OS NETOS DE CAMILLO

OS NETOS DE CAMILLOFui hontem, 20 de agosto, a S. Miguel de Seide fazer uma romagem de saudade.Quando Camillo era vivo, sempre que eu vim a Santo Thyrso não deixei nunca de visitar o grande romancista na sua melancolica Thebaida.Agora que elle é morto e repousa longe, no cemiterio da Lapa, fui em peregrinação devota contemplar o tumulo em que viveu e agonisou: a casa solitaria de Seide, onde cada pedra parece ser um epitaphio que chora resignadamente por elle no silencio e na mudez de uma aldea minhôta.Esta casa, a que o proprio Camillo chamou «o albergue arruinado de S. Miguel de Seide», é uma reliquia historica, um monumento nacional, como a casa de Shakspeare em Stratford-sur-Avon ou como a casa de Goethe em Francfort.É ou deve ser.{6}Para mim tem o que quer que seja de venerando, como um castello desmantelado, onde a nossa gente tivesse ganho outr'ora cem victorias gloriosas, de que eu proprio houvesse sido testemunha...Sahi de Santo Thyrso ao amanhecer e almocei em Landim.Devo ao sr. Adriano Trêpa, meu presado amigo, a honra de acompanhar-me.Vi de passagema cêrca do antigo mosteiro de Landim, hoje propriedade da familia Leal e Sousa.Um filho do dono da casa, o sr. Manuel Vicente Leal, que ia a sahir n'esse momento, retrocedeu de bom grado para nos servir amavelmente de cicerone.Eu, quando viajo, não gosto de fazer prevenções, nem aos outros, nem a mim proprio. Sou o viajante mais despreoccupado que pode haver; entrego-me inteiramente ao acaso, e sempre me tenho dado bem com isso.A cêrca do mosteiro está transformada; poucos vestigios restam ainda do tempo dos frades. Ha trechos de buxo em algumas ruas, e «o jogo da bola», que era vulgar nos conventos do sexo masculino, subsiste menos mal conservado.As freiras, se cultivavam este jogo, era no plural...Já posteriores á extincção das ordens religiosas, vi carvalheiras enormes, medindo de circumferencia mais de quarenta palmos. Uma d'ellas fôra lascada por um raio, de alto a baixo. Vi tambem, digna de{7}menção, uma rua de australias, arvores cujo cerne imita o pau preto e é, por isso, madeira apreciada.Conversando com o sr. Manuel Vicente, perguntei-lhe se Camillo teria phantasiado muito a respeito doCego de Landim.—Nada, absolutamente. Camillo ainda não disse tudo. O «cego» era um perverso homem.—E onde morava aqui?—N'uma casa por detraz d'aquella capella.Indicou-me a capella de S. Braz, onde todos os annos se realiza uma pomposa festa, com arraial e feira.Tambem o sr. Manuel Vicente me indicou o antigo collegio de Landim, em que foram educados muitos rapazes do Minho, que hoje são honra e brilho da sua provincia.O sr. Trêpa e eu fomos almoçar á estalagem do Rodrigues, n'uma varanda envidraçada, que dava sobre campos emplumados de basto arvoredo.Notei que Landim é uma terra abundante de alfaiates. Só á porta de uma casa, vi sete trabalhando ao ar livre; fizeram-me lembrar a historia dos sete alfaiates lendarios, que foram precisos para matar uma aranha.Mal acabamos de almoçar, partimos para Seide, onde chegamos perto das dez horas da manhã. O sol tinha já descoberto; a nevoa, que havia sido intensa, dissipara-se completamente.{8}**     *Os meus olhos esperavam avidamente o momento de avistar a casa que fôra de Camillo.Tomados de um instinctivo respeito, iamos ambos calados, o sr. Trêpa e eu.De repente, surgiu-nos o portão ensombrado por duas grandes acácias, que pendem sobre elle.—É ali! disse eu.—É ali! repetiu o sr. Adriano Trêpa.E, passando respeitosamente por deante do portão, que dá para o largo da egreja parochial, dirigimo-nos á casa onde actualmente residem os netos de Camillo, a dois passos de distancia.Toda a gente se lembra ainda da deploravel questão que, a meu pezar, sustentei com o visconde de S. Miguel de Seide, segundo-genito de Camillo, sobre a existencia de uma filha natural do grande romancista, casada no Porto.Tive receio de que a recordação d'essa acerba polemica estivesse ainda muito viva no espirito da sr.ª D. Anna Rosa Corrêa.Adoptei por isso a precaução de apresentar-me sob o nome que primeiro me lembrou, ao solicitar o obsequio de ser recebido como admirador fervoroso de Camillo.Acolheu-me gentilmente a dona da casa, que immediatamente chamou alguns de seus filhos, não todos,{9}porque dois d'elles, Camillo e Manuel, tinham sahido pela manhã.Notei que por vezes a sr.ª D. Anna Corrêa, mãe d'aquellas creanças herdeiras de um nome glorioso e de pouco mais, me observava com certa curiosidade.Soube comtudo manter-se n'uma discreta reserva, não arriscando duvida alguma sobre a minha identidade.Fingiu acreditar que eu era «um Araujo» admirador de Camillo, desejoso de conhecer os netos do grande romancista e de visitar a casa onde elle morreu.Apresentou-me Flora, sua filha mais velha, quinze annos de idade, alta e elegante como um pinheiro novo, de uma simplicidade de maneiras ao mesmo passo graciosa e senhoril; e Rachel, quatro annos mais nova, cujo vago olhar revela morbidez e melancolia.—Esta menina, disse-me a sr.ª D. Anna Corrêa, era a predilecta da avó.—Aventuro-me a conjecturar, respondi eu, que o nome de Rachel foi escolhido por Camillo.—Isso mesmo... confirmou a minha amavel interlocutora esboçando um sorriso. Nós queriamos que se chamasse Anna, como a sr.ª viscondessa, mas o sr. visconde (Camillo) oppoz-se, dizendo que esse nome era infeliz na familia. Referia-se á sr.ª viscondessa e a mim...—Rachel, observei eu, exprimia na vida de Camillo a saudade do passado. Com esse nome foi designada{10}a sr.ª D. Anna Placido em muitos dos versos amorosos que ella lhe inspirou.—Exactamente. É verdade.Apresentou-me depois os restantes filhos que estavam em casa: Nuno e Simão, em cujas physionomias, doces e intelligentes, prevalece um accentuado typo de familia.—Simão, observei eu, tambem foi um nome intencionalmente escolhido.A sr.ª D. Anna confirmou com um gesto.—É o do protogonista doAmôr de perdição, acrescentei. Oxalá que este menino seja mais feliz.**     *Como eu tivesse insistido no desejo de vêr o pequeno Camillo, por saber que era o neto querido do avô, foram procural-o emquanto conversavamos a respeito de seus irmãos.E iamos já a sahir em visita á casa onde o grande Camillo morreu, quando appareceu o joven Camillo, denunciando um certo ar de extranheza no olhar suavemente penetrante e perspicaz.—Este menino, disse-me a sr.ª D. Anna, nasceu a 16 de maio de 1888, no mesmo dia em que o avô fazia annos. NosAmores de Camillovem esta observação, que é exacta.Procurei mostrar-me indifferente á citação do meu livro, comquanto me fosse agradavel a certeza de que{11}a sr.ª D. Anna Corrêa o conhecia e indicava como fonte auctorisada em minudencias biographicas.A physionomia do pequeno Camillo é, em verdade, a mais expressiva entre todos os netos do grande romancista.Essa creança revela uma luminosa precocidade de intelligencia. Não sendo robusto, como nenhum dos seus irmãos o é tambem, parece mais debil e menos expansivo que elles. Tem o que quer que seja de gravidade prematura quando escuta enconchando a mão sobre a orelha direita, porque padece de dureza de ouvido, como seu irmão Nuno. Tudo faz esperar que elle seja o continuador da gloria literaria do avô. Esta convicção parece estar arreigada no espirito de toda a familia, que a recebeu do grande romancista, o qual dizia muitas vezes ao pequeno Camillo:—Se eu tornar a vêr, vou comtigo para Coimbra.Apezar dos escassos recursos de que a sr.ª D. Anna Corrêa dispõe, julgou seu dever não se poupar aos maiores sacrificios para iniciar convenientemente a educação d'este filho.O pequeno Camillo estuda em Braga, onde vae cursar agora o terceiro anno do curso geral dos lyceus.**     *As terras de Seide não podem abastar ao sustento e educação de tão numerosa prole. Dariam regular passadio para uma ou duas pessoas, apenas. Mas para{12}educar tantas creanças não chegam. De mais a mais estão oneradas com um pezado fôro de setenta razas de milho alvo e centeio, pago annualmente ao abbade, e com os juros de uma hypotheca á Misericórdia de Villa Nova de Famalicão. São terras sêccas e por isso pouco fecundas: apenas alli tem maior valor a casa de habitação, que foi mandada construir pelo visconde de S. Miguel de Seide, e que é muito superior em capacidade e aspecto áquella em que o grande romancista viveu e morreu.A hypotheca abrange tambem este ultimo predio.A pensão que foi votada pelo parlamento a Camillo Castello Branco, cessou com a morte de seu filho Jorge.Portanto os descendentes de Camillo, se lhes não acudir o Estado, como deve, terão de luctar com as maiores difficuldades para receber educação condigna do nome illustre que representam.—Ver-me-hei na necessidade, dizia-me a sr.ª D. Anna, de mandar este menino (Camillo) para o commercio no Porto ou em Braga, bem como os outros.E o seu rosto, macerado pelos desgostos e trabalhos da vida, que a envelheceram prematuramente, cobria-se de uma espessa nuvem de melancolicas apprehensões.IlustraçãoFLORA—Tenho feito quanto tenho podido, continuou a sr.ª D. Anna, a bem d'estes meninos, mas não poderei aguentar por muito mais tempo tão difficil esforço. Flora fez exame de instrucção primaria. Nenhum dos outros irmãos é analphabeto. Manuel, que não lhe{13}posso apresentar, está em Landim a dar lição; só recolhe á noite. Nenhum dos meus filhos tem repugnancia pela instrucção, nem é preciso chamal-os para irem á escola, sendo Camillo o mais madrugador e estudioso de todos. Triste de mim, se tiver de lhes dar um destino que não seja o das letras. Mas não posso... não posso.Não foi como consolação banal que lhe respondi:—Não desespere, minha senhora. Portugal é prodigo em conceder pensões, e este acho eu que será o menor defeito de toda a nossa administração publica, porque mais vale evitar que alguns portuguezes morram á fome, do que dar um triste exemplo de ingratidão nacional. Todos nós sabemos que esta ou aquella pensão é, entre muitas outras, mais explicavel pela generosidade do que pela justiça. Mas a que se conceder á memoria de Camillo, na pessoa de seus netos, pelo menos até á maioridade d'elles, alem de poder ser a mais parcimoniosa de todas, será a mais justa entre as que a si mesmas se justificam plenamente. Camillo é um d'estes escriptores que representam uma nacionalidade: a sua obra é a alma de um povo.A sr.ª D. Anna enxugou uma lagrima nos seus olhos de um azul muito claro, tão quebrados pelo soffrimento como o poderiam ser por uma longa vigilia.Quantas noites, em verdade, não desvelará esta boa creatura a pensar no incerto futuro de seis filhos, entregues ao seu heroismo maternal, unica força que parece vitalisar-lhe o corpo depauperado pela anemia{14}e envelhecido prematuramente por uma vasta serie de inconfessaveis desgostos!Depositária de um nome illustre, e de uma das mais solidas glorias literarias do nosso tempo, que deverá restituir intacta a seus filhos depois de os ter preparado de modo a saberem continual-a dignamente, a sua missão é espinhosa e agra, sobretudo se a patria a desamparar, o que seria um crime affrontoso, e uma ingratidão odiosa.Os netos de Camillo, vivendo n'um affastado rincão do Minho, entre dois campos hypothecados, não téem a espreital-os areportagemdos jornaes, a vigilancia dos Argus de botequim, nem a attenção dos centros literarios e aristocraticos. Os montes que os rodeiam, não deixam vel-os de longe; especialmente de Lisboa. É preciso lembral-os, pol-os deante dos olhos da patria, e esse é o unico intuito que inspirou a publicação d'este opusculo.Dilemma inilludivel: Deixar ao abandono seis creanças, que hão de perpetuar uma geração illustre, ou protegel-as com uma exigua mealha, que abastará ás modestas necessidades de pessoas educadas na vida aldeã, no trato simples de camponezes, e sobriamente habituadas ao caldo verde do Minho.Quem deixará sossobrar em tão fragil batel seis creanças desprotegidas, podendo facilmente salval-as, e com ellas uma das mais authenticas e genuinas glorias nacionaes?Ninguem. A consciencia publica é o ultimo alento que morre nos povos que se deixaram enfermar de{15}leviandades e desacertos continuados. Nós somos um povo doente d'essa pécha. Mas a consciencia ainda reage por vezes, brada, impõe-se, faz-se ouvir e attender.Entreguemos, pois, esta demanda á consciencia publica.O unico dos netos de Camillo que eu não pude vêr em S. Miguel de Seide, foi Manuel, o mais novo, nascido em 1893.O seu nome tambem obedeceu a uma propositada escolha: era o do pae do grande romancista.A julgar pelo retrato, parece ser o mais alegre de todos elles, privilegio que a sua edade, aliás, explica.**     *Acompanhados pela sr.ª D. Anna Corrêa, dirigimo-nos, o sr. Adriano Trêpa e eu, para a casa onde morreu Camillo, a qual está actualmente deshabitada, com excepção do pavimento terreo, que é residencia do caseiro.Aberto o portão, entramos na sombra de uma latada de alvaroco, cujos cachos brancos pendiam vagamente doirados por tenues raios de sol, que as folhas verdes coavam.Olhei logo para um recanto, á esquerda, onde eu sabia existiro monumento commemorativo da visita de Castilho, «o principe da lyra portugueza», a S. Miguel de Seide, em julho de 1866.{16}Castilho, que partira de Lisboa acompanhado por seu filho Eugenio, tinha alli, n'aquelle torrão do Minho, uma côrte de letrados, verdadeiracôrte n'aldeia, a render-lhe homenagem: compunham-n'a Camillo, Anna Placido, Thomaz Ribeiro e Vieira de Castro.A inscripção está quasi apagada, como já se apagou tambem a vida das pessoas a quem ella se referia.Cresceram hervagens e ramos que sombriamente afogaram o monumentosinho. Parece um tumulo esquecido na solidão de um cemiterio.Recordei entãoa dedicatória daMaria Moysésa Thomaz Ribeiro.Quando eu estava olhando para aquella pedra triste, visinha silenciosa de uma casa não menos triste, assomou ao portão um individuo, que desconheci, um velho rijo, de physionomia agradavel, cujo trajo me denunciou logo o camponez polido.A sr.ª D. Anna Corrêa apresentou-m'o, pois que o sr. Trêpa já o conhecia: era o sr. Francisco Corrêa de Carvalho, dedicado amigo de Camillo, quasi familiar na casa de Seide, e proximo visinho.Como notasse que eu estava olhando para o monumento, o sr. Carvalho, muito expansivo, contou logo que um dia, nos ultimos annos da vida de Camillo, parára um trem ao portão, o que deu rebate de uma visita inesperada, facto que de longe a longe acontecia.Camillo preparou-se para receber algum amigo; mas não apparecia ninguem. Sahiram varias pessoas, entre ellas o sr. Carvalho, a averiguar o extraordinario{17}caso da carruagem, que parecia ter vindo vasia e parado ali sem destino.Então descobriram o vulto de um homem junto ao monumento, e voltado para elle. Aproximando-se cautelosamente, pé ante pé, reconheceram n'esse extranho visitante, Thomaz Ribeiro, que chorava, abraçando-se com a pedra.Chorava memorias do passado, memorias de si mesmo, da sua mocidade longinqua, de Castilho morto, de Vieira de Castro duas vezes morto, primeiro no tribunal, depois no tumulo; do filho de Castilho, apodrecido n'um leito, e de Camillo, ali tão proximo, crucificado no Calvario de todas as dores reaes e imaginarias que lhe attribularam incessantemente a existencia.Fiz reparo em que o sr. Carvalho, chamando de parte o sr. Trêpa, trocára com elle algumas palavras.Tive depois a explicação d'este incidente; e o leitor tel-a-ha tambem, a seu tempo.Mas, rapidamente, o sr. Carvalho voltou a falar comigo ácerca do monumento, e do facto que elle memorava: a visita de Castilho a Seide.—Fez-se aqui, dizia-me o sr. Carvalho, uma linda illuminação. Vieram cantadores, entre os quaes se distinguiram oGallegoe aRosa Cantadeira. Castilho mostrou-se admirado com os improvisos doGallego, sempre espontâneos e, por via de regra, muito maliciosos. «Quero, dizia Castilho, que me descrevam a cara d'este homem; que pena tenho de o não vêr! Mas calculo que a sua physionomia ha de ter tanta{18}expressão como a de um actor comico. Por força!» Nunca mais, concluia o sr. Carvalho, podereiesquecer essa noite de festa, que foi talvez a unica noite feliz n'esta casa.Emquanto o sr. Carvalho discursava com a verbosidade ardente de um rapaz, poisei os olhos sobre aacacia do Jorge, de cujas amplas frondes cahia uma sombra profunda e saudosa.E fui repetindo, irreflectidamente, os versos de Camillo:Quando a acacia do Jorge ainda outra vez inflore,Chamai-me, que eu de abril nas auras voltarei.A sr.ª D. Anna Corrêa, encostada n'esse momento ao mainel da escada, que iamos subir, disse com maviosa expressão de tristeza:—Tantas vezes tem já florido, depois que elle morreu!Eu completei mentalmente o seu pensamento: «E ainda não voltou...»Noticiei á sr.ª D. Anna que um poeta da moderna geração, dos melhores, se não o melhor, havia recentemente cantadoA acacia do Jorgeem quadras maviosas, de que brotavam lagrimas em fio, melancolicamente, como gotas d'agua cahindo tristes de uma fonte solitaria.Posso agora completar essa informação, reproduzindo integralmente a poesia de Affonso Lopes Vieira:{19}A ACACIA DO JORGECamillo! como acreditar, como hei deEntender estes versos que deixaste?Floriu a Acacia em S. Miguel de Seide,Cada anno te espera,—e não voltaste!Já tantas vezes deu a sombra amiga,Que tu gostavas tanto de gozar...Florida, tem um ar de festa antigaNa esperança de te vêr voltar!Voltar? A velha arvore que cance!...Por fim ha de ruir, n'uma amargura.Prepáras lá um ultimo romance?Suprema indiscreção! Genio e loucura!Dolorosa novella desmanchada,E que nos deixe pallidos e absortos,Onde nos digas, grande camarada,O gordo amor de brazileiros mortos!Os Amorosos, que se vão chorandoÁ porta do convento, e amortalhar-se...Com habitos de terra aconchegandoOs esqueletos de ossos a chocar-se...Um romance da cova, com morgadosQue o além desbastou; com almas finasDe mysticas de Amor, lindas MeninasEm mosteiros chorando, abandonados!E a descomposta, lugubre risadaDe romantica bocca, que era a tua,N'esses reinos da Morte gargalhadaSobre defuntos namorando á lua!{20}E toda a vã e toda a derradeiraEsperança do cabo da viagem;Com descriptivos, á tua maneira,D'esse Minho da Morte da paisagem...Ó Acacia! é já tempo: desesperas?Não te ponhas florida, põe-te aos ais!...Nunca mais voltará esse que esperas,Ouves bem este horror? Jámais! Jámais!E os versos d'elle, onde a saudade existe,Que á despedida te gritou tambem,Ah! não são mais que uma mentira triste:Como tudo, a final, que nos faz bem.Poetas! perguntae ao pensamentoQue mais chimeras e desgraças forge?Antes te séque um raio, ou parta o vento!Ó Acacia do Jorge...**     *Fomos subindo vagarosamente os degraus da escada de pedra, sobre a qual pende, chorosa, a farta ramagem da acacia. O caseiro tinha aberto as portas. Entrámos. Todos nós, os homens, nos descobrimos a um tempo, respeitosamente.A lembrança do que eu vira ali ha dezeseis annos aclarava-se no meu espirito com uma grande nitidez de saudade rediviva.Eu ia dizendo:—Era aqui a casa de jantar.{21}IlustraçãoCAMILLOA sr.ª D. Anna Corrêa confirmava.Passámos depois á sala em que estivera o bilhar e onde Camillo costumava receber as suas visitas de maior cerimonia.A sr.ª D. Anna disse, indicando o vão de uma janella:—Foi aqui que se matou, sentado na cadeira de baloiço.E, longamente, a sr.ª D. Anna reconstituiu todo esse rapido drama de desespero atroz.—O sr. visconde (Camillo) estava vivendo comnosco, no outro predio, onde habitava o melhor quarto do segundo andar. Mas sempre que tinha visitas, vinha aqui recebel-as. Foi o que aconteceu n'esse dia, quando chegou de Aveiro o medico Edmundo Machado, que já tambem falleceu. O sr. visconde parecia tranquillo antes do medico chegar.O sr. Carvalho interrompeu, dizendo:—Na vespera tinha andado a passeiar pelo meu braço ali no largo, em frente da egreja. Como começasse a soprar uma aragem fresca, o sr. visconde disse-me: «Vamos embora, que tenho medo de uma pneumonia.» Ainda na vespera do suicidio temia tanto a morte!—É verdade! confirmou a sr.ª D. Anna Corrêa. Perguntou o sr. visconde ao medico se quereria encarregar-se de o tratar da cegueira em Aveiro. O doutor respondeu que seria melhor ir primeiro tomar as aguas do Gerez. O sr. visconde viu certamente n'estas palavras o artificio de uma dilação para evitar{22}um desengano. Momentos depois o medico despediu-se, e a sr.ª viscondessa e o sr. Carvalho acompanharam-n'o até á escada. Ouviu-se então a detonação de um tiro. Retrocederam todos. O sr. visconde estava prostrado na cadeira, arquejando. Não se lhe viu, no primeiro momento, ferimento algum. Foi só algum tempo depois que uma gotinha de sangue aflorou no sitio onde a bala entrára, sobre a tempora.—O sr. visconde, perguntei eu, trazia sempre comsigo o rewolver?—Sempre; já o levára a Lisboa, onde um dia o experimentou, disparando para o tecto. Mas o filho (Nuno) tinha substituido as balas por uns projecteis inoffensivos, não sei de quê. O sr. visconde percebeu isto. Todavia não largára mais o rewolver, nem consentia que lh'o tirassem.—De tanto o apalpar, observou o sr. Carvalho, já tinha a coronha poída.A sr.ª D. Anna Corrêa concluiu a sua dolorosa narrativa dizendo:—Estavamos longe de imaginar que tivesse adquirido balas verdadeiras. Todos suppunhamos o rewolver vasio. Foi uma surpreza terrivel.E todos nós, depois d'esta rapida reconstituição do drama de Seide, nos demorámos ali, concentrados e silenciosos, por alguns momentos, como se vissemos ainda Camillo, prostrado e arquejante, na sua cadeira de baloiço, morrendo.{23}**     *Subimos depois ao segundo andar.Eram ahi o escriptorio do romancista e os quartos de cama.No escriptorio, por onde agora a luz golphava livremente, restavam do antigo mobiliario duas cadeiras de estofo, escanceladas e poentas.A nudez da sala, que o auctor de cem romances aquecera outr'ora com a irradiação vulcanica do proprio cerebro, gelou-me de tristeza. Dava a impressão de uma forja apagada. O tempo havia esfriado o rescaldo do ultimo livro. A officina parecia dormir tambem o somno da morte, que prostrára o valoroso artifice.Os aposentos de Camillo, alcova e saleta, estavam igualmente desnudados de mobilia; apenas na parede havia pendentes algunscroquisdo Jorge, e dois quadrinhos de que eu me lembrava ainda perfeitamente.Tenho em Lisboa uma pasta cheia de desenhos, que o Jorge me deu ha dezeseis annos. Por isso, mais do que aos seuscroquis, prestei attenção aos dois modestos quadrinhos, que durante longo tempo deram os bons dias e as boas noites a Camillo, velando a seu lado, como companheiros fieis e amigos intimos.São duas lithographias, que ninguem compraria n'um leilão, se ignorasse que ellas tinham pertencido a Camillo e ornado o seu quarto de cama.Uma é o retrato de Theophile Gautier, que foi o{24}chefe do estado-maior no exercito do general Victor Hugo, durante as campanhas incruentas do romantismo.A suatoilettecaracterisa nitidamente essa época literaria, em que os neóphytos revolucionarios procuravam desafiar a opinião publica eépater le bourgeoisexhibindo fatos alarmantes pelo exagero da côr e do córte.Primeiro que tudo, falemos da cabelleira romantica, essa floresta de cabellos cahidos sobre os hombros, que denunciava á primeira vista os literatos e os pintores.Agora, em nossos dias, muitos pintores e alguns poetas téem querido resuscital-a por amor da celebridade; mas, ai d'elles! fazem lembrar os mascarados que no carnaval moderno se vestem de pagens de Luiz XIV ou de cortezãos de Luiz XV.Deslocados do seu meio e do seu tempo, apenas conseguem dar uma falsa noção historica: são parcellas que sobrevivem a uma addição que se apagou.A cabelleira, como ornato capillar, efemina ridiculamente os homens de hoje.Como caracteristica d'uma época, passou com essa época: é uma recordação archeologica, que assenta melhor no muzeu do Carmo do que n'uma cabeça humana.Theophile Gautier, que era então um rapaz, a quem o bigode pennujava ainda, veste casaco de alamares—esse casaco-broquel, que defendia os corações romanticos.{25}O romantismo foi uma seita aguerrida, propensa a brigas e reptos. Por isso, talvez, adoptou o casaco de alamares, que tinha o que quer que fosse de aspecto militar, de lamina protegendo o peito de um couraceiro.No pescoço, um lenço de seda preta, alto como o gorjal de um cavalleiro antigo.Honrado lenço de seda, que durante tanto tempo adornaste o pescoço de nossos pais! tu tinhas uma eloquencia clamante e solemne. Davas ao pescoço humano uma attitude erecta e firme, como a de um busto de marmore ou de um granadeiro em formatura.Dir-se-ia que os pescoços, grossos e aprumados, tinham então musculos de aço, a envergadura de uma aguia ou de um cysne. Precisavam uma encadernação condigna, forte e austera.Depois vieram as gravatas multicores e multiformes, dando a impressão de fitas garridas para adorno de damas.E a Academia Real das Sciencias decidirá, porque é muito capaz d'isso, se foram os pescoços que adelgaçaram por amor das gravatas, se foram as gravatas que adelgaçaram por amor dos pescoços.O outro retrato é de Alphonse Karr, tambem então em plena mocidade. Tem buço e «mosca», levemente esboçados; e usa apenas meia cabelleira. Mas o effeito datoileitecompensa, como excentricidade depose, a deficiencia da cabelladura.Karr veste camisa de trabalho, desafogada no pescoço,{26}e sobre ella um amplo gabinardo, que tanto poderia servir a um pescador ou um jardineiro, como a um escriptor em actividade—porque tudo isso foi o auctor dasGuépes, sendo elle proprio uma obra em trez volumes.Tambem não sei se a Academia Real das Sciencias quererá dar parecer sobre o facto, em que fiz reparo, de Theophile Gautier ter sobrancelhas desenhadas em arco e Alphonse Karr sobrancelhas colleadas em til.Pode ser que das ponderações da Academia a este respeito venha a fazer-se nova e difinitiva luz sobre a apreciação critica de Gautier e Karr.Ha muito a esperar da Academia, tanto mais que ella ainda não fez nada.**     *Da saleta de Camillo passámos ao quarto de cama da viscondessa de Correia Botelho, igualmente desmobilado.Foi ali que essa linda mulher, de fórmas esculpturaes, envelheceu e expirou.D. Anna Augusta Placido falleceu repentinamente da ruptura de um aneurysma, no dia 20 de setembro de 1895 pela manhã.Tinha accordado bem disposta e, a breve trecho, veio a morte surprehendel-a.Após algumas golphadas de sangue, cahiu exanime na almofada do leito.{27}Morreu corajosamente, rodeada pelos netos.Ella, que teve uns olhos cheios de brilho e de magia, estava quasi cega quando morreu.Já não podia lêr, nem escrever.Eu ignorava esta circumstancia, que me foi agora communicada em Seide.Extranho destino o d'essas duas almas, Anna Placido e Camillo, que o amor reuniu, que a convivencia torturou, e que a desgraça da cegueira feriu implacavelmente na velhice, para que ambos exgotassem até ás fezes o mesmo calix de amargura.Aqui terminou a nossa visita á casa deshabitada de Seide, rodeada de «pinheiraes gementes», mais triste agora do que nunca.Por vezes o sr. Carvalho aligeirou a melancolia que nos acabrunhava ali, evocando alguma recordação anecdotica da vida de Camillo.Quando sahiamos o portão da quinta, dizia-nos o sr. Carvalho:—Um dia, Camillo, vindo do Porto, preveniu o chefe da estação de Villa Nova de que esperava brevemente a visita de um «bacharel» e pediu-lhe que o guiasse para S. Miguel de Seide. Sempre que chegava um comboio, o chefe da estação perguntava: «Vem ahi algum sr. doutor, que deseje ir para Seide?» Ninguem respondia. Até que finalmente appareceu o «bacharel» annunciado: era um burro que Camillo Castello Branco tinha comprado no Porto.{28}**     *Como voltassemos á casa do Nuno, para nos despedirmos dos netos do grande romancista, pois que só o pequeno Camillo nos tinha acompanhado, aproveitei o caminho para fazer algumas perguntas á sr.ª D. Anna.—O sr. visconde de Corrêa Botelho não reservou para si alguns livros e manuscriptos, quando vendeu a bibliotheca?Obtive esta resposta:—Sim, senhor. Mas a sr.ª viscondessa recommendou-me muitas vezes que os não mostrasse a ninguem antes de entregal-os aos netos.Fiquei, confesso, um pouco contrariado, mas não tinha que replicar.Perguntei á sr.ª D. Anna por um antigo criado de Camillo, que eu conhecêra na Povoa de Varzim e do qual o grande romancista me disse n'aquella praia: «Manoel Canniço é a unica pessoa que manda na minha casa. Assumiu a dictadura e não sabe governar d'outro modo: dava um bom ministro... constitucional.»Poucas horas depois sahiamos, Camillo e eu, para ir dar um passeio.O Manoel Canniço appareceu-nos na escada e interpellou seu amo dizendo-lhe:—V. Ex.ª vai sem paletot?Camillo respondeu passivamente:{29}IlustraçãoNUNO—A tarde está quente, e nós demoramo-nos pouco.Manoel Canniço, em plena dictadura, replicou:—V. Ex.ª vai vestir o paletot; queira esperar, que vou buscal-o.Camillo encolheu os hombros, sorrindo. E ambos esperámos que o paletot chegasse.Andámos visitando os cafés e as roletas. Quando recolhiamos a casa, passámos por uma taberna onde estavam zangarreando viola. Camillo parou, olhou para dentro da tasca, e disse-me: «Quem toca é o Manoel Canniço. Por isso é que eu o soffro.»Segundo me contou a sr.ª D. Anna Correia, Manoel Canniço fôra para o Brazil, onde se demorára alguns annos; regressou outro dia, mais pobre do que tinha ido.Voltando á casa do Nuno, tornei a falar na necessidade de, com o auxilio do Estado, serem convenientemente educados os netos de Camillo.E de repente ataquei um assumpto novo:—Estes meninos téem uma tia no Porto, bem casada, supponho eu.A sr.ª D. Anna respondeu promptamente:—Téem, é certo, mas as nossas relações estão cortadas.Não pude então reprimir uma expansão que me desafogou o animo:—V. Ex.ª está pois convencida de que estes meninos téem uma tia no Porto?—Estou, sim, senhor.{30}—Tambem eu, minha senhora.O sr. Carvalho interveio na conversação, pondo-se a pé e dizendo com grande hombridade:—Negal-o foi uma loucura.Achei que era chegado então o momento opportuno de arrancar a mascara que me constrangia.—Pois bem, minha senhora, disse eu, desde que não corro o risco de ter que contrariar a opinião de V. Ex.ª em sua propria casa, devo declarar-lhe o meu verdadeiro nome: eu sou Alberto Pimentel. E agora peço mil perdões a V. Ex.ª por ter usado de um disfarce, que me foi imposto pelo respeito e consideração que devia a V. Ex.ª Eu não podia, na sua presença, ter uma opinião que, sobre tão melindroso negocio de familia, lhe causasse desgosto.O sr. Carvalho sorria triumphalmente. A sr.ª D. Anna respondeu com indulgente cortezia, dizendo:—Eu tinha-o suspeitado desde que V. entrou.Em 1892 o Nuno, estando nós na Povoa, mostrou-me V. noCafé Chinez;no dia seguinte tornámos a vêl-o de tarde, no Passeio Alegre. E o Nuno dizia-me então: «Não haver aqui um homem, amigo de ambos, que pudesse reconciliar-nos!» O que é certo é que eu tinha fixado a physionomia de V. e mal podia acreditar n'uma tão completa similhança entre a pessoa que eu vira na Povoa e a pessoa que hoje me visitava com nome differente.O sr. Carvalho, de pé, no meio da sala, continuava a sorrir triumphalmente, esperando a occasião de dizer:{31}—A mim tambem não me enganou V. Logo que o vi, perguntei ao sr. Trêpa: «Este não é o Alberto Pimentel?»E o sr. Adriano Trêpa confirmou:—Foi o que elle me disse ao ouvido, agarrando-me pelo braço.—O que lhe respondi eu? insistiu o sr. Carvalho.—Que tinha a certeza de que não era outra pessoa.O sr. Carvalho explicou que me conhecia de S. Miguel de Seide, e que, na Povoa de Varzim, viera esperar-me á estação com o Nuno no anno em que eu ali fôra visitar Camillo.A sr.ª D. Anna Corrêa disse então como se quizesse apresentar-me officialmente o sr. Carvalho:—É um nosso velho amigo, que o sr. visconde (Camillo) estimava muito.E, sorrindo, acrescentou:—É o «José Fistula» doEusebio Macario...O sr. Carvalho atalhou jovialmente:—Com a differença de que não sei tocar guitarra, nem cantar oFado. Camillo brincava comigo; mas era meu amigo a valer, e eu adorava-o.**     *É certo que o genial romancista, na vida aldeã de Seide, se entretinha familiarmente com a gente do campo. Não me refiro ao sr. Carvalho, que é um{32}camponez relativamente illustrado. Mas ainda outro dia vi em Santo Thyrso um velho jornaleiro que anda hoje pedindo esmola, e que recita perlengas mythologicas e polyglottas leccionadas por Camillo. Chama-se João de Seide e deve ter perto de setenta annos. Repete inconscientemente, como um phonographo, o que lhe ensinára o grande romancista em horas de bom humor. Por exemplo:Jupiter era um deus omnipotente no Olympo. Venus era sua filha e mãe de Cupido, deus do amor. Um dia Jupiter escamou-se com Vulcano, deu-lhe um pontapé no trazeiro, e deixou-lh'o ao lado.Em francez,bonne nuité boa noite; ebon soir, boa tarde.Em inglez,good nighté boa noite.O verbo ser conjuga-se assim em francezJe suisTu esIl estNous sommesVous êtesIls sont{33}A China tem mais habitantes do que a Russia, mas a Russia é maior em territorio.Em Villa Nova de Famalicão, onde uma das novas ruas tem o nome de Camillo, ha um botequim conhecido peloCafé do Gato.«Gato» é o appellido do seu proprietario, um velho rijo e são, ainda com filhos pequenos.Era o botequim habitual de Camillo quando passava em Famalicão.Ali se entretinha o grande escriptor chalaçando com o velho Gato, cuja rusticidade de trato eu pude aferir pelo dialogo que se travou, na minha presença, entre elle e um cavalheiro de Famalicão, ao entrarmos ultimamente n'aquelle botequim com outros cavalheiros de Santo Thyrso.—Ó Gato, venha vêr o que estes srs. querem tomar.Resposta d'elle:—Não é preciso. Peça de lá, que eu sirvo de cá.É de notar que esta resposta agreste, no trato da gente rustica do Minho, não exclue bondade de caracter. Não vá suppôr-se que o proprietario do café de Famalicão seja um «gato bravo» da bocca para dentro.Mas o caso vem a proposito para mostrar que{34}n'estas e outras rusticidades se recreava Camillo emquanto a cegueira o não isolou em Seide na treva e no desespero.O grande escriptor tinha um vocabulario pittorescamente ironico para exprimir os ridiculos e desleixos da vida campestre.Assim era que, segundo vejo n'um jornal minhôto, designava pelo nome bucolico deboninasas stratificações fecaes que matizam e embalsamam os caminhos nas villas e aldeias do Minho.Tem verdadeira graça pastoril: boninas!**     *Reatemos a narrativa no ponto em que a deixámos: o motivo do meu disfarce.A sr.ª D. Anna asseverou mais uma vez que Nuno Castello Branco tinha desgosto de haver provocado a questão a que me constrangeu logo depois da morte de seu pae; mas que fôra arrastado a isso por despeitos de familia, em consequencia de sua irmã ter mandado depôr uma corôa, com palavras de filial saudade, sobre o féretro de Camillo.O sr. Carvalho, por sua vez, acrescentou:—Quando o Nuno foi levar ao Porto o manuscripto doProtesto, disse-lhe eu: «Não faças isso, Nuno, que é uma loucura. Vaes contradizer a verdade. E olha que chega para todos vós a gloria de teu pae.»—Mas o Nuno, insistiu a sr.ª D. Anna, estava arrependido{35}e não tinha odio nenhum a V. E a sr.ª viscondessa sempre, n'outras occasiões, se lhe mostrou muito affeiçoada, falando de V. com especial estima.Certifiquei a sr.ª D. Anna de que eu procurei, quanto pude, evitar essa deploravel questão e poupar pessoalmente o meu adversario. Houve apenas uma insinuação que me feriu: a de que eu, por um vil interesse, o dinheiro, defendia a causa da filha de Camillo, quando é certo que eu nunca tivera intelligencias com o marido d'esta illustre senhora, e que até o não conheço. Mas essa mesma insinuação ficava esquecida, como se nunca houvesse existido, desde o momento em que eu tinha a certeza de que Nuno Castello Branco se arrependêra de a ter escripto.No decurso da conversação vi-me rodeado pelos netos de Camillo, como se eu fosse já um familiar d'aquella casa. Principiei a sentir-me estimado ali, o que me recompensou largamente de quantos desgostos a questão doProtestome causou.Considero esse dia como um dos mais felizes da minha vida.O pequeno Camillo viera sentar-se no sophá, a meu lado, interessando-se muito, com a mão enconchada sobre a orelha direita, pela nossa conversação.A sr.ª D. Anna Corrêa tivera a encantadora bondade de dizer-me:—Apesar da recommendação da sr.ª viscondessa quanto aos livros do sr. visconde, eu quero mostral-os a V.: é a maior prova de estima que posso dar-lhe. Tenho a certeza que se a sr.ª viscondessa fosse viva,{36}procederia do mesmo modo. Tambem ella faria esta excepção.**     *D'ali a pouco subimos ao segundo andar para vêr o que resta da bibliotheca de Camillo: uns duzentos volumes talvez, repartidos por duas estantes envidraçadas. Algumas obras manuscriptas, poucas: lembro-me de ter visto uma genealogia em varios tomos. Entre os livros encontrei dois meus:A Jornada dos Seculose aFlor de myosótis.Depois entramos no quarto em que Camillo dormia quando alli se demorava temporadas.É um amplo compartimento, cheio de luz, com largas janellas que deixam espraiar-se o olhar por cima dos pinheiraes até alcançar o cume de montes longinquos.Quando Camillo habitava aquelle quarto, já estava cego. Mas se não podia contemplar o panorama, cheio da placidez e melancolia que caracteriza os bastos pinheiraes tranquillos, devia sentir o calor do sol que invadia o aposento.A alma de Camillo teria certamente n'essas horas bem menos placidez que a floresta dormente.Abundam n'esse quarto os retratos de familia, muitas recordações de um passado a que o amor deu momentos de felicidade e seculos de amargura.Havia ali, em todo aquelle segundo andar, um bello nucleo de muzeu camilliano.{37}

Fui hontem, 20 de agosto, a S. Miguel de Seide fazer uma romagem de saudade.

Quando Camillo era vivo, sempre que eu vim a Santo Thyrso não deixei nunca de visitar o grande romancista na sua melancolica Thebaida.

Agora que elle é morto e repousa longe, no cemiterio da Lapa, fui em peregrinação devota contemplar o tumulo em que viveu e agonisou: a casa solitaria de Seide, onde cada pedra parece ser um epitaphio que chora resignadamente por elle no silencio e na mudez de uma aldea minhôta.

Esta casa, a que o proprio Camillo chamou «o albergue arruinado de S. Miguel de Seide», é uma reliquia historica, um monumento nacional, como a casa de Shakspeare em Stratford-sur-Avon ou como a casa de Goethe em Francfort.

É ou deve ser.{6}

Para mim tem o que quer que seja de venerando, como um castello desmantelado, onde a nossa gente tivesse ganho outr'ora cem victorias gloriosas, de que eu proprio houvesse sido testemunha...

Sahi de Santo Thyrso ao amanhecer e almocei em Landim.

Devo ao sr. Adriano Trêpa, meu presado amigo, a honra de acompanhar-me.

Vi de passagema cêrca do antigo mosteiro de Landim, hoje propriedade da familia Leal e Sousa.

Um filho do dono da casa, o sr. Manuel Vicente Leal, que ia a sahir n'esse momento, retrocedeu de bom grado para nos servir amavelmente de cicerone.

Eu, quando viajo, não gosto de fazer prevenções, nem aos outros, nem a mim proprio. Sou o viajante mais despreoccupado que pode haver; entrego-me inteiramente ao acaso, e sempre me tenho dado bem com isso.

A cêrca do mosteiro está transformada; poucos vestigios restam ainda do tempo dos frades. Ha trechos de buxo em algumas ruas, e «o jogo da bola», que era vulgar nos conventos do sexo masculino, subsiste menos mal conservado.

As freiras, se cultivavam este jogo, era no plural...

Já posteriores á extincção das ordens religiosas, vi carvalheiras enormes, medindo de circumferencia mais de quarenta palmos. Uma d'ellas fôra lascada por um raio, de alto a baixo. Vi tambem, digna de{7}menção, uma rua de australias, arvores cujo cerne imita o pau preto e é, por isso, madeira apreciada.

Conversando com o sr. Manuel Vicente, perguntei-lhe se Camillo teria phantasiado muito a respeito doCego de Landim.

—Nada, absolutamente. Camillo ainda não disse tudo. O «cego» era um perverso homem.

—E onde morava aqui?

—N'uma casa por detraz d'aquella capella.

Indicou-me a capella de S. Braz, onde todos os annos se realiza uma pomposa festa, com arraial e feira.

Tambem o sr. Manuel Vicente me indicou o antigo collegio de Landim, em que foram educados muitos rapazes do Minho, que hoje são honra e brilho da sua provincia.

O sr. Trêpa e eu fomos almoçar á estalagem do Rodrigues, n'uma varanda envidraçada, que dava sobre campos emplumados de basto arvoredo.

Notei que Landim é uma terra abundante de alfaiates. Só á porta de uma casa, vi sete trabalhando ao ar livre; fizeram-me lembrar a historia dos sete alfaiates lendarios, que foram precisos para matar uma aranha.

Mal acabamos de almoçar, partimos para Seide, onde chegamos perto das dez horas da manhã. O sol tinha já descoberto; a nevoa, que havia sido intensa, dissipara-se completamente.{8}

**     *

Os meus olhos esperavam avidamente o momento de avistar a casa que fôra de Camillo.

Tomados de um instinctivo respeito, iamos ambos calados, o sr. Trêpa e eu.

De repente, surgiu-nos o portão ensombrado por duas grandes acácias, que pendem sobre elle.

—É ali! disse eu.

—É ali! repetiu o sr. Adriano Trêpa.

E, passando respeitosamente por deante do portão, que dá para o largo da egreja parochial, dirigimo-nos á casa onde actualmente residem os netos de Camillo, a dois passos de distancia.

Toda a gente se lembra ainda da deploravel questão que, a meu pezar, sustentei com o visconde de S. Miguel de Seide, segundo-genito de Camillo, sobre a existencia de uma filha natural do grande romancista, casada no Porto.

Tive receio de que a recordação d'essa acerba polemica estivesse ainda muito viva no espirito da sr.ª D. Anna Rosa Corrêa.

Adoptei por isso a precaução de apresentar-me sob o nome que primeiro me lembrou, ao solicitar o obsequio de ser recebido como admirador fervoroso de Camillo.

Acolheu-me gentilmente a dona da casa, que immediatamente chamou alguns de seus filhos, não todos,{9}porque dois d'elles, Camillo e Manuel, tinham sahido pela manhã.

Notei que por vezes a sr.ª D. Anna Corrêa, mãe d'aquellas creanças herdeiras de um nome glorioso e de pouco mais, me observava com certa curiosidade.

Soube comtudo manter-se n'uma discreta reserva, não arriscando duvida alguma sobre a minha identidade.

Fingiu acreditar que eu era «um Araujo» admirador de Camillo, desejoso de conhecer os netos do grande romancista e de visitar a casa onde elle morreu.

Apresentou-me Flora, sua filha mais velha, quinze annos de idade, alta e elegante como um pinheiro novo, de uma simplicidade de maneiras ao mesmo passo graciosa e senhoril; e Rachel, quatro annos mais nova, cujo vago olhar revela morbidez e melancolia.

—Esta menina, disse-me a sr.ª D. Anna Corrêa, era a predilecta da avó.

—Aventuro-me a conjecturar, respondi eu, que o nome de Rachel foi escolhido por Camillo.

—Isso mesmo... confirmou a minha amavel interlocutora esboçando um sorriso. Nós queriamos que se chamasse Anna, como a sr.ª viscondessa, mas o sr. visconde (Camillo) oppoz-se, dizendo que esse nome era infeliz na familia. Referia-se á sr.ª viscondessa e a mim...

—Rachel, observei eu, exprimia na vida de Camillo a saudade do passado. Com esse nome foi designada{10}a sr.ª D. Anna Placido em muitos dos versos amorosos que ella lhe inspirou.

—Exactamente. É verdade.

Apresentou-me depois os restantes filhos que estavam em casa: Nuno e Simão, em cujas physionomias, doces e intelligentes, prevalece um accentuado typo de familia.

—Simão, observei eu, tambem foi um nome intencionalmente escolhido.

A sr.ª D. Anna confirmou com um gesto.

—É o do protogonista doAmôr de perdição, acrescentei. Oxalá que este menino seja mais feliz.

**     *

Como eu tivesse insistido no desejo de vêr o pequeno Camillo, por saber que era o neto querido do avô, foram procural-o emquanto conversavamos a respeito de seus irmãos.

E iamos já a sahir em visita á casa onde o grande Camillo morreu, quando appareceu o joven Camillo, denunciando um certo ar de extranheza no olhar suavemente penetrante e perspicaz.

—Este menino, disse-me a sr.ª D. Anna, nasceu a 16 de maio de 1888, no mesmo dia em que o avô fazia annos. NosAmores de Camillovem esta observação, que é exacta.

Procurei mostrar-me indifferente á citação do meu livro, comquanto me fosse agradavel a certeza de que{11}a sr.ª D. Anna Corrêa o conhecia e indicava como fonte auctorisada em minudencias biographicas.

A physionomia do pequeno Camillo é, em verdade, a mais expressiva entre todos os netos do grande romancista.

Essa creança revela uma luminosa precocidade de intelligencia. Não sendo robusto, como nenhum dos seus irmãos o é tambem, parece mais debil e menos expansivo que elles. Tem o que quer que seja de gravidade prematura quando escuta enconchando a mão sobre a orelha direita, porque padece de dureza de ouvido, como seu irmão Nuno. Tudo faz esperar que elle seja o continuador da gloria literaria do avô. Esta convicção parece estar arreigada no espirito de toda a familia, que a recebeu do grande romancista, o qual dizia muitas vezes ao pequeno Camillo:

—Se eu tornar a vêr, vou comtigo para Coimbra.

Apezar dos escassos recursos de que a sr.ª D. Anna Corrêa dispõe, julgou seu dever não se poupar aos maiores sacrificios para iniciar convenientemente a educação d'este filho.

O pequeno Camillo estuda em Braga, onde vae cursar agora o terceiro anno do curso geral dos lyceus.

**     *

As terras de Seide não podem abastar ao sustento e educação de tão numerosa prole. Dariam regular passadio para uma ou duas pessoas, apenas. Mas para{12}educar tantas creanças não chegam. De mais a mais estão oneradas com um pezado fôro de setenta razas de milho alvo e centeio, pago annualmente ao abbade, e com os juros de uma hypotheca á Misericórdia de Villa Nova de Famalicão. São terras sêccas e por isso pouco fecundas: apenas alli tem maior valor a casa de habitação, que foi mandada construir pelo visconde de S. Miguel de Seide, e que é muito superior em capacidade e aspecto áquella em que o grande romancista viveu e morreu.

A hypotheca abrange tambem este ultimo predio.

A pensão que foi votada pelo parlamento a Camillo Castello Branco, cessou com a morte de seu filho Jorge.

Portanto os descendentes de Camillo, se lhes não acudir o Estado, como deve, terão de luctar com as maiores difficuldades para receber educação condigna do nome illustre que representam.

—Ver-me-hei na necessidade, dizia-me a sr.ª D. Anna, de mandar este menino (Camillo) para o commercio no Porto ou em Braga, bem como os outros.

E o seu rosto, macerado pelos desgostos e trabalhos da vida, que a envelheceram prematuramente, cobria-se de uma espessa nuvem de melancolicas apprehensões.

IlustraçãoFLORA

Ilustração

FLORA

—Tenho feito quanto tenho podido, continuou a sr.ª D. Anna, a bem d'estes meninos, mas não poderei aguentar por muito mais tempo tão difficil esforço. Flora fez exame de instrucção primaria. Nenhum dos outros irmãos é analphabeto. Manuel, que não lhe{13}posso apresentar, está em Landim a dar lição; só recolhe á noite. Nenhum dos meus filhos tem repugnancia pela instrucção, nem é preciso chamal-os para irem á escola, sendo Camillo o mais madrugador e estudioso de todos. Triste de mim, se tiver de lhes dar um destino que não seja o das letras. Mas não posso... não posso.

Não foi como consolação banal que lhe respondi:

—Não desespere, minha senhora. Portugal é prodigo em conceder pensões, e este acho eu que será o menor defeito de toda a nossa administração publica, porque mais vale evitar que alguns portuguezes morram á fome, do que dar um triste exemplo de ingratidão nacional. Todos nós sabemos que esta ou aquella pensão é, entre muitas outras, mais explicavel pela generosidade do que pela justiça. Mas a que se conceder á memoria de Camillo, na pessoa de seus netos, pelo menos até á maioridade d'elles, alem de poder ser a mais parcimoniosa de todas, será a mais justa entre as que a si mesmas se justificam plenamente. Camillo é um d'estes escriptores que representam uma nacionalidade: a sua obra é a alma de um povo.

A sr.ª D. Anna enxugou uma lagrima nos seus olhos de um azul muito claro, tão quebrados pelo soffrimento como o poderiam ser por uma longa vigilia.

Quantas noites, em verdade, não desvelará esta boa creatura a pensar no incerto futuro de seis filhos, entregues ao seu heroismo maternal, unica força que parece vitalisar-lhe o corpo depauperado pela anemia{14}e envelhecido prematuramente por uma vasta serie de inconfessaveis desgostos!

Depositária de um nome illustre, e de uma das mais solidas glorias literarias do nosso tempo, que deverá restituir intacta a seus filhos depois de os ter preparado de modo a saberem continual-a dignamente, a sua missão é espinhosa e agra, sobretudo se a patria a desamparar, o que seria um crime affrontoso, e uma ingratidão odiosa.

Os netos de Camillo, vivendo n'um affastado rincão do Minho, entre dois campos hypothecados, não téem a espreital-os areportagemdos jornaes, a vigilancia dos Argus de botequim, nem a attenção dos centros literarios e aristocraticos. Os montes que os rodeiam, não deixam vel-os de longe; especialmente de Lisboa. É preciso lembral-os, pol-os deante dos olhos da patria, e esse é o unico intuito que inspirou a publicação d'este opusculo.

Dilemma inilludivel: Deixar ao abandono seis creanças, que hão de perpetuar uma geração illustre, ou protegel-as com uma exigua mealha, que abastará ás modestas necessidades de pessoas educadas na vida aldeã, no trato simples de camponezes, e sobriamente habituadas ao caldo verde do Minho.

Quem deixará sossobrar em tão fragil batel seis creanças desprotegidas, podendo facilmente salval-as, e com ellas uma das mais authenticas e genuinas glorias nacionaes?

Ninguem. A consciencia publica é o ultimo alento que morre nos povos que se deixaram enfermar de{15}leviandades e desacertos continuados. Nós somos um povo doente d'essa pécha. Mas a consciencia ainda reage por vezes, brada, impõe-se, faz-se ouvir e attender.

Entreguemos, pois, esta demanda á consciencia publica.

O unico dos netos de Camillo que eu não pude vêr em S. Miguel de Seide, foi Manuel, o mais novo, nascido em 1893.

O seu nome tambem obedeceu a uma propositada escolha: era o do pae do grande romancista.

A julgar pelo retrato, parece ser o mais alegre de todos elles, privilegio que a sua edade, aliás, explica.

**     *

Acompanhados pela sr.ª D. Anna Corrêa, dirigimo-nos, o sr. Adriano Trêpa e eu, para a casa onde morreu Camillo, a qual está actualmente deshabitada, com excepção do pavimento terreo, que é residencia do caseiro.

Aberto o portão, entramos na sombra de uma latada de alvaroco, cujos cachos brancos pendiam vagamente doirados por tenues raios de sol, que as folhas verdes coavam.

Olhei logo para um recanto, á esquerda, onde eu sabia existiro monumento commemorativo da visita de Castilho, «o principe da lyra portugueza», a S. Miguel de Seide, em julho de 1866.{16}

Castilho, que partira de Lisboa acompanhado por seu filho Eugenio, tinha alli, n'aquelle torrão do Minho, uma côrte de letrados, verdadeiracôrte n'aldeia, a render-lhe homenagem: compunham-n'a Camillo, Anna Placido, Thomaz Ribeiro e Vieira de Castro.

A inscripção está quasi apagada, como já se apagou tambem a vida das pessoas a quem ella se referia.Cresceram hervagens e ramos que sombriamente afogaram o monumentosinho. Parece um tumulo esquecido na solidão de um cemiterio.

Recordei entãoa dedicatória daMaria Moysésa Thomaz Ribeiro.

Quando eu estava olhando para aquella pedra triste, visinha silenciosa de uma casa não menos triste, assomou ao portão um individuo, que desconheci, um velho rijo, de physionomia agradavel, cujo trajo me denunciou logo o camponez polido.

A sr.ª D. Anna Corrêa apresentou-m'o, pois que o sr. Trêpa já o conhecia: era o sr. Francisco Corrêa de Carvalho, dedicado amigo de Camillo, quasi familiar na casa de Seide, e proximo visinho.

Como notasse que eu estava olhando para o monumento, o sr. Carvalho, muito expansivo, contou logo que um dia, nos ultimos annos da vida de Camillo, parára um trem ao portão, o que deu rebate de uma visita inesperada, facto que de longe a longe acontecia.

Camillo preparou-se para receber algum amigo; mas não apparecia ninguem. Sahiram varias pessoas, entre ellas o sr. Carvalho, a averiguar o extraordinario{17}caso da carruagem, que parecia ter vindo vasia e parado ali sem destino.

Então descobriram o vulto de um homem junto ao monumento, e voltado para elle. Aproximando-se cautelosamente, pé ante pé, reconheceram n'esse extranho visitante, Thomaz Ribeiro, que chorava, abraçando-se com a pedra.

Chorava memorias do passado, memorias de si mesmo, da sua mocidade longinqua, de Castilho morto, de Vieira de Castro duas vezes morto, primeiro no tribunal, depois no tumulo; do filho de Castilho, apodrecido n'um leito, e de Camillo, ali tão proximo, crucificado no Calvario de todas as dores reaes e imaginarias que lhe attribularam incessantemente a existencia.

Fiz reparo em que o sr. Carvalho, chamando de parte o sr. Trêpa, trocára com elle algumas palavras.

Tive depois a explicação d'este incidente; e o leitor tel-a-ha tambem, a seu tempo.

Mas, rapidamente, o sr. Carvalho voltou a falar comigo ácerca do monumento, e do facto que elle memorava: a visita de Castilho a Seide.

—Fez-se aqui, dizia-me o sr. Carvalho, uma linda illuminação. Vieram cantadores, entre os quaes se distinguiram oGallegoe aRosa Cantadeira. Castilho mostrou-se admirado com os improvisos doGallego, sempre espontâneos e, por via de regra, muito maliciosos. «Quero, dizia Castilho, que me descrevam a cara d'este homem; que pena tenho de o não vêr! Mas calculo que a sua physionomia ha de ter tanta{18}expressão como a de um actor comico. Por força!» Nunca mais, concluia o sr. Carvalho, podereiesquecer essa noite de festa, que foi talvez a unica noite feliz n'esta casa.

Emquanto o sr. Carvalho discursava com a verbosidade ardente de um rapaz, poisei os olhos sobre aacacia do Jorge, de cujas amplas frondes cahia uma sombra profunda e saudosa.

E fui repetindo, irreflectidamente, os versos de Camillo:

Quando a acacia do Jorge ainda outra vez inflore,Chamai-me, que eu de abril nas auras voltarei.

Quando a acacia do Jorge ainda outra vez inflore,Chamai-me, que eu de abril nas auras voltarei.

A sr.ª D. Anna Corrêa, encostada n'esse momento ao mainel da escada, que iamos subir, disse com maviosa expressão de tristeza:

—Tantas vezes tem já florido, depois que elle morreu!

Eu completei mentalmente o seu pensamento: «E ainda não voltou...»

Noticiei á sr.ª D. Anna que um poeta da moderna geração, dos melhores, se não o melhor, havia recentemente cantadoA acacia do Jorgeem quadras maviosas, de que brotavam lagrimas em fio, melancolicamente, como gotas d'agua cahindo tristes de uma fonte solitaria.

Posso agora completar essa informação, reproduzindo integralmente a poesia de Affonso Lopes Vieira:{19}

A ACACIA DO JORGECamillo! como acreditar, como hei deEntender estes versos que deixaste?Floriu a Acacia em S. Miguel de Seide,Cada anno te espera,—e não voltaste!Já tantas vezes deu a sombra amiga,Que tu gostavas tanto de gozar...Florida, tem um ar de festa antigaNa esperança de te vêr voltar!Voltar? A velha arvore que cance!...Por fim ha de ruir, n'uma amargura.Prepáras lá um ultimo romance?Suprema indiscreção! Genio e loucura!Dolorosa novella desmanchada,E que nos deixe pallidos e absortos,Onde nos digas, grande camarada,O gordo amor de brazileiros mortos!Os Amorosos, que se vão chorandoÁ porta do convento, e amortalhar-se...Com habitos de terra aconchegandoOs esqueletos de ossos a chocar-se...Um romance da cova, com morgadosQue o além desbastou; com almas finasDe mysticas de Amor, lindas MeninasEm mosteiros chorando, abandonados!E a descomposta, lugubre risadaDe romantica bocca, que era a tua,N'esses reinos da Morte gargalhadaSobre defuntos namorando á lua!{20}E toda a vã e toda a derradeiraEsperança do cabo da viagem;Com descriptivos, á tua maneira,D'esse Minho da Morte da paisagem...Ó Acacia! é já tempo: desesperas?Não te ponhas florida, põe-te aos ais!...Nunca mais voltará esse que esperas,Ouves bem este horror? Jámais! Jámais!E os versos d'elle, onde a saudade existe,Que á despedida te gritou tambem,Ah! não são mais que uma mentira triste:Como tudo, a final, que nos faz bem.Poetas! perguntae ao pensamentoQue mais chimeras e desgraças forge?Antes te séque um raio, ou parta o vento!Ó Acacia do Jorge...

A ACACIA DO JORGE

Camillo! como acreditar, como hei deEntender estes versos que deixaste?Floriu a Acacia em S. Miguel de Seide,Cada anno te espera,—e não voltaste!

Já tantas vezes deu a sombra amiga,Que tu gostavas tanto de gozar...Florida, tem um ar de festa antigaNa esperança de te vêr voltar!

Voltar? A velha arvore que cance!...Por fim ha de ruir, n'uma amargura.Prepáras lá um ultimo romance?Suprema indiscreção! Genio e loucura!

Dolorosa novella desmanchada,E que nos deixe pallidos e absortos,Onde nos digas, grande camarada,O gordo amor de brazileiros mortos!

Os Amorosos, que se vão chorandoÁ porta do convento, e amortalhar-se...Com habitos de terra aconchegandoOs esqueletos de ossos a chocar-se...

Um romance da cova, com morgadosQue o além desbastou; com almas finasDe mysticas de Amor, lindas MeninasEm mosteiros chorando, abandonados!

E a descomposta, lugubre risadaDe romantica bocca, que era a tua,N'esses reinos da Morte gargalhadaSobre defuntos namorando á lua!{20}

E toda a vã e toda a derradeiraEsperança do cabo da viagem;Com descriptivos, á tua maneira,D'esse Minho da Morte da paisagem...

Ó Acacia! é já tempo: desesperas?Não te ponhas florida, põe-te aos ais!...Nunca mais voltará esse que esperas,Ouves bem este horror? Jámais! Jámais!

E os versos d'elle, onde a saudade existe,Que á despedida te gritou tambem,Ah! não são mais que uma mentira triste:Como tudo, a final, que nos faz bem.

Poetas! perguntae ao pensamentoQue mais chimeras e desgraças forge?Antes te séque um raio, ou parta o vento!Ó Acacia do Jorge...

**     *

Fomos subindo vagarosamente os degraus da escada de pedra, sobre a qual pende, chorosa, a farta ramagem da acacia. O caseiro tinha aberto as portas. Entrámos. Todos nós, os homens, nos descobrimos a um tempo, respeitosamente.

A lembrança do que eu vira ali ha dezeseis annos aclarava-se no meu espirito com uma grande nitidez de saudade rediviva.

Eu ia dizendo:

—Era aqui a casa de jantar.{21}

IlustraçãoCAMILLO

Ilustração

CAMILLO

A sr.ª D. Anna Corrêa confirmava.

Passámos depois á sala em que estivera o bilhar e onde Camillo costumava receber as suas visitas de maior cerimonia.

A sr.ª D. Anna disse, indicando o vão de uma janella:

—Foi aqui que se matou, sentado na cadeira de baloiço.

E, longamente, a sr.ª D. Anna reconstituiu todo esse rapido drama de desespero atroz.

—O sr. visconde (Camillo) estava vivendo comnosco, no outro predio, onde habitava o melhor quarto do segundo andar. Mas sempre que tinha visitas, vinha aqui recebel-as. Foi o que aconteceu n'esse dia, quando chegou de Aveiro o medico Edmundo Machado, que já tambem falleceu. O sr. visconde parecia tranquillo antes do medico chegar.

O sr. Carvalho interrompeu, dizendo:

—Na vespera tinha andado a passeiar pelo meu braço ali no largo, em frente da egreja. Como começasse a soprar uma aragem fresca, o sr. visconde disse-me: «Vamos embora, que tenho medo de uma pneumonia.» Ainda na vespera do suicidio temia tanto a morte!

—É verdade! confirmou a sr.ª D. Anna Corrêa. Perguntou o sr. visconde ao medico se quereria encarregar-se de o tratar da cegueira em Aveiro. O doutor respondeu que seria melhor ir primeiro tomar as aguas do Gerez. O sr. visconde viu certamente n'estas palavras o artificio de uma dilação para evitar{22}um desengano. Momentos depois o medico despediu-se, e a sr.ª viscondessa e o sr. Carvalho acompanharam-n'o até á escada. Ouviu-se então a detonação de um tiro. Retrocederam todos. O sr. visconde estava prostrado na cadeira, arquejando. Não se lhe viu, no primeiro momento, ferimento algum. Foi só algum tempo depois que uma gotinha de sangue aflorou no sitio onde a bala entrára, sobre a tempora.

—O sr. visconde, perguntei eu, trazia sempre comsigo o rewolver?

—Sempre; já o levára a Lisboa, onde um dia o experimentou, disparando para o tecto. Mas o filho (Nuno) tinha substituido as balas por uns projecteis inoffensivos, não sei de quê. O sr. visconde percebeu isto. Todavia não largára mais o rewolver, nem consentia que lh'o tirassem.

—De tanto o apalpar, observou o sr. Carvalho, já tinha a coronha poída.

A sr.ª D. Anna Corrêa concluiu a sua dolorosa narrativa dizendo:

—Estavamos longe de imaginar que tivesse adquirido balas verdadeiras. Todos suppunhamos o rewolver vasio. Foi uma surpreza terrivel.

E todos nós, depois d'esta rapida reconstituição do drama de Seide, nos demorámos ali, concentrados e silenciosos, por alguns momentos, como se vissemos ainda Camillo, prostrado e arquejante, na sua cadeira de baloiço, morrendo.{23}

**     *

Subimos depois ao segundo andar.

Eram ahi o escriptorio do romancista e os quartos de cama.

No escriptorio, por onde agora a luz golphava livremente, restavam do antigo mobiliario duas cadeiras de estofo, escanceladas e poentas.

A nudez da sala, que o auctor de cem romances aquecera outr'ora com a irradiação vulcanica do proprio cerebro, gelou-me de tristeza. Dava a impressão de uma forja apagada. O tempo havia esfriado o rescaldo do ultimo livro. A officina parecia dormir tambem o somno da morte, que prostrára o valoroso artifice.

Os aposentos de Camillo, alcova e saleta, estavam igualmente desnudados de mobilia; apenas na parede havia pendentes algunscroquisdo Jorge, e dois quadrinhos de que eu me lembrava ainda perfeitamente.

Tenho em Lisboa uma pasta cheia de desenhos, que o Jorge me deu ha dezeseis annos. Por isso, mais do que aos seuscroquis, prestei attenção aos dois modestos quadrinhos, que durante longo tempo deram os bons dias e as boas noites a Camillo, velando a seu lado, como companheiros fieis e amigos intimos.

São duas lithographias, que ninguem compraria n'um leilão, se ignorasse que ellas tinham pertencido a Camillo e ornado o seu quarto de cama.

Uma é o retrato de Theophile Gautier, que foi o{24}chefe do estado-maior no exercito do general Victor Hugo, durante as campanhas incruentas do romantismo.

A suatoilettecaracterisa nitidamente essa época literaria, em que os neóphytos revolucionarios procuravam desafiar a opinião publica eépater le bourgeoisexhibindo fatos alarmantes pelo exagero da côr e do córte.

Primeiro que tudo, falemos da cabelleira romantica, essa floresta de cabellos cahidos sobre os hombros, que denunciava á primeira vista os literatos e os pintores.

Agora, em nossos dias, muitos pintores e alguns poetas téem querido resuscital-a por amor da celebridade; mas, ai d'elles! fazem lembrar os mascarados que no carnaval moderno se vestem de pagens de Luiz XIV ou de cortezãos de Luiz XV.

Deslocados do seu meio e do seu tempo, apenas conseguem dar uma falsa noção historica: são parcellas que sobrevivem a uma addição que se apagou.

A cabelleira, como ornato capillar, efemina ridiculamente os homens de hoje.

Como caracteristica d'uma época, passou com essa época: é uma recordação archeologica, que assenta melhor no muzeu do Carmo do que n'uma cabeça humana.

Theophile Gautier, que era então um rapaz, a quem o bigode pennujava ainda, veste casaco de alamares—esse casaco-broquel, que defendia os corações romanticos.{25}

O romantismo foi uma seita aguerrida, propensa a brigas e reptos. Por isso, talvez, adoptou o casaco de alamares, que tinha o que quer que fosse de aspecto militar, de lamina protegendo o peito de um couraceiro.

No pescoço, um lenço de seda preta, alto como o gorjal de um cavalleiro antigo.

Honrado lenço de seda, que durante tanto tempo adornaste o pescoço de nossos pais! tu tinhas uma eloquencia clamante e solemne. Davas ao pescoço humano uma attitude erecta e firme, como a de um busto de marmore ou de um granadeiro em formatura.

Dir-se-ia que os pescoços, grossos e aprumados, tinham então musculos de aço, a envergadura de uma aguia ou de um cysne. Precisavam uma encadernação condigna, forte e austera.

Depois vieram as gravatas multicores e multiformes, dando a impressão de fitas garridas para adorno de damas.

E a Academia Real das Sciencias decidirá, porque é muito capaz d'isso, se foram os pescoços que adelgaçaram por amor das gravatas, se foram as gravatas que adelgaçaram por amor dos pescoços.

O outro retrato é de Alphonse Karr, tambem então em plena mocidade. Tem buço e «mosca», levemente esboçados; e usa apenas meia cabelleira. Mas o effeito datoileitecompensa, como excentricidade depose, a deficiencia da cabelladura.

Karr veste camisa de trabalho, desafogada no pescoço,{26}e sobre ella um amplo gabinardo, que tanto poderia servir a um pescador ou um jardineiro, como a um escriptor em actividade—porque tudo isso foi o auctor dasGuépes, sendo elle proprio uma obra em trez volumes.

Tambem não sei se a Academia Real das Sciencias quererá dar parecer sobre o facto, em que fiz reparo, de Theophile Gautier ter sobrancelhas desenhadas em arco e Alphonse Karr sobrancelhas colleadas em til.

Pode ser que das ponderações da Academia a este respeito venha a fazer-se nova e difinitiva luz sobre a apreciação critica de Gautier e Karr.

Ha muito a esperar da Academia, tanto mais que ella ainda não fez nada.

**     *

Da saleta de Camillo passámos ao quarto de cama da viscondessa de Correia Botelho, igualmente desmobilado.

Foi ali que essa linda mulher, de fórmas esculpturaes, envelheceu e expirou.

D. Anna Augusta Placido falleceu repentinamente da ruptura de um aneurysma, no dia 20 de setembro de 1895 pela manhã.

Tinha accordado bem disposta e, a breve trecho, veio a morte surprehendel-a.

Após algumas golphadas de sangue, cahiu exanime na almofada do leito.{27}

Morreu corajosamente, rodeada pelos netos.

Ella, que teve uns olhos cheios de brilho e de magia, estava quasi cega quando morreu.

Já não podia lêr, nem escrever.

Eu ignorava esta circumstancia, que me foi agora communicada em Seide.

Extranho destino o d'essas duas almas, Anna Placido e Camillo, que o amor reuniu, que a convivencia torturou, e que a desgraça da cegueira feriu implacavelmente na velhice, para que ambos exgotassem até ás fezes o mesmo calix de amargura.

Aqui terminou a nossa visita á casa deshabitada de Seide, rodeada de «pinheiraes gementes», mais triste agora do que nunca.

Por vezes o sr. Carvalho aligeirou a melancolia que nos acabrunhava ali, evocando alguma recordação anecdotica da vida de Camillo.

Quando sahiamos o portão da quinta, dizia-nos o sr. Carvalho:

—Um dia, Camillo, vindo do Porto, preveniu o chefe da estação de Villa Nova de que esperava brevemente a visita de um «bacharel» e pediu-lhe que o guiasse para S. Miguel de Seide. Sempre que chegava um comboio, o chefe da estação perguntava: «Vem ahi algum sr. doutor, que deseje ir para Seide?» Ninguem respondia. Até que finalmente appareceu o «bacharel» annunciado: era um burro que Camillo Castello Branco tinha comprado no Porto.{28}

**     *

Como voltassemos á casa do Nuno, para nos despedirmos dos netos do grande romancista, pois que só o pequeno Camillo nos tinha acompanhado, aproveitei o caminho para fazer algumas perguntas á sr.ª D. Anna.

—O sr. visconde de Corrêa Botelho não reservou para si alguns livros e manuscriptos, quando vendeu a bibliotheca?

Obtive esta resposta:

—Sim, senhor. Mas a sr.ª viscondessa recommendou-me muitas vezes que os não mostrasse a ninguem antes de entregal-os aos netos.

Fiquei, confesso, um pouco contrariado, mas não tinha que replicar.

Perguntei á sr.ª D. Anna por um antigo criado de Camillo, que eu conhecêra na Povoa de Varzim e do qual o grande romancista me disse n'aquella praia: «Manoel Canniço é a unica pessoa que manda na minha casa. Assumiu a dictadura e não sabe governar d'outro modo: dava um bom ministro... constitucional.»

Poucas horas depois sahiamos, Camillo e eu, para ir dar um passeio.

O Manoel Canniço appareceu-nos na escada e interpellou seu amo dizendo-lhe:

—V. Ex.ª vai sem paletot?

Camillo respondeu passivamente:{29}

IlustraçãoNUNO

Ilustração

NUNO

—A tarde está quente, e nós demoramo-nos pouco.

Manoel Canniço, em plena dictadura, replicou:

—V. Ex.ª vai vestir o paletot; queira esperar, que vou buscal-o.

Camillo encolheu os hombros, sorrindo. E ambos esperámos que o paletot chegasse.

Andámos visitando os cafés e as roletas. Quando recolhiamos a casa, passámos por uma taberna onde estavam zangarreando viola. Camillo parou, olhou para dentro da tasca, e disse-me: «Quem toca é o Manoel Canniço. Por isso é que eu o soffro.»

Segundo me contou a sr.ª D. Anna Correia, Manoel Canniço fôra para o Brazil, onde se demorára alguns annos; regressou outro dia, mais pobre do que tinha ido.

Voltando á casa do Nuno, tornei a falar na necessidade de, com o auxilio do Estado, serem convenientemente educados os netos de Camillo.

E de repente ataquei um assumpto novo:

—Estes meninos téem uma tia no Porto, bem casada, supponho eu.

A sr.ª D. Anna respondeu promptamente:

—Téem, é certo, mas as nossas relações estão cortadas.

Não pude então reprimir uma expansão que me desafogou o animo:

—V. Ex.ª está pois convencida de que estes meninos téem uma tia no Porto?

—Estou, sim, senhor.{30}

—Tambem eu, minha senhora.

O sr. Carvalho interveio na conversação, pondo-se a pé e dizendo com grande hombridade:

—Negal-o foi uma loucura.

Achei que era chegado então o momento opportuno de arrancar a mascara que me constrangia.

—Pois bem, minha senhora, disse eu, desde que não corro o risco de ter que contrariar a opinião de V. Ex.ª em sua propria casa, devo declarar-lhe o meu verdadeiro nome: eu sou Alberto Pimentel. E agora peço mil perdões a V. Ex.ª por ter usado de um disfarce, que me foi imposto pelo respeito e consideração que devia a V. Ex.ª Eu não podia, na sua presença, ter uma opinião que, sobre tão melindroso negocio de familia, lhe causasse desgosto.

O sr. Carvalho sorria triumphalmente. A sr.ª D. Anna respondeu com indulgente cortezia, dizendo:

—Eu tinha-o suspeitado desde que V. entrou.Em 1892 o Nuno, estando nós na Povoa, mostrou-me V. noCafé Chinez;no dia seguinte tornámos a vêl-o de tarde, no Passeio Alegre. E o Nuno dizia-me então: «Não haver aqui um homem, amigo de ambos, que pudesse reconciliar-nos!» O que é certo é que eu tinha fixado a physionomia de V. e mal podia acreditar n'uma tão completa similhança entre a pessoa que eu vira na Povoa e a pessoa que hoje me visitava com nome differente.

O sr. Carvalho, de pé, no meio da sala, continuava a sorrir triumphalmente, esperando a occasião de dizer:{31}

—A mim tambem não me enganou V. Logo que o vi, perguntei ao sr. Trêpa: «Este não é o Alberto Pimentel?»

E o sr. Adriano Trêpa confirmou:

—Foi o que elle me disse ao ouvido, agarrando-me pelo braço.

—O que lhe respondi eu? insistiu o sr. Carvalho.

—Que tinha a certeza de que não era outra pessoa.

O sr. Carvalho explicou que me conhecia de S. Miguel de Seide, e que, na Povoa de Varzim, viera esperar-me á estação com o Nuno no anno em que eu ali fôra visitar Camillo.

A sr.ª D. Anna Corrêa disse então como se quizesse apresentar-me officialmente o sr. Carvalho:

—É um nosso velho amigo, que o sr. visconde (Camillo) estimava muito.

E, sorrindo, acrescentou:

—É o «José Fistula» doEusebio Macario...

O sr. Carvalho atalhou jovialmente:

—Com a differença de que não sei tocar guitarra, nem cantar oFado. Camillo brincava comigo; mas era meu amigo a valer, e eu adorava-o.

**     *

É certo que o genial romancista, na vida aldeã de Seide, se entretinha familiarmente com a gente do campo. Não me refiro ao sr. Carvalho, que é um{32}camponez relativamente illustrado. Mas ainda outro dia vi em Santo Thyrso um velho jornaleiro que anda hoje pedindo esmola, e que recita perlengas mythologicas e polyglottas leccionadas por Camillo. Chama-se João de Seide e deve ter perto de setenta annos. Repete inconscientemente, como um phonographo, o que lhe ensinára o grande romancista em horas de bom humor. Por exemplo:

Jupiter era um deus omnipotente no Olympo. Venus era sua filha e mãe de Cupido, deus do amor. Um dia Jupiter escamou-se com Vulcano, deu-lhe um pontapé no trazeiro, e deixou-lh'o ao lado.

Em francez,bonne nuité boa noite; ebon soir, boa tarde.

Em inglez,good nighté boa noite.

O verbo ser conjuga-se assim em francez

Je suisTu esIl estNous sommesVous êtesIls sont{33}

A China tem mais habitantes do que a Russia, mas a Russia é maior em territorio.

Em Villa Nova de Famalicão, onde uma das novas ruas tem o nome de Camillo, ha um botequim conhecido peloCafé do Gato.

«Gato» é o appellido do seu proprietario, um velho rijo e são, ainda com filhos pequenos.

Era o botequim habitual de Camillo quando passava em Famalicão.

Ali se entretinha o grande escriptor chalaçando com o velho Gato, cuja rusticidade de trato eu pude aferir pelo dialogo que se travou, na minha presença, entre elle e um cavalheiro de Famalicão, ao entrarmos ultimamente n'aquelle botequim com outros cavalheiros de Santo Thyrso.

—Ó Gato, venha vêr o que estes srs. querem tomar.

Resposta d'elle:

—Não é preciso. Peça de lá, que eu sirvo de cá.

É de notar que esta resposta agreste, no trato da gente rustica do Minho, não exclue bondade de caracter. Não vá suppôr-se que o proprietario do café de Famalicão seja um «gato bravo» da bocca para dentro.

Mas o caso vem a proposito para mostrar que{34}n'estas e outras rusticidades se recreava Camillo emquanto a cegueira o não isolou em Seide na treva e no desespero.

O grande escriptor tinha um vocabulario pittorescamente ironico para exprimir os ridiculos e desleixos da vida campestre.

Assim era que, segundo vejo n'um jornal minhôto, designava pelo nome bucolico deboninasas stratificações fecaes que matizam e embalsamam os caminhos nas villas e aldeias do Minho.

Tem verdadeira graça pastoril: boninas!

**     *

Reatemos a narrativa no ponto em que a deixámos: o motivo do meu disfarce.

A sr.ª D. Anna asseverou mais uma vez que Nuno Castello Branco tinha desgosto de haver provocado a questão a que me constrangeu logo depois da morte de seu pae; mas que fôra arrastado a isso por despeitos de familia, em consequencia de sua irmã ter mandado depôr uma corôa, com palavras de filial saudade, sobre o féretro de Camillo.

O sr. Carvalho, por sua vez, acrescentou:

—Quando o Nuno foi levar ao Porto o manuscripto doProtesto, disse-lhe eu: «Não faças isso, Nuno, que é uma loucura. Vaes contradizer a verdade. E olha que chega para todos vós a gloria de teu pae.»

—Mas o Nuno, insistiu a sr.ª D. Anna, estava arrependido{35}e não tinha odio nenhum a V. E a sr.ª viscondessa sempre, n'outras occasiões, se lhe mostrou muito affeiçoada, falando de V. com especial estima.

Certifiquei a sr.ª D. Anna de que eu procurei, quanto pude, evitar essa deploravel questão e poupar pessoalmente o meu adversario. Houve apenas uma insinuação que me feriu: a de que eu, por um vil interesse, o dinheiro, defendia a causa da filha de Camillo, quando é certo que eu nunca tivera intelligencias com o marido d'esta illustre senhora, e que até o não conheço. Mas essa mesma insinuação ficava esquecida, como se nunca houvesse existido, desde o momento em que eu tinha a certeza de que Nuno Castello Branco se arrependêra de a ter escripto.

No decurso da conversação vi-me rodeado pelos netos de Camillo, como se eu fosse já um familiar d'aquella casa. Principiei a sentir-me estimado ali, o que me recompensou largamente de quantos desgostos a questão doProtestome causou.

Considero esse dia como um dos mais felizes da minha vida.

O pequeno Camillo viera sentar-se no sophá, a meu lado, interessando-se muito, com a mão enconchada sobre a orelha direita, pela nossa conversação.

A sr.ª D. Anna Corrêa tivera a encantadora bondade de dizer-me:

—Apesar da recommendação da sr.ª viscondessa quanto aos livros do sr. visconde, eu quero mostral-os a V.: é a maior prova de estima que posso dar-lhe. Tenho a certeza que se a sr.ª viscondessa fosse viva,{36}procederia do mesmo modo. Tambem ella faria esta excepção.

**     *

D'ali a pouco subimos ao segundo andar para vêr o que resta da bibliotheca de Camillo: uns duzentos volumes talvez, repartidos por duas estantes envidraçadas. Algumas obras manuscriptas, poucas: lembro-me de ter visto uma genealogia em varios tomos. Entre os livros encontrei dois meus:A Jornada dos Seculose aFlor de myosótis.

Depois entramos no quarto em que Camillo dormia quando alli se demorava temporadas.

É um amplo compartimento, cheio de luz, com largas janellas que deixam espraiar-se o olhar por cima dos pinheiraes até alcançar o cume de montes longinquos.

Quando Camillo habitava aquelle quarto, já estava cego. Mas se não podia contemplar o panorama, cheio da placidez e melancolia que caracteriza os bastos pinheiraes tranquillos, devia sentir o calor do sol que invadia o aposento.

A alma de Camillo teria certamente n'essas horas bem menos placidez que a floresta dormente.

Abundam n'esse quarto os retratos de familia, muitas recordações de um passado a que o amor deu momentos de felicidade e seculos de amargura.

Havia ali, em todo aquelle segundo andar, um bello nucleo de muzeu camilliano.{37}


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