A M.C.

No céo, se existe um céo para quem chora.Céo, para as magoas de quem soffre tanto…Se é lá do amor o foco, puro e santo,Chama que brilha, mas que não devora…

No céo, se uma alma n'esse espaço mora.Que a prece escuta e encharga o nosso pranto…Se ha Pae, que estenda sobre nós o mantoDo amor piedoso… que eu não sinto agora…

No céo, ó virgem! findarão meus males:Hei-de lá renascer, eu que pareçoAqui ter só nascido para dôres.

Ali, ó lyrio dos celestes valles!Tendo seu fim, terão o seu começo.Para não mais findar, nossos amores.

A João de Deus

Se é lei, que rege o escuro pensamento,Ser vã toda a pesquisa da verdade,Em vez da luz achar a escuridade,Ser uma queda nova cada invento;

É lei tambem, embora cru tormento,Buscar, sempre buscar a claridade,E só ter como certa realidadeO que nos mostra claro o entendimento.

O que ha-de a alma escolher, em tanto engano?Se uma hora crê de fé, logo duvida:Se procura, só acha… o desatino!

Só Deus póde acudir em tanto damno:Esperemos a luz d'uma outra vida,Seja a terra degredo, o céo destino.

A Alberto Telles

Só!—Ao ermita sósinho na montanhaVisita-o Deus e dá-lhe confiança:No mar, o nauta, que o tufão balança,Espera um sopro amigo que o céo tenha…

Só!—Mas quem se assentou em riba estranha,Longe dos seus, lá tem inda a lembrança:E Deus deixa-lhe ao menos a esperançaAo que á noite soluça em erma penha…

Só!—Não o é quem na dor, quem nos cançaços,Tem um laço que o prenda a este fadario.Uma crença, um desejo… e inda um cuidado…

Mas cruzar, com desdem, inertes braços,Mas passar, entre turbas, solitario,Isto é ser só, é ser abandonado!

A J. Felix dos Santos

Sempre o futuro, sempre! e o presenteNunca! Que seja esta hora em que se existeDe incerteza e de dor sempre a mais triste,E só farte o desejo um bem ausente!

Ai! que importa o futuro, se inclementeEssa hora, em que a esperança nos consiste,Chega… é presente… e só á dor assiste?…Assim, qual é a esperança que não mente?

Desventura ou delirio?… O que procuro,Se me foge, é miragem enganosa,Se me espera, peor, espectro impuro…

Assim a vida passa vagarosa:O presente, a aspirar sempre ao futuro:O futuro, uma sombra mentirosa.

Porque descrês, mulher, do amor, da vida?Porque esse Hermon transformas em Calvario?Porque deixas que, aos poucos, do sudarioTe aperte o seio a dobra humedecida?

Que visão te fugio, que assim perdidaBuscas em vão n'este ermo solitario?Que signo obscuro de cruel fadarioTe faz trazer a fronte ao chão pendida?

Nenhum! intacto o bem em ti assiste:Deus, em penhor, te deu a formosura;Bençãos te manda o céo em cada hora.

E descrês do viver?… E eu, pobre e triste,Que só no teu olhar leio a ventura,Se tu descrês, em que hei-de eu crer agora?

A Alberto Sampaio

Não me fales de gloria: é outro o altarOnde queimo piedoso o meu incenso,E animado de fogo mais intenso,De fé mais viva, vou sacrificar.

A gloria! pois que ha n'ella que adorar?Fumo, que sobre o abysmo anda suspenso…Que vislumbre nos dá do amor immenso?Esse amor que ventura faz gosar?

Ha outro mais perfeito, unico eterno,Farol sobre ondas tormentosas firme,De immoto brilho, poderoso e terno…

Só esse hei-de buscar, e confundir-meNa essencia do amor puro, sempiterno…Quero só n'esse fogo consumir-me!

A Germano Meyrelles

Só males são reaes, só dor existe;Prazeres só os gera a phantasia;Em nada, um imaginar, o bem consiste,Anda o mal em cada hora e instante e dia.

Se buscamos o que é, o que deviaPor natureza ser não nos assiste;Se fiamos n'um bem, que a mente cria,Que outro remedio ha ahi senão ser triste?

Oh! quem tanto pudera, que passasseA vida em sonhos só, e nada vira…Mas, no que se não vê, labor perdido!

Quem fôra tão ditoso que olvidasse…Mas nem seu mal com elle então dormira,Que sempre o mal peor é ter nascido!

Não busco n'esta vida gloria ou fama:Das turbas que me importa o vão ruído?Hoje, deus… e amanhã, já esquecidoComo esquece o clarão de extincta chama!

Foco incerto, que a luz já mal derrama,Tal é essa ventura: eccho perdido,Quanto mais se chamou, mais escondidoFicou inerte e mudo á voz que o chama.

D'essa coroa é cada flor um engano,É miragem em nuvem illusoria,É mote vão de fabuloso arcano.

Mas coroa-me tu: na fronte ingloriaCinge-me tu o louro soberano…Verás, verás então se amo essa gloria!

Em vão luctamos. Como nevoa baça,A incerteza das cousas nos envolve.Nossa alma, em quanto cria, em quanto volve,Nas suas proprias redes se embaraça.

O pensamento, que mil planos traça,É vapor que se esvae e se dissolve;E a vontade ambiciosa, que resolve,Como onda entre rochedos se espedaça.

Filhos do Amor, nossa alma é como um hymnoÁ luz, á liberdade, ao bem fecundo,Prece e clamor d'um presentir divino;

Mas n'um deserto só, arido e fundo,Ecchoam nossas vozes, que o DestinoPaira mudo e impassivel sobre o mundo.

A um crucifixo

Ha mil annos, bom Christo, ergueste os magros braçosE clamaste da cruz: ha Deus! e olhaste, ó crente,O horizonte futuro e viste, em tua mente,Um alvor ideal banhar esses espaços!

Porque morreu sem eccho o eccho de teus passos,E de tua palavra (ó Verbo!) o som fremente?Morreste… ah! dorme em paz! não volvas, que descrenteArrojáras de nova á campa os membros lassos…

Agora, como então, na mesma terra erma,A mesma humanidade é sempre a mesma enferma,Sob o mesmo ermo céo, frio como um sudario…

E agora, como então, viras o mundo exangue,E ouviras perguntar—de que servio o sangueCom que regaste, ó Christo, as urzes do Calvario?—

Desesperança

Vae-te na aza negra da desgraça,Pensamento de amor, sombra d'uma hora,Que abracei com delirio, vae-te, embora,Como nuvem que o vento impelle… e passa.

Que arrojemos de nós quem mais se abraça,Com mais ancia, á nossa alma! e quem devoraD'essa alma o sangue, com que vigora,Como amigo commungue á mesma taça!

Que seja sonho apenas a esperança,Emquanto a dor eternamente assiste.E só engano nunca a desventura!

Se era silencio soffrer fôra vingança!..Envolve-te em ti mesma, ó alma triste,Talvez sem esperança haja ventura!

Depois que dia a dia, aos poucos desmaiando,Se foi a nuvem d'ouro ideal que eu vira erguida:Depois que vi descer, baixar no céo da vidaCada estrella e fiquei nas trevas laborando:

Depois que sobre o peito os braços apertandoAchei o vacuo só, e tive a luz sumidaSem ver já onde olhar, e em todo vi perdidaA flor do meu jardim, que eu mais andei regando:

Retirei os meus pés da senda dos abrolhos,Virei-me a outro céo, nem ergo já meus olhosSenão á estrella ideal, que a luz d'amor contém…

Não temas pois—Oh vem! o céo é puro, e calmaE silenciosa a terra, e doce o mar, e a alma…A alma! não vês tu? mulher, mulher! oh vem!

1862—1866

Amar! mas d'um amor que tenha vida…Não sejam sempre timidos harpejos,Não sejam só delirios e desejosD'uma douda cabeça escandecida…

Amor que vive e brilhe! luz fundidaQue penetre o meu ser—e não só beijosDados no ar—delirios e desejos—Mas amor… dos amores que têm vida…

Sim, vivo e quente! e já a luz do diaNão virá dissipal-o nos meus braçosComo nevoa da vaga phantasia…

Nem murchará do sol á chama erguida…Pois que podem os astros dos espaçosContra debeis amores… se têm vida?

Adornou o meu quarto a flor do cardo,Perfumei-o de almiscar recendente;Vesti-me com a purpura fulgente,Ensaiando meus cantos, como um bardo;

Ungi as mãos e a face com o nardoCrescido nos jardins do Oriente,A receber com pompa, dignamente,Mysteriosa visita a quem aguardo.

Mas que filha de reis, que anjo ou que fadaEra essa que assim a mim descia,Do meu casebre á humida pousada?…

Nem princezas, nem fadas. Era, flor,Era a tua lembrança que batiaÁs portas de ouro e luz do meu amor!

Eu bem sei que te chamampequeninaE tenue como o véo solto na dança,Que és no juizo apenas acriança,Pouco mais, nos vestidos, que amenina…

Que és o regato de agua mansa e fina,A folhinha do til que se balança,O peito que em correndo logo cança,A fronte que ao soffrer logo se inclina…

Mas, filha, lá nos montes onde andei,Tanto me enchi de angustia e de receioOuvindo do infinito os fundos ecchos,

Que não quero imperar nem já ser reiSenão tendo meus reinos em teu seioE subditos, criança, em teus bonecos!

Ego dormio, et cor meum vigilat. CANTICO DOS CANTICOS.

Quem anda lá por fóra, pela vinhaNa sombra do luar meio cacoberto,Sutil nos passos e espreitando incerto,Com brando respirar de criancinha?

Um sonho me accordou… não sei que tinha…Pareceu-me sentil-o aqui tão perto…Seja alta noite, seja n'um deserto,Quem ama até em sonhos adivinha…

Môças da minha terra, ao meu amadoCorrei, dizei-lhe que eu dormia agora,Mas que póde ir contente e descançado,

Pois se tão cedo adormeci, conformeÉ meu costume, olhae, dormia embora,Porque o meu coração é que não dorme…

Sonho oriental

Sonho-me ás vezes rei, n'alguma ilha,Muito longe, nos mares do Oriente,Onde a noite é balsamica e fulgenteE a lua cheia sobre as aguas brilha…

O aroma da magnolia e da baunilhaPaira no ar diaphano e dormente…Lambe a orla dos bosques, vagamente,O mar com finas ondas de escumilha…

E emquanto eu na varanda de marfimMe encosto, absorto n'um scismar sem fim,Tu, meu amor, divagas ao luar,

Do profundo jardim pelas clareiras,Ou descanças debaixo das palmeiras,Tendo aos pés um leão familiar.

Quinze annos

Eu amo a vasta sombra das montanhas,Que estendem sobre os largos continentesOs seus braços de rocha negra, ingentes,Bem como braços colossaes aranhas.

D'ali o nosso olhar vê tão estranhasCousas, por esse céo! e tão ardentesVisões, lá n'esse mar de ondas trementes!E ás estrellas, d'ali, vê-as tamanhas!

Amo a grandeza mysteriosa e vasta…A grande idea, como a flor e o viçoDa arvore colossal que nos domina…

Mas tu, criança, sê tu boa… e basta:Sabe amar e sorrir… é pouco isso?Mas a ti só te quero pequenina!

Quando nós vamos ambos, de mãos dadas,Colher nos valles lyrios e boninas,E galgamos d'um folego as colinasDos rocios da noite inda orvalhadas;

Ou, vendo o mar, das ermas cumiadas,Contemplamos as nuvens vespertinas,Que parecem phantasticas ruinasAo longe, no horisonte, amontoadas:

Quantas vezes, de subito, emmudeces!Não sei que luz no teu olhar fluctua;Sinto tremer-te a mão, e empallideces…

O vento e o mar murmuram orações,E a poesia das cousas se insinuaLenta e amorosa em nossos corações.

Espirito que passas, quando o ventoAdormece no mar e surge a lua,Filho esquivo da noite que fluctua,Tu só entendes bem o meu tormento…

Como um canto longinquo—triste e lento—Que voga e sutilmente se insinua,Sobre o meu coração, que tumultua,Tu vertes pouco a pouco o esquecimento…

A ti confio o sonho em que me levaUm instincto de luz, rompendo a treva,Buscando, entre visões, o eterno Bem.

E tu entendes o meu mal sem nome,A febre de Ideal, que me consome,Tu só, Genio da Noite, e mais ninguem!

Sonhei—nem sempre o sonho é cousa vã—Que um vento me levava arrebatado,Atravez d'esse espaço constelladoOnde uma aurora eterna ri louçã…

As estrellas, que guardam a manhã,Ao verem-me passar triste e calado,Olhavam-me e dixiam com cuidado:Onde está, pobre amigo, a nossa irmã?

Mas eu baixava os olhos, receosoQue trahissem as grandes magoas minhas,E passava furtivo e silencioso,

Nem ousava contar-lhes, ás estrellas,Contar ás tuas puras irmansinhasQuanto és falsa, meu bem, e indigna d'ellas!

Só por ti, astro ainda e sempre occulto,Sombra do Amor e sonho da Verdade,Divago eu pelo mundo e em anciedadeMeu proprio coração em mim sepulto.

De templo em templo, em vão, levo o meu culto,Levo as flores d'uma intima piedade.Vejo os votos da minha mocidadeReceberem sómente escarneo e insulto.

Á beira do caminho me assentei…Escutarei passar o agreste vento,Exclamando: assim passe quando amei!—

Oh minh'alma, que creste na virtude!O que será velhice e desalento,Se isto se chama aurora e juventude?

Chovam lyrios e rosas no teu collo!Chovam hymnos de gloria na tua alma!Hymnos de gloria e adoração e calma,Meu amor, minha pomba e meu consolo!

Dê-te estrellas o céo, flores o solo,Cantos e aroma o ar e sombra a palmar.E quando surge a lua e o mar se acalma,Sonhos sem fim seu preguiçoso rolo!

E nem sequer te lembres de que eu chóro…Esquece até, esquece, que te adoro…E ao passares por mim, sem que me olhes,

Possam das minhas lagrimas crueisNascer sob os teus pés flores fieis,Que pises distrahida ou rindo esfolhes!

Um dia, meu amor (e talvez cedo,Que já sinto estalar-me o coração!)Recordarás com dor e compaixãoAs ternas juras que te fiz a medo…

Então, da casta alcova no segredo,Da lamparina ao tremulo clarão,Ante ti surgirei, espectro vão,Larva fugida ao sepulcral degredo…

E tu, meu anjo, ao ver-me, entre gemidosE afflictos ais, estenderás os braçosTentando segurar-te aos meus vestidos…

—«Ouve! espera!»—Mas eu, sem te escutar,Fugirei, como um sonho, aos teus abraçosE como fumo sumir-me-hei no ar!

Em sonho, ás vezes, se o sonhar quebrantaEste meu vão soffrer; esta agonia,Como sobe cantando a cotovia,Para o céo a minh'alma sobe e canta.

Canta a luz, a alvorada, a estrella santa,Que ao mundo traz piedosa mais um dia…Canta o enlevo das cousas, a alegriaQue as penetra de amor e as alevanta…

Mas, de repente, um vento humido e frioSopra sobre o meu sonho: um calafrioMe accorda.—A noite é negra e muda: a dor

Cá vela, como d'antes, ao meu lado…Os meus cantos de luz, anjo adorado,São sonho só, e sonho o meu amor!

Mãe—que adormente este viver dorido,E me vele esta noite de tal frio,E com as mãos piedosas ate o fioDo meu pobre existir, meio partido…

Que me leve comsigo, adormecido,Ao passar pelo sitio mais sombrio…Me banhe e lave a alma lá no rioDa clara luz do seu olhar querido…

Eu dava o meu orgulho de homem—davaMinha esteril sciencia, sem receio,E em debil criancinha me tornava.

Descuidada, feliz, docil tambem,Se eu podesse dormir sobre o teu seio,Se tu fosses, querida, a minha mãe!

Na capella

Na capella, perdida entre a folhagem,O Christo, lá no fundo, agonisava…Oh! como intimamente se casavaCom minha dor a dor d'aquella imagem!

Filhos ambos do amor, igual miragemNos roçou pela fronte, que escaldava…Igual traição, que o affecto mascarava,Nos deu supplicio ás mãos da villanagem…

E agora, ali, em quanto da florestaA sombra se infiltrava lenta e mesta,Vencidos ambos, martyres do Fado,

Fitavamo-nos mudos—dor igual!—Nem, dos dois, saberei dizer-vos qualMais pallido, mais triste e mais cançado…

Velut Umbra

Fumo e scismo. Os castellos do horizonteErguem-se, á tarde, e crescem, de mil cores,E ora espalham no céo vivos ardores,Ora fumam, vulcões de estranho monte…

Depois, que formas vagas vêm defronte,Que parecem sonhar loucos amores?Almas que vão, por entre luz e horrores,Passando a barca d'esse aereo Acheronte…

Apago o meu charuto quando apagasTeu facho, oh sol… ficamos todos sós…É n'esta solidão que me consumo!

Oh nuvens do Occidente, oh cousas vagas,Bem vos entendo a cor, pois, como a vós,Belleza e altura se me vão em fumo!

Não duvido que o mundo no seu eixoGire suspenso e volva em harmonia;Que o homem suba e vá da noite ao dia,E o homem vá subindo insecto o seixo.

Não chamo a Deus tyranno, nem me queixo,Nem chamo ao céo da vida noite fria;Não chamo á existencia hora sombria;Acaso, á ordem; nem á lei desleixo.

A Natureza é minha mãe ainda…É minha mãe… Ah, se eu á face lindaNão sei sorrir: se estou desesperado;

Se nada ha que me aqueça esta frieza;Se estou cheio de fel e de tristeza…É de crer que só eu seja o culpado!

O Palacio da Ventura

Sonho que sou um cavalleiro andante.Por desertos, por sóes, por noite escura,Paladino do amor, busco anhelanteO palacio encantado da Ventura!

Mas já desmaio, exhausto e vacillante.Quebrada a espada já, roda a armadura…E eis que subito o avisto, fulguranteNa sua pompa e aerea formosura!

Com grandes golpes bato á porta e brado:Eu sou o Vagabundo, o Desherdado…Abri-vos, portas d'ouro, ante meus ais!

Abrem-se as portas d'ouro, com fragor…Mas dentro encontro só, cheio de dor,Silencio e escuridão—e nada mais!

Pelas rugas da fronte que medita…Pelo olhar que interroga—e não vê nada…Pela miseria e pela mão geladaQue apaga a estrella que nossa alma fita…

Pelo estertor da chama que crepitaNo ultimo arranco d'uma luz minguada…Pelo grito feroz da abandonadaQue um momento de amante fez maldita…

Por quanto ha de fatal, que quanto ha mixtoDe sombra e de pavor sob uma lousa…Oh pomba meiga, pomba de esperança!

Eu t'o juro, menina, tenho vistoCousas terriveis—mas jamais vi cousaMais feroz do que um riso de criança!

Aquella, que eu adoro, não é feitaDe lyrios nem de rosas purpurinas,Não tem as formas languidas, divinasDa antiga Venus de cintura estreita…

Não é a Circe, cuja mão suspeitaCompõe filtros mortaes entre ruinas,Nem a Amazona, que se agarra ás crinasD'um corcel e combate satisfeita…

A mim mesmo pergunto, e não atinoCom o nome que dê a essa visão,Que ora amostra ora esconde o meu destino…

É como uma miragem, que entrevejo,Ideal, que nasceu na solidão,Nuvem, sonho impalpavel do Desejo…

Emquanto outros combatem

Empunhasse eu a espada dos valentes!Impellisse-me a acção, embriagado,Por esses campos onde a Morte e o FadoDão a lei aos reis tremulos e ás gentes!

Respirariam meus pulmões contentesO ar de fogo do circo ensanguentado…Ou cahira radioso, amortalhadoNa fulva luz dos gladios reluzentes!

Já não veria dissipar-se a auroraDe meus inuteis annos, sem uma horaViver mais que de sonhos e anciedade!

Já não veria em minhas mãos piedosasDesfolhar-se, uma a uma, as tristes rosasD'esta pallida e esteril mocidade!

Deixal-a ir, a ave, a quem roubaramNinho e filhos e tudo, sem piedade…Que a leve o ar sem fim da soledadeOnde as azas partidas a levaram…

Deixal-a ir, a vela, que arrojaramOs tufões pelo mar, na escuridade,Quando a noite surgio da immensidade,Quando os ventos do Sul levantaram…

Deixal-a ir, a alma lastimosa,Que perdeu fé e paz e confiança,Á morte queda, á morte silenciosa…

Deixal-a ir, a nota desprendidaD'um canto extremo… e a ultima esperança…E a vida… e o amor… deixal-a ir, a vida!

Das Unnennbare

Oh chimera, que passas embaladaNa onda de meus sonhos dolorosos,E roças co'os vestidos vaporososA minha fronte pallida e cançada!

Leva-te o ar da noite socegada…Pergunto em vão, com olhos anciosos,Que nome é que te dão os venturososNo teu paiz, mysteriosa fada!

Mas que destino o meu! e que luz baçaA d'esta aurora, igual á do sol posto,Quando só nuvem livida esvoaça!

Que nem a noite uma illusão consinta!Que só de longe e em sonhos te presinta…E nem em sonhos possa ver-te o rosto!

Metempsychose

Ausentes filhas do prazer: dizei-me!Vossos sonhos quaes são, depois da orgia?Acaso nunca a imagem fugidiaDo que fostes, em vós se agita e freme?

N'outra vida e outra esphera, aonde gemeOutro vento, e se accende um outro dia,Que corpo tinheis? que materia friaVossa alma incendiou, com fogo estreme?

Vós fostes nas florestas bravas feras,Arrastando, leôas ou pantheras,De dentadas de amor um corpo exangue…

Mordei pois esta carne palpitante,Feras feitas de gaze fluctuante…Lobas! leôas! sim, bebei meu sangue!

Aquelles, que eu amei, não sei que ventoOs dispersou no mundo, que os não vejo…Estendo os braços e nas trevas beijoVisões que á noite evoca o sentimento…

Outros me causam mais cruel tormentoQue a saudade dos mortos… que eu invejo…Passam por mim, mas como que têm pejoDa minha soledade e abatimento!

D'aquella primavera venturosaNão resta uma flor só, uma só rosa…Tudo o vento varreu, queimou o gelo!

Tu só foste fiel—tu, como d'antes,Inda volves teus olhos radiantes…Para ver o meu mal… e escarnecel-o!

A uma mulher

Para tristezas, para dor nasceste.Podia a sorte por-te o berço estreitoN'algum palacio e ao pé de regio leito,Em vez d'este areal onde cresceste:

Podia abrir-te as flores—com que vesteAs ricas e as felizes—n'esse peito:Fazer-te… o que a Fortuna ha sempre feito…Terias sempre a sorte que tiveste!

Tinhas de ser assim… Teus olhos fitos,Que não são d'este mundo e onde eu leioUns mysterios tão tristes e infinitos,

Tua voz rara e esse ar vago e esquecido,Tudo me diz a mim, e assim o creio,Que para isto só tinhas nascido!

Voz do Outomno

Ouve tu, meu cançado coração,O que te diz a voz da Natureza:—«Mais te valera, nú e sem defeza,Ter nascido em asperrima soidão,

Ter gemido, ainda infante, sobre o chãoFrio e cruel da mais crueldeveza, Do que emballar-te a Fada da Belleza,Como emballou, no berço da Illusão!

Mais valera á tua alma visionariaSilenciosa e triste ter passadoPor entre o mundo hostil e a turba varia,

(Sem ver uma só flor, das mil, que amaste)Com odio e raiva e dor… que ter sonhadoOs sonhos ideaes que tu sonhaste!»—

Sepultura romantica

Ali, onde o mar quebra, n'um cachãoRugidor e monotono, e os ventosErguem pelo areal os seus lamentos,Ali se ha-de enterrar meu coração.

Queimem-no os sóes da adusta solidãoNa fornalha do estio, em dias lentos;Depois, no inverno, os sopros violentosLhe revolvam em torno o arido chão…

Até que se desfaça e, já tornadoEm impalpavel pó, seja levadoNos turbilhões que o vento levantar…

Com suas luctas, seu cançado anceio,Seu louco amor, dissolva-se no seioD'esse infecundo, d'esse amargo mar!

1864—1874

Pois que os deuses antigos e os antigosDivinos sonhos por esse ar se somem,E á luz do altar da fé, em Templo ou Dolmen,A apagaram os ventos inimigos;

Pois que o Sinai se ennubla e os seus pacigos,Seccos á mingua de agua, se consomem,E os prophetas d'outrora todos dormemEsquecidos, em terra sem abrigos;

Pois que o céo se fechou e já não desceNa escada de Jacob (na de Jesus!)Um só anjo, que acceite a nossa prece;

É que o lyrio da Fé já não renasce:Deus tapou com a mão a sua luzE ante os homens velou a sua face!

Pallido Christo, oh conductor divino!A custo agora a tua mão tão doceIncerta nos conduz, como se fosseTeu grande coração perdendo o tino…

A palavra sagrada do DestinoNa bocca dos oraculos seccou-se:A luz da sarça ardente dissipou-seAnte os olhos do vago peregrino!

Ante os olhos dos homens—porque o mundoDesprendido rolou das mãos de Deus,Como uma cruz das mãos d'um moribundo!

Porque já se não lê seu nome escritoEntre os astros… e os astros, como atheus,Já não querem mais lei que o infinito!

Força é pois ir buscar outro caminho!Lançar o arco de outra nova pontePor onde a alma passe—e um alto monteAonde se abre á luz o nosso ninho.

Se nos negam aqui o pão e o vinho,Avante! é largo, immenso esse horizonte…Não, não se fecha o mundo! e além, defronte,E em toda a parte ha luz, vida e carinho!

Avante! os mortos ficarão sepultos…Mas os vivos que sigam, sacudindoComo o pó da estrada os velhos cultos!

Doce e brando era o seio de Jesus…Que importa? havemos de passar, seguindo,Se além do seio d'elle houver mais luz!

Conquista pois sósinho o teu futuro,Já que os celestes guias te hão deixado,Sobre uma terra ignota abandonado,Homem—proscrito rei—mendigo escuro!

Se não tens que esperar do céo (tão puro,Mas tão cruel!) e o coração magoadoSentes já de illusões desenganado,Das illusões do antigo amor perjuro:

Ergue-te, então, na magestade estoicaD'uma vontade solitaria e altiva,N'um esforço supremo de alma heroica!

Faze um templo dos muros da cadeia,Prendendo a immensidade eterna e vivaNo circulo de luz da tua Idea!

Mas a Idea quem é? quem foi que a vio,Jámais, a essa encoberta peregrina?Quem lhe beijou a sua mão divina?Com seu olhar de amor quem se vestio?

Pallida imagem, que a agua de algum rio,Reflectindo, levou… incerta e finaLuz, que mal bruxulêa pequenina…Nuvem, que trouxe o ar, e o ar sumio…

Estendei, estendei-lhe os vossos braços,Magros da febre d'um sonhar profundo,Vós todos que a seguis n'esses espaços!

E emtanto, oh alma triste, alma chorosa,Tu não tens outra amante em todo o mundoMais que essa fria virgem desdenhosa!

Outra amante não ha! não ha na vidaSombra a cobrir melhor nossa cabeça,Nem balsamo mais doce, que adormeçaEm nós a antiga, a secular ferida!

Quer fuja esquiva, ou se offereça erguida,Como quem sabe amar e amar confessa,Quer nas nuvens se esconda ou appareça,Será sempre ella a esposa promettida!

Nossos desejos para ti, oh fria,Se erguem, bem como os braços do proscritoPara as bandas da patria, noite e dia.

Podes fugir… nossa alma, delirante,Seguir-te-ha a travez do infinito,Até voltar comtigo, triumphante!

Oh! o noivado barbaro! o noivadoSublime! aonde os céos, os céos ingentes,Serão leito de amor, tendo pendentesOs astros por docel e cortinado!

As bodas do Desejo, embriagadoDe ventura, a final! visões ferventesDe quem nos braços vae de ideaes ardentesPor espaços sem termo arrebatado!

Lá, por onde se perde a phantasiaNo sonho da belleza: lá, aondeA noite tem mais luz que o nosso dia;

Lá, no seio da eterna claridade,Aonde Deus á humana voz responde;É que te havemos abraçar, Verdade!

Lá! Mas aonde élá?—Espera,Coração indomado! o céo, que anceiaA alma fiel, o céo, o céo da Idea.Em vão o buscas n'essa immensa esphera!

O espaço é mudo: a immensidade austeraDe balde noite e dia incendeia…Em nenhum astro, em nenhum sol se alteiaA rosa ideal da eterna primavera!

O Paraiso e o templo da Verdade,Oh mundos, astros, sóes, constellações!Nenhum de vós o tem na immensidade…

A Idea, o summo Bem, o Verbo, a Essencia,Só se revela aos homens e ás naçõesNo céo incorruptivel da Consciencia!

A um crucifixo

Lendo, passados 12 annos, o soneto da parte 1.^a que tem o mesmotitulo

Não se perdeu teu sangue generoso,Nem padeceste em vão, quem quer que foste,Plebeu antigo, que amarrado ao posteMorreste como vil e faccioso.

D'esse sangue maldito e ignominiosoSurgio armada uma invencivel hoste…Paz aos homens e guerra aos deuses!—poz-teEm vão sobre um altar o vulgo ocioso…

Do pobre que protesta foste a imagem:Um povo em ti começa, um homem novo:De ti data essa tragica linhagem.

Por isso nós, a Plebe, ao pensar n'isto,Lembraremos, herdeiros d'esse povo,Que entre nossos avós se conta Christo.

A cruz dizia á terra onde assentava,Ao valle obscuro, ao monte aspero e mudo:—Que és tu, abysmo e jaula, aonde tudoVive na dor e em lucta cega e brava?

Sempre em trabalho, condemnada escrava.Que fazes tu de grande e bom, comtudo?Resignada, és só lodo informe e rudo;Revoltosa, és só fogo e horrida lava…

Mas a mim não ha alta e livre serraQue me possa igualar!.. amor, firmeza,Sou eu só: sou a paz, tu és a guerra!

Sou o espirito, a luz!.. tu és tristeza,Oh lodo escuro e vil!—Porêm a terraRespondeu: Cruz, eu sou a Natureza!

(A Guilherme de Azevedo)

Amem a noite os magros crapulosos,E os que sonham com virgens impossiveis,E os que inclinam, mudos e impassiveis,Á borda dos abysmos silenciosos…

Tu, lua, com teus raios vaporosos,Cobre-os, tapa-os e torna-os insensiveis,Tanto aos vicios crueis e inextinguiveis,Como aos longos cuidados dolorosos!

Eu amarei a santa madrugada,E o meio-dia, em vida refervendo,E a tarde rumorosa e repousada.

Viva e trabalhe em plena luz: depois,Seja-me dado ainda ver, morrendo,O claro sol, amigo dos heroes!

These e Antithese

Já não sei o que vale a nova idea,Quando a vejo nas ruas desgrenhada,Torva no aspecto, á luz da barricada,Como bacchante após lubrica ceia…

Sanguinolento o olhar se lhe incendeia;Respira fumo e fogo embriagada:A deusa de alma vasta e socegadaEil-a presa das furias de Medea!

Um seculo irritado e truculentoChama á epilepsia pensamento,Verbo ao estampido de pelouro e obuz…

Mas a idea é n'um mundo inalteravel,N'um crystallino céo, que vive estavel…Tu, pensamento, não és fogo, és luz!

N'um céo intemerato e crystallinoPóde habitar talvez um Deus distante,Vendo passar em sonho cambianteO Ser, como espectaculo divino.

Mas o homem, na terra onde o destinoO lançou, vive e agita-se incessante:Enche o ar da terra o seu pulmão possante…Cá da terra blasphema ou ergue um hymno…

A idea encarna em peitos que palpitam:O seu pulsar são chamas que crepitam,Paixões ardentes como vivos soes!

Combatei pois na terra arida e bruta,Té que a revolva o remoinhar da lucta,Té que a fecunde o sangue dos heroes!

Justitia Mater

Nas florestas solemnes ha o cultoDa eterna, intima força primitiva:Na serra, o grito audaz da alma captiva,Do coração, em seu combate inulto:

No espaço constellado passa o vultoDo innominado Alguem, que os soes aviva:No mar ouve-se a voz grave e afflictivaD'um deus que lucta, poderoso e inculto.

Mas nas negras cidades, onde sôltaSe ergue, de sangue medida, a revolta,Como incendio que um vento bravo atiça,

Ha mais alta missão, mais alta gloria:O combater, á grande luz da historia,Os combates eternos da Justiça!

Palavras d'um certo Morto

Ha mil annos, e mais, que aqui estou morto,Posto sobre um rochedo, á chuva e ao vento:Não ha como eu espectro macilento,Nem mais disforme que eu nenhum aborto…

Só o espirito vive: vela absortoN'um fixo, inexoravel pensamento:«Morto, enterrado em vida!» o meu tormentoÉ isto só… do resto não me importo…

Que vivi sei-o eu bem… mas foi um dia,Um dia só—no outro, a IdolatriaDeu-me um altar e um culto… ai! adoraram-me.

Como se eu fossealguem! como se a VidaPodesse seralguem!—logo em seguidaDisseram que era um Deus… e amortalharam-me!

Surge et ambula!

Tu, que dormes, espirito sereno,Posto á sombra dos cedros seculares,Como um levita á sombra dos altares,Longe da lucta e do fragor terreno,

Accorda! é tempo! O sol, já alto e pleno,Afugentou as larvas tumulares…Para surgir do seio d'esses mares,Um mundo novo espera só um aceno…

Escuta! é a grande voz das multidões!São teus irmãos, que se erguem! são canções…Mas de guerra… e são vozes de rebate!

Ergue-te pois, soldado do Futuro,E dos raios de luz sonho puro,Sonhador, faze espada de combate!

Hymno á Razão

Razão, irmã do Amor e da Justiça,Mais uma vez escuta a minha prece.É a voz d'um coração que te appetece,D'uma alma livre, só a ti submissa.

Por ti é que a poeira movediçaDe astros e soes e mundos permanece;E é por ti que a virtude prevalece,E a flor do heroismo medra e viça.

Por ti, na arena tragica, as naçõesBuscam a liberdade, entre clarões:E os que olham o futuro e scismam, mudos,

Por ti, podem soffrer e não se abatem,Mãe de filhos robustos, que combatemTendo o teu nome escrito em seus escudos!

1874—1880

Nenhum de vós ao certo me conhece,Astros do espaço, ramos do arvoredo,Nenhum adivinhou o meu segredo,Nenhum interpretou a minha prece…

Ninguem sabe quem sou… e mais, pareceQue ha dez mil annos já, neste degredo,Me vê passar o mar, vê-me o rochedoE me contempla a aurora que alvorece…

Sou um parto da Terra monstruoso;Do humus primitivo e tenebrosoGeração casual, sem pae nem mãe…

Mixto infeliz de trevas e de brilho,Sou talvez Satanaz;—talvez um filhoBastardo de Jehovah;—talvez ninguem!

Disputa em familia

Dixit insipiens in corde suo: non est Deus.

Sae das nuvens, levanta a fronte e escutaO que dizem teus filhos rebellados,Velho Jehovah de longa barba hirsuta,Solitario em teus Céos acastellados:

«—Cessou o imperio emfim da força bruta!Não soffreremos mais, emancipados,O tyranno, de mão tenaz e astuta,Que mil annos nos trouxe arrebanhados!

Emquanto tu dormias impassivel,Topámos no caminho a liberdadeQue nos sorrio com gesto indefinivel…

Já provámos os fructos da verdade…Ó Deus grande, ó Deus forte, ó Deus terrivel.Não passas d'uma van banalidade!—»

Mas o velho tyranno solitario,De coração austero e endurecido,Que um dia, de enjoado ou distrahido,Deixou matar seu filho no Calvario,

Sorrio com rir extranho, ouvindo o varioTumultuoso côro e alaridoDo povo insipiente, que, atrevido,Erguia a voz em grita ao seu sacrario:

«—Vanitas vanitatum! (disse). É certoQue o homem vão medita mil mudanças,Sem achar mais do que erro e desacerto.

Muito antes de nascerem vossos paesD'um barro vil, ridiculas crianças,Sabia em tudo isso… e muito mais!—»

Mors liberatrix

(A Bulhão Pato)

Na tua mão, sombrio cavalleiro,Cavalleiro vestido de armas pretas,Brilha uma espada feita de cometas,Que rasga a escuridão como um luzeiro.

Caminhas no teu curso aventureiro,Todo involto na noite que projectas…Só o gladio de luz com fulvas betasEmerge do sinistro nevoeiro.

—«Se esta espada que empunho é coruscante,(Responde o negro cavalleiro-andante)É porque esta é a espada da Verdade.

Firo, mas salvo… Prostro e desbarato,Mas consólo… Subverto, mas resgato…E, sendo a Morte, sou a Liberdade.»

O Inconsciente

O Espectro familiar que anda commigo,Sem que podesse ainda ver-lhe o rosto,Que umas vezes encaro com desgostoE outras muitas ancioso espreito e sigo.

É um espectro mudo, grave, antigo,Que parece a conversas mal disposto…Ante esse vulto, ascetico e compostoMil vezes abro a bocca… e nada digo.

Só uma vez ousei interrogal-o:Quem és (lhe perguntei com grande abalo)Phantasma a quem odeio e a quem amo?

Teus irmãos (respondeu) os vãos humanos,Chamam-me Deus, ha mais de dez mil annos…Mas eu por mim não sei como me chamo…

(A Luiz de Magalhães)

Esse negro corcel, cujas passadasEscuto em sonhos, quando a sombra desce,E, passando a galope, me appareceDa noite nas phantasticas estradas.

D'onde vem elle? Que regiões sagradasE terriveis cruzou, que assim pareceTenebroso e sublime, e lhe estremeceNão sei que horror nas crinas agitadas?

Um cavalleiro de expressão potente,Formidavel, mas placido, no porte,Vestido de armadura reluzente,

Cavalga a fera extranha sem temor.E o corcel negro diz: «Eu sou a Morte!»Responde o cavalleiro: «Eu sou o Amor!»

(A Manoel Duarte de Almeida)

Tu que não crês, nem amas, nem esperas,Espirito de eterna negação,Teu halito gelou-me o coraçãoE destroçou-me da alma as primaveras…

Atravessando regiões austeras,Cheias de noite e cava escuridão,Como n'um sonho mau, só oiço um não,Que eternamente ecchoa entre as espheras…

—Porque suspiras, porque te lamentas,Cobarde coração? Debalde intentasOppor á Sorte a queixa do egoismo…

Deixa aos timidos, deixa aos sonhadoresA esperança van, seus vãos fulgores…Sabe tu encarar sereno o abysmo!

Estava a Morte alli, em pé, diante,Sim, diante de mim, como serpenteQue dormisse na estrada e de repenteSe erguesse sob os pés do caminhante.

Era de ver a funebre bacchante!Que torvo olhar! que gesto de demente!E eu disse-lhe: «Que buscas, impudente,Loba faminta, pelo mundo errante?»

—Não temas, respondeu (e uma ironiaSinistramente estranha, atroz e calma,Lhe torceu cruelmente a bocca fria).

Eu não busco o teu corpo… Era um tropheuGlorioso de mais… Busco a tua alma—Respondi-lhe: «A minha alma já morreu!»

Divina comedia

(Ao Dr. José Falcão)

Erguendo os braços para o céo distanteE apostrophando os deuses invisiveis,Os homens clamam:—«Deuses impassiveis,A quem serve o destino triumphante,

Porque é que nos criastes?! IncessanteCorre o tempo e só gera, inestinguiveis,Dor, peccado, illusão, luctas horriveis,N'um turbilhão cruel e delirante…

Pois não era melhor na paz clementeDo nada e do que ainda não existe,Ter ficado a dormir eternamente?

Porque é que para a dor nos evocastes?»Mas os deuses, com voz inda mais triste,Dizem:—«Homens! porque é que nos criastes?»

Espiritualismo

Como um vento de morte e de ruina,A Duvida soprou sobre o Universo.Fez-se noite de subito, immersoO mundo em densa e algida neblina.

Nem astro já reluz, nem ave trina,Nem flor sorri no seu aereo berço.Um veneno sutil, vago, disperso,Empeçonhou a criação divina.

E, no meio da noite monstruosa,Do silencio glacial, que paira e estendeO seu sudario, d'onde a morte pende,

Só uma flor humilde, mysteriosa,Como um vago protesto da existencia,Desabroxa no fundo da Consciencia.

Dorme entre os gelos, flor immaculada!Lucta, pedindo um ultimo clarãoAos soes que ruem pela immensidão,Arrastando uma aureola apagada…

Em vão! Do abysmo a bocca escancaradaChama por ti na gélida amplidão…Sobe do poço eterno, em turbilhão,A treva primitiva conglobada…

Tu morrerás tambem. Um ai supremo,Na noite universal que envolve o mundo,Ha-de ecchoar, e teu perfume extremo

No vacuo eterno se esvahirá disperso,Como o alento final d'um moribundo,Como o ultimo suspiro do Universo.

(A Gonçalves Crespo)

Entre os filhos d'um seculo malditoTomei tambem o logar na impia meza,Onde, sob o folgar, geme a tristezaD'uma ancia impotente de infinito.

Como os outros, cuspi no altar avitoUm rir feito de fel e de impureza…Mas, um dia, abalou-se-me a firmeza,Deu-me rebate o coração contrito!

Erma, cheia de tedio e de quebranto,Rompendo os diques ao represo pranto,Virou-se para Deus minha alma triste!

Amortalhei na fé o pensamento,E achei a paz na inercia e esquecimento…Só me falta saber se Deus existe!

Espectros que velaes, emquanto a custoAdormeço um momento, e que inclinadosSobre os meus somnos curtos e cançadosMe encheis as noites de agonia e susto!…

De que me vale a mim ser puro e justo,E entre combates sempre renovadosDisputar dia a dia á mão dos FadosUma parcella do saber augusto,

Se a minh'alma ha-de ver, sobre si fitos,Sempre esses olhos tragicos, malditos!Se até dormindo, com angustia immensa,

Bem os sinto verter sobre o meu leito,Uma a uma verter sobre o meu peitoAs lagrimas geladas da descrença!

Á Virgem Santissima

Cheia de Graça, Mãe de Misericordia

N'um sonho todo feito de incerteza,De nocturna e indizivel anciedade,É que eu vi teu olhar de piedadeE (mais que piedade) de tristeza…

Não era o vulgar brilho da belleza,Nem o ardor banal da mocidade…Era outra luz, era outra suavidade,Que até nem sei se as ha na natureza…

Um mystico soffrer… uma venturaFeita só do perdão, só da ternuraE da paz da nossa hora derradeira…

Ó visão, visão triste e piedosa!Fita-me assim calada, assim chorosa…E deixa-me sonhar a vida inteira!

(A Fernando Leal)

Noite, vão para ti meus pensamentos,Quando olho e vejo, á luz cruel do dia,Tanto esteril luctar, tanta agonia,E inuteis tantos asperos tormentos…

Tu, ao menos, abafas os lamentos,Que se exhalam da tragica enxovia…O eterno Mal, que ruge e desvaria,Em ti descança e esquece, alguns momentos…

Oh! antes tu tambem adormecessesPor uma vez, e eterna, inalteravel,Cahindo sobre o mundo, te esquecesses,

E elle, o mundo, sem mais luctar nem ver,Dormisse no teu seio inviolavel,Noite sem termo, noite do Não-ser!

Pelo caminho estreito, aonde a custoSe encontra uma só flor, ou ave, ou fonte,Mas só bruta aridez de aspero monteE os soes e a febre do areal adusto,

Pelo caminho estreito entrei sem sustoE sem susto encarei, vendo-os defronte,Phantasmas que surgiam do horizonteA accommetter meu coração robusto…

Quem sois vós, peregrinos singulares?Dor, Tedio, Desenganos e Pesares…Atraz d'elles a Morte espreita ainda…

Conheço-vos. Meus guias derradeirosSereis vós. Silenciosos companheiros,Bemvindos, pois, e tu, Morte, bemvinda!

Quia aeternus

(A Joaquim de Araujo)

Não morreste, por mais que o brade á genteUma orgulhosa e van philosophia…Não se sacode assim tão facilmenteO jugo da divina tyrannia!

Clamam em vão, e esse triumpho ingenteCom que a Razão—coitada!—se inebria,É nova forma, apenas, mais pungente,Da tua eterna, tragica ironia.

Não, não morreste, espectro! o PensamentoComo d'antes te encara, e és o tormentoDe quantos sobre os livros desfallecem.

E os que folgam na orgia impia e devassaAi! quantas vezes ao erguer a taça,Param, e estremecendo, empallidecem!

No turbilhão

(A Jayme Batalha Reis)

No meu sonho desfilam as visões,Espectros dos meus proprios pensamentos,Como um bando levado pelos ventos,Arrebatado em vastos turbilhões…

N'uma espiral, de estranhas contorsões,E d'onde sáem gritos e lamentos,Vejo-os passar, em grupos nevoentos,Distingo-lhes, a espaços, as feições…

—Phantasmas de mim mesmo e da minha alma,Que me fitaes com formidavel calma,Levados na onda turva do escarceo,

Quem sois vós, meus irmãos e meus algozes?Quem sois, visões miserrimas e atrozes?Ai de mim! ai de mim! e quem sou eu?!…


Back to IndexNext