUADRO ESTAVA NO QUARTO DE»«CAMA DECAMILLOCASTELLOBRANCO EM»{48}«S. MIGUEL DESEIDE. FOI-ME DADO ALI PELOS»«SEUS HERDEIROS, A 20 DE AGOSTO DE 1901,»«NA PRESENÇA DO SR.ADRIANO DESOUZA»«TREPA, DESANTOTHYRSO, EFRANCISCO»«CORRÊA DECARVALHO, DESEIDE.—ALBER-»«TOPIMENTEL.»Foi o sr. Carvalho que, trepado a um banco, os despendurou da parede, fronteira ás janellas.Mais nua ficou ainda desde essa hora a casa solitaria de S. Miguel de Seide.Aqui tenho eu, deante dos olhos, esses dois velhos companheiros de Camillo, seus camaradas e seus hospedes, Gautier e Karr, com os quaes conversarei longamente sobre a vida e a morte d'esse que foi nosso commum amigo e que elles tão de perto viram soffrer e sonhar—por tantos dias e tantas noites.Da parede onde estavam enthronisados só podiam avistar todo um horisonte de pinheiros a esbater-se, ao longe, na vertente de uma vasta corda de montes.Coitados! a principio devia custar-lhes muito terem que trocar Pariz pelo Minho, o bulicio pelo silencio, osboulevardspelos pinheiraes, a capital do mundo pela aldeia erma e profunda.Mas o campo, como o oceano, é uma solidão apenas repulsiva nos primeiros tempos de uma iniciação forçada; depois identifica-se tanto com a nossa alma, penetra-a de uma tão saudavel tranquilidade e doçura, que se torna quasi uma religião: não ha meio{49}de arrancar o camponez ao seu tugurio e o marinheiro ao seu beliche.Agora, saudosos da Thebaida de Seide e do grande espirito que a povoava, virão constrangidos, Gautier e Karr, defrontar-se, através da minha janella, com as trapeiras d'esta revôlta casaria de Lisboa, cahotica e asymetrica, que apenas deixa ver escassos retalhos de céu azul na claridade limpida do ar.Sou eu o primeiro a lamental-os, mas nem por isso os guardarei com menor vigilancia; altas personagens de que me constituiram carcereiro, saberei amal-as, mas saberei tambem garantir a sua posse—como a de dois inestimaveis valores que vieram enriquecer o meu thesouro camilliano.Devo ainda á sr.ª D. Anna Corrêa a gentil prodigalidade de outra offerta: o retrato de Manoel Pinheiro Alves, primeiro marido da viscondessa de Corrêa Botelho.Quando publiqueiOs amores de Camillo, muito desejei eu obter este retrato; mas n'essa occasião faltava-me a certeza de que o meu pedido não seria uma inconveniencia irritante.Confessei-o agora á sr.ª D. Anna Corrêa, que espontaneamente me offereceu um exemplar em photographia. No album de Seide havia dois, tirados em Pariz, no tempo de Napoleão III, casa Mayer & Pierson, boulevard des Capucines, 3.Incluirei esse retrato n'uma segunda edição d'Os amores de Camillo, se algum dia a fizer. Aqui não é{50}o seu logar proprio. Mas quero dar uma rapida impressão da pessoa de Manuel Pinheiro Alves: alto, magro, face glabra, olhos pequenos e fundos, escasso cabello penteado sobre a orelha direita; vestindo correctamente de preto, sobrecasaca comprida, gravata em laço.Toilettede velho, harmonisando com a physionomia; mas de velho que, por amor de uma mulher, quer apurar o vestir.Tem o aspecto grave de ser o pai de D. Anna Placido, não o marido.Tambem agora fiquei sabendo que Manuel Pinheiro Alves nascêra perto de S. Miguel de Seide.** *Quando voltámos á casa de Camillo, para eu receber os dois quadrinhos, parei um momento, ao sahir, no topo da escada de pedra.Corri os olhos pelo vasto pinheiral circumjacente, que fecha o horisonte n'uma faxa verde-negra. Tive n'esse momento a nitida comprehensão do que seriam ali as longas noites de inverno, ouvindo gemer os pinheiros na solidão profunda de uma aldêa minhota.—Pobre Camillo! disse eu, como se estivesse pensando alto. As suas noites aqui deviam ser horriveis!O sr. Francisco Corrêa de Carvalho replicou:—As tardes, as tardes de Camillo é que eram{51}ainda mais agitadas e tormentosas do que as noites. Depois de jantar, soffria muito; excitava-se, tinha desesperos, frenesis, que nos amarguravam tambem a nós.É facil a explicação d'este phenomeno pathologico.As crises visceraes, dolorosas, são vulgares nos tabeticos. Ou vem com asdores fulgurantes(Camillo teve-as) ou independentemente d'ellas. Chegam a ser de violencia extrema, por vezes. E, entre essas crises visceraes, a gastralgia é frequente.O trabalho da digestão provocaria as torturas gastralgicas.Após elle, quando em socego o estomago, a crise desapparecia, dando treguas ao pobre Camillo.Eis aqui, pois, mais um pormenor do ingente drama de amargura que matou o grande romancista.Voltei agora a Seide, depois de dezeseis annos de ausencia.Estive ali no mez de agosto de 1885.O opusculoUma visita ao primeiro romancista portuguez em S. Miguel de Seiderecorda esse facto.Em agosto de 1901, repetida a jornada, já não encontrei nenhuma das pessoas que em 1885 povoavam a casa de Seide: Camillo, D. Anna Placido, Jorge e Nuno Castello Branco.Dir-se-ia que um desastre enorme victimára de um só golpe uma familia inteira.É que a fatalidade de certos destinos iguala-os{52}na vida e na morte, regulando as suas horas por uma unica ampulheta.Os desgraçados que nasceram sob a mesma sina chamam uns pelos outros.Fui achar uma segunda geração, uma ninhada de creanças intelligentes e meigas, que se encontram, desprotegidas, á beira de um abysmo insondavel.O seu dia de amanhã não é mais seguro do que a salvação incerta do naufrago que, em pleno oceano, espera, sobre uma tabua fluctuante, um acaso providencial, a passagem de um navio que o possa descobrir entre montões de espuma.Uma debil creatura, precocemente envelhecida, e já cansada de soffrer, é hoje a garantia unica do futuro d'essas creanças, que não téem mais ninguem no mundo além de sua mãe, nem melhor patrimonio que alguns palmos de terra sêcca e hypothecada.Seu avô honrou a patria de um modo excepcionalmente grande, com a fulguração de um talento literario, que póde fazer inveja aos extrangeiros.Honre-se a patria a si mesma adoptando-lhe os netos, perfilhando-os amoravelmente, salvando-os da miseria e do abandono, premiando n'elles a gloria do avô immortal.IlustraçãoMANUELCada dia, cada mez, cada anno que passa, complica, por sacrificios exhaustivos, a situação da familia de Seide. Os netos de Camillo téem já visto florescer muitas vezes a acacia do Jorge e chamado em vão pela alma do avô, que não voltou ainda com as auras de abril. Tornemos realidade o que parece haver sido{53}prophecia do grande espirito de Camillo: que todas essas creanças invoquem de novo o nome do que prometteu voltar. E elle voltará para acudir-lhes. Quando a acacia «outra vez inflore», o paiz terá feito justiça, e Camillo terá voltado para junto dos netos, assistindo-lhes em espirito, agasalhando-os com a gloria do seu nome.Corações justos, corações bons, auxiliai esta santa cruzada: a de despertar a patria adormecida.Leitores de cem romances, que uma só penna escreveu, agradecei aos netos as lagrimas e os sorrisos com que o avô tem preenchido deleitosamente muitas horas da vossa vida, desde oAnathema, uma estreia, até aosVulcões de lama, a ultima novella, raio de sol poente que não tardou a apagar-se.Se quizerdes fazer isso, estará feito tudo.Santo Thyrso—Lisboa.Agosto a setembro de 1901.{54}{55}NOTAS{56}{57}PAGINA6«... a cêrca do antigo mosteiro de Landim.»Este mosteiro era de conegos regrantes de Santo Agostinho. Dizem-n'o fundado por Dom Gonçalo Rodrigues Palmeiro, senhor do couto da Palmeira.Na inquirição que o Cardeal D. Henrique mandou fazer sobre mosteiros de Entre-Douro-e-Minho, o deLandimé designado como sendo a de Nossa Senhora deNamdim.O conde D. Pedro, em seuNobiliario, tambem dizNamdim.PAG. 15«o monumento commemorativo da visita de Castilho, «principe da lyra portugueza», a S. Miguel de Seide, em julho de 1866.»As relações de amizade entre Camillo e Castilho começaram em 1854, no Porto. Foi nesse anno e n'aquella cidade que pela primeira vez se encontraram os dois em casa do Sr. Antonio Bernardo Ferreira, que então morava na rua da Boavista (casa da familia Garrett) e que organisou em honra de Castilho um sarau literario. Camillo recitou versos deUm Livro.N'uma carta particular, enviada para Lisboa, dizia Castilho,{58}relatando o que se passára naquelle sarau: «Camillo Castello-Branco, poeta e prosador de elevado merito, etc.»Julio de Castilho, publicando trechos d'esta carta, commenta a referencia a Camillo dizendo queessa amizade, então começada no Porto, ficou cimentada para sempre. (O Instituto, de Coimbra, n.º 9, vol. 48.º)Foi Camillo, guia dos meus primeiros passos na vida literaria, quem me ensinou a amar Castilho.Costumavam outr'ora as criadas velhas contar ás creanças da casa lindas historias de reis e principes encantados.Camillo, que foi de algum modo o meuniñeroespiritual, falava-me muitas vezes de um grande principe das letras, rei das canções lhe chamou Herculano, protector de poetas, amador da natureza, acariciador das creanças e propugnador da felicidade do povo pela instrucção e pela agricultura.Era Castilho, rei das canções, principe das letras, cego como Œdipo, o famoso rei de Thebas.E assim como Œdipo encontrava o braço de sua filha Antigone para guial-o carinhosamente na cegueira, Castilho tinha nos braços de seus filhos outros tantos bordões amorosos que o ajudavam a firmar os passos incertos e vacillantes.Recebi, pois, de Camillo o amor a Castilho, e de quanto elle o amava dá eterno testemunho esta encantadora dedicatoria do romanceAgulha em palheiro:Ao poeta das creanças, das flores, do amor,da melancholia e dos desgraçados,ao illustrissimo e excellentissimo senhorAntonio Feliciano de Castilho,honra da patriahonra dos que o prezam, e amam a patriaoffereceo amigo, o respeitador, o discipulo mais devedorCamillo Castello Branco{59}Em outro livro,No Bom Jesus do Monte, cita Castilho a par de Lamartine e Victor Hugo, como sendo um nome que dá «á humanidade orgulho de o proferir».Durante aQuestão Coimbrã, nasVaidades irritadas e irritantesvem á estacada quebrar lanças pela gloria de Castilho, e escreve: «... o mais enthusiasta admirador de Castilho, se algum houve que mais que eu lhe devesse e o amasse...»Foi assim que Camillo amou Castilho; foi assim que eu aprendi com Camillo a amar Castilho.PAG. 16«a dedicatoria daMaria Moysésa Thomaz Ribeiro.»Diz o texto d'essa dedicatoria:ATHOMAZ RIBEIRO«São passados dez annos depois que vieste aqui. Foi hontem; e a pedra onde gravei o teu nome está denegrida como a dos tumulos antigos. Debaixo d'ella estão dez annos da nossa vida. Jazem ali os homens que então eramos. Estou vendo Castilho encostado ao frizo da columna tosca; estou ouvindo os teus versos recitados em nome de meus filhos... Ah! é verdade... tu não os recitaste porque tinhas lagrimas na voz e no rosto. Que faria de ti a politica, meu querido, meu poeta da patria e da alma:«S. Miguel de Seide, novembro de 1876.»PAG. 16«A inscripção está quasi apagada, como já se apagou tambem a vida das pessoas a quem ella se referia.»O modesto monumento, de que fiz mais larga menção{60}no opusculoUma visita ao primeiro romancista portuguez em S. Miguel de Seide, Porto, 1885, falla-me saudosamente de seis pessoas, cuja memoria conservo muito viva entre as mais gratas lembranças do passado.D'essas seis pessoas, as ultimas a morrer foram Eugenio de Castilho, fallecido a 8 de janeiro de 1900, e Thomaz Ribeiro, a 6 de fevereiro de 1901.Embora tenha de fazer uma annotaçao talvez demasiadamente longa—o que não sei se é proprio do teor das annotações—não posso ter mão em mim que não complete, para o meu espirito, a historia do monumento de Seide com as recordações que me são suggeridas pelos nomes de Eugenio de Castilho e Thomaz Ribeiro.** *Uma coisa vos confessarei eu, sr. Dom Leonardo...Lembram-se? Vem nosLogares selectos, do padre Cardoso: é um excerpto daCôrte na aldeia, de Rodrigues Lobo—dois livros bons, cada qual no seu genero; bons como se faziam d'antes.Pois, já que a phrase me lembrou, adopto-a, mas cito ao menos a origem, o que nem sempre se faz agora.Os tempos são outros; d'isso é que me queixo.Uma coisa vos confessarei eu, srs. Dons Leonardos de hoje em dia, e é que me vou ralando de saudades pelos homens que conheci outr'ora, com os quaes convivi e troquei impressões, que os não ha melhores, nem tão bons, como foram esses.{61}IlustraçãoA ACACIA DO JORGENão quero dizer que todos agora sejam portuguezes de ruim panno; ha excepções, mas tão raras, que pode a gente gritar quando as encontra—Lá vem um!Digo e redigo, porque d'isso estou convencido até á medula dos ossos, que os homens que eu tratei na mocidade me parecem semideuses se os comparo com os de hoje.Doia-se quem doer, que me importam pouco essas coisas: até faz bem á gente sentir morder-lhe uma pontinha de malquerença—é como o frio de janeiro, que arripia, mas provoca a necessidade de reagir contra elle.Eu venho de um tempo em que se dizia haver «elogio mutuo». Não era elogio, mas justiça. As cotações, especialmente no mercado das letras, andavam menos falsificadas. Ninguém chegava ao pé de um homem, de punhal na mão, com o intuito de assassinal-o, para o glorificar depois de morto.Garrett estava no tumulo. Herculano fizera-se solitario em Val-de-Lobos. Castilho vivia em Lisboa e abria as suas portas a todos quantos mostravam paixão pelas letras. D'aqui veio o dizer-se que tinha Castilho uma côrte. Não a procurava elle; procuravam-n'o, sim, todos, velhos e novos, que desejavam encontrar uma atmosphera literaria em que podessem respirar á vontade.Mas a differença do tempo estava principalmente n'isto, que não era pouco: ninguem, em casa de Castilho, nem dos seus, nem dos extranhos, se julgava maior que elle.Por isso o respeitavam, medindo-lhe a grandeza, que fazia lembrar a das estatuas, porque sendo vista de perto tomava ainda maior vulto.Era deliciosa essa casa de Castilho, onde a boa conversação literaria teve um templo, como não ha, nem póde haver outro. Não decorria ali uma hora sem que se tivesse lucrado alguma coisa: aprendia-se sempre. Eram tantos e tão bons os de casa e os de fóra, que nunca se apagava o{62}lume para as refeições do espirito. Mesa posta para osgourmetsda intellectualidade; porta aberta para todos os que chegavam, fossem gregos ou troyanos.Conheci Castilho na rua do Sol ao Rato, onde recebia na sua enorme bibliotheca, uma vasta sala, que os melhores auctores de todos os paizes e de todos os seculos povoavam de alto a baixo. Fazia respeito aquillo: era uma cidade, um emporio de celebridades consagradas.Castilho, coroado de cans, dava a impressão de ser um patriarcha das letras. Cego como Homero, via tudo o que queria vêr; jámais houve um cego que visse tanto. Até lia mentalmente os titulos dos livros que o rodeiavam. Aqui está o meu Bernardes, dizia elle: ia á estante, punha o dedo indicador n'um livro, e tirava a obra de Bernardes que desejava citar. Parecia ter os olhos fechados para, concentrado, reforçar por um momento a visão, que depois se tornava mais aguda e perspicaz.Os seus olhos faziam lembrar os de D. João I: raça de escol, que já vinha apurada de longe.Julio foi sempre o braço direito do pai, a sua luneta, o seu bordão, o seualter ego. O pai adorava-o; elle adorava o pai. Não podiam viver um sem o outro; eram como dois gemeos, duas existencias que se fundiam n'uma só.Augusto, official de marinha, andava quasi sempre embarcado por longinquos mares. Raro apparecia em Lisboa; mas Castilho lembrava-o muitas vezes n'um impeto de saudade paternal, que é a mais funda, a mais incisiva, a mais cruel de todas as saudades.Ida de Castilho, com os seus bellos olhos pretos que pareciam estrellas, era a gracilidade da mulher franzina a sorrir por entre clarões de intelligencia vivacissima.Eugenio, o filho mais novo de Castilho, era, em razão da sua idade, o que tinha menos auctoridade literaria na familia, mas nascera poeta ali, n'aquella familia de escolhidos, como se nasce escocez na Escocia.{63}Foi este rapaz velho, porque a doença o envelheceu precocemente, que morreu outro dia, em Sete Rios, mais longe do mundo que de Lisboa.Poucos se lembravam d'elle já: tinha esquecido, tinha passado, era um morto que vivia longe dos vivos.O seu periodo de maior actividade foi de 1868 a 1869. Conheci-o então, como conheci Antonio Feliciano e Julio de Castilho: por cartas que o correio trazia e levava, do norte para o sul, do sul para o norte. Só alguns annos depois nos avistámos, os Castilhos e eu, na rua do Sol ao Rato. Mas eramos já amigos velhos, todos nós, quando nos encontrámos frente a frente.Aqui tenho eu uma prova d'isso, n'esta meia duzia de paginas publicadas em 1868 por Eugenio de Castilho, e intituladasPatria, contra a Iberia, poema em bons alexandrinos, que eram os da casa, a melhor officina de alexandrinos que tem havido até hoje em Portugal.Na dedicatoria, do punho do auctor, escreveu elle: «Ao seu amicissimo...» Nunca nos tinhamos visto então, mas eramos já tão casados na amisade, que nenhum de nós estranhou o superlativo.Eugenio tinha n'esse tempo 21 annos, e desabrochavam n'elle os talentos literarios, que são morgado de Castilhos. Eram flores que conheciam o terreno e o clima em que nasciam: medravam á vontade.Quanto á factura artistica, o poemaPatriatrazia a marca da fabrica: Castilho & Filhos. Não havia firma mais acreditada nem então, nem agora.Passo hoje pela vista, devorado de saudades, aquelle poema de 1868, e transplanto para aqui alguns casaes de alexandrinos, que me parecem ainda casaes de rouxinoes a namorarem-se nos bosques umbrosos de Portugal:Vês além um telhado ao pé d'aquelle olmeiro?alli nasceu meu pae; alli amou primeiro.{64}Quando eu era pequeno, ia, ás vezes, sósinhoaos loireiros do val á busca de algum ninho.Sob este parreiral tão verde e tão fragrantebeijei apaixonado a minha terna amante.Costumava ir de tarde ao moinho da serravêr como o sol transpunha as montanhas da terra.Quanta vez, ao voltar da caça, eu me sentavaao pé d'essa cascata a ver-lhe a espuma brava.Os troncos da azinhaga, as silvas e as paschoinhasouviram-me cantar ás vezes trovas minhas.Era-me gosto á noite o rouxinol saudosodizendo á beira d'agua o seu canto amoroso.Sentado n'uma penha occulto entre o salgueiropoetava a ouvir do rio o murmurar palreiro.Ao canto do quintal da casa onde eu moravauma anágua plantara, e flores que eu regava.Conheço a minha terra; e cada pedra ou plantame saúda ao passar. Toda a Patria me encanta.Não são, de certo, estes os soberbos alexandrinos do pae Castilho, tão cheios, tão sonoros, tão variados na riqueza das vogaes, como elle, legislador maximo em versificação, praticava e recommendava; mas téem o ar de familia, o cunho da officina, que nos entremostram o artifice mais novo da casa posto a trabalhar, por desenfado, com a ferramenta do mestre.Junte-se a tudo isto, que é já sobeja valia, o perfume ingenuo e nobre da mocidade, o pulsar de um coração candido e fidalgo, que se educava entre lyras de poetas e brazões de aristocracia literaria.Tudo então fazia suppor que teria uma larga carreira{65}esse moço tão bem estreado, e tanto se sumiu elle depois nas trevas que as contrariedades da vida adensaram—a doença principalmente.Foi tambem por 1868 que Eugenio de Castilho tentou a publicação daFolha dos curiosos, um dos quaes curiosos fui eu.N'essa tentativa ia ainda um exemplo paterno, porque não deve esquecer a ninguem que Antonio Feliciano de Castilho redigiu por algum tempo, com inexcedivel brilho, aRevista universal lisbonense.Digo inexcedivel brilho, e fico pesaroso de não encontrar melhor locução. Não me satisfaz esta, que é deficiente. Tudo quanto Castilho ali deixou, é primoroso—até o noticiario.Se vingar algum dia a ideia de fundar uma escola de jornalistas, o professor, sabendo do seu officio, tem que ensinar a fazer noticiario pelo teor de Castilho.Que adoraveis locaes, que gentileza e graça no dizer, que malicia, que ironia e que pureza castiça de linguagem!Os senhores conhecem Castilho poeta, prosador, traductor e pedagogo? Pois não conhecem Castilho todo, acreditem. Falta-lhes ainda conhecer Castilho jornalista a brincar com a penna sobre assumptos de reportagem, a enramilhetar locaes que parecembouquets; Castilho a sorrir de si mesmo por ter descido áquella futilidade e a tornal-a grandiosa para não ter que envergonhar-se de vêr n'um espelho o pretor a curar de coisas minimas.Pois, srs. Dons Leonardos, em verdade vos digo que foram grandes homens esses que eu conheci n'outro tempo, que conheci e amei, e que vós sois muito mais pequenos que elles.Este mesmo Eugenio de Castilho, fallecido ha quasi um anno, não chegou a ser grande, porque lhe faltou apenas a validez; o talento, não.{66}Mas, no breve momento em que se demorou nas letras, honrou, como vergontea, a arvore gloriosa dos Castilhos, florindo como poeta, que promettia futuro.Hoje dorme o somno eterno na terra daPatria, que elle amava tanto, e se os mortos pensassem, julgar-se-ia certamente feliz por ter encontrado descanso aos seus tormentos na mesma terra em que o pae nasceu e amou primeiro.** *Tinha eu treze annos, quando um quintanista de direito, Manuel do Nascimento de Azevedo Coutinho, natural de Sinfães, passando pelo Porto, recitou em casa de meu pai trechos de um poema que, segundo a sua propria informação, estava causando o maior enthusiasmo em Coimbra.Os estudantes sabiam-n'o de cór, e até o doutor Férrer, dando descanço ás Ordenações e ao Digesto, repetia estrophes aos rapazes quando os encontrava á tarde no Penedo da Saudade.Era o cumulo do enthusiasmo coimbrão.O quintanista Nascimento, um duriense de olhos pretos, vendo-se comprehendido por um grupo de senhoras que o escutavam, ia procurando na memoria excerptos do poema e recitava-os contente de espalhar em torno de si, como um perfume de rosas, a inspiração delicada do poeta que toda a academia já tinha sagrado em Coimbra com a agua lustral do Mondego.Esse poema era oD. Jayme, de Thomaz Ribeiro.A cada novo trecho cresciam os applausos; a impressão tornava-se geral no auditorio.E o quintanista Nascimento, com a vivaz reminiscencia{67}de todos os moços, saltava de um canto a outro do poema recordando estrophes:Um dia... quando, não sei;fui vêr as gastas ruinasd'um velhissimo castelloque ao desamparo encontrei,mas que, apesar de esquecidona solidão, era bello.Achei-o todo vestidode tenaz era viçosa;e ornado de verde brilho,lembrou-me um velho casquilhoque espera noiva formosa.De vez em quando, os parceiros do voltarete de meu pai poisavam as cartas, e escutavam attentos:Que triste vida na choça,que funda melancolia,que rostos tão macerados,que suspiros abafadoscada noite e cada dia!noites de eterna vigilia,dias curtos para a lida,recordações da opulencia,amarguras da indigencia...que vida, Jesus! que vida!Eu recolhia todos os trechos n'um enlevo d'alma, que foi o primeiro goso literario da minha vida e, quando n'essa noite me deitei, reconstituia mentalmente versos, estrophes inteiras, ancioso de poder lêr todo o poema, para decoral-o todo.No dia seguinte, meu pae, recolhendo de ver os seus doentes, trazia debaxo do braço um livro de capa amarella.{68}Tinha comprado o poema, suggestionado pela recitação da vespera.Então, como um faminto que se lança vorazmente sobre um manjar inesperado, eu, quando os outros acabavam de lêr, devorava pagina a pagina, canto a canto, lendo e decorando, com a mesma facilidade com que hoje vou esquecendo...Annos depois—não foram muitos—quando Castilho protegeu as minhas estreas literarias com o prestigio do seu nome, Thomaz Ribeiro escreveu-me algumas cartas que religiosamente conservo entre montões de outras suas escriptas de toda a parte.Depois, em Lisboa, muitas vezes Thomaz Ribeiro me disse que possuia um retrato meu aos dezeseis annos.Certamente lh'o offereci, mas não me lembro quando, e não conservo hoje nenhum exemplar d'essa photographia.Quando foi que eu vi pela primeira vez o auctor doD. Jayme? D'isso me lembro muito bem. Foi no Porto, no escriptorio doPrimeiro de Janeiro, cuja redacção permanente era então apenas constituida por duas pessoas, Francisco Gomes Moniz e eu.Nós dois faziamos tudo, menos o artigo de fundo, que ia de Lisboa, e era escripto por Latino Coelho.Thomaz Ribeiro, tendo chegado ao Porto e entrado na casa Moré, disse ao gerente da casa, o illustre José Gomes Monteiro, que me queria visitar.Monteiro, que me estremecia, ficou contentissimo, poz logo o seu chapeu e subiu, apesar de velho e doente, a rua de Santo Antonio, depois a ingreme escada da redacção, para me levar Thomaz Ribeiro.Foi um dos dias felizes da minha vida literaria.Desde então mantive com Thomaz Ribeiro as mais cordeaes relações de mutua estima.As amizades velhas são como o cimento solidificado: não quebram facilmente.{69}
IlustraçãoRACHEL
Ilustração
RACHEL
Foi n'esse mesmo andar queJorge Castello Branco, o infeliz primogenito de Camillo, passou os ultimos tempos da sua curta existencia.
Contou a sr.ª D. Anna Corrêa que elle tinha horror a vêr os criados da casa. Postas as refeições sobre a mesa, os criados sahiam; e o Jorge entrava depois. Algumas noites prestava-se a tocar piano—esse piano que era de sua mãe e que ella havia levado para a Cadea da Relação do Porto—mas exigia que ninguem estivesse presente. A musica foi uma das muitas aptidões artisticas do Jorge. Eu já disse algures que elle, em noites de luar, se empoleirava nas arvores de Seide a tocar flauta.
Queria viver isolado no seio da propria familia. Não consentia que lhe fizessem limpeza no quarto. Se alguem se quizesse aproximar, cuspia-lhe.
No dia 2 de setembro de 1900, o Jorge não se levantou para ir almoçar. A porta do seu quarto estava fechada por dentro, como era costume.
A sr.ª D. Anna Corrêa chamou-o:
—Sr. Jorge, são horas do almoço.
Elle respondeu:
—Já vou.
Mas passou tempo sem que se levantasse.
Tornaram a chamal-o.
—Já vou, repetiu elle.
Mas, como não apparecesse, a sr.ª D. Anna resolveu entrar no quarto pela janella, o que foi empreza difficil.
Achou o Jorge doente, apathico, n'um estado gastrico{38}que, n'esse momento, lhe pareceu não offerecer maior gravidade.
** *
D'aqui por deante, a narrativa da sr.ª D. Anna Corrêa conforma-se inteiramente com a versão que o sr. José de Azevedo e Menezes, da illustre casa do Vinhal, em Famalicão, me communicou n'uma carta, por mim já publicada.
Vou reproduzil-a, para que não fique perdida na volumosa collecção de uma folha diaria:
«Em resposta á estimada carta de v. , tenho a dizer-lhe que o infeliz Jorge de Castello Branco falleceu em casa de D. Anna Corrêa, a companheira do Nuno, no dia 10 do corrente mez, ás 6 horas da tarde, e enterrou-se no dia 12, assistindo alguns visinhos.
«Tratou-o nos ultimos quinze dias de vida o medico Dias de Sá, de Landim, que logo previu o desenlace fatal.
«No dia 2 d'este mez o Jorge sentiu-se mal do estomago, talvez por ter debicado as primeiras uvas e pêras do quintal da casa. Um ligeiro laxante deu-lhe melhoras, que infelizmente se não mantiveram, cahindo com desmaios e não podendo conciliar o somno.
«A final veiu a paralysia cerebral que o matou sem agonia. De vez em quando gemia e invocava a{39}Deus! Durante um desmaio na manhã do dia em que morreu, foi ungido.
«Não se lhe notou á hora da morte o intervallo lucido, que ás vezes apparece nas doenças mentaes.
«Tinha, porém, amor á vida, esperando obter melhoras dos remedios, que só tomava nos caldos e leite pela mão da sua desvelada enfermeira D. Anna Corrêa, que foi para o infeliz louco uma carinhosa mãe.
«Fui visitar essa bondosa mulher, e fiquei agradavelmente impressionado da sua apresentação e do bom senso, que mostrou em alguns pontos da nossa conversa. A rudeza da sua origem poliu-se no trabalho e soffrimento, que lhe deram os desgraçados com quem viveu. A mulher só se engrandece pela bondade, que é a sua belleza moral.
«O grande desejo de D. Anna é educar bem os seus filhos, mas como poderá desempenhar-se d'esta nobre tarefa sem recursos? É urgente abrir uma campanha a favor d'ella, para que lhe acuda o governo ou as almas bemfazejas. Inicie v. na imprensa periodica esta nobilissima missão. Os dois filhos mais velhos são intelligentes, principalmente o Camillo, que eu fixei com attenção e descobri-lhe traços physionomicos do glorioso avô. O rapaz é triste e concentrado e quer ser Padre... Até n'isto se parece com o grande escriptor, que no verdor dos annos pensou em se prender á Egreja. A sua ultima assignatura foi no assento do baptismo d'este seu neto e afilhado,{40}feita em casa de Nuno e sobre um piano, por lhe ficar mais a geito.
«Ao sahir da casa de D. Anna Corrêa olhei para a outra proxima, aonde viveu e morreu o incomparavel prosador portuguez. Está agora mal pintada de amarello e triste como a tragedia que a fechou. N'aquelle gabinete de Camillo apagaram-se os ultimos lampejos da sua conversa encantadora, esmaltada sempre de ironias, cortantes como o nordeste.
«Que tristeza e que lição para todos nós! Creia-me sempre
De V. etc.
José de Azevedo e Meneses.
S/C do Vinhal, 16-9-900.»
** *
Os jornaes do norte do paiz, noticiando a morte de Jorge Castello Branco, logo fizeram sentir que, tendo cessado com a sua vida a pensão, os netos de Camillo ficavam quasi reduzidos á miseria.
Dizia o correspondente de Famalicão paraO Commercio do Porto:
«FAMALICÃO, 12.—Em S. Miguel de Seide sepultou-se hoje Jorge Castello Branco, ultimo filho do finado romancista Camillo Castello Branco.{41}
«De ha muito que o seu viver era o de um verdadeiro louco, temendo todos e passando os dias n'um aposento sem o convivio de pessoa alguma. O seu fallecimenio foi um verdadeiro desastre para seis netos do grande romancista, pois que a pensão que o governo dava ao finado custeava tambem a educação das creanças, que agora ficam ao desamparo.—(M. G.)»
Escrevia oLusitano, de Famalicão, no mesmo dia 12:
«Acaba de fallecer em Seide o filho mais velho de Camillo Castello Branco, o pobre louco tão amado pelo immortal auctor doAmor de Perdiçãoe tantas outras joias que hão de fulgurar seculos em fóra, na litteratura nacional.
«Ha muito que o Jorge, doido, doido desde tenra idade, fugia completamente do convivio social.
«Vimol-o ha semanas, pela ultima vez que veio á villa, causando immensa pena a precocidade da sua velhice e, mais nos commovemos ao attentarmos no seu perfil, que muito se parecia com o de seu pae.
«Como é sabido, o filho mais novo de Camillo deixou bastantes filhos na miseria, servindo-lhes de amparo a pensão que o governo dava ao Jorge.
«Morto este, ficam os netos de Camillo sem recursos de qualidade alguma.
«Pois quando mais não seja se não para honrar a memoria de Camillo, deve o governo continuar a{42}dar a seus netos a pequena quantia que deu ao Jorge durante alguns annos.
«O pequeno Camillo Castello Branco e seus irmãos não devem ficar ao desamparo.
«Quem sabe até se, educados os netos do genialSolitario de Seide, algum d'elles não será ainda muito util ás letras patrias, continuando a honral-as como honradas foram mais de meio seculo por seu avô o querido Mestre?»
** *
A pensão ao primogenito de Camillo havia sido concedida por um decreto depois sanccionado pelo parlamento nos seguintes termos:
«Artigo 1.º É approvado o decreto de 23 de maio de 1889, pelo qual, em reconhecimento publico dos relevantissimos serviços prestados ás letras patrias pelo visconde de Correia Botelho (Camillo Castello Branco), é concedida a seu filho Jorge Camillo Castello Branco a pensão annual e vitalicia de 1:000$000 réis.
«§ unico. A pensão de que trata esta lei é isenta do pagamento de quaesquer impostos, e será abonada desde a data do decreto que a concedeu, ao visconde de Correia Botelho, em quanto vivo fôr.
Art. 2.º Fica revogada a legislação contraria a esta.»{43}
Os filhos do visconde de S. Miguel de Seide, netos de Camillo, aos quaes faltou o amparo da pensão que o tio recebia, são, pela ordem chronologica do nascimento:
Flora, nascida a 11 de janeiro de 1886.
Camillo, nascido a 16 de março de 1888, no mesmo dia e mez em que nasceu o avô, que era seu padrinho.
Nuno Placido, nascido a 4 de março de 1889.
Rachel, nascida a 21 de fevereiro de 1890.
Simão, nascido a 6 de julho de 1891.
Manuel, nascido a 23 de abril de 1893.
Um motivo especial, que logo referirei, leva-me a fazer duas transcripções do jornal de Famalicão,O Lusitano, apezar de em qualquer d'ellas se encontrar o meu nome acompanhado de adjectivos que eu considero apenas um amavel cumprimento de quem os escreveu.
Agradeço-os, mas declino-os por immerecidos.
Não me assiste, porém, o direito de mutilar as transcripções.
DiziaO Lusitanono seu numero de 29 de agosto do corrente anno:
«Noticiámos, ligeiramente, a semana passada, a estada, em S. Miguel de Seide, de visita aos netos de Camillo, do illustre escriptor sr. Alberto Pimentel.
«Não conhecemos as impressões, que a sua ex.ª resultaram da volta, passados tantos annos, á casa do grande escriptor seu amigo. Mas não nos seria desagradavel{44}saber se o nosso estimado confrade doPopulartomou, ou não, a resolução de contar no jornal, que redige, como é justo que o governo tome a iniciativa de proteger, de algum modo, os malaventurados netos do grandioso estylista.
«Tem-nos contado pessoas, que privam com a familia de Seide, que ha, entre aquellas seis creanças, uma—o Camillo—possuidora de intelligencia rara.
«Se assim é, não faz pena que a falta de recursos constitua embaraço ao aproveitamento d'aquelle rapaz?
«Não ha duas opiniões divergentes sobre a justiça de continuar, em favor dos descendentes do eminente romancista, o subsidio, que este primeiro aproveitou e que se extinguiu pela morte do Jorge. Vão os rendimentos do Estado, dia a dia, para applicações muito menos comprehensiveis.
«O sr. Alberto Pimentel, que foi á casa de Seide, decerto viu o que aquillo é, comparativamente com outros tempos.
«Ponha, por conseguinte, s. ex.ª todo o enorme merecimento da sua penna e das suas relações ao serviço d'esta causa. É o maior testemunho de amizade que póde prestar á memoria do extraordinario escriptor. E evita que se reedite aquella tão conhecida e fustigante phrase de Garrett, que constitue, com motivo, um castigo severissimo á contumaz ingratidão do nosso meio.»{45}
IlustraçãoSIMÃO
Ilustração
SIMÃO
Eu tinha necessidade de commentar esta transcripção para explicar o meu procedimento.
Se, immediatamente á minha visita á familia de Seide, não publiquei noPopularas impressões que ali recebêra ao observar de perto a vida dos netos de Camillo e, portanto, a justiça da sua causa, foi porque logo fiz tenção de me occupar do assumpto com maior desenvolvimento do que aquelle que poderia dar-lhe n'um ou dois artigos de jornal.
Desobrigo-me agora do compromisso que tomei comigo mesmo.
** *
Poucos dias depois de ter lido a noticia doLusitano, acima transcripta, recebi do sr. Rodrigo Terroso, jornalista distincto e escrivão-notario na comarca de Famalicão, uma carta relativa ás impressões que eu teria trazido de Seide e ao que eu estaria disposto a fazer em favor da pensão.
Respondi na volta do correio, e o teor da minha resposta resalta da seguinte noticia queO Lusitanopublicou no dia 3 de setembro:
«Ao director politico d'esta folha que acompanhou, particularmente, perante o sr. Alberto Pimentel o pedido feito aqui ha oito dias em favor dos netos de Camillo, respondeu, de prompto, o apreciavel escriptor e jornalista com uma carta, que é a promessa solemne de intervir no sentido rogado.{46}
«... fui expressamente a Seide para me orientar na questão da pensão aos netos de Camillo.
«Na proxima legislatura trabalharei por conseguil-o, no que espero ter o auxilio de Antonio e José de Azevedo.
«Não farei parte do parlamento, mas envidarei os maiores esforços possiveis junto do parlamento e do governo.»
«É solemnissima a promessa. Fiamos de que será cumprida. Sobre dar-se com o sr. Alberto Pimentel a circumstancia de haver sido dos amigos mais sisudos de Camillo, accresce que o distincto escriptor lisbonense conhece, ao presente, em pessoa, a justiça da causa, que tanto tem merecido as nossas sympathias. E dizemos assim porque ainda ninguem a advogou com tão fervente empenho como nós, que fomos, até, o primeiro a patrocinal-a. Consta isso de correspondencias que oPrimeiro de Janeiropublicou logo a seguir á morte do Jorge, sem falar no pedido directo que, immediatamente, apresentamos ao sr. conselheiro Antonio de Azevedo, sobrinho de Camillo, muito apreciado por este. E que o notavel homem publico trabalhou n'esse sentido, mais seu irmão sr. conselheiro José de Azevedo, disse-o, poucos dias decorridos, um telegramma para oDiario da Tarde, confirmado, simultaneamente, por algumas gazetas de Lisboa.
«O sr. Alberto Pimentel affiança-nos a intervenção d'estes dois auxilios. Pois é caso para nos julgarmos felizes com a felicidade certa dos netos de Camillo.{47}
P. S.—O Regeneradorrefere-se, sobre o mesmo motivo, a uma carta antiga do sr. José de Menezes ao sr. Alberto Pimentel. Era o sr. Menezes um dos amigos de Camillo. Não sabiamos que tinha intervindo. Fel-o e procedeu cavalheirosamente. Está na reconhecida correcção de s. ex.ª».
Trabalhemos todos—todos os que veneramos a memoria de Camillo—sem excepção de ninguem, no empenho de vencer esta causa santa, que a Justiça inspira e que o Patriotismo recommenda.
É uma divida nacional, que tem de ser paga. Somos todos devedores; honremo-nos pagando.
** *
A Sr.ª D. Anna Corrêa cumulou-me de amaveis deferencias logo que o meu disfarce cahiu. Uma d'ellas, a que mais encantado me deixou, foi a gentileza de me obzequiar com os dois quadrinhos, os retratos de Gautier e Karr, que estavam na saleta contigua á alcova de Camillo.
Se bem que um pouco damnificados pela acção do tempo, como se póde vêr na reproducção, elles representam para mim um valor inestimavel.
Fil-os authenticar com a seguinte declaração, que mandei imprimir e collar no tampo da moldura:
«ESTE QUADRO ESTAVA NO QUARTO DE»«CAMA DECAMILLOCASTELLOBRANCO EM»{48}«S. MIGUEL DESEIDE. FOI-ME DADO ALI PELOS»«SEUS HERDEIROS, A 20 DE AGOSTO DE 1901,»«NA PRESENÇA DO SR.ADRIANO DESOUZA»«TREPA, DESANTOTHYRSO, EFRANCISCO»«CORRÊA DECARVALHO, DESEIDE.—ALBER-»«TOPIMENTEL.»
Foi o sr. Carvalho que, trepado a um banco, os despendurou da parede, fronteira ás janellas.
Mais nua ficou ainda desde essa hora a casa solitaria de S. Miguel de Seide.
Aqui tenho eu, deante dos olhos, esses dois velhos companheiros de Camillo, seus camaradas e seus hospedes, Gautier e Karr, com os quaes conversarei longamente sobre a vida e a morte d'esse que foi nosso commum amigo e que elles tão de perto viram soffrer e sonhar—por tantos dias e tantas noites.
Da parede onde estavam enthronisados só podiam avistar todo um horisonte de pinheiros a esbater-se, ao longe, na vertente de uma vasta corda de montes.
Coitados! a principio devia custar-lhes muito terem que trocar Pariz pelo Minho, o bulicio pelo silencio, osboulevardspelos pinheiraes, a capital do mundo pela aldeia erma e profunda.
Mas o campo, como o oceano, é uma solidão apenas repulsiva nos primeiros tempos de uma iniciação forçada; depois identifica-se tanto com a nossa alma, penetra-a de uma tão saudavel tranquilidade e doçura, que se torna quasi uma religião: não ha meio{49}de arrancar o camponez ao seu tugurio e o marinheiro ao seu beliche.
Agora, saudosos da Thebaida de Seide e do grande espirito que a povoava, virão constrangidos, Gautier e Karr, defrontar-se, através da minha janella, com as trapeiras d'esta revôlta casaria de Lisboa, cahotica e asymetrica, que apenas deixa ver escassos retalhos de céu azul na claridade limpida do ar.
Sou eu o primeiro a lamental-os, mas nem por isso os guardarei com menor vigilancia; altas personagens de que me constituiram carcereiro, saberei amal-as, mas saberei tambem garantir a sua posse—como a de dois inestimaveis valores que vieram enriquecer o meu thesouro camilliano.
Devo ainda á sr.ª D. Anna Corrêa a gentil prodigalidade de outra offerta: o retrato de Manoel Pinheiro Alves, primeiro marido da viscondessa de Corrêa Botelho.
Quando publiqueiOs amores de Camillo, muito desejei eu obter este retrato; mas n'essa occasião faltava-me a certeza de que o meu pedido não seria uma inconveniencia irritante.
Confessei-o agora á sr.ª D. Anna Corrêa, que espontaneamente me offereceu um exemplar em photographia. No album de Seide havia dois, tirados em Pariz, no tempo de Napoleão III, casa Mayer & Pierson, boulevard des Capucines, 3.
Incluirei esse retrato n'uma segunda edição d'Os amores de Camillo, se algum dia a fizer. Aqui não é{50}o seu logar proprio. Mas quero dar uma rapida impressão da pessoa de Manuel Pinheiro Alves: alto, magro, face glabra, olhos pequenos e fundos, escasso cabello penteado sobre a orelha direita; vestindo correctamente de preto, sobrecasaca comprida, gravata em laço.Toilettede velho, harmonisando com a physionomia; mas de velho que, por amor de uma mulher, quer apurar o vestir.
Tem o aspecto grave de ser o pai de D. Anna Placido, não o marido.
Tambem agora fiquei sabendo que Manuel Pinheiro Alves nascêra perto de S. Miguel de Seide.
** *
Quando voltámos á casa de Camillo, para eu receber os dois quadrinhos, parei um momento, ao sahir, no topo da escada de pedra.
Corri os olhos pelo vasto pinheiral circumjacente, que fecha o horisonte n'uma faxa verde-negra. Tive n'esse momento a nitida comprehensão do que seriam ali as longas noites de inverno, ouvindo gemer os pinheiros na solidão profunda de uma aldêa minhota.
—Pobre Camillo! disse eu, como se estivesse pensando alto. As suas noites aqui deviam ser horriveis!
O sr. Francisco Corrêa de Carvalho replicou:
—As tardes, as tardes de Camillo é que eram{51}ainda mais agitadas e tormentosas do que as noites. Depois de jantar, soffria muito; excitava-se, tinha desesperos, frenesis, que nos amarguravam tambem a nós.
É facil a explicação d'este phenomeno pathologico.
As crises visceraes, dolorosas, são vulgares nos tabeticos. Ou vem com asdores fulgurantes(Camillo teve-as) ou independentemente d'ellas. Chegam a ser de violencia extrema, por vezes. E, entre essas crises visceraes, a gastralgia é frequente.
O trabalho da digestão provocaria as torturas gastralgicas.
Após elle, quando em socego o estomago, a crise desapparecia, dando treguas ao pobre Camillo.
Eis aqui, pois, mais um pormenor do ingente drama de amargura que matou o grande romancista.
Voltei agora a Seide, depois de dezeseis annos de ausencia.
Estive ali no mez de agosto de 1885.
O opusculoUma visita ao primeiro romancista portuguez em S. Miguel de Seiderecorda esse facto.
Em agosto de 1901, repetida a jornada, já não encontrei nenhuma das pessoas que em 1885 povoavam a casa de Seide: Camillo, D. Anna Placido, Jorge e Nuno Castello Branco.
Dir-se-ia que um desastre enorme victimára de um só golpe uma familia inteira.
É que a fatalidade de certos destinos iguala-os{52}na vida e na morte, regulando as suas horas por uma unica ampulheta.
Os desgraçados que nasceram sob a mesma sina chamam uns pelos outros.
Fui achar uma segunda geração, uma ninhada de creanças intelligentes e meigas, que se encontram, desprotegidas, á beira de um abysmo insondavel.
O seu dia de amanhã não é mais seguro do que a salvação incerta do naufrago que, em pleno oceano, espera, sobre uma tabua fluctuante, um acaso providencial, a passagem de um navio que o possa descobrir entre montões de espuma.
Uma debil creatura, precocemente envelhecida, e já cansada de soffrer, é hoje a garantia unica do futuro d'essas creanças, que não téem mais ninguem no mundo além de sua mãe, nem melhor patrimonio que alguns palmos de terra sêcca e hypothecada.
Seu avô honrou a patria de um modo excepcionalmente grande, com a fulguração de um talento literario, que póde fazer inveja aos extrangeiros.
Honre-se a patria a si mesma adoptando-lhe os netos, perfilhando-os amoravelmente, salvando-os da miseria e do abandono, premiando n'elles a gloria do avô immortal.
IlustraçãoMANUEL
Ilustração
MANUEL
Cada dia, cada mez, cada anno que passa, complica, por sacrificios exhaustivos, a situação da familia de Seide. Os netos de Camillo téem já visto florescer muitas vezes a acacia do Jorge e chamado em vão pela alma do avô, que não voltou ainda com as auras de abril. Tornemos realidade o que parece haver sido{53}prophecia do grande espirito de Camillo: que todas essas creanças invoquem de novo o nome do que prometteu voltar. E elle voltará para acudir-lhes. Quando a acacia «outra vez inflore», o paiz terá feito justiça, e Camillo terá voltado para junto dos netos, assistindo-lhes em espirito, agasalhando-os com a gloria do seu nome.
Corações justos, corações bons, auxiliai esta santa cruzada: a de despertar a patria adormecida.
Leitores de cem romances, que uma só penna escreveu, agradecei aos netos as lagrimas e os sorrisos com que o avô tem preenchido deleitosamente muitas horas da vossa vida, desde oAnathema, uma estreia, até aosVulcões de lama, a ultima novella, raio de sol poente que não tardou a apagar-se.
Se quizerdes fazer isso, estará feito tudo.
Santo Thyrso—Lisboa.Agosto a setembro de 1901.
{54}
{55}
{56}
{57}
Este mosteiro era de conegos regrantes de Santo Agostinho. Dizem-n'o fundado por Dom Gonçalo Rodrigues Palmeiro, senhor do couto da Palmeira.
Na inquirição que o Cardeal D. Henrique mandou fazer sobre mosteiros de Entre-Douro-e-Minho, o deLandimé designado como sendo a de Nossa Senhora deNamdim.
O conde D. Pedro, em seuNobiliario, tambem dizNamdim.
As relações de amizade entre Camillo e Castilho começaram em 1854, no Porto. Foi nesse anno e n'aquella cidade que pela primeira vez se encontraram os dois em casa do Sr. Antonio Bernardo Ferreira, que então morava na rua da Boavista (casa da familia Garrett) e que organisou em honra de Castilho um sarau literario. Camillo recitou versos deUm Livro.
N'uma carta particular, enviada para Lisboa, dizia Castilho,{58}relatando o que se passára naquelle sarau: «Camillo Castello-Branco, poeta e prosador de elevado merito, etc.»
Julio de Castilho, publicando trechos d'esta carta, commenta a referencia a Camillo dizendo queessa amizade, então começada no Porto, ficou cimentada para sempre. (O Instituto, de Coimbra, n.º 9, vol. 48.º)
Foi Camillo, guia dos meus primeiros passos na vida literaria, quem me ensinou a amar Castilho.
Costumavam outr'ora as criadas velhas contar ás creanças da casa lindas historias de reis e principes encantados.
Camillo, que foi de algum modo o meuniñeroespiritual, falava-me muitas vezes de um grande principe das letras, rei das canções lhe chamou Herculano, protector de poetas, amador da natureza, acariciador das creanças e propugnador da felicidade do povo pela instrucção e pela agricultura.
Era Castilho, rei das canções, principe das letras, cego como Œdipo, o famoso rei de Thebas.
E assim como Œdipo encontrava o braço de sua filha Antigone para guial-o carinhosamente na cegueira, Castilho tinha nos braços de seus filhos outros tantos bordões amorosos que o ajudavam a firmar os passos incertos e vacillantes.
Recebi, pois, de Camillo o amor a Castilho, e de quanto elle o amava dá eterno testemunho esta encantadora dedicatoria do romanceAgulha em palheiro:
Ao poeta das creanças, das flores, do amor,da melancholia e dos desgraçados,ao illustrissimo e excellentissimo senhorAntonio Feliciano de Castilho,honra da patriahonra dos que o prezam, e amam a patriaoffereceo amigo, o respeitador, o discipulo mais devedorCamillo Castello Branco
{59}
Em outro livro,No Bom Jesus do Monte, cita Castilho a par de Lamartine e Victor Hugo, como sendo um nome que dá «á humanidade orgulho de o proferir».
Durante aQuestão Coimbrã, nasVaidades irritadas e irritantesvem á estacada quebrar lanças pela gloria de Castilho, e escreve: «... o mais enthusiasta admirador de Castilho, se algum houve que mais que eu lhe devesse e o amasse...»
Foi assim que Camillo amou Castilho; foi assim que eu aprendi com Camillo a amar Castilho.
Diz o texto d'essa dedicatoria:
ATHOMAZ RIBEIRO«São passados dez annos depois que vieste aqui. Foi hontem; e a pedra onde gravei o teu nome está denegrida como a dos tumulos antigos. Debaixo d'ella estão dez annos da nossa vida. Jazem ali os homens que então eramos. Estou vendo Castilho encostado ao frizo da columna tosca; estou ouvindo os teus versos recitados em nome de meus filhos... Ah! é verdade... tu não os recitaste porque tinhas lagrimas na voz e no rosto. Que faria de ti a politica, meu querido, meu poeta da patria e da alma:«S. Miguel de Seide, novembro de 1876.»
A
THOMAZ RIBEIRO
«São passados dez annos depois que vieste aqui. Foi hontem; e a pedra onde gravei o teu nome está denegrida como a dos tumulos antigos. Debaixo d'ella estão dez annos da nossa vida. Jazem ali os homens que então eramos. Estou vendo Castilho encostado ao frizo da columna tosca; estou ouvindo os teus versos recitados em nome de meus filhos... Ah! é verdade... tu não os recitaste porque tinhas lagrimas na voz e no rosto. Que faria de ti a politica, meu querido, meu poeta da patria e da alma:
«S. Miguel de Seide, novembro de 1876.»
O modesto monumento, de que fiz mais larga menção{60}no opusculoUma visita ao primeiro romancista portuguez em S. Miguel de Seide, Porto, 1885, falla-me saudosamente de seis pessoas, cuja memoria conservo muito viva entre as mais gratas lembranças do passado.
D'essas seis pessoas, as ultimas a morrer foram Eugenio de Castilho, fallecido a 8 de janeiro de 1900, e Thomaz Ribeiro, a 6 de fevereiro de 1901.
Embora tenha de fazer uma annotaçao talvez demasiadamente longa—o que não sei se é proprio do teor das annotações—não posso ter mão em mim que não complete, para o meu espirito, a historia do monumento de Seide com as recordações que me são suggeridas pelos nomes de Eugenio de Castilho e Thomaz Ribeiro.
** *
Uma coisa vos confessarei eu, sr. Dom Leonardo...
Lembram-se? Vem nosLogares selectos, do padre Cardoso: é um excerpto daCôrte na aldeia, de Rodrigues Lobo—dois livros bons, cada qual no seu genero; bons como se faziam d'antes.
Pois, já que a phrase me lembrou, adopto-a, mas cito ao menos a origem, o que nem sempre se faz agora.
Os tempos são outros; d'isso é que me queixo.
Uma coisa vos confessarei eu, srs. Dons Leonardos de hoje em dia, e é que me vou ralando de saudades pelos homens que conheci outr'ora, com os quaes convivi e troquei impressões, que os não ha melhores, nem tão bons, como foram esses.{61}
IlustraçãoA ACACIA DO JORGE
Ilustração
A ACACIA DO JORGE
Não quero dizer que todos agora sejam portuguezes de ruim panno; ha excepções, mas tão raras, que pode a gente gritar quando as encontra—Lá vem um!
Digo e redigo, porque d'isso estou convencido até á medula dos ossos, que os homens que eu tratei na mocidade me parecem semideuses se os comparo com os de hoje.
Doia-se quem doer, que me importam pouco essas coisas: até faz bem á gente sentir morder-lhe uma pontinha de malquerença—é como o frio de janeiro, que arripia, mas provoca a necessidade de reagir contra elle.
Eu venho de um tempo em que se dizia haver «elogio mutuo». Não era elogio, mas justiça. As cotações, especialmente no mercado das letras, andavam menos falsificadas. Ninguém chegava ao pé de um homem, de punhal na mão, com o intuito de assassinal-o, para o glorificar depois de morto.
Garrett estava no tumulo. Herculano fizera-se solitario em Val-de-Lobos. Castilho vivia em Lisboa e abria as suas portas a todos quantos mostravam paixão pelas letras. D'aqui veio o dizer-se que tinha Castilho uma côrte. Não a procurava elle; procuravam-n'o, sim, todos, velhos e novos, que desejavam encontrar uma atmosphera literaria em que podessem respirar á vontade.
Mas a differença do tempo estava principalmente n'isto, que não era pouco: ninguem, em casa de Castilho, nem dos seus, nem dos extranhos, se julgava maior que elle.
Por isso o respeitavam, medindo-lhe a grandeza, que fazia lembrar a das estatuas, porque sendo vista de perto tomava ainda maior vulto.
Era deliciosa essa casa de Castilho, onde a boa conversação literaria teve um templo, como não ha, nem póde haver outro. Não decorria ali uma hora sem que se tivesse lucrado alguma coisa: aprendia-se sempre. Eram tantos e tão bons os de casa e os de fóra, que nunca se apagava o{62}lume para as refeições do espirito. Mesa posta para osgourmetsda intellectualidade; porta aberta para todos os que chegavam, fossem gregos ou troyanos.
Conheci Castilho na rua do Sol ao Rato, onde recebia na sua enorme bibliotheca, uma vasta sala, que os melhores auctores de todos os paizes e de todos os seculos povoavam de alto a baixo. Fazia respeito aquillo: era uma cidade, um emporio de celebridades consagradas.
Castilho, coroado de cans, dava a impressão de ser um patriarcha das letras. Cego como Homero, via tudo o que queria vêr; jámais houve um cego que visse tanto. Até lia mentalmente os titulos dos livros que o rodeiavam. Aqui está o meu Bernardes, dizia elle: ia á estante, punha o dedo indicador n'um livro, e tirava a obra de Bernardes que desejava citar. Parecia ter os olhos fechados para, concentrado, reforçar por um momento a visão, que depois se tornava mais aguda e perspicaz.
Os seus olhos faziam lembrar os de D. João I: raça de escol, que já vinha apurada de longe.
Julio foi sempre o braço direito do pai, a sua luneta, o seu bordão, o seualter ego. O pai adorava-o; elle adorava o pai. Não podiam viver um sem o outro; eram como dois gemeos, duas existencias que se fundiam n'uma só.
Augusto, official de marinha, andava quasi sempre embarcado por longinquos mares. Raro apparecia em Lisboa; mas Castilho lembrava-o muitas vezes n'um impeto de saudade paternal, que é a mais funda, a mais incisiva, a mais cruel de todas as saudades.
Ida de Castilho, com os seus bellos olhos pretos que pareciam estrellas, era a gracilidade da mulher franzina a sorrir por entre clarões de intelligencia vivacissima.
Eugenio, o filho mais novo de Castilho, era, em razão da sua idade, o que tinha menos auctoridade literaria na familia, mas nascera poeta ali, n'aquella familia de escolhidos, como se nasce escocez na Escocia.{63}
Foi este rapaz velho, porque a doença o envelheceu precocemente, que morreu outro dia, em Sete Rios, mais longe do mundo que de Lisboa.
Poucos se lembravam d'elle já: tinha esquecido, tinha passado, era um morto que vivia longe dos vivos.
O seu periodo de maior actividade foi de 1868 a 1869. Conheci-o então, como conheci Antonio Feliciano e Julio de Castilho: por cartas que o correio trazia e levava, do norte para o sul, do sul para o norte. Só alguns annos depois nos avistámos, os Castilhos e eu, na rua do Sol ao Rato. Mas eramos já amigos velhos, todos nós, quando nos encontrámos frente a frente.
Aqui tenho eu uma prova d'isso, n'esta meia duzia de paginas publicadas em 1868 por Eugenio de Castilho, e intituladasPatria, contra a Iberia, poema em bons alexandrinos, que eram os da casa, a melhor officina de alexandrinos que tem havido até hoje em Portugal.
Na dedicatoria, do punho do auctor, escreveu elle: «Ao seu amicissimo...» Nunca nos tinhamos visto então, mas eramos já tão casados na amisade, que nenhum de nós estranhou o superlativo.
Eugenio tinha n'esse tempo 21 annos, e desabrochavam n'elle os talentos literarios, que são morgado de Castilhos. Eram flores que conheciam o terreno e o clima em que nasciam: medravam á vontade.
Quanto á factura artistica, o poemaPatriatrazia a marca da fabrica: Castilho & Filhos. Não havia firma mais acreditada nem então, nem agora.
Passo hoje pela vista, devorado de saudades, aquelle poema de 1868, e transplanto para aqui alguns casaes de alexandrinos, que me parecem ainda casaes de rouxinoes a namorarem-se nos bosques umbrosos de Portugal:
Vês além um telhado ao pé d'aquelle olmeiro?alli nasceu meu pae; alli amou primeiro.{64}Quando eu era pequeno, ia, ás vezes, sósinhoaos loireiros do val á busca de algum ninho.Sob este parreiral tão verde e tão fragrantebeijei apaixonado a minha terna amante.Costumava ir de tarde ao moinho da serravêr como o sol transpunha as montanhas da terra.Quanta vez, ao voltar da caça, eu me sentavaao pé d'essa cascata a ver-lhe a espuma brava.Os troncos da azinhaga, as silvas e as paschoinhasouviram-me cantar ás vezes trovas minhas.Era-me gosto á noite o rouxinol saudosodizendo á beira d'agua o seu canto amoroso.Sentado n'uma penha occulto entre o salgueiropoetava a ouvir do rio o murmurar palreiro.Ao canto do quintal da casa onde eu moravauma anágua plantara, e flores que eu regava.Conheço a minha terra; e cada pedra ou plantame saúda ao passar. Toda a Patria me encanta.
Vês além um telhado ao pé d'aquelle olmeiro?alli nasceu meu pae; alli amou primeiro.{64}
Quando eu era pequeno, ia, ás vezes, sósinhoaos loireiros do val á busca de algum ninho.
Sob este parreiral tão verde e tão fragrantebeijei apaixonado a minha terna amante.
Costumava ir de tarde ao moinho da serravêr como o sol transpunha as montanhas da terra.
Quanta vez, ao voltar da caça, eu me sentavaao pé d'essa cascata a ver-lhe a espuma brava.
Os troncos da azinhaga, as silvas e as paschoinhasouviram-me cantar ás vezes trovas minhas.
Era-me gosto á noite o rouxinol saudosodizendo á beira d'agua o seu canto amoroso.
Sentado n'uma penha occulto entre o salgueiropoetava a ouvir do rio o murmurar palreiro.
Ao canto do quintal da casa onde eu moravauma anágua plantara, e flores que eu regava.
Conheço a minha terra; e cada pedra ou plantame saúda ao passar. Toda a Patria me encanta.
Não são, de certo, estes os soberbos alexandrinos do pae Castilho, tão cheios, tão sonoros, tão variados na riqueza das vogaes, como elle, legislador maximo em versificação, praticava e recommendava; mas téem o ar de familia, o cunho da officina, que nos entremostram o artifice mais novo da casa posto a trabalhar, por desenfado, com a ferramenta do mestre.
Junte-se a tudo isto, que é já sobeja valia, o perfume ingenuo e nobre da mocidade, o pulsar de um coração candido e fidalgo, que se educava entre lyras de poetas e brazões de aristocracia literaria.
Tudo então fazia suppor que teria uma larga carreira{65}esse moço tão bem estreado, e tanto se sumiu elle depois nas trevas que as contrariedades da vida adensaram—a doença principalmente.
Foi tambem por 1868 que Eugenio de Castilho tentou a publicação daFolha dos curiosos, um dos quaes curiosos fui eu.
N'essa tentativa ia ainda um exemplo paterno, porque não deve esquecer a ninguem que Antonio Feliciano de Castilho redigiu por algum tempo, com inexcedivel brilho, aRevista universal lisbonense.
Digo inexcedivel brilho, e fico pesaroso de não encontrar melhor locução. Não me satisfaz esta, que é deficiente. Tudo quanto Castilho ali deixou, é primoroso—até o noticiario.
Se vingar algum dia a ideia de fundar uma escola de jornalistas, o professor, sabendo do seu officio, tem que ensinar a fazer noticiario pelo teor de Castilho.
Que adoraveis locaes, que gentileza e graça no dizer, que malicia, que ironia e que pureza castiça de linguagem!
Os senhores conhecem Castilho poeta, prosador, traductor e pedagogo? Pois não conhecem Castilho todo, acreditem. Falta-lhes ainda conhecer Castilho jornalista a brincar com a penna sobre assumptos de reportagem, a enramilhetar locaes que parecembouquets; Castilho a sorrir de si mesmo por ter descido áquella futilidade e a tornal-a grandiosa para não ter que envergonhar-se de vêr n'um espelho o pretor a curar de coisas minimas.
Pois, srs. Dons Leonardos, em verdade vos digo que foram grandes homens esses que eu conheci n'outro tempo, que conheci e amei, e que vós sois muito mais pequenos que elles.
Este mesmo Eugenio de Castilho, fallecido ha quasi um anno, não chegou a ser grande, porque lhe faltou apenas a validez; o talento, não.{66}
Mas, no breve momento em que se demorou nas letras, honrou, como vergontea, a arvore gloriosa dos Castilhos, florindo como poeta, que promettia futuro.
Hoje dorme o somno eterno na terra daPatria, que elle amava tanto, e se os mortos pensassem, julgar-se-ia certamente feliz por ter encontrado descanso aos seus tormentos na mesma terra em que o pae nasceu e amou primeiro.
** *
Tinha eu treze annos, quando um quintanista de direito, Manuel do Nascimento de Azevedo Coutinho, natural de Sinfães, passando pelo Porto, recitou em casa de meu pai trechos de um poema que, segundo a sua propria informação, estava causando o maior enthusiasmo em Coimbra.
Os estudantes sabiam-n'o de cór, e até o doutor Férrer, dando descanço ás Ordenações e ao Digesto, repetia estrophes aos rapazes quando os encontrava á tarde no Penedo da Saudade.
Era o cumulo do enthusiasmo coimbrão.
O quintanista Nascimento, um duriense de olhos pretos, vendo-se comprehendido por um grupo de senhoras que o escutavam, ia procurando na memoria excerptos do poema e recitava-os contente de espalhar em torno de si, como um perfume de rosas, a inspiração delicada do poeta que toda a academia já tinha sagrado em Coimbra com a agua lustral do Mondego.
Esse poema era oD. Jayme, de Thomaz Ribeiro.
A cada novo trecho cresciam os applausos; a impressão tornava-se geral no auditorio.
E o quintanista Nascimento, com a vivaz reminiscencia{67}de todos os moços, saltava de um canto a outro do poema recordando estrophes:
Um dia... quando, não sei;fui vêr as gastas ruinasd'um velhissimo castelloque ao desamparo encontrei,mas que, apesar de esquecidona solidão, era bello.Achei-o todo vestidode tenaz era viçosa;e ornado de verde brilho,lembrou-me um velho casquilhoque espera noiva formosa.
Um dia... quando, não sei;fui vêr as gastas ruinasd'um velhissimo castelloque ao desamparo encontrei,mas que, apesar de esquecidona solidão, era bello.
Achei-o todo vestidode tenaz era viçosa;e ornado de verde brilho,lembrou-me um velho casquilhoque espera noiva formosa.
De vez em quando, os parceiros do voltarete de meu pai poisavam as cartas, e escutavam attentos:
Que triste vida na choça,que funda melancolia,que rostos tão macerados,que suspiros abafadoscada noite e cada dia!noites de eterna vigilia,dias curtos para a lida,recordações da opulencia,amarguras da indigencia...que vida, Jesus! que vida!
Que triste vida na choça,que funda melancolia,que rostos tão macerados,que suspiros abafadoscada noite e cada dia!
noites de eterna vigilia,dias curtos para a lida,recordações da opulencia,amarguras da indigencia...que vida, Jesus! que vida!
Eu recolhia todos os trechos n'um enlevo d'alma, que foi o primeiro goso literario da minha vida e, quando n'essa noite me deitei, reconstituia mentalmente versos, estrophes inteiras, ancioso de poder lêr todo o poema, para decoral-o todo.
No dia seguinte, meu pae, recolhendo de ver os seus doentes, trazia debaxo do braço um livro de capa amarella.{68}
Tinha comprado o poema, suggestionado pela recitação da vespera.
Então, como um faminto que se lança vorazmente sobre um manjar inesperado, eu, quando os outros acabavam de lêr, devorava pagina a pagina, canto a canto, lendo e decorando, com a mesma facilidade com que hoje vou esquecendo...
Annos depois—não foram muitos—quando Castilho protegeu as minhas estreas literarias com o prestigio do seu nome, Thomaz Ribeiro escreveu-me algumas cartas que religiosamente conservo entre montões de outras suas escriptas de toda a parte.
Depois, em Lisboa, muitas vezes Thomaz Ribeiro me disse que possuia um retrato meu aos dezeseis annos.
Certamente lh'o offereci, mas não me lembro quando, e não conservo hoje nenhum exemplar d'essa photographia.
Quando foi que eu vi pela primeira vez o auctor doD. Jayme? D'isso me lembro muito bem. Foi no Porto, no escriptorio doPrimeiro de Janeiro, cuja redacção permanente era então apenas constituida por duas pessoas, Francisco Gomes Moniz e eu.
Nós dois faziamos tudo, menos o artigo de fundo, que ia de Lisboa, e era escripto por Latino Coelho.
Thomaz Ribeiro, tendo chegado ao Porto e entrado na casa Moré, disse ao gerente da casa, o illustre José Gomes Monteiro, que me queria visitar.
Monteiro, que me estremecia, ficou contentissimo, poz logo o seu chapeu e subiu, apesar de velho e doente, a rua de Santo Antonio, depois a ingreme escada da redacção, para me levar Thomaz Ribeiro.
Foi um dos dias felizes da minha vida literaria.
Desde então mantive com Thomaz Ribeiro as mais cordeaes relações de mutua estima.
As amizades velhas são como o cimento solidificado: não quebram facilmente.{69}