Não se demorou o alienista em receber o barbeiro; declarou-lhe que não tinha meios de resistir, e portanto estava prestes a obedecer. Só uma cousa pedia, é que o não constrangesse a assistir pessoalmente á destruição da Casa Verde.
—Engana-se Vossa Senhoria, disse o barbeiro depois de alguma pausa, engana-se em attribuir ao governo intenções vandalicas. Com razão ou sem ella, a opinião crê que a maior parte dos doudos alli mettidos estão era seu perfeito juizo, mas o governo reconhece que a questão é puramente scientifica, e não cogita em resolver com posturas as questões scientificas. Demais, a Casa Verde é uma instituição publica; tal a aceitamos das mãos da camara dissolvida. Ha, entretanto,—por força que ha de haver um alvitre intermedio que restitua o socego ao espirito publico.
O alienista mal podia dissimular o assombro; confessou que esperava outra cousa, o arrazamento do hospicio, a prisão delle, o desterro, tudo, menos...
—O pasmo de Vossa Senhoria, atalhou gravemente o barbeiro, vem de não attender á grave responsabilidade do governo. O povo, tomado de uma céga piedade, que lhe dá em tal caso legitima indignação, póde exigir do governo certa ordem de actos; mas este, com a responsabilidade que lhe incumbe, não os deve praticar, ao menos integralmente, e tal é a nossa situação. A generosa revolução que hontem derrubou uma camara villipendiada e corrupta, pediu em altos brados o arrazamento da Casa Verde; mas pode entrar no animo do governo eliminar a loucura? Não. E se o governo não a pode eliminar, está ao menos apto para discriminal-a, reconhecel-a? Tambem não; é materia de sciencia. Logo, em assumpto tão melindroso, o governo não póde, não deve, não quer dispensar o concurso de Vossa Senhoria. O que lhe pede é que de certa maneira demos alguma satisfação ao povo. Unamo-nos, e o povo saberá obedecer. Um dos alvitres aceitaveis, se Vossa Senhoria não indicar outro, seria fazer retinir da Casa Verde aquelles enfermos que estiverem quasi curados, e bem assim os maniacos de pouca monta, etc. Desse modo, sem grande perigo, mostraremos alguma tolerancia e benignidade.
—Quantos mortos e feridos houve hontem no conflicto? perguntou Simão Bacamarte, depois de uns tres minutos.
O barbeiro ficou espantado da pergunta, mas respondeu logo que onze mortos e vinte e cinco feridos.
—Onze mortos e vinte e cinco feridos! repetiu duas ou trez vezes o alienista.
E em seguida declarou que o alvitre lhe não parecia bom, mas que elle ia catar algum outro, e dentro de poucos dias lhe daria resposta. E fez-lhe varias perguntas ácerca dos successos da vespera, ataque, defeza, adhesão dos dragões, resistencia da camara, etc., ao que o barbeiro ia respondendo com grande abundancia, insistindo principalmente no descredito em que a camara cahira. O barbeiro confessou que o novo governo não tinha ainda por si a confiança dos principaes da villa, mas o alienista podia fazer muito nesse ponto. O govemo, concluiu o barbeiro, folgaria se pudesse contar, não já com a sympathia, senão com a benevolencia do mais alto espirito de Itaguahy, e seguramente do reino. Mas nada disso alterava a nobre e austera physionomia daquelle grande homem, que ouvia calado, sem desvanecimento, nem modestia, mas impassivel como um deus de pedra.
—Onze mortos e vinte e cinco feridos, repetiu o alienista, depois de acompanhar o barbeiro ate á porta. Eis ahi dous lindos casos de doença cerebral. Os symptomas de duplicidade e descaramento deste barbeiro são positivos. Quanto á toleima dos que o acclamaram não é preciso outra prova além dos onze mortos e vinte e cinco feridos.—Dous lindos casos!
—Viva o illustre Porfirio! bradaram umas trinta pessoas que aguardavam o barbeiro á porta.
O alienista espiou pela janella, e ainda ouviu este resto de uma pequena falla do barbeiro ás trinta pessoas que o acclamavam.
—... porque eu vélo, podeis estar certos disso, eu vélo pela execução das vontades do povo. Confiai em mim; e tudo se fará pela melhor maneira. Só vos recommendo ordem. A ordem, meus amigos, é a base do governo...
—Viva o illustre Porfirio! bradaram as trinta vozes, agitando os chapéos.
—Dous lindos casos! murmurou o alienista.
Dentro de cinco dias, o alienista metteu na Casa Verde cerca de cincoenta acclamadores do novo governo. O povo indignou-se. O governo, atarantado, não sabia reagir. João Pina, outro barbeiro, dizia abertamente nas ruas, que o Porfirio estava «vendido ao ouro de Simão Bacamarte,» phrase que congregou em torno de João Pina a gente mais resoluta da villa. Porfirio, vendo o antigo rival da navalha á testa da insurreição, comprehendeu que a sua perda era irremediavel, se não désse um grande golpe; expediu dous decretos, um abolindo a Casa Verde, outro desterrando o alienista. João Pina mostrou claramente, com grandes phrases, que o acto de Porfirio era um simples apparato, um engodo, em que o povo não devia crer. Duas horas depois cahia Porfirio ignominiosamente, e João Pina assumia a difficil tarefa do governo. Como achasse nas gavetas as minutas da proclamação, da exposição ao vice-rei e de outros actos inauguraes do governo anterior, deu-se pressa em os fazer copiar e expedir; accrescentam os chronistas, e aliás sub entende-se, que elle lhes mudou os nomes, e onde o outro barbeiro fallára de uma camara corrupta, fallou este de «um intruso eivado das más doutrinas francesas, e contrario aos sacrosantos interesses de Sua Magestade, etc.»
Nisto entrou na villa uma força mandada pelo vice-rei, e restabeleceu a ordem. O alienista exigiu desde logo a entrega do barbeiro Porfirio, e bem assim a de uns cincoenta e tantos individuos, que declarou mentecaptos; e não só lhe deram esses, como afiançaram entregar-lhe mais desenove sequazes do barbeiro, que convaleciam das feridas apanhadas na primeira rebellião.
Este ponto da crise de Itaguahy marca tambem o grau maximo da influencia de Simão Bacamarte. Tudo quanto quiz, deu-se-lhe; e uma das mais vivas provas do poder do illustre medico achamol-a na promptidão com que os vereadores, restituidos a seus logares, consentiram em que Sebastião Freitas tambem fosse recolhido ao hospicio. O alienista, sabendo da extraordinaria inconsistencia das opiniões desse vereador, entendeu que era um caso pathologico, e pediu-o. A mesma cousa aconteceu ao boticario. O alienista, desde que lhe fallaram da momentanea adhesão de Crispim Soares á rebellião dos Cangicas, comparou-a á approvação que sempre recebera delle, ainda na vespera, e mandou captural-o. Crispim Soares não negou o facto, mas explicou-o dizendo que cedera a um movimento de terror, ao ver a rebellião triumphante, e deu como prova a ausencia de nenhum outro acto seu, accrescentando que voltára logo á cama, doente. Simão Bacamarte não o contrariou; disse, porém, aos circumstantes que o terror tambem é pae da loucura, e que o caso de Crispim Soares lhe parecia dos mais caracterisados.
Mas a prova mais evidente da influencia de Simão Bacamarte foi a docilidade com que a camara lhe entregou o proprio presidente. Este digno magistrado tinha declarado em plena sessão, que não se contentava, para laval-o da affronta dos Cangicas, com menos de trinta almudes de sangue; palavra que chegou aos ouvidos do alienista por boca do secretario da camara, enthusiasmado de tamanha energia. Simão Bacamarte começou por metter o secretario na Casa Verde, e foi d'alli á camara, á qual declarou que o presidente estava padecendo da «demencia dos touros», um genero que elle pretendia estudar, com grande vantagem para os povos. A camara a principio hesitou, mas acabou cedendo.
Dahi em diante foi uma collecta desenfreada. Um homem não podia dar nascença ou curso á mais simples mentira do mundo, ainda daquellas que aproveitam ao inventor ou divulgador, que não fosse logo mettido na Casa Verde. Tudo era loucura. Os cultores de enigmas, os fabricantes de charadas, de anagrammas, os maldizentes, os curiosos da vida alheia, os que põem todo o seu cuidado na tafularia, um ou outro almotacé enfunado, ninguem escapava aos emissarios do alienista. Elle respeitava as namoradas e não poupava as namoradeiras, dizendo que as primeiras cediam a um impulso natural, e as segundas a um vicio. Se um homem era avaro ou prodigo ia do mesmo modo para a Casa Verde; dahi a allegação de que não havia regra para a completa sanidade mental. Alguns chronistas crêem que Simão Bacamarte, nem sempre procedia com lisura, e citam em abono da affirmação (que não sei se póde ser aceita) o facto de ter alcançado da camara uma postura autorisando o uso de um anel de prata no dedo pollegar da mão esquerda, a toda a pessoa que, sem outra prova documental ou tradiccional, declarasse ter nas veias duas ou tres onças de sangue godo. Dizem esses chronistas que o fim secreto da insinuação á camara foi enriquecer um ourives, amigo e compadre delle; mas, comquanto seja certo que o ourives viu prosperar o negocio depois da nova ordenação municipal, não o é menos que essa postura deu á Casa Verde uma multidão de inquilinos; pelo que, não se póde definir, sem temeridade, o verdadeiro fim do illustre medico. Quanto á razão determinativa da captura e aposentação na Casa Verde de todos quantos usaram do annel, é um dos pontos mais obscuros da historia de Itaguahy; a opinião mais verosimil é que elles foram recolhidos por andarem a gesticular, á toa, nas ruas, em casa, na egreja. Ninguem ignora que os doudos gesticulam muito. Em todo caso é uma simples conjectura; de positivo nada ha.
—Onde é que este homem vae parar? diziam os principaes da terra. Ah! se nós tivessemos apoiado os Cangicas...
Um dia de manhã,—dia em que a camara devia dar um grande baile,—a villa inteira ficou abalada com a noticia de que a propria esposa do alienista fôra mettida na Casa Verde. Ninguem acreditou; devia ser invenção de algum gaiato. E não era: era a verdade pura. D. Evarista fôra recolhida ás duas horas da noite. O padre Lopes correu ao alienista e interrogou-o discretamente ácerca do facto.
—Já ha algum tempo que eu desconfiava, disse gravemente o marido. A modestia com que ella vivera em ambos os matrimonios não podia conciliar-se com o furor das sedas, velludos, rendas e pedras preciosas que manifestou, logo que voltou do Rio de Janeiro. Desde então comecei a observal-a. Suas conversas eram todas sobre esses objectos; se eu lhe fallava das antigas côrtes, inquiria logo da fórma dos vestidos das damas; se uma senhora a visitava, na minha ausencia, antes de me dizer o objecto da visita, descrevia-me o trajo, approvando umas cousas e censurando outras. Um dia, creio que Vossa Reverendissima hade lembrar-se, propôz-se a fazer annualmente um vestido para a imagem de Nossa Senhora da matriz. Tudo isto eram symptomas graves; esta noite, porém, declarou-se a total demencia. Tinha escolhido, preparado, enfeitado o vestuario que levaria ao baile da camara municipal; só hesitava entre um collar de granada e outro de saphyra. Ante-hontem perguntou-me qual delles levaria; respondi-lhe que um ou outro lhe ficava bem. Hontem repetiu a pergunta, ao almoço; pouco depois de jantar fui achal-a calada e pensativa.—Que tem? perguntei-lhe.—Queria levar o collar de granada, mas acho o de saphyra tão bonito!—Pois leve o de saphyra.—Ah! mas onde fica o de granada?—Emfim, passou a tarde sem novidade. Ceamos, e deitamo-nos. Alta noite, seria hora e meia, accordo e não a vejo; levanto-me, vou ao quarto de vestir, acho-a diante dos dous collares, ensaiando-os ao espelho, ora um, ora outro. Era evidente a demencia; recolhi-a logo.
O padre Lopes não se satisfez com a resposta, mas não objectou nada. O alienista, porém, percebeu e explicou-lhe que o caso de D. Evarista era de «mania sumptuaria,» não incuravel, e em todo caso digno de estudo.
—Conto pôl-a boa dentro de seis semanas, concluiu elle.
A abnegação do illustre medico deu-lhe grande realce. Conjecturas, invenções, desconfianças, tudo cahiu por terra, desde que elle não duvidou recolher á Casa Verde a propria mulher, a quem amava com todas as forças da alma. Ninguem mais tinha o direito de resistir-lhe,—menos ainda o de attribuir-lhe intuitos alheios á sciencia. Era um grande homem austero, Hippocrates forrado de Catão.
E agora prepare-se o leitor para o mesmo assombro em que ficou a villa, ao saber um dia que os loucos da Casa Verde iam todos ser póstos na rua.
—Todos?
—Todos.
—É impossivel; alguns, sim, mas todos...
—Todos. Assim o disse elle no officio que mandou hoje de manhã á camara.
De facto, o alienista officiára á camara expondo:—1°, que verificára das estatisticas da villa e da Casa Verde, que quatro quintos da população estavam aposentados naquelle estabelecimento; 2°, que esta deslocação de população levára-o a examinar os fundamentos da sua theoria das molestias cerebraes, theoria que excluia do dominio da razão todos os casos em que o equilibrio das faculdades, não fosse perfeito e absoluto; 3°, que desse exame e do facto estatistico resultára para elle a convicção de que a verdadeira doutrina não era aquella, mas a opposta, e portanto que se devia admittir como normal e exemplar o desequilibrio das faculdades, e como hypotheses pathologicas todos os casos em que aquelle equilibrio fosse ininterrupto; 4°, que á vista disso, declarava á camara que ia dar liberdade aos reclusos da Casa Verde e agazalhar nella as pessoas que se achassem nas condições agora expostas; 5°, que tratando de descobrir a verdade scientifica, não se pouparia a esforços de toda a natureza, esperando da camara egual dedicação; 6°, que restituia á camara e aos particulares a somma do estipendio recebido para alojamento dos suppostos loucos, descontada a parte effectivamente gasta com a alimentação, roupa, etc.; o que a camara mandaria verificar nos livros e arcas da Casa Verde.
O assombro de Itaguahy for grande; não foi menor a alegria dos parentes e amigos dos reclusos. Jantares, dansas, luminarias, musicas, tudo houve para celebrar tão fausto acontecimento. Não descrevo as festas por não interessarem ao nosso proposito; mas foram esplendidas, tocantes e prolongadas.
E vão assim as cousas humanas! No meio do regosijo produzido pelo officio de Simão Bacamarte, ninguem advertia na phrase final do § 4°, uma phrase cheia de experiencias futuras.
Apagaram-se as luminarias, reconstituiram-se as familias, tudo parecia reposto uos antigos eixos. Reinava a ordem, a camara exercia outra vez o governo, sem nenhuma pressão externa; o proprio presidente e o vereador Freitas tornaram aos seus logares. O barbeiro Porfirio, ensinado pelos acontecimentos, tendo «provado tudo,» como o poeta disse de Napoleão, e mais alguma cousa, porque Napoleão não provou a Casa Verde, o barbeiro achou preferivel a gloria obscura da navalha e da tesoura ás calamidades brilhantes do poder; foi, é certo, processado; mas a população da villa implorou a clemencia de Sua Magestade; dahi o perdão. João Pina foi absolvido, attendendo-se a que elle derrocára um rebelde. Os chronistas pensam que deste facto é que nasceu o nosso adagio:—ladrão que furta a ladrão, tem cem annos de perdão;—adagio immoral, é verdade, mas grandemente util.
Não só findaram as queixas contra o alienista, mas até nenhum resentimento ficou dos actos que elle praticára; accrescendo que os reclusos da Casa Verde, desde que elle os declarara plenamente ajuizados, sentiram-se tomados de profundo reconhecimento e férvido enthusiasmo. Muitos entenderam que o alienista merecia uma especial manifestação, e deram-lhe um baile, ao qual se seguiram outros bailes e jantares. Dizem as chronicas que D. Evarista a principio tivera ideia de separar-se do consorte, mas a dôr de perder a companhia de tão grande homem venceu qualquer resentimento de amor-proprio, e o casal veiu a ser ainda mais feliz do que antes.
Não menos intima ficou a amizade do alienista e do boticario. Este concluiu do officio de Simão Bacamarte que a prudencia e a primeira das virtudes em tempos de revolução, e apreciou muito a magnanimidade do alienista que, ao dar-lhe a liberdade, ostendeu-lhe a mão de amigo velho.
—É um grande homem, disse elle á mulher, referindo aquella circumstancia.
Não é preciso fallar do albardeiro, do Costa, do Coelho, do Martim Brito e outros, especialmente nomeados neste escripto; basta dizer que puderam exercer livremente os seus habitos anteriores. O proprio Martim Brito, recluso por um discurso em que louvára emphaticamente D. Evarista, fez agora outro em honra do insigne medico—«cujo altissimo genio, elevando as azas muito acima do sol, deixou abaixo de si todos os demais espiritos da terra.»
—Agradeço as suas palavras, retorquiu-lhe o alienista, e ainda me não arrependo de o haver restituido á liberdade.
Entretanto, a camara, que respondera ao officio de Simão Bacamarte, com a resalva de que opportunamente estatuiria em relação ao final do § 4°, tratou emfim de legislar sobre elle. Foi adoptada, sem debate, uma postura autorisando o alienista a agazalhar na Casa Verde as pessoas que se achassem no gozo do perfeito equilibrio das faculdades mentaes. E porque a experiencia da camara tivesse sido dolorosa, estabeleceu ella a clausula, de que a autorisação era provisoria, limitada a um anno, para o fim de ser experimentada a nova theoria psychologica, podendo a camara, antes mesmo daquelle prazo, mandar fechar a Casa Verde, se a isso fosse aconselhada por motivos de ordem publica. O vereador Freitas propôz tambem a declaração de que em nenhum caso fossem os vereadores recolhidos ao asylo dos alienados: clausula que foi aceita, votada o incluida na postura, apezar das reclamações do vereador Galvão. O argumento principal deste magistrado é que a camara, legislando sobre uma experiencia scientifica, não podia excluir as pessoas dos seus membros das consequencias da lei; a excepção era odiosa e ridicula. Mal proferira estas duras palavras, romperam os vereadores em altos brados contra a audacia e insensatez do collega; este, porém, ouviu-os e limitou-se a dizer que votava contra a excepção.
—A vereança, concluiu elle, não nos dá nenhum poder especial nem nos elimina do espirito humano.
Simão Bacamarte aceitou a postura com todas as restricções. Quanto á exclusão dos vereadores, declarou que teria profundo sentimento se fosse compellido a recolhel-os á Casa Verde; a clausula, porém, era a melhor prova de que elles não padeciam do perfeito equilibrio das faculdades mentaes. Não acontecia o mesmo ao vereador Galvão, cujo acerto na objecção feita, e cuja moderação na resposta dada ás invectivas dos collegas mostravam da parte delle um cerebro bem organisado; pelo que, rogava á camara que lh'o entregasse. A camara, sentindo-se ainda aggravada pelo proceder do vereador Galvão, estimou o pedido do alienista, e votou unanimamente a entrega.
Comprehende-se que, pela theoria nova, não bastava um facto ou um dito, para recolher alguem á Casa Verde; era preciso um longo exame, um vasto inquerito do passado e do presente. O padre Lopes, por exemplo, só foi capturado trinta dias depois da postura, a mulher do boticario quarenta dias. A reclusão desta senhora encheu o consorte de indignação. Crispim Soares sahiu de casa espumando de colera, e declarando ás pessoas a quem encontrava que ia arrancar as orelhas ao tyranno. Um sujeito, adversario do alienista, ouvindo na rua essa noticia, esqueceu os motivos de dissidencia, e correu á casa de Simão Bacamarte a participar-lhe o perigo que corria. Simão Bacamarte mostrou-se grato ao procedimento do adversario, e poucos minutos lhe bastaram para conhecer a rectidão dos seus sentimentos, a boa fé, o respeito humano, a generosidade; apertou-lhe muito as mãos, e recolheu-o á Casa Verde.
—Um caso destes é raro, disse elle á mulher pasmada. Agora esperemos o nosso Crispim.
Crispim Soares entrou. A dôr vencera a raiva, o boticario não arrancou as orelhas ao alienista. Este consolou o seu privado, assegurando-lhe que não era caso perdido; talvez a mulher tivesse alguma lesão cerebral; ia examinal-a com muita attenção; mas antes disso não podia deixal-a na rua. E parecendo-lhe vantajoso reunil-os, porque a astucia e velhacaria do marido poderiam de certo modo curar a belleza moral que elle descobrira na esposa, disse Simão Bacamarte:
—O senhor trabalhará durante o dia na botica, mas almoçará e jantará, com sua mulher, e cá passará as noites, e os domingos e dias santos.
A proposta collocou o pobre boticario na situação do asno de Buridan. Queria viver com a mulher, mas temia voltar á Casa Verde; e nessa luta esteve algum tempo, até que D. Evarista o tirou da difficuldade, promettendo que se incumbiria de vêr a amiga e transmittir os recados de um para outro. Crispim Soares beijou-lhe as mãos agradecido. Este ultimo rasgo do egoismo pusillanime pareceu sublime ao alienista.
Ao cabo de cinco mezes estavam alojadas umas dezoito pessoas; mas Simão Bacamarte não afrouxava; ia de rua em rua, de casa em casa, espreitando, interrogando, estudando; e quando colhia um enfermo, levava-o com a mesma alegria com que ontrora os arrebanhava ás duzias. Essa mesma desproporção confirmava a theoria nova; achára-se enfim a verdadeira pathologia cerebral. Um dia, conseguiu metter na Casa Verde o juiz de fóra; mas procedia com tanto escrupulo, que o não fez senão depois de estudar minuciosamente todos os seus actos, e interrogar os principaes da villa. Mais de uma vez esteve prestes a recolher pessoas perfeitamente desequilibradas; foi o que se deu com um advogado, em quem reconheceu um tal conjuncto de qualidades moraes e mentaes, que era perigoso deixal-o na rua. Mandou prendel-o; mas o agente, desconfiado, pediu-lhe para fazer uma experiencia; foi ter com um compadre, demandado por um testamento falso, e deu-lhe de conselho que tomasse por advogado o Salustiano; era o nome da pessoa em questão.
—Então, parece-lhe...?
—Sem duvida: vá, confesse tudo, a verdade inteira, seja qual fôr, e confie-lhe a causa.
O homem foi ter com o advogado, confessou ter falsificado o testamento, e acabou pedindo que lhe tomasse a causa. Não se negou o advogado, estudou os papeis, arrazoou longamente, e provou a todas as luzes que o testamento era mais que verdadeiro. A innocencia do réu foi solemnemente proclamada pelo juiz, e a herança passou-lhe ás mãos. O distincto jurisconsulto deveu a esta experiencia a liberdade. Mas nada escapa a um espirito original e penetrante. Sirnão Bacamarte, que desde algum tempo notava o zelo, a sagacidade, a paciencia, a moderação daquelle agente, reconheceu a habilidade e o tino com que elle levára a cabo uma experiencia tão melindrosa e complicada, e determinou recolhel-o immediatamente á Casa Verde; deu-lhe, todavia, um dos melhores cubiculos.
Os alienados foram alojados por classes. Fez-se uma galeria de modestos, isto é, os loucos em quem predominava esta perfeição moral; outra de tolerantes, outra de veridicos, outra de simplices, outra de leaes, outra de magnanimos, outra de sagazes, outra de sinceros, etc. Naturalmente, as familias e os amigos dos reclusos bradavam contra a theoria; e alguns tentaram compellir a camara a cassar a licença. A camara, porem, não esquecera a linguagem do vereador Galvão, e se cassasse a licença, vel-o-hia na rua, e restituido ao logar; pelo que, recusou. Simão Bacamarte officiou aos vereadores, não agradecendo, mas felicitando-os por esse acto de vingança pessoal.
Desenganados da legalidade, alguns principaes da villa recorreram secretamente ao barbeiro Porfirio e afiançaram-lhe todo o apoio de gente, dinheiro e influencia na côrte, se elle se puzesse á testa de outro movimento contra a camara e o alienista. O barbeiro respondeu-lhes que não; que a ambição o levara da primeira vez a transgredir as leis, mas que elle se emendára, reconhecendo o erro proprio e a pouca consistencia da opinião dos seus mesmos sequazes; que a camara entendera autorisar a nova experiencia do alienista, por um anno: cumpria, ou esperar o fim do praso, ou requerer ao vice-rei, caso a mesma camara rejeitasse o pedido. Jámais aconselharia o emprego de um recurso que elle viu falhar em suas mãos, e isso a troco de mortes e ferimentos que seriam o seu eterno remorso.
—O que é que me está dizendo? perguntou o alienista quando um agente secreto lhe contou a conversação do barbeiro com os principaes da villa.
Dous dias depois o barbeiro era recolhido á Casa Verde.—Preso por ter cão, preso por não ter cão! exclamou o infeliz.
Chegou o fim do praso, a camara autorisou um praso supplementar de seis mezes para ensaio dos meios therapeuticos. O desfecho deste episodio da chronica itaguahyense, é de tal ordem, e tão inesperado, que merecia nada menos de dez capitulos de exposição; mas contento-me com um, que será o remate da narrativa, e um dos mais bellos exemplos de convicção scientifica e abnegação humana.
Era a vez da therapeutica. Simão Bacamarte, activo e sagaz em descobrir enfermos, excedeu-se ainda na diligencia e penetração com que principiou a tratal-os. N'este ponto todos os chronistas estão de pleno accordo: o illustre alienista fez curas pasmosas, que excitaram a mais viva admiração em Itaguahy.
Com effeito, era difficil imaginar mais racional systema therapeutico. Estando os loucos divididos por classes, segundo a perfeição moral que em cada um d'elles excedia ás outras, Simão Bacamarte cuidou em attacar de frente a qualidade predominante. Supponhamos um modesto. Elle applicava a medicação que pudesse incutir-lhe o sentimento opposto; e não ia logo ás dóses maximas,—graduava-as, conforme o estado, a edade, o temperamento, a posição social do enfermo. Ás vezes bastava uma casaca, uma fita, uma cabelleira, uma bengala, para restituir a razão ao alienado: em outros casos a molestia era mais rebelde; recorria então aos aneis de brilhantes, ás distincções honorificas, etc. Houve um doente, poeta, que resistiu a tudo. Simão Bacamarte começava a desesperar da cura, quando teve ideia de mandar correr matraca, para o fim de o apregoar como um rival de Garção e de Pindaro.
—Foi um santo remedio, contava a mãe do infeliz a uma comadre; foi um santo remedio.
Outro doente, tambem modesto, oppoz a mesma rebeldia á medicação; mas não sendo escriptor, (mal sabia assignar o nome) não se lhe podia applicar o remedio da matraca. Simão Bacamarte lembrou-se de pedir para elle o lugar de secretario de Academia dos Encobertos estabelecida em Itaguahy. Os logares de presidente e secretarios eram de nomeação regia, por especial graça do finado rei D. João V, e implicavam o tratamento de Excellencia e o uso de uma placa de ouro no chapéu. O governo de Lisboa recusou o diploma; mas representando o alienista que o não pedia como premio honorifico ou distincção legitima, e sómente como um meio therapeutico para um caso difficil, o governo cedeu excepcionalmente á supplica; e ainda assim não o fez sem extraordinario esforço do ministro de marinha e ultramar, que vinha a ser primo do alienado. Foi outro santo remedio.
—Realmente, é admiravel! dizia-se nas ruas, ao ver a expressão sadia e enfunada dos dois ex-dementes.
Tal era o systema. Imagina-se o resto. Cada belleza moral ou mental era atacada no ponto em que a perfeição parecia mais solida; e o effeito era certo. Nem sempre era certo. Casos houve em que a qualidade predominante resistia a tudo; então, o alienista atacava outra parte, applicando á therapeutica o methodo da estrategia militar, que toma uma fortaleza por um ponto, se por outro o não póde conseguir.
No fim de cinco mezes e meio estava vazia a Casa Verde; todos curados! O vereador Galvão tão cruelmente affligido de moderação e equidade, teve a felicidade de perder um tio; digo felicidade, porque o tio deixou um testamento ambiguo, e elle obteve uma boa interpretação, corrompendo os juizes, e embaçando os outros herdeiros. A sinceridade do alienista manifestou-se nesse lance; confessou ingenuamente que não teve parte na cura: foi a simplesvis medicatrixda natureza. Não aconteceu o mesmo com o padre Lopes. Sabendo o alienista que elle ignorava perfeitamente o hebraico e o grego, incumbiu-o de fazer uma analyse critica da versão dos Setenta; o padre aceitou a incumbencia, e em boa hora o fez; ao cabo de dous mezes possuia um livro e a liberdade. Quanto á senhora do boticario, não ficou muito tempo na cellula que lhe coube, e onde aliás lhe não faltaram carinhos.
—Porque é que o Crispim não vem visitar-me? dizia ella todos os dias.
Respondiam-lhe ora uma cousa, ora outra; afinal disseram-lhe a verdade inteira. A digna matrona, não pôde conter a indignação e a vergonha. Nas explosões da colera escaparam-lhe expressões soltas e vagas, como estas:
—Tratante!... velhaco!... ingrato!... Um patife que tem feito casas á custa de unguentos falsificados e pôdres... Ah! tratante!...
Simão Bacamarte advertiu que, ainda quando não fosse verdadeira a accusação contida nestas palavras, bastavam ellas para mostrar que a excellente senhora estava emfim restituida ao perfeito desequilibrio das faculdades; e promptamente lhe deu alta.
Agora, se imaginaes que o alienista ficou radiante ao ver sair o ultimo hospede da Casa Verde, mostraes com isso que ainda não conheceis o nosso homem.Plus ultra!era a sua divisa. Não lhe bastava ter descoberto a theoria verdadeira da loucura; não o contentava ter estabelecido em Itaguahy o reinado da razão.Plus ultra!Não ficou alegre, ficou preoccupado, cogitativo; alguma cousa lhe dizia que a theoria nova tinha, em si mesma, outra e novissima theoria.
—Vejamos, pensava elle; vejamos se chego enfim á ultima verdade.
Dizia isto, passeando ao longo da vasta sala, onde fulgurava a mais rica bibliotheca dos dominios ultramarinos de Sua Magestade. Um amplo chambre de damasco, preso á cintura por um cordão de seda, com borlas de ouro (presente de uma Universidade) envolvia o corpo magestoso e austero do illustre alienista. A cabelleira cobria-lhe uma extensa e nobre calva adquirida nas cogitações quotidianas da sciencia. Os pés, não delgados e femininos, não graudos e mariolas, mas proporcionados ao vulto, eram resguardados por um par de sapatos cujas fivelas não passavam de simples e modesto latão. Vede a differença:—só se lhe notava luxo naquillo que era de origem scientifica; o que propriamente vinha delle trazia a côr da moderação e da singelleza, virtudes tão ajustadas á pessôa de um sabio.
Era assim que elle ia, o grande alienista, de um cabo a outro da vasta bibliotheca, mettido em si mesmo, estranho a todas as cousas que não fosse o tenebroso problema da pathologia cerebral. Subito, parou. Em pé, deante de uma janella, com o cotovello esquerdo apoiado na mão direita, aberta, e o queixo na mão esquerda, fechada, perguntou elle a si:
—Mas deveras estariam elles doudos, e foram curados por mim,— ou o que pareceu cura, não foi mais do que a descoberta do perfeito desequilibrio do cerebro?
E cavando por ahi abaixo, eis o resultado a que chegou: os cerebros bem organisados que elle acabava de curar, eram tão desequilibrados como os outros. Sim, dizia elle comsigo, eu não posso ter a pretenção de haver-lhes incutido um sentimento ou uma faculdade nova;uma e outra cousa existiam no estado latente, mas existiam.
Chegado a esta conclusão, o illustre alienista teve duas sensações contrarias, uma de gozo, outra de abatimento. A de gozo foi por vêr que, ao cabo de longas e pacientes investigações, constantes trabalhos, lucta ingente com o povo, podia affirmar esta verdade:—não havia loucos em Itaguahy; Itaguahy não possuia um só mentecapto. Mas tão depressa esta idéa lhe refrescara a alma, outra appareceu que neutralisou o primeiro effeito; foi a idéa da duvida. Pois que! Itaguahy não possuiria um unico cerebro concertado? Esta conclusão tão absoluta, não seria por isso mesmo erronea, e não vinha, portanto, destruir o largo e magestoso edificio da nova doutrina psychologica?
A afflicção do egregio Simão Bacamarte é definida pelos chronistas itaguahyenses como uma das mais medonhas tempestades moraes que tem desabado sobre o homem. Mas as tempestades só atterram os fracos; os fortes enrijam-se contra ellas e fitam o trovão. Vinte minutos depois allumiou-se a physionomia do alienista de uma suave claridade.
—Sim, ha de ser isso, pensou elle.
Isso é isto. Simão Bacamarte achou em si os caracteristicos do perfeito equilibrio mental e moral; pareceu-lhe que possuia a sagacidade, a paciencia, a perseverança, a tolerancia, a veracidade, o vigor moral, a lealdade, todas as qualidades emfim que pódem formar um acabado mentecapto. Duvidou logo, é certo, e chegou mesmo a concluir que era illusão; mas sendo homem prudente, resolveu convocar um conselho de amigos, a quem interrogou com franqueza. A opinião foi affirmativa.
—Nenhum defeito?
—Nenhum, disse em côro a assembléa.
—Nenhum vicio?
—Nada.
—Tudo perfeito?
—Tudo.
—Não, impossivel, bradou o alienista. Digo que não sinto em mim essa superioridade que acabo de ver definir com tanta magnificencia. A sympathia é que vos faz fallar. Estudo-me e nada acho que justifique os excessos da vossa bondade.
A assembléa insistiu; o alienista resistiu; finalmente o padre Lopes explicou tudo com este conceito digno de um observador.
—Sabe a razão porque não vê as suas elevadas qualidades, que aliás todos nós admiramos? É porque tem ainda uma qualidade que realça as outras:—a modestia.
Era decisivo. Simão Bacamarte curvou a cabeça, juntamente alegre e triste, e ainda mais alegre do que triste. Acto continuo, recolheu-se á Casa Verde. Em vão a mulher e os amigos lhe disseram que ficasse, que estava perfeitamente são e equilibrado: nem rogos nem suggestões nem lagrimas o detiveram um só instante. A questão é scientifica, dizia elle; trata-se de uma doutrina nova, cujo primeiro exemplo sou eu. Reuno em mim mesmo a theoria e a pratica.
—Simão! Simão! meu amor! dizia-lhe a esposa com o rosto lavado em lagrimas.
Mas o illustre medico, com os olhos accesos da convicção scientifica, trancou os ouvidos á saudade da mulher, e brandamente a repelliu. Fechada a porta da Casa Verde, entregou-se ao estudo e á cura de si mesmo. Dizem os chronistas que elle morreu dalli a dezesete mezes, no mesmo estado em que entrou, sem ter podido alcançar nada. Alguns chegam ao ponto de conjecturar que nunca houve outro louco, além delle, em ltaguahy; mas esta opinião, fundada em um boato que correu desde que o alienista expirou, não tem outra prova, senão o boato; e boato duvidoso, pois é attribuido ao padre Lopes, que com tanto fogo realçara as qualidades do grande homem. Seja como fôr, effectuou-se o enterro com muita pompa e rara solemnidade.
—Estás com somno?
—Não, senhor.
—Nem eu; conversemos um pouco. Abre a janella. Que horas são?
—Onze.
—Sahiu o ultimo conviva do nosso modesto jantar. Com que, meu peralta, chegaste aos teus vinte e um annos. Ha vinte e um annos, no dia 5 de agosto de 1854, vinhas tu á luz, um pirralho de nada, e estás homem, longos bigodes, alguns namoros...
—Papai...
—Não te ponhas com denguices, e fallemos como dous amigos sérios. Fecha aquella porta; vou dizer-te cousas importantes. Senta-te e conversemos. Vinte e um annos, algumas apolices, urn diploma, pódes entrar no parlamento, na magistratura, na imprensa, na lavoura, na industria, no commercio, nas lettras ou nas artes. Ha infinitas carreiras diante de ti, Vinte e um annos, meu rapaz, formam apenas a primeira syllaba do nosso destino. Os mesmos Pitt e Napoleão, apezar de precoces, não foram tudo aos vinte e um annos. Mas, qualquer que seja a profissão da tua escolha, o meu desejo é que te faças grande e illustre, ou pelo menos notavel, que te levantes acima da obscuridade commum. A vida, Janjão, é uma enorme loteria; os premios são poucos, os mallogrados innumeros, e com os suspiros de uma geração é que se amassam as esperanças de outra. Isto é a vida; não ha planger, nem imprecar, mas aceitar as cousas integralmente, com seus onus e precalços, glorias e desdouros, e ir por diante.
—Sim, senhor.
—Entretanto, assim como é de boa economia guardar um pão para a velhice, assim tambem é de boa pratica social acautellar um officio para a hypothese de que os outros falhem, on não indemnisem sufificientemente o esforço da nossa ambição. É isto o que te aconselho hoje, dia da tua maioridade.
—Creia que lhe agradeço; mas que officio, não me dirá?
—Nenhum me parece mais util e cabido que o de medalhão. Ser medalhão foi o sonho da minha mocidade; faltaram-me, porém as instrucções de um pai, e acabo como vês, sem outra consolação e relevo moral, alem das esperanças que deposito em ti. Ouve-me bem, meu querido filho, ouve-me e entende. És moço, tens naturalmente o ardor, a exhuberancia, os improvisos da idade; não os rejeites, mas modera-os de modo que aos quarenta e cinco annos possas entrar francamente no regimen do aprumo e do compasso. O sabio que disse: «a gravidade é um mysterio do corpo», definiu a compostura do medalhão. Não confundas essa gravidade com aquella outra que, embora resida no aspecto, é um puro reflexo ou emanação do espirito; essa é do corpo, tão sómente do corpo, um signal da natureza ou uin geito da vida. Quanto á edade de quarenta e cinco annos...
—É verdade, porque quarenta e cinco annos?
—Não é, como podes suppôr, ura limite arbitrario, filho do puro capricho; é a data normal do phenomeno. Geralmente, o verdadeiro medalhão começa a manifestar-se entre os quarenta o cinco e cincoenta annos, comquanto alguns exemplos se dêm eutre os cincoenta e cinco e os sessenta; mas estes são raros. Ha-os tambem de quarenta annos, e outros mais precoces, de trinta e cinco e de trinta; não são, todavia, vulgares. Não fallo dos de vinte e cinco annos: esse madrugar é privilegio do genio.
—Entendo.
—Venhamos ao principal. Uma vez entrado na carreira, deves pôr todo o cuidado nas idéas que houveres de nutrir para uso alheio e proprio. O melhor será não as ter absolutamente; cousa que entenderás bem, imaginando, por exemplo, um actor defraudado do uso de um braço. Elle pode, por um milagre de artificio, dissimular o defeito aos olhos da platéa; mas era muito melhor dispor dos dous. O mesmo se dá com as idéas; póde-se, com violencia, abafal-as, escondel-as até á morte; mas nem essa habilidade é commum, nem tão constante esforço conviria ao exercicio da vida.
—Mas quem lhe diz que eu....
—Tu, meu filho, se me não engano, pareces dotado da perfeita inopia mental, conveniente ao uso deste nobre officio. Não me refiro tanto á fidelidade com que repetes numa sala as opiniões ouvidas n'uma esquina, e vice-versa, porque esse facto, posto indique certa carencia de idéas, ainda assim póde não passar de uma traição da memoria. Não; refiro-me ao gesto correcto e perfilado com que usas expender francamente as tuas sympathias ou antipathias ácerca do córte de um collete, das dimensões de um chapéu, do ranger ou calar das botas novas. Eis ahi um symptoma eloquente, eis ahi uma esperança. No entanto, podendo acontecer que, com a edade, venhas a ser affligido de algumas idéas proprias, urge apparelhar fortemente o espirito. As idéas são de sua natureza expontaneas e subitas; por mais que as sofremos, ellas irrompem e precipitam-se. Dahi a certeza com que o vulgo, cujo faro é extremamente delicado, distingue o medalhão completo do medalhão incompleto.
—Creio que assim seja; mas um tal obstaculo é invencivel.
—Não é; ha um meio; é lançar mão de um regimen debilitante, ler compendios de rhetorica, ouvir certos discursos, etc. O voltarete, o dominó e o whist são remedios approvados. O whist tem até a rara vantagem de acostumar ao silencio, que é a fórma mais accentuada da circumpecção. Não digo o mesmo da natação, da equitação e da gymnastica, embora ellas façam repousar o cerebro; mas por isso mesmo que o fazem repousar, restituem-lhe as forças e a actividade perdidas. O bilhar é excellente.
—Como assim, se tambem é um exercicio corporal?
—Não digo que não, mas ha cousas em que a observação desmente a theoria. Se te aconselho excepcionalmente o bilhar é porque as estatisticas mais escrupulosas mostram que tres quartas partes dos habituados do taco partilham as opiniões do mesmo taco. O passeio nas ruas, mormente nas de recreio e parada é utilissimo, com a condição de não andares desacompanhado, porque a solidão é officina de idéas, e o espirito deixado a si mesmo, embora no meio da multidão, póde adquirir uma tal ou qual actividade.
—Mas se eu não tiver á mão um amigo apto e disposto a ir commigo?
—Não faz mal; tens o valente recurso de mesclar-te aos pasmatorios, em que toda a poeira da solidão se dissipa. As livrarias, ou por causa da atmosphera do logar, ou por qualquer outra razão que me escapa, não são propicias ao nosso fim; e, não obstante, ha grande conveniencia em entrar por ellas, de quando em quando, não digo ás occultas, mas ás escancaras. Pódes resolver a difficuldade de um modo simples: vai alli fallar do boato do dia, da anecdota da semana, de um contrabando, de uma calumnia, de um cometa, de qualquer cousa, quando não prefiras interrogar directamente os leitores habituaes das bellas chronicas de Mazade: 75 por cento desses estimaveis cavalheiros repetir-te-hão as mesmas opiniões, e uma tal monotonia é grandemente saudavel. Com este regimen, durante oito, dez, dezoito mezes—supponhamos dous annos,—reduzes o intellecto, por mais prodigo que seja, á sobriedade, á disciplina, ao equilibrio commum. Não trato do vocabulario, porque elle está sub-entendido no uso das idéas; ha de ser naturalmente simples, tibio, apoucado, sem notas vermelhas, sem cores de clarim...
—Isto é o diabo! Não poder adornar o estylo, de quando em quando....
—Podes; podes empregar umas quantas figuras expressivas, a hydra de Lerna, por exemplo, a cabeça de Meduza, o tonel das Danaides, as azas de Icaro, e outras, que romanticos, classicos e realistas empregam sem desar, quando precisam d'ellas. Sentenças latinas, ditos historicos, versos celebres, brocardos juridicos, maximas, é de bom aviso trazel-os comtigo para os discursos de sobremesa, do felicitação, ou de agradecimento.Caveant, consulesé um excellente fecho de artigo politico; o mesmo direi doSi vis pacem para bellum.Alguns costumam renovar o sabor de uma citação intercalando-a n'uma phrase nova, original e bella, mas não te aconselho esse artificio: seria desnaturar-lhe as graças vetustas. Melhor do que tudo isso, porem, que afinal não passa de mero adorno, são as phrases feitas, as locuções convencionaes, as formulas consagradas pelos annos, incrustadas na memoria individual e publica. Essas formulas têm a vantagem de não obrigar os outros a um esforço inutil. Não as relaciono agora, mas fal-o-hei por escripto. De resto, o mesmo officio te irá ensinando os elementos d'essa arte difficil de pensar o pensado. Quanto á utilidade de um tal systema, basta figurar uma hypothese. Faz-se uma lei, executa-se, não produz effeito, subsiste o mal. Eis ahi uma questão que póde aguçar as curiosidades vadias, dar ensejo a um inqurrito pedantesco, a uma collecta fastidiosa de documentos e observações, analyse das causas provaveis, causas certas, causas possiveis, um estudo infinito das aptidões do sujeito reformado, da natureza do mal, da manipulação do remedio, das circumstancias da applicação; materia, enfim, para todo nm andaime de palavras, conceitos, e desvarios. Tu poupas aos teus semelhantes todo esse immenso aranzel, tu dizes simplesmente: Antes das leis, reformemos os costumes!—E esta phrase synthetica, transparente, limpida, tirada ao peculio commum, resolve mais depressa o problema, entra pelos espiritos como um jorro subito de sol.
—Vejo por ahi que vosmecê condemna toda e qualquer applicação de processos modernos.
—Entendamo-nos. Condemno a applicação, louvo a denominação. O mesmo direi de toda a recente terminologia scientifica; deves decoral-a. Com quanto o rasgo peculiar do medalhão seja uma certa attitude de deus Termino, e as sciencias sejam obra do movimento humano, como tens de ser medalhão mais tarde, convém tomar as armas do teu tempo. E de duas uma:—ou ellas estarão usadas e divulgadas d'aqui a trinta annos, ou conservar-se-hão novas: no primeiro caso, pertencem-te de fôro proprio; no segundo, podes ter a coquetice de as trazer, para mostrar que tambem és pintor. De outiva, com o tempo, irás sabendo a que leis, casos e phenomenos responde toda essa terminologia; porque o methodo de interrogar os proprios mestres e officiaes da sciencia, nos seus livros, estudos e memorias, além de tedioso e cançativo, traz o perigo de inocular ideas novas, e é radicalmente falso. Accresce que no dia em que viesses a assenhoriar-te do espirito d'aquellas leis e formulas, serias provavelmente levado a empregal-as com um tal ou qual comedimento, como a costureira—esperta e afreguezada,—que, segundo um poeta, classico,
Quanto mais panno tem, mais poupa o córte,Menos monte alardea de retalhos;
e este phenomeno, tratando-se de um medalhão, é que não seria scientifico.
—Upa, que a profissão é difficil.
—E ainda não chegamos ao cabo.
—Vamos a elle.
—Não te fallei ainda dos beneficios da publicidade. A publicidade é uma dona loureira e senhoril, que tu deves requestar á força, de pequenos mimos, confeitos, almofadinhas, cousas miudas, que antes exprimem a constancia do affecto do que o atrevimento e a ambição. Que D. Quixote solicite os favores della mediante acções heroicas ou custosas, é um sestro proprio d'esse illustre lunatico. O verdadeiro medalhão tem outra politica. Longe de inventar umTratado scientifico da creação dos carneiros, compra um carneiro e dá-o aos amigos sob a fórma de um jantar, cuja noticia não pode ser indifferente aos seus concidadãos. Uma noticia traz outra; cinco, dez, vinte vezes põe o teu nome ante os olhos do mundo. Commissões ou deputações para felicitar um agraciado, um benemerito, um forasteiro, tem singulares merecimentos, e assim as irmandades e associações diversas, sejam mythologicas, cynegeticas ou coreographicas. Os successos de certa ordem, embora de pouca monta, podem ser trazidas a lume, comtanto que ponham em relevo a tua pessoa. Explico-me. Se caires de um carro, sem outro damno, além do susto, é util mandal-o dizer aos quatro ventos, não pelo facto em si, que é insignificante, mas pelo effeito de recordar um nome caro ás affeições geraes. Percebeste?
—Percebi.
—Essa é publicidade constante, barata, facil, de todos os dias; mas ha outra. Qualquer que seja a theoria das artes, é fora de duvida que o sentimento da familia, a amisade pessoal e a estima publica instigam á reproducção das feições de um homem amado ou benemerito. Nada obsta a que sejas objecto de uma tal distincção, principalmente se a sagacidade dos amigos não achar em ti repugnancia. Em semelhante caso, não só as regras da mais vulgar polidez mandam aceitar o retrato ou o busto, como seria desasado impedir que os amigos o expuzessem em qualquer casa publica. Dessa maneira o nome fica ligado á pessoa; os que houverem lido o teu recente discurso (supponhamos) na sessão inaugural da União dos Cabellereiros, reconhecerão na compostura das feições o autor dessa obra grave, em que a «alavanca do progresso» e o «suor do trabalho», vencem as «fauces hiantes» da miseria. No caso de que uma commissão te leve á casa o retrato, deves agradecer-lhe o obsequio com um discurso cheio de gratidão e um copo d'agua: é uso antigo, razoavel e honesto. Convidarás então os melhores amigos, os parentes, e, se fôr possível, uma ou duas pessoas de representação. Mais. Se esse dia é um dia de gloria ou regosijo, não vejo que possas, decentemente, recusar um lugar á mesa aosreportersdos jornaes. Em todo o caso, se as obrigações desses cidadãos os retiverem n'outra parte, podes ajudal-os de certa maneira, redigindo tu mesmo a noticia da festa; e, dado que por um tal ou qual escrupulo, aliás desculpavel, não queiras com a propria mão annexar ao teu nome os qualificativos dignos delle, incumbe a noticia a algum amigo ou parente.
—Digo-lhe que o que vosmecê me ensina não é nada facil.
—Nem eu te digo outra cousa. É difficil, como tempo, muito tempo, leva annos, paciencia, trabalho, e felizes os que chegam a entrar na terra promettida! Os que lá não penetram, engole-os a obscuridade. Mas os que triumpham! E tu triumpharás, crê-me. Verás cahir as muralhas de Jerichó ao som das trompas sagradas. Só então poderás dizer que estás fixado. Começa nesse dia a tua phase de ornamento indispensavel, de figura obrigada, de rotulo. Acabou-se a necessidade de farejar occasiões, commissões, irmandades; ellas virão ter contigo, com o seu ar pesadão e crú de substantivos desadjectivados, e tu serás o adjectivo dessas orações opacas, oodoriferodas flores, oaniladodoscéus, oprestimosodos cidadãos, onoticiosoesucculentodos relatorios. E ser isso é o principal, porque o adjectivo é a alma do idioma, a sua porção idealista e metaphysica. O substantivo é a realidade nua e crua, é o naturalismo do vocabulario.
—E parece-lhe que todo esse officio é apenas um sobresalente para osdeficitsda vida?
—De certo; não fica excluida nenhuma outra actividade.
—Nem politica?
—Nem politica. Toda a questão é não infringir as regras e obrigações capitaes. Podes pertencer a qualquer partido, liberal ou conservador, republicano ou ultramontano, com a clausula unica de não ligar nenhuma idéa especial a esses vocábulos, e reconhecer-lhe sómente a utilidade doscibbolethbiblico.
—Se for ao parlamento, posso occupar a tribuna?
—Podes e deves; é um modo de convocar a attenção publica. Quanto á materia dos discursos, tens á escolha:—ou os negocios miudos, ou a metaphysica politica, mas prefere a metaphysica. Os negocios miudos, força é confessal-o, não desdizem d'aquella chateza de bom tom, propria de um medalhão acabado; mas, se poderes, adopta a metaphysica;—é mais facil e mais attrahente. Suppõe que desejas saber porque motivo a 7acompanhia de infantaria foi transferida de Uruguayana para Cangussú; serás ouvido tão sómente pelo ministro da guerra, que te explicará em dez minutos as razões d'esse acto. Não assim a metaphysica. Um discurso de metaphysica politica apaixona naturalmente os partidos e o publico, chama os apartes e as respostas. E depois não obriga a pensar e descobrir. N'esse ramo dos conhecimentos humanos tudo está achado, formulado, rotulado, encaixotado; é só prover os alforges da memoria. Em todo caso, não transcedas nunca os limites de uma invejavel vulgaridade.
—Farei o que puder. Nenhuma imaginação?
—Nenhuma; antes faze correr o boato de que um tal dom é infimo.
—Nenhuma philosophia?
—Entendamo-nos: no papel e na lingua alguma, na realidade nada. «Philosophia da historia,» por exemplo, é uma locução que deves empregar com frequencia, mas prohibo-te que chegues a outras conclusões que não sejam as já achadas por outros. Foge a tudo que possa cheirar a reflexão, originalidade, etc., etc.
—Também ao riso?
—Como ao riso?
—Ficar serio, muito serio...
—Conforme. Tens um um genio folgasão, prasenteiro, não has de sofreal-o nem eliminal-o; pódes brincar e rir alguma vez. Medalhão não quer dizer melancolico. Um grave póde ter seus momentos de expansão alegre. Sómente,—e este ponto é melindroso...
—Diga.
—Somente não deves empregar a ironia, esse movimento ao canto da boca, cheio do mysterios, inventado por algum grego da decadencia, contrahido por Luciano, transmittido a Swift e Voltaire, feição propria dos scepticos e desabusados. Não. Usa antes a chalaça, a nossa boa chalaça amiga, gorducha, redonda, franca, sem biocos, nem véus, que se mette pela cara dos outros, estala com uma palmada, faz pular o sangue nas veias, e arrebentar de riso os suspensorios. Usa a chalaça. Que é isto?
—Meia noite.
—Meia noite? Entras nos teus vinte e dois annos, meu peralta; estás definitivamente maior. Vamos dormir, que é tarde. Rumina bem o que te disse, meu filho. Guardadas as proporções, a conversa d'esta noite vale oPrincipede Machiavelli. Vamos dormir.
FIM DA THEORIA DO MEDALHÃO
Vede o bacharel Duarte. Acaba de compor o mais teso e correcto laço de gravata que appareceu naquelle anno de 1850, e annunciam-lhe a visita do major Lopo Alves. Notai que é de noite, e passa de nove horas. Duarte estremeceu e tinha duas razões para isso. A primeira era ser o major, em qualquer occasião, um dos mais enfadonhos sujeitos do tempo. A segunda é que elle preparava-se justamente para ir ver, em um baile, os mais finos cabellos louros e os mais pensativos olhos azues, que este nosso clima, tão avaro delles, produzira. Datava de uma semana aquelle namoro. Seu coração, deixando-se prender entre duas valsas, confiou aos olhos, que eram castanhos, uma declaração em regra, que elles pontualmente transmittiram á moça, dez minutos antes da ceia, recebendo favoravel resposta logo depois do chocolate. Tres dias depois, estava a caminho a primeira carta, e pelo geito que levavam as cousas não era de admirar que, antes do fim do anno, estivessem ambos a caminho da egreja. Nestas circumstancias, a chegada de Lopo Alves era uma verdadeira calamidade. Velho amigo da familia, companheiro de seu finado pae no exercito, tinha jus o major a todos os respeitos. Impossivel despedil-o ou tratal-o com frieza. Havia felizmente uma circumstancia attenuante; o major era aparentado com Cecilia, a moça dos olhos azues; em caso de necessidade, era um voto seguro.
Duarte enfiou um chambre e dirigiu-se para a sala, onde Lopo Alves, com um rolo debaixo do braço e os olhos fitos no ar, parecia totalmente alheio á chegada do bacharel.
—Que bom vento o trouxe a Catumby a semelhante hora? perguntou Duarte, dando á voz uma expressão de prazer, aconselhada não menos pelo interesse que pelo bom tom.
—Não sei se o vento que me trouxe é bom ou mau, respondeu o major sorrindo por baixo do espesso bigode grisalho; sei que foi um vento rijo. Vai sahir?
—Vou ao Rio Comprido.
—Já sei; vae á casa da viuva Menezes. Minha mulher e as pequenas já lá devem estar: eu irei mais tarde, se puder. Creio que é cedo, não?
Lopo Alves tirou o relogio e viu que eram nove horas e meia. Passou a mão pelo bigode, levantou-se, deu alguns passos na sala, tornou a sentar-se e disse:
—Dou-lhe uma noticia, que certamente não espera. Saiba que fiz... fiz um drama.
—Um drama! exclamou o bacharel.
—Que quer? Desde creança padeci destes achaques litterarios. O serviço militar não foi remedio que me curasse, foi um palliativo. A doença regressou com a força dos primeiros tempos. Já agora não ha remedio se não deixal-a, e ir simplesmente ajudando a natureza.
Duarte recordou-se de que effectivamente o major fallava n'outro tempo de alguns discursos inauguraes, duas ou tres nenias e boa somma de artigos que escrevera ácerca das campanhas do Rio da Prata. Havia porém muitos annos que Lopo Alves deixára em paz os generaes platinos e os defuntos; nada fazia suppôr que a molestia volvesse, sobre tudo caracterisada por um drama. Esta circumstancia explical-a-hia o bacharel, se soubesse que Lopo Alves algumas semanas antes, assistira á representação de uma peça do genero ultra-romantico, obra que lhe agradou muito e lhe suggeriu a idéa de affrontar as luzes do tablado. Não entrou o major nestas minuciosidades necessarias, e o bacharel ficou sem conhecer o motivo da explosão dramatica do militar. Nem o soube, nem curou disso. Encareceu muito as faculdades mentaes do major, manifestou calorosamente a ambição que nutria de o ver sahir triumpliante naquella estréa, prometteu que o recommendaria a alguns amigos que tinha noCorreio Mercantil, e só estacou e empallideceu quando viu o major, tremulo de bemaventurança, abrir o rolo que trazia comsigo.
—Agradeço-lhe as suas boas intenções, disse Lopo Alves, e acceito o obsequio que me promette; antes delle, porém, desejo outro. Sei que é intelligente e lido; ha de me dizer francamente o que pensa deste trabalho. Não lhe peço elogios, exijo franqueza e franqueza rude. Se achar que não é bom, diga-o sem rebuço.
Duarte procurou desviar aquelle calix de amargura; mas era difficil pedil-o, e impossivel alcançal-o. Consultou melancholicamente o relogio, que marcava nove horas e cincoenta e cinco minutos, emquanto o major folheava paternalmente as cento e oitenta folhas do manuscripto.
—Isto vai depressa, disse Lopo Alves; eu sei o que são rapazes e o que são bailes. Descanse que ainda hoje dansará duas ou tres valsas comella, se a tem, ou com ellas. Não acha melhor irmos para o seu gabinete?
Era indifferente, para o bacharel, o lugar do supplicio; accedeu ao desejo do hospede. Este, com a liberdade que lhe davam as relações, disse ao moleque que não deixasse entrar ninguem. O algoz não queria testemunhas. A porta do gabinete fechou-se; Lopo Alves tomou logar ao pé da mesa, tendo em frente o bacharel, que mergulhou o corpo e o desespero n'uma vasta poltrona de marroquim, resoluto a não dizer palavra para ir mais depressa ao termo.
O drama dividia-se em sete quadros. Esta indicação produziu um calafrio no ouvinte. Nada havia de novo naquellas cento e oitenta paginas, senão a lettra do autor. O mais eram os lances, os caracteres, asficellese até o estylo dos mais acabados typos do romantismo desgrenhado. Lopo Alves cuidava pôr por obra uma invenção, quando não fazia mais do que alinhavar as suas reminiscencias. N'outra occasião, a obra seria um bom passatempo. Havia logo no primeiro quadro, especie de prologo, uma creança roubada á familia, um envenenamento, dous embuçados, a ponta de um punhal e quantidade de adjectivos não menos afiados que o punhal. No segundo, quadro dava-se conta da morte de um dos embuçados, que devia ressuscitar no terceiro, para ser preso no quinto, e matar o tyranno do septimo. Além da morte apparente do embuçado, havia no segundo quadro o rapto da menina, já então moça de desesete annos, um monologo que parecia durar igual praso, e o roubo de um testamento.
Eram quasi onze horas quando acabou a leitura deste segundo quadro. Duarte mal podia conter a colera; era já impossivel ir ao Rio Comprido. Não é fóra de proposito conjecturar que, se o major expirasse naquelle momento, Duarte agradecia a morte como um beneficio da Providencia. Os sentimentos do bacharel não faziam crer tamanha ferocidade; mas a leitura de um máu livro é capaz de produzir phenomenos ainda mais espantosos. Accresce que, emquanto aos olhos carnaes do bacharel apparecia em toda a sua espessura a grenha de Lopo Alves, fulgiam-lhe ao espirito os fios de ouro que ornavam a formosa cabeça de Cecilia; via-a com os olhos azues, a tez branca e rosada, o gesto delicado e gracioso, dominando todas as demais damas que deviam estar no salão da viuva Menezes. Via aquillo, e ouvia mentalmente a musica, a palestra, o sôar dos passos, e o ruge-ruge das sedas; emquanto a voz rouquenha e sensaborona de Lopo Alves ia desfiando os quadros e os dialogos, com a impassibilidade de uma grande convicção.
Voava o tempo, e o ouvinte já não sabia a conta dos quadros. Meia noite soára desde muito; o baile estava perdido. De repente, viu Duarte que o major enrolava outra vez o manuscripto, erguia-se, impertigava-se, cravava nelle uns olhos odientos e máus, e saia arrebatadamente do gabinete. Duarte quiz chamal-o, mas o pasmo tolhera-lhe a voz e os movimentos. Quando pôde dominar-se, ouviu o bater do tacão rijo e colerico do dramaturgo na pedra da calçada. Foi á janella; nada viu nem ouviu; autor e drama tinham desapparecido.
—Porque não fez elle isso ha mais tempo? disse o rapaz suspirando.
O suspiro mal teve tempo de abrir as azas e sair pela janella fóra, em demanda do Rio Comprido, quando o moleque do bacharel veiu annunciar-lhe a visita de um homem baixo e gordo.
—A esta hora! exclamou Duarte.
—A esta hora, repetiu o homem baixo e gordo, entrando na sala. A esta ou a qualquer hora, póde a policia entrar na casa do cidadão, uma vez que se trata de um delicto grave.
—Um delicto!
—Creio que me conhece...
—Não tenho essa honra.
—Sou empregado na policia.
—Mas que tenho eu com o senhor? de que delicto se trata?
—Pouca cousa: um furto. O senhor é accusado de haver subtrahido uma chinela turca. Apparentemente não vale nada ou vale pouco a tal chinela. Mas ha chinela e chinela. Tudo depende das circumstancias.
O homem disse isto com um riso sarcastico, e cravando no bacharel uns olhos de inquisidor. Duarte não sabia sequer da existencia do objecto roubado. Concluiu que havia equivoco de nome, e não se zangou com a injuria irrogada á sua pessoa, e de algum modo á sua classe, attribuindo-se-lhe a ratonice. Isto mesmo disse ao empregado da policia, accrescentando que não era motivo, em todo caso, para incommodal-o a semelhante hora.
—Hade perdoar-me, disse o representante da autoridade. A chinela de que se trata vale algumas dezenas de contos de réis; é ornada de finissimos diamantes, que a tornam singularmente preciosa. Não é turca só pela forma, mas tambem pela origem. A dona, que é uma de nossas patricias mais viajeiras, esteve, ha cerca de tres annos no Egypto, onde a comprou a um judeu. A historia, que este alumno de Moysés referiu ácerca daquelle producto da industria musulmana, é verdadeiramente miraculosa, e, no meu sentir, perfeitamente mentirosa. Mas não vem ao caso dizel-a. O que importa saber é que ella foi roubada e que a policia tem denuncia contra o senhor.
Neste ponto do discurso, chegára-se o homem á janella; Duarte suspeitou que fosse um doudo ou um ladrão. Não teve tempo de examinar a suspeita, porque dentro de alguns segundos, viu entrar cinco homens armados, que lhe lançaram as mãos e o levaram, escada abaixo, sem embargo dos gritos que soltava e dos movimentos desesperados que fazia. Na rua havia um carro, onde o metteram á força. Já lá estava o homem baixo e gordo, e mais um sujeito alto e magro, que o receberam e fizeram sentar no fundo do carro. Ouviu-se estalar o chicote do cocheiro e o carro partiu á desfilada.
—Ah! ah! disse o homem gordo. Com que então pensava que podia impunemente furtar chinelas turcas, namorar moças louras, casar talvez com ellas... e rir ainda por cima do genero humano.
Ouvindo aquella allusão á dama dos seus pensamentos, Duarte teve um calafrio. Tratava-se, ao que parecia, de algum desforço de rival supplantado. Ou a allusao seria casual e extranha á aventura? Duarte perdeu-se n'um cipoal de conjecturas, em quanto o carro ia sempre andando a todo galope. No fim de algum tempo, arriscou uma observação.
—Quaesquer que sejam os meus crimes, supponho que a policia...
—Nós não somos da policia, interrompeu friamente o homem magro.
—Ah!
—Este cavalheiro e eu fazemos um par. Elle, o senhor e eu faremos um terno. Ora, terno não é melhor que par; não é, não póde ser. Um casal é o ideal. Provavelmente não me entendeu?
—Não, senhor.
—Ha de entender logo mais.
Duarte resignou-se á espera, enfronhou-se no silencio, derreou o corpo, e deixou correr o carro e a aventura. Obra de cinco minutos depois estacavam os cavallos.
—Chegámos, disse o homem gordo.
Dizendo isto, tirou um lenço da algibeira e offereceu-o ao bacharel para que tapasse os olhos. Duarte recusou, mas o homem magro observou-lhe que era mais prudente obedecer que resistir. Não resistiu o bacharel; atou o lenço e apeou-se. Ouviu, d'ahi a pouco, ranger uma porta; duas pessoas,—provavelmente as mesmas que o acompanharam no carro,—seguraram-lhe as mãos e o conduziram por uma infinidade de corredores e escadas. Andando, ouvia o bacharel algumas vozes desconhecidas, palavras soltas, phrases truncadas. Afinal pararam; disseram-lhe que se sentasse e destapasse os olhos. Duarte obedeceu; mas ao desvendar-se, não viu ninguem mais.
Era uma sala vasta, assaz illuminada, trastejada com elegancia e opulencia. Era talvez sobre posse a variedade dos adornos; comtudo, a pessoa que os escolhera devia ter gosto apurado. Os bronzes, charões, tapetes, espelhos,—a copia infinita de objectos que enchiam a sala, era tudo da melhor fabrica. A vista daquillo restituiu a serenidade de animo ao bacharel; não era provavel que alli morassem ladrões.
Reclinou-se o moço indolentemente na ottomana... Na ottomana! esta circumstancia trouxe á memoria do rapaz o principio da aventura e o roubo da chinela. Alguns minutos de reflexão bastaram para ver que a tal chinela era já agora mais que problematica. Cavando mais fundo no terreno das conjecturas, pareceu-lhe achar uma explicação nova e definitiva. A chinela vinha a ser pura metaphora; tratava-se do coração de Cecilia, que elle roubára, delicto de que o queria punir o já imaginado rival. A isto deviam ligar-se naturalmente as palavras mysteriosas do homem magro: o par é melhor que o terno; um casal é o ideal.
—Ha de ser isso, concluiu Duarte; mas quem será esse pretendente derrotado?
Neste momento abriu-se uma porta do fundo da sala e negrejou a batina de um padre alvo e calvo. Duarte levantou-se, como por effeito de uma mola. O padre atravessou lentamente a sala, ao passar por elle deitou-lhe a benção, e foi sair por outra porta rasgada na parede fronteira. O bacharel ficou sem movimento, a olhar para a porta, a olhar sem ver, estupido de todos os sentidos. O inesperado daquella apparição baralhou totalmente as ideias anteriores a respeito da aventura. Não teve tempo, entretanto, de cogitar alguma nova explicação, porque a primeira porta foi de novo aberta e entrou por ella outra figura, desta vez o homem magro, que foi direito a elle e o convidou a seguil-o. Duarte não oppoz resistencia. Sairam por uma terceira porta, e, atravessados alguns corredores mais ou menos alumiados, foram dar a outra sala, que só o era por duas velas postas em castiçaes de prata. Os castiçaes estavam sobre uma meza larga. Na cabeceira desta havia um homem velho que representava ter cincoenta e cinco annos; era uma figura athletica, farta de cabellos na cabeça e na cara.
—Conhece-me? perguntou o velho, logo que Duarte entrou na sala.
—Não, senhor.
—Nem é preciso. O que vamos fazer exclue absolutamente a necessidade de qualquer apresentação. Saberá em primeiro logar que o roubo da chinela foi um simples pretexto...
—Oh! de certo! interrompeu Duarte.
—Um simples pretexto, continuou o velho, para trazel-o a esta nossa casa. A chinela não foi roubada; nunca sahiu das mãos da dona. João Rufino, vá buscar a chinella.
O homem magro saiu, e o velho declarou ao bacharel que a famosa chinela não tinha nenhum diamante, nem fôra comprada a nenhum judeu do Egypto; era, porém, turca, segundo se lhe disse, e um milagre de pequenhez. Duarte ouviu as explicações, e, reunindo todas as forças, perguntou resolutamente:
—Mas, senhor, não me dirá de uma vez o que querem de mim e o que estou fazendo nesta casa?
—Vae sabel-o, respondeu tranquillamente o velho.
A porta abriu-se e appareceu o homem magro com a chinela na mão. Duarte, convidado a approximar-se da luz, teve occasião de verificar que a pequenez era realmente miraculosa. A chinela era de marroquim finissimo; no assento do pé, estufado e forrado de seda cor azul, rutilavam duas lettras bordadas a ouro.
—Chinela de creança, não lhe parece? disse o velho.
—Supponho que sim.
—Pois suppõe mal; é chinela de moça.
—Será; nada tenho com isso.
—Perdão! tem muito, porque vae casar com a dona.
—Casar! exclamou Duarte.
—Nada menos. João Rufino, vá buscar a dona da chinela.
Saiu o homem magro, e voltou logo depois. Assomando á porta, levantou o reposteiro e deu entrada a uma mulher, que caminhou para o centro da sala. Não era mulher, era uma sylphide, uma visão de poeta, uma creatura divina. Era loura; tinha os olhos azues, como os de Cecilia, extaticos, uns olhos que buscavam o céu ou pareciam viver delle. Os cabellos, deleixadamente penteados, faziam-lhe em volta da cabeça, um como resplendor de santa; santa sómente, não martyr, porque o sorriso que lhe desabrochava os labios, era um sorriso de bem-aventurança, como raras vezes hade ter tido a terra. Um vestido branco, de finissima cambraia, envolvia-lhe castamente o corpo, cujas fórmas aliás desenhava, pouco para os olhos, mais muito para a imaginação.
Um rapaz, como o bacharel, não perde o sentimento da elegancia, ainda em lances daquelles. Duarte, ao ver a moça, compoz o chambre, apalpou a gravata e fez uma ceremoniosa cortezia, a que ella correspondeu com tamanha gentileza e graça, que a aventura começou a parecer muito menos atterradora.
—Meu caro doutor, esta é a noiva.
A moça abaixou os olhos; Duarte respondeu que não tinha vontade de casar.
—Tres cousas vae o senhor fazer agora mesmo, continuou impassivelmente o velho: a primeira, é casar; a segunda, escrever o seu testamento; a terceira engolir certa droga do Levante...
—Veneno! interrompeu Duarte.
—Vulgarmente é esse o nome; eu dou-lhe outro: passaporte do céu.
Duarte estava pallido e frio. Quiz fallar, não pôde; um gemido, sequer, não lhe saiu do peito. Rolaria ao chão, se não houvesse alli perto uma cadeira em que se deixou cair.
—O senhor, continuou o velho, tem uma fortunasinha de cento e cincoenta contos. Esta perola será a sua herdeira universal. João Rufino, vá buscar o padre.
O padre entrou, o mesmo padre calvo que abençoara o bacharel pouco antes; entrou e foi direito ao moço, ingrolando somnolentamente um trecho de Nehemias ou qualquer outro proplieta menor; travou-lhe da mão e disse:
—Levante-se!
—Não! não quero! não me casarei!
—E isto? disse da meza o velho apontando-lhe uma pistola.
—Mas então é um assassinato?
—É; a differença está no genero de morte: ou violenta com isto, ou suave com a droga. Escolha!