V

VADVENTO DA UNIDADE HESPANHOLAEstava D. Affonso V com desalento igual á falta de confiança, que tinha nos meios, de que dispunha, para accelerar o suspirado exito da sua temeraria empreza, quando chegaram a Toro D. Alvaro de Ataide e o Licenciado João d'Elvas, que vinham communicar-lhe o resultado da sua missão junto de Luiz XI. Era grande o contentamento dos embaixadores, por terem a convicção, de que não fôra illudida por vãs promessas a sua boa fé ao tratarem com o rei da França. Não lhes occorria, que os principes não contráem, nem conservam amisades com sacrificio de seus interesses; e talvez ignorassem, que Luiz XI tinha por maxima:quem não sabe dissimular, não sabe reinar; e que, por elle ser assás astucioso e perfido, lhe chamavama raposa.Lograram effectivamente celebrar, aos 8 de setembro{78}de 1475, o tratado de liga offensiva, no qual a França se comprometteu a coadjuvar Portugal na conquista dos reinos de Castella e Leão; e obtiveram a confirmação e renovação dos antigos tratados de paz e amisade entre estes dois ultimos reinos e o da França, por Luiz XI de uma parte, e da outra por D. Affonso V, rei de Castella.O nosso monarcha, porém, receoso, de que o seu alliado não cumprisse as estipulações dos tratados, por haverem augmentado para os reis da Secilia as probabilidades do triumpho, resolveu passar a França, e negociar pessoalmente com Luiz XI, a quem se offereceria por medianeiro da paz com o duque de Borgonha.Regressou, pois, a Portugal, com sua sobrinha. O principe, seu filho, pôz o maior cuidado em dissuadi-lo do proposito que trazia; mas a ambição cegava-lhe o entendimento, e a esperança de realizar os seus desejos, de vingar-se da affronta de Toro, não dava lugar ao receio de arriscar mais uma vez a sua reputação.Querendo passar mais além, do que lhe permittia a fortuna, saíu para França o allucinado rei, depois de ter embarcado no porto de Lisboa, em uma urca, na conserva da qual iam quinze navios com dois mil e duzentos homens.A esquadra fez-se á vela com destino a Marselha; mas por causa do tempo foi arribar a Collioure, onde D. Affonso, depois de receber os cumprimentos,{79}que Luiz XI lhe enviára por um official de sua casa, com ordem de dispôr tudo para a jornada do regio hospede, despediu os navios. Ao seu serviço ficou unicamente o pessoal indispensavel, de que fazia parte Pero da Covilhan, seu escudeiro predilecto depois do conflicto de Toro.Do porto de Collioure pôz-se o rei de Portugal a caminho de Perpignan, e teve aqui a mais pomposa recepção official, levando-se a homenagem ao requinte de abrirem todos os carceres e soltarem os presos lá retidos.De Perpignan expediu a Luiz XI um fidalgo da sua côrte, encarregado de notificar-lhe a sua chegada, e de pedir-lhe a designação do sitio, onde deviam conferenciar. Como a escolha d'este recahisse em Tours, D. Affonso V, seguiu por Narbonne, Montpellier e Nimes. Aqui deixou a estrada ordinaria, a fim de tomar para Lyon por Pont-Saint-Esprit, onde lhe veiu ao encontro o duque de Bourbon, acompanhado de numeroso cortejo, e antecipando-se a uma deputação, que por parte de Luiz XI déra, passados dias, as boas vindas em Roanne ao augusto viajante. Dirigiu-se depois a Bruges. N'esta cidade demorou-se algum tempo, fazendo-lhe companhia novos enviados do rei de França, que o entretiveram a mostrar-lhe fortalezas, apraziveis estancias, e, entre outras cousas, um rico e antigo livro na bibliotheca de uma abbadia de benidictinos. Era oLancelote do Lago, romance de cavallaria escripto em latim, na leitura{80}do qual os paladinos dos seculosXIIeXIIIaprendiam com enthusiasmo a imitar algum dos fabulosos cavalleiros daTavola Redonda. Poderia inflammar tambem o espirito aventureiro de D. Affonso V, a quem o velhaco de Luiz XI por si, ou por intermedio de seus agentes, procurava divertir do proposito, que o levava a França, e por isso lhe prodigalisava todo o genero de distracções.Chegou o monarcha portuguez a Tours. Á entrada foram-lhe entregues as chaves da cidade pelos regedores d'ella, os quaes incorporados aos dignitarios da côrte franceza, lhe fizeram uma recepção solemne, e o seguiram até os aposentos, que lhe estavam destinados.Unicamente cinco dias depois saiu Luiz XI do castello de Plessis-lez-Tours, onde residia, e foi encontrar-se com o seu hospede. Sabendo D. Affonso V, que elle o buscava, quiz descer á rua, ou ao menos ir até á escada do palacio recebe-lo, o que lhe foi impedido por dois principes, que Luiz XI havia mandado adeante para regularem o ceremonial da entrevista.A meio de uma sala avistaram-se os dois soberanos. O rei de França «vinha com um só barrete na cabeça, tendo já d'ella tirado um chapéo e duas grandes carapuças, e trazia solto um saio curto de mau panno, e á cinta uma espada d'armas muito comprida, e umas botas calçadas, e nos pés as esporas do mesmo jaez da espada, e ao pescoço uma{81}béca de chamalóte amarello, forrada de cordeiras brancas muito grosseiras, e suas calças brancas entretalhadas de muitas côres.«E ambos os reis com barretes nas mãos se abraçaram, inclinados os joelhos muito baixos.«E tendo o rei de França assim abraçado o monarcha portuguez, com os olhos no Céo disse, que dava muitas graças a Nossa Senhora e a S. Martinho, porque a um tão pobre homem, como elle era, fizeram tanta mercê, que a seu reino e casa o viesse vêr e visitar um tamanho rei, que elle sempre desejava tanto vêr, e ter por irmão e amigo, e que porém elle não crêsse, que era vindo em reino estranho, mas como proprio seu, porque assim se faria n'elle todo seu prazer e serviço, como nos de Portugal.«E com isto acabado se recolheram á camara, á entrada da qual, sobre quem se cobriria primeiro, houve entre ambos grandes e louvados debates.»[6]Que farçante este senhor Luiz XI! Fez-se esperado, para afinal apresentar-se humilde até á repugnancia!Depois de conferenciar com esse frascario, D. Affonso V partiu de Tours para Paris, tendo sido antes enviados a Roma embaixadores de ambos os monarchas, com o fim de solicitarem dispensas para o de Portugal poder casar com sua sobrinha, a princeza D. Joanna.{82}Pouco se demorou em Paris. Aconselhado por Luiz XI, dirigiu-se, no coração do inverno, á baixa Allemanha, a fim de se avistar com o duque de Borgonha, então empenhado na tomada de Nancy ao duque de Lorena, com quem estava em guerra. Sobre um rio coberto de gêlo abraçaram-se os dois soberanos, e alli mesmo disse D. Affonso a Carlos o Temerario, que o seu proposito era congraça-lo com o duque de Lorena, pois da paz entre ambos resultaria, que Luiz XI, por se vêr desobrigado de mandar vigiar a fronteira franceza, mais facilmente apoiaria a justa causa de D. Joanna, e poderia uma boa parte das tropas borgonhezas concorrer tambem para o bom exito da empreza de Castella.O filho de Philippe o Bom, ao vêr a ingenuidade com que seu primo lhe apresentava os seus projectos, respondeu-lhe indignado, que Luiz XI era homem sem virtude e sem fé, e o andava illudindo, pois ao passo que o aconselhára a vir a Nancy, nas suas costas mandava tropas numerosas a soccorrer o duque de Lorena. E terminou Carlos de Borgonha por convidar o primo a tomar parte na defesa de Pont-à-Mousson contra o duque de Lorena, a quem esperaria deante de Nancy para lhe dar batalha.Ante esta pratica, excitando á guerra, quem levava o animo inclinado á concordia, houve D. Affonso V por mais acertado voltar para Paris, e assim fez.{83}Carlos de Borgonha foi morto em combate. Estava Luiz XI livre do seu inimigo mais implacavel, e, como o abutre, que paira no alto a vigiar a presa, até o momento de se despenhar e lançar-lhe as garras, caíu logo sobre o ducado, e apoderou-se das cidades de Somme e de Borgonha propriamente dita. O sagaz, mas perverso filho de Carlos VII, tinha agora mais facilidade de resolver o problema, que sobre todos o preoccupava: a unificação da França. Lançando mão de todos os meios, mórmente dos diplomaticos, no intuito de annexar a Borgonha ao territorio francez, foi residir em Arras, a fim de seguir de perto os passos de seus agentes.Entretanto regressavam de Roma a Paris os embaixadores com a resposta de Sixto IV. Na côrte pontificia havia-se aberto uma grande campanha diplomatica, adversa ao casamento de D. Joanna. Ao passo que o rei de Napoles, e outros principes, conspiravam a favor dos reis da Secilia, a curia duvidava das promessas feitas pelo rei de França ao de Portugal; mas, parecendo-lhe, que a morte do duque de Borgonha deixava Luiz XI em melhores circumstancias de honrar a sua palavra, resolveu sagazmente a questão, concedendo a dispensa no caso de Luiz XI se decidir formalmente a prestar auxilio ao rei de Portugal, e fazendo assim o soberano francez supremo juiz da demanda. Attendeu os delegados de Luiz XI, deixando implicitamente insinuado aos reis da Secilia,{84}que tratassem com essa potencia; e não os delegados de Affonso V, por quanto a estes pôz uma condição, cujo cumprimento confiava ás diligencias do seu soberano, que era o mais interessado no negocio. Sempre habil e cautelosa a curia romana.A Luiz XI mandou logo D. Affonso V dizer, que desejava conferenciar com elle a respeito da resposta mandada pelo papa; e concordou-se por isso no encontro dos dois monarchas em Arras.Realisou-se a entrevista, ficando Luiz XI de participar ao rei de Portugal a sua resolução definitiva. Esperou este alguns dias em uma abbadia de conegos regrantes, que fôra designada para seu alojamento, e recebeu emfim uma resposta, que o esclareceu ácerca da doblez e politica tortuosa de Luiz XI.Voltou o desilludido monarcha seus olhos para Portugal, e seus passos para Rouen. Aqui se deteve grande parte do verão na esperança de embarcar-se, até que desceu a Honfleur, onde se apparelhavam os navios para o transportar e á sua comitiva. N'este porto permaneceu ainda quasi todo o mez de setembro. Sempre merencorio e sombrio, entregava-se de preferencia a exercicios religiosos dispendendo tambem parte do tempo em escrever, e com o maior cuidado logo guardava o escripto dentro de um cofre, cuja chave trazia comsigo.Um dia chamou Pero da Covilhan, e disse-lhe:{85}—Vou fazer uma longa viagem, e muito me prazia levar-vos commigo; mas tenho por melhor deixar-vos ao serviço do principe, que muito vos quér tambem.Ao que Pero da Covilhan respondeu:—Que magua immensa o meu coração sente ao ouvir voss'alteza! É dever meu cumprir as ordens, que me dais; mas, se no vosso real desagrado ainda não cahi, concedei-me a grande mercê de não regressar a Portugal, sem que vá com o meu rei e Senhor.—Não. E confiar-vos-hei um segredo, que vos explicará a minha recusa, dando-me algum allivio o desabafo.—Quando enviuvei, prometti deixar o mundo, e metter-me em religião, logo que o principe, meu filho, estivesse em edade de reger o reino. Entretanto surprehendeu-me a empreza de Castella, e, presumindo eu, que era servir a Deus e da Sua vontade, defender a justa causa da princeza, minha sobrinha, procedi, como todos sabem. Fiado nas promessas d'el-rei de França... vim a esta nação, onde tenho esperado, que os successos das guerras, movidas por sua alteza, lhe permittissem dar-me afinal o soccorro promettido... Vejo infelizmente, que taes guerras cada vez mais se accendem, e os meus negocios cada vez mais se enredam, por isso entendi, que Deus me avisava de haver chegado o tempo de cumprir o meu voto. E, como creio que os principes, que vivem e morrem na regencia de seus{86}estados, com difficuldade se salvam, unicamente me pésa, não ter tomado a resolução de deixar o mundo e as suas pompas, quando Portugal estava em paz, pois de mim dava melhor exemplo, e excusava as censuras de muitos, que não deixarão de attribuir á falta de valor, e talvez a outras causas pouco honrosas, desistir eu da empreza começada. Sirvam esses mal fundados juizos de desconto a meus peccados. Estou deliberado a resignar a corôa, e a partir para a Terra Santa, onde purificarei as minhas crenças, e passarei o resto de meus dias em uma clausura.Pero da Covilhan caíu de joelhos aos pés de D. Affonso, e exclamou!—Que fazeis, Senhor!... Pois tendes animo de deixar na orphandade tantos filhos vossos, que mais não são todos os portuguezes?!... Se não quizerdes proseguir na empreza de Castella, não podereis ainda, uma e muitas vezes, mostrar ao mundo quanto valeis, combatendo novamente os infieis, e alargando os dominios de além-mar?!... E não será isto porventura entregar-vos ao serviço de Deus, com proveito e gloria de voss'alteza e da nossa patria querida?!...D. Affonso V obrigou o môço escudeiro a levantar-se, e tornou-lhe muito impressionado:—Cumpro a vontade de Deus!... Ao principe ficam bem entregues os destinos da nação, e de certo elle voltará ás terras da Africa, onde o barbaro mouro experimentou já a rija tempera da sua{87}espada. Vós lá sereis tambem a confirmar a destreza e bravura, com que pelejastes nos plainos de Toro. Crêde, que o vosso novo rei vos terá sempre em grande estima, porque lh'o mereceis, e continuareis a merecer, e nem eu, nem elle, nos esquecemos do perigo, a que vos exposéstes, para ir a buscar-me a Castro Nunho.Ao pronunciar as ultimas palavras, o monarcha abraçou Pero da Covilhan, que seguidamente lhe beijou a mão, e saíu da sua presença muito commovido.Com effeito, Pero da Covilhan podia ser util ao desfallecido rei na sua peregrinação e exilio, já porque era mui intelligente, já porque fallava com facilidade o arabe e outras linguas; mas D. Affonso V, despojado de grandezas, não tinha com que galardoar os merecimentos do moço escudeiro, por isso preferiu deixa-lo ao serviço do principe.Antes do alvorecer do dia seguinte, que era o 24 de setembro de 1477, o rei saíu a cavallo, como costumava, acompanhado por dois moços da camara e dois de estribeira, depois de ter ordenado ao seu capellão, que o fosse esperar a meia legoa de distancia, em um sitio, onde effectivamente se encontraram. D'aqui fez voltar para Honfleur um dos moços de estribeira com a chave do cofre, que continha os seus escriptos, e com ordem de serem lidos, por quem da sua comitiva estivesse presente.{88}Entretanto já os portuguezes, e M. de Lebrét, que por ordem de Luiz XI acompanhava D. Affonso V para o servir, haviam notado, que elle tardava em regressar do seu passeio.Pero da Covilhan, que conhecia os designios do rei, presumia unicamente, que elle os tivesse posto em pratica; mas a ninguem revelava esse pensamento. Conservava-se triste, como quem compartilhava da geral inquietação, sem gesto ou palavra, que o trahissem.Chegou emfim o moço de estribeira. Abriu-se o cofre, e n'elle foram encontradas cartas escriptas por D. Affonso V. Era uma para Luiz XI, na qual pedia desculpa do incommodo, que lhe causara; recommendava-lhe os portuguezes, que deixava em França; e expunha-lhe os fundamentos, que o determinavam ao ingresso na vida monastica. Outra para o principe D. João, dando-lhe conta da sua malfadada viagem, e ordenando-lhe com paternal affecto e justificada instancia, que se fizesse acclamar immediatamente rei. Outra, participando ao reino a sua abdicação, e determinando-lhe obediencia ao principe real, como o proprio e verdadeiro monarcha. E finalmente outra aos da sua comitiva, da qual nomeava chefe, para todos os effeitos, o conde de Faro.Finda a leitura de todas, foram as destinadas a Portugal remettidas logo ao principe por via do seu camarista Antão de Faria, que tão celebre se tornou mais tarde no seu reinado, e que tinha{89}vindo a França tratar de negocios do Estado com D. Affonso V. Em virtude d'estas cartas, foi D. João acclamado rei de Portugal, no alpendre da egreja de S. Francisco em Santarem, aos 10 de novembro de 1477.Tendo-se limitado o moço de estribeira a cumprir as ordens, que trouxera, e não sabendo prestar informação alguma ácerca do destino, que levaria o regio fugitivo, atrigáram-se os portuguezes em busca-lo por toda a parte. M. de Lebrét, por seu turno, empregou emissarios com igual fim, depois de communicar a Luiz XI, quanto se passava, e de dirigir graves accusações aos portuguezes, pela negligencia com que serviam, e acompanhavam o seu soberano.Decorridos poucos dias, foi descoberto o paradoiro do monarcha por um cavalleiro normando, chamado Roberto Le Boeuf. Era em uma pequena aldeia da Normandia. D. Affonso V estava a dormir, e Le Boeuf acordou-o, para melhor o reconhecer. Não dissimulou o rei a sua identidade. O cavalleiro fez logo reunir a gente do lugar, para que vigiassem a regia habitação, e não consentissem a pessoa alguma o sair d'ella. Expediu mensageiros a Luiz XI, aos portuguezes, que estavam em Honfleur, e a M. de Lebrét, participando a todos aquella nova. E, finalmente, não só tratou com acatamento, mas serviu com zelo igual o seu prisioneiro.O conde de Penamacor, que era o primeiro{90}camarista de D. Affonso V, e tinha declarado não voltar sem seu amo a Portugal, appareceu logo junto do rei. Encontrando-o mui pertinaz, em levar ávante o seu proposito, de se dirigir á Palestina, esperou pelo conde de Faro, e pelos restantes fidalgos da comitiva, para o demoverem. Deixou-se emfim D. Affonso V vencer das instancias dos seus, e de uma carta muito consoladora, que Luiz XI lhe escrevera. Teve, porém, pejo de entrar em Honfleur, e demorando perto do lugar, em que elle estava, a bahia de Hougue, para aqui se dirigiu com o seu sequito, a fim de sair da França, onde se sentia sobre brasas.Embarcou seguidamente em uma carraca, mandada fretar por elle, e de Honfleur desceram os navios francezes, que Luiz XI fez por aprestar a tempo de a comboiar, confiando o commando da frota a Jorge de Bicipat, cognominadoo Grego.O rei de França continuava a encobrir com vãs honrarias, e ostentações de respeito pelo monarcha portuguez, a perfidia com que politicamente o trahia. E D. Affonso V fazia-se á véla para Portugal, sem levar no coração magnanimo resentimento algum, contra quem o havia constantemente logrado, antes até alimentando a esperança, de que Luiz XI sempre viria a prestar-lhe soccorro para concluir a empreza de Castella! Voltara-lhe esta preoccupação, depois que recebeu a ultima carta do seu amigo e alliado...D. Affonso V era muito instruido, e tinha grande predilecção pelos que cultivavam as lettras;{91}por isso, durante a viagem, algumas vezes ordenava a Pero da Covilhan, que lhe recitasse romances e outras composições poeticas de Castella; com o que o rei-cavalleiro muito folgava. Para todos tinha sempre o gentil soberano uma palavra amavel; e, no tom de familiaridade que lhe era peculiar, aos portuguezes descrevia com rara exactidão e lucidez, quanto vira de notavel nos lugares, que percorrera, e ao capitão da frota exalçava as qualidades de Luiz XI, pondo ao mesmo tempo em relêvo a hospitalidade da nação franceza.Sobreveiu um temporal, que deu causa a não poderem alguns navios aguardar a conserva. Perderam-se dos restantes, e abicaram primeiro do que elles á bahia de Cascaes. Não lhes tomaram, porém, grande deanteira, pois mal tinha corrido em Lisboa, onde estava D. João, a nova, de que seu páe chegaria préstes, logo este aportou á mesma bahia.Certificado D. Affonso V, de que o principe tinha sido acclamado, foi surgir a Oeiras.No dia seguinte desembarcou, sendo recebido em terra por seu filho, que mesmo alli depôz em suas mãos as redeas do governo e o sceptro, que por obediencia havia empunhado.A este tempo era já muito reduzido o numero de partidarios de D. Joanna. O arcebispo de Toledo obteve perdão dos reis catholicos, e recuperou a sua graça. O proprio Beltran de La Cueva{92}recebia mercês d'estes principes e servia-os. A cidade de Toro estava em poder de Isabel; e Castro Nunho, depois de apertado cêrco, em que a defensa heroica de Pedro de Mendanha teve profundamente abalado o poder castelhano, rendeu-se afinal aos adversarios de D. Affonso V com permissão d'este, enviada ainda de França ao alcaide lealissimo, e precedendo taes condições, que foi quasi affrontosa a victoria para o exercito sitiante.Mezes depois celebrou-se o tratado de paz e alliança, de 9 de outubro de 1478, entre os reis de Castella e Luiz XI, ficando annulladas quaesquer confederações, ligas e amisades existentes ou futuras da França com Portugal, assim como de D. Luiz XI com D. Joanna, asserta rainha de Castella.Apesar de tão categoricos desenganos, D. Affonso V, incitado por alguns magnates de Castella, que publicamente se diziam seus inimigos, mas estavam com elle na melhor intelligencia, persistia na idéa de atear a guerra, e concluir o casamento com sua sobrinha. A especulação dos castelhanos não passava despercebida a Isabel, inspirando-lhe cuidado e receio; por isso não cessavam as hostilidades tanto por parte de Castella como de Portugal, com grande e manifesta ruina das duas nações. A paz era de absoluta necessidade para ambas, e n'isto convieram emfim as partes interessadas.Para entabolar as negociações, avistaram-se na{93}villa de Alcantara, em Castella, a rainha D. Isabel e sua tia a infanta D. Beatriz, viuva do infante D. Fernando duque de Vizeu, as quaes combinaram, que fossem ajustadas as pazes em Portugal. Com effeito, a 4 de setembro de 1479, celebrou-se em Alcaçovas o tratado de paz perpetua entre D. Affonso V e os reis catholicos. Estipulou-se além de outras clausulas, que o principe D. João, filho dos reis de Castella, casasse aos sete annos por palavras de futuro, e aos quatorze por palavras de prezente, com D. Joanna, a qual receberia de arras vinte mil florins de Aragão, fóra os rendimentos necessarios para manter o seu estado; e, recusando-se o principe a concordar n'este casamento, a princeza não só seria indemnizada, mas ficaria livre para poder dispôr de si.Era um meio honesto de esbulhar de seus direitos a desditosa filha de Henrique IV, pois tal consorcio nunca se realisaria.Para segurança d'esta clausula, D. Joanna, tinha de ser posta em terçaria na villa de Moura, em poder da infanta D. Beatriz, e, não querendo, devia entrar em um dos cinco mosteiros portuguezes da ordem de Santa Clara, conservar-se ahi o tempo do noviciado, findo o qual era obrigada a optar pela profissão ou pela terçaria.No mesmo tratado estatuiu-se, que o infante D. Affonso, filho do principe D. João, logo que fosse em edade de sete annos, se desposasse com a infanta D. Isabel, filha primogenita dos reis catholicos,{94}devendo esses infantes ser tambem postos em terçaria nas mãos da infanta D. Beatriz.Este enlace era a principal garantia da paz tão desejada pelos reis de ambos os paizes para pôrem termo á desconfiança, com que se tratavam, originada de conveniencias e paixões particulares, mas filiando-a especiosamente na reciproca offensa dos interesses nacionaes.Agora repare o leitor no que diz Ruy de Pina, chronista coevo d'estes successos, e profundo conhecedor das intrigas e ambições, de que foi victima a innocente princeza D. Joanna:«Estando (a princeza) em Santarem, e cumprindo-se os seis mezes de sua liberdade, ella não com menos força alheia que tristeza sua propria, e com dolorosas lamentações suas e de todos os seus deixou o titulo de rainha e tomou o de D. Joanna, e despiu seu corpo dos brocados e sedas que trazia e vestiram-na em habitos pardos de Santa Clara, tirando-lhe da cabeça a corôa real de Castella e Portugal de que era intitulada, e cortando-lhe d'ella seus cabellos como a uma pobre donzella, e por maior seu aggravo e magua não lhe deixando os servidores de seu gosto e vontade, nem menos cousa que tivesse imagem d'estado. E o primeiro mosteiro em que assim entrou, foi Santa Clara da dita villa de Santarem. E na execução d'estas cousas porque a necessidade de outras muitas assim o requeria, o só e principal ministro era o principe; porque el-rei D. Affonso seu páe de muito anojado{95}e envergonhado d'ellas, de todas se escusou, e as deixa inteiramente á disposição e ordenança do filho, a cuja vontade el-rei n'aquelle tempo mostrou ser muito inclinado e sujeito. Mas se o principe no cumprimento d'estas cousas excedeu o modo contra a senhora D. Joanna, por ventura mais do que per razão, piedade e temperança se lhe devia, e isto pela gloria e contentamento que tinha do casamento do infante seu filho se não desfazer, que não era sem alguma esperança da successão de Castella, a desventurada fortuna como crú algoz do rigoroso e severo juizo divino, pela culpa do principe, se a tinha, lhe deu logo a pena com o triste e mortal apartamento dos innocentes principe e princeza, depois de novamente casados, sobre que tanto fundamento de honra e segurança fazia. Porque o mesmo lugar de Santarem, que contra a senhora D. Joanna foi o talho d'esta primeira crueza, se tornou a ser o principio d'esta sua vingança; porque o principe D. João depois de ser rei á vista da mesma excellente senhora, viu a subita e desastrosa morte do principe D. Affonso, seu filho, e a quem á primeira pareceu, que, sendo vivo, os reinos de Portugal sem os de Castella não bastariam, elle o viu logo morto, e de uma pouca de terra para sempre sujeito e contente, e a triste e innocente princeza sua mulher antes de bem casada se viu logo ser viuva, privada do verdadeiro titulo que tinha, e trocados os brocados ricos e hollandas delgadas que trazia, com pobre burel e{96}grossa estopa em que foi logo vestida, nem ficaram por cortar seus cabellos dourados com accidental proposito de religião, sendo apartada das pessoas mais de sua conversação e servida por servidores alheios, comendo no chão e em vasos de barro, privada em todo de todo estado, entrando n'estes reinos esposada, coberta d'ouro e de preciosa pedraria, em cima de ricas facas e trotões á vista de todos. Mas vós lagrimas que na lembrança d'esta dôr aqui apontaes soffrei-vos um pouco, cá pera outro mais proprio lugar estais reservadas. Nem a culpa do solemne mas simulado e cauteloso juramento, que el-rei e a rainha de Castella fizeram sobre o casamento d'esta senhora com o principe seu filho, não ficou sem triste pena e mortal perda e sentimento seu, porque Deus em cujo desprezo pareceu que se fez, não padece engano por castigo, do qual vimos que tambem elles viram a não madura morte do principe innocente moço seu filho, vivendo pouco mais tempo d'aquelle, em que com esta senhora prometteram e juraram de casar; porque elle já então era casado com madama Margarida, filha do rei dos romanos, e a tinha já em seu poder, sem de nenhum d'estes principes de que os reis de Castella e de Portugal tanta esperança e fundamento faziam, ficar algum legitimo herdeiro descendente que os succedesse e herdasse, e foram seus herdeiros os transversaes mais chegados».Depois da profissão daExcellente Senhora—tratamento dado a D. Joanna tanto que vestiu o{97}habito de clarista—D. Affonso V quiz abdicar e recolher para sempre ao mosteiro do Varatojo por elle fundado; mas a morte antecipou-se a frustar-lhe esse ultimo designio. A 28 de agosto de 1481 exhalou o derradeiro alento na mesma sala do paço de Cintra, onde se ouvira o seu primeiro vagido.A Excellente Senhora sobreviveu-lhe muitos annos, cumprindo resignada a sentença fatal do seu destino, que foi servir sempre de joguete nas mãos de ambiciosos, e de temeroza arma politica a seu primo D. João II.Em 1482 interessou-se Luiz XI pelo casamento da desditosa princesa com Francisco Phebo, rei de Navarra. Mais tarde Fernando V, apenas enviuvou, rojou-se a seus pés, e solicitou-lhe a mão de esposa, como em outro lugar deixámos referido. Não podendo, porém, ella olvidar, nem um momento, que era a legitima successora da coroa de Castella, recusou com nobre altivez as propostas d'este seu algoz e diffamador de sua mãe, preferindo conservar-se solteira, até que deixou de existir em 1530, com sessenta annos de edade.Foi sepultada na egreja de Santa Clara, de Lisboa, e tão esquecida a quizeram, que nem um epitaphio lavraram sobre a lousa que a cobriu. E, como o terremoto de 1755 arrasou essa egreja e o convento annexo, lá desappareceram misturadas com os destroços dos dois edificios as cinzas da pobre princeza.Malfadada condição a sua!{98}Não logrou D. Affonso V ser o unificador da grande nação hespanhola, e ao filho de D. João II foi tambem vedado herdar as duas corôas da peninsula, para realizar, conforme as aspirações de seu páe, a reconstituição da velha monarchia wisigothica, terminada no primeiro quartel do seculoVIIIpela batalha de Guadalete.Por lei, e pela propria dignidade da monarchia, o throno de Castella era patrimonio da filha de Henrique IV; e, se fossem justos os pretextos, de que se serviram, para lh'o arrebatarem das mãos, a segurança e a estabilidade de todas as dynastias podiam considerar-se problematicas.O que mórmente achanou o caminho do throno a Isabel, foram as leviandades e torpezas de um rei inepto e devasso; mas nada póde lavar a macula de rebelde, com que ella conspurcou o seu nome para sempre.Foi uma ruim causa que produziu bom effeito. O consorcio de Fernando de Aragão com Isabel preparou o successo transcendente da unidade hespanhola, realisada mais tarde por Carlos V, e os reis catholicos elevaram a Hespanha ao mais alto grau de prosperidade.Acabaram-se as turbulencias dos magnates, e restabeleceu-se emfim o poder da realeza.{99}VIPESQUIZASPor morte de D. Affonso V todos os creádos da sua casa tomou D. João II para si com muito amor e agasalho, conforme testemunha Garcia de Rezende. Pero da Covilhan pertencia áquelle pessoal, e, como pelos serviços prestados em Castella e França havia conquistado a estima do novo monarcha, para logo ascendeu esta á quasi intimidade de valido.Convem notar, que D. João II ao seu serviço preferia ter cavalleiros particulares a grandes e senhores; ou fosse por manifesta má vontade contra estes, ou porque, fazendo creaturas suas os que possuissem iguaes qualidades e menos poder, esperava que o servissem com maior fidelidade e menos ambição, por carecerem mais do seu rei, e serem mais faceis de contentar. Sobretudo tinha na melhor conta os seus companheiros de armas{100}em Toro, aos quaes louvava por vezes a dedicação e valor, cujo testemunho lhe deram, e por isso a todos elevou e distinguiu sempre, entrando a maxima parte d'elles em o numero dos quatro milvassallos d'el-rei, que creou, como lhe requereram as côrtes reunidas em Evora a 12 de setembro de 1481.Pero da Covilhan vivia, pois, na côrte de D. João II e fazia parte da sua guarda.Nem antes, nem depois, ainda houve outra côrte mais brilhante em Portugal. O rei, para descançar das fadigas da administração, mostrava grande prazer de achar-se rodeado decortezãos dotados de boas prendas, e com elles folgava, estimulando-os a exhibi-las na presença das formosuras insignes, que compunham o apparatoso e galante sequito da rainha D. Leonor.Assistia jubiloso aos saráus do paço, nos quaes até ás vezes, depois de vêr dançar com primor aretorta mouriscapelas damas trajando ao uso arabe, deixava-se adormecer no regaço de alguma d'ellas. Era o primeiro emfim a lembrar os desafios poeticos, ascôrtes de amôr, ojogo dos naipes, e tantas outras diversões proprias de uma sociedade elegante, de cujas aventuras amorosas se não fazia mysterio.Maria Thereza era uma das mais gentis entre as donzellas, que a rainha educava para suas damas, e que podemos denominar os botões de rosa do realjardim de formosura, como depois Gil Vicente{101}chamou ao estrado das damas de D. Leonor.Bella e muito viva, mais de um dos seus admiradores a requestava em verso. Ella, porém, sempre desdenhosa, sorria d'esses requebros, torturando assim os apaixonados moços. Alguns alcunhavam-n'a de desvanecida, outros de suberba, despeitados todos por se verem repellidos. Não logravam comprehender muitos d'elles, herdeiros de boas casas, que uma menina pobre se mostrasse tão esquiva, tão reservada, quasi fria, n'aquelle meio tão aquecido pelo calor da mocidade; em aquelle bulicio, que a intimidade no trato, e o desprendimento na linguagem tornavam tão jovial e affectuoso, como fielmente no'-lo reprezenta oCancioneiro Geral, de Garcia de Rezende.Um dia Pero da Covilhan, ao passar por ella, disse-lhe quasi a medo:—Amo-vos!...Maria Thereza córou, e tamanha perturbação sentiu, que não poude articular uma palavra.Pero da Covilhan desappareceu, e ella, recobrando a serenidade, disse comsigo mesma:—Deve-me ter talvez achado bem ridicula!... Não só ridicula; mas traduziria o meu enleio por baixeza d'alma, pensando que não agradeci a sua galanteria por elle não ser fidalgo, e eu filha e neta de fidalgos!...Esta idéa foi um desespero para Maria Thereza, que não encontrava desculpa alguma para o{102}seu silencio. Até pelo seu espirito passou o receio de que Pero da Covilhan a desprezaria, pois estava convicta de que fôra desprimorosa para com elle, e de que uma palavra polida é sempre facil de responder.Quando pouco depois avistou Pero da Covilhan, não poude fallar-lhe; mas retribuiu com um sorriso da mais ineffavel candura a gentileza, com que elle a cortejou. A divina semente, que germinava occulta em seu coração, cresceu de subito e floriu. Do encontro de duas almas, que se attráem, é que salta a faisca sagrada.Durante algum tempo, não houve entre ambos correspondencia, que não fosse a dos seus olhares que se cruzavam; mas bastava essa para se comprehenderem. Os olhos são o espelho da alma, e descobrem, sem o sentirmos, todos os segredos, que lá guardamos.Foi Pero da Covilhan mandado chamar pela rainha. Maria Thereza, mal soube a novidade, esperou-o á entrada dos aposentos de sua ama, e quando elle surgiu, disse-lhe:—Aguardava-vos, para dissipar qualquer temor que porventura tivesseis... Como não é costume, havia de surprehender-vos a ordem da rainha, minha Senhora?...—Certamente!... E graças pelo vosso cuidado em me prevenir, pois me tinha occorrido, que sua alteza desconfiasse, que vos cortejo, e não o levasse a bem...—respondeu Pero da Covilhan,{103}ainda mal refeito do sobresalto, que lhe causou a inesperada apparição de Maria Thereza, que para o tranquillizar lhe affirmou:—Sua alteza nada sabe ainda. Como, porém, não tenho segredos para minha real ama...—Oh! nada lhe confesseis por emquanto!... interrompeu Pero da Covilhan supplicando.—Porquê?!...—perguntou Thereza meio admirada.—Porque não vos mereço ainda...—Por sermos muito môços; quereis talvez dizer?...—Thereza!... Amo-vos cada vez mais! E por isso mesmo vos peço que espereis...—Esperarei.—Quando eu tiver uma posição digna de vós e do vosso nome illustre, virei offerecer-vo'-la, e esse será o primeiro passo para a minha felicidade... Antes, não!... Sou um simples escudeiro, bem vêdes!...—Não vos amergeis tanto!... «Só os escudeiros sustentam o reino»: dizia D. João I... O que foi Nun'Alvares, antes de condestavel?... D'onde provêem os melhores titulos de Portugal e Castella?... De escudeiros se fizeram as casas de Benavente, de Vilhena, de Albuquerque, de Medina Sidonia, e tantas outras...—Assim é; mas...—Mas vós sois hoje um escudeiro, e ámanhã podereis ser um fidalgo... Não tendes a nobreza{104}por herança e patrimonio? Haveis de merece-la e ganha-la!... É crença minha.—Na firmeza da vossa linguagem manifestais bem os quilates do vosso peregrino espirito... Edificativa exhortação a vossa!...—Pois não será verdade o que vos digo?... Aquelles a quem a gloria dos avós envaida, sem procurarem imitar-lhes as virtudes, esquecem-se, de que não é nas raizes, mas nos ramos, que teem as arvores o seu fructo... Ora dizei-me!... Quantos fidalgos deixaram a vida em Toro?... Dos escudeiros sabemos todos, que muitos lá ficaram...—Morreram no seu posto...—Com honra, bem o sei. Ou não foram elles portuguezes!... Mas costume foi sempre lançar os escudeiros deante, para serem no perigo o escudo dos nobres... Que vejam estes agora como el-rei trata os escudeiros, que sobreviveram!... A vós não perde sua alteza o ensejo de honrar... Não vo'-lo provou já, enviando-vos a Castella em seu real serviço? E á Barberia, a fazer pazes com o rei de Tremecem?...—Mercês d'el-rei, meu senhor, que m'as não deve, porque lh'as não mereço... Em Toro foram todos valentes, fidalgos e escudeiros, que ao lado de sua alteza ninguem póde ser fraco!... Praz-me porém, vêr-vos discorrer d'ess'arte!... Nobre alma de portugueza a vossa!... Como eu me sinto orgulhoso de vos amar!...—E eu de ser por vós amada!...{105}—Abençoado amor o vosso!... Por elle sinto-me capaz de tudo quanto ha de elevado e grande!... Nem perseverança e fé me faltarão jámais!...—Nem as minhas orações, Pero... Assim ellas sejam ouvidas!...—Porque não?... O céo está sempre aberto ás supplicas dos anjos. Vós sois já o da minha guarda, e o do nosso lar sereis um dia!...—Sim. A Santissima Virgem, que é auxilio dos christãos, permitta que eu saiba corresponder ás vossas esperanças!—Hade amparar-nos o seu patrocinio, crêde! Eu tambem sou devóto da Mãe de Deus, Thereza!...—Confiemos n'Ella... Mas... alguem chega! Recado vos trazem da rainha, minha Senhora. Adeus.Maria Thereza retirou-se; e Pero da Covilhan seguindo-a com os olhos, apenas soltou esta palavra, que ella já não poude ouvir:—Encantadora!...E era realmente um encanto a gentilissima Thereza. O seu coração virgineo abriu-se ao primeiro affecto, como o calice da flor aos primeiros raios do sol em alegre manhã de primavera. A sua alma desabrochando, exhalava seu ingenito perfume angelico, e em uma aspiração, que tinha alguma cousa de infinito, invocava não sabia bem o quê, para ella ainda desconhecido. Não ignorava, que{106}geralmente o interesse era o verdadeiro móbil dos casamentos na côrte. Muitos dos servidores das damas, senão todos, podiam ter a alma erma de virtudes, o coração vasio de affeições, que, se os recommendasse o prestigio das suas riquezas, ou a fascinação do seu nome, nenhuma d'ellas repudiava os seus galanteios. Maria Thereza, porém, aspirava á posse de uma alma, como a sua, que lhe offerecesse o thezouro da pureza, de um coração, como o seu, que conservasse o thezouro do affecto; porque sem estes dois thezouros nada lhe bastaria, e o nome, ainda o mais egregio, a fortuna ainda a mais colossal, não poderiam dissimular a sua privação irreparavel.A rainha D. Leonor, que tinha por ella particular predilecção, como para o deante veremos, era a mais desvelada e carinhosa das mães nos cuidados com a sua educação. Nutrindo-a de solidos pensamentos pela cultura sã e moral do seu espirito, não lhe fazia ao mesmo tempo perder a frescura da imaginação, nem lhe roubava a graça e a poesia, com que Deus a dotára. Dando á imaginação o que justamente lhe pertencia, purificando-a e dirigindo-a, creava-lhe tambem e primeiro que tudo, uma consciencia forte; formava-lhe uma vontade energica e recta, um coração que soubesse querer o bem, uma razão e intelligencia, que lhe deixassem trilhar sempre, com resolução e firmeza, o caminho do dever e da honra.Que mãe de familia com taes dotes!{107}Em preciosos codices da bibliotheca real alimentava Maria Thereza a sua paixão pelas lettras, sendo a sua leitura dirigida pela rainha, como quem prescreve o regimen de uma alimentação salutar e sobria. Ao mesmo passo encarecia D. Leonor á sua pupilla a intimidade do lar domestico, dizendo-lhe, que sem ella não pode haver vida de familia, como sem templo não existe religião, que se avigóre.Maria Thereza sabia assim, que no lar domestico nutrem e conservam sua pureza e sua energia os nossos costumes, e que elle é para todos nós como que uma patria mais estreita e mais estremecida, e tambem o lugar consagrado pelas alegrias e pelos pezáres communs da familia.Ao pensar, pois, na sua união com Pero da Covilhan, Maria Thereza promettia a si propria, que seria sempre ao lado d'elle corajosa e risonha, velando tudo, tomando o maior quinhão nos dissabores do trabalhador indefesso, applaudindo os seus esforços, aconselhando-o, inspirando-o, confortando-o emfim com o seu olhar e o seu sorriso. E por isso mesmo, embóra Pero da Covilhan soffresse as mais duras inclemencias, as mais longas provações, antes de conquistar uma reputação honrada e merecida, a despeito de criticas amargas e injustas, o amor d'elle ao trabalho e ao lar domestico haviam de faze-lo triumphar de todas as vicissitudes. Maria Thereza contava com esse triumpho e deliciava-se ao imagina-lo.{108}Que desassocego febril, em que andava o seu coração de dezeseis annos, desde que o surprehenderam no seu pulsar innocente e descuidado os primeiros estremecimentos do amor! Mas este delicado e casto sentimento deixou de ser uma paixão que poderia corrompe-lo, para tornar-se uma virtude, que havia de eleva-lo.O mais vehemente desejo de Maria Thereza, era, que Pero da Covilhan se nobilitasse, crescesse em honras, conquistasse para o seu nome uma aureola brilhantissima. Em Pero da Covilhan para merecer, e em D. João II para premiar, tinha ella toda a confiança; por isso não a intimidavam as habituaes murmurações e desdens dos cortezãos. Estes em geral, occupados de inveja dos feitos alheios, trabalhavam por empece-los e aniquila-los. Prezando-se unicamente de perfumados, e de porfiar trovando nos serões do paço, nada mais faziam do que folgazar dia e noite, emmaranhados em intrigas de amores interesseiros e faceis.Um interesse tambem tinha o amor de Maria Thereza; mas unico: a gloria de Pero da Covilhan.Desinteressado amor!A candida donzella via no seu bello ideal de ventura o môço escudeiro a burilar no escudo um brazão floreteado, ganho em serviço da religião e da patria, e a si propria aprezentando com justa ufania a sua real ama, e segunda mãe, o cavalleiro ennobrecido, a quem promettera a sua mão. Exultava{109}por isso de contentamento intimo, quando o rei o escolhia para desempenhar qualquer missão que por espinhosa e arriscada o distinguisse mais ainda. É que o seu amor tinha a singularidade maravilhosa de illuminar-lhe o entendimento, conservando-lhe sempre inflammado o coração.Quando Pero da Covilhan ia a sair, já despedido pela rainha, poude dizer a Maria Thereza:—De novo passo á Barberia.—Deus vos guie!—respondeu Thereza, tão meiga, como alegre.—Comvosco vae tambem o meu coração, que é vosso.Nem uma palavra, nem a mais fugitiva expressão da physionomia de Maria Thereza, podiam revelar a Pero da Covilhan qualquer sombra de tristeza pelo apartamento; e comtudo bem natural é, que fossem como realmente eram, sempre que se separavam, docemente feridos ambos pelo espinho da saudade. As despedidas em vez de os desfallecerem, animavam-os.D. João II no seu ardente amor de gloria, ao passo que se tornava insaciavel e insoffrivel em transpôr os humbraes da India, não afastava seus olhos d'aquella banda da Africa, tanto ao pé da porta, e da qual tivera por doação real a governança, quando principe ainda. Para ser miudamente informado ácerca do que se passava n'esses lugares, enviou lá Pero da Covilhan, recommendando-lhe em particular, tratasse a miude com Molley-Belfagege, que em 1472 havia mandado a{110}ossada de D. Fernando, o mallogrado infante, que fallecera em Fez. A razão ostensiva da viagem era, porém, a compra de cavallos do melhor sangue para o duque de Beja, a quem o rei ia dar casa. Destinados á mesma adquiriria tambem Pero da Covilhan alguns lambeis, que D. Leonor encommendara com particular interesse, consoante á carinhosa rainha merecia, quanto tocava a D. Manuel seu dilecto irmão, mais tarde rei.Embarcou Pero da Covilhan para o seu destino.Depois da necessaria demóra, regressou a Portugal, onde o esperava já outro encargo; este, porém, mais arduo, e de mais vasto alcance para a realisação do plano politico de D. João II.Estava a côrte em Santarem, quando chegou e deu conta a seus reaes amos dos mandados, que cumprira, conforme as instrucções que levava.—Bem o fizestes—disse-lhe o rei—; e agora—muito secretamente—espéro de vós grande serviço, que sempre vos tenho achado bom e leal servidor, mui ditoso em vossos feitos... Não vos impede a falta de saude, ou o cansaço da viagem, de sair já de nossos reinos?—Préstes estou, meu Senhor e rei—respondeu Pero da Covilhan.—Peza-me, porém, não ser a minha sufficiencia igual ao desejo, que tenho de servir voss'alteza...—Embóra, ireis, que Deus vos guardará.—A descobrir e saber do Preste João, e onde se acham{111}a canella e as outras especiarias, que das terras do Oriente vão a Veneza, hei já mandado um homem da casa de Monte-Rio e um frade de Lisboa. Chegados que foram a Jerusalem, d'aqui fizeram volta, dizendo, que ninguem por aquellas partes podia entender-se sem saber o arabe. De vós me lembrei, que bem o fallais. Maior incumbencia todavia levareis, do que elles, pois tambem do vosso valor e discernimento muito mais confio...—Mercê a voss'alteza, meu Senhor...—O que de vós pretendo é, que vos certifiqueis, se do meu senhorio da Guiné podemos communicar por terra com o reino do Preste João, e se tambem por lá, se a costa vae seguindo, levariamos á India a nossa frota.—Com léda vontade, Senhor, acceito o encarrego, que é mais uma mercê, por que beijo a mão de voss'alteza.—Ámanhã sereis despachado, e levareis comvosco Affonso de Paiva, que vos dou para auxiliar-vos.Pero da Covilhan poude pouco depois avistar-se com Maria Thereza, que já sabia da sua vinda, e communicar-lhe com enthusiasmo, que el-rei o mandava partir para longe, proporcionando-lhe azo de prestar á religião e á patria bons serviços. Não lhe revelou o segredo da sua mysteriosa viagem, mas não resistiu a dizer-lhe com o mais vivo arrebatamento de amor:{112}—Agora, mais do que nunca, espéro ser vosso, Thereza!...—A Virgem vos ouça!—exclamou Maria Thereza igualmentente enlevada e radiante.—A longes terras ides?... Deus vos acompanhará... e eu ficar-vos-hei esperando... de outro jámais serei!...E apartaram-se, como dois crentes, cujo animo varonil o fervor da fé revigóra.Nem um uma lagrima derramaram!As lagrimas nem sempre são a medida do amor. Este muitas vezes mais se prova, com as que se deixam de chorar.Se Pero da Covilhan partisse, para nunca mais ver Thereza, seria essa a dor maior dos olhos de ambos, e a que lh'os desfaria em lagrimas. Elle, porém, ia para voltar e trazer o seu nome laureado a Thereza; esta ficava-o esperando, para o festejar jubilosamente. Por isso as lagrimas, que deixavam ambos de chorar, se haviam seccado nas fontes do amor fino, com que mutuamente se queriam.No dia seguinte, que era o setimo de maio de 1487, D. João II, tendo a seu lado D. Manoel duque de Beja, entregou a Pero da Covilhan, que se apresentou já com Affonso de Paiva, uma carta de marear, feita em casa de Pedro d'Alcaçova, pelo licenciado D. Diogo Ortiz, oCalçadilha, depois bispo, e pelos physicos hebreos, mestre Rodrigo e mestre Moysés, os quaes tomavam com o primeiro{113}parte najunta dos cosmographos. N'essa carta devia Pero da Covilhan, marcar os lugares do senhorio do Preste, bem como todos os mais, por onde passasse.Para os primeiros gastos da viagem mandou-lhe D. João II dar da arca das despesas da horta de Almeirim quatrocentos cruzados, parte dos quaes Pero da Covilhan depositou na casa bancaria de Bartholomeu Florentino, a fim de receber em Hespanha o que lhe conviesse, levando além d'isso uma carta de credito, dirigida pelo monarcha á opulenta casa Medicis, para que nada lhe faltasse nos paizes, que tivesse de percorrer. Foi emfim portador de cartas em arabico para o Préste, nas quaes D. João II significava a este o grande desejo de o conhecer, e travar com elle relações de amisade, dando-lhe ao mesmo tempo conta de tudo o que pela costa da Guiné havia descoberto para saber, se alguma d'aquellas terras era perto de seu reino e senhorios, a fim de por ellas se poderem communicar e prestar, bem como fazer, com que a Fé Christã fosse exalçada.E no mesmo dia partiram os dois exploradores em direcção a Barcelona.{114}{115}

Estava D. Affonso V com desalento igual á falta de confiança, que tinha nos meios, de que dispunha, para accelerar o suspirado exito da sua temeraria empreza, quando chegaram a Toro D. Alvaro de Ataide e o Licenciado João d'Elvas, que vinham communicar-lhe o resultado da sua missão junto de Luiz XI. Era grande o contentamento dos embaixadores, por terem a convicção, de que não fôra illudida por vãs promessas a sua boa fé ao tratarem com o rei da França. Não lhes occorria, que os principes não contráem, nem conservam amisades com sacrificio de seus interesses; e talvez ignorassem, que Luiz XI tinha por maxima:quem não sabe dissimular, não sabe reinar; e que, por elle ser assás astucioso e perfido, lhe chamavama raposa.

Lograram effectivamente celebrar, aos 8 de setembro{78}de 1475, o tratado de liga offensiva, no qual a França se comprometteu a coadjuvar Portugal na conquista dos reinos de Castella e Leão; e obtiveram a confirmação e renovação dos antigos tratados de paz e amisade entre estes dois ultimos reinos e o da França, por Luiz XI de uma parte, e da outra por D. Affonso V, rei de Castella.

O nosso monarcha, porém, receoso, de que o seu alliado não cumprisse as estipulações dos tratados, por haverem augmentado para os reis da Secilia as probabilidades do triumpho, resolveu passar a França, e negociar pessoalmente com Luiz XI, a quem se offereceria por medianeiro da paz com o duque de Borgonha.

Regressou, pois, a Portugal, com sua sobrinha. O principe, seu filho, pôz o maior cuidado em dissuadi-lo do proposito que trazia; mas a ambição cegava-lhe o entendimento, e a esperança de realizar os seus desejos, de vingar-se da affronta de Toro, não dava lugar ao receio de arriscar mais uma vez a sua reputação.

Querendo passar mais além, do que lhe permittia a fortuna, saíu para França o allucinado rei, depois de ter embarcado no porto de Lisboa, em uma urca, na conserva da qual iam quinze navios com dois mil e duzentos homens.

A esquadra fez-se á vela com destino a Marselha; mas por causa do tempo foi arribar a Collioure, onde D. Affonso, depois de receber os cumprimentos,{79}que Luiz XI lhe enviára por um official de sua casa, com ordem de dispôr tudo para a jornada do regio hospede, despediu os navios. Ao seu serviço ficou unicamente o pessoal indispensavel, de que fazia parte Pero da Covilhan, seu escudeiro predilecto depois do conflicto de Toro.

Do porto de Collioure pôz-se o rei de Portugal a caminho de Perpignan, e teve aqui a mais pomposa recepção official, levando-se a homenagem ao requinte de abrirem todos os carceres e soltarem os presos lá retidos.

De Perpignan expediu a Luiz XI um fidalgo da sua côrte, encarregado de notificar-lhe a sua chegada, e de pedir-lhe a designação do sitio, onde deviam conferenciar. Como a escolha d'este recahisse em Tours, D. Affonso V, seguiu por Narbonne, Montpellier e Nimes. Aqui deixou a estrada ordinaria, a fim de tomar para Lyon por Pont-Saint-Esprit, onde lhe veiu ao encontro o duque de Bourbon, acompanhado de numeroso cortejo, e antecipando-se a uma deputação, que por parte de Luiz XI déra, passados dias, as boas vindas em Roanne ao augusto viajante. Dirigiu-se depois a Bruges. N'esta cidade demorou-se algum tempo, fazendo-lhe companhia novos enviados do rei de França, que o entretiveram a mostrar-lhe fortalezas, apraziveis estancias, e, entre outras cousas, um rico e antigo livro na bibliotheca de uma abbadia de benidictinos. Era oLancelote do Lago, romance de cavallaria escripto em latim, na leitura{80}do qual os paladinos dos seculosXIIeXIIIaprendiam com enthusiasmo a imitar algum dos fabulosos cavalleiros daTavola Redonda. Poderia inflammar tambem o espirito aventureiro de D. Affonso V, a quem o velhaco de Luiz XI por si, ou por intermedio de seus agentes, procurava divertir do proposito, que o levava a França, e por isso lhe prodigalisava todo o genero de distracções.

Chegou o monarcha portuguez a Tours. Á entrada foram-lhe entregues as chaves da cidade pelos regedores d'ella, os quaes incorporados aos dignitarios da côrte franceza, lhe fizeram uma recepção solemne, e o seguiram até os aposentos, que lhe estavam destinados.

Unicamente cinco dias depois saiu Luiz XI do castello de Plessis-lez-Tours, onde residia, e foi encontrar-se com o seu hospede. Sabendo D. Affonso V, que elle o buscava, quiz descer á rua, ou ao menos ir até á escada do palacio recebe-lo, o que lhe foi impedido por dois principes, que Luiz XI havia mandado adeante para regularem o ceremonial da entrevista.

A meio de uma sala avistaram-se os dois soberanos. O rei de França «vinha com um só barrete na cabeça, tendo já d'ella tirado um chapéo e duas grandes carapuças, e trazia solto um saio curto de mau panno, e á cinta uma espada d'armas muito comprida, e umas botas calçadas, e nos pés as esporas do mesmo jaez da espada, e ao pescoço uma{81}béca de chamalóte amarello, forrada de cordeiras brancas muito grosseiras, e suas calças brancas entretalhadas de muitas côres.

«E ambos os reis com barretes nas mãos se abraçaram, inclinados os joelhos muito baixos.

«E tendo o rei de França assim abraçado o monarcha portuguez, com os olhos no Céo disse, que dava muitas graças a Nossa Senhora e a S. Martinho, porque a um tão pobre homem, como elle era, fizeram tanta mercê, que a seu reino e casa o viesse vêr e visitar um tamanho rei, que elle sempre desejava tanto vêr, e ter por irmão e amigo, e que porém elle não crêsse, que era vindo em reino estranho, mas como proprio seu, porque assim se faria n'elle todo seu prazer e serviço, como nos de Portugal.

«E com isto acabado se recolheram á camara, á entrada da qual, sobre quem se cobriria primeiro, houve entre ambos grandes e louvados debates.»[6]

Que farçante este senhor Luiz XI! Fez-se esperado, para afinal apresentar-se humilde até á repugnancia!

Depois de conferenciar com esse frascario, D. Affonso V partiu de Tours para Paris, tendo sido antes enviados a Roma embaixadores de ambos os monarchas, com o fim de solicitarem dispensas para o de Portugal poder casar com sua sobrinha, a princeza D. Joanna.{82}

Pouco se demorou em Paris. Aconselhado por Luiz XI, dirigiu-se, no coração do inverno, á baixa Allemanha, a fim de se avistar com o duque de Borgonha, então empenhado na tomada de Nancy ao duque de Lorena, com quem estava em guerra. Sobre um rio coberto de gêlo abraçaram-se os dois soberanos, e alli mesmo disse D. Affonso a Carlos o Temerario, que o seu proposito era congraça-lo com o duque de Lorena, pois da paz entre ambos resultaria, que Luiz XI, por se vêr desobrigado de mandar vigiar a fronteira franceza, mais facilmente apoiaria a justa causa de D. Joanna, e poderia uma boa parte das tropas borgonhezas concorrer tambem para o bom exito da empreza de Castella.

O filho de Philippe o Bom, ao vêr a ingenuidade com que seu primo lhe apresentava os seus projectos, respondeu-lhe indignado, que Luiz XI era homem sem virtude e sem fé, e o andava illudindo, pois ao passo que o aconselhára a vir a Nancy, nas suas costas mandava tropas numerosas a soccorrer o duque de Lorena. E terminou Carlos de Borgonha por convidar o primo a tomar parte na defesa de Pont-à-Mousson contra o duque de Lorena, a quem esperaria deante de Nancy para lhe dar batalha.

Ante esta pratica, excitando á guerra, quem levava o animo inclinado á concordia, houve D. Affonso V por mais acertado voltar para Paris, e assim fez.{83}

Carlos de Borgonha foi morto em combate. Estava Luiz XI livre do seu inimigo mais implacavel, e, como o abutre, que paira no alto a vigiar a presa, até o momento de se despenhar e lançar-lhe as garras, caíu logo sobre o ducado, e apoderou-se das cidades de Somme e de Borgonha propriamente dita. O sagaz, mas perverso filho de Carlos VII, tinha agora mais facilidade de resolver o problema, que sobre todos o preoccupava: a unificação da França. Lançando mão de todos os meios, mórmente dos diplomaticos, no intuito de annexar a Borgonha ao territorio francez, foi residir em Arras, a fim de seguir de perto os passos de seus agentes.

Entretanto regressavam de Roma a Paris os embaixadores com a resposta de Sixto IV. Na côrte pontificia havia-se aberto uma grande campanha diplomatica, adversa ao casamento de D. Joanna. Ao passo que o rei de Napoles, e outros principes, conspiravam a favor dos reis da Secilia, a curia duvidava das promessas feitas pelo rei de França ao de Portugal; mas, parecendo-lhe, que a morte do duque de Borgonha deixava Luiz XI em melhores circumstancias de honrar a sua palavra, resolveu sagazmente a questão, concedendo a dispensa no caso de Luiz XI se decidir formalmente a prestar auxilio ao rei de Portugal, e fazendo assim o soberano francez supremo juiz da demanda. Attendeu os delegados de Luiz XI, deixando implicitamente insinuado aos reis da Secilia,{84}que tratassem com essa potencia; e não os delegados de Affonso V, por quanto a estes pôz uma condição, cujo cumprimento confiava ás diligencias do seu soberano, que era o mais interessado no negocio. Sempre habil e cautelosa a curia romana.

A Luiz XI mandou logo D. Affonso V dizer, que desejava conferenciar com elle a respeito da resposta mandada pelo papa; e concordou-se por isso no encontro dos dois monarchas em Arras.

Realisou-se a entrevista, ficando Luiz XI de participar ao rei de Portugal a sua resolução definitiva. Esperou este alguns dias em uma abbadia de conegos regrantes, que fôra designada para seu alojamento, e recebeu emfim uma resposta, que o esclareceu ácerca da doblez e politica tortuosa de Luiz XI.

Voltou o desilludido monarcha seus olhos para Portugal, e seus passos para Rouen. Aqui se deteve grande parte do verão na esperança de embarcar-se, até que desceu a Honfleur, onde se apparelhavam os navios para o transportar e á sua comitiva. N'este porto permaneceu ainda quasi todo o mez de setembro. Sempre merencorio e sombrio, entregava-se de preferencia a exercicios religiosos dispendendo tambem parte do tempo em escrever, e com o maior cuidado logo guardava o escripto dentro de um cofre, cuja chave trazia comsigo.

Um dia chamou Pero da Covilhan, e disse-lhe:{85}

—Vou fazer uma longa viagem, e muito me prazia levar-vos commigo; mas tenho por melhor deixar-vos ao serviço do principe, que muito vos quér tambem.

Ao que Pero da Covilhan respondeu:

—Que magua immensa o meu coração sente ao ouvir voss'alteza! É dever meu cumprir as ordens, que me dais; mas, se no vosso real desagrado ainda não cahi, concedei-me a grande mercê de não regressar a Portugal, sem que vá com o meu rei e Senhor.

—Não. E confiar-vos-hei um segredo, que vos explicará a minha recusa, dando-me algum allivio o desabafo.—Quando enviuvei, prometti deixar o mundo, e metter-me em religião, logo que o principe, meu filho, estivesse em edade de reger o reino. Entretanto surprehendeu-me a empreza de Castella, e, presumindo eu, que era servir a Deus e da Sua vontade, defender a justa causa da princeza, minha sobrinha, procedi, como todos sabem. Fiado nas promessas d'el-rei de França... vim a esta nação, onde tenho esperado, que os successos das guerras, movidas por sua alteza, lhe permittissem dar-me afinal o soccorro promettido... Vejo infelizmente, que taes guerras cada vez mais se accendem, e os meus negocios cada vez mais se enredam, por isso entendi, que Deus me avisava de haver chegado o tempo de cumprir o meu voto. E, como creio que os principes, que vivem e morrem na regencia de seus{86}estados, com difficuldade se salvam, unicamente me pésa, não ter tomado a resolução de deixar o mundo e as suas pompas, quando Portugal estava em paz, pois de mim dava melhor exemplo, e excusava as censuras de muitos, que não deixarão de attribuir á falta de valor, e talvez a outras causas pouco honrosas, desistir eu da empreza começada. Sirvam esses mal fundados juizos de desconto a meus peccados. Estou deliberado a resignar a corôa, e a partir para a Terra Santa, onde purificarei as minhas crenças, e passarei o resto de meus dias em uma clausura.

Pero da Covilhan caíu de joelhos aos pés de D. Affonso, e exclamou!

—Que fazeis, Senhor!... Pois tendes animo de deixar na orphandade tantos filhos vossos, que mais não são todos os portuguezes?!... Se não quizerdes proseguir na empreza de Castella, não podereis ainda, uma e muitas vezes, mostrar ao mundo quanto valeis, combatendo novamente os infieis, e alargando os dominios de além-mar?!... E não será isto porventura entregar-vos ao serviço de Deus, com proveito e gloria de voss'alteza e da nossa patria querida?!...

D. Affonso V obrigou o môço escudeiro a levantar-se, e tornou-lhe muito impressionado:

—Cumpro a vontade de Deus!... Ao principe ficam bem entregues os destinos da nação, e de certo elle voltará ás terras da Africa, onde o barbaro mouro experimentou já a rija tempera da sua{87}espada. Vós lá sereis tambem a confirmar a destreza e bravura, com que pelejastes nos plainos de Toro. Crêde, que o vosso novo rei vos terá sempre em grande estima, porque lh'o mereceis, e continuareis a merecer, e nem eu, nem elle, nos esquecemos do perigo, a que vos exposéstes, para ir a buscar-me a Castro Nunho.

Ao pronunciar as ultimas palavras, o monarcha abraçou Pero da Covilhan, que seguidamente lhe beijou a mão, e saíu da sua presença muito commovido.

Com effeito, Pero da Covilhan podia ser util ao desfallecido rei na sua peregrinação e exilio, já porque era mui intelligente, já porque fallava com facilidade o arabe e outras linguas; mas D. Affonso V, despojado de grandezas, não tinha com que galardoar os merecimentos do moço escudeiro, por isso preferiu deixa-lo ao serviço do principe.

Antes do alvorecer do dia seguinte, que era o 24 de setembro de 1477, o rei saíu a cavallo, como costumava, acompanhado por dois moços da camara e dois de estribeira, depois de ter ordenado ao seu capellão, que o fosse esperar a meia legoa de distancia, em um sitio, onde effectivamente se encontraram. D'aqui fez voltar para Honfleur um dos moços de estribeira com a chave do cofre, que continha os seus escriptos, e com ordem de serem lidos, por quem da sua comitiva estivesse presente.{88}

Entretanto já os portuguezes, e M. de Lebrét, que por ordem de Luiz XI acompanhava D. Affonso V para o servir, haviam notado, que elle tardava em regressar do seu passeio.

Pero da Covilhan, que conhecia os designios do rei, presumia unicamente, que elle os tivesse posto em pratica; mas a ninguem revelava esse pensamento. Conservava-se triste, como quem compartilhava da geral inquietação, sem gesto ou palavra, que o trahissem.

Chegou emfim o moço de estribeira. Abriu-se o cofre, e n'elle foram encontradas cartas escriptas por D. Affonso V. Era uma para Luiz XI, na qual pedia desculpa do incommodo, que lhe causara; recommendava-lhe os portuguezes, que deixava em França; e expunha-lhe os fundamentos, que o determinavam ao ingresso na vida monastica. Outra para o principe D. João, dando-lhe conta da sua malfadada viagem, e ordenando-lhe com paternal affecto e justificada instancia, que se fizesse acclamar immediatamente rei. Outra, participando ao reino a sua abdicação, e determinando-lhe obediencia ao principe real, como o proprio e verdadeiro monarcha. E finalmente outra aos da sua comitiva, da qual nomeava chefe, para todos os effeitos, o conde de Faro.

Finda a leitura de todas, foram as destinadas a Portugal remettidas logo ao principe por via do seu camarista Antão de Faria, que tão celebre se tornou mais tarde no seu reinado, e que tinha{89}vindo a França tratar de negocios do Estado com D. Affonso V. Em virtude d'estas cartas, foi D. João acclamado rei de Portugal, no alpendre da egreja de S. Francisco em Santarem, aos 10 de novembro de 1477.

Tendo-se limitado o moço de estribeira a cumprir as ordens, que trouxera, e não sabendo prestar informação alguma ácerca do destino, que levaria o regio fugitivo, atrigáram-se os portuguezes em busca-lo por toda a parte. M. de Lebrét, por seu turno, empregou emissarios com igual fim, depois de communicar a Luiz XI, quanto se passava, e de dirigir graves accusações aos portuguezes, pela negligencia com que serviam, e acompanhavam o seu soberano.

Decorridos poucos dias, foi descoberto o paradoiro do monarcha por um cavalleiro normando, chamado Roberto Le Boeuf. Era em uma pequena aldeia da Normandia. D. Affonso V estava a dormir, e Le Boeuf acordou-o, para melhor o reconhecer. Não dissimulou o rei a sua identidade. O cavalleiro fez logo reunir a gente do lugar, para que vigiassem a regia habitação, e não consentissem a pessoa alguma o sair d'ella. Expediu mensageiros a Luiz XI, aos portuguezes, que estavam em Honfleur, e a M. de Lebrét, participando a todos aquella nova. E, finalmente, não só tratou com acatamento, mas serviu com zelo igual o seu prisioneiro.

O conde de Penamacor, que era o primeiro{90}camarista de D. Affonso V, e tinha declarado não voltar sem seu amo a Portugal, appareceu logo junto do rei. Encontrando-o mui pertinaz, em levar ávante o seu proposito, de se dirigir á Palestina, esperou pelo conde de Faro, e pelos restantes fidalgos da comitiva, para o demoverem. Deixou-se emfim D. Affonso V vencer das instancias dos seus, e de uma carta muito consoladora, que Luiz XI lhe escrevera. Teve, porém, pejo de entrar em Honfleur, e demorando perto do lugar, em que elle estava, a bahia de Hougue, para aqui se dirigiu com o seu sequito, a fim de sair da França, onde se sentia sobre brasas.

Embarcou seguidamente em uma carraca, mandada fretar por elle, e de Honfleur desceram os navios francezes, que Luiz XI fez por aprestar a tempo de a comboiar, confiando o commando da frota a Jorge de Bicipat, cognominadoo Grego.

O rei de França continuava a encobrir com vãs honrarias, e ostentações de respeito pelo monarcha portuguez, a perfidia com que politicamente o trahia. E D. Affonso V fazia-se á véla para Portugal, sem levar no coração magnanimo resentimento algum, contra quem o havia constantemente logrado, antes até alimentando a esperança, de que Luiz XI sempre viria a prestar-lhe soccorro para concluir a empreza de Castella! Voltara-lhe esta preoccupação, depois que recebeu a ultima carta do seu amigo e alliado...

D. Affonso V era muito instruido, e tinha grande predilecção pelos que cultivavam as lettras;{91}por isso, durante a viagem, algumas vezes ordenava a Pero da Covilhan, que lhe recitasse romances e outras composições poeticas de Castella; com o que o rei-cavalleiro muito folgava. Para todos tinha sempre o gentil soberano uma palavra amavel; e, no tom de familiaridade que lhe era peculiar, aos portuguezes descrevia com rara exactidão e lucidez, quanto vira de notavel nos lugares, que percorrera, e ao capitão da frota exalçava as qualidades de Luiz XI, pondo ao mesmo tempo em relêvo a hospitalidade da nação franceza.

Sobreveiu um temporal, que deu causa a não poderem alguns navios aguardar a conserva. Perderam-se dos restantes, e abicaram primeiro do que elles á bahia de Cascaes. Não lhes tomaram, porém, grande deanteira, pois mal tinha corrido em Lisboa, onde estava D. João, a nova, de que seu páe chegaria préstes, logo este aportou á mesma bahia.

Certificado D. Affonso V, de que o principe tinha sido acclamado, foi surgir a Oeiras.

No dia seguinte desembarcou, sendo recebido em terra por seu filho, que mesmo alli depôz em suas mãos as redeas do governo e o sceptro, que por obediencia havia empunhado.

A este tempo era já muito reduzido o numero de partidarios de D. Joanna. O arcebispo de Toledo obteve perdão dos reis catholicos, e recuperou a sua graça. O proprio Beltran de La Cueva{92}recebia mercês d'estes principes e servia-os. A cidade de Toro estava em poder de Isabel; e Castro Nunho, depois de apertado cêrco, em que a defensa heroica de Pedro de Mendanha teve profundamente abalado o poder castelhano, rendeu-se afinal aos adversarios de D. Affonso V com permissão d'este, enviada ainda de França ao alcaide lealissimo, e precedendo taes condições, que foi quasi affrontosa a victoria para o exercito sitiante.

Mezes depois celebrou-se o tratado de paz e alliança, de 9 de outubro de 1478, entre os reis de Castella e Luiz XI, ficando annulladas quaesquer confederações, ligas e amisades existentes ou futuras da França com Portugal, assim como de D. Luiz XI com D. Joanna, asserta rainha de Castella.

Apesar de tão categoricos desenganos, D. Affonso V, incitado por alguns magnates de Castella, que publicamente se diziam seus inimigos, mas estavam com elle na melhor intelligencia, persistia na idéa de atear a guerra, e concluir o casamento com sua sobrinha. A especulação dos castelhanos não passava despercebida a Isabel, inspirando-lhe cuidado e receio; por isso não cessavam as hostilidades tanto por parte de Castella como de Portugal, com grande e manifesta ruina das duas nações. A paz era de absoluta necessidade para ambas, e n'isto convieram emfim as partes interessadas.

Para entabolar as negociações, avistaram-se na{93}villa de Alcantara, em Castella, a rainha D. Isabel e sua tia a infanta D. Beatriz, viuva do infante D. Fernando duque de Vizeu, as quaes combinaram, que fossem ajustadas as pazes em Portugal. Com effeito, a 4 de setembro de 1479, celebrou-se em Alcaçovas o tratado de paz perpetua entre D. Affonso V e os reis catholicos. Estipulou-se além de outras clausulas, que o principe D. João, filho dos reis de Castella, casasse aos sete annos por palavras de futuro, e aos quatorze por palavras de prezente, com D. Joanna, a qual receberia de arras vinte mil florins de Aragão, fóra os rendimentos necessarios para manter o seu estado; e, recusando-se o principe a concordar n'este casamento, a princeza não só seria indemnizada, mas ficaria livre para poder dispôr de si.

Era um meio honesto de esbulhar de seus direitos a desditosa filha de Henrique IV, pois tal consorcio nunca se realisaria.

Para segurança d'esta clausula, D. Joanna, tinha de ser posta em terçaria na villa de Moura, em poder da infanta D. Beatriz, e, não querendo, devia entrar em um dos cinco mosteiros portuguezes da ordem de Santa Clara, conservar-se ahi o tempo do noviciado, findo o qual era obrigada a optar pela profissão ou pela terçaria.

No mesmo tratado estatuiu-se, que o infante D. Affonso, filho do principe D. João, logo que fosse em edade de sete annos, se desposasse com a infanta D. Isabel, filha primogenita dos reis catholicos,{94}devendo esses infantes ser tambem postos em terçaria nas mãos da infanta D. Beatriz.

Este enlace era a principal garantia da paz tão desejada pelos reis de ambos os paizes para pôrem termo á desconfiança, com que se tratavam, originada de conveniencias e paixões particulares, mas filiando-a especiosamente na reciproca offensa dos interesses nacionaes.

Agora repare o leitor no que diz Ruy de Pina, chronista coevo d'estes successos, e profundo conhecedor das intrigas e ambições, de que foi victima a innocente princeza D. Joanna:

«Estando (a princeza) em Santarem, e cumprindo-se os seis mezes de sua liberdade, ella não com menos força alheia que tristeza sua propria, e com dolorosas lamentações suas e de todos os seus deixou o titulo de rainha e tomou o de D. Joanna, e despiu seu corpo dos brocados e sedas que trazia e vestiram-na em habitos pardos de Santa Clara, tirando-lhe da cabeça a corôa real de Castella e Portugal de que era intitulada, e cortando-lhe d'ella seus cabellos como a uma pobre donzella, e por maior seu aggravo e magua não lhe deixando os servidores de seu gosto e vontade, nem menos cousa que tivesse imagem d'estado. E o primeiro mosteiro em que assim entrou, foi Santa Clara da dita villa de Santarem. E na execução d'estas cousas porque a necessidade de outras muitas assim o requeria, o só e principal ministro era o principe; porque el-rei D. Affonso seu páe de muito anojado{95}e envergonhado d'ellas, de todas se escusou, e as deixa inteiramente á disposição e ordenança do filho, a cuja vontade el-rei n'aquelle tempo mostrou ser muito inclinado e sujeito. Mas se o principe no cumprimento d'estas cousas excedeu o modo contra a senhora D. Joanna, por ventura mais do que per razão, piedade e temperança se lhe devia, e isto pela gloria e contentamento que tinha do casamento do infante seu filho se não desfazer, que não era sem alguma esperança da successão de Castella, a desventurada fortuna como crú algoz do rigoroso e severo juizo divino, pela culpa do principe, se a tinha, lhe deu logo a pena com o triste e mortal apartamento dos innocentes principe e princeza, depois de novamente casados, sobre que tanto fundamento de honra e segurança fazia. Porque o mesmo lugar de Santarem, que contra a senhora D. Joanna foi o talho d'esta primeira crueza, se tornou a ser o principio d'esta sua vingança; porque o principe D. João depois de ser rei á vista da mesma excellente senhora, viu a subita e desastrosa morte do principe D. Affonso, seu filho, e a quem á primeira pareceu, que, sendo vivo, os reinos de Portugal sem os de Castella não bastariam, elle o viu logo morto, e de uma pouca de terra para sempre sujeito e contente, e a triste e innocente princeza sua mulher antes de bem casada se viu logo ser viuva, privada do verdadeiro titulo que tinha, e trocados os brocados ricos e hollandas delgadas que trazia, com pobre burel e{96}grossa estopa em que foi logo vestida, nem ficaram por cortar seus cabellos dourados com accidental proposito de religião, sendo apartada das pessoas mais de sua conversação e servida por servidores alheios, comendo no chão e em vasos de barro, privada em todo de todo estado, entrando n'estes reinos esposada, coberta d'ouro e de preciosa pedraria, em cima de ricas facas e trotões á vista de todos. Mas vós lagrimas que na lembrança d'esta dôr aqui apontaes soffrei-vos um pouco, cá pera outro mais proprio lugar estais reservadas. Nem a culpa do solemne mas simulado e cauteloso juramento, que el-rei e a rainha de Castella fizeram sobre o casamento d'esta senhora com o principe seu filho, não ficou sem triste pena e mortal perda e sentimento seu, porque Deus em cujo desprezo pareceu que se fez, não padece engano por castigo, do qual vimos que tambem elles viram a não madura morte do principe innocente moço seu filho, vivendo pouco mais tempo d'aquelle, em que com esta senhora prometteram e juraram de casar; porque elle já então era casado com madama Margarida, filha do rei dos romanos, e a tinha já em seu poder, sem de nenhum d'estes principes de que os reis de Castella e de Portugal tanta esperança e fundamento faziam, ficar algum legitimo herdeiro descendente que os succedesse e herdasse, e foram seus herdeiros os transversaes mais chegados».

Depois da profissão daExcellente Senhora—tratamento dado a D. Joanna tanto que vestiu o{97}habito de clarista—D. Affonso V quiz abdicar e recolher para sempre ao mosteiro do Varatojo por elle fundado; mas a morte antecipou-se a frustar-lhe esse ultimo designio. A 28 de agosto de 1481 exhalou o derradeiro alento na mesma sala do paço de Cintra, onde se ouvira o seu primeiro vagido.

A Excellente Senhora sobreviveu-lhe muitos annos, cumprindo resignada a sentença fatal do seu destino, que foi servir sempre de joguete nas mãos de ambiciosos, e de temeroza arma politica a seu primo D. João II.

Em 1482 interessou-se Luiz XI pelo casamento da desditosa princesa com Francisco Phebo, rei de Navarra. Mais tarde Fernando V, apenas enviuvou, rojou-se a seus pés, e solicitou-lhe a mão de esposa, como em outro lugar deixámos referido. Não podendo, porém, ella olvidar, nem um momento, que era a legitima successora da coroa de Castella, recusou com nobre altivez as propostas d'este seu algoz e diffamador de sua mãe, preferindo conservar-se solteira, até que deixou de existir em 1530, com sessenta annos de edade.

Foi sepultada na egreja de Santa Clara, de Lisboa, e tão esquecida a quizeram, que nem um epitaphio lavraram sobre a lousa que a cobriu. E, como o terremoto de 1755 arrasou essa egreja e o convento annexo, lá desappareceram misturadas com os destroços dos dois edificios as cinzas da pobre princeza.

Malfadada condição a sua!{98}

Não logrou D. Affonso V ser o unificador da grande nação hespanhola, e ao filho de D. João II foi tambem vedado herdar as duas corôas da peninsula, para realizar, conforme as aspirações de seu páe, a reconstituição da velha monarchia wisigothica, terminada no primeiro quartel do seculoVIIIpela batalha de Guadalete.

Por lei, e pela propria dignidade da monarchia, o throno de Castella era patrimonio da filha de Henrique IV; e, se fossem justos os pretextos, de que se serviram, para lh'o arrebatarem das mãos, a segurança e a estabilidade de todas as dynastias podiam considerar-se problematicas.

O que mórmente achanou o caminho do throno a Isabel, foram as leviandades e torpezas de um rei inepto e devasso; mas nada póde lavar a macula de rebelde, com que ella conspurcou o seu nome para sempre.

Foi uma ruim causa que produziu bom effeito. O consorcio de Fernando de Aragão com Isabel preparou o successo transcendente da unidade hespanhola, realisada mais tarde por Carlos V, e os reis catholicos elevaram a Hespanha ao mais alto grau de prosperidade.

Acabaram-se as turbulencias dos magnates, e restabeleceu-se emfim o poder da realeza.{99}

Por morte de D. Affonso V todos os creádos da sua casa tomou D. João II para si com muito amor e agasalho, conforme testemunha Garcia de Rezende. Pero da Covilhan pertencia áquelle pessoal, e, como pelos serviços prestados em Castella e França havia conquistado a estima do novo monarcha, para logo ascendeu esta á quasi intimidade de valido.

Convem notar, que D. João II ao seu serviço preferia ter cavalleiros particulares a grandes e senhores; ou fosse por manifesta má vontade contra estes, ou porque, fazendo creaturas suas os que possuissem iguaes qualidades e menos poder, esperava que o servissem com maior fidelidade e menos ambição, por carecerem mais do seu rei, e serem mais faceis de contentar. Sobretudo tinha na melhor conta os seus companheiros de armas{100}em Toro, aos quaes louvava por vezes a dedicação e valor, cujo testemunho lhe deram, e por isso a todos elevou e distinguiu sempre, entrando a maxima parte d'elles em o numero dos quatro milvassallos d'el-rei, que creou, como lhe requereram as côrtes reunidas em Evora a 12 de setembro de 1481.

Pero da Covilhan vivia, pois, na côrte de D. João II e fazia parte da sua guarda.

Nem antes, nem depois, ainda houve outra côrte mais brilhante em Portugal. O rei, para descançar das fadigas da administração, mostrava grande prazer de achar-se rodeado decortezãos dotados de boas prendas, e com elles folgava, estimulando-os a exhibi-las na presença das formosuras insignes, que compunham o apparatoso e galante sequito da rainha D. Leonor.

Assistia jubiloso aos saráus do paço, nos quaes até ás vezes, depois de vêr dançar com primor aretorta mouriscapelas damas trajando ao uso arabe, deixava-se adormecer no regaço de alguma d'ellas. Era o primeiro emfim a lembrar os desafios poeticos, ascôrtes de amôr, ojogo dos naipes, e tantas outras diversões proprias de uma sociedade elegante, de cujas aventuras amorosas se não fazia mysterio.

Maria Thereza era uma das mais gentis entre as donzellas, que a rainha educava para suas damas, e que podemos denominar os botões de rosa do realjardim de formosura, como depois Gil Vicente{101}chamou ao estrado das damas de D. Leonor.

Bella e muito viva, mais de um dos seus admiradores a requestava em verso. Ella, porém, sempre desdenhosa, sorria d'esses requebros, torturando assim os apaixonados moços. Alguns alcunhavam-n'a de desvanecida, outros de suberba, despeitados todos por se verem repellidos. Não logravam comprehender muitos d'elles, herdeiros de boas casas, que uma menina pobre se mostrasse tão esquiva, tão reservada, quasi fria, n'aquelle meio tão aquecido pelo calor da mocidade; em aquelle bulicio, que a intimidade no trato, e o desprendimento na linguagem tornavam tão jovial e affectuoso, como fielmente no'-lo reprezenta oCancioneiro Geral, de Garcia de Rezende.

Um dia Pero da Covilhan, ao passar por ella, disse-lhe quasi a medo:

—Amo-vos!...

Maria Thereza córou, e tamanha perturbação sentiu, que não poude articular uma palavra.

Pero da Covilhan desappareceu, e ella, recobrando a serenidade, disse comsigo mesma:

—Deve-me ter talvez achado bem ridicula!... Não só ridicula; mas traduziria o meu enleio por baixeza d'alma, pensando que não agradeci a sua galanteria por elle não ser fidalgo, e eu filha e neta de fidalgos!...

Esta idéa foi um desespero para Maria Thereza, que não encontrava desculpa alguma para o{102}seu silencio. Até pelo seu espirito passou o receio de que Pero da Covilhan a desprezaria, pois estava convicta de que fôra desprimorosa para com elle, e de que uma palavra polida é sempre facil de responder.

Quando pouco depois avistou Pero da Covilhan, não poude fallar-lhe; mas retribuiu com um sorriso da mais ineffavel candura a gentileza, com que elle a cortejou. A divina semente, que germinava occulta em seu coração, cresceu de subito e floriu. Do encontro de duas almas, que se attráem, é que salta a faisca sagrada.

Durante algum tempo, não houve entre ambos correspondencia, que não fosse a dos seus olhares que se cruzavam; mas bastava essa para se comprehenderem. Os olhos são o espelho da alma, e descobrem, sem o sentirmos, todos os segredos, que lá guardamos.

Foi Pero da Covilhan mandado chamar pela rainha. Maria Thereza, mal soube a novidade, esperou-o á entrada dos aposentos de sua ama, e quando elle surgiu, disse-lhe:

—Aguardava-vos, para dissipar qualquer temor que porventura tivesseis... Como não é costume, havia de surprehender-vos a ordem da rainha, minha Senhora?...

—Certamente!... E graças pelo vosso cuidado em me prevenir, pois me tinha occorrido, que sua alteza desconfiasse, que vos cortejo, e não o levasse a bem...—respondeu Pero da Covilhan,{103}ainda mal refeito do sobresalto, que lhe causou a inesperada apparição de Maria Thereza, que para o tranquillizar lhe affirmou:

—Sua alteza nada sabe ainda. Como, porém, não tenho segredos para minha real ama...

—Oh! nada lhe confesseis por emquanto!... interrompeu Pero da Covilhan supplicando.

—Porquê?!...—perguntou Thereza meio admirada.

—Porque não vos mereço ainda...

—Por sermos muito môços; quereis talvez dizer?...

—Thereza!... Amo-vos cada vez mais! E por isso mesmo vos peço que espereis...

—Esperarei.

—Quando eu tiver uma posição digna de vós e do vosso nome illustre, virei offerecer-vo'-la, e esse será o primeiro passo para a minha felicidade... Antes, não!... Sou um simples escudeiro, bem vêdes!...

—Não vos amergeis tanto!... «Só os escudeiros sustentam o reino»: dizia D. João I... O que foi Nun'Alvares, antes de condestavel?... D'onde provêem os melhores titulos de Portugal e Castella?... De escudeiros se fizeram as casas de Benavente, de Vilhena, de Albuquerque, de Medina Sidonia, e tantas outras...

—Assim é; mas...

—Mas vós sois hoje um escudeiro, e ámanhã podereis ser um fidalgo... Não tendes a nobreza{104}por herança e patrimonio? Haveis de merece-la e ganha-la!... É crença minha.

—Na firmeza da vossa linguagem manifestais bem os quilates do vosso peregrino espirito... Edificativa exhortação a vossa!...

—Pois não será verdade o que vos digo?... Aquelles a quem a gloria dos avós envaida, sem procurarem imitar-lhes as virtudes, esquecem-se, de que não é nas raizes, mas nos ramos, que teem as arvores o seu fructo... Ora dizei-me!... Quantos fidalgos deixaram a vida em Toro?... Dos escudeiros sabemos todos, que muitos lá ficaram...

—Morreram no seu posto...

—Com honra, bem o sei. Ou não foram elles portuguezes!... Mas costume foi sempre lançar os escudeiros deante, para serem no perigo o escudo dos nobres... Que vejam estes agora como el-rei trata os escudeiros, que sobreviveram!... A vós não perde sua alteza o ensejo de honrar... Não vo'-lo provou já, enviando-vos a Castella em seu real serviço? E á Barberia, a fazer pazes com o rei de Tremecem?...

—Mercês d'el-rei, meu senhor, que m'as não deve, porque lh'as não mereço... Em Toro foram todos valentes, fidalgos e escudeiros, que ao lado de sua alteza ninguem póde ser fraco!... Praz-me porém, vêr-vos discorrer d'ess'arte!... Nobre alma de portugueza a vossa!... Como eu me sinto orgulhoso de vos amar!...

—E eu de ser por vós amada!...{105}

—Abençoado amor o vosso!... Por elle sinto-me capaz de tudo quanto ha de elevado e grande!... Nem perseverança e fé me faltarão jámais!...

—Nem as minhas orações, Pero... Assim ellas sejam ouvidas!...

—Porque não?... O céo está sempre aberto ás supplicas dos anjos. Vós sois já o da minha guarda, e o do nosso lar sereis um dia!...

—Sim. A Santissima Virgem, que é auxilio dos christãos, permitta que eu saiba corresponder ás vossas esperanças!

—Hade amparar-nos o seu patrocinio, crêde! Eu tambem sou devóto da Mãe de Deus, Thereza!...

—Confiemos n'Ella... Mas... alguem chega! Recado vos trazem da rainha, minha Senhora. Adeus.

Maria Thereza retirou-se; e Pero da Covilhan seguindo-a com os olhos, apenas soltou esta palavra, que ella já não poude ouvir:

—Encantadora!...

E era realmente um encanto a gentilissima Thereza. O seu coração virgineo abriu-se ao primeiro affecto, como o calice da flor aos primeiros raios do sol em alegre manhã de primavera. A sua alma desabrochando, exhalava seu ingenito perfume angelico, e em uma aspiração, que tinha alguma cousa de infinito, invocava não sabia bem o quê, para ella ainda desconhecido. Não ignorava, que{106}geralmente o interesse era o verdadeiro móbil dos casamentos na côrte. Muitos dos servidores das damas, senão todos, podiam ter a alma erma de virtudes, o coração vasio de affeições, que, se os recommendasse o prestigio das suas riquezas, ou a fascinação do seu nome, nenhuma d'ellas repudiava os seus galanteios. Maria Thereza, porém, aspirava á posse de uma alma, como a sua, que lhe offerecesse o thezouro da pureza, de um coração, como o seu, que conservasse o thezouro do affecto; porque sem estes dois thezouros nada lhe bastaria, e o nome, ainda o mais egregio, a fortuna ainda a mais colossal, não poderiam dissimular a sua privação irreparavel.

A rainha D. Leonor, que tinha por ella particular predilecção, como para o deante veremos, era a mais desvelada e carinhosa das mães nos cuidados com a sua educação. Nutrindo-a de solidos pensamentos pela cultura sã e moral do seu espirito, não lhe fazia ao mesmo tempo perder a frescura da imaginação, nem lhe roubava a graça e a poesia, com que Deus a dotára. Dando á imaginação o que justamente lhe pertencia, purificando-a e dirigindo-a, creava-lhe tambem e primeiro que tudo, uma consciencia forte; formava-lhe uma vontade energica e recta, um coração que soubesse querer o bem, uma razão e intelligencia, que lhe deixassem trilhar sempre, com resolução e firmeza, o caminho do dever e da honra.

Que mãe de familia com taes dotes!{107}

Em preciosos codices da bibliotheca real alimentava Maria Thereza a sua paixão pelas lettras, sendo a sua leitura dirigida pela rainha, como quem prescreve o regimen de uma alimentação salutar e sobria. Ao mesmo passo encarecia D. Leonor á sua pupilla a intimidade do lar domestico, dizendo-lhe, que sem ella não pode haver vida de familia, como sem templo não existe religião, que se avigóre.

Maria Thereza sabia assim, que no lar domestico nutrem e conservam sua pureza e sua energia os nossos costumes, e que elle é para todos nós como que uma patria mais estreita e mais estremecida, e tambem o lugar consagrado pelas alegrias e pelos pezáres communs da familia.

Ao pensar, pois, na sua união com Pero da Covilhan, Maria Thereza promettia a si propria, que seria sempre ao lado d'elle corajosa e risonha, velando tudo, tomando o maior quinhão nos dissabores do trabalhador indefesso, applaudindo os seus esforços, aconselhando-o, inspirando-o, confortando-o emfim com o seu olhar e o seu sorriso. E por isso mesmo, embóra Pero da Covilhan soffresse as mais duras inclemencias, as mais longas provações, antes de conquistar uma reputação honrada e merecida, a despeito de criticas amargas e injustas, o amor d'elle ao trabalho e ao lar domestico haviam de faze-lo triumphar de todas as vicissitudes. Maria Thereza contava com esse triumpho e deliciava-se ao imagina-lo.{108}

Que desassocego febril, em que andava o seu coração de dezeseis annos, desde que o surprehenderam no seu pulsar innocente e descuidado os primeiros estremecimentos do amor! Mas este delicado e casto sentimento deixou de ser uma paixão que poderia corrompe-lo, para tornar-se uma virtude, que havia de eleva-lo.

O mais vehemente desejo de Maria Thereza, era, que Pero da Covilhan se nobilitasse, crescesse em honras, conquistasse para o seu nome uma aureola brilhantissima. Em Pero da Covilhan para merecer, e em D. João II para premiar, tinha ella toda a confiança; por isso não a intimidavam as habituaes murmurações e desdens dos cortezãos. Estes em geral, occupados de inveja dos feitos alheios, trabalhavam por empece-los e aniquila-los. Prezando-se unicamente de perfumados, e de porfiar trovando nos serões do paço, nada mais faziam do que folgazar dia e noite, emmaranhados em intrigas de amores interesseiros e faceis.

Um interesse tambem tinha o amor de Maria Thereza; mas unico: a gloria de Pero da Covilhan.

Desinteressado amor!

A candida donzella via no seu bello ideal de ventura o môço escudeiro a burilar no escudo um brazão floreteado, ganho em serviço da religião e da patria, e a si propria aprezentando com justa ufania a sua real ama, e segunda mãe, o cavalleiro ennobrecido, a quem promettera a sua mão. Exultava{109}por isso de contentamento intimo, quando o rei o escolhia para desempenhar qualquer missão que por espinhosa e arriscada o distinguisse mais ainda. É que o seu amor tinha a singularidade maravilhosa de illuminar-lhe o entendimento, conservando-lhe sempre inflammado o coração.

Quando Pero da Covilhan ia a sair, já despedido pela rainha, poude dizer a Maria Thereza:

—De novo passo á Barberia.

—Deus vos guie!—respondeu Thereza, tão meiga, como alegre.—Comvosco vae tambem o meu coração, que é vosso.

Nem uma palavra, nem a mais fugitiva expressão da physionomia de Maria Thereza, podiam revelar a Pero da Covilhan qualquer sombra de tristeza pelo apartamento; e comtudo bem natural é, que fossem como realmente eram, sempre que se separavam, docemente feridos ambos pelo espinho da saudade. As despedidas em vez de os desfallecerem, animavam-os.

D. João II no seu ardente amor de gloria, ao passo que se tornava insaciavel e insoffrivel em transpôr os humbraes da India, não afastava seus olhos d'aquella banda da Africa, tanto ao pé da porta, e da qual tivera por doação real a governança, quando principe ainda. Para ser miudamente informado ácerca do que se passava n'esses lugares, enviou lá Pero da Covilhan, recommendando-lhe em particular, tratasse a miude com Molley-Belfagege, que em 1472 havia mandado a{110}ossada de D. Fernando, o mallogrado infante, que fallecera em Fez. A razão ostensiva da viagem era, porém, a compra de cavallos do melhor sangue para o duque de Beja, a quem o rei ia dar casa. Destinados á mesma adquiriria tambem Pero da Covilhan alguns lambeis, que D. Leonor encommendara com particular interesse, consoante á carinhosa rainha merecia, quanto tocava a D. Manuel seu dilecto irmão, mais tarde rei.

Embarcou Pero da Covilhan para o seu destino.

Depois da necessaria demóra, regressou a Portugal, onde o esperava já outro encargo; este, porém, mais arduo, e de mais vasto alcance para a realisação do plano politico de D. João II.

Estava a côrte em Santarem, quando chegou e deu conta a seus reaes amos dos mandados, que cumprira, conforme as instrucções que levava.

—Bem o fizestes—disse-lhe o rei—; e agora—muito secretamente—espéro de vós grande serviço, que sempre vos tenho achado bom e leal servidor, mui ditoso em vossos feitos... Não vos impede a falta de saude, ou o cansaço da viagem, de sair já de nossos reinos?

—Préstes estou, meu Senhor e rei—respondeu Pero da Covilhan.—Peza-me, porém, não ser a minha sufficiencia igual ao desejo, que tenho de servir voss'alteza...

—Embóra, ireis, que Deus vos guardará.—A descobrir e saber do Preste João, e onde se acham{111}a canella e as outras especiarias, que das terras do Oriente vão a Veneza, hei já mandado um homem da casa de Monte-Rio e um frade de Lisboa. Chegados que foram a Jerusalem, d'aqui fizeram volta, dizendo, que ninguem por aquellas partes podia entender-se sem saber o arabe. De vós me lembrei, que bem o fallais. Maior incumbencia todavia levareis, do que elles, pois tambem do vosso valor e discernimento muito mais confio...

—Mercê a voss'alteza, meu Senhor...

—O que de vós pretendo é, que vos certifiqueis, se do meu senhorio da Guiné podemos communicar por terra com o reino do Preste João, e se tambem por lá, se a costa vae seguindo, levariamos á India a nossa frota.

—Com léda vontade, Senhor, acceito o encarrego, que é mais uma mercê, por que beijo a mão de voss'alteza.

—Ámanhã sereis despachado, e levareis comvosco Affonso de Paiva, que vos dou para auxiliar-vos.

Pero da Covilhan poude pouco depois avistar-se com Maria Thereza, que já sabia da sua vinda, e communicar-lhe com enthusiasmo, que el-rei o mandava partir para longe, proporcionando-lhe azo de prestar á religião e á patria bons serviços. Não lhe revelou o segredo da sua mysteriosa viagem, mas não resistiu a dizer-lhe com o mais vivo arrebatamento de amor:{112}

—Agora, mais do que nunca, espéro ser vosso, Thereza!...

—A Virgem vos ouça!—exclamou Maria Thereza igualmentente enlevada e radiante.—A longes terras ides?... Deus vos acompanhará... e eu ficar-vos-hei esperando... de outro jámais serei!...

E apartaram-se, como dois crentes, cujo animo varonil o fervor da fé revigóra.

Nem um uma lagrima derramaram!

As lagrimas nem sempre são a medida do amor. Este muitas vezes mais se prova, com as que se deixam de chorar.

Se Pero da Covilhan partisse, para nunca mais ver Thereza, seria essa a dor maior dos olhos de ambos, e a que lh'os desfaria em lagrimas. Elle, porém, ia para voltar e trazer o seu nome laureado a Thereza; esta ficava-o esperando, para o festejar jubilosamente. Por isso as lagrimas, que deixavam ambos de chorar, se haviam seccado nas fontes do amor fino, com que mutuamente se queriam.

No dia seguinte, que era o setimo de maio de 1487, D. João II, tendo a seu lado D. Manoel duque de Beja, entregou a Pero da Covilhan, que se apresentou já com Affonso de Paiva, uma carta de marear, feita em casa de Pedro d'Alcaçova, pelo licenciado D. Diogo Ortiz, oCalçadilha, depois bispo, e pelos physicos hebreos, mestre Rodrigo e mestre Moysés, os quaes tomavam com o primeiro{113}parte najunta dos cosmographos. N'essa carta devia Pero da Covilhan, marcar os lugares do senhorio do Preste, bem como todos os mais, por onde passasse.

Para os primeiros gastos da viagem mandou-lhe D. João II dar da arca das despesas da horta de Almeirim quatrocentos cruzados, parte dos quaes Pero da Covilhan depositou na casa bancaria de Bartholomeu Florentino, a fim de receber em Hespanha o que lhe conviesse, levando além d'isso uma carta de credito, dirigida pelo monarcha á opulenta casa Medicis, para que nada lhe faltasse nos paizes, que tivesse de percorrer. Foi emfim portador de cartas em arabico para o Préste, nas quaes D. João II significava a este o grande desejo de o conhecer, e travar com elle relações de amisade, dando-lhe ao mesmo tempo conta de tudo o que pela costa da Guiné havia descoberto para saber, se alguma d'aquellas terras era perto de seu reino e senhorios, a fim de por ellas se poderem communicar e prestar, bem como fazer, com que a Fé Christã fosse exalçada.

E no mesmo dia partiram os dois exploradores em direcção a Barcelona.{114}{115}


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