I

IO raptoEra a epoca mais feliz e florescente da aristocratica Republica de Veneza. As esquadras disputavam vantajosamente aos turcos a supremacia no Mediterraneo, e nas costas gregas, Rhodes e Chypre unidas ao feliz povo da poderosa Senhoria, diziam eloquentemente ao ottomano que não era nada facil arrancar a presa ao leão de S. Marcos, quando este a colhera nos seus afilados dentes.Vivia-se por então no tempo em que a espada não podia enferrujar dentro da bainha, pois nos breves intervallos durante os quaes os exercitos não luctavam de povoado em povoado, de nação em nação, os individuos, sem distincções de cathegorias nem de classes, inventavam mil pretextos para guerrearem entre si, receosos talvez de olvidarem no repouso o manejo das armas.Por causa d'isto e tambem com receio dos innumeraveis«briganti» e roubadores de bolsas que, durante a noute, vagueavam pela poetica cidade dos canaes, nem todos se atreviam a transitar por ella fóra de horas, pois estavam certos de que nada bom encontrariam nas suas escuras e mysteriosas ruas.Eis porque causava certa extranheza ver a tranquilidade com que dois cavalleiros, jovens e de elegante porte, se bem que tal elegancia fosse mais notavel no que aparentava menos edade, conversavam passeando pela solitaria praça de S. Marcos á uma hora da madrugada d'uma noute de inverno.Devemos ponderar que a tranquilidade, a que acabamos de alludir, referia-se sómente ao facto dos cavalleiros não recearem dos perigos nocturnos que os ameaçavam em tal sitio e a horas tão mortas da noute; por outro lado, os dois homens pareciam dominados por viva agitação, a julgar pela vehemencia dos gestos e pela animação com que sustentavam o seguinte dialogo:—Digo-te, meu caro Yago, que semelhante coisa é impossivel, dizia o mais novo e de melhor apparencia dos dois interlocutores, tão impossivel como o Adriatico poder devolver a sua Senhoria o Doge o annel que este lhe deu no dia das suas nupcias.[1][1]Allude á cerimonia que celebravam os Doges no dia do seu advento, e no qual simulavam casar com o Adriatico arrojando para o mar uma preciosa joia, que era o annel de nupcias.—Pois eu asseguro-te, nobre Rodrigo, replicou o mais velho dos cavalleiros, que trajava á militar e ostentava a divisa de alferes, que vi com os meus poprios olhos tua prima Desdemona, ha pouco mais de uma hora, fugir de casa do pae, o senador Brabancio, e saltar para uma gondola, onde a esperava esse maldito africano, que Deus confunda.—Pois bem, os teus olhos trahiram-te, apresentando á tua fantasia como real o que não era mais do que um sonho. Ah! as garrafas de vinho de Chypre que bebeste esta noute, tiveram mais força do que a tua resistencia de bebedor habituado ás libações, e puzeram-te completamente borracho, respondeu de mau humor aquelle a quem o seu companheiro dava o nome de Rodrigo.—Dizem, e com razão, que de namorado a tonto não vae mais do que um passo! exclamou o alferes Yago em tom desdenhoso.—Porque dizes isso? porguntou com altivez Rodrigo. Tratas acaso, de insultar-me?—Deus me livre de tal coisa, respondeu Yago. Queres dizer-me o que ganharia com isso?—Seja pelo que fôr, o facto é que me chamaste tonto.—Não, disse que estavas enamorado, e desafio a que o negues.—Seria inutil, pois sabei-o tão bem como eu, confessou Rodrigo. Mas deixemo-nos de discussões inuteis e vamos ao que importa. Se o que me acabas de dizer não é uma infame mentira ou estupida fantasia de bebado; se a minha prima Desdemonaesqueceu a honra de sua familia, o respeito e as cans de seu pae, toda a sua juventude de pudor e recato que a tornavam a donzella mais pura de Veneza; se esqueceu tudo isto, repito, para lançar-se nos braços d'esse mouro de rude linguagem e de rosto enegrecido, como qualquer infame Messalina, preciso será crer de hoje para sempre que a mulher, desde que nasce, é materia affeiçoada para o vicio e o ser mais ignobil que existe sobre a terra.—Enganas-te, nobre Rodrigo, e a tua paixão e ciumes fazem-te ver as cousas, augmentadas até á exageração ridicula, replicou tranquilamente Yago. A mulher, na realidade, não é boa nem má, pura ou impura, mas simplesmente mulher e, como tal, joguete das circumstancias. A culpa do que succede não a tem ella, mas sim o velho tonto do pae que, depois de a ter encerrada como monja durante dezessete annos, deixou entrar em casa Othello com a mais ampla liberdade, consentiu que visitasse tua prima, conversasse com ella no mais absoluto isolamento, e, emfim, cruzou tranquilamente os braços, emtanto que o lobo rondava incessantemente em redor da ovelha.—Mas, replicou Rodrigo irritado, quem poderia suppôr que uma joven tão innocente e virginal como Desdemona, podesse chegar a enamorar-se de um homem negro e feio como esse maldito mouro?—Outro qualquer que não tivesse sido um velho imbecil como teu tio Brabancio, ou um namorado cego como tu, teria suspeitado que esse mouro,precisamente pelo que tem de extraordinario, poderia chegar a deslumbrar e a seduzir a donzella, como realmente succedeu. Ignoras por ventura, continuou Yago animando-se emquanto fallava, que ninguem conhece Othello melhor do que eu, e que é este exactamente o motivo do odio mortal que lhe tenho? Esse homem é feio, concordo; de rude linguagem e desabridas maneiras, mas nasceu como o leão para dominar e vencer, onde quer que se encontre; a alma d'elle é grande como o espaço e profunda como o abysmo; o coração é de gigante, e n'elle os sentimentos humanos, com tudo quanto ha de leal e de nobre, desenvolvem-se até assumirem proporções do sobre natural; junta a isto uma vida romantica, cheia de peripecias emocionantes e curiosissimas, sustentada á custa de uma lucta constante com os homens, com as feras e até com os elementos; emfim, um homem de sangue real, realeza moura, mas que vale tanto como outra qualquer, um homem de sangue real, repito, que perde seus paes, é vendido como escravo, foge atravez do deserto e, sem outras armas do que a coragem pessoal, a força d'um hercules, se assenhoreia das selvas virgens, das quaes desaloja os tigres e os leopardos: que depois se apresenta entre os homens e pratica com elles o mesmo que com os temiveis moradores dos bosques; que chega a Veneza quando a Republica está a ponto de tornar-se provincia de Constantinopla, e, com o seu valor lendario e o seu talento de general a salva, destroe os inimigos e devolve todo o brilhante esplendor á vacilanteMagestade. Pensa em tudo isto, repito, apresenta tal homem prodigioso a uma rapariga de desessete annos, enamorada, como todas, do maravilhoso poetico, do extraordinario, e á fé de cavalleiro te juro, que a fealdade e a rudeza materiaes d'um mouro desapparecerão ante os olhos da virgem innocente, para não lhe deixar ver mais do que o lado poetico da varonil e sobrehumana figura do heroe, ante a qual surgem empequenecidos até ao ridiculo, os peralvilhos loiros e affemininados que tenha visto pisar até então as alcatifas dos seus salões.—A julgar pela discripção que acabas de fazer de Othelo, não parece senão que estás tão enamorado d'elle como minha propria prima Desdemona, ponderou sarcasticamente Rodrigo.—Porquê? replicou Yago com maior sarcasmo. Porque o conheço e conservo o senso commum necessario para poder apreciar no seu justo valor as qualidades d'esse homem e dar conta exacta da influencia que taes qualidades podem exercer no coração d'uma joven? Que disparate suppôr que eu amo Othello! Pelo contrario, odeio-o com todas as forças da minha alma e de boa vontade inventaria qualquer novo tormento para vel-o morrer na mais horrorosa das agonias. Preferiu-me a esse florentino, Miguel Cassio, a quem nomeou seu tenente, deixando que eu, com o estupido pretexto de que ignoro a estrategia militar, continue sempre alferes, o que é peor ainda. Fallando francamente, não tenho base firme para fundar as minhas suspeitas, mas chegou-me a parecer que omaldito mouro e minha mulher, Emilia, dormiram mais de uma vez no mesmo leito que paguei para celebrar as bodas. Só esta suspeita faz com que sinta todos os martyrios do inferno nas entranhas e deseje vingar-me de Othello, de maneira que cause horror ao proprio Deus das vinganças. Por isso te procurei esta noute, accrescentou o alferes fixando em Rodrigo os olhos chammejantes. Estás apaixonado por tua prima Desdemona, e o homem que eu odeio roubou-ta; pois bem, se me promettes fazer tudo quanto te disser cegamente e sem discutir as minhas indicações, garanto-te que Othello pagará o seu crime e Desdemona acabará por arrojar-se nos teus braços sincera e profundamente arrependida do que fez.—Devéras? Não me enganas? esclamou Rodrigo louco de alegria.Juro-o! respondeu Yago com um gesto de convicção; se me obedeceres em tudo, antes de um mez Desdemona será tua.—Que tenho a fazer para tanto? perguntou Rodrigo disposto aos maiores sacrificios para conseguir o amôr da prima.—Primeiro, disse Yago, que nunca perdia a presença de espirito, ganhar o tempo que temos perdido discutindo aqui como dois tontos, ou como dois homens despreoccupados, que não teem nada a fazer, quando cada minuto que se perde é um seculo, difficil de recuperar.E no relogio de S. Marcos soaram n'esse momento duas horas.—Já duas horas! esclamou Yago, arrastandocomsigo o amigo, emquanto fallava. É bastante tarde e ainda precisamos de correr muito!—Onde me conduzes? perguntou Rodrigo desconfiado, mas seguindo docilmente o alferes.—Ao palacio de teu tio, para communicar ao pobre velho a sua deshonra e a fuga da filha, se é que elle ainda não deu por tal, como é provavel, pois deve dormir a estas horas, ajuntou Yago.—Mas vamos provocar um escandalo! replicou o primo de Desdemona, a quem, como cavalleiro que era repugnava semelhante especie de delação.—É isso precisamente o que nós necessitamos: um escandalo, disse Yago, sem deixar de arrastar o amigo. Um escandalo que fira o orgulho e a vaidade de um dos senhores mais poderosos de Veneza, e que obrigue o Doge a castigar o culpado com todo o rigor que exigem a gravidade da falta e as duras leis da Republica. Basta-me tanto para vêr satisfeito o meu odio, continuou o miseravel com feroz sorriso, depois Othello será destituido do seu posto de general e de todas as honras, como auctor de um delicto que attentou contra a dignidade de um dos membros do Senado, sem contar as penas corporaes que cahirão sobre elle e que serão verdadeiramente terriveis, pois conheço bem a justiça veneziana e sei que é inexoravel n'este ponto.E, ao proferir taes palavras, Yago ria com um riso sedento de sangue.Entretanto chegaram ao magnifico palacio dosenador Branbancio e, depois de baterem ruidosamente á grande porta de entrada, obrigaram a criada a despertar o amo, que deixou o leito e recebeu os nocturnos visitantes com a vontade que pode suppor-se.Mas esta má vontade não tardou em converter-se em estupefacção levada até á atonia, que por sua vez se transformou n'uma indignação que esteve a pontos de o enlouquecer, quando o sobrinho o informou da fuga da joven e virginal Desdemona, rapto que se negou obtinadamente a acreditar, a começo, mas que em breve poude ver comprovado, depois de pessoalmente percorrer todos os cantos do palacio com a mesma minuciosidade que empregaria se, em vez de procurar uma mulher, se tratasse de um objecto menos que imperceptivel.Era que o infeliz velho tinha ante os olhos a realidade e recusava admittil-a, ditoso ainda com a illusão de que tudo aquillo não era mais do que um pesadelo horrivel, do qual não tardaria a despertar.Assim, quando lhe foi impossivel duvidar e que teve de se render fatalmente á evidencia, a sua dôr não conheceu limites e, no cumulo da desesperação, amaldiçoou a filha e todas as mulheres chamando-lhes encarnação viva de Lusbel, da qual tinham até a infernal formosura; renegou o ceu e a terra e não deixou de lastimar-se e blasfemar até que, vencido pelo peso da propria afflicção, sómente lhe ficaram energias para lamentar com soluços convulsivos a immensa desgraça que acabava de cahir-lhe na encanecida cabeça.Passada a angustiosa crise, reanimou-se um pouco, e com as forças voltou-lhe o orgulho e a altivez de patricio venesiano; a partir d'este momento só pensou em vingar o ultrage recebido, para o que era preciso, antes de mais nada, apoderar-se do autor da sua deshonra, do infame que lhe roubara a filha.Por conseguinte e sabendo por Yago que Othello se encontrava áquellas horas nas margens do Adriatico, e não longe do porto, onde estava ancorada a galera destinada a transportal-o nas suas expedições guerreiras, reuniu a toda a pressa alguns soldados, e pondo-se animosamente á frente da pequena escolta, ordenou a seu sobrinho e a Yago que o guiassem até o sitio onde poderia encontrar o raptor de Desdemona.Rodrigo prestou-se de bom grado a acompanhal-o; mas o alferes, que tinha razões sufficientes para recear que o mouro o visse em companhia dos que iam perseguil-o, allegou tão plausiveis e logicos motivos, que o vingativo e furioso pae consentiu em que marchasse deante de elles, precedendo-os a boa distancia, para que quando a ameaçadora comitiva chegasse onde estava Othello, elle se encontrasse já ao lado do chefe, ao qual teria entretanto explicado satisfatoriamente a sua ausencia.Assim fizeram, com effeito, adeantando-se Yago a passo largo, pelo caminho mais curto e seguindo-o lentamente, Brabancio, Rodrigo e os homens de armas que os acompanhavam.Precisamente no momento em que Yago seapresentava ao general, recebia este uma embaixada do Doge, que, apesar do adiantado da hora, estava presidindo ao Conselho dos Dez convocado a toda a pressa para assumpto de vital interesse da Republica e que exigia a presença immediata do general ante o Conselho.—Está bem, respondeu gravemente Othello aos emissarios do Doge que acabavam de dar-lhe esta ordem. Já os sigo; para fallar verdade, preferia aguardar o dia de amanhã para tratar negocios graves; pois asseguro-lhes, senhores, que esta noute tenho mais coração do que cabeça. Mas o Estado está acima de tudo e obedeço o sua senhoria. Partamos.—Alto ahi, perro traidor, ladrão de honras, corruptor de donzellas! gritou uma voz colerica e cheia de ira, no momento em que o mouro e os commissionados do Doge se punham a caminho.—Pára ou mato-te como o miseravel que és! Que fizeste de minha filha? Vamos, responde, infame Restitue-me Desdemona!Ao encontrar-se cara a cara com Brabancio, que, como já terão advinhado os leitores, era quem o increpava tão asperamente, o mouro ficou preplexo por um instante e sem saber, realmente, que partido tomar, pois era a primeira vez na sua vida que ouvia um homem insultal-o de tal modo. Mas recuperando acto continuo o sangue frio, dominou a situação com um simples esforço da poderosa vontade e respondeu brandamente ao velho:—Senhor, reprimi a vossa colera, que não tem razão de ser, pois nem eu sou ladrão de honras, emenos ainda corruptor de donzellas. Vossa filha seguiu-me esta noute voluntariamente, como está disposta a confessál-o, e, apesar de ha tres horas ser minha mulher, permanece todavia tão pura como os anjos do céu. Juro-o pela minha espada!—Mentes como um cão! gritou fóra de si o velho. Minha filha não te seguiria de boa vontade e ainda menos se prestaria a ser esposa de um infame hereje como tu! Recorres a tão estupida desculpa para te livrares de cahir nas minhas mãos. Mas enganas-te, miseravel! continuou irritado Brabancio, avançando um passo mais para Othello, enganaste, se julgas ser-te facil escapar á justiça e á minha vingança. Vês estes homens que me acompanham? accrescentou voltando-se e apontando com o braço hirto para os companheiros; pois bastará um signal meu para te arrancarem com os seus punhaes a alma do corpo, se vacilas um só momento em me seguires.O africano contemplou fixamente, durante um segundo, o encolorizado pae de Desdemona, e no bronzeado rosto deixou transluzir uma expressão terna e compassiva; depois ergueu a poderosa cabeça com um gesto de leão e lançou um olhar de supremo desprezo aos homens que acompanhavam Brabancio.Em seguida respondeu com voz meiga e socegada:—São poucos, senhor, para obrigar Othello a que faça o que não quer, emquanto estas duas mãos possam manejar uma espada ou estrangular um homem, e ao pronunciar estas palavras, o mouroestendeu os atleticos braços n'um tal gesto, que todos, até o proprio velho, retrocederam um passo e soffreram uma especie de calafrio que lhes chegou até aos ossos; são poucos, repito; seriam necessarios mais homens e, sobre tudo, homens de tempera, differente d'esses que vos acompanham. Mas ha outras razões mais poderosas, continuou o formidavel africano com a mesma brandura até ali mantida, que vos impedirão agora de pôr mão sobre mim.—Quaes? rugiu o velho cego pela ira. Julgas por ventura que te vaes livrar com as tuas valentias?—Não, respondeu friamente Othello; livro-me pelo menos agora, porque assim é a vontade do Doge, que acaba de chamar-me para que compareça sem a menor demora ante o Conselho dos Dez, o qual, presidido por elle, se acha reunido n'este momento para tratar de assumpto de gravissimo interesse para o Estado, e a respeito do qual, segundo parece, necessitam conhecer a minha opinião. Agora bem; proseguiu dizendo o mouro deliberadamente, ousarieis oppôr-vos á vontade do Doge e do conselho, e tolher que se executassem as suas ordens, que, como sabeis, são sagradas na Republica, expondo-vos, talvez a pôr em perigo a segurança do Estado?—Ceus! Fallarás verdade? exclamou Brabancio desesperado ao ver que a presa estava prestes a escapar-lhe.—Estes cavalleiros podem responder-te, affirmou o mouro, indicando os commissionados do Doge,que permaneciam a poucos passos de distancia, testemunhas mudas da acalorada scena.—Assim é, nobre Brabancio, affirmou o que parecia ser o chefe do grupo. Quanto acaba de dizer o general é absolutamente verdade.O velho senador pareceu ficar um momento atordoado com o peso da noticia.Mas, de prompto, ergueu a cabeça, os olhos faiscaram-lhe com a viva satisfação da vingança satisfeita, e perguntou ao chefe dos commissionados:—Disseste que o Doge está n'este momento presidindo ao Conselho dos Dez?—Assim o disse e assim é, nobre Brabancio; respondeu o interpelado.—Pois bem, n'esse caso, continuou o pae de Desdemona, que melhor accasião do que esta para exorál-o a que faça justiça? Por muito grave que seja o assumpto que presentemente o occupa, não poderá sel-o tanto que o impeça de ouvir a queixa de um senador da Republica, sobre tudo de um senador da minha ascendencia, contra um bandido que o Estado abrigou incautamente, no seu seio. Ides á presença do Doge, não é assim? Pois bem, eu vou tambem e assim ganharei tempo, em vez de o perder, como suppuz. Já vês, concluiu o raivoso velho dirigindo-se a Othello, que não ha poder humano que te livre da minha vingança! Vamos ter com o Doge e pedir-lhe justiça!E todos formando um grupo compacto abandonaram as margens do Adriatico e perderam-se lentamente nos solitários e tenebrosos labyrintos da poetica cidade dos canaes.IIOthelloApezar da gravidadade das circumstancias, o Doge não poude conter uma exclamação de surpreza ao ver entrar Brabancio na sala onde se celebrava o conselho, acompanhando Othello, sem que para isso trouxesse ordem sua. Lançou pois, um olhar colerico ao velho senador e perguntou severamente:—Quem se atreve a desobedecer d'este modo á minha vontade e ás leis da Republica, que prohibem a entrada na sala do Conselho a todo aquelle que não tenha ordem expressa de comparecer ante mim?—Eu, Senhoria—respondeu em tom firme, e attitude respeitosa o pae de Desdemona.—Eu, que venho pedir-vos justiça para o irreparavel ultraje que lançaram nas minhas cans e no meu nome de patriota.—Tão urgente é o caso e tão imperioso e vehementeo teu desejo de ver reparado o agravo que recebeste, para olvidando toda e qualquer consideração, entrares n'este recinto sagrado para todos os cidadãos da Republica?—replicou o Doge com enfado.—A Vossa prudente e sabia rasão julgará por si mesma—disse Brabancio sem se deixar intimidar pela attitude severa do Doge, attitude que se reflectia nos dez membros do Conselho. E, acto continuo, indicando a Othello que permanecia de pé a seu lado.—Este homem, que a Republica acolheu em hora aziaga para todos, acabou de roubar-me a filha, deshonrando-a, deshonrando-me tambem e lançando uma mancha indelevel sobre toda a nobreza veneziana, sobre o nobre nome que me orgulho de usar. Justiça, Senhoria, contra tamanho criminoso! justiça, se não quereis que eu renegue a propria terra em que nasci!—Tranquillisa-te, bom Brabancio—respondeu o Doge com benevolencia—se é certa a accusação que acabas de fazer contra esse homem, contra esse habil e heróico general que mais de uma vez tem dado provas da generosidade do seu coração, salvando a Republica, eu te prometto, como cavalleiro veneziano e como magistrado supremo do Estado, que justiça te será feita! Bem disseste affirmando que o ultraje que recebeste recae sobre todos os teus compatriotas. Mas sabes, prudente velho, que os momentos actuaes são em extremo solemnes e as circumstancias gravissimas? Os turcos dirigem-se contra ilha de Chypre, com uma poderosa esquadra, e d'ella se apoderárão, facilmente senão realizarmos um verdadeiro milagre de vontade e de força. Agora bem—proseguiu o Doge, com convicção.—Sabes o que significa para Veneza a perda da ilha de Chypre? Significa ver-se reduzida a Rodas no Archipelago; é a ruina do seu commercio com a Grecia e com toda a parte oriental da Europa; é o principio da decadencia do seu poder no Mediterraneo, e quando Genova, Florença e o Pontificado saibam isto, cahirão sobre a orgulhosa soberana do Adriatico como um bando de abutres sobre uma aguia ferida e enferma, para repartir os seus restos e insultar a sua passada grandeza. Immensa e justa é a tua dor, pobre velho, mas ante as calamidades que ameaçam a Republica, tu, varão sabio e prudente, responde: que significa a desgraça de um individuo, de uma familia, de uma dôr pessoal por grande que seja, comparada com o soffrimento de um povo?—Perdoe-me a Vossa Senhoria e o sabio Conselho, respondeu humildemente o velho; ignorava as terriveis noticias que me acabaes de communicar e cega-me a dôr e a soberba. Soffra eu e os meus mil vezes, dado que se salve a Republica! Se a pessoa que a póde salvar é esse homem, terminou indicando Othello, desde este momento retiro a minha accusação e esperarei pacientemente, para lavar a mancha cahida sobre o meu nome, que venham melhores tempos! Veneza e a Republica acima de tudo!E, ao dizer estas palavras, o nobre velho pareceu verdadeiramente transfigurado pelo generoso enthusiasmo que lhe trasbordava do coração, enthusiasmoque se communicou instantaneamente a todos os circumstantes, exceptuando Othello, que permaneceu sereno e frio como estatua de bronze. Mas apenas acabou de fallar o pae de Desdemona, e antes que o Doge tivesse tempo de responder-lhe, agradecendo a nobreza da sua conducta, como pensava fazel-o, o mouro estendeu o braço direito, como dando a entender que queria pedir a palavra, e ao ver que os membros do Conselho inclinavam a cabeça, com um gesto de approvação, começou com voz grave e pausada:—O sabio e prudente Conselho, assim como a Senhoria que o preside, vão perdoar-me expôr a minha opinião a respeito de tudo quanto succede, sem que previamente me tenham auctorizado para tanto.—Era o que pensava agora fazer, pois não foste chamado para outra cousa, heroico Othello, disse o Doge com benevolencia; falla pois, com liberdade absoluta.—Primeiro que tudo, proseguiu o general, occupar-me-hei, como é de justiça, do mais importante; quer dizer do que diz respeito ao Estado; depois tratarei da accusação que este velho acaba de lançar contra mim. Nada receiem! Serei breve, muito breve, porque pouco, na realidade, tenho de dizer com respeito aos dois assumptos. Por outro lado não é este o momento opportuno para dispensarmos palavras, mas sim de praticarmos actos; além d'isto a minha linguagem é rude e desataviada de galas.«A Senhoria de Veneza e o sabio Conselho ignoramdecerto que a unica eloquencia de que posso orgulhar-me é a das acções.—Precisamente aquella de que hoje necessita a Republica, observou o Doge gravemente.—Pois tel-a-ha, respondeu Othello com convicção absoluta. O que tenho a dizer com relação aos turcos que buscam apoderar-se da ilha de Chypre, reduz-se a isto: Montano, a quem deixei como governador na ilha, com plenos poderes para que me substituisse durante curta ausencia, é um militar valente como ha poucos e experimentado como nenhum; adora Chypre como um filho adora a mãe, apesar de não ter nascido lá; dispõe de bons elementos de combate e, por muito vigoroso que seja o ataque dos turcos, saberá resistir durante alguns dias, os sufficientes para que, sahindo eu esta mesma noute ou, para melhor dizer, esta manhã, de Veneza, tenha tempo de surprehender os otomanos antes de que logrem pôr nas torres da ilha o estandarte da meia lua.—E crês, general, perguntou anciosamente o Doge, que dispões de bastantes recursos para dominar e vencer o grande contingente de homens de guerra e armamento naval com que, segundo noticias fidelissimas recebidas, os turcos se aprestam para a lucta?—Essas noticias exageram, ou mentem, replicou friamente Othello. O sultão está gravemente empenhado nas guerras com Castella e com Papa, e não pode dispor de grandes elementos de combate. Que Montano resista sómente oito dias, que me sejam favoraveis os ventos, e respondo pelaminha cabeça, que a Republica conservará em seu poder Chypre e dará uma nova e forte lição ao seu constante e teimoso inimigo, que o manterá na reserva durante muito tempo. Othello, que nunca mentiu, jura-o pela sua lealdade ao Estado.E o altivo africano contemplou com tão fria serenidade os individuos do Conselho, que estes sentiram que a confiança, uma confiança absoluta, voltava a renascer-lhes nos corações.—Assim pois, perguntou o Doge ao mouro, partirás hoje mesmo para Chypre?—Apenas o sol doire com os seus raios o extremo do mastro real do meu navio, a quilha d'este rasgará as ondas orgulhosas do Adriatico em direcção á ilha, respondeu Othello. Mas antes, Senhoria, ordena-me o coração e a lealdade responder ás accusações d'este velho e deixar terminado este assumpto. Peço-vos que não me negueis o favor de me ouvirdes e de fallar agora mesmo na causa que vou submetter ao vosso recto juizo, Senhoria; porque, apesar de tudo, poderia morrer na nova empreza que vou emprehender e por cousa nenhuma do mundo quereria que pezasse sobre o meu nome a affronta que Brabancio acaba de lançar sobre elle com as suas palavras, ante o Conselho...—Falla pois, Othello—disse o Doge, com deferencia;—mas, como ha pouco disseste, procura ser breve, o mais breve que te seja possivel, porque não ignoras que o tempo urge e os momentos perdidos são preciosos.—A brevidade convem a todos—disse o africano;—porém mais a mim do que a ninguem, porque d'ella depende o exito do meu plano de batalha e da sorte da minha existencia. Não receieis pois, Senhoria, e escutem, ouçam-me todos, com os corações de homens e toda a consciencia de magistrados, porque é a minha honra, a minha vida e a minha felicidade que jogo n'este momento.Calou-se o mouro e, durante alguns instantes, pareceu como abstrahido em meditação dolorosa; depois, erguendo a altiva e bronzeada fronte com o gesto leonino que lhe era peculiar, olhou cara a cara para o Doge e para os individuos do Conselho com olhos nos quaes se reflectia toda a lealdade do seu grande caracter, e começou em voz grave e pausada, que condizia perfeitamente com a soberba majestade da attitude:Barbancio accusou-me ante vós, Senhoria, de que esta noute lhe raptei a filha para deshonral-a e deshonral-o a elle e a toda a nobreza da Republica.—E assim é; atreve-te a negál-o! gritou fóra de si o velho senador, a quem a recordação do rapto da filha despertara toda a colera que, durante momentos, havia parecido abandonál-o.—Nego-o, porque não é verdade—respondeu friamente Othello—Desdemona deixou esta noute a casa de seu pae para seguir-me, para acompanhar seu esposo, porque meia hora depois de ter pisado o tapete da minha gondola, enlaçava-se com o meu o seu destino ante os altares.—É mentira, uma infame mentira!—rugiu ovelho—A minha filha não póde ser a esposa de um cão hereje como tu!—Tanto póde, que o é—affirmou categoricamente o mouro, sem perder nem por um momento o sangue frio.—Além d'isso, não casou com um hereje, pois creio no Deus dos christãos, porque é o Deus da mulher que adoro.—Então é porque a enlouqueceste, porque a embruxaste com feiticerias e artes magicas!—exclamou Brabancio no paroxismo da ira. D'outro modo, é admissivel que uma donzella tão pura, tão formosa e delicada como Desdemona, se enamorasse de um horrivel negro como tu?D'esta vez as palavras do colerico velho feriram por certo alguma fibra sensivel e devéras intima do coração de Othello, porque a côr bronzeada do mouro branqueou durante um segundo, e o general, erguendo mais ainda o alto e poderoso busto, murmurou com voz moderada, mas na qual, apesar de tudo, se sentia vibrar um furacão de sentimentos ignorados.—Sempre a mesma phrase! Um horrivel negro! Como se ha-de enamorar uma virgem, bella e pura como Desdemona, de um horrivel monstro como Othello! Ignoro, senhor—continuou o africano dirigindo-se d'esta vez ao senador,—se as mulheres veem mais longe e mais profundo do que os homens, mas para dita nossa e honra sua é preciso acreditar que sim, e que a vossa filha viu a minha alma. A minha alma, ouvem, senhores? que é a de um homem como vós, como a vossa, velho implacavel, como a de todos os homens brancosemfim, e que ainda talvez valha mais do que a de muitos d'esses, porque está firmemente temperada na desventura e na lucta pela existencia.! Uma lucta horrivel, espantosa capaz de aniquillar, o melhor coração de toda a nobreza veneziana á qual—continuou com gesto de leão,—egualo, se não supero em raça, porque se ella nasceu em berço doirado, o brilho de uma corôa real illuminou meu nascimento. Sim, orgulhoso nobre; sou, quando menos, teu egual, porque descendo de reis, e sou teu superior em valor moral, porque estou purificado pela desgraça. Vencidos meus paes por um inimigo, não tão poderoso, porem mais astuto e mais cobarde do que elles, fui vendido com meus escravos, como um egual de taes miseraveis. Sim, o leão foi comprado revolto e mettido entre uma jaula de cães; mas a escravatura não se fez para os leões e eu fugi da minha jaula matando os guardas e correndo para o deserto, que era o meu ambiente natural. Ali lutei com as féras para disputar-lhes o alimento, e digo-te sinceramente que ellas são mais leaes e mais nobres na luta do que a maioria dos homens com quem tenho deparado antes e depois de vencel-as. Mais tarde, farto da solidão, fui de povo em povo, de nação em nação, e desde o estreito de Gibraltar até ao dos Dardanelos, reguei o caminho com sangue de cobardes e lagrimas de corações agradecidos. Quando, por ultimo, o Destino me trouxe para entre os vossos, a Republica tremia como presa prestes a ser devorada pelo turco, pelo genovez, pelo florentino, pelo romano, por todos osseus inimigos, emfim. E eu firmei-a; derrotei aquelles que queriam a sua queda para a fazerem em pedaços, dei estabilidade á Republica vacilante, e a minha mão acostumada a apertar sem tremer a garganta dos tigres, cravou no ponto, mais alto da Europa a bandeira de Veneza.«Que sangue haverá, pois, na cidade de S. Marcos que possa envergonhar-se de se misturar com o meu?Calou-se o mouro por um momento, e por toda a salla pareceu vibrar a sua potente voz. Othello continuou, sempre dirigindo-se a Brabancio:—Tua filha sabia tudo isto, sim, sabia-o, porque eu proprio lh'o havia contado; conhece a minha historia, leu em meus olhos e bebeu nas minhas palavras a formidavel e sangrenta epopeia da minha vida; viu-me tal qual sou, e não como me veem os outros, como tu me vês, cego pela ira, e, em vez de achar em mim o monstro a que te referes, viu apenas o homem de coração, que sabe triumphar do Destino e dos homens, e começou por admirar-me, como um ser que valia mais do que todos os fatuos inuteis e vadios que a rodeavam; para concluir, amou-me com o mesmo amor profundo e infinito com que eu a amo. Este é todo o nosso crime, e por elle peço que nos julguem—terminou dizendo, dirigindo-se ao Doge e aos membros do Conselho.—Tudo quanto disseste nada é mais do que palavras e só palavras!—gritou Brabancio desesperado, pois temia que o prestigio que rodeava Othello inclinasse em seu favor os que tinham de o julgar.—«Osfactos fallarão mais alto do que tudo quanto possas dizer em teu abono! Minha filha! Confessa onde occultaste Desdemona! Minha filha que compareça ante vós, senhores, e ella desmentirá essa ridicula novella que acaba de contar-vos este homem, para disfarçar o indigno recurso de que se valeu para desvairar o cerebro e annular a vontade de uma virgem pura e innocente como a propria innocencia!—É justo—assentiu o Doge, dirigindo-se a Othello.—a tua causa está bem apresentada e melhor defendida por ti mesmo; mas para tratarmos d'ella equitativamente, é necessario ouvir as duas partes. Diz, pois, onde se encontra Desdemona, e nós a faremos comparecer sem perda de tempo para deixar ultimado este assumpto. Porque urge aclarál-o até ao fim; se és realmente, como julgamos, digno da confiança que em ti deposita a Republica, ao enviar-te hoje de novo a defendel-a contra os seus inimigos, ou se terá razão o senador em te accusar com a aspereza com que acaba de fazel-o; em tal caso, as leis do estado, que podem alcançar a minha propria senhoria, haviam de alcançar-te tambem, fatal e necessariamente. Responde, general, onde está Desdemona?—A dois passos d'aqui, e nada mais facil, para vós, de que mandal-a comparecer aqui e ouvirdes de seus labios as palavras que hão-de perder-me ou salvar-me, visto que daes mais valor ao testemunho de uma mulher do que ao juramento de um homem—respondeu Othello n'um tom de sentida amargura.—Como!—exclamou o Doge tão surprehendido como todos os circumstantes, e sem prestar attenção na maneira como o mouro pronunciára as ultimas palavras.—Dizes que está aqui Desdemona?—Sim—respondeu o general—disse.—Suponho—replicou gravemente o Doge,—que não ignoras que o sitio em que te encontras é o menos a proposito para gracejos?—Não gracejo nunca—respondeu com certo desdém Othello—Quando me dispuz a seguir os individuos que me enviaste, e depois de ter ouvido Brabancio insultar-me e ameaçar-me com pedir-vos justiça contra mim este mesma noute, considerei, como era logico, que necessitaria apresentar a melhor e a unica testemunha de confiança que póde fallar em meu favor. Por conseguinte, pedi ao meu tenente Cassio que fosse onde estava Desdemona e lhe rogasse em meu nome que o acompanhasse aqui, dizendo-lhe do que se tratava. Ora bem; como estou convencido de que Cassio terá cumprido as minhas ordens, pois é fiel e amigo até á morte, e jámais desobedeceu a quem serve, respondo como já disse, que bastará que que mandeis chamar Desdemona para que esta compareça ante o Conselho.Com effeito, apenas o Doge deu a um porteiro ordem de que mandasse entrar na sala a filha do senador Brabancio, esta apareceu vestida de branco, com o traje de noiva que talvez não tivesse tido tempo ainda de tirar. Surgiu bellissima na sua pallidez, e serena e firme como estatua de Diana.Brabancio e todos os circumstantes, exceptuando Othello, soltaram uma exclamação de surpreza e assombro, ao vel-a apparecer como visão celestial, e o Doge disse-lhe com voz affectuosa:—Approxima-te, preciosa Desdemona, e nada receis, porque a lei e o cavalheirismo te protegem!A joven aproximou-se com passo certo e firme da mesa do Conselho, sem parecer fixar a attenção em Othello nem no proprio pae, e parando a respeitosa distancia dos juizes, perguntou:—Que deseja sua Senhoria de mim?—Que respondas, sob juramento, ás perguntas que vou fazer-te, sem que o medo ou o pezo, nem nenhuma outra consideração humana, te façam occultar a verdade. Comprehendeste?—Perfeitamente—respondeu com sangue frio Desdemona—Devo advertir-vos, Senhoria, de que não tenho de que recear, e menos de que me envergonhar, e que os meus labios jámais se mancharam com a mentira.—Acredito e applaudo-te com toda a minha alma—disse o Doge com benevolencia—Agora, responde: conheces esse homem que está a tua direita?—e apontou, indicando Othello.—Sim, Senhoria, conhece-o e amo-o, porque é meu esposo ante Deus e ante os homens, ha tres horas; juro-o por Christo crucificado, assim como juro que esta noute, por minha propria vontade e sem que ninguem me compellisse nem sequer aconselhasse, abandonei a casa de meu pae para o seguir.—Mentira! gritou o velho senador desvairadopela colera—Essa mulher está louca, completamente louca! Se assim não fosse, nunca se atreveria a dizer, deante de mim, seu pae, semelhantes vergonhas.—Não são vergonhas, pae e senhor meu—replicou respeitosa mas firmemente a joven;—mas simples verdades: deixei a casa paterna para seguir meu marido, como, ha muitos annos, tu abandonaste aquella que era tua para seguir tua mulher.—Maldita, maldita sejas, filha desalmada e sem coração! Aborreço-te e amaldiçoo-te, e nunca mais tornarás a vêr teu pae! Juro-o pelos santos Evangelhos e pela fidalguia da minha raça. Adeus para sempre, e que a minha maldição te persiga por toda a parte!E completamente transtornado pela desesperação e pela ira que o suffocava, o implacavel velho abandonou, tremendo e cambaleando, a sala do conselho.—Não chores, preciosa Desdemona, disse o Doge affectuosamente á joven, ao vel-a enxugar as lagrimas que lhe inundavam as faces nacaradas.—A colera de teu pae, ainda que injusta até certo ponto, é no entanto explicavel.«Mas espero que tão depressa recobre a tranquilidade e o sangue frio, reflectirá e conquistarás de novo todo o seu carinho. No entanto, continuou dirigindo-se a Othello, devolvo-te a estima e a confiança que sempre tive no teu valor e na tua bem provada lealdade. Damos, pois, por terminado este enfadonho assumpto, e dispoe-te a emprehender viagem sem perda de tempo.—Viagem! exclamou Desdemona estupefacta. Como, Senhoria! Ides affastar assim de mim, tão de repente, o meu esposo, deixando-me na solidão e no abandono mais desconsoladores?—Assim é necessario, linda Desdemona! respondeu o Doge n'um tom compassivo. Crê que o lamento com toda a minha alma, mas exige-o a salvação e a honra da Republica.—E onde o mandaes? perguntou a triste desposada com a maior amargura.—A Chypre, que está ameaçada pelos turcos, e onde faz falta a presença do general mais habil e valente que tem o estado, disse o Doge.—Pois bem, respondeu a joven n'um tom de resolução inquebrantavel—irei tambem com elle a Chypre. Não diz o Apostolo que a mulher deve seguir o marido? Pois eu opponho-me com toda a minha alma a separar-me d'aquelle que a Providencia collocou no meu caminho.—Mas, e os perigos a que te vaes expor, indo na sua companhia? observou o Doge.—Não me importam. Seguil-o-hia, embora soubesse que caminhava para a morte, respondeu a corajosa joven.O Doge consultou Othello com o olhar, e este sentindo-se tacitamente apoiado pela poderosa Senhoria, atreveu-se a dizer:—Realmente, não vejo inconveniente em que minha esposa me siga, visto não receiar os perigos que vamos correr juntos. Por outro lado, a mulher de um guerreiro deve ser animosa, e além d'isto a sua presença, longe de diminuir ou quebrantaro meu valor ou os meus talentos militares, multipolical-os-ha até o infinito. Por consequencia, se sua Senhoria e o sabio e prudente Conselho não se oppõem a tal resolução, levarei minha esposa comigo á ilha de Chypre, para onde partirei d'aqui a uma hora. Mas, proseguiu, olhando para Desdemona, para poupar os riscos da viagem, peço ao Conselho que me auctorize a levar comigo todos os officiaes que me são dedicados e que estão acostumados a combater sob as minhas ordens. De este modo, se morrer em qualquer recontro com os turcos durante a expedição, sei que o meu tenente Cassio e o meu alferes Iago, que são meus irmãos de armas, velarão por minha mulher, como faria sua propria mãe.Assim ficou combinado e, passada uma hora, Othello e Desdemona, com os officiaes favoritos do general, embarcaram em direcção á ilha de Chypre.O que todos ignoravam a bordo, exceptuando o alferes Iago, que nem o confessou á propria mulher, Emilia, aia de Desdemona, era que, no mesmo navio que albergava os dois felizes esposos, ia tambem o nobre Rodrigo, sobrinho de Brabancio e primo de Desdemona, da qual estava loucamente apaixonado, e a cuja posse não renunciava, apezar de Iago lhe haver dado a noticia de que n'aquella madrugada se realisára o matrimonio da joven.Mas o alferes de Othello, dotado do maior cynismo, constando que o seu nobre amigo se desesperava, renunciando para sempre ao objecto dasua paixão ao comtemplal-o nos braços de outro, riu-se d'elle e quasi o obrigou a que o acompanhasse a Chypre, disfarçado de marinheiro, promettendo-lhe que, se, como havia dito antes, não lhe desobedecesse em coisa alguma, e muito menos lhe negasse o ouro que corrompe todas as consciencias, arranjaria tudo de fórma a n'um prazo curto, que nunca excederia um mez, a candida e innocente prima cahiria, louca de amor, nos braços do apaixonado primo.Mas, o que pretendia o mizeravel com tudo isto, era, sómente, enriquecer á custa das joias e do dinheiro de que havia obrigado a prover o ingenuo Rodrigo, e ter este como uma corda mais no arco, para quando chegasse o momento de disparar a envenenada flecha destinada a despedaçar o coração do homem generoso que o acolhera sob a sua protecção e lhe déra a sua amizade e o seu carinho, bem longe de suppôr que abrigava no seio a vibora, que depois havia de causar-lhe a morte com a mordedura venenosa.Mas não nos adeantemos aos acontecimentos, e sigamos passo a passo o curso da terrivel tragedia que chegou a immortalizar a perfidia de um invejoso e os ciumes de um amante, cujo unico crime consistiu em ser propenso ás paixões, e dispôr de tempera superior áquella em que está forjada a vulgaridade dos homens.

Era a epoca mais feliz e florescente da aristocratica Republica de Veneza. As esquadras disputavam vantajosamente aos turcos a supremacia no Mediterraneo, e nas costas gregas, Rhodes e Chypre unidas ao feliz povo da poderosa Senhoria, diziam eloquentemente ao ottomano que não era nada facil arrancar a presa ao leão de S. Marcos, quando este a colhera nos seus afilados dentes.

Vivia-se por então no tempo em que a espada não podia enferrujar dentro da bainha, pois nos breves intervallos durante os quaes os exercitos não luctavam de povoado em povoado, de nação em nação, os individuos, sem distincções de cathegorias nem de classes, inventavam mil pretextos para guerrearem entre si, receosos talvez de olvidarem no repouso o manejo das armas.

Por causa d'isto e tambem com receio dos innumeraveis«briganti» e roubadores de bolsas que, durante a noute, vagueavam pela poetica cidade dos canaes, nem todos se atreviam a transitar por ella fóra de horas, pois estavam certos de que nada bom encontrariam nas suas escuras e mysteriosas ruas.

Eis porque causava certa extranheza ver a tranquilidade com que dois cavalleiros, jovens e de elegante porte, se bem que tal elegancia fosse mais notavel no que aparentava menos edade, conversavam passeando pela solitaria praça de S. Marcos á uma hora da madrugada d'uma noute de inverno.

Devemos ponderar que a tranquilidade, a que acabamos de alludir, referia-se sómente ao facto dos cavalleiros não recearem dos perigos nocturnos que os ameaçavam em tal sitio e a horas tão mortas da noute; por outro lado, os dois homens pareciam dominados por viva agitação, a julgar pela vehemencia dos gestos e pela animação com que sustentavam o seguinte dialogo:

—Digo-te, meu caro Yago, que semelhante coisa é impossivel, dizia o mais novo e de melhor apparencia dos dois interlocutores, tão impossivel como o Adriatico poder devolver a sua Senhoria o Doge o annel que este lhe deu no dia das suas nupcias.[1]

[1]Allude á cerimonia que celebravam os Doges no dia do seu advento, e no qual simulavam casar com o Adriatico arrojando para o mar uma preciosa joia, que era o annel de nupcias.

[1]Allude á cerimonia que celebravam os Doges no dia do seu advento, e no qual simulavam casar com o Adriatico arrojando para o mar uma preciosa joia, que era o annel de nupcias.

—Pois eu asseguro-te, nobre Rodrigo, replicou o mais velho dos cavalleiros, que trajava á militar e ostentava a divisa de alferes, que vi com os meus poprios olhos tua prima Desdemona, ha pouco mais de uma hora, fugir de casa do pae, o senador Brabancio, e saltar para uma gondola, onde a esperava esse maldito africano, que Deus confunda.

—Pois bem, os teus olhos trahiram-te, apresentando á tua fantasia como real o que não era mais do que um sonho. Ah! as garrafas de vinho de Chypre que bebeste esta noute, tiveram mais força do que a tua resistencia de bebedor habituado ás libações, e puzeram-te completamente borracho, respondeu de mau humor aquelle a quem o seu companheiro dava o nome de Rodrigo.

—Dizem, e com razão, que de namorado a tonto não vae mais do que um passo! exclamou o alferes Yago em tom desdenhoso.

—Porque dizes isso? porguntou com altivez Rodrigo. Tratas acaso, de insultar-me?

—Deus me livre de tal coisa, respondeu Yago. Queres dizer-me o que ganharia com isso?

—Seja pelo que fôr, o facto é que me chamaste tonto.

—Não, disse que estavas enamorado, e desafio a que o negues.

—Seria inutil, pois sabei-o tão bem como eu, confessou Rodrigo. Mas deixemo-nos de discussões inuteis e vamos ao que importa. Se o que me acabas de dizer não é uma infame mentira ou estupida fantasia de bebado; se a minha prima Desdemonaesqueceu a honra de sua familia, o respeito e as cans de seu pae, toda a sua juventude de pudor e recato que a tornavam a donzella mais pura de Veneza; se esqueceu tudo isto, repito, para lançar-se nos braços d'esse mouro de rude linguagem e de rosto enegrecido, como qualquer infame Messalina, preciso será crer de hoje para sempre que a mulher, desde que nasce, é materia affeiçoada para o vicio e o ser mais ignobil que existe sobre a terra.

—Enganas-te, nobre Rodrigo, e a tua paixão e ciumes fazem-te ver as cousas, augmentadas até á exageração ridicula, replicou tranquilamente Yago. A mulher, na realidade, não é boa nem má, pura ou impura, mas simplesmente mulher e, como tal, joguete das circumstancias. A culpa do que succede não a tem ella, mas sim o velho tonto do pae que, depois de a ter encerrada como monja durante dezessete annos, deixou entrar em casa Othello com a mais ampla liberdade, consentiu que visitasse tua prima, conversasse com ella no mais absoluto isolamento, e, emfim, cruzou tranquilamente os braços, emtanto que o lobo rondava incessantemente em redor da ovelha.

—Mas, replicou Rodrigo irritado, quem poderia suppôr que uma joven tão innocente e virginal como Desdemona, podesse chegar a enamorar-se de um homem negro e feio como esse maldito mouro?

—Outro qualquer que não tivesse sido um velho imbecil como teu tio Brabancio, ou um namorado cego como tu, teria suspeitado que esse mouro,precisamente pelo que tem de extraordinario, poderia chegar a deslumbrar e a seduzir a donzella, como realmente succedeu. Ignoras por ventura, continuou Yago animando-se emquanto fallava, que ninguem conhece Othello melhor do que eu, e que é este exactamente o motivo do odio mortal que lhe tenho? Esse homem é feio, concordo; de rude linguagem e desabridas maneiras, mas nasceu como o leão para dominar e vencer, onde quer que se encontre; a alma d'elle é grande como o espaço e profunda como o abysmo; o coração é de gigante, e n'elle os sentimentos humanos, com tudo quanto ha de leal e de nobre, desenvolvem-se até assumirem proporções do sobre natural; junta a isto uma vida romantica, cheia de peripecias emocionantes e curiosissimas, sustentada á custa de uma lucta constante com os homens, com as feras e até com os elementos; emfim, um homem de sangue real, realeza moura, mas que vale tanto como outra qualquer, um homem de sangue real, repito, que perde seus paes, é vendido como escravo, foge atravez do deserto e, sem outras armas do que a coragem pessoal, a força d'um hercules, se assenhoreia das selvas virgens, das quaes desaloja os tigres e os leopardos: que depois se apresenta entre os homens e pratica com elles o mesmo que com os temiveis moradores dos bosques; que chega a Veneza quando a Republica está a ponto de tornar-se provincia de Constantinopla, e, com o seu valor lendario e o seu talento de general a salva, destroe os inimigos e devolve todo o brilhante esplendor á vacilanteMagestade. Pensa em tudo isto, repito, apresenta tal homem prodigioso a uma rapariga de desessete annos, enamorada, como todas, do maravilhoso poetico, do extraordinario, e á fé de cavalleiro te juro, que a fealdade e a rudeza materiaes d'um mouro desapparecerão ante os olhos da virgem innocente, para não lhe deixar ver mais do que o lado poetico da varonil e sobrehumana figura do heroe, ante a qual surgem empequenecidos até ao ridiculo, os peralvilhos loiros e affemininados que tenha visto pisar até então as alcatifas dos seus salões.

—A julgar pela discripção que acabas de fazer de Othelo, não parece senão que estás tão enamorado d'elle como minha propria prima Desdemona, ponderou sarcasticamente Rodrigo.

—Porquê? replicou Yago com maior sarcasmo. Porque o conheço e conservo o senso commum necessario para poder apreciar no seu justo valor as qualidades d'esse homem e dar conta exacta da influencia que taes qualidades podem exercer no coração d'uma joven? Que disparate suppôr que eu amo Othello! Pelo contrario, odeio-o com todas as forças da minha alma e de boa vontade inventaria qualquer novo tormento para vel-o morrer na mais horrorosa das agonias. Preferiu-me a esse florentino, Miguel Cassio, a quem nomeou seu tenente, deixando que eu, com o estupido pretexto de que ignoro a estrategia militar, continue sempre alferes, o que é peor ainda. Fallando francamente, não tenho base firme para fundar as minhas suspeitas, mas chegou-me a parecer que omaldito mouro e minha mulher, Emilia, dormiram mais de uma vez no mesmo leito que paguei para celebrar as bodas. Só esta suspeita faz com que sinta todos os martyrios do inferno nas entranhas e deseje vingar-me de Othello, de maneira que cause horror ao proprio Deus das vinganças. Por isso te procurei esta noute, accrescentou o alferes fixando em Rodrigo os olhos chammejantes. Estás apaixonado por tua prima Desdemona, e o homem que eu odeio roubou-ta; pois bem, se me promettes fazer tudo quanto te disser cegamente e sem discutir as minhas indicações, garanto-te que Othello pagará o seu crime e Desdemona acabará por arrojar-se nos teus braços sincera e profundamente arrependida do que fez.

—Devéras? Não me enganas? esclamou Rodrigo louco de alegria.

Juro-o! respondeu Yago com um gesto de convicção; se me obedeceres em tudo, antes de um mez Desdemona será tua.

—Que tenho a fazer para tanto? perguntou Rodrigo disposto aos maiores sacrificios para conseguir o amôr da prima.

—Primeiro, disse Yago, que nunca perdia a presença de espirito, ganhar o tempo que temos perdido discutindo aqui como dois tontos, ou como dois homens despreoccupados, que não teem nada a fazer, quando cada minuto que se perde é um seculo, difficil de recuperar.

E no relogio de S. Marcos soaram n'esse momento duas horas.

—Já duas horas! esclamou Yago, arrastandocomsigo o amigo, emquanto fallava. É bastante tarde e ainda precisamos de correr muito!

—Onde me conduzes? perguntou Rodrigo desconfiado, mas seguindo docilmente o alferes.

—Ao palacio de teu tio, para communicar ao pobre velho a sua deshonra e a fuga da filha, se é que elle ainda não deu por tal, como é provavel, pois deve dormir a estas horas, ajuntou Yago.

—Mas vamos provocar um escandalo! replicou o primo de Desdemona, a quem, como cavalleiro que era repugnava semelhante especie de delação.

—É isso precisamente o que nós necessitamos: um escandalo, disse Yago, sem deixar de arrastar o amigo. Um escandalo que fira o orgulho e a vaidade de um dos senhores mais poderosos de Veneza, e que obrigue o Doge a castigar o culpado com todo o rigor que exigem a gravidade da falta e as duras leis da Republica. Basta-me tanto para vêr satisfeito o meu odio, continuou o miseravel com feroz sorriso, depois Othello será destituido do seu posto de general e de todas as honras, como auctor de um delicto que attentou contra a dignidade de um dos membros do Senado, sem contar as penas corporaes que cahirão sobre elle e que serão verdadeiramente terriveis, pois conheço bem a justiça veneziana e sei que é inexoravel n'este ponto.

E, ao proferir taes palavras, Yago ria com um riso sedento de sangue.

Entretanto chegaram ao magnifico palacio dosenador Branbancio e, depois de baterem ruidosamente á grande porta de entrada, obrigaram a criada a despertar o amo, que deixou o leito e recebeu os nocturnos visitantes com a vontade que pode suppor-se.

Mas esta má vontade não tardou em converter-se em estupefacção levada até á atonia, que por sua vez se transformou n'uma indignação que esteve a pontos de o enlouquecer, quando o sobrinho o informou da fuga da joven e virginal Desdemona, rapto que se negou obtinadamente a acreditar, a começo, mas que em breve poude ver comprovado, depois de pessoalmente percorrer todos os cantos do palacio com a mesma minuciosidade que empregaria se, em vez de procurar uma mulher, se tratasse de um objecto menos que imperceptivel.

Era que o infeliz velho tinha ante os olhos a realidade e recusava admittil-a, ditoso ainda com a illusão de que tudo aquillo não era mais do que um pesadelo horrivel, do qual não tardaria a despertar.

Assim, quando lhe foi impossivel duvidar e que teve de se render fatalmente á evidencia, a sua dôr não conheceu limites e, no cumulo da desesperação, amaldiçoou a filha e todas as mulheres chamando-lhes encarnação viva de Lusbel, da qual tinham até a infernal formosura; renegou o ceu e a terra e não deixou de lastimar-se e blasfemar até que, vencido pelo peso da propria afflicção, sómente lhe ficaram energias para lamentar com soluços convulsivos a immensa desgraça que acabava de cahir-lhe na encanecida cabeça.

Passada a angustiosa crise, reanimou-se um pouco, e com as forças voltou-lhe o orgulho e a altivez de patricio venesiano; a partir d'este momento só pensou em vingar o ultrage recebido, para o que era preciso, antes de mais nada, apoderar-se do autor da sua deshonra, do infame que lhe roubara a filha.

Por conseguinte e sabendo por Yago que Othello se encontrava áquellas horas nas margens do Adriatico, e não longe do porto, onde estava ancorada a galera destinada a transportal-o nas suas expedições guerreiras, reuniu a toda a pressa alguns soldados, e pondo-se animosamente á frente da pequena escolta, ordenou a seu sobrinho e a Yago que o guiassem até o sitio onde poderia encontrar o raptor de Desdemona.

Rodrigo prestou-se de bom grado a acompanhal-o; mas o alferes, que tinha razões sufficientes para recear que o mouro o visse em companhia dos que iam perseguil-o, allegou tão plausiveis e logicos motivos, que o vingativo e furioso pae consentiu em que marchasse deante de elles, precedendo-os a boa distancia, para que quando a ameaçadora comitiva chegasse onde estava Othello, elle se encontrasse já ao lado do chefe, ao qual teria entretanto explicado satisfatoriamente a sua ausencia.

Assim fizeram, com effeito, adeantando-se Yago a passo largo, pelo caminho mais curto e seguindo-o lentamente, Brabancio, Rodrigo e os homens de armas que os acompanhavam.

Precisamente no momento em que Yago seapresentava ao general, recebia este uma embaixada do Doge, que, apesar do adiantado da hora, estava presidindo ao Conselho dos Dez convocado a toda a pressa para assumpto de vital interesse da Republica e que exigia a presença immediata do general ante o Conselho.

—Está bem, respondeu gravemente Othello aos emissarios do Doge que acabavam de dar-lhe esta ordem. Já os sigo; para fallar verdade, preferia aguardar o dia de amanhã para tratar negocios graves; pois asseguro-lhes, senhores, que esta noute tenho mais coração do que cabeça. Mas o Estado está acima de tudo e obedeço o sua senhoria. Partamos.

—Alto ahi, perro traidor, ladrão de honras, corruptor de donzellas! gritou uma voz colerica e cheia de ira, no momento em que o mouro e os commissionados do Doge se punham a caminho.—Pára ou mato-te como o miseravel que és! Que fizeste de minha filha? Vamos, responde, infame Restitue-me Desdemona!

Ao encontrar-se cara a cara com Brabancio, que, como já terão advinhado os leitores, era quem o increpava tão asperamente, o mouro ficou preplexo por um instante e sem saber, realmente, que partido tomar, pois era a primeira vez na sua vida que ouvia um homem insultal-o de tal modo. Mas recuperando acto continuo o sangue frio, dominou a situação com um simples esforço da poderosa vontade e respondeu brandamente ao velho:

—Senhor, reprimi a vossa colera, que não tem razão de ser, pois nem eu sou ladrão de honras, emenos ainda corruptor de donzellas. Vossa filha seguiu-me esta noute voluntariamente, como está disposta a confessál-o, e, apesar de ha tres horas ser minha mulher, permanece todavia tão pura como os anjos do céu. Juro-o pela minha espada!

—Mentes como um cão! gritou fóra de si o velho. Minha filha não te seguiria de boa vontade e ainda menos se prestaria a ser esposa de um infame hereje como tu! Recorres a tão estupida desculpa para te livrares de cahir nas minhas mãos. Mas enganas-te, miseravel! continuou irritado Brabancio, avançando um passo mais para Othello, enganaste, se julgas ser-te facil escapar á justiça e á minha vingança. Vês estes homens que me acompanham? accrescentou voltando-se e apontando com o braço hirto para os companheiros; pois bastará um signal meu para te arrancarem com os seus punhaes a alma do corpo, se vacilas um só momento em me seguires.

O africano contemplou fixamente, durante um segundo, o encolorizado pae de Desdemona, e no bronzeado rosto deixou transluzir uma expressão terna e compassiva; depois ergueu a poderosa cabeça com um gesto de leão e lançou um olhar de supremo desprezo aos homens que acompanhavam Brabancio.

Em seguida respondeu com voz meiga e socegada:

—Quaes? rugiu o velho cego pela ira. Julgas por ventura que te vaes livrar com as tuas valentias?

—Não, respondeu friamente Othello; livro-me pelo menos agora, porque assim é a vontade do Doge, que acaba de chamar-me para que compareça sem a menor demora ante o Conselho dos Dez, o qual, presidido por elle, se acha reunido n'este momento para tratar de assumpto de gravissimo interesse para o Estado, e a respeito do qual, segundo parece, necessitam conhecer a minha opinião. Agora bem; proseguiu dizendo o mouro deliberadamente, ousarieis oppôr-vos á vontade do Doge e do conselho, e tolher que se executassem as suas ordens, que, como sabeis, são sagradas na Republica, expondo-vos, talvez a pôr em perigo a segurança do Estado?

—Ceus! Fallarás verdade? exclamou Brabancio desesperado ao ver que a presa estava prestes a escapar-lhe.

—Estes cavalleiros podem responder-te, affirmou o mouro, indicando os commissionados do Doge,que permaneciam a poucos passos de distancia, testemunhas mudas da acalorada scena.

—Assim é, nobre Brabancio, affirmou o que parecia ser o chefe do grupo. Quanto acaba de dizer o general é absolutamente verdade.

O velho senador pareceu ficar um momento atordoado com o peso da noticia.

Mas, de prompto, ergueu a cabeça, os olhos faiscaram-lhe com a viva satisfação da vingança satisfeita, e perguntou ao chefe dos commissionados:

—Disseste que o Doge está n'este momento presidindo ao Conselho dos Dez?

—Assim o disse e assim é, nobre Brabancio; respondeu o interpelado.

—Pois bem, n'esse caso, continuou o pae de Desdemona, que melhor accasião do que esta para exorál-o a que faça justiça? Por muito grave que seja o assumpto que presentemente o occupa, não poderá sel-o tanto que o impeça de ouvir a queixa de um senador da Republica, sobre tudo de um senador da minha ascendencia, contra um bandido que o Estado abrigou incautamente, no seu seio. Ides á presença do Doge, não é assim? Pois bem, eu vou tambem e assim ganharei tempo, em vez de o perder, como suppuz. Já vês, concluiu o raivoso velho dirigindo-se a Othello, que não ha poder humano que te livre da minha vingança! Vamos ter com o Doge e pedir-lhe justiça!

E todos formando um grupo compacto abandonaram as margens do Adriatico e perderam-se lentamente nos solitários e tenebrosos labyrintos da poetica cidade dos canaes.

Apezar da gravidadade das circumstancias, o Doge não poude conter uma exclamação de surpreza ao ver entrar Brabancio na sala onde se celebrava o conselho, acompanhando Othello, sem que para isso trouxesse ordem sua. Lançou pois, um olhar colerico ao velho senador e perguntou severamente:

—Quem se atreve a desobedecer d'este modo á minha vontade e ás leis da Republica, que prohibem a entrada na sala do Conselho a todo aquelle que não tenha ordem expressa de comparecer ante mim?

—Eu, Senhoria—respondeu em tom firme, e attitude respeitosa o pae de Desdemona.—Eu, que venho pedir-vos justiça para o irreparavel ultraje que lançaram nas minhas cans e no meu nome de patriota.

—Tão urgente é o caso e tão imperioso e vehementeo teu desejo de ver reparado o agravo que recebeste, para olvidando toda e qualquer consideração, entrares n'este recinto sagrado para todos os cidadãos da Republica?—replicou o Doge com enfado.

—A Vossa prudente e sabia rasão julgará por si mesma—disse Brabancio sem se deixar intimidar pela attitude severa do Doge, attitude que se reflectia nos dez membros do Conselho. E, acto continuo, indicando a Othello que permanecia de pé a seu lado.—Este homem, que a Republica acolheu em hora aziaga para todos, acabou de roubar-me a filha, deshonrando-a, deshonrando-me tambem e lançando uma mancha indelevel sobre toda a nobreza veneziana, sobre o nobre nome que me orgulho de usar. Justiça, Senhoria, contra tamanho criminoso! justiça, se não quereis que eu renegue a propria terra em que nasci!

—Tranquillisa-te, bom Brabancio—respondeu o Doge com benevolencia—se é certa a accusação que acabas de fazer contra esse homem, contra esse habil e heróico general que mais de uma vez tem dado provas da generosidade do seu coração, salvando a Republica, eu te prometto, como cavalleiro veneziano e como magistrado supremo do Estado, que justiça te será feita! Bem disseste affirmando que o ultraje que recebeste recae sobre todos os teus compatriotas. Mas sabes, prudente velho, que os momentos actuaes são em extremo solemnes e as circumstancias gravissimas? Os turcos dirigem-se contra ilha de Chypre, com uma poderosa esquadra, e d'ella se apoderárão, facilmente senão realizarmos um verdadeiro milagre de vontade e de força. Agora bem—proseguiu o Doge, com convicção.—Sabes o que significa para Veneza a perda da ilha de Chypre? Significa ver-se reduzida a Rodas no Archipelago; é a ruina do seu commercio com a Grecia e com toda a parte oriental da Europa; é o principio da decadencia do seu poder no Mediterraneo, e quando Genova, Florença e o Pontificado saibam isto, cahirão sobre a orgulhosa soberana do Adriatico como um bando de abutres sobre uma aguia ferida e enferma, para repartir os seus restos e insultar a sua passada grandeza. Immensa e justa é a tua dor, pobre velho, mas ante as calamidades que ameaçam a Republica, tu, varão sabio e prudente, responde: que significa a desgraça de um individuo, de uma familia, de uma dôr pessoal por grande que seja, comparada com o soffrimento de um povo?

—Perdoe-me a Vossa Senhoria e o sabio Conselho, respondeu humildemente o velho; ignorava as terriveis noticias que me acabaes de communicar e cega-me a dôr e a soberba. Soffra eu e os meus mil vezes, dado que se salve a Republica! Se a pessoa que a póde salvar é esse homem, terminou indicando Othello, desde este momento retiro a minha accusação e esperarei pacientemente, para lavar a mancha cahida sobre o meu nome, que venham melhores tempos! Veneza e a Republica acima de tudo!

E, ao dizer estas palavras, o nobre velho pareceu verdadeiramente transfigurado pelo generoso enthusiasmo que lhe trasbordava do coração, enthusiasmoque se communicou instantaneamente a todos os circumstantes, exceptuando Othello, que permaneceu sereno e frio como estatua de bronze. Mas apenas acabou de fallar o pae de Desdemona, e antes que o Doge tivesse tempo de responder-lhe, agradecendo a nobreza da sua conducta, como pensava fazel-o, o mouro estendeu o braço direito, como dando a entender que queria pedir a palavra, e ao ver que os membros do Conselho inclinavam a cabeça, com um gesto de approvação, começou com voz grave e pausada:

—O sabio e prudente Conselho, assim como a Senhoria que o preside, vão perdoar-me expôr a minha opinião a respeito de tudo quanto succede, sem que previamente me tenham auctorizado para tanto.

—Era o que pensava agora fazer, pois não foste chamado para outra cousa, heroico Othello, disse o Doge com benevolencia; falla pois, com liberdade absoluta.

—Primeiro que tudo, proseguiu o general, occupar-me-hei, como é de justiça, do mais importante; quer dizer do que diz respeito ao Estado; depois tratarei da accusação que este velho acaba de lançar contra mim. Nada receiem! Serei breve, muito breve, porque pouco, na realidade, tenho de dizer com respeito aos dois assumptos. Por outro lado não é este o momento opportuno para dispensarmos palavras, mas sim de praticarmos actos; além d'isto a minha linguagem é rude e desataviada de galas.

«A Senhoria de Veneza e o sabio Conselho ignoramdecerto que a unica eloquencia de que posso orgulhar-me é a das acções.

—Precisamente aquella de que hoje necessita a Republica, observou o Doge gravemente.

—Pois tel-a-ha, respondeu Othello com convicção absoluta. O que tenho a dizer com relação aos turcos que buscam apoderar-se da ilha de Chypre, reduz-se a isto: Montano, a quem deixei como governador na ilha, com plenos poderes para que me substituisse durante curta ausencia, é um militar valente como ha poucos e experimentado como nenhum; adora Chypre como um filho adora a mãe, apesar de não ter nascido lá; dispõe de bons elementos de combate e, por muito vigoroso que seja o ataque dos turcos, saberá resistir durante alguns dias, os sufficientes para que, sahindo eu esta mesma noute ou, para melhor dizer, esta manhã, de Veneza, tenha tempo de surprehender os otomanos antes de que logrem pôr nas torres da ilha o estandarte da meia lua.

—E crês, general, perguntou anciosamente o Doge, que dispões de bastantes recursos para dominar e vencer o grande contingente de homens de guerra e armamento naval com que, segundo noticias fidelissimas recebidas, os turcos se aprestam para a lucta?

—Essas noticias exageram, ou mentem, replicou friamente Othello. O sultão está gravemente empenhado nas guerras com Castella e com Papa, e não pode dispor de grandes elementos de combate. Que Montano resista sómente oito dias, que me sejam favoraveis os ventos, e respondo pelaminha cabeça, que a Republica conservará em seu poder Chypre e dará uma nova e forte lição ao seu constante e teimoso inimigo, que o manterá na reserva durante muito tempo. Othello, que nunca mentiu, jura-o pela sua lealdade ao Estado.

E o altivo africano contemplou com tão fria serenidade os individuos do Conselho, que estes sentiram que a confiança, uma confiança absoluta, voltava a renascer-lhes nos corações.

—Assim pois, perguntou o Doge ao mouro, partirás hoje mesmo para Chypre?

—Apenas o sol doire com os seus raios o extremo do mastro real do meu navio, a quilha d'este rasgará as ondas orgulhosas do Adriatico em direcção á ilha, respondeu Othello. Mas antes, Senhoria, ordena-me o coração e a lealdade responder ás accusações d'este velho e deixar terminado este assumpto. Peço-vos que não me negueis o favor de me ouvirdes e de fallar agora mesmo na causa que vou submetter ao vosso recto juizo, Senhoria; porque, apesar de tudo, poderia morrer na nova empreza que vou emprehender e por cousa nenhuma do mundo quereria que pezasse sobre o meu nome a affronta que Brabancio acaba de lançar sobre elle com as suas palavras, ante o Conselho...

—Falla pois, Othello—disse o Doge, com deferencia;—mas, como ha pouco disseste, procura ser breve, o mais breve que te seja possivel, porque não ignoras que o tempo urge e os momentos perdidos são preciosos.

—A brevidade convem a todos—disse o africano;—porém mais a mim do que a ninguem, porque d'ella depende o exito do meu plano de batalha e da sorte da minha existencia. Não receieis pois, Senhoria, e escutem, ouçam-me todos, com os corações de homens e toda a consciencia de magistrados, porque é a minha honra, a minha vida e a minha felicidade que jogo n'este momento.

Calou-se o mouro e, durante alguns instantes, pareceu como abstrahido em meditação dolorosa; depois, erguendo a altiva e bronzeada fronte com o gesto leonino que lhe era peculiar, olhou cara a cara para o Doge e para os individuos do Conselho com olhos nos quaes se reflectia toda a lealdade do seu grande caracter, e começou em voz grave e pausada, que condizia perfeitamente com a soberba majestade da attitude:

Barbancio accusou-me ante vós, Senhoria, de que esta noute lhe raptei a filha para deshonral-a e deshonral-o a elle e a toda a nobreza da Republica.

—E assim é; atreve-te a negál-o! gritou fóra de si o velho senador, a quem a recordação do rapto da filha despertara toda a colera que, durante momentos, havia parecido abandonál-o.

—Nego-o, porque não é verdade—respondeu friamente Othello—Desdemona deixou esta noute a casa de seu pae para seguir-me, para acompanhar seu esposo, porque meia hora depois de ter pisado o tapete da minha gondola, enlaçava-se com o meu o seu destino ante os altares.

—É mentira, uma infame mentira!—rugiu ovelho—A minha filha não póde ser a esposa de um cão hereje como tu!

—Tanto póde, que o é—affirmou categoricamente o mouro, sem perder nem por um momento o sangue frio.—Além d'isso, não casou com um hereje, pois creio no Deus dos christãos, porque é o Deus da mulher que adoro.

—Então é porque a enlouqueceste, porque a embruxaste com feiticerias e artes magicas!—exclamou Brabancio no paroxismo da ira. D'outro modo, é admissivel que uma donzella tão pura, tão formosa e delicada como Desdemona, se enamorasse de um horrivel negro como tu?

D'esta vez as palavras do colerico velho feriram por certo alguma fibra sensivel e devéras intima do coração de Othello, porque a côr bronzeada do mouro branqueou durante um segundo, e o general, erguendo mais ainda o alto e poderoso busto, murmurou com voz moderada, mas na qual, apesar de tudo, se sentia vibrar um furacão de sentimentos ignorados.

—Sempre a mesma phrase! Um horrivel negro! Como se ha-de enamorar uma virgem, bella e pura como Desdemona, de um horrivel monstro como Othello! Ignoro, senhor—continuou o africano dirigindo-se d'esta vez ao senador,—se as mulheres veem mais longe e mais profundo do que os homens, mas para dita nossa e honra sua é preciso acreditar que sim, e que a vossa filha viu a minha alma. A minha alma, ouvem, senhores? que é a de um homem como vós, como a vossa, velho implacavel, como a de todos os homens brancosemfim, e que ainda talvez valha mais do que a de muitos d'esses, porque está firmemente temperada na desventura e na lucta pela existencia.! Uma lucta horrivel, espantosa capaz de aniquillar, o melhor coração de toda a nobreza veneziana á qual—continuou com gesto de leão,—egualo, se não supero em raça, porque se ella nasceu em berço doirado, o brilho de uma corôa real illuminou meu nascimento. Sim, orgulhoso nobre; sou, quando menos, teu egual, porque descendo de reis, e sou teu superior em valor moral, porque estou purificado pela desgraça. Vencidos meus paes por um inimigo, não tão poderoso, porem mais astuto e mais cobarde do que elles, fui vendido com meus escravos, como um egual de taes miseraveis. Sim, o leão foi comprado revolto e mettido entre uma jaula de cães; mas a escravatura não se fez para os leões e eu fugi da minha jaula matando os guardas e correndo para o deserto, que era o meu ambiente natural. Ali lutei com as féras para disputar-lhes o alimento, e digo-te sinceramente que ellas são mais leaes e mais nobres na luta do que a maioria dos homens com quem tenho deparado antes e depois de vencel-as. Mais tarde, farto da solidão, fui de povo em povo, de nação em nação, e desde o estreito de Gibraltar até ao dos Dardanelos, reguei o caminho com sangue de cobardes e lagrimas de corações agradecidos. Quando, por ultimo, o Destino me trouxe para entre os vossos, a Republica tremia como presa prestes a ser devorada pelo turco, pelo genovez, pelo florentino, pelo romano, por todos osseus inimigos, emfim. E eu firmei-a; derrotei aquelles que queriam a sua queda para a fazerem em pedaços, dei estabilidade á Republica vacilante, e a minha mão acostumada a apertar sem tremer a garganta dos tigres, cravou no ponto, mais alto da Europa a bandeira de Veneza.

«Que sangue haverá, pois, na cidade de S. Marcos que possa envergonhar-se de se misturar com o meu?

Calou-se o mouro por um momento, e por toda a salla pareceu vibrar a sua potente voz. Othello continuou, sempre dirigindo-se a Brabancio:

—Tua filha sabia tudo isto, sim, sabia-o, porque eu proprio lh'o havia contado; conhece a minha historia, leu em meus olhos e bebeu nas minhas palavras a formidavel e sangrenta epopeia da minha vida; viu-me tal qual sou, e não como me veem os outros, como tu me vês, cego pela ira, e, em vez de achar em mim o monstro a que te referes, viu apenas o homem de coração, que sabe triumphar do Destino e dos homens, e começou por admirar-me, como um ser que valia mais do que todos os fatuos inuteis e vadios que a rodeavam; para concluir, amou-me com o mesmo amor profundo e infinito com que eu a amo. Este é todo o nosso crime, e por elle peço que nos julguem—terminou dizendo, dirigindo-se ao Doge e aos membros do Conselho.

—Tudo quanto disseste nada é mais do que palavras e só palavras!—gritou Brabancio desesperado, pois temia que o prestigio que rodeava Othello inclinasse em seu favor os que tinham de o julgar.—«Osfactos fallarão mais alto do que tudo quanto possas dizer em teu abono! Minha filha! Confessa onde occultaste Desdemona! Minha filha que compareça ante vós, senhores, e ella desmentirá essa ridicula novella que acaba de contar-vos este homem, para disfarçar o indigno recurso de que se valeu para desvairar o cerebro e annular a vontade de uma virgem pura e innocente como a propria innocencia!

—É justo—assentiu o Doge, dirigindo-se a Othello.—a tua causa está bem apresentada e melhor defendida por ti mesmo; mas para tratarmos d'ella equitativamente, é necessario ouvir as duas partes. Diz, pois, onde se encontra Desdemona, e nós a faremos comparecer sem perda de tempo para deixar ultimado este assumpto. Porque urge aclarál-o até ao fim; se és realmente, como julgamos, digno da confiança que em ti deposita a Republica, ao enviar-te hoje de novo a defendel-a contra os seus inimigos, ou se terá razão o senador em te accusar com a aspereza com que acaba de fazel-o; em tal caso, as leis do estado, que podem alcançar a minha propria senhoria, haviam de alcançar-te tambem, fatal e necessariamente. Responde, general, onde está Desdemona?

—A dois passos d'aqui, e nada mais facil, para vós, de que mandal-a comparecer aqui e ouvirdes de seus labios as palavras que hão-de perder-me ou salvar-me, visto que daes mais valor ao testemunho de uma mulher do que ao juramento de um homem—respondeu Othello n'um tom de sentida amargura.

—Como!—exclamou o Doge tão surprehendido como todos os circumstantes, e sem prestar attenção na maneira como o mouro pronunciára as ultimas palavras.—Dizes que está aqui Desdemona?

—Sim—respondeu o general—disse.

—Suponho—replicou gravemente o Doge,—que não ignoras que o sitio em que te encontras é o menos a proposito para gracejos?

—Não gracejo nunca—respondeu com certo desdém Othello—Quando me dispuz a seguir os individuos que me enviaste, e depois de ter ouvido Brabancio insultar-me e ameaçar-me com pedir-vos justiça contra mim este mesma noute, considerei, como era logico, que necessitaria apresentar a melhor e a unica testemunha de confiança que póde fallar em meu favor. Por conseguinte, pedi ao meu tenente Cassio que fosse onde estava Desdemona e lhe rogasse em meu nome que o acompanhasse aqui, dizendo-lhe do que se tratava. Ora bem; como estou convencido de que Cassio terá cumprido as minhas ordens, pois é fiel e amigo até á morte, e jámais desobedeceu a quem serve, respondo como já disse, que bastará que que mandeis chamar Desdemona para que esta compareça ante o Conselho.

Com effeito, apenas o Doge deu a um porteiro ordem de que mandasse entrar na sala a filha do senador Brabancio, esta apareceu vestida de branco, com o traje de noiva que talvez não tivesse tido tempo ainda de tirar. Surgiu bellissima na sua pallidez, e serena e firme como estatua de Diana.

Brabancio e todos os circumstantes, exceptuando Othello, soltaram uma exclamação de surpreza e assombro, ao vel-a apparecer como visão celestial, e o Doge disse-lhe com voz affectuosa:

—Approxima-te, preciosa Desdemona, e nada receis, porque a lei e o cavalheirismo te protegem!

A joven aproximou-se com passo certo e firme da mesa do Conselho, sem parecer fixar a attenção em Othello nem no proprio pae, e parando a respeitosa distancia dos juizes, perguntou:

—Que deseja sua Senhoria de mim?

—Que respondas, sob juramento, ás perguntas que vou fazer-te, sem que o medo ou o pezo, nem nenhuma outra consideração humana, te façam occultar a verdade. Comprehendeste?

—Perfeitamente—respondeu com sangue frio Desdemona—Devo advertir-vos, Senhoria, de que não tenho de que recear, e menos de que me envergonhar, e que os meus labios jámais se mancharam com a mentira.

—Acredito e applaudo-te com toda a minha alma—disse o Doge com benevolencia—Agora, responde: conheces esse homem que está a tua direita?—e apontou, indicando Othello.

—Sim, Senhoria, conhece-o e amo-o, porque é meu esposo ante Deus e ante os homens, ha tres horas; juro-o por Christo crucificado, assim como juro que esta noute, por minha propria vontade e sem que ninguem me compellisse nem sequer aconselhasse, abandonei a casa de meu pae para o seguir.

—Mentira! gritou o velho senador desvairadopela colera—Essa mulher está louca, completamente louca! Se assim não fosse, nunca se atreveria a dizer, deante de mim, seu pae, semelhantes vergonhas.

—Não são vergonhas, pae e senhor meu—replicou respeitosa mas firmemente a joven;—mas simples verdades: deixei a casa paterna para seguir meu marido, como, ha muitos annos, tu abandonaste aquella que era tua para seguir tua mulher.

—Maldita, maldita sejas, filha desalmada e sem coração! Aborreço-te e amaldiçoo-te, e nunca mais tornarás a vêr teu pae! Juro-o pelos santos Evangelhos e pela fidalguia da minha raça. Adeus para sempre, e que a minha maldição te persiga por toda a parte!

E completamente transtornado pela desesperação e pela ira que o suffocava, o implacavel velho abandonou, tremendo e cambaleando, a sala do conselho.

—Não chores, preciosa Desdemona, disse o Doge affectuosamente á joven, ao vel-a enxugar as lagrimas que lhe inundavam as faces nacaradas.—A colera de teu pae, ainda que injusta até certo ponto, é no entanto explicavel.

«Mas espero que tão depressa recobre a tranquilidade e o sangue frio, reflectirá e conquistarás de novo todo o seu carinho. No entanto, continuou dirigindo-se a Othello, devolvo-te a estima e a confiança que sempre tive no teu valor e na tua bem provada lealdade. Damos, pois, por terminado este enfadonho assumpto, e dispoe-te a emprehender viagem sem perda de tempo.

—Viagem! exclamou Desdemona estupefacta. Como, Senhoria! Ides affastar assim de mim, tão de repente, o meu esposo, deixando-me na solidão e no abandono mais desconsoladores?

—Assim é necessario, linda Desdemona! respondeu o Doge n'um tom compassivo. Crê que o lamento com toda a minha alma, mas exige-o a salvação e a honra da Republica.

—E onde o mandaes? perguntou a triste desposada com a maior amargura.

—A Chypre, que está ameaçada pelos turcos, e onde faz falta a presença do general mais habil e valente que tem o estado, disse o Doge.

—Pois bem, respondeu a joven n'um tom de resolução inquebrantavel—irei tambem com elle a Chypre. Não diz o Apostolo que a mulher deve seguir o marido? Pois eu opponho-me com toda a minha alma a separar-me d'aquelle que a Providencia collocou no meu caminho.

—Mas, e os perigos a que te vaes expor, indo na sua companhia? observou o Doge.

—Não me importam. Seguil-o-hia, embora soubesse que caminhava para a morte, respondeu a corajosa joven.

O Doge consultou Othello com o olhar, e este sentindo-se tacitamente apoiado pela poderosa Senhoria, atreveu-se a dizer:

—Realmente, não vejo inconveniente em que minha esposa me siga, visto não receiar os perigos que vamos correr juntos. Por outro lado, a mulher de um guerreiro deve ser animosa, e além d'isto a sua presença, longe de diminuir ou quebrantaro meu valor ou os meus talentos militares, multipolical-os-ha até o infinito. Por consequencia, se sua Senhoria e o sabio e prudente Conselho não se oppõem a tal resolução, levarei minha esposa comigo á ilha de Chypre, para onde partirei d'aqui a uma hora. Mas, proseguiu, olhando para Desdemona, para poupar os riscos da viagem, peço ao Conselho que me auctorize a levar comigo todos os officiaes que me são dedicados e que estão acostumados a combater sob as minhas ordens. De este modo, se morrer em qualquer recontro com os turcos durante a expedição, sei que o meu tenente Cassio e o meu alferes Iago, que são meus irmãos de armas, velarão por minha mulher, como faria sua propria mãe.

Assim ficou combinado e, passada uma hora, Othello e Desdemona, com os officiaes favoritos do general, embarcaram em direcção á ilha de Chypre.

O que todos ignoravam a bordo, exceptuando o alferes Iago, que nem o confessou á propria mulher, Emilia, aia de Desdemona, era que, no mesmo navio que albergava os dois felizes esposos, ia tambem o nobre Rodrigo, sobrinho de Brabancio e primo de Desdemona, da qual estava loucamente apaixonado, e a cuja posse não renunciava, apezar de Iago lhe haver dado a noticia de que n'aquella madrugada se realisára o matrimonio da joven.

Mas o alferes de Othello, dotado do maior cynismo, constando que o seu nobre amigo se desesperava, renunciando para sempre ao objecto dasua paixão ao comtemplal-o nos braços de outro, riu-se d'elle e quasi o obrigou a que o acompanhasse a Chypre, disfarçado de marinheiro, promettendo-lhe que, se, como havia dito antes, não lhe desobedecesse em coisa alguma, e muito menos lhe negasse o ouro que corrompe todas as consciencias, arranjaria tudo de fórma a n'um prazo curto, que nunca excederia um mez, a candida e innocente prima cahiria, louca de amor, nos braços do apaixonado primo.

Mas, o que pretendia o mizeravel com tudo isto, era, sómente, enriquecer á custa das joias e do dinheiro de que havia obrigado a prover o ingenuo Rodrigo, e ter este como uma corda mais no arco, para quando chegasse o momento de disparar a envenenada flecha destinada a despedaçar o coração do homem generoso que o acolhera sob a sua protecção e lhe déra a sua amizade e o seu carinho, bem longe de suppôr que abrigava no seio a vibora, que depois havia de causar-lhe a morte com a mordedura venenosa.

Mas não nos adeantemos aos acontecimentos, e sigamos passo a passo o curso da terrivel tragedia que chegou a immortalizar a perfidia de um invejoso e os ciumes de um amante, cujo unico crime consistiu em ser propenso ás paixões, e dispôr de tempera superior áquella em que está forjada a vulgaridade dos homens.


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