III

IIIEm ChypreDuas outras galeras com um bom numero de soldados e infinidade de apetrechos de guerra, acompanhavam a capitanea que levava a insignia de Othello, e na qual este ia com Desdemona, os officiaes e o sobrinho de Brabancio, disfarçado de marujo.Com estes tres barcos, sómente, contava o general africano defrontar a poderosa esquadra turca, no caso de dar-se um recontro mais do que provavel, visto que os ottomanos, a avaliar pelas ultimas noticias recebidas no momento do embarque, deviam já navegar nas aguas de Chypre.Mas o heroismo e o talento militar de Othello suppriam tudo, e as tripulações dos tres navios confiavam tão cegamente no chefe, que quasi desejavam esse recontro em vez de o recear.Não obstante, a situação aggravou-se ao terceiro dia de viagem, até tornar-se desesperada, pois que furiosa tempestade fez sossobrar as duasgaleras que acompanhavam a capitanea, e taes destroços causou n'esta, que, deixando-a raza como um pontão e pouco menos do que sem governo, pois o leme soffreu tambem graves avarias e as obras mortas ficaram feitas em pedaços, converteu-a em débil joguete das encrespadas e gigantescas ondas, que a faziam dançar sobre as espumosas cristas como fragil casca de nós.Ninguem, no emtanto, perdeu a coragem durante aquelle calamitoso transe, apezar de todos estarem firmemente convencidos de que soára para elles a ultima hora. Era que o exemplo de coragem e sangue frio de Othello e sobretudo de Desdemona, que não se apartou do esposo um só momento durante o perigo, seguindo-o por toda a parte com o sorriso nos labios e resolvida a morrer com elle, communicára-se a todos, e ninguem, ainda que a sentisse, queria dar provas de fraqueza, alli onde uma mulher era a primeira a fazer galla do mais extraordinario heroismo.Mas, por ultimo, no dia seguinte, e depois da noite verdadeiramente horrorosa aquietaram-se os elementos, o furacão diminuiu a furia e foi pouco a pouco acalmando até converter-se em brisa suave e acariciadora. O mar, que durante vinte horas mortaes parecera um Leviathan furioso, transformou-se, por fim, em Iago tranquillo.Os afortunados viajantes, salvos por verdadeiro milagre, não tardaram em encontrar, junto da desmantelada embarcação, terriveis e numerosos indicios dos destroços que havia causado em taes paragens a formidavel tormenta.Uma coisa, não obstante, feriu a viva imaginação de Othello. Extranhou ver a excessiva abundancia de cadaveres, restos de navios feitos em pedaços e destroços de toda a especie que fluctuavam sobre as ondas.Chegou um momento em que a ideia d'esses despojos o atormentára de tal modo, que teve necessidade de communical-a a alguem, pois queria a todo o transe ouvir, a tal respeito, outra opinião.Chamou por isto o tenente Cassio e o alferes Iago, e sentando-se com elles na tolda do navio, disse-lhes, mostrando o mar, que cada vez apparecia mais juncado de cadaveres:—Que me dizeis d'isto? Certo deve ter succedido grande catastrophe, pois de outro modo não se explica que haja tantas victimas e tantos restos de navios destroçados. Que opinião é a vossa?—Se fosse a esquadra turca?—atreveu-se a insinuar o tenente Cassio olhando para o chefe, em cujos olhos surprehendeu um relampago de alegria, ao ver que encontrava alguem, e nada menos do que um homem ponderado, que pensava como elle.—Neptuno foi tão propicio durante a vossa viagem, general, disse por sua vez Iago com servil adulação, que não admiraria nada que levasse a protecção que vos dispensou até ao extremo de livrar-vos sem combate dos vossos inimigos.—De qualquer maneira, respondeu Othello, sorrindo affavelmente ao alferes, seja ou não a Providencia que nos auxiliou, é indubitavel que não podemos queixar-nos da sorte, e que esta corôariadignamente a sua obra e, ao chegar a Chypre, encontrassemos comprovada a opinião do tenente Cassio que, seja dito com franqueza, foi tambem a minha.Não tiveram de esperar pela chegada a Chypre para saberem da destruição da esquadra turca, de modo innegavel.N'aquelle mesmo dia encontraram uma lancha tripulada por seis naufragos, todos soldados otomanos, os quaes, depois de serem recolhidos no navio e tratados com todos os cuidados e attenções que a sua lamentavel situação exigia, agradecidos á generosidade que Othello usava para com elles, lhe contaram minuciosamente todos os detalhes da espantosa catastrophe, na qual desapparecera toda a esquadra, exceptuando duas embarcações que, partidas e sem léme, acabaram por perder-se no horizonte á vista dos naufragos, sem que pudessem dizer o que fôra d'ellas; mas a julgar pelo deploravel estado em que as havia posto a tempestade, era mais do que provavel que houvessem acabado por ser tambem tragadas pelo Oceano.Julgue-se, pois, a impressão que tão faustas noticias fariam nos ditosos viajantes, que viam desapparecer n'um minuto os perigos que ameaçavam a Republica de Veneza, para elles mil vezes mais temiveis e angustiosos, pois lhes tinham ameaçado até então a popria vida.Quando por fim a desarvorada galera capitanea fez a sua entrada triumphal no bellissimo porto da ilha de Chypre, onde já era tambem conhecidaa destruição da esquadra turca, o regosijo e a alegria não tiveram limites; Othello e Desdemona foram recebidos com o fervente enthusiasmo que só se tributa aos heroes, e toda a população distincta da ilha, com o governador Montano á frente, correu a visital-os ao palacio em que se haviam installado, para tributar-lhes sincera e franca homenagem de admiração e de estima.Othello, pela sua parte, ao assumir, n'aquella mesma tarde, o comando supremo de Chypre, decretou em nome da Republica veneziana festas geraes durante todo o resto do dia e até á meia noute, para que o povo celebrasse, cada qual consoante a sua vontade e gosto, o ter-se livrado, tão feliz como inopinadamente, do terrivel e feroz inimigo que pretendera apoderar-se da ilha.Em seguida, e apenas anoiteceu, retirou-se para o Palacio em companhia de Desdemona, pedindo a Montano para ainda fazer as suas vezes durante a noute, pois alem de estar fatigado, devido á accidentada viagem, era essa tambem a primeira noite em que, desde que se unira a Desdemona, podia encontrar-se a sós e tranquillo com a formosa e virginal esposa.Montano, como póde suppor-se, accedeu promptamente ao desejo do general governador de Chypre, offerecendo-lhe cumprir o seu encargo de vigiar cuidadosamente os guardas durante a noute, tanto para acudir ás desordens e escandalos resultantes de todas as festas populares, como para não abandonar a vigilancia do porto que, não obstante o desastre casual soffrido pelos turcos,era presa demasiado cubiçada por elles para se descurar, um momento que fosse, observando com semelhante prevenção o famoso e prudente proverbio latinosi vis pacem, para bellum, que deve ser sempre a divisa de todo o bom militar.Caiu a noute sobre Chypre com os melhores auspicios e em meio da alegria de todos os seus habitantes que, já livres das tristes preoccupações que os haviam atormentado até ali se entregaram inteiramente ao gozo das festas que haviam organizado.Ao dizermos todos os habitantes, devemos descontar dois muito nossos conhecidos, que já não participavam do regosijo commum, e recolhidos n'um angulo do edificio que servia de quartel á guarda encarregada da vigilancia do porto, conversavam animadamente e em voz baixa de assumpto que, a julgar pelo aspecto e gestos de ambos os interlocutores, devia ser de grande interesse para elles.Estes dois personagens eram Iago, o alferes de Othello e o seu nobre companheiro Rodrigo, sobrinho de Barbancio e desprezado amante de Desdemona, o qual não deixára ainda o disfarce de marinheiro, por assim o ter aconselhado o amigo, como medida de prudencia.O dialogo que segue porá os nossos leitores ao corrente do assumpto que tratavam, e que, como já terão advinhado, não era outro senão o dos desditosos amores da ingenua victima do alferes.—A avaliar por quanto pude ver desde que sahi de Veneza, dizia Rodrigo ao companheiro, asseguro-teque, se não fôres o proprio diabo em pessoa, te será difficil que eu consiga o amor da minha bella prima, que dia a dia me parece mais enamorada do horroroso marido.—Trouxeste comtigo todas as joias e quanto dinheiro podeste reunir, segundo prometteste? perguntou tranquillamente Yago, sem dar a menor attenção ás palavras do amigo.—Nas minhas malas tenho todas as alfaias de familia, que valem para cima de dez mil escudos de ouro, e quasi outro tanto em moedas novas venezianas e genovezas, respondeu Rodrigo.—Com menos de metade se comprava, seduzia e conquistava uma rainha, ainda que abrigasse no seio um coração mais duro que as afiadas garras do leão de S. Marcos, disse o alferes em cujos olhos brilhou um clarão de cobiça, ao ouvir as palavras do companheiro.—Não proponho comprar Desdemona, replicou este, por duas razões: a primeira porque a conheço bem e estou certo que não é mulher que se venda; e a segunda porque receberia um amor que se daria por dinheiro e não por natural correspondencia á paixão que inspira a mulher amada.—Ta! ta! ta! cantarolou cynicamente Yago, tudo isso são cantatas, bôas, quando muito, para servir de assumpto a rimances cantados por trovadores, depois de opipara ceia em noute de festa. A tua bella prima é como todas as mulheres, e todas as mulheres são como as andorinhas. Namoram-se de tudo quanto brilha; por issotua prima se enamorou de Othello, porque a seus olhos brilhou mais do que todos os nobres venezianos, devido ao inegavel esplendor das suas maravilhosas proezas.—Que devo então fazer? perguntou Rodrigo, contemplando Yago com irritação não isenta de espanto. Não me asseguraste que Desdemona está enamorada do marido?—Nem mais, nem menos, respondeu fleugmaticamente Yago. Mas, por dizer-te que está enamorada, não significa semelhante affirmação que o esteja sempre. O amor de tua prima, nobre Rodrigo, crê piamente no que digo, pois sou homem de experiencia, não é amor verdadeiro, mas ficticio; o que poderiamos chamar amôr de imaginação.—Como! exclamou, cada vez mais surprehendido, o joven veneziano.—O que acabo de proferir, continuou o alferes, é precisamente a phrase approximada e perdoa que me gabe ao dizer-te que muito feliz fui em a ter encontrado: um amor de imaginação. O brilho que vê em Othello, e que a deslumbrou, não é outra coisa senão o que se vê nos heroes dos romances, que é precisamente como se apresenta o marido aos olhos de Desdemona. Ella vê o heroe, sempre o heroe. Pergunta-lhe pelo homem, e não saberá responder-te.—Porquê? perguntou Rodrigo, verdadeiramente interessado.—Simplesmente porque o homem não existe para ella nem, felizmente para o que respeita aOthello, se preoccupa de procural-o; no dia em que tal faça, o marido está perdido e o mesmo será no dia em que o encontre.—Não te comprehendo, interrompeu o joven veneziano, que, como todos os seus eguaes d'essa epocha, estava pouco habituado a torturar o cerebro, sentia enorme confusão perante semelhante embroglio para elle inintelligivel.—Porque não queres comprehender-me, replicou Yago com a mesma tranquilidade do gato que brinca cem o rato. E se não, continuou dizendo, ouve-me attentamente e verás como te explico tudo, em quatro palavras, verás como entendes: tua prima é mulher, não é verdade?—Essa é de cabo de esquadra! exclamou irritado Rodrigo. Pois que outra coisa poderia ser?—Não te abespinhes, homem, não te abespinhes! De vagar se vae ao longe e nao tardarei em chegar onde quero, disse o alferes que, semelhante n'isto a todos os miseraveis, se comprazia em atormentar a victima. Responde: é mulher ou não?—Quem duvida?—Ninguem, por certo. Ora como mulher, necessitará de um homem que lhe satisfaça as exigencias do organismo; um homem que ame fisicamente, entendes-me agora, alma de cantaro?fisicamente, porque o amorfisicoé o unico que póde convir á vida de uma mulher, quando as paixões imaginativas e novelescas, como a agora experimentada por ella, se evaporam e fogem ante a fortaleza brutal dos gritos da carne.—Bem, de accordo, respondeu Rodrigo que ia começando a comprehender o companheiro.—Mas aonde queres tu ir parar com todas essas philosophias?—Simplesmente a uma conclusão que não admitte duvidas: tua prima está hoje satisfeita e enamorada porque não vê mais do que o lado poetico do marido, e ainda não se fixou na cara, linguagem, gestos, e no mais que n'elle existe de tosco, de selvagem e de brutal. Mas como o seu amor não póde alimentar-se de sonhos, e um beijo dado por uns labios humidos e vermelhos vale mais para uma mulher do que toda a poesia do mundo, no dia em que esse tigre africano despertar torpemente a carne da mulher, o que n'este momento está fazendo, asseguro-te que, ou não ha senso commum sobre a terra, ou apenas Desdemona se inteire do que então ignorava, quer dizer, de que tem sexo, o negro estará perdido para ella, completa e irremediavelmente perdido. Talvez, nas suas horas de tédio, o recorde e até careça d'elle, como se recorda e se carece, em determinados momentos, de uma historia interessante ou de um fragmento de poema; mas, durante os parentesis da realidade, que são os maiores da vida, precisamos todos, e ella tambem, coisa mais substanciosa e mais pratica: o gastrónomo, carne fresca e appetitosa que desfaça nos dentes; e o amante, carne mais fresca e mais appetitosa que lhe palpite nos braços! Já vês que n'este pobre mundo tudo é questão de carne, meu caro amigo! Ah! ah! ah!E, ao dizer estas palavras o miseravel soltou uma gargalhada cynica e estrepitosa, gozando em desfolhar, uma a uma, as poucas flôres da illusão que ainda vicejavam no coração de Rodrigo.—Assim, pois, continuou dizendo quando acabou de rir, confia em mim e não tortures a cabeça com supplicios inuteis.«A noiva de Othello será tua, porque assim jurei e não falto nunca aos meus juramentos, disse com um sorriso de escarneo quasi imperceptivel. E proseguiu acto continuo:«Apenas terás de me ir entregando joias e dinheiro, á medida que eu vá pedindo, para captivar com ellas o coração de minha mulher, que é o anjo da guarda do Paraiso, e seduzir tambem a coração de Desdemona. Já vês que sou imparcial na minha opinião com respeito a mulheres, terminou o mizeravel, pois que não sendo a minha das peores, não lhe dou mais valor do que positivamente tem.—E julgas, realmente, que Desdemona se deixará captivar por fim, com dadivas e presentes? perguntou o infeliz apaixonado, cuja certeza a respeito da virtude da prima começava a fraquejar, combatida simultaneamente pelos proprios desejos e pelas perfidas theorias do ruim amigo.—Dá tempo ao tempo e depois te convencerás do que digo, proseguiu Iago com a firmeza de quem tem certo o triumpho.«Dá-me tudo o que te pedir e deixa o resto por minha conta. Não te preoccupes mais com tal assumpto e presta attenção, e ao dizer estas palavras baixou a voz e adoptou uma attitude mysteriosa;ha outra coisa e outra pessoa que constituem um grande perigo para os teus amores.—Que queres dizer?—perguntou Rodrigo sobresaltado.«Explica-te mais claramente porque os teus enigmas apenas servem para me atormentar.—Não tens reparado na assiduidade com que o tenente Cassio segue para toda a parte Desdemona, e na singular preferencia que esta lhe dispensa constantemente, mesmo na presença do esposo?—É certo! exclamou Rodrigo empallidecendo; até agora ainda não tinha dado importancia a semelhantes detalhes; mas acabas de abrir-me os olhos, e não ha duvida que tens razão de sobra para assim fallares. Que infame! acabará, talvez, por entender-se com Cassio, procurando n'elle o homem a que ha pouco te referias? Se assim fôr, posso perder as ultimas esperanças, pois o meu amor não se verá jámais correspondido!—Enganas-te, porque estou eu aqui para o evitar respondeu Iago, fingindo carinho affectuoso.—Tenho o meu plano. Esta noute preciso que me ajudes, para varrer esse empecilho, de fórma que não torne a molestar-nos em vida.—Como?—perguntou Rodrigo.—É muito simples; primeiro que tudo, é perciso fazer que Cassio, perca a estima de que desfructa junto de Othello, e que este o demitta do seu posto de tenente, para dar-m'o. D'este modo, affastado para sempre do general, não terá pretexto para approximar-se de Desdemona e todasas suas seducções e artificios resultarão completamente inuteis. Entretanto eu, investido nas funcções do meu novo cargo, poderei converter-me em sombra do mouro e, por conseguinte, de tua prima, e não me parece necessario encarecer as vantagens que poderás tirar d'isto para os teus amores.—É certo!—exclamou o moço veneziano, contemplando com admiração e gratidão o amigo—Mas como te vais arranjar para levar a cabo o teu plano e em que poderei auxiliar-te?—Da maneira seguinte: d'aqui a uma hora, pouco mais ou menos, vou cear em companhia de Montano e de Cassio no quartel que existe n'este mesmo edificio. O tenente é tão mau bebedor que não póde resistir a um só copo do riquissimo vinho d'esta ilha. Ora bem; hei de fazer o possivel para que beba dois ou tres, o que bastará para o embriagar como a qualquer mendigo e, em seguida, busca sahir-lhe ao caminho e, sem o provocar, farás que te dirija algum insulto, cousa que não será difficil, porque quando está bebedo, é aggressivo. Replicar-lhe-has acto continuo e continuarás discutindo até conseguires que te bata. Como farás tudo isto, procurando não te affastares do quartel, onde se effectuará a ceia, gritarás de modo que Montano e eu possamos ouvir-te. Então acudiremos ambos, eu occupar-me-hei de ti, e deixaremos que os dois se entendam, na certeza de que Cassio, homem sereno e senhor de si quando está no estado normal, é indiabradamente provocador e insultante quando se embriaga, o que lhesuccede poucas vezes na vida, e não deixará de puchar pela espada para responder com ella ás amigaveis indicações que lhe dirija Montano; fará sangue, certamente, e então entrarei eu em scena para armar tal escandalo, que Othello terá de inteirar-se necessariamente do caso. Ora bem; como não transigiria nem com o proprio filho em pontos de disciplina, surprehenderá Cassio em falta grave, precisamente no momento de guarda, e affirmo-te que o teu provavel rival não tornará a pôr no peito a divisa de tenente, que passará a ser minha, e que, a partir d'esta noute, poderás viver completamente tranquillo.—E estás bem seguro do teu plano?—perguntou Rodrigo ao alferes, quando este acabou de narrar o infame projecto, que o joven veneziano escutára com profunda attenção.—Certissimo—respondeu Iago—Só preciso que prestes o serviço que te peço.—Conta comigo—prometteu o sobrinho de Brabancio, decidido a tudo para conseguir o amor de Desdemona.—Então, mãos á obra—respondeu o alferes levantando-se e apertando a mão do companheiro.—N'este mesmo sitio estás perfeitamente para fazeres quanto te indiquei, porque Cassio sahirá por aquella porta—apontou, indicando uma que havia a poucos metros de distancia.—Espera-o aqui, executa fielmente as minhas instruções, e não duvides de que o triumpho será nosso.E, acto continuo, o miseravel despediu-se do ingenuo Rodrigo e correu a pôr em pratica o diabolicoplano que concebera, não para ajudar o companheiro nos seus amores, como promettera, mas para perder um innocente a quem invejava, e supplantal-o no posto e no affecto de Othello.**     *Duas horas depois, o sino de alarme tocava desabaladamente no quartel situado junto da doca do porto, pondo em alvoroço toda a ilha, que começava a entregar-se ao somno passada a agitação da festa, e obrigando a saltar do leito, em sobresalto, o proprio Othello, que repousava docemente entre os bellissimos braços de Desdemona.CAPITULO IVO traidorA minuciosa exposição que Yago fizéra a Rodrigo do plano que tinha in-mente, bastaria para que os nossos leitores tivessem noticia exacta de quanto havia succedido durante as duas horas que passaram desde a separação dos dois amigos até o momento em que o inesperado toque do sino de alarme levou a inquietação e o desassocego a todos os habitantes de Chypre, incluindo n'este numero o proprio Othello.Mas, se, para maior clareza da narração é imprescindivel por um lado conhecer a descripção pormenorisada do succedido e assim chegar ao desenlace d'esta tragica historia sem uma solução de continuidade que prejudicaria notavelmente a comprehensão dos factos; pelo outro, seria impossivel, omittindo tal narração, seguir passo a passo as interessantes e accidentadas peripecias do complicado drama cuja base principal assenta na ambiçãoe na inveja de uma alma perversa, nascida para a infamia e para o crime.Assim, sigamos Iago no momento em que, ao separar-se do primo de Desdemona, entrou no quartel onde, á entrada, o estavam esperando para a ceia o tenente Cassio e o nobre Montano, governador da ilha de Chypre e representante da Republica Veneziana, na ausencia de Othello.—Boa noite, prudente Cassio; saude e prosperidade, illustre Montano, cumprimentou o alferes ao entrar, dirigindo-se aos companheiros e superiores.—Graças a Deus que vieste; julgavamos que tivesses esquecido que te esperavamos! exclamou Cassio ao vêr entrar o amigo.—Pelo que prevejo, interrompeu Montano esboçando um sorriso malicioso, este bom Iago, apezar de ter uma esposa deveras formosa, não faz má cara ás mulheres do proximo, especialmente quando são jovens lindas; e como abundam em Chypre as que reunem estas duas qualidades, graças sejam dadas ao Amôr e a Venus, certamente se atrazou, dando uma volta pelas ruas da ilha, com o perverso proposito de render alguns corações mais do seu gosto.—Acertaria no alvo o vosso gracejo, se visasseis o nosso tenente, que tem, na verdade, fama de irresistivel com as bellas, replicou Iago esboçando um sorriso intencionado, de que só elle percebeu a transcendencia. Quanto a mim detesto as saias, por instincto de conservação, e não trocaria uma só garrafa de bom vinho de Chypre por todasas mulheres casadas, viuvas ou solteiras, que vivem na ilha.—Parece-me, Iago, observou Cassio affectuosamente, que acabas de fazer duas affirmações duplamente exaggeradas: uma, aquella em que alludes á minha boa estrella junto das bellas, que seja dito de passagem, só existe na tua imaginação, pois confesso-te que, até agora, não tenho na minha folha de serviços uma só conquista que valha referencia.—Nunca é tarde quando a sorte nos sorri, replicou astutamente Iago.«Ha quem assegure que estás a caminho de entrar por assalto n'uma praça que mais de um nobre veneziano, teu compatriota, invejaria.—Não te comprehendo, respondeu Cassio com estupefacção tão profunda como sincera retratada no semblante.—Saibamos, saibamos que praça é essa e veremos se é digna de disputal-a o bello Cassio! exclamou alegremente Montano.—Se elle guarda segredo, não sou eu que tenho o direito de desvendal-o, disse hypocritamente o alferes.—Guardo segredo porque não sei a que aventura te referes, respondeu Cassio de boa fé. Explica-te, peço, porque conseguiste intrigar-me.—Modestia, pura modestia, discreção levada até á mudez! disse rindo o alferes. Cassio, felicito-te porque és um cavalleiro digno de ter vivido nos bons tempos do rei Arthur. Mas, continuou, dando deliberadamente outro rumo á intencionalcharada, cada vez me convenço mais de que o mundo está cheio de paradoxos e nós proprios o somos.—Porquê? perguntou Montano com estranheza.—Nada mais simples, respondeu Iago. Vocês esperavam-me com impaciencia, o que evidentemente accusa um apetite devorador; por minha parte tambem declaro que não vinha menos resolvido a entender-me com uma boa ceia. Pois bem, em vez de aproveitarmos o tempo predispondo o estomago com meia duzia d'essas veneraveis garrafas que nos escutam, para entrarmos depois heroicamente pelos manjares, estamol'o perdendo lastimosamente, fallando de mulheres, isto é, do assumpto menos substancial e mais perigoso que pode tratar-se entre cavalleiros.—Indubitavelmente esta noute estás pouco amavel e galanteador para as damas, valente Iago, respondeu Montano rindo.—Nem mais nem menos do que n'outras occasiões e nem menos nem mais do que o merecem, disse Iago.E passando em revista meticulosa as garrafas poeirentas que se viam sobre a mesa artisticamente posta, pegou n'uma de respeitavel antiguidade, a julgar pelo aspecto e pela marca que ostentava na rolha, abriu-a e encheu de riquissimo e perfumado vinho os copos dos companheiros e o d'elle. Seguidamente e sem dizer palavra, bebeu-o de um trago e fez estalar a lingua com a placida expressão de um bebedor satisfeito.Montano fez com o copo o mesmo que Iago fizera com o d'elle; mas o tenente Cassio contentou-se com leval-o aos labios e humedecel-os ligeiramente com o dourado nectar.—Como! exclamou Iago apparentando indignação e assombro ao ver que o seu amigo voltava a por sobre a mesa o copo tão cheio como o levantára. Não bebes comnosco, ou não aprecias este vinho, herdeiro directo da sagrada ambrosia com que Jupiter obsequiava de vez em quando os seus amigos do Olympo? ignoras, por ventura, desgraçado, que o vinho de Chypre foi consagrado pela historia, atravez dos seculos, até que vencendo o seu rival Falerno, teve a honra de toldar com frequencia o cerebro de Alexandre, de produzir as gloriosas alegrias de Alcibiades, de servir de vehiculo para o veneno que matou Britanico e de inspirar os versos de Nero e os pontapés que o imperial artista dava em Popêa para a expulsar dos festins, quando o estorvava nos seus desabafos amorosos com os mancebos romanos? Ignoravas isto, infeliz? Pois bem, é um peccado de lesa ignorancia, indesculpavel n'um homem ponderado como tu; mas, apesar de tudo, Montano e eu perdoamos-te com a melhor vontade do mundo, dado que honres o historico vinho como nós o honramos.—Nunca bebo! respondeu gravemente Cassio.—Porquê? perguntou com curiosidade Montano. É talvez algum juramento?—Não, respondeu o tenente; a minha repugnancia em beber obedece sómente a que o vinhome ataca de tal modo a cabeça, que basta um copo para transtornar-me por completo e fazer de mim um homem absolutamente diverso de que sou no estado normal.—Mas ceando, aventurou Iago, é outra coisa, e affirmo que não te succederá mal algum. Além d'isso, proseguiu alegremente para animar o companheiro, estás entre amigos e, se a bebedeira te der para dormir, mandar-te-hemos deitar n'um fôfo e confortavel leito, ou então rir-nos-hemos se te der para nos insultar.—Um homem embriagado é um ente desprezivel, e por cousa alguma d'este mundo consentiria em chegar a semelhante e lastimoso estado.—Pois bem, disse deliberadamente Iago; ceêmos; de qualquer forma, affirmo que saberei obrigar-te a brindar comnosco, dado o caso que o nosso exemplo não te leve por motu proprio a provar o historico nectar.Acto continuo serviram-se os primeiros pratos, e durante minutos apenas se ouviu o ruido produzido pelos dentes ao triturarem os tenros ossos das presas que devoraram.Inesperadamente Iago levantou-se e enchendo os dois copos que ainda estavam vasios, pegou no d'elle e brindou:—Pelo feliz matrimonio do nosso general e para que nunca veja perturbado com a mais ligeira nuvem o céu de seus amores com a bella Desdemona.E dirigindo-se a Cassio, accrescentou:—Atreve-te a recusar este brinde, e asseguro-teque Othello nunca te perdoará a descortezia, se um dia vier a sabel'a.Cassio vacillou um segundo; mas, instado por Montano, que juntou os seus rogos aos do alferes, pegou no copo e bebeu-o de um trago dizendo:—Á saude do general, e pela eterna felicidade do seu matrimonio!E em seguida cahiu na cadeira, sombrio e taciturno, como arrependido de ter quebrado tão facilmente a resolução de permanecer sobrio.Continuou a ceia, animada pela pittoresca conversação do alferes e pela alegria natural e espontanea de Montano, e, passado algum tempo, o primeiro voltou a erguer-se, encheu novamente os trez copos, e disse levantando o seu:—Brindemos pela gloria e prosperidade de Veneza e pelo triumpho das suas armas sobre todos os inimigos!Montano e elle emborcaram os copos d'um só trago; mas o tenente, sem despejar o seu, disse em tom resoluto:—D'esta vez não beberei, já lhes fiz a vontade, apezar de contrariado, e por isso espero que não insistam mais.—Prevês o que se dirá, replicou Iago, sem dar importancia ás palavras do amigo, quando se souber, e saber-se-ha comcerteza, porque as paredes teem ouvidos, que não quizeste brindar pela gloria de Veneza, depois de ter brindado pela felicidade do homem que te protege? Pois toda a gente affirmará, continuou, sem parecer notar oolhar colérico que lhe dirigia o companheiro, que não passas d'um adulador egoista, que pretende afagar os poderosos, para medrar á sombra d'elles, e que, como florentino afinal, te importa pouco que a Republica triumphe ou seja derrotada pelos seus inimigos.Cassio cravou no miseravel um olhar ameaçador e apertando convulsivamente os queixos um contra o outro, como para conter as palavras que estavam prestes a escapar-lhe dos labios, pegou no copo e bebeu nervosamente até á ultima gôtta.Outra vez proseguiu a scena, e foi então Montano quem, excitado já pelas libações, ainda que bastante senhor de si, encheu os tres copos e disse apresentando o seu:—Pela total ruina do poderio turco, e para que o leão de S. Marcos destroce, definitivamente, nas suas garras, a orgulhosa meia lua!O tenente Cassio, sem que em tal momento tivesse ninguem que o provocasse, foi o primeiro a tocar no copo do nobre anfitrião.Mas, apenas bebeu o vinho que continha, soltou uma blasphemia, e cravando no alferes os olhos esgazeados, cuspiu-lhe á cara este insulto:—Iago, és um miseravel!Immediatamente arremessou o copo contra o solo e sahiu, cambaleando.—É melhor seguil-o, pois vae em mau estado e pode praticar qualquer disparate! observou prudentemente Montano.—Não te preoccupes com elle, illustre amigo,replicou Iago com indifferença, Já desabafou commigo e agora irá direitinho deitar-se e curtir a bebedeira.«Conheço-o perfeitamente, pois ha muito tempo que o acompanho e sei que isto lhe succede com frequencia.—Como! exclamou Montano admirado. Pois não nos affirmou que nunca bebe?—Ora! respondeu o miseravel. Isso dizem por causa do general todos os bebedos que resistem pouco e teem, além de medo, mau vinho!«Aposto dez escudos de ouro em como terás encontrado em tua vida muitos homens, que, como Cassio, teem, poderiamos assim chamar-lhe, o pudor da bebedeira, porque, quando recobram a razão, se envergonham da conducta que tiveram durante o estado de embriaguez.«Isto, porem, rematou Iago, com malevola intenção, não os impede de tornar a beber, fazendo-se algo rogados para cobrir as apparencias e desculpar o juramento que costumam fazer a miudo, e de que se arrependessem nas occasiões opportunas.—É certo! disse Montano convencido. Confesso, porém, ter chegado a acreditar ser Cassio um homem de caracter, incapaz das ridiculas pechas dos espiritos fracos. Desprezo os homens que não teem o valor da convicção das suas qualidades e dos seus vicios, e nunca pensei que o tenente de Othello pertencesse a semelhante classe de individuos.—Porque não o conheces, volveu perfidamenteIago. Quanto a mim, estou habituado a estas scenas, e, como sempre que bebe, me insulta, ouço os ultrages como quem escuta a chuva. Isto te foi dado observar ha pouco.—Sem duvida, disse Montano n'um tom affectuoso. Bem pode dizer esse bebedo que tem em ti um verdadeiro amigo.—Sim, estimo-o, respondeu Iago, e prefiro, por isso, que desabafe comigo, a que o faça com outro qualquer; pois o insulto poderia acarretar-lhe desgosto sério, como já por vezes tem estado a ponto de succeder-lhe, quando não me encontro junto d'elle.—Mas, pôe-se de tal modo quando bebe? Perguntou Montano.—É verdadeiramente insupportavel; para qualquer outro que não tenha a minha paciencia, torna-se aggressivo e turbulento, e não ha meio de reprimir-lhe as insolencias senão castigando-o severamente.—N'esse caso, observou Montano em tom de pezar, repito que fizemos mal em o deixar sair d'aqui... Quem sabe, se...Não poude terminar a phrase, porque n'aquelle momento faziam-se ouvir, não longe d'ambos, os gritos espantosos de um homen que pedia auxilio desesperadamente, e antes que tivessem tempo de se refazerem da surpreza, entrou na sala, com flecha, um individuo vestido de marinheiro, que vinha seguido de perto pelo tenente Cassio. Este proferia a tropel blasphemias e maldições agitando a espada que empunhava.—Hei de espetar-te como um frango, meu grande tratante! gritou o tenente ao entrar em casa, apóz o marinheiro, o qual, como já terão adivinhado não era outro senão Rodrigo, que havia seguido fielmente as instrucções dadas por Iago para a execução do plano.—Socorro, socorro, que me mata! gritou Rodrigo com voz que reboou por todo o edificio, despertando os homens de armas.—Alto ahi, amigo Cassio! exclamou Montano severamente. O que fazes não é proprio de cavalleiro!—Se ha aqui alguem que não seja cavalleiro, esse és tu, covarde defensor de malandrins, respondeu gritando Cassio, emquanto ameaçava de tal modo Montano com a ponta da espada, que o defensor de Chypre teve de dar um salto para traz e arrancar da que trazia para defender-se, pois corria o risco de ter o peito atravessado pela lamina do adversario.Limitou-se, porém, a aparar os ataques furiosos que lhe dirigia o tenente, completamente fóra de si, emquanto Rodrigo, Iago e os soldados que haviam acudido, armavam tal barulho com as exclamações e gritos, que o escandalo não tardou em propagar-se desde o porto até ás primeiras ruas da ilha cujos pacificos habitantes perguntavam assustados o que se passava, julgando-se ameaçados por qualquer invasão de turcos.Entretanto seguia Montano defendendo-se dos ataques do tenente. Mas, num movimento que fez, ao aparar terceira estocada, teve a desgraça deferir-se, ficando a descoberto, e recebendo em pleno peito a ponta da espada do adversario, que se lhe enterrou duas pollegadss na carne.Cahiu no solo o nobre patriota, emtanto que os soldados conseguiam desarmar Cassio, que ficára como attonito ao ver Montano por terra. Entretanto Iago escapou-se sem ser visto e logrou assim chegar até o sitio onde estava a sineta de alarme, pela qual puxou furiosamente por bom espaço de tempo.Os repetidos e violentos toques acabaram de pôr em alvoroço toda a ilha, cujos moradores saltavam apressados dos leitos, tomados do maior panico.Armou-se uma confusão indescriptivel, e um dos primeiros a abandonar o repouso e armar-se foi Othello, que, depois de acalmar quanto possivel a inquietação de Desdemona, sahiu do palacio, seguido de alguns officiaes, para inquirir as causas de semelhante escandalo nocturno.Não tardou em averiguar que a origem do reboliço partira do corpo da guarda situado no porto; e quando, ao apresentar-se alli, encontrou Montano ferido, Cassio desarmado e preso de um atordoamento indiscriptivel, que lhe impedia dar qualquer explicação, e Iago lamentando-se tragicamente do occorrido, ficou profundamente admirado; não tardou, porém, em succeder ao assombro uma cólera tal, que fez estremecer de terror quantos conheciam os terriveis arrebatamentos de tal homem, exceptuando o alferes que, longe de atemorizar-se ao ver o general dementado pelacolera, sentiu o maior jubilo, enforçando-se todavia para não o dar a conhecer, porque, por muito, que devesse regosijar-se ao ver o exito alcançado pelo seu infame plano, a manifestação mais ligeira de tal regosijo teria sido uma imprudencia que lhe podia custar cara.Conseguintemente, em vez de se mostrar satisfeito, accentuou mais ainda a tristeza da attitude e o tom das lamentações, e quando Othello lhe ordenou severamente que o informasse de todo o occorrido, o miseravel fez um relato permenorisado, tratando de desculpar apparentemente o amigo, mas, na realidade, aggravando de tal modo a sua conducta e as consequencias possiveis do escandalo a que havia dado logar em taes circumstancias, empregando phrases tão campciosas como intencionadas, lamentando com tão bem simulada sinceridade que por uma ligeira imprudencia, segundo elle dizia, se tivesse chegado até ao extremo de tocar o sino de alarme e interrompido o somno do seu general; fez resaltar, em seguida, com, tão perfida astucia, o desastroso effeito que a grave ferida do nobre compatriota podia causar nos habitantes da ilha, ainda que, segundo accrescentou, Cassio nunca fizera tal cousa a não ser sob o imperio da embriaguez; apresentou n'uma palavra, tão avultados os factos, fingindo diminuil-os, que, quando acabou a narração, condimentada com protestos de lealdade para com Othello e de sincero affecto para Cassio, o general completamente enganado pelas palavras do traidor, e muito mais irritado contra o tenente do queantes de ter ouvido Iago, estendeu-lhe afectuosamente a mão, e disse:—Vejo que te conduzes para comigo com a mesma prudencia e fidelidade de sempre, emquanto este homem, e indicou Cassio que permanecia a alguma distancia, aguardando ordens e já completamente sereno, abusa da minha confiança pelo modo indigno como procedeu esta noute.«Pois bem: saberei dar a cada um o que em justiça lhe corresponde. Tu, meu bom e fiel Iago, não continuarás muito tempo sendo alferes, prometto; e quanto ao que diz respeito, accrescentou levantando a voz e dirigindo-se a Cassio, a partir d'este momento ficas exonerado do teu cargo de tenente e privado da minha amizade, de que tão indigno te mostraste.—Mas general, tratou de intervir hipocritamente Iago, emquanto lhe brilhava nos olhos um fugitivo relampago de infernal alegria, vêde que o castigo é excessivo para a falta!—Se é, ou não só me compéte julgal-o, replicou Othello. Silencio e acompanha-me ao Palacio.E, levando após si o traidor e o jubiloso alferes, Othello abandonou o corpo da guarda, deixando Cassio, entregue á desesperação que lhe causava o ignominioso castigo que acabava de soffrer e ver-se privado do affecto e estima de um homem a quem realmente amava como a irmão.VO lençoMontano, cujo ferimento não era tão grave como todos haviam imaginado, principalmente como Iago havia feito suppôr a Othello, foi o primeiro em interceder a favor de Cassio para que se não attentasse contra a liberdade do tenente deposto; e esta intercessão, unida aos costumes da epocha, infinitamente mais tolerantes de que os actuaes especialmente com os que diziam respeito ás questões sangrentas derimidas entre cavalleiros, foi o sufficiente para que ninguem se preoccupasse com o desditoso official e o deixassem viver tranquillo.Mas, como se comprehenderá, esta tranquilidade só podia referir-se ao que representava a segurança pessoal de Cassio; o que pouco lhe importava, preoccupado como estava, até á desesperação, pelo castigo que lhe haviam imposto: o mais doloroso que poderia ter soffrido, especialmente selevarmos em conta que a esse castigo ia unida, como dissemos no capitulo presente, a privação da amizade e da estima do chefe.Cassio, pois, não parecia o mesmo desde a amaldiçoada noute em que se desenrolaram os lamentaveis factos que narrámos; concentrando-se constantemente no desconsolo e na tristeza mais profunda, permanecia sempre só, fugindo do convivio e da vista das pessoas e, mais do que de ninguem, do infame Iago; pois que uma especie de presentimento o fazia advinhar, ainda que muito vagamente, a parte activa que o miseravel tomára em todos os acontecimentos.Não obstante, um dia em que segundo o costume que havia adoptado desde a noute fatal, se entregava aos seus solitarios passeios á beira mar, viu approximar-se o alferes de Othello, o qual se lhe dirigia com o sorriso nos labios.Em tal sitio, onde não havia nenhuma casa, era impossivel a Cassio occultar-se, escapulir-se, ou responder com despreso ao cumprimento que lhe dirigiu o alferes; tal procedimento constituiria imprudencia perigosa, tanto mais que carecia de base solida em que apoiar as vehementes suspeitas que contra elle abrigava.Por conseguinte fez das tripas coração, como se diz vulgarmente, e, ainda que com instintiva e invencivel repugnancia, correspondeu ao amigavel sorriso de Iago e apertou a mão que este lhe estendia, e que de boa vontade esmagaria entre os dedos.Em breve a repulsão e antipathia começarama dissipar-se lentamente, para dar logar á surpresa e ao assombro, quando ouviu fallar o alferes, que se expressava d'este modo:—Acredita, caro Cassio, que lamento o succedido, ainda mais profundamente que tu; pois não ha duvida de que, em rigor, eu sou o unico causador de tudo o que deu motivo a tão lamentavel occorrencia, com a minha insistente imprudencia, obrigando-te a que bebesses. Conhecendo-te como te conheço e sabendo o inimigo que és do vinho, e que não resistes a um só copo, o meu dever era evitar a todo o transe a tentação de brindar, em vez de induzir-te estupidamente a tal. Foi o que fiz, em má hora para todos. Perdoa-me, pois, como me perdoou Montano, de cujo ferimento sou o verdadeiro culpado, ainda que indirectamente, e ao qual já dei as explicações que devia para justificar-te a seus olhos como mereces; perdoa-me, repito, e acredita que, se á custa do meu sangue pudesse evitar por completo o occorrido e fazer desapparecer as suas consequencias, fal-o-hia de boa vontade.Cassio deixou fallar Iago sem o interromper, e embora as palavras do alferes causassem n'elle á medida que o traidor as proferia, a extranha impressão que dissemos anteriormente, limitou-se a responder com visivel frialdade:—Bem! Quem se lembra já de semelhante cousa? O que está feito, está feito, e o melhor que podemos fazer é esquecer.—Não, por Deus, querido Cassio!«Eu, pelo menos, longe de esquecer, devo recordarconstantemente, para que, servindo-me de exemplo esta rematada asneira, me impeça de para o futuro praticar outra egual. Depois, proseguiu alegremente, isso de o facto não ter remedio parece mais conforme com o fatalismo do nosso general, do que com a grandeza de criterio de um sabio florentino como é o tenente Cassio.—Já não sou tenente de Othello, replicou Cassio com tristeza. Estavas presente quando me depoz e me negou a sua amizade.—Se o não és, não tardarás em sel-o de novo, affirmou intencionalmente Iago.—Que queres dizer?—perguntou Cassio, cada vez mais surprehendido e começando a arrepender-se finalmente de ter suspeitado da amisade do alferes.—Quero dizer—respondeu este dando-se ares de protecção carinhosa para com o antigo camarada,—que conheces mal os homens e que és demasiado leviano para te entregar á desesperação.—Que conheço mal os homens?—exclamou Cassio corando, pois que adivinhava a quem a phrase intencional do amigo visava.—Sim, conhecel-os mal—insistiu Iago—e desconfiaste de mim. Vamos, confessa—accrescentou batendo affectuosas palmadas no hombro do amigo.—Juro-te...—replicou Cassio.—Não jures—interrompeu-o o alferes—porque mentirias, e isso é indigno de ti. Mas para vingar-me como devo da maneira como pensaste ameu respeito, vou castigar-te dizendo que, á força de atormentar o cerebro procurando a maneira de remediar efficazmente todo o occorrido, estou seguro de ter dado com um meio que, não só te devolverá o posto, mas que te ganhará tambem de novo a amisade e a estima de Othello.—Como! exclamou Cassio, admirado, estreitando agradecido a mão do alferes.—Muito simplesmente—respondeu este—por meio de Desdemona.—De Desdemona? Não te comprehendo—disse Cassio.—Pois a coisa não pode ser mais clara—replicou Iago com convicção absoluta.—Vejamos: não foste tu, durante muito tempo, o unico confidente dos amores de Othello e da bella filha de Brabancio?—Certamente—respondeu Cassio, mas ignoro como podeste saber isso, que é segredo para toda a gente.—Menos para minha mulher Emilia—rectificou Iago—pois Desdemona não tem segredos para ella. Mas, adiante; fallemos do que importa. Assim pois, a esposa do nosso general deve estar, e está, profundamente agradecida, pois deve-te primeiro que tudo, a felicidade de que disfructa e o amor de Othello. Além d'isto, consta-me que tem em grande estima o teu cavalheirismo e o teu talento, e que te aprecia tanto quanto póde apreciar outro homem uma mulher apaixonada do marido.—É certo—concordou ingenua e modestamente Cassio—que Desdemona me distinguia entre os outrosofficiaes do seu esposo. Mas d'esta distincção á sympathia que dizes dispensar-me, ha muita distancia, e creio que a tua grande estima por mim, te faz exagerar e não pouco.—As mulheres não sabem equivocar-se, nem exagerar n'este sentido—replicou perfidamente Iago—e a minha assegurou-me o que te acabo de dizer, por tel-o ouvido dos proprios labios de Desdemona.«Que dizes agora a isto?—Digo—respondeu Cassio, córando, pois sem saber porquê sentia a vaidade ferida com as palavras do bandido—que mesmo que assim fosse, qual a vantagem que me advirio?—Ainda o perguntas?—inquiriu Iago, simulando a mais perfeita admiração. Perdoa dizer-te que és o mais innocente dos mortaes, pois só uma candidez como a tua póde ignorar que, quem como tu, tem pela sua parte a mulher, conta tambem sem duvida, com o marido.—De que forma?—perguntou Cassio, sem comprehender onde queria chegar Iago, que não fazia mais do que seguir a linha que traçára ao infame plano para envenenar o coração de Othello e anniquillar-lhe a existencia, destruindo a felicidade que elle encontrava no amor da esposa.—Assombra-me a tua innocencia, ingenuo Cassio! exclamou Iago.—Perguntas-me de que modo has de arranjar-te para chegares até Othello tendo por mediadôra Desdemona?—Sim, pergunto—confirmou, porque não vejo meio de me approximar da esposa do general, estando-meprohibida, ainda que tacitamente, a entrada no palacio.—Indubitavelmente, se não tivesses quem te ajudasse—respondeu o miseravel—não te seria muito facil, não. Mas quem conta, como tu, com amigos resolvidos a tudo para te ajudar, consegue o que quer, se tem a coragem precisa para ganhar a partida.—Como!—exclamou Cassio reconhecidissimo—Acaso tu?...—Eu, precisamente não,—interrompeu-o o alferes; mas sim minha mulher, que, compadecida de ti e convencida pelas minhas supplicas, cedeu, a proporcionar-te uma entrevista com Desdemona, que sabe o que se passou e pende para o teu lado.—E accedeu a receber-me?—perguntou anciosamente o tenente.—Ás primeiras palavras que Emilia lhe disse intercedendo por ti—respondeu Iago,—e accrescentou que te receberia com muito gosto e que, com maior ainda, intercederia por ti junto do esposo, convencida d'antemão que alcançará o perdão da tua falta, fazendo que sejas reintregrado no posto de tenente.—E quando julgas que lhe poderei fallar?—interrogou Cassio, com justificada impaciencia.—Quando te agradar; agora mesmo, se quizeres—disse Iago.—Agora mesmo?—exclamou Cassio surprehendido.—Está então prevenida da minha provavel entrada no Palacio?—Desde esta manha, segundo me informou minhamulher. Apenas chegues, Emila conduzir-te-ha á sua presença.O leal e ingenuo Cassio estreitou carinhosamente entre os braços o ignobil amigo, e disse-lhe com a voz tremula de commoção:—Perdoa-me, caro Iago, pois tinhas razão quando disseste que chegára a duvidar de ti! Perdoa-me, repito, pois se soubesses que só e desgraçado me encontrava!...—Não fallemos mais em tal!—interrompeu Iago dando-se ares protectores. Eu teria pensado o mesmo, e talvez não tivesse tido a nobreza de o confessar, como acabas de fazer. Esqueçamos, pois, essas criancices, occupemo-nos sómente da tua completa rehabilitação junto de Othello. Estás decidido a fallar com Desdemona esta noite?—Quando quizeres—respondeu Cassio, que se sentia tornar á vida desde que, com as palavras do falso amigo, lhe havia dado entrada no coração a esperança.—Pois vamos, e não percamos tempo—disse Iago tomando o braço do camarada e encaminhando-o para o Palacio.—Consta-me que Othello não se encontra agora no Palacio e, por conseguinte, não póde haver occasião tão opportuna como esta para encontrar Desdemona só e poderes fallar da tua causa com o maior enthusiasmo; ainda que, como já te informei, pouco terás a dizer, porque a esposa do general é em teu favor e defenderá a questão até conseguir ganhal-a, sem duvida alguma.—Tenho um escrupulo—observou Cassio, parando,em seguida, e obrigando Iago a deter-se.—Qual?—perguntou este, franzindo ligeiramente as sobrancelhas, porque se Cassio não se prestasse a seguil-o, cahiria pela base todo o edificio do infame projecto que tramára para acabar de perder quantos lhe eram odiosos.—Se Othello—respondeu Cassio,—sabe que visitei o palacio e fallei com a esposa a occultas, isto longe de predispol-o em meu favor, irrital-o-ha mais ainda contra mim do que já está. Perderemos então terreno, em logar de o ganhar.—Em primeiro logar—ponderou astutamente Iago,—Desdemona se encarregará de lhe explicar satisfactoriamente tudo, com o que ficará bastante justificada a tua conducta; depois, este passo acabará de o convencer de que estás decidido a tudo para recuperar a sua estima e affecto.«Além de que—terminou—o mais provavel, poderemos dizer o quasi certo, é que não chegue a saber da tua visita ao castello, pois entrarás por uma porta occulta e minha mulher estará esperando, para levar-te á presença de Dedemona, sem que possa surprehender-te nenhum corioso indiscreto. Já vês, que tudo está bem preparado e que não tens nada a recear.Para fallarmos a verdade, tal mysterio, tal jogo de palavras e de precauções para afinal penetrar clandestinamente e como um ladrão na moradia do seu antigo general, nada menos que para fallar a Desdemona sem consentimento do esposo, não acabaram de convencer o leal e honrado official de Othello; mas como, apesar de tudo, não tinhapor onde escolher e queria a todo o custo recuperar o cargo perdido e a affeição do chefe, deixou-se levar docilmente pelo infame amigo até ao palacio do governador, no qual entrou, como havia dito Iago, por uma porta occulta, junto da qual o deixou o alferes, affirmando-lhe que o viria buscar mais tarde para que o puzesse ao corrente do resultado da entrevista, ainda que este não podia ser senão completamente satisfatorio.Conforme disséra Iago, Emilia esperava Cassio por detraz da tal porta, e apenas o tenente entrou, conduziu-o, atravez de corredores e galerias estreitas, até aos aposentos de Desdemona, sem que ninguem suspeitasse da sua mysteriosa visita ao Palacio.A pura e formosissima esposa de Othello, que realmente apreciava Cassio, cujas excellentes qualidades conhecia e estimava, bem como a cega dedicação do official pelo mouro, recebeu-o affectuosamente, ouviu-o com a attenção e benevolencia de uma irmã e prometteu alcançar o perdão de Othello, ao qual fallaria em seu favor n'aquella propria noute, explicando-lhe a verdadeira causa do succedido, e apresentando o cavalheiroso e leal Cassio tal como este realmente era, e não como o havia feito apparecer aos olhos de todos e, principalmente aos do general, um conjuncto de circumstancias desgraçadas.Cassio, derramando lagrimas de gratidão, ajoelhou ao despedir-se, para beijar a mão da sua protectora, vendo, louco de alegria, que voltava a brilhar para elle o sol da esperança.Desgraçadamente, no momento em que pousava os labios na nivea mão de Desdemona appareceu Othello ao fundo do largo corredor que dava accesso ao salão em que se encontravam a esposa e o tenente.O general, que vinha acompanhado de Iago, estremeceu violentamente ao ver Cassio de joelhos ante a esposa e beijando-lhe a mão.A colera que experimentou só póde comparar-se ao indescriptivel assombro que lhe tomou os sentidos durante alguns momentos, deixando-o cravado no mesmo sitio e sem poder pronunciar uma só palavra. Quando tornou a si e seguiu avançando até onde se encontrava sua esposa, Cassio já tinha desaparecido, pois que a inesperada presença do general desconcertou-o de tal modo, que, sem prever as consequencias da sua fuga, nem atender a outra cousa do que ao receio de se encontrar frente a frente com Othello depois do imprudente passo que acabava de dar, abandonou o salão precipitadamente, sem dar attenção ás observações de Desdemona, que o aconselhava a ficar.—Desde quando é permittido a esse bebedo e mal educado cavalheiro entrar em minha casa sem eu saber e atrever-se nada menos do que a beijar de joelhos a mão de minha esposa? perguntou Othello á jóven, em tom irado.—Cassio não é nenhum bebedo e tão pouco mau homem respondeu docemente Desdemona. Pelo contrario, é o amigo mais fiel e mais leal que tens, e ha muito tempo que o provou, ajuntou ella olhando para Othello intencionadamente e alludindoaos valiosos serviços que o official havia prestado a ambos durante o periodo dos seus amores em Veneza e ás occultas do senador Brabancio, seu pae.—Sei perfeitamente o que devo a respeito da lealdade d'esse e de todos os meus amigos, replicou brutalmente o mouro, sem necessidade de que ninguem mo recorde.«De hoje em diante prohibo-te terminantemente que recebas nos teus aposentos qualquer homem sem o meu consentimento e, muito menos, individuos que, com a sua desprezivel e escandalosa conducta, se tornaram culpados do meu justo despreso.—De boa vontade te obedecerei n'isto como em tudo, e não receberei jamais nenhum homem sem que tu me auctorises a tanto, respondeu com doçura angelical a bella esposa do ciumento e apaixonado mouro. Mas, por esta vez, te rogo, meu querido amigo, que perdoes a Cassio e lhe devolvas a estima e o affecto que d'antes lhe dedicavas e que tanto merece.—Não quero, entendes? não quero tornar a ouvir pronunciar em minha casa, e muito menos aos teus labios, o nome de tal homem. Ouves? Pois bem, aconselho-te que não o esqueças, pois não gosto de repetir as ordens que dou, rugiu Othello.—Não esquecerei, esposo meu, disse Desdemona, sem perder nem um instante a inalteravel doçura. Mas asseguro-te que, tu, tão prudente e generoso sempre, és injusto n'esta occasião com o pobre Cassio.—Outra vez? gritou o mouro fóra de si. E sentindo que a cólera que o dominava o arrastava a uma brutalidade, da qual teria de arrepender-se, abandonou precipitadamente o quarto, dizendo com voz agitada para o alferes: Segue-me, Iago!O infame não fez repetir a ordem, e sahiu na esteira do general, não sem fazer um profundo e servil cumprimento a Desdemona.Quando se encontrou no corredor só com Othello, começou a murmurar em voz baixa:—Que imprudentes! Quem o tivera advinhado! Chama-se a isto jogar com a propria vida!Othello, que apezar da ira que o dementava, ouvira perfeitamente as insidiosas palavras do alferes, que com tal proposito as havia dito, embora apparentando fallar para si, agarrou violentamente Iago pelo pescoço, de tal modo que esteve a ponto de o estrangular e perguntou-lhe:—Que dizes, mizeravel? quem são os imprudentes e os que jogam com a vida?«Atrever-te-hias a suspeitar, infame, de minha esposa, da minha Desdemona?!«Falla, cão, ou morrerás ás minhas mãos, aqui mesmo!Iago não respondeu, pela simples rasão de que não podia fallar, apertado como estava entre os ferreos dedos do furioso africano.Mas, levando a mão ao bolso, tirou d'elle um lenço de seda, bordado nos quatro cantos, e estendeu-o a Othello, emquanto fitava eloquentemente o marido de Desdemona.Este retrocedeu alguns passos, como horrorisado,e fixando no lenço um olhar de louco, murmurou com phrases entrecortadas, a voz cheia de angustia:—Como! O meu lenço!«O lenço que era uma reliquia de minha mãe e de que fiz presente a Desdemona como a joia mais preciosa que possuia! A melhor prenda dos nossos amores em mãos extranhas!...«D'onde o roubaste, traidor?—gritou a Iago, prompto a lançar-se de novo a elle.—Cassio! Cassio é que o tinha e tirei-lh'o! apressou-se a responder o alferes, receando realmente pela sua vida, ao vêr a espantosa attitude de Othello.—Tinha-o Cassio?—rugiu o mouro.«Ira de Deus! Mas isso é impossivel! Impossivel!«Mentes, traidor, infame! Diz-me que mentes ou te arranco as entranhas!—Não o posso dizer, general, porque sou demasiado fiel para vos enganar.«Esse lenço, que nunca vos mostraria, a não ser n'um caso especial como o de hoje, para salvar a minha vida, tirei-o a Cassio, repito, e a elle o havia entregado Desdemona alguns dias depois do vosso casamento. Eu proprio, que estava occulto, a alguma distancia, pois suspeitava d'ambos, lh'o vi dar!«Juro-vos que daria a vida para não despedaçar o vosso coração como o faço n'este momento; mas ordenais-me que falle e não tenho outro remedio senão obedecer.Othello, cuja bronzeada pelle se havia posto repentinamente côr de cinza, quiz pronunciar algumas palavras, mas não poude; arrancou a gola do gibão que o apertava, soltou uma especie de suspiro rouco, como o estertor da agonia, e o seu athletico corpo de gigante cahiu sobre o tapete, debil, apesar das herculeas forças, para resistir ao furioso furacão das selvagens paixões que a intriga do infame Iago lhe desencadeára na alma.O miseravel, ao ver cahir o desditoso esposo de Desdemona, esboçou um sorriso horrivel e murmurou entre dentes:Isto vae ás mil maravilhas, e já falta pouco para o fim.«Que bruto, hein? Se não venho preparado com o lenço, matava-me com certeza! Verdade seja que isto adeantou os successos, que nada perdi com passo!«Agora vamos chamar soccorro, pois não quero que morra antes de que tenha despachado os outros e eu arredondado a minha fortuna, para o que tenho á mão esse imbecil de Rodrigo e o cargo de tenente que deixou vago esse outro imbecil de Cassio.E, ditas estas palavras com sangue frio e cynismo espantosos, junto do inanimado corpo de Othello, o traidor revestiu uma apparencia de dôr e de lastima que teria invejado o mais habil farçante do tempo, e foi correndo em busca de soccorros para a sua infeliz e crédula victima.

Duas outras galeras com um bom numero de soldados e infinidade de apetrechos de guerra, acompanhavam a capitanea que levava a insignia de Othello, e na qual este ia com Desdemona, os officiaes e o sobrinho de Brabancio, disfarçado de marujo.

Com estes tres barcos, sómente, contava o general africano defrontar a poderosa esquadra turca, no caso de dar-se um recontro mais do que provavel, visto que os ottomanos, a avaliar pelas ultimas noticias recebidas no momento do embarque, deviam já navegar nas aguas de Chypre.

Mas o heroismo e o talento militar de Othello suppriam tudo, e as tripulações dos tres navios confiavam tão cegamente no chefe, que quasi desejavam esse recontro em vez de o recear.

Não obstante, a situação aggravou-se ao terceiro dia de viagem, até tornar-se desesperada, pois que furiosa tempestade fez sossobrar as duasgaleras que acompanhavam a capitanea, e taes destroços causou n'esta, que, deixando-a raza como um pontão e pouco menos do que sem governo, pois o leme soffreu tambem graves avarias e as obras mortas ficaram feitas em pedaços, converteu-a em débil joguete das encrespadas e gigantescas ondas, que a faziam dançar sobre as espumosas cristas como fragil casca de nós.

Ninguem, no emtanto, perdeu a coragem durante aquelle calamitoso transe, apezar de todos estarem firmemente convencidos de que soára para elles a ultima hora. Era que o exemplo de coragem e sangue frio de Othello e sobretudo de Desdemona, que não se apartou do esposo um só momento durante o perigo, seguindo-o por toda a parte com o sorriso nos labios e resolvida a morrer com elle, communicára-se a todos, e ninguem, ainda que a sentisse, queria dar provas de fraqueza, alli onde uma mulher era a primeira a fazer galla do mais extraordinario heroismo.

Mas, por ultimo, no dia seguinte, e depois da noite verdadeiramente horrorosa aquietaram-se os elementos, o furacão diminuiu a furia e foi pouco a pouco acalmando até converter-se em brisa suave e acariciadora. O mar, que durante vinte horas mortaes parecera um Leviathan furioso, transformou-se, por fim, em Iago tranquillo.

Os afortunados viajantes, salvos por verdadeiro milagre, não tardaram em encontrar, junto da desmantelada embarcação, terriveis e numerosos indicios dos destroços que havia causado em taes paragens a formidavel tormenta.

Uma coisa, não obstante, feriu a viva imaginação de Othello. Extranhou ver a excessiva abundancia de cadaveres, restos de navios feitos em pedaços e destroços de toda a especie que fluctuavam sobre as ondas.

Chegou um momento em que a ideia d'esses despojos o atormentára de tal modo, que teve necessidade de communical-a a alguem, pois queria a todo o transe ouvir, a tal respeito, outra opinião.

Chamou por isto o tenente Cassio e o alferes Iago, e sentando-se com elles na tolda do navio, disse-lhes, mostrando o mar, que cada vez apparecia mais juncado de cadaveres:

—Que me dizeis d'isto? Certo deve ter succedido grande catastrophe, pois de outro modo não se explica que haja tantas victimas e tantos restos de navios destroçados. Que opinião é a vossa?

—Se fosse a esquadra turca?—atreveu-se a insinuar o tenente Cassio olhando para o chefe, em cujos olhos surprehendeu um relampago de alegria, ao ver que encontrava alguem, e nada menos do que um homem ponderado, que pensava como elle.

—Neptuno foi tão propicio durante a vossa viagem, general, disse por sua vez Iago com servil adulação, que não admiraria nada que levasse a protecção que vos dispensou até ao extremo de livrar-vos sem combate dos vossos inimigos.

—De qualquer maneira, respondeu Othello, sorrindo affavelmente ao alferes, seja ou não a Providencia que nos auxiliou, é indubitavel que não podemos queixar-nos da sorte, e que esta corôariadignamente a sua obra e, ao chegar a Chypre, encontrassemos comprovada a opinião do tenente Cassio que, seja dito com franqueza, foi tambem a minha.

Não tiveram de esperar pela chegada a Chypre para saberem da destruição da esquadra turca, de modo innegavel.

N'aquelle mesmo dia encontraram uma lancha tripulada por seis naufragos, todos soldados otomanos, os quaes, depois de serem recolhidos no navio e tratados com todos os cuidados e attenções que a sua lamentavel situação exigia, agradecidos á generosidade que Othello usava para com elles, lhe contaram minuciosamente todos os detalhes da espantosa catastrophe, na qual desapparecera toda a esquadra, exceptuando duas embarcações que, partidas e sem léme, acabaram por perder-se no horizonte á vista dos naufragos, sem que pudessem dizer o que fôra d'ellas; mas a julgar pelo deploravel estado em que as havia posto a tempestade, era mais do que provavel que houvessem acabado por ser tambem tragadas pelo Oceano.

Julgue-se, pois, a impressão que tão faustas noticias fariam nos ditosos viajantes, que viam desapparecer n'um minuto os perigos que ameaçavam a Republica de Veneza, para elles mil vezes mais temiveis e angustiosos, pois lhes tinham ameaçado até então a popria vida.

Quando por fim a desarvorada galera capitanea fez a sua entrada triumphal no bellissimo porto da ilha de Chypre, onde já era tambem conhecidaa destruição da esquadra turca, o regosijo e a alegria não tiveram limites; Othello e Desdemona foram recebidos com o fervente enthusiasmo que só se tributa aos heroes, e toda a população distincta da ilha, com o governador Montano á frente, correu a visital-os ao palacio em que se haviam installado, para tributar-lhes sincera e franca homenagem de admiração e de estima.

Othello, pela sua parte, ao assumir, n'aquella mesma tarde, o comando supremo de Chypre, decretou em nome da Republica veneziana festas geraes durante todo o resto do dia e até á meia noute, para que o povo celebrasse, cada qual consoante a sua vontade e gosto, o ter-se livrado, tão feliz como inopinadamente, do terrivel e feroz inimigo que pretendera apoderar-se da ilha.

Em seguida, e apenas anoiteceu, retirou-se para o Palacio em companhia de Desdemona, pedindo a Montano para ainda fazer as suas vezes durante a noute, pois alem de estar fatigado, devido á accidentada viagem, era essa tambem a primeira noite em que, desde que se unira a Desdemona, podia encontrar-se a sós e tranquillo com a formosa e virginal esposa.

Montano, como póde suppor-se, accedeu promptamente ao desejo do general governador de Chypre, offerecendo-lhe cumprir o seu encargo de vigiar cuidadosamente os guardas durante a noute, tanto para acudir ás desordens e escandalos resultantes de todas as festas populares, como para não abandonar a vigilancia do porto que, não obstante o desastre casual soffrido pelos turcos,era presa demasiado cubiçada por elles para se descurar, um momento que fosse, observando com semelhante prevenção o famoso e prudente proverbio latinosi vis pacem, para bellum, que deve ser sempre a divisa de todo o bom militar.

Caiu a noute sobre Chypre com os melhores auspicios e em meio da alegria de todos os seus habitantes que, já livres das tristes preoccupações que os haviam atormentado até ali se entregaram inteiramente ao gozo das festas que haviam organizado.

Ao dizermos todos os habitantes, devemos descontar dois muito nossos conhecidos, que já não participavam do regosijo commum, e recolhidos n'um angulo do edificio que servia de quartel á guarda encarregada da vigilancia do porto, conversavam animadamente e em voz baixa de assumpto que, a julgar pelo aspecto e gestos de ambos os interlocutores, devia ser de grande interesse para elles.

Estes dois personagens eram Iago, o alferes de Othello e o seu nobre companheiro Rodrigo, sobrinho de Barbancio e desprezado amante de Desdemona, o qual não deixára ainda o disfarce de marinheiro, por assim o ter aconselhado o amigo, como medida de prudencia.

O dialogo que segue porá os nossos leitores ao corrente do assumpto que tratavam, e que, como já terão advinhado, não era outro senão o dos desditosos amores da ingenua victima do alferes.

—A avaliar por quanto pude ver desde que sahi de Veneza, dizia Rodrigo ao companheiro, asseguro-teque, se não fôres o proprio diabo em pessoa, te será difficil que eu consiga o amor da minha bella prima, que dia a dia me parece mais enamorada do horroroso marido.

—Trouxeste comtigo todas as joias e quanto dinheiro podeste reunir, segundo prometteste? perguntou tranquillamente Yago, sem dar a menor attenção ás palavras do amigo.

—Nas minhas malas tenho todas as alfaias de familia, que valem para cima de dez mil escudos de ouro, e quasi outro tanto em moedas novas venezianas e genovezas, respondeu Rodrigo.

—Com menos de metade se comprava, seduzia e conquistava uma rainha, ainda que abrigasse no seio um coração mais duro que as afiadas garras do leão de S. Marcos, disse o alferes em cujos olhos brilhou um clarão de cobiça, ao ouvir as palavras do companheiro.

—Não proponho comprar Desdemona, replicou este, por duas razões: a primeira porque a conheço bem e estou certo que não é mulher que se venda; e a segunda porque receberia um amor que se daria por dinheiro e não por natural correspondencia á paixão que inspira a mulher amada.

—Ta! ta! ta! cantarolou cynicamente Yago, tudo isso são cantatas, bôas, quando muito, para servir de assumpto a rimances cantados por trovadores, depois de opipara ceia em noute de festa. A tua bella prima é como todas as mulheres, e todas as mulheres são como as andorinhas. Namoram-se de tudo quanto brilha; por issotua prima se enamorou de Othello, porque a seus olhos brilhou mais do que todos os nobres venezianos, devido ao inegavel esplendor das suas maravilhosas proezas.

—Que devo então fazer? perguntou Rodrigo, contemplando Yago com irritação não isenta de espanto. Não me asseguraste que Desdemona está enamorada do marido?

—Nem mais, nem menos, respondeu fleugmaticamente Yago. Mas, por dizer-te que está enamorada, não significa semelhante affirmação que o esteja sempre. O amor de tua prima, nobre Rodrigo, crê piamente no que digo, pois sou homem de experiencia, não é amor verdadeiro, mas ficticio; o que poderiamos chamar amôr de imaginação.

—Como! exclamou, cada vez mais surprehendido, o joven veneziano.

—O que acabo de proferir, continuou o alferes, é precisamente a phrase approximada e perdoa que me gabe ao dizer-te que muito feliz fui em a ter encontrado: um amor de imaginação. O brilho que vê em Othello, e que a deslumbrou, não é outra coisa senão o que se vê nos heroes dos romances, que é precisamente como se apresenta o marido aos olhos de Desdemona. Ella vê o heroe, sempre o heroe. Pergunta-lhe pelo homem, e não saberá responder-te.

—Porquê? perguntou Rodrigo, verdadeiramente interessado.

—Simplesmente porque o homem não existe para ella nem, felizmente para o que respeita aOthello, se preoccupa de procural-o; no dia em que tal faça, o marido está perdido e o mesmo será no dia em que o encontre.

—Não te comprehendo, interrompeu o joven veneziano, que, como todos os seus eguaes d'essa epocha, estava pouco habituado a torturar o cerebro, sentia enorme confusão perante semelhante embroglio para elle inintelligivel.

—Porque não queres comprehender-me, replicou Yago com a mesma tranquilidade do gato que brinca cem o rato. E se não, continuou dizendo, ouve-me attentamente e verás como te explico tudo, em quatro palavras, verás como entendes: tua prima é mulher, não é verdade?

—Essa é de cabo de esquadra! exclamou irritado Rodrigo. Pois que outra coisa poderia ser?

—Não te abespinhes, homem, não te abespinhes! De vagar se vae ao longe e nao tardarei em chegar onde quero, disse o alferes que, semelhante n'isto a todos os miseraveis, se comprazia em atormentar a victima. Responde: é mulher ou não?

—Quem duvida?

—Ninguem, por certo. Ora como mulher, necessitará de um homem que lhe satisfaça as exigencias do organismo; um homem que ame fisicamente, entendes-me agora, alma de cantaro?fisicamente, porque o amorfisicoé o unico que póde convir á vida de uma mulher, quando as paixões imaginativas e novelescas, como a agora experimentada por ella, se evaporam e fogem ante a fortaleza brutal dos gritos da carne.

—Bem, de accordo, respondeu Rodrigo que ia começando a comprehender o companheiro.—Mas aonde queres tu ir parar com todas essas philosophias?

—Simplesmente a uma conclusão que não admitte duvidas: tua prima está hoje satisfeita e enamorada porque não vê mais do que o lado poetico do marido, e ainda não se fixou na cara, linguagem, gestos, e no mais que n'elle existe de tosco, de selvagem e de brutal. Mas como o seu amor não póde alimentar-se de sonhos, e um beijo dado por uns labios humidos e vermelhos vale mais para uma mulher do que toda a poesia do mundo, no dia em que esse tigre africano despertar torpemente a carne da mulher, o que n'este momento está fazendo, asseguro-te que, ou não ha senso commum sobre a terra, ou apenas Desdemona se inteire do que então ignorava, quer dizer, de que tem sexo, o negro estará perdido para ella, completa e irremediavelmente perdido. Talvez, nas suas horas de tédio, o recorde e até careça d'elle, como se recorda e se carece, em determinados momentos, de uma historia interessante ou de um fragmento de poema; mas, durante os parentesis da realidade, que são os maiores da vida, precisamos todos, e ella tambem, coisa mais substanciosa e mais pratica: o gastrónomo, carne fresca e appetitosa que desfaça nos dentes; e o amante, carne mais fresca e mais appetitosa que lhe palpite nos braços! Já vês que n'este pobre mundo tudo é questão de carne, meu caro amigo! Ah! ah! ah!

E, ao dizer estas palavras o miseravel soltou uma gargalhada cynica e estrepitosa, gozando em desfolhar, uma a uma, as poucas flôres da illusão que ainda vicejavam no coração de Rodrigo.

—Assim, pois, continuou dizendo quando acabou de rir, confia em mim e não tortures a cabeça com supplicios inuteis.

«A noiva de Othello será tua, porque assim jurei e não falto nunca aos meus juramentos, disse com um sorriso de escarneo quasi imperceptivel. E proseguiu acto continuo:

«Apenas terás de me ir entregando joias e dinheiro, á medida que eu vá pedindo, para captivar com ellas o coração de minha mulher, que é o anjo da guarda do Paraiso, e seduzir tambem a coração de Desdemona. Já vês que sou imparcial na minha opinião com respeito a mulheres, terminou o mizeravel, pois que não sendo a minha das peores, não lhe dou mais valor do que positivamente tem.

—E julgas, realmente, que Desdemona se deixará captivar por fim, com dadivas e presentes? perguntou o infeliz apaixonado, cuja certeza a respeito da virtude da prima começava a fraquejar, combatida simultaneamente pelos proprios desejos e pelas perfidas theorias do ruim amigo.

—Dá tempo ao tempo e depois te convencerás do que digo, proseguiu Iago com a firmeza de quem tem certo o triumpho.

«Dá-me tudo o que te pedir e deixa o resto por minha conta. Não te preoccupes mais com tal assumpto e presta attenção, e ao dizer estas palavras baixou a voz e adoptou uma attitude mysteriosa;ha outra coisa e outra pessoa que constituem um grande perigo para os teus amores.

—Que queres dizer?—perguntou Rodrigo sobresaltado.

«Explica-te mais claramente porque os teus enigmas apenas servem para me atormentar.

—É certo! exclamou Rodrigo empallidecendo; até agora ainda não tinha dado importancia a semelhantes detalhes; mas acabas de abrir-me os olhos, e não ha duvida que tens razão de sobra para assim fallares. Que infame! acabará, talvez, por entender-se com Cassio, procurando n'elle o homem a que ha pouco te referias? Se assim fôr, posso perder as ultimas esperanças, pois o meu amor não se verá jámais correspondido!

—Enganas-te, porque estou eu aqui para o evitar respondeu Iago, fingindo carinho affectuoso.—Tenho o meu plano. Esta noute preciso que me ajudes, para varrer esse empecilho, de fórma que não torne a molestar-nos em vida.

—Como?—perguntou Rodrigo.

—É muito simples; primeiro que tudo, é perciso fazer que Cassio, perca a estima de que desfructa junto de Othello, e que este o demitta do seu posto de tenente, para dar-m'o. D'este modo, affastado para sempre do general, não terá pretexto para approximar-se de Desdemona e todasas suas seducções e artificios resultarão completamente inuteis. Entretanto eu, investido nas funcções do meu novo cargo, poderei converter-me em sombra do mouro e, por conseguinte, de tua prima, e não me parece necessario encarecer as vantagens que poderás tirar d'isto para os teus amores.

—É certo!—exclamou o moço veneziano, contemplando com admiração e gratidão o amigo—Mas como te vais arranjar para levar a cabo o teu plano e em que poderei auxiliar-te?

—Da maneira seguinte: d'aqui a uma hora, pouco mais ou menos, vou cear em companhia de Montano e de Cassio no quartel que existe n'este mesmo edificio. O tenente é tão mau bebedor que não póde resistir a um só copo do riquissimo vinho d'esta ilha. Ora bem; hei de fazer o possivel para que beba dois ou tres, o que bastará para o embriagar como a qualquer mendigo e, em seguida, busca sahir-lhe ao caminho e, sem o provocar, farás que te dirija algum insulto, cousa que não será difficil, porque quando está bebedo, é aggressivo. Replicar-lhe-has acto continuo e continuarás discutindo até conseguires que te bata. Como farás tudo isto, procurando não te affastares do quartel, onde se effectuará a ceia, gritarás de modo que Montano e eu possamos ouvir-te. Então acudiremos ambos, eu occupar-me-hei de ti, e deixaremos que os dois se entendam, na certeza de que Cassio, homem sereno e senhor de si quando está no estado normal, é indiabradamente provocador e insultante quando se embriaga, o que lhesuccede poucas vezes na vida, e não deixará de puchar pela espada para responder com ella ás amigaveis indicações que lhe dirija Montano; fará sangue, certamente, e então entrarei eu em scena para armar tal escandalo, que Othello terá de inteirar-se necessariamente do caso. Ora bem; como não transigiria nem com o proprio filho em pontos de disciplina, surprehenderá Cassio em falta grave, precisamente no momento de guarda, e affirmo-te que o teu provavel rival não tornará a pôr no peito a divisa de tenente, que passará a ser minha, e que, a partir d'esta noute, poderás viver completamente tranquillo.

—E estás bem seguro do teu plano?—perguntou Rodrigo ao alferes, quando este acabou de narrar o infame projecto, que o joven veneziano escutára com profunda attenção.

—Certissimo—respondeu Iago—Só preciso que prestes o serviço que te peço.

—Conta comigo—prometteu o sobrinho de Brabancio, decidido a tudo para conseguir o amor de Desdemona.

—Então, mãos á obra—respondeu o alferes levantando-se e apertando a mão do companheiro.—N'este mesmo sitio estás perfeitamente para fazeres quanto te indiquei, porque Cassio sahirá por aquella porta—apontou, indicando uma que havia a poucos metros de distancia.—Espera-o aqui, executa fielmente as minhas instruções, e não duvides de que o triumpho será nosso.

E, acto continuo, o miseravel despediu-se do ingenuo Rodrigo e correu a pôr em pratica o diabolicoplano que concebera, não para ajudar o companheiro nos seus amores, como promettera, mas para perder um innocente a quem invejava, e supplantal-o no posto e no affecto de Othello.

**     *

Duas horas depois, o sino de alarme tocava desabaladamente no quartel situado junto da doca do porto, pondo em alvoroço toda a ilha, que começava a entregar-se ao somno passada a agitação da festa, e obrigando a saltar do leito, em sobresalto, o proprio Othello, que repousava docemente entre os bellissimos braços de Desdemona.

A minuciosa exposição que Yago fizéra a Rodrigo do plano que tinha in-mente, bastaria para que os nossos leitores tivessem noticia exacta de quanto havia succedido durante as duas horas que passaram desde a separação dos dois amigos até o momento em que o inesperado toque do sino de alarme levou a inquietação e o desassocego a todos os habitantes de Chypre, incluindo n'este numero o proprio Othello.

Mas, se, para maior clareza da narração é imprescindivel por um lado conhecer a descripção pormenorisada do succedido e assim chegar ao desenlace d'esta tragica historia sem uma solução de continuidade que prejudicaria notavelmente a comprehensão dos factos; pelo outro, seria impossivel, omittindo tal narração, seguir passo a passo as interessantes e accidentadas peripecias do complicado drama cuja base principal assenta na ambiçãoe na inveja de uma alma perversa, nascida para a infamia e para o crime.

Assim, sigamos Iago no momento em que, ao separar-se do primo de Desdemona, entrou no quartel onde, á entrada, o estavam esperando para a ceia o tenente Cassio e o nobre Montano, governador da ilha de Chypre e representante da Republica Veneziana, na ausencia de Othello.

—Boa noite, prudente Cassio; saude e prosperidade, illustre Montano, cumprimentou o alferes ao entrar, dirigindo-se aos companheiros e superiores.

—Graças a Deus que vieste; julgavamos que tivesses esquecido que te esperavamos! exclamou Cassio ao vêr entrar o amigo.

—Pelo que prevejo, interrompeu Montano esboçando um sorriso malicioso, este bom Iago, apezar de ter uma esposa deveras formosa, não faz má cara ás mulheres do proximo, especialmente quando são jovens lindas; e como abundam em Chypre as que reunem estas duas qualidades, graças sejam dadas ao Amôr e a Venus, certamente se atrazou, dando uma volta pelas ruas da ilha, com o perverso proposito de render alguns corações mais do seu gosto.

—Acertaria no alvo o vosso gracejo, se visasseis o nosso tenente, que tem, na verdade, fama de irresistivel com as bellas, replicou Iago esboçando um sorriso intencionado, de que só elle percebeu a transcendencia. Quanto a mim detesto as saias, por instincto de conservação, e não trocaria uma só garrafa de bom vinho de Chypre por todasas mulheres casadas, viuvas ou solteiras, que vivem na ilha.

—Parece-me, Iago, observou Cassio affectuosamente, que acabas de fazer duas affirmações duplamente exaggeradas: uma, aquella em que alludes á minha boa estrella junto das bellas, que seja dito de passagem, só existe na tua imaginação, pois confesso-te que, até agora, não tenho na minha folha de serviços uma só conquista que valha referencia.

—Nunca é tarde quando a sorte nos sorri, replicou astutamente Iago.

«Ha quem assegure que estás a caminho de entrar por assalto n'uma praça que mais de um nobre veneziano, teu compatriota, invejaria.

—Não te comprehendo, respondeu Cassio com estupefacção tão profunda como sincera retratada no semblante.

—Saibamos, saibamos que praça é essa e veremos se é digna de disputal-a o bello Cassio! exclamou alegremente Montano.

—Se elle guarda segredo, não sou eu que tenho o direito de desvendal-o, disse hypocritamente o alferes.

—Guardo segredo porque não sei a que aventura te referes, respondeu Cassio de boa fé. Explica-te, peço, porque conseguiste intrigar-me.

—Modestia, pura modestia, discreção levada até á mudez! disse rindo o alferes. Cassio, felicito-te porque és um cavalleiro digno de ter vivido nos bons tempos do rei Arthur. Mas, continuou, dando deliberadamente outro rumo á intencionalcharada, cada vez me convenço mais de que o mundo está cheio de paradoxos e nós proprios o somos.

—Porquê? perguntou Montano com estranheza.

—Nada mais simples, respondeu Iago. Vocês esperavam-me com impaciencia, o que evidentemente accusa um apetite devorador; por minha parte tambem declaro que não vinha menos resolvido a entender-me com uma boa ceia. Pois bem, em vez de aproveitarmos o tempo predispondo o estomago com meia duzia d'essas veneraveis garrafas que nos escutam, para entrarmos depois heroicamente pelos manjares, estamol'o perdendo lastimosamente, fallando de mulheres, isto é, do assumpto menos substancial e mais perigoso que pode tratar-se entre cavalleiros.

—Indubitavelmente esta noute estás pouco amavel e galanteador para as damas, valente Iago, respondeu Montano rindo.

—Nem mais nem menos do que n'outras occasiões e nem menos nem mais do que o merecem, disse Iago.

E passando em revista meticulosa as garrafas poeirentas que se viam sobre a mesa artisticamente posta, pegou n'uma de respeitavel antiguidade, a julgar pelo aspecto e pela marca que ostentava na rolha, abriu-a e encheu de riquissimo e perfumado vinho os copos dos companheiros e o d'elle. Seguidamente e sem dizer palavra, bebeu-o de um trago e fez estalar a lingua com a placida expressão de um bebedor satisfeito.

Montano fez com o copo o mesmo que Iago fizera com o d'elle; mas o tenente Cassio contentou-se com leval-o aos labios e humedecel-os ligeiramente com o dourado nectar.

—Como! exclamou Iago apparentando indignação e assombro ao ver que o seu amigo voltava a por sobre a mesa o copo tão cheio como o levantára. Não bebes comnosco, ou não aprecias este vinho, herdeiro directo da sagrada ambrosia com que Jupiter obsequiava de vez em quando os seus amigos do Olympo? ignoras, por ventura, desgraçado, que o vinho de Chypre foi consagrado pela historia, atravez dos seculos, até que vencendo o seu rival Falerno, teve a honra de toldar com frequencia o cerebro de Alexandre, de produzir as gloriosas alegrias de Alcibiades, de servir de vehiculo para o veneno que matou Britanico e de inspirar os versos de Nero e os pontapés que o imperial artista dava em Popêa para a expulsar dos festins, quando o estorvava nos seus desabafos amorosos com os mancebos romanos? Ignoravas isto, infeliz? Pois bem, é um peccado de lesa ignorancia, indesculpavel n'um homem ponderado como tu; mas, apesar de tudo, Montano e eu perdoamos-te com a melhor vontade do mundo, dado que honres o historico vinho como nós o honramos.

—Nunca bebo! respondeu gravemente Cassio.

—Porquê? perguntou com curiosidade Montano. É talvez algum juramento?

—Não, respondeu o tenente; a minha repugnancia em beber obedece sómente a que o vinhome ataca de tal modo a cabeça, que basta um copo para transtornar-me por completo e fazer de mim um homem absolutamente diverso de que sou no estado normal.

—Mas ceando, aventurou Iago, é outra coisa, e affirmo que não te succederá mal algum. Além d'isso, proseguiu alegremente para animar o companheiro, estás entre amigos e, se a bebedeira te der para dormir, mandar-te-hemos deitar n'um fôfo e confortavel leito, ou então rir-nos-hemos se te der para nos insultar.

—Um homem embriagado é um ente desprezivel, e por cousa alguma d'este mundo consentiria em chegar a semelhante e lastimoso estado.

—Pois bem, disse deliberadamente Iago; ceêmos; de qualquer forma, affirmo que saberei obrigar-te a brindar comnosco, dado o caso que o nosso exemplo não te leve por motu proprio a provar o historico nectar.

Acto continuo serviram-se os primeiros pratos, e durante minutos apenas se ouviu o ruido produzido pelos dentes ao triturarem os tenros ossos das presas que devoraram.

Inesperadamente Iago levantou-se e enchendo os dois copos que ainda estavam vasios, pegou no d'elle e brindou:

—Pelo feliz matrimonio do nosso general e para que nunca veja perturbado com a mais ligeira nuvem o céu de seus amores com a bella Desdemona.

E dirigindo-se a Cassio, accrescentou:

—Atreve-te a recusar este brinde, e asseguro-teque Othello nunca te perdoará a descortezia, se um dia vier a sabel'a.

Cassio vacillou um segundo; mas, instado por Montano, que juntou os seus rogos aos do alferes, pegou no copo e bebeu-o de um trago dizendo:

—Á saude do general, e pela eterna felicidade do seu matrimonio!

E em seguida cahiu na cadeira, sombrio e taciturno, como arrependido de ter quebrado tão facilmente a resolução de permanecer sobrio.

Continuou a ceia, animada pela pittoresca conversação do alferes e pela alegria natural e espontanea de Montano, e, passado algum tempo, o primeiro voltou a erguer-se, encheu novamente os trez copos, e disse levantando o seu:

—Brindemos pela gloria e prosperidade de Veneza e pelo triumpho das suas armas sobre todos os inimigos!

Montano e elle emborcaram os copos d'um só trago; mas o tenente, sem despejar o seu, disse em tom resoluto:

—D'esta vez não beberei, já lhes fiz a vontade, apezar de contrariado, e por isso espero que não insistam mais.

—Prevês o que se dirá, replicou Iago, sem dar importancia ás palavras do amigo, quando se souber, e saber-se-ha comcerteza, porque as paredes teem ouvidos, que não quizeste brindar pela gloria de Veneza, depois de ter brindado pela felicidade do homem que te protege? Pois toda a gente affirmará, continuou, sem parecer notar oolhar colérico que lhe dirigia o companheiro, que não passas d'um adulador egoista, que pretende afagar os poderosos, para medrar á sombra d'elles, e que, como florentino afinal, te importa pouco que a Republica triumphe ou seja derrotada pelos seus inimigos.

Cassio cravou no miseravel um olhar ameaçador e apertando convulsivamente os queixos um contra o outro, como para conter as palavras que estavam prestes a escapar-lhe dos labios, pegou no copo e bebeu nervosamente até á ultima gôtta.

Outra vez proseguiu a scena, e foi então Montano quem, excitado já pelas libações, ainda que bastante senhor de si, encheu os tres copos e disse apresentando o seu:

—Pela total ruina do poderio turco, e para que o leão de S. Marcos destroce, definitivamente, nas suas garras, a orgulhosa meia lua!

O tenente Cassio, sem que em tal momento tivesse ninguem que o provocasse, foi o primeiro a tocar no copo do nobre anfitrião.

Mas, apenas bebeu o vinho que continha, soltou uma blasphemia, e cravando no alferes os olhos esgazeados, cuspiu-lhe á cara este insulto:

—Iago, és um miseravel!

Immediatamente arremessou o copo contra o solo e sahiu, cambaleando.

—É melhor seguil-o, pois vae em mau estado e pode praticar qualquer disparate! observou prudentemente Montano.

—Não te preoccupes com elle, illustre amigo,replicou Iago com indifferença, Já desabafou commigo e agora irá direitinho deitar-se e curtir a bebedeira.

«Conheço-o perfeitamente, pois ha muito tempo que o acompanho e sei que isto lhe succede com frequencia.

—Como! exclamou Montano admirado. Pois não nos affirmou que nunca bebe?

—Ora! respondeu o miseravel. Isso dizem por causa do general todos os bebedos que resistem pouco e teem, além de medo, mau vinho!

«Aposto dez escudos de ouro em como terás encontrado em tua vida muitos homens, que, como Cassio, teem, poderiamos assim chamar-lhe, o pudor da bebedeira, porque, quando recobram a razão, se envergonham da conducta que tiveram durante o estado de embriaguez.

«Isto, porem, rematou Iago, com malevola intenção, não os impede de tornar a beber, fazendo-se algo rogados para cobrir as apparencias e desculpar o juramento que costumam fazer a miudo, e de que se arrependessem nas occasiões opportunas.

—É certo! disse Montano convencido. Confesso, porém, ter chegado a acreditar ser Cassio um homem de caracter, incapaz das ridiculas pechas dos espiritos fracos. Desprezo os homens que não teem o valor da convicção das suas qualidades e dos seus vicios, e nunca pensei que o tenente de Othello pertencesse a semelhante classe de individuos.

—Porque não o conheces, volveu perfidamenteIago. Quanto a mim, estou habituado a estas scenas, e, como sempre que bebe, me insulta, ouço os ultrages como quem escuta a chuva. Isto te foi dado observar ha pouco.

—Sem duvida, disse Montano n'um tom affectuoso. Bem pode dizer esse bebedo que tem em ti um verdadeiro amigo.

—Sim, estimo-o, respondeu Iago, e prefiro, por isso, que desabafe comigo, a que o faça com outro qualquer; pois o insulto poderia acarretar-lhe desgosto sério, como já por vezes tem estado a ponto de succeder-lhe, quando não me encontro junto d'elle.

—Mas, pôe-se de tal modo quando bebe? Perguntou Montano.

—É verdadeiramente insupportavel; para qualquer outro que não tenha a minha paciencia, torna-se aggressivo e turbulento, e não ha meio de reprimir-lhe as insolencias senão castigando-o severamente.

—N'esse caso, observou Montano em tom de pezar, repito que fizemos mal em o deixar sair d'aqui... Quem sabe, se...

Não poude terminar a phrase, porque n'aquelle momento faziam-se ouvir, não longe d'ambos, os gritos espantosos de um homen que pedia auxilio desesperadamente, e antes que tivessem tempo de se refazerem da surpreza, entrou na sala, com flecha, um individuo vestido de marinheiro, que vinha seguido de perto pelo tenente Cassio. Este proferia a tropel blasphemias e maldições agitando a espada que empunhava.

—Hei de espetar-te como um frango, meu grande tratante! gritou o tenente ao entrar em casa, apóz o marinheiro, o qual, como já terão adivinhado não era outro senão Rodrigo, que havia seguido fielmente as instrucções dadas por Iago para a execução do plano.

—Socorro, socorro, que me mata! gritou Rodrigo com voz que reboou por todo o edificio, despertando os homens de armas.

—Alto ahi, amigo Cassio! exclamou Montano severamente. O que fazes não é proprio de cavalleiro!

—Se ha aqui alguem que não seja cavalleiro, esse és tu, covarde defensor de malandrins, respondeu gritando Cassio, emquanto ameaçava de tal modo Montano com a ponta da espada, que o defensor de Chypre teve de dar um salto para traz e arrancar da que trazia para defender-se, pois corria o risco de ter o peito atravessado pela lamina do adversario.

Limitou-se, porém, a aparar os ataques furiosos que lhe dirigia o tenente, completamente fóra de si, emquanto Rodrigo, Iago e os soldados que haviam acudido, armavam tal barulho com as exclamações e gritos, que o escandalo não tardou em propagar-se desde o porto até ás primeiras ruas da ilha cujos pacificos habitantes perguntavam assustados o que se passava, julgando-se ameaçados por qualquer invasão de turcos.

Entretanto seguia Montano defendendo-se dos ataques do tenente. Mas, num movimento que fez, ao aparar terceira estocada, teve a desgraça deferir-se, ficando a descoberto, e recebendo em pleno peito a ponta da espada do adversario, que se lhe enterrou duas pollegadss na carne.

Cahiu no solo o nobre patriota, emtanto que os soldados conseguiam desarmar Cassio, que ficára como attonito ao ver Montano por terra. Entretanto Iago escapou-se sem ser visto e logrou assim chegar até o sitio onde estava a sineta de alarme, pela qual puxou furiosamente por bom espaço de tempo.

Os repetidos e violentos toques acabaram de pôr em alvoroço toda a ilha, cujos moradores saltavam apressados dos leitos, tomados do maior panico.

Armou-se uma confusão indescriptivel, e um dos primeiros a abandonar o repouso e armar-se foi Othello, que, depois de acalmar quanto possivel a inquietação de Desdemona, sahiu do palacio, seguido de alguns officiaes, para inquirir as causas de semelhante escandalo nocturno.

Não tardou em averiguar que a origem do reboliço partira do corpo da guarda situado no porto; e quando, ao apresentar-se alli, encontrou Montano ferido, Cassio desarmado e preso de um atordoamento indiscriptivel, que lhe impedia dar qualquer explicação, e Iago lamentando-se tragicamente do occorrido, ficou profundamente admirado; não tardou, porém, em succeder ao assombro uma cólera tal, que fez estremecer de terror quantos conheciam os terriveis arrebatamentos de tal homem, exceptuando o alferes que, longe de atemorizar-se ao ver o general dementado pelacolera, sentiu o maior jubilo, enforçando-se todavia para não o dar a conhecer, porque, por muito, que devesse regosijar-se ao ver o exito alcançado pelo seu infame plano, a manifestação mais ligeira de tal regosijo teria sido uma imprudencia que lhe podia custar cara.

Conseguintemente, em vez de se mostrar satisfeito, accentuou mais ainda a tristeza da attitude e o tom das lamentações, e quando Othello lhe ordenou severamente que o informasse de todo o occorrido, o miseravel fez um relato permenorisado, tratando de desculpar apparentemente o amigo, mas, na realidade, aggravando de tal modo a sua conducta e as consequencias possiveis do escandalo a que havia dado logar em taes circumstancias, empregando phrases tão campciosas como intencionadas, lamentando com tão bem simulada sinceridade que por uma ligeira imprudencia, segundo elle dizia, se tivesse chegado até ao extremo de tocar o sino de alarme e interrompido o somno do seu general; fez resaltar, em seguida, com, tão perfida astucia, o desastroso effeito que a grave ferida do nobre compatriota podia causar nos habitantes da ilha, ainda que, segundo accrescentou, Cassio nunca fizera tal cousa a não ser sob o imperio da embriaguez; apresentou n'uma palavra, tão avultados os factos, fingindo diminuil-os, que, quando acabou a narração, condimentada com protestos de lealdade para com Othello e de sincero affecto para Cassio, o general completamente enganado pelas palavras do traidor, e muito mais irritado contra o tenente do queantes de ter ouvido Iago, estendeu-lhe afectuosamente a mão, e disse:

—Vejo que te conduzes para comigo com a mesma prudencia e fidelidade de sempre, emquanto este homem, e indicou Cassio que permanecia a alguma distancia, aguardando ordens e já completamente sereno, abusa da minha confiança pelo modo indigno como procedeu esta noute.

«Pois bem: saberei dar a cada um o que em justiça lhe corresponde. Tu, meu bom e fiel Iago, não continuarás muito tempo sendo alferes, prometto; e quanto ao que diz respeito, accrescentou levantando a voz e dirigindo-se a Cassio, a partir d'este momento ficas exonerado do teu cargo de tenente e privado da minha amizade, de que tão indigno te mostraste.

—Mas general, tratou de intervir hipocritamente Iago, emquanto lhe brilhava nos olhos um fugitivo relampago de infernal alegria, vêde que o castigo é excessivo para a falta!

—Se é, ou não só me compéte julgal-o, replicou Othello. Silencio e acompanha-me ao Palacio.

E, levando após si o traidor e o jubiloso alferes, Othello abandonou o corpo da guarda, deixando Cassio, entregue á desesperação que lhe causava o ignominioso castigo que acabava de soffrer e ver-se privado do affecto e estima de um homem a quem realmente amava como a irmão.

Montano, cujo ferimento não era tão grave como todos haviam imaginado, principalmente como Iago havia feito suppôr a Othello, foi o primeiro em interceder a favor de Cassio para que se não attentasse contra a liberdade do tenente deposto; e esta intercessão, unida aos costumes da epocha, infinitamente mais tolerantes de que os actuaes especialmente com os que diziam respeito ás questões sangrentas derimidas entre cavalleiros, foi o sufficiente para que ninguem se preoccupasse com o desditoso official e o deixassem viver tranquillo.

Mas, como se comprehenderá, esta tranquilidade só podia referir-se ao que representava a segurança pessoal de Cassio; o que pouco lhe importava, preoccupado como estava, até á desesperação, pelo castigo que lhe haviam imposto: o mais doloroso que poderia ter soffrido, especialmente selevarmos em conta que a esse castigo ia unida, como dissemos no capitulo presente, a privação da amizade e da estima do chefe.

Cassio, pois, não parecia o mesmo desde a amaldiçoada noute em que se desenrolaram os lamentaveis factos que narrámos; concentrando-se constantemente no desconsolo e na tristeza mais profunda, permanecia sempre só, fugindo do convivio e da vista das pessoas e, mais do que de ninguem, do infame Iago; pois que uma especie de presentimento o fazia advinhar, ainda que muito vagamente, a parte activa que o miseravel tomára em todos os acontecimentos.

Não obstante, um dia em que segundo o costume que havia adoptado desde a noute fatal, se entregava aos seus solitarios passeios á beira mar, viu approximar-se o alferes de Othello, o qual se lhe dirigia com o sorriso nos labios.

Em tal sitio, onde não havia nenhuma casa, era impossivel a Cassio occultar-se, escapulir-se, ou responder com despreso ao cumprimento que lhe dirigiu o alferes; tal procedimento constituiria imprudencia perigosa, tanto mais que carecia de base solida em que apoiar as vehementes suspeitas que contra elle abrigava.

Por conseguinte fez das tripas coração, como se diz vulgarmente, e, ainda que com instintiva e invencivel repugnancia, correspondeu ao amigavel sorriso de Iago e apertou a mão que este lhe estendia, e que de boa vontade esmagaria entre os dedos.

Em breve a repulsão e antipathia começarama dissipar-se lentamente, para dar logar á surpresa e ao assombro, quando ouviu fallar o alferes, que se expressava d'este modo:

—Acredita, caro Cassio, que lamento o succedido, ainda mais profundamente que tu; pois não ha duvida de que, em rigor, eu sou o unico causador de tudo o que deu motivo a tão lamentavel occorrencia, com a minha insistente imprudencia, obrigando-te a que bebesses. Conhecendo-te como te conheço e sabendo o inimigo que és do vinho, e que não resistes a um só copo, o meu dever era evitar a todo o transe a tentação de brindar, em vez de induzir-te estupidamente a tal. Foi o que fiz, em má hora para todos. Perdoa-me, pois, como me perdoou Montano, de cujo ferimento sou o verdadeiro culpado, ainda que indirectamente, e ao qual já dei as explicações que devia para justificar-te a seus olhos como mereces; perdoa-me, repito, e acredita que, se á custa do meu sangue pudesse evitar por completo o occorrido e fazer desapparecer as suas consequencias, fal-o-hia de boa vontade.

Cassio deixou fallar Iago sem o interromper, e embora as palavras do alferes causassem n'elle á medida que o traidor as proferia, a extranha impressão que dissemos anteriormente, limitou-se a responder com visivel frialdade:

—Bem! Quem se lembra já de semelhante cousa? O que está feito, está feito, e o melhor que podemos fazer é esquecer.

—Não, por Deus, querido Cassio!

«Eu, pelo menos, longe de esquecer, devo recordarconstantemente, para que, servindo-me de exemplo esta rematada asneira, me impeça de para o futuro praticar outra egual. Depois, proseguiu alegremente, isso de o facto não ter remedio parece mais conforme com o fatalismo do nosso general, do que com a grandeza de criterio de um sabio florentino como é o tenente Cassio.

—Já não sou tenente de Othello, replicou Cassio com tristeza. Estavas presente quando me depoz e me negou a sua amizade.

—Se o não és, não tardarás em sel-o de novo, affirmou intencionalmente Iago.

—Que queres dizer?—perguntou Cassio, cada vez mais surprehendido e começando a arrepender-se finalmente de ter suspeitado da amisade do alferes.

—Quero dizer—respondeu este dando-se ares de protecção carinhosa para com o antigo camarada,—que conheces mal os homens e que és demasiado leviano para te entregar á desesperação.

—Que conheço mal os homens?—exclamou Cassio corando, pois que adivinhava a quem a phrase intencional do amigo visava.

—Sim, conhecel-os mal—insistiu Iago—e desconfiaste de mim. Vamos, confessa—accrescentou batendo affectuosas palmadas no hombro do amigo.

—Juro-te...—replicou Cassio.

—Não jures—interrompeu-o o alferes—porque mentirias, e isso é indigno de ti. Mas para vingar-me como devo da maneira como pensaste ameu respeito, vou castigar-te dizendo que, á força de atormentar o cerebro procurando a maneira de remediar efficazmente todo o occorrido, estou seguro de ter dado com um meio que, não só te devolverá o posto, mas que te ganhará tambem de novo a amisade e a estima de Othello.

—Como! exclamou Cassio, admirado, estreitando agradecido a mão do alferes.

—Muito simplesmente—respondeu este—por meio de Desdemona.

—De Desdemona? Não te comprehendo—disse Cassio.

—Pois a coisa não pode ser mais clara—replicou Iago com convicção absoluta.—Vejamos: não foste tu, durante muito tempo, o unico confidente dos amores de Othello e da bella filha de Brabancio?

—Certamente—respondeu Cassio, mas ignoro como podeste saber isso, que é segredo para toda a gente.

—Menos para minha mulher Emilia—rectificou Iago—pois Desdemona não tem segredos para ella. Mas, adiante; fallemos do que importa. Assim pois, a esposa do nosso general deve estar, e está, profundamente agradecida, pois deve-te primeiro que tudo, a felicidade de que disfructa e o amor de Othello. Além d'isto, consta-me que tem em grande estima o teu cavalheirismo e o teu talento, e que te aprecia tanto quanto póde apreciar outro homem uma mulher apaixonada do marido.

—É certo—concordou ingenua e modestamente Cassio—que Desdemona me distinguia entre os outrosofficiaes do seu esposo. Mas d'esta distincção á sympathia que dizes dispensar-me, ha muita distancia, e creio que a tua grande estima por mim, te faz exagerar e não pouco.

—As mulheres não sabem equivocar-se, nem exagerar n'este sentido—replicou perfidamente Iago—e a minha assegurou-me o que te acabo de dizer, por tel-o ouvido dos proprios labios de Desdemona.

«Que dizes agora a isto?

—Digo—respondeu Cassio, córando, pois sem saber porquê sentia a vaidade ferida com as palavras do bandido—que mesmo que assim fosse, qual a vantagem que me advirio?

—Ainda o perguntas?—inquiriu Iago, simulando a mais perfeita admiração. Perdoa dizer-te que és o mais innocente dos mortaes, pois só uma candidez como a tua póde ignorar que, quem como tu, tem pela sua parte a mulher, conta tambem sem duvida, com o marido.

—De que forma?—perguntou Cassio, sem comprehender onde queria chegar Iago, que não fazia mais do que seguir a linha que traçára ao infame plano para envenenar o coração de Othello e anniquillar-lhe a existencia, destruindo a felicidade que elle encontrava no amor da esposa.

—Assombra-me a tua innocencia, ingenuo Cassio! exclamou Iago.—Perguntas-me de que modo has de arranjar-te para chegares até Othello tendo por mediadôra Desdemona?

—Sim, pergunto—confirmou, porque não vejo meio de me approximar da esposa do general, estando-meprohibida, ainda que tacitamente, a entrada no palacio.

—Indubitavelmente, se não tivesses quem te ajudasse—respondeu o miseravel—não te seria muito facil, não. Mas quem conta, como tu, com amigos resolvidos a tudo para te ajudar, consegue o que quer, se tem a coragem precisa para ganhar a partida.

—Como!—exclamou Cassio reconhecidissimo—Acaso tu?...

—Eu, precisamente não,—interrompeu-o o alferes; mas sim minha mulher, que, compadecida de ti e convencida pelas minhas supplicas, cedeu, a proporcionar-te uma entrevista com Desdemona, que sabe o que se passou e pende para o teu lado.

—E accedeu a receber-me?—perguntou anciosamente o tenente.

—Ás primeiras palavras que Emilia lhe disse intercedendo por ti—respondeu Iago,—e accrescentou que te receberia com muito gosto e que, com maior ainda, intercederia por ti junto do esposo, convencida d'antemão que alcançará o perdão da tua falta, fazendo que sejas reintregrado no posto de tenente.

—E quando julgas que lhe poderei fallar?—interrogou Cassio, com justificada impaciencia.

—Quando te agradar; agora mesmo, se quizeres—disse Iago.

—Agora mesmo?—exclamou Cassio surprehendido.—Está então prevenida da minha provavel entrada no Palacio?

—Desde esta manha, segundo me informou minhamulher. Apenas chegues, Emila conduzir-te-ha á sua presença.

O leal e ingenuo Cassio estreitou carinhosamente entre os braços o ignobil amigo, e disse-lhe com a voz tremula de commoção:

—Perdoa-me, caro Iago, pois tinhas razão quando disseste que chegára a duvidar de ti! Perdoa-me, repito, pois se soubesses que só e desgraçado me encontrava!...

—Não fallemos mais em tal!—interrompeu Iago dando-se ares protectores. Eu teria pensado o mesmo, e talvez não tivesse tido a nobreza de o confessar, como acabas de fazer. Esqueçamos, pois, essas criancices, occupemo-nos sómente da tua completa rehabilitação junto de Othello. Estás decidido a fallar com Desdemona esta noite?

—Quando quizeres—respondeu Cassio, que se sentia tornar á vida desde que, com as palavras do falso amigo, lhe havia dado entrada no coração a esperança.

—Pois vamos, e não percamos tempo—disse Iago tomando o braço do camarada e encaminhando-o para o Palacio.—Consta-me que Othello não se encontra agora no Palacio e, por conseguinte, não póde haver occasião tão opportuna como esta para encontrar Desdemona só e poderes fallar da tua causa com o maior enthusiasmo; ainda que, como já te informei, pouco terás a dizer, porque a esposa do general é em teu favor e defenderá a questão até conseguir ganhal-a, sem duvida alguma.

—Tenho um escrupulo—observou Cassio, parando,em seguida, e obrigando Iago a deter-se.

—Qual?—perguntou este, franzindo ligeiramente as sobrancelhas, porque se Cassio não se prestasse a seguil-o, cahiria pela base todo o edificio do infame projecto que tramára para acabar de perder quantos lhe eram odiosos.

—Se Othello—respondeu Cassio,—sabe que visitei o palacio e fallei com a esposa a occultas, isto longe de predispol-o em meu favor, irrital-o-ha mais ainda contra mim do que já está. Perderemos então terreno, em logar de o ganhar.

—Em primeiro logar—ponderou astutamente Iago,—Desdemona se encarregará de lhe explicar satisfactoriamente tudo, com o que ficará bastante justificada a tua conducta; depois, este passo acabará de o convencer de que estás decidido a tudo para recuperar a sua estima e affecto.

«Além de que—terminou—o mais provavel, poderemos dizer o quasi certo, é que não chegue a saber da tua visita ao castello, pois entrarás por uma porta occulta e minha mulher estará esperando, para levar-te á presença de Dedemona, sem que possa surprehender-te nenhum corioso indiscreto. Já vês, que tudo está bem preparado e que não tens nada a recear.

Para fallarmos a verdade, tal mysterio, tal jogo de palavras e de precauções para afinal penetrar clandestinamente e como um ladrão na moradia do seu antigo general, nada menos que para fallar a Desdemona sem consentimento do esposo, não acabaram de convencer o leal e honrado official de Othello; mas como, apesar de tudo, não tinhapor onde escolher e queria a todo o custo recuperar o cargo perdido e a affeição do chefe, deixou-se levar docilmente pelo infame amigo até ao palacio do governador, no qual entrou, como havia dito Iago, por uma porta occulta, junto da qual o deixou o alferes, affirmando-lhe que o viria buscar mais tarde para que o puzesse ao corrente do resultado da entrevista, ainda que este não podia ser senão completamente satisfatorio.

Conforme disséra Iago, Emilia esperava Cassio por detraz da tal porta, e apenas o tenente entrou, conduziu-o, atravez de corredores e galerias estreitas, até aos aposentos de Desdemona, sem que ninguem suspeitasse da sua mysteriosa visita ao Palacio.

A pura e formosissima esposa de Othello, que realmente apreciava Cassio, cujas excellentes qualidades conhecia e estimava, bem como a cega dedicação do official pelo mouro, recebeu-o affectuosamente, ouviu-o com a attenção e benevolencia de uma irmã e prometteu alcançar o perdão de Othello, ao qual fallaria em seu favor n'aquella propria noute, explicando-lhe a verdadeira causa do succedido, e apresentando o cavalheiroso e leal Cassio tal como este realmente era, e não como o havia feito apparecer aos olhos de todos e, principalmente aos do general, um conjuncto de circumstancias desgraçadas.

Cassio, derramando lagrimas de gratidão, ajoelhou ao despedir-se, para beijar a mão da sua protectora, vendo, louco de alegria, que voltava a brilhar para elle o sol da esperança.

Desgraçadamente, no momento em que pousava os labios na nivea mão de Desdemona appareceu Othello ao fundo do largo corredor que dava accesso ao salão em que se encontravam a esposa e o tenente.

O general, que vinha acompanhado de Iago, estremeceu violentamente ao ver Cassio de joelhos ante a esposa e beijando-lhe a mão.

A colera que experimentou só póde comparar-se ao indescriptivel assombro que lhe tomou os sentidos durante alguns momentos, deixando-o cravado no mesmo sitio e sem poder pronunciar uma só palavra. Quando tornou a si e seguiu avançando até onde se encontrava sua esposa, Cassio já tinha desaparecido, pois que a inesperada presença do general desconcertou-o de tal modo, que, sem prever as consequencias da sua fuga, nem atender a outra cousa do que ao receio de se encontrar frente a frente com Othello depois do imprudente passo que acabava de dar, abandonou o salão precipitadamente, sem dar attenção ás observações de Desdemona, que o aconselhava a ficar.

—Desde quando é permittido a esse bebedo e mal educado cavalheiro entrar em minha casa sem eu saber e atrever-se nada menos do que a beijar de joelhos a mão de minha esposa? perguntou Othello á jóven, em tom irado.

—Cassio não é nenhum bebedo e tão pouco mau homem respondeu docemente Desdemona. Pelo contrario, é o amigo mais fiel e mais leal que tens, e ha muito tempo que o provou, ajuntou ella olhando para Othello intencionadamente e alludindoaos valiosos serviços que o official havia prestado a ambos durante o periodo dos seus amores em Veneza e ás occultas do senador Brabancio, seu pae.

—Sei perfeitamente o que devo a respeito da lealdade d'esse e de todos os meus amigos, replicou brutalmente o mouro, sem necessidade de que ninguem mo recorde.

«De hoje em diante prohibo-te terminantemente que recebas nos teus aposentos qualquer homem sem o meu consentimento e, muito menos, individuos que, com a sua desprezivel e escandalosa conducta, se tornaram culpados do meu justo despreso.

—De boa vontade te obedecerei n'isto como em tudo, e não receberei jamais nenhum homem sem que tu me auctorises a tanto, respondeu com doçura angelical a bella esposa do ciumento e apaixonado mouro. Mas, por esta vez, te rogo, meu querido amigo, que perdoes a Cassio e lhe devolvas a estima e o affecto que d'antes lhe dedicavas e que tanto merece.

—Não quero, entendes? não quero tornar a ouvir pronunciar em minha casa, e muito menos aos teus labios, o nome de tal homem. Ouves? Pois bem, aconselho-te que não o esqueças, pois não gosto de repetir as ordens que dou, rugiu Othello.

—Não esquecerei, esposo meu, disse Desdemona, sem perder nem um instante a inalteravel doçura. Mas asseguro-te que, tu, tão prudente e generoso sempre, és injusto n'esta occasião com o pobre Cassio.

—Outra vez? gritou o mouro fóra de si. E sentindo que a cólera que o dominava o arrastava a uma brutalidade, da qual teria de arrepender-se, abandonou precipitadamente o quarto, dizendo com voz agitada para o alferes: Segue-me, Iago!

O infame não fez repetir a ordem, e sahiu na esteira do general, não sem fazer um profundo e servil cumprimento a Desdemona.

Quando se encontrou no corredor só com Othello, começou a murmurar em voz baixa:

—Que imprudentes! Quem o tivera advinhado! Chama-se a isto jogar com a propria vida!

Othello, que apezar da ira que o dementava, ouvira perfeitamente as insidiosas palavras do alferes, que com tal proposito as havia dito, embora apparentando fallar para si, agarrou violentamente Iago pelo pescoço, de tal modo que esteve a ponto de o estrangular e perguntou-lhe:

—Que dizes, mizeravel? quem são os imprudentes e os que jogam com a vida?

«Atrever-te-hias a suspeitar, infame, de minha esposa, da minha Desdemona?!

«Falla, cão, ou morrerás ás minhas mãos, aqui mesmo!

Iago não respondeu, pela simples rasão de que não podia fallar, apertado como estava entre os ferreos dedos do furioso africano.

Mas, levando a mão ao bolso, tirou d'elle um lenço de seda, bordado nos quatro cantos, e estendeu-o a Othello, emquanto fitava eloquentemente o marido de Desdemona.

Este retrocedeu alguns passos, como horrorisado,e fixando no lenço um olhar de louco, murmurou com phrases entrecortadas, a voz cheia de angustia:

—Como! O meu lenço!

«O lenço que era uma reliquia de minha mãe e de que fiz presente a Desdemona como a joia mais preciosa que possuia! A melhor prenda dos nossos amores em mãos extranhas!...

«D'onde o roubaste, traidor?—gritou a Iago, prompto a lançar-se de novo a elle.

—Cassio! Cassio é que o tinha e tirei-lh'o! apressou-se a responder o alferes, receando realmente pela sua vida, ao vêr a espantosa attitude de Othello.

—Tinha-o Cassio?—rugiu o mouro.

«Ira de Deus! Mas isso é impossivel! Impossivel!

«Mentes, traidor, infame! Diz-me que mentes ou te arranco as entranhas!

—Não o posso dizer, general, porque sou demasiado fiel para vos enganar.

«Esse lenço, que nunca vos mostraria, a não ser n'um caso especial como o de hoje, para salvar a minha vida, tirei-o a Cassio, repito, e a elle o havia entregado Desdemona alguns dias depois do vosso casamento. Eu proprio, que estava occulto, a alguma distancia, pois suspeitava d'ambos, lh'o vi dar!

«Juro-vos que daria a vida para não despedaçar o vosso coração como o faço n'este momento; mas ordenais-me que falle e não tenho outro remedio senão obedecer.

Othello, cuja bronzeada pelle se havia posto repentinamente côr de cinza, quiz pronunciar algumas palavras, mas não poude; arrancou a gola do gibão que o apertava, soltou uma especie de suspiro rouco, como o estertor da agonia, e o seu athletico corpo de gigante cahiu sobre o tapete, debil, apesar das herculeas forças, para resistir ao furioso furacão das selvagens paixões que a intriga do infame Iago lhe desencadeára na alma.

O miseravel, ao ver cahir o desditoso esposo de Desdemona, esboçou um sorriso horrivel e murmurou entre dentes:

Isto vae ás mil maravilhas, e já falta pouco para o fim.

«Que bruto, hein? Se não venho preparado com o lenço, matava-me com certeza! Verdade seja que isto adeantou os successos, que nada perdi com passo!

«Agora vamos chamar soccorro, pois não quero que morra antes de que tenha despachado os outros e eu arredondado a minha fortuna, para o que tenho á mão esse imbecil de Rodrigo e o cargo de tenente que deixou vago esse outro imbecil de Cassio.

E, ditas estas palavras com sangue frio e cynismo espantosos, junto do inanimado corpo de Othello, o traidor revestiu uma apparencia de dôr e de lastima que teria invejado o mais habil farçante do tempo, e foi correndo em busca de soccorros para a sua infeliz e crédula victima.


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